24 de junho de 2017

Capítulo 37 - Conclave de reis

Ao aterrar no acampamento com Saphira, Eragon deslizou pelo
flanco e correu para a extensão de relva onde ela tinha pousado
delicadamente Arya.
O elfo estava inerte e imóvel, de rosto virado para baixo.
Quando Eragon virou Arya, os seus olhos estremeceram e abriramse.
— Thorn... o que é feito de Thorn? — sussurrou ela.
Fugiu, disse Saphira.
— E... Nasuada? Conseguiste resgatá-la?
Eragon baixou os olhos e abanou a cabeça.
A mágoa perpassou o rosto de Arya. Ela tossiu e retraiu-se,
tentando depois sentar-se. Tinha um fio de sangue a escorrer-lhe
pelo canto da boca.
— Espera — disse Eragon. — Não te mexas. Vou buscar
Blödhgarm.
— Não é necessário. — E agarrando-se ao ombro dele, Arya
levantou-se, endireitando-se cautelosamente. Ao esticar os
músculos, conteve a respiração e Eragon apercebeu-se da dor que
ela tentava esconder.
— Estou apenas contundida, não tenho nada partido. As minhas
defesas protegeram-me do pior golpe de Thorn.
Eragon tinha as suas dúvidas, mas aceitou a afirmação.
E agora?, perguntou Saphira, aproximando-se deles. As narinas
de Eragon estavam impregnadas do odor intenso e almiscarado do
seu sangue.
Eragon olhou em redor, contemplando as chamas e a destruição
no acampamento, e voltou a pensar em Roran e Katrina,
interrogando-se se teriam sobrevivido ao ataque.
Pois é, e agora?
As circunstâncias responderam à sua pergunta. Dois soldados
feridos saíram de um banco de fumaça, atacando-o a ele e a Arya. E,
quando Eragon os eliminou, oito elfos tinham já acorrido ao local
onde estavam.
Depois de Eragon os convencer que estava incólume, os elfos
concentraram a sua atenção em Saphira e insistiram em curar-lhe as
dentadas e os arranhões que Thorn lhe tinha infligido, embora
Eragon preferisse ter sido ele a fazê-lo.
Sabendo que a cura levaria alguns minutos, Eragon deixou
Saphira com os elfos. Voltou a percorrer apressadamente as filas
de tendas, regressando à área perto do pavilhão de Nasuada, onde
Blödhgarm e os dois outros elfos feiticeiros estavam ainda em
combate mental com os quatros feiticeiros inimigos.
O único feiticeiro que restava estava ajoelhado no chão, com a
testa encostada aos joelhos e os braços à volta da nuca. Em vez de
reunir a sua mente à contenda invisível, Eragon aproximou-se do
feiticeiro, bateu-lhe ao de leve no ombro e gritou:
— Ah!
O feiticeiro estremeceu, sobressaltado, e a distração permitiu
que os elfos penetrassem nas suas defesas. Eragon apercebeu-se
disso porque o homem teve uma convulsão e rebolou para o chão,
de olhos revirados, com uma espuma amarela a borbulhar-lhe na
boca. Pouco depois, parou de respirar.
Eragon explicou abreviadamente a Blödhgarm e aos dois outros
elfos o que tinha acontecido a Arya e a Nasuada. O pelo de
Blödhgarm eriçou-se e os seus olhos amarelos faiscaram de raiva,
mas o seu único comentário foi na língua antiga:
— Esperam-nos dias sombrios, Matador de Espectros. —
Depois mandou Yaela buscar Darthdaert ao local onde a lança
caíra.
Juntos, Eragon, Blödhgarm e Uthinarë, o elfo que ficara com
eles, percorreram o acampamento, cercando e matando os poucos
soldados que tinham escapado aos dentes dos meninos-gatos e às
espadas dos homens, Anões, Elfos e Urgals. Usaram também a sua
magia para extinguir alguns dos maiores incêndios, apagando-os tão
facilmente quanto a chama de uma vela.
Durante esse tempo, Eragon sentiu-se tolhido por uma
avassaladora sensação de pavor, que parecia esmagá-lo como uma
pilha de velos ensopados, oprimindo-lhe a mente, a ponto de ele ter
dificuldade em pensar noutra coisa senão na morte, na derrota e no
fracasso. Era como se o mundo se estivesse a desmoronar em seu
redor — como se tudo aquilo porque ele e os Varden tinham lutado
se estivesse a desfazer rapidamente e não pudesse fazer nada para
recuperar o controlo. A sensação de desespero minava-lhe a
vontade a ponto de desejar apenas sentar-se a um canto e
entregar-se à sua infelicidade. Ainda assim, recusou-se a alimentar
esse impulso, pois sabia que se o fizesse, mais valeria morrer. Por
isso continuou a mexer-se, trabalhando ombro a ombro com os
Elfos, apesar do desespero.
O seu estado de espírito não melhorou quando Glaedr o
contatou:
Se me tivesses dado ouvidos, poderíamos ter detido Thorn e
salvado Nasuada.
Ou não, reagiu Eragon. Não queria falar mais no assunto, de
qualquer modo sentiu-se compelido a acrescentar: você deixas que a
raiva te ensombre a razão. Matar Thorn não era a única solução,
nem você devias estar tão ansioso por destruir um dos poucos
membros que restam da tua raça.
Nem penses em dar-me sermões, jovem!, disse Glaedr,
bruscamente. você não consegues sequer entender o que eu perdi.
Entendo melhor do que a maioria, retorquiu Eragon, mas Glaedr
já se tinha retirado da sua mente e não parecia tê-lo ouvido.
Eragon tinha acabado de apagar um fogo e estava a encaminharse
para o seguinte, quando Roran se aproximou apressadamente
dele, agarrando-o pelo braço.
— Você está ferido?
Eragon sentiu um enorme alívio ao ver o primo são e salvo.
— Não — disse ele.
— E Saphira?
— Os Elfos já trataram dos seus ferimentos. E a Katrina está
bem?
Roran acenou afirmativamente e descontraiu-se um pouco, mas
mantinha uma expressão apreensiva.
— O que aconteceu, Eragon? — disse ele, aproximando-se um
pouco mais. — O que está a acontecer? Vi Jörmundur a correr de
um lado para o outro como uma galinha sem cabeça. Os guardas
de Nasuada parecem terrivelmente deprimidos e não consigo que
ninguém fale comigo. Ainda estamos em perigo? Galbatorix está
prestes a atacar-nos?
Eragon olhou em redor, puxando depois Roran para o lado,
onde ninguém os pudesse ouvir.
— Não podes contar a ninguém. Pelo menos por enquanto —
advertiu ele.
— Prometo não contar.
Eragon resumiu-lhe rapidamente a situação, em meia dúzia de
palavras e, quando terminou, Roran estava com uma expressão
sombria.
— Não podemos permitir que os Varden se desmembrem — disse
ele.
— Claro que não. Isso não vai acontecer, mas o rei Orrin pode
tentar assumir o comando, ou... — Eragon silenciou, ao ver um
grupo de guerreiros passar perto dele, e depois acrescentou: — Fica
comigo, está bem? Talvez precise da tua ajuda.
— Da minha ajuda? Porque irias precisar da minha ajuda?
— Todo o exército te admira, Roran, mesmo os Urgals. você és o
Martelo Forte, o herói de Aroughs, e a tua opinião tem peso.
Isso poderá ser importante.
Roran ficou em silêncio por uns instantes e depois acenou com a
cabeça.
— Farei o que puder.
— Por agora, fica de olho nos soldados — pediu Eragon,
retomando o seu destino inicial, em direção ao fogo.
Meia hora mais tarde, quando o silêncio e a ordem regressaram
de novo ao acampamento, um mensageiro informou Eragon que
Arya exigia a sua presença imediata no pavilhão do rei Orik.
Eragon e Roran olharam um para o outro e encaminharam-se
para o quadrante norte do acampamento, onde a maior parte dos
Anões tinha montado as suas tendas.
— Não temos outra alternativa — disse Jörmundur. — Nasuada
deixou os seus desejos bem claros. Tu, Eragon, terás de assumir o
seu lugar e comandar os Varden por ela.
A expressão nos rostos que circundavam o interior da tenda era
severa e inabalável. Sombras escuras obscureciam as têmporas e
vincos profundos marcavam os rostos carregados do grupo de
duas-pernas — como Saphira lhes chamaria. A única que não estava
de sobrancelha franzido era Saphira, que enfiara a cabeça através da
entrada do pavilhão para poder participar no conclave; mas tinha
os lábios ligeiramente repuxados, como se estivesse prestes a
rosnar.
Entre os presentes também estava o rei Orrin, com um manto
púrpura sobre a camisa de dormir; Arya, com um ar abalado mas
determinado; o rei Orik, que desencantara uma túnica de cota de
malha para se cobrir; Grimrr Meia-pata, o rei dos meninos-gatos,
com uma ligadura de linho, branca, enrolada à volta de um golpe no
ombro direito; Nar Garzhvog, o Kull, de cócoras para não roçar
com os chifres no teto; e Roran, a assistir aos trabalhos junto da
parede da tenda, sem tecer qualquer comentário.
Mais ninguém tinha sido autorizado a entrar no pavilhão, fossem
guardas, conselheiros ou criados. Nem mesmo Blödhgarm e os
outros elfos. Lá fora, diante da entrada, havia uma formação em
bloco de homens, Anões e Urgals, com doze soldados à largura,
cujo objetivo era impedir que alguém perturbasse a reunião, por
muito perigoso ou poderoso que fosse. Além disso, a tenda estava
salpicada de feitiços, lançados à pressa, para impedir espionagem
mundana ou mágica.
— Eu nunca desejei isto — disse Eragon, baixando os olhos para o
mapa de Alagaësia, aberto sobre a mesa, no meio do pavilhão.
— Nenhum de nós — disse o rei Orrin num tom acutilante.
Eragon achava que Arya fora sensata em organizar a reunião no
pavilhão de Orik, pois o rei dos Anões era tido como um leal
apoiante de Nasuada e dos Varden — para além de ser seu chefe
de clã e irmão adotivo —, e ninguém o poderia acusar de aspirar à
posição de Nasuada, tão-pouco os humanos o aceitariam como
seu substituto.
Ao organizar a reunião no pavilhão de Orik, Arya reforçara a
causa de Eragon e desencorajara os seus críticos, sem parecer
estar a apoiar ou a atacar qualquer uma das partes. Eragon tinha de
reconhecer que ela era muito mais talentosa do que ele a manipular
os outros. O único risco que corria ao fazê-lo era poder levar os
outros a pensar que o chefe era Orik, mas Eragon estava disposto
a correr esse risco, se isso lhe valesse o apoio dos seus amigos.
— Eu nunca desejei isto — repetiu ele, levantando a cabeça para
encarar os olhares atentos em seu redor —, mas agora que
aconteceu, juro sobre o túmulo de todos os que perdemos que farei
o meu melhor para seguir o exemplo de Nasuada e conduzir os
Varden à vitória contra Galbatorix e o Império. — Fez os possíveis
para transmitir um ar confiante, mas a verdade é que a enormidade
da situação assustava-o e ele não fazia ideia se estaria à altura
dessa missão. Nasuada revelara-se impressionantemente capaz e
era intimidante pensar em fazer metade do que ela tinha
conseguido.
— Isso é certamente muito louvável — disse o rei Orrin —, contudo
os Varden sempre funcionaram de comum acordo com os seus
aliados — os homens de Surda; o nosso régio amigo Orik e os
Anões das Montanhas Beor; os Elfos e, mais recentemente, os
Urgals, comandados por Nar Garzhvog, e os meninos-gatos. —
Acenou na direção de Grimrr, que curvou brevemente a cabeça em
resposta. — Não seria bom para o exército ver-nos publicamente
em desacordo uns com os outros, não vos parece?
— Claro que não.
— Claro que não — disse o rei Orrin — Presumo então que
continuarão a consultar-nos sobre assuntos importantes, tal como
Nasuada fazia. — Eragon hesitou, mas antes que pudesse
responder, Orrin prosseguiu. — Todos nós — e fez um gesto para
todos os presentes — arriscamos uma enormidade nesta aventura, e
nenhum de nós gostaria de ser objeto de imposições, tão-pouco
nos submeteríamos a elas. Para ser franco e, apesar das tuas
inúmeras proezas, Eragon Matador de Espectros, és ainda muito
jovem e inexperiente e é bem possível que essa inexperiência venha
a revelar-se fatal. Todos nós tivemos o benefício de comandar as
nossas tropas durante muitos anos, ou de ver os outros comandálas.
Nós podemos guiar-te no caminho certo e juntos talvez
consigamos arranjar maneira de endireitar isto e derrotar
Galbatorix.
“Tudo o que Orrin dissera era verdade”, pensou Eragon — ele
era ainda jovem e inexperiente e precisava, de fato, dos conselhos
dos outros — mas se o admitisse iria parecer fraco.
Por isso Eragon decidiu responder:
— Podes ter a certeza de que te consultarei sempre que
necessário, mas as decisões serão minhas, como sempre.
— Perdoa-me, Matador de Espectros, mas tenho alguma
dificuldade em acreditar nisso. A tua familiaridade com os Elfos —
disse Orrin, olhando para Arya — é do conhecimento geral, além
disso és um membro adotado do clã Ingeitum e você está sujeito às
ordens do chefe do clã, que por acaso é o rei Orik. Talvez esteja
enganado, mas parece-me improvável que as decisões sejam tuas.
— Primeiro, aconselhas-me a escutar os nossos aliados e agora
dizes para não o fazer. Será que preferirias que eu te escutasse a ti
e unicamente a ti? — A raiva de Eragon crescia à medida que ele
falava.
— Preferiria que as tuas escolhas fossem feitas para bem do
nosso povo e não de outra raça!
— Foram — rosnou Eragon — e continuarão a ser. Eu devo
lealdade aos Varden e ao clã Ingeitum, sim, mas também a Saphira,
a Nasuada e à minha família. Muito se diz a meu respeito, tal como
a vosso respeito, Majestade, contudo, a minha maior preocupação
é e sempre foi derrotar Galbatorix e o Império. Se aqueles a quem
sou leal entrarem em conflito, é isso que estará em primeiro lugar.
Questionai o meu discernimento, se quiserdes, mas não as minhas
motivações e peço-vos que não insinueis que sou um traidor da
minha raça!
Orrin franziu a sobrancelha. Estava de rosto afogueado e a ponto
de retorquir, quando Orik o interrompeu, batendo ruidosamente
com o martelo de guerra no escudo, interrompendo:
— Chega de disparates! — exclamou Orik, furioso. — Preocupamse
com uma racha no chão quando toda a montanha está prestes a
desmoronar-nos em cima!
O semblante carregado de Orrin acentuou-se, mas este não
adiantou mais nada, pegando no seu de cálice de vinho e voltando a
afundar-se na cadeira, a ferver de raiva e de olhos postos em
Eragon.
Acho que ele te odeia, disse Saphira
Ou isso ou aquilo que eu represento. Seja como for, sou um
obstáculo para ele. Terá de se contentar em observar.
— A questão é simples — disse Orik. — O que vamos fazer agora
que Nasuada desapareceu? — Poisou Volund sobre a mesa,
passando a mão nodosa pela cabeça. — Na minha opinião,
encontramo-nos na mesma situação que esta manhã. Continuamos
a ter apenas uma alternativa, a menos que assumamos a derrota e
apelemos à paz: marchar para Urû’baen, o mais depressa possível.
Não era Nasuada que iria combater Galbatorix. Isso compete-vos
a vós — apontou para Eragon e para Saphira — e aos Elfos.
Nasuada fez-nos chegar até aqui e, embora a sua falta nos dê
grande pesar, não precisamos dela para continuar. O nosso
caminho não permite grandes desvios. Mesmo que ela estivesse
presente, não a imagino a fazer outra coisa. É para Urû’baen que
temos de ir e acabou a conversa.
Grimrr brincava com uma pequena adaga negra, aparentemente
alheado da conversa.
— Concordo — disse Arya. — Não temos alternativa.
Acima deles, Garzhvog baixou a enorme cabeça, projetando
acidentalmente sombras nas paredes do pavilhão.
— O anão tem razão. Os Ugralgra ficarão com os Varden
enquanto Espada de Fogo for o senhor da guerra. Com ele e
Língua de Fogo a comandarem os nossos ataques saldaremos a
dívida de sangue que Galbatorix, esse traidor sem chifres, ainda tem
para connosco.
Eragon remexeu-se, com um ar constrangido.
— Isso é tudo muito bonito — disse o rei Orrin —, mas ainda estou
para saber como vamos derrotar Murtagh e Galbatorix quando
chegarmos a Urû’baen.
— Temos a Dauthdaert — realçou Eragon, sendo que Yaela tinha
recuperado a lança — e com ela poderemos...
O rei Orrin acenou com a mão:
— Sim, sim a Dauthdaert. A Dauthdaert não vos ajudou a deter
Thorn e não me parece que Galbatorix permita que se aproximem
dele ou de Shruikan com ela. Seja como for, nada disso altera o
fato de que não você está à altura daquele traidor cruel. Irra,
Matador de Espectros, nem sequer consegues fazer frente ao teu
próprio irmão e ele é Cavaleiro à menos tempo do que tu!
