24 de junho de 2017

Capítulo 36 - A palavra de um Cavaleiro

E

ragon agarrou em Brisingr, correndo depois para fora da tenda
com Arya.
Lá fora cambaleou e caiu sobre o joelho, pois o chão parecia
inclinar-se. Agarrou-se a um tufo de erva e usou-o como âncora,
enquanto esperava que as tonturas abrandassem.
Quando se atreveu a olhar para cima, franziu os olhos. A luz das
tochas mais próximas era dolorosamente intensa e as chamas
ondulavam como se estivessem soltas dos trapos ensopados em
óleo que as alimentavam.
“Estou sem equilíbrio, não posso confiar na minha visão. Tenho
de ficar lúcido, tenho de...”
Uma sensação de movimento chamou-lhe a atenção e ele
baixou-se. A cauda de Saphira varreu o ar por cima dele,
passando-lhe a escassos centímetros da cabeça. Depois, embateu
na tenda e derrubou-a, quebrando os postes de madeira como se
fossem ramos secos.
Saphira rosnou e abocanhou o ar, enquanto tentava levantar-se.
Depois deteve-se, confusa.
Pequenino, o que...
Um ruído semelhante a uma poderosa rajada de vento
interrompeu-a e Thorn irrompeu da escuridão do céu, vermelho
como sangue, cintilando como um milhão de estrelas. Aterrou perto
do pavilhão de Nasuada e a terra estremeceu com o impacto do
seu corpo.
Eragon ouviu os guardas de Nasuada gritarem. Depois Thorn
brandiu a pata direita, dianteira, rente ao solo e metade dos gritos
cessaram. Várias dúzias de soldados saltaram dos arreios presos
aos flancos do dragão vermelho e dispersaram-se em redor,
rasgando tendas e matando as sentinelas que corriam para eles.
Ouviram-se trompas em torno do perímetro do acampamento e
o estrépito do combate explodiu, ao mesmo tempo, junto das
defesas exteriores, assinalando um ataque secundário vindo de
Norte, deduziu Eragon.
“Quantos soldados estarão lá?”, perguntou-se. “Estaremos
cercados?” O pânico floresceu tão intensamente dentro de si que
quase se sobrepôs à razão, compelindo-o a correr às cegas para a
noite. Apenas a consciência de que era o faelnirv que lhe estava a
provocar essa reação o conteve.
Sussurrou um breve feitiço de cura, na esperança que este
combatesse os efeitos do licor, mas sem sucesso. Desapontado,
ergueu-se cautelosamente, desembainhou Brisingr e reuniu-se a
Arya, enfrentando cinco soldados que corriam da direção deles,
ombro a ombro com ela. Não sabia ao certo como conseguiriam
defrontá-los, no estado em que se encontravam.
Os homens estavam a menos de seis metros, quando Saphira
rosnou e bateu com a cauda no solo, derrubando os soldados.
Eragon — que pressentira o que Saphira estava prestes a fazer —
agarrou-se a Arya e esta agarrou-se a ele, amparando-se um ao
outro para conseguirem aguentar-se de pé.
Depois, Blödhgarm e outro elfo, Laufin, correram para fora do
labirinto de tendas e mataram os cinco soldados antes que estes
conseguissem levantar-se. Os outros elfos vinham alguns passos
atrás.
Outro grupo de soldados, composto por vinte homens, correu
na direção de Eragon e Arya, como se soubessem onde os
encontrar.
Os elfos dispuseram-se em linha diante de Eragon e Arya, mas
antes que os soldados ficassem ao alcance das suas espadas, uma
das tendas abriu-se repentinamente e Angela atirou-se para o meio
dos invasores com um uivo, apanhando-os de surpresa.
A herbolária usava uma camisa de dormir vermelha, tinha o
cabelo encaracolado em desalinho e segurava um pente de lã em
cada mão. Os pentes tinham noventa centímetros de comprimento e
duas fiadas de dentes de aço, em ângulo, nas pontas. Os dentes
eram mais compridos que o antebraço de Eragon, tinham pontas
aguçadas como agulhas e ele sabia que, se alguém se picasse neles,
poderia ficar com o sangue envenenado, devido à lã suja por onde
passavam.
Angela enterrou os pentes de lã nos flancos de dois soldados,
perfurando-lhes as cotas de malha, e estes caíram. Ela tinha menos
trinta centímetros que alguns dos homens, mas não parecia
amedrontada ao saltar por entre os soldados. Pelo contrário, a
herbolária era a imagem perfeita da ferocidade, com aquele cabelo,
aqueles gritos e aquela expressão sombria no olhar.
Os soldados cercaram Angela e aproximaram-se dela,
escondendo-a e, por instantes, Eragon receou que eles a tivessem
dominado.
Depois, vindo de outra parte do acampamento, viu Solembum a
correr em direção ao grupo de soldados, com as orelhas coladas
ao crânio. Atrás dele vinham mais meninos-gatos: vinte, trinta,
quarenta — um bando —, todos eles na forma animal.
Uma cacofonia de silvos, uivos e guinchos impregnou a noite
enquanto os meninos-gatos saltavam para cima dos soldados,
atirando-os ao chão e dilacerando-os com as garras e as unhas. Os
soldados resistiram o melhor que puderam, mas não estavam à
altura daqueles enormes gatos desgrenhados.
Toda a sequência, desde o aparecimento de Angela até à
intervenção dos meninos-gatos, decorreu como uma rapidez tal, que
Eragon mal teve tempo de reagir. Ao ver os meninos-gatos a
atacarem os soldados em massa, ele piscou os olhos e humedeceu
os lábios gretados, com a sensação de que tudo o que se estava a
passar em seu redor era irreal.
Depois Saphira disse:
— Salta para o meu dorso, depressa! — e agachou-se para que
ele pudesse trepar para cima dela.
— Espera! — disse Arya. Depois poisando-lhe a mão no braço e
murmurando algumas frases na língua antiga. Instantes depois, as
distorções na visão de Eragon dissiparam-se e ele percebeu que
estava de novo em pleno controlo do seu corpo.
Olhou agradecido para Arya, atirou com a bainha de Brisingr
para cima dos restos da tenda e subiu pela pata direita de Saphira,
instalando-se na sua posição habitual, na base do pescoço. Sem
sela, as pontas aguçadas das escamas enterravam-se na parte
interior das pernas, uma sensação que ele tinha bem presente,
desde o dia em que voaram juntos pela primeira vez.
— Precisamos da Dauthdaert — gritou para Arya.
Ela acenou afirmativamente e correu para a sua tenda, montada
a uma centena de metros, no lado este do acampamento.
Eragon sentiu uma outra consciência presente, para além da de
Saphira, e fechou-se em si para se proteger. Mas, entretanto
percebeu que o ser era Glaedr e abriu as suas defesas ao dragão
dourado.
Eu vou ajudar, disse Glaedr. Por trás das suas palavras, Eragon
sentiu uma raiva fervente dirigida a Thorn e Murtagh, uma raiva que
parecia suficientemente poderosa para reduzir o mundo a cinzas.
Unam as vossas mentes à minha, Eragon e Saphira. Vocês também,
Blödhgarm, Laufin e todos os outros da vossa raça. Deixem-me ver
através dos vossos olhos e ouvir com os vossos ouvidos, para que
possa dizer-vos o que fazer e emprestar-vos a minha força, sempre
que necessário.
Saphira saltou para diante, passando sobre as fiadas de tendas,
num voo rasante, em direção ao enorme corpo, cor de rubi, de
Thorn e os elfos seguiram-na pelo solo, matando todos os soldados
que encontravam.
Saphira tinha a vantagem da altitude, pois Thorn estava ainda no
solo. Virou na direção dele, com o intuito de aterrar no seu dorso e
prender-lhe o pescoço nas mandíbulas, mas o dragão vermelho
rugiu, ao vê-la aproximar-se, e torceu-se para ela, agachando-se
como um cão pequeno que confrontava um cão maior.
Eragon teve apenas tempo de reparar que a sela de Thorn
estava vazia. Depois o dragão empinou-se, atingindo Saphira com
uma das patas dianteiras, largas e musculosas. A pesada pata
varreu o ar com uma ruidosa deslocação de ar. As garras pareciam
assustadoramente brancas na escuridão.
Saphira desviou-se para o lado, torcendo o corpo para se
esquivar do golpe. O solo e o céu inclinaram-se em torno de
Eragon e ele deu consigo, de cabeça levantada, a olhar para o
acampamento. Nesse instante, a ponta da asa direita de Saphira
rasgou uma tenda.
A força da rotação projetou Eragon para longe de Saphira e as
escamas começaram a deslizar entre as suas pernas. Ele apertou as
coxas e agarrou-se com mais força ao espinho, à sua frente, mas o
movimento de Saphira foi demasiado violento. Segundos depois, a
mão escorregou-lhe e ele deu consigo a cair no ar, sem perceber
bem onde ficava o céu e o chão.
Enquanto caía, fez tudo para não largar Brisingr e manter a
espada afastada do seu corpo. Com proteções ou sem elas, a arma
poderia feri-lo, graças aos feitiços de Rhunön.
Pequenino!
— Letta! — gritou Eragon, parando bruscamente no ar, com um
solavanco, a cerca de três metros do solo. Embora o mundo lhe
tivesse parecido girar durante mais alguns segundos, ele teve um
vislumbre dos contornos cintilantes de Saphira, enquanto esta
descrevia um círculo para o recolher.
Thorn rugiu, banhando as filas de tendas entre si e Eragon com
uma cortina de chamas incandescentes que ondularam em direção
aos céus. Logo a seguir ouviram-se gritos de agonia, à medida que
os homens que as ocupavam morriam queimados.
Eragon ergueu a mão para proteger o rosto. A sua magia
protegia-o de ferimentos graves, mas aquele calor era
desconfortável.
Eu estou bem, não voltes para trás, disse ele, não apenas para
Saphira mas também para Glaedr e para os elfos. Têm de os deter.
Encontramo-nos junto do pavilhão de Nasuada.
A desaprovação de Saphira era notória, no entanto ela acabou
por mudar de direção para voltar a atacar Thorn.
Eragon terminou o feitiço e saltou para o chão, aterrando
suavemente sobre os calcanhares. Depois desatou a correr por
entre as tendas incendiadas, muitas das quais estavam já a
desmoronar-se, projetando colunas de faíscas alaranjadas no ar.
Era-lhe difícil respirar com a fumaça e o fedor a lã queimada.
Tossiu e os seus olhos começaram a lacrimejar, turvando-lhe a
visão.
Saphira e Thorn lutavam, como dois gigantes na noite, uma
centena de metros adiante e Eragon sentiu um medo primitivo. O
que estava ele a fazer, correndo na direção deles, duas criaturas
ferozes de dentes pontiagudos, maiores do que uma casa — ou
duas, no caso de Thorn — e com garras, caninos e espigões,
maiores do que o seu corpo? Mesmo depois do ataque de medo
inicial abrandar, Eragon continuou a sentir alguma ansiedade, à
medida que corria para diante.
Ele tinha esperança que Roran e Katrina estivessem a salvo. A
sua tenda ficava do lado oposto do acampamento, mas Thorn e os
soldados poderiam virar nessa direção a qualquer momento.
— Eragon!
Arya saltou através dos destroços em chamas, com a
Dauthdaert na mão esquerda. Uma auréola indistinta, verde,
cercava a lâmina serrilhada da lança, embora o brilho fosse difícil
de distinguir, recortado contra a cortina de chamas. Orik vinha a
seu lado, movimentando-se por entre as chamas como se estas não
passassem de colunas de vapor. O anão estava sem camisa e sem
elmo. Empunhava Volund, o ancestral martelo de guerra, numa mão
e um pequeno escudo redondo na outra. Ambas as extremidades
do martelo estavam ensanguentadas.
Eragon saudou-os de mão erguida e com um grito, satisfeito por
ter os amigos junto de si. Ao alcançá-lo, Arya ofereceu-lhe a lança,
mas Eragon abanou a cabeça.
— Fica com ela! — disse-lhe ele. — Teremos mais hipóteses de
deter Thorn, se usares Niernen e eu Brisingr.
Arya acenou com a cabeça, apertando firmemente a lança e,
pela primeira vez, Eragon interrogou-se se ela conseguiria matar um
dragão, pelo fato de ser um elfo; mas, depois, pôs esse
pensamento de parte. Se havia algo que não lhe inspirava dúvidas
em Arya era o fato de ela fazer sempre o necessário, por muito
difícil que fosse.
Thorn arranhou as costelas de Saphira e Eragon arquejou, ao
sentir a dor através do laço que os unia. Pela mente de Blödhgarm
ficou a saber que os Elfos estavam a combater os soldados perto
dos dragões. Nem mesmo eles se atreviam a aproximar-se mais de
Saphira e Thorn, receando ser esmagados.
— Ali — disse Orik, apontando com o martelo na direção de um
grupo de soldados que se movia por entre as filas de tendas
destruídas.
— Deixa-os — disse Arya. — Temos de ajudar Saphira.
Orik resmungou.
— Está bem, então vamos a isso.
Desataram os três a correr, mas Eragon e Arya depressa se
distanciaram de Orik. Nenhum anão conseguiria acompanhar
aquele ritmo, nem mesmo um anão tão forte e em tão boa forma
como Orik.
— Continuem! — gritou Orik lá de trás. — Eu sigo-vos o mais
depressa que puder!
Ao desviar-se de fragmentos de tecido em chamas que
flutuavam pelo ar, Eragon viu Nar Garzhvog no meio de um grupo
de dez soldados. O Kull chifrudo parecia grotesco sob a luz
avermelhada das chamas. Os lábios estavam repuxados, revelandolhe
os caninos, e as sombras na saliência da testa davam-lhe uma
aparência rude e brutal como se o seu crânio tivesse sido talhado
de um pedregulho com um cinzel rombo. Lutando com as mãos,
agarrou num soldado e arrancou-lhe os membros um por um, tão
facilmente quanto Eragon desmembraria uma galinha assada.
As tendas incendiadas terminavam um pouco mais à frente. Do
outro lado das chamas era o caos absoluto.
Blödhgarm e dois dos seus feiticeiros estavam parados diante de
quatro homens de túnica negra, que Eragon deduziu serem
feiticeiros do Império. Nem os homens nem os Elfos se mexiam,
embora os seus rostos revelassem uma enorme tensão. Viam-se
dúzias de soldados mortos no chão, mas alguns corriam ainda
livremente, parte com ferimentos tão horrendos que Eragon
percebeu de imediato que estariam imunes à dor.
Não conseguia ver o resto dos Elfos, mas sentia a sua presença
do outro lado do pavilhão vermelho de Nasuada, no centro da
devastação.
Grupos de meninos-gatos corriam para trás e para diante, atrás
dos soldados, na clareira em torno do pavilhão. O rei Meia-pata e a
sua companheira, A Caçadora de Espetros, comandavam dois
grupos e Solembum comandava um terceiro.
A herbolária estava perto do pavilhão a combater com um
homem grande e robusto — ela lutava com os pentes de lã e ele com
um bastão numa mão e um malho na outra —, parecendo bastante
equilibrados apesar da diferença de sexo, tamanho, altura, poder
de alcance e armas.
Para surpresa de Eragon, Elva também lá estava, sentada à
ponta de um barril. A criança-feiticeira tinha os braços à volta do
estômago e parecia mortalmente doente, mas também ela estava a
participar na batalha, embora da forma singular que lhe era
caraterística. Diante dela havia uma dúzia de soldados e Eragon viu
que Elva estava a falar com eles muito depressa. A sua pequena
boca movia-se tão depressa que mal se via. Enquanto falava, cada
homem ia reagindo de forma diferente: um ficou parado onde
estava, aparentemente incapaz de se mexer; outro encolheu-se e
tapou o rosto com as mãos; outro ajoelhou-se e apunhalou-se a si
mesmo no peito, com uma longa adaga; outro atirou as armas fora
e fugiu pelo acampamento; outro ainda tartamudeava como um
tolo, mas nenhum ergueu as armas contra ela, nem tentou atacar
ninguém.
E por cima de todo aquele caos erguiam-se duas montanhas:
Saphira e Thorn. Tinham-se deslocado para a esquerda do
pavilhão e descreviam círculos em torno um do outro, esmagando
filas de tendas, umas a seguir às outras. Línguas de fogo
tremeluziam-lhes nos buracos das narinas e no intervalo dos dentes
aguçados como sabres.
Eragon hesitou. Aquela confusão de ruídos e movimentos era
difícil de assimilar e ele não sabia ao certo onde seria mais
necessário.
Onde está Murtagh?, perguntou a Glaedr.
Ainda temos de o encontrar, se é que está aqui. Não consigo
sentir a sua mente, mas é difícil saber ao certo com tanta gente e
tantos feitiços reunidos no mesmo local. Através do laço que os
unia, Eragon percebeu que o dragão dourado fazia muito mais do
que apenas dirigir-se a ele; estava também a escutar os
pensamentos de Saphira e dos Elfos, e a ajudar Blödhgarm e os
seus dois companheiros no combate mental, com os feiticeiros do
Império.
Eragon estava confiante de que seria possível derrotar os
feiticeiros, da mesma forma que acreditava que Angela e Elva eram
perfeitamente capazes de se defender do resto dos soldados.
Saphira, porém, estava ferida em vários sítios e continuava
empenhada em impedir que Thorn atacasse o resto do
acampamento.
Eragon olhou de relance para a Dauthdaert na mão de Arya e de
novo para as gigantescas formas dos dragões. Temos de o matar,
pensou, sentindo um peso no coração. Depois os seus olhos
fixaram-se em Elva e uma outra ideia começou ganhar forma dentro
de si. As palavras da menina eram mais poderosas do que
qualquer arma; ninguém conseguiria resistir-lhes, nem mesmo
Galbatorix. Bastaria conseguir falar com Thorn para o afugentar.
Não! —, rosnou Glaedr. Você está a perder tempo, jovem. Vai ter
com o teu dragão... imediatamente! Ela precisa da tua ajuda. Tens
de matar Thorn e não afugentá-lo! Ele está perdido e você não podes
fazer nada para o salvar.
Eragon olhou para Arya e ela olhou para ele.
— Elva seria mais rápida — disse Eragon.
— Nós temos a Dauthdaert.
— É demasiado perigoso, demasiado difícil.
Arya hesitou e depois acenou com a cabeça. Ambos olharam
para Elva.
Antes de a alcançarem ouviram um grito abafado. Eragon virouse
e para seu horror viu Murtagh sair do pavilhão, arrastando
Nasuada pelos pulsos.
Nasuada estava com o cabelo desgrenhado. Tinha um grande
arranhão na face e o seu roupão amarelo estava rasgado em vários
sítios. Tentou pontapear o joelho de Murtagh, mas o salto do
sapato ricocheteou numa proteção e Murtagh ficou incólume. Ele
puxou-a violentamente para si e atingiu-a na têmpora com o pomo
de Zar’roc, deixando-a inconsciente.
Eragon gritou e virou-se na direção deles.
Murtagh olhou-o brevemente. Depois desembainhou a espada,
içou Nasuada para cima do ombro, poisou o joelho no chão e
curvou a cabeça como se estivesse a rezar.
Uma agulhada de dor de Saphira distraiu Eragon e ela gritou:
Cuidado! Ele escapou-se de mim!
Ao saltar por cima de um amontoado de corpos, Eragon
aventurou-se a olhar rapidamente para cima e viu que a barriga
cintilante de Thorn e as suas asas aveludadas escondiam metade
das estrelas no céu. O dragão vermelho rodopiava ligeiramente,
flutuando no sentido descendente como uma enorme folha
sustentada pelo vento.
Eragon atirou-se para um lado e rebolou para trás do pavilhão,
numa tentativa de ganhar alguma distância do dragão. Uma pedra
enterrou-se no seu ombro, ao cair no chão.
Sem abrandar, Thorn esticou a pata dianteira, direita, grossa e
nodosa como o tronco de uma árvore, fechando a enorme pata em
torno de Murtagh e Nasuada. Ao pegar nos dois humanos, as suas
garras enterraram-se na terra, escavando um amontoado de quase
um metro de altura.
Depois, com um rugido triunfante e um bater de asas surdo e
perturbante, Thorn arqueou o corpo e começou a subir,
distanciando-se do acampamento.
Saphira levantou voo para o perseguir, do local onde ela e Thorn
tinham estado a lutar. Regatos de sangue serpenteavam-lhe das
dentadas e marcas de garras que tinha ao longo dos membros. Ela
era mais rápida do que Thorn mas, mesmo que o apanhasse,
Eragon não fazia ideia como poderia resgatar Nasuada sem a ferir.
Arya passou a correr por ele, despenteando-lhe o cabelo com
uma rajada de vento. Depois, trepou para cima de uma pilha de
barris e saltou, elevando-se no ar, mais alto do que qualquer outro
elfo conseguiria sem ajuda. A seguir, esticou o braço, agarrou-se à
cauda de Thorn, e ficou suspensa como um ornamento.
Eragon deu meio passo em frente, como se a fosse deter, e
depois praguejou, bramindo:
— Audr!
O feitiço projetou-o em direção ao céu, como uma flecha de um
arco. A seguir, alcançou a mente de Glaedr e o velho dragão
forneceu-lhe a energia necessária para manter a sua ascensão.
Eragon consumiu a energia sem pensar, sem se preocupar com o
que isso lhe custaria, desejando apenas alcançar Thorn antes que
algo de terrível acontecesse a Nasuada ou a Arya.
Ao passar velozmente por Saphira, viu Arya começar a trepar
pela cauda de Thorn. Com a mão direita, ela agarrou-se aos
espigões ao longo da coluna, usando-os como degraus de uma
escada, e com a esquerda enterrou a Dauthdaert em Thorn, usando
a lâmina da lança como âncora, enquanto subia pelo seu corpo
ondulante. Thorn torcia-se e retorcia-se, tentando mordê-la, como
um cavalo irritado com uma mosca, mas não conseguia alcançá-la.
Depois, o dragão cor de sangue recolheu as asas e as patas,
com a sua preciosa carga aninhada contra o peito, e mergulhou em
direção ao solo, girando sem parar, numa espiral mortífera. A
Dauthdaert desprendeu-se da carne de Thorn e Arya ficou esticada
transversalmente, agarrada ao espinho apenas com a mão direita —
a mão mais fraca, na qual se ferira nas catacumbas de Dras-Leona.
Pouco depois, os seus dedos soltaram-se e ela escorregou do
corpo de Thorn, de braços e pernas abertas como os raios da roda
de uma carroça. Certamente graças ao feitiço que lançara, as suas
rotações abrandaram, acabando por cessar, tal como a sua
trajetória descendente, até ficar a flutuar verticalmente no céu
noturno. “Parecia um pirilampo verde a pairar na escuridão,
iluminada pelo brilho da Dauthdaert que tinha ainda na mão”,
pensou Eragon.
Thorn enfunou as asas e deu a volta na direção dela. Arya virou
a cabeça e olhou para Saphira, girando no ar para enfrentar Thorn.
Uma luz maléfica ganhou vida entre as mandíbulas de Thorn.
Instantes depois, uma parede crescente de chamas ondulou da sua
boca e envolveu Arya, escondendo-a.
Eragon estava a menos de quinze metros de distância —
suficientemente perto para sentir as faces a arder de calor.
As chamas dissiparam-se e Eragon viu Thorn afastar-se de
Arya, dobrando-se para trás tão depressa quanto o seu volumoso
corpo lhe permitia. Ao fazê-lo, sacudiu a cauda tão velozmente que
Arya não teve tempo de se afastar.
— Não! — gritou Eragon.
A cauda atingiu-a com um estalido, projetando-a na escuridão
como uma pedra disparada de uma fisga. A Dauthdaert separou-se
dela, descrevendo um arco ao cair, e o seu brilho enfraqueceu,
convertendo-se num ponto indistinto que depressa se extinguiu por
completo.
Barras de ferro pareciam comprimir o peito de Eragon,
roubando-lhe o ar dos pulmões. Thorn estava a afastar-se, mas
Eragon poderia ainda ultrapassar o dragão se drenasse mais energia
de Glaedr. Contudo, a sua ligação com Glaedr estava a
enfraquecer e Eragon não teria qualquer hipótese de vencer Thorn
e Murtagh sozinho, a uma altitude tão grande, tendo Murtagh dúzias
de Eldunarís ao seu dispor.
Eragon praguejou e desativou o feitiço que o projetava pelo ar,
mergulhando de cabeça atrás de Arya. O vento uivava-lhe nos
ouvidos, fustigando-lhe o cabelo e as roupas, comprimindo-lhe os
músculos das faces e forçando-o a franzir os olhos. Um inseto
atingiu-o no pescoço e o impacto foi tão doloroso como se tivesse
sido atingido por um seixo.
Enquanto caía, Eragon procurou a mente de Arya. Tinha
acabado de sentir uma centelha de consciência algures na
escuridão, lá em baixo, quando Saphira surgiu de repente por baixo
de si, com as escamas obscurecidas pela luz das estrelas. Virou-se
ao contrário e Eragon viu-a esticar-se e alcançar um pequeno
objeto escuro com as patas dianteiras.
Uma guinada de dor percorreu a mente que Eragon tocara mas,
depois, todos os pensamentos cessaram, deixando de a sentir mais.
Eu tenho-a comigo, pequenino, disse Saphira.
— Letta! — disse Eragon, abrandando até parar.
Olhou de novo à procura de Thorn mas viu apenas estrelas e
escuridão. Ouviu duas vezes um bater de asas indistinto, a este, e
depois tudo ficou em silêncio.
Eragon olhou na direção do acampamento dos Varden.
Extensões de chamas sombrias, alaranjadas, brilhavam através de
camadas de fumaça. Centenas de tendas estavam destruídas no chão,
juntamente como os homens que não tinham conseguido escapar
antes de Saphira e Thorn as pisarem. Mas esses homens não eram
as únicas vítimas do ataque. À altitude a que estava, Eragon não
conseguia distinguir os corpos, mas sabia que os soldados tinham
matado muita gente.
Um sabor a cinzas invadiu-lhe a boca. Ele estava a tremer.
Lágrimas de raiva, de pavor e frustração, turvavam-lhe a visão.
Arya estava ferida — ou talvez morta —, Nasuada fora capturada e
em breve estaria à mercê de Galbatorix e dos seus verdugos mais
experientes.
O desespero apossou-se de Eragon.
“Como iriam prosseguir agora? Como poderiam esperar
alcançar a vitória sem Nasuada a comandá-los?”
A

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