3 de junho de 2017

Capítulo 36 - Insubordinação

O solo negro e fértil estava frio ao toque da mão de Roran.
Ele apanhou um torrão solto e o esfarelou entre os dedos, aprovando o que percebeu ser umidade e musgo, caules e folhas em decomposição, além de outras matérias orgânicas que estavam ali e forneceriam excelente nutrição para a lavoura.
Levou-o aos lábios e à língua. A terra tinha um gosto de vida, repleta de centenas de sabores, desde montanhas pulverizadas a besouros, madeira podre e pontas tenras das raízes de capim.
Esta é uma terra boa para a agricultura, pensou Roran. Lançou sua mente de volta ao vale Palancar, e mais uma vez viu o sol de outono batendo sobre o campo de cevada ao lado da casa da sua família – fileiras perfeitas de hastes douradas dançando com a brisa, com o rio Anora a oeste e as montanhas de topo nevado se elevando de cada lado do vale. É lá que eu devia estar, lavrando a terra e criando uma família com Katrina, não regando o solo com a seiva do corpo dos homens.
— Você aí! — gritou o capitão Edric, apontando para Roran do alto do seu cavalo. — Pare de fazer corpo mole, Martelo Forte, para eu não mudar a opinião que tenho sobre você e deixá-lo de guarda junto com os arqueiros!
Espanando as mãos na calça de malha, Roran se levantou da posição em que estava ajoelhado.
— Sim, senhor. Como quiser, senhor! — atendeu ele, reprimindo o desagrado que sentia por Edric. Desde que havia entrado para a companhia de Edric, Roran tentou aprender tudo o que pôde acerca da história do homem. A partir do que ouvira falar, concluiu que Edric era um comandante competente: Nasuada jamais o teria incumbido de uma missão tão importante se não fosse esse o caso. Mas era agressivo, e disciplinava seus guerreiros até mesmo pelo menor desvio em relação à ordem, como Roran havia aprendido e repugnado, em três ocasiões isoladas durante seu primeiro dia na companhia de Edric. Aquele era um estilo de comando, acreditava ele, que minava o moral de um homem, além de desestimular a criatividade e a inovação entre os subalternos Talvez Nasuada tenha me passado para ele exatamente por esses motivos, pensou Roran. Ou talvez este seja mais um teste. Pode ser que ela queira saber se consigo engolir meu orgulho por tempo suficiente para trabalhar com um homem como Edric.
Voltando a montar em Fogo na Neve, Roran seguiu para a vanguarda da coluna de duzentos e cinquenta homens. Sua missão era simples. Desde que Nasuada e o rei Orrin retiraram o grosso das suas tropas de Surda, parecia que Galbatorix havia decidido tirar vantagem da sua ausência e devastar toda a região indefesa, saqueando cidadezinhas e povoados e incendiando lavouras necessárias para sustentar a invasão do Império. A maneira mais fácil de exterminar os soldados teria sido Saphira voar até lá e destroçar todos eles; mas, a menos que estivesse voando na direção de Eragon, todos concordaram que seria perigoso demais para os Varden ficar sem ela por tanto tempo.
Por isso, Nasuada mandara a companhia de Edric repelir os soldados, cujos números seus espiões haviam estimado em torno de trezentos. No entanto, dois dias atrás, Roran e os demais guerreiros tinham ficado consternados quando depararam com rastros indicativos de que o tamanho da força de Galbatorix estaria mais perto dos setecentos.
Roran reteve Fogo na Neve ao lado de Carn e de sua égua sarapintada e coçou o queixo enquanto estudava a configuração do terreno. Diante deles havia uma vasta extensão de campina ondulante, salpicada com um ou outro capão de salgueiros e choupos. Falcões caçavam lá em cima, enquanto aqui embaixo a campina estava cheia dos guinchos de camundongos, coelhos, roedores entocados e outros animais silvestres. A única prova de que homens haviam um dia visitado o lugar era a faixa de vegetação pisoteada que seguia para o horizonte a leste, indicando o percurso dos soldados.