“Meio-irmão” pensou Eragon, mas silenciou. Não via forma de
refutar os argumentos de Orrin, pois todos eram válidos, sentindose
envergonhado.
O rei prosseguiu:
— Alinhámos nesta guerra com a ideia de que você arranjarias uma
forma de enfrentar a força sobrenatural de Galbatorix — foi isso que
Nasuada nos prometeu e garantiu. No entanto, aqui estamos nós,
prestes a defrontar o feiticeiro mais poderoso da história, e tão
perto de o derrotar como quando começámos.
— Nós entrámos em guerra — disse Eragon, calmamente —
porque foi a primeira vez que surgiu uma pequena hipótese de
derrotarmos Galbatorix, desde que os Cavaleiros foram
derrotados. você sabes isso.
— Que hipótese? — desdenhou o rei. — Não passamos de
marionetas ao sabor dos caprichos de Galbatorix. Todos nós. Só
conseguimos chegar até aqui porque ele nos deixou. Galbatorix
quer que sigamos para Urû’baen e quer que te levemos connosco.
Se estivesse preocupado em deter-nos, teria voado até às Planícies
Flamejantes e ter-nos-ia esmagado ali mesmo. E será mesmo isso
que vai fazer logo que te tenha ao seu alcance: esmagar-nos!
Parecia haver uma tensão no ar, entre ambos.
Cuidado, disse Saphira a Eragon. Ele abandonará o grupo se
não o convenceres do contrário.
Arya parecia igualmente preocupada.
Eragon colocou as mãos abertas em cima da mesa, tentando
reunir ideias durante alguns momentos. Não queria mentir mas, ao
mesmo tempo, tinha de arranjar maneira de incutir esperança a
Orrin, o que não era fácil visto que nem ele próprio sentia grande
alento. “Seria isto que Nasuada sentia sempre que nos motivava e
nos convencia a prosseguir, mesmo quando nos parecia
impossível?”
— A nossa situação não é tão... precária como a está a encarar
— disse Eragon.
Orrin roncou e bebeu do seu cálice.
— A Dauthdaert é uma ameaça para Galbatorix — prosseguiu ele
—, e isso é vantajoso para nós. Galbatorix está atento a ela e isso
permitir-nos-á forçá-lo a fazer o que quisermos, pelo menos em
parte. Mesmo que não a possamos usar para o matar, talvez
consigamos matar Shruikan. Eles não são uma verdadeira parelha
de dragão e Cavaleiro mas, ainda assim, a morte de Shruikan irá
feri-lo profundamente.
— Isso nunca vai acontecer — retorquiu Orrin. — Ele já sabe que
nós temos a Dauthdaert, pelo que tomará as precauções
necessárias.
— Talvez não. Duvido que Murtagh e Thorn a tivessem
reconhecido.
— Não, mas Galbatorix vai reconhecê-la quando sondar as suas
memórias.
E também vai saber da existência de Glaedr, se é que eles já não
o informaram, disse Saphira a Eragon.
O desalento de Eragon aumentou. Não tinha pensado nisso, mas
Saphira estava certa.
Já não vale a pena alimentar a esperança de o apanhar de
surpresa. Já não temos segredos.
A vida está cheia de segredos. Galbatorix não pode prever
exatamente como o vamos combater. Em relação a isso, pelo
menos, poderemos confundi-lo.
— Qual das lanças da morte descobriste, Anquilador de
Espetros? — perguntou Grimrr, num tom aparentemente entediado.
— Du Niernen, a Orquídea.
O menino-gato piscou os olhos e Eragon teve a impressão de
que ele ficara surpreendido, embora Grimrr me mantivesse
impassível, como sempre.
— Ai sim? A Orquídea? É muito estranho encontrar-se uma arma
dessas nesta era... especialmente essa.
— Porquê?
Grimrr passou a pequena língua cor-de-rosa pelos caninos.
— Niernen é famosíssssima. — E arrastou a palavra, produzindo
um breve silvo.
Antes que Eragon conseguisse arrancar mais informação ao
menino-gato, Garzhvog disse, num tom áspero, como pedras a
roçarem umas nas outras:
— Que lança da morte é essa de que você está a falar, Espada de
Fogo? É a lança que feriu Saphira em Belatona? Ouvimos histórias
acerca dela, mas eram bastante estranhas.
Eragon lembrou-se tarde de mais que Nasuada não informara os
Urgals nem os meninos-gatos do que Niernen era na realidade.
“Paciência. É inevitável”, pensou ele.
Explicou a Garzhvog o que era a Dauthdaert, insistindo depois
para que todos os presentes jurassem na língua antiga não falar
acerca da lança a mais ninguém, sem autorização. Ouviram-se
alguns resmungos, mas todos acabaram por obedecer, mesmo o
menino-gato. Talvez fosse inútil tentar esconder a lança de
Galbatorix, mas Eragon não via qualquer vantagem em permitir que
Dauthdaert se tornasse do conhecimento geral.
Quando o último concluiu o juramento, Eragon continuou a falar:
— Primeiro, temos a Dauthdaert, e isso é mais do que tínhamos
antes. Segundo, não tenciono enfrentar Murtagh e Galbatorix
juntos. Nunca foi essa a minha intenção. Quando chegarmos a
Urû’baen, atrairemos Murtagh para fora da cidade e depois
surpreendê-lo-emos com todo o exército, se necessário — os Elfos
também —, matando-o ou capturando-o de uma vez por todas. —
Olhou em redor para os rostos ali reunidos, tentando impressionálos
com a força da sua convicção. — Terceiro — e isto é algo em que
terão de acreditar do fundo do coração — por muito poderoso que
seja, Galbatorix não é intocável. É possível que tenha lançado
milhares e milhares de feitiços para se proteger, mas apesar de todo
o seu conhecimento e astúcia, há ainda feitiços que o podem matar,
se tivermos a inteligência para os conceber. Serei eu que
descobrirei o feitiço que conduzirá à sua queda, assim como
poderá ser um elfo ou um membro dos Du Vrangr Gata. Galbatorix
parece intocável, eu sei, mas há sempre uma fraqueza — há sempre
uma brecha por onde podemos fazer deslizar uma espada e matar o
inimigo.
— Se os antigos Cavaleiros não conseguiram descobrir a sua
fraqueza, que probabilidades temos de a descobrir? — interpelou o
rei Orrin, enfaticamente.
Eragon abriu as palmas das mãos, virando-as para cima.
— Talvez não consigamos. Nada é certo na vida, muito menos na
guerra. Se os feiticeiros das nossas cinco raças não conseguirem
matá-lo, todos juntos, o melhor será aceitarmos que Galbatorix vai
reinar enquanto lhe aprouver e não há nada que possamos fazer
para mudar isso.
Um silêncio breve e profundo invadiu a tenda.
Depois Roran deu um passo em frente.
— Eu gostava de falar — disse ele.
Eragon viu que todos os que estavam à volta da mesa trocaram
olhares.
— Diz o que quiseres, Martelo Forte — disse Orik, o que
irritou visivelmente o rei Orrin.
— É o seguinte: derramámos demasiado sangue e demasiadas
lágrimas para agora virarmos costas. Seria uma falta de respeito
tanto para com os mortos como para os que os recordam. Talvez
isto seja um combate entre deuses — parecia estar a falar a sério —,
mas eu continuarei a lutar até que os deuses me abatam, ou eu os
abata a eles. Um dragão pode matar dez mil lobos, uns a seguir aos
outros, mas dez mil lobos podem matar um dragão.
Pouco provável, disse Saphira com um ronco na privacidade do
espaço mental que partilhava com Eragon.
Roran sorriu sem grande humor.
— E nós temos um dragão. Façam o que entenderem, mas eu
pelo menos, irei a Urû’baen enfrentar Galbatorix, nem que tenha de
o fazer sozinho.
— Sozinho, não — interveio Arya. — Sei que falo em nome da
rainha Islanzadí ao dizer que o nosso povo estará a teu lado.
— Tal como o nosso — resmungou Garzhvog.
— E o nosso — declarou Orik.
— E o nosso — acrescentou Eragon, esperando desencorajar
divergências com o seu tom de voz.
Depois de uma breve pausa, viraram-se os quatro para Grimrr.
O menino-gato fungou e disse:
— Bom, suponho que nós também lá estaremos. — E examinou as
unhas aguçadas. — Alguém terá de se infiltrar nas linhas do inimigo e
não serão certamente os Anões aos tropeções nas suas botas de
ferro.
Orik arqueou as sobrancelhas. Se ficou ofendido, escondeu-o
bem.
Orrin bebeu mais dois grandes tragos da sua bebida. A seguir,
limpou a boca com as costas da mão e disse:
— Muito bem, como queiram. Seguiremos para Urû’baen. —
Depois de esvaziar o copo, esticou o braço para a garrafa que tinha
diante de si.
E

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