Carn mirou o sol a pino, a pele enrugada em torno das pálpebras caídas quando ele as contraiu.
— Devemos alcançá-los antes que nossas sombras estejam mais compridas do que nossa altura.
— E então vamos descobrir se nossa tropa é suficiente para expulsá-los — resmungou Roran — ou se simplesmente vão nos massacrar. Pelo menos, desta vez, eu gostaria que estivéssemos em maior número que nossos inimigos.
Um sorriso cruel surgiu no rosto de Carn.
— É sempre assim com os Varden — disse ele.
— Em forma! — gritou Edric, e esporeou o cavalo pela trilha pisoteada no capim.
Roran calou-se e tocou os flancos de Fogo na Neve com os calcanhares enquanto a companhia seguia seu comandante.


Seis horas mais tarde, Roran estava sentado em Fogo na Neve, escondido por trás de um aglomerado de faias, que cresciam ao longo de um riacho pequeno e plano, repleto de juncos e fiapos de algas flutuantes. Através da rede de galhos diante dos seus olhos, contemplava um povoado cinzento de não mais de vinte casas decrépitas. Com uma fúria crescente, havia observado que os aldeões, quando avistaram os soldados que vinham avançando do oeste, reuniram algumas trouxas de pertences e fugiram para o sul, em direção ao centro de Surda. Se coubesse a ele decidir, teria revelado sua presença aos aldeões e lhes garantido que não estavam prestes a perder a casa – não se ele e seus companheiros conseguissem impedir, pois se lembrava muito bem da dor do desespero e da sensação de desalento que a fuga de Carvahall lhe havia causado. E ele lhes teria poupado essa aflição se fosse possível. Além disso, pediria aos homens do povoado que lutassem ao seu lado. Mais dez ou vinte pares de braços poderiam representar a diferença entre a vitória e a derrota; e Roran conhecia melhor do que a maioria o ardor com que as pessoas lutariam para defender seu lar. Edric porém, rejeitou a ideia e insistiu que os Varden permanecessem escondidos nos montes a sudeste do povoado.
— É uma sorte para nós que estejam a pé — murmurou Carn, indicando a coluna vermelha de soldados marchando em direção ao povoado. — Não teríamos conseguido chegar aqui antes deles se não fosse assim.
Roran olhou de relance para os homens reunidos atrás dele. Edric havia lhe outorgado o comando provisório de oitenta e um guerreiros. Eram principalmente espadachins e lanceiros, com uma meia dúzia de arqueiros. Um dos parentes de Edric, Sand, comandava outros oitenta e um homens da companhia, enquanto Edric chefiava os demais. Os três grupos estavam apinhados uns contra os outros entre as faias, o que Roran considerava um erro. O tempo necessário para se reorganizarem assim que saíssem do bosque seria um tempo a mais de que os soldados disporiam para reunir suas defesas.
— Não vejo nenhum deles sem mãos ou pernas, ou com outros ferimentos importantes — observou Roran, inclinando-se para Carn. — Mas isso não prova nada de bom ou de ruim. Você consegue dizer se algum deles pertence aos homens que não sentem dor?
— Quem dera eu conseguisse — lamentou Carn, com um suspiro. — talvez seu primo fosse capaz disso, porque Murtagh e Galbatorix são os únicos feiticeiros que Eragon precisa temer. Mas, como sou um mágico fraco, não ouso testar os soldados. Se houver mágicos disfarçados na tropa, eles tomariam conhecimento da minha espionagem; e seria muito provável que eu não conseguisse violar suas mentes antes que alertassem os companheiros para nossa presença aqui.
— Parece que temos essa conversa todas as vezes em que estamos na iminência do combate — comentou Roran, examinando os armamentos dos soldados e tentando decidir a melhor forma de distribuir seus homens.
— É isso mesmo — disse Carn, com uma risada. — Só espero que continuemos a ter essa conversa, porque se não a tivermos...
— Um de nós terá morrido, ou nós dois...
— Ou Nasuada nos terá designado para comandantes diferentes...
— E nesse caso é o mesmo que termos morrido, porque mais ninguém vai proteger tão bem nossas costas — concluiu Roran.
Um sorriso passou de leve pelos seus lábios. Era uma velha brincadeira entre eles. Roran sacou então o martelo do cinto e se encolheu quando sentiu a fisgada na perna direita no lugar em que o boi lhe havia rasgado a carne com o chifre. Com a expressão preocupada, estendeu a mão e massageou o local do ferimento.
Carn viu e quis saber o que era.
— Tudo bem com você?
— Não vou morrer disso — respondeu Roran, e então repensou suas palavras. — Bem, pode até ser que eu morra, mas será como uma maldição eu ficar aqui esperando, enquanto você parte para despedaçar aqueles idiotas arrogantes.
Quando os soldados chegaram ao povoado, passaram marchando direto de um lado ao outro, parando apenas para destruir a porta de cada casa e verificar os cômodos para ver se alguém estava escondido ali dentro. Um cachorro saiu correndo detrás de um barril de água de chuva, com o pelo eriçado ao longo da espinha, e começou a latir para os soldados. Um deles deu um passo à frente e atirou a lança no cachorro, matando-o. Quando os primeiros soldados chegaram à outra extremidade do povoado, Roran apertou a mão em torno do cabo do martelo preparando-se para a investida, mas, nesse momento, ouviu uma série de gritos agudos e foi dominado por uma sensação de pavor. Um grupo de soldados saiu da penúltima casa, arrastando três pessoas que se debatiam: um homem magricela de cabeça branca, uma mulher jovem de blusa rasgada e um garoto que não podia ter mais de onze anos. O suor brotou da testa de Roran. Num tom baixo, vagaroso e monótono, ele amaldiçoou os três prisioneiros por não terem fugido com os vizinhos, amaldiçoou os soldados pelo que haviam feito e ainda poderiam fazer, amaldiçoou Galbatorix e o capricho do destino que tinha resultado na situação que se apresentava. Tinha consciência de que seus homens, atrás dele, se remexiam e resmungavam com raiva, loucos para punir os soldados pela brutalidade.
Depois de revirar todas as casas, a massa de soldados refez seus passos até o centro do povoado e ali formou um semicírculo em torno dos prisioneiros.
Isso!, disse Roran para si quando os soldados voltaram as costas para os Varden. O plano de Edric era esperar que fizessem exatamente isso. Na expectativa da ordem de avançar, Roran ergueu-se alguns centímetros na sela, com o corpo inteiro tenso. Tentou engolir, mas sua garganta estava seca demais. O oficial encarregado dos soldados, o único entre eles a cavalo, desmontou e trocou algumas palavras inaudíveis com o aldeão de cabelos brancos. Sem aviso, o oficial sacou o sabre e decapitou o homem, dando um salto para trás para evitar os respingos de sangue que resultaram do golpe. A jovem gritou ainda mais do que antes.
— Atacar! — ordenou Edric.
Roran levou meio segundo para compreender que a palavra proferida por Edric com tanta calma era o comando que estava aguardando.
— Atacar! — gritou Sand, do outro lado de Edric, saindo a galope do bosque de faias, com seus homens.
— Atacar! — gritou Roran, fincando os calcanhares em Fogo na Neve.
Escondeu-se por trás do escudo enquanto o cavalo o carregava pelo emaranhado de galhos, e depois abaixou a proteção quando estavam a céu aberto, voando morro abaixo, com o tropel ensurdecedor à sua volta. Desesperado para salvar a mulher e o menino, Roran instigou Fogo na Neve ao limite da sua velocidade. Ao olhar para trás, ficou animado por ver que seu contingente tinha se separado dos outros Varden sem maiores problemas. A não ser por alguns retardatários, a maioria estava num grupo coeso nem dez metros atrás dele.
Roran avistou Carn cavalgando na vanguarda dos homens de Edric, com a capa cinzenta panejando ao vento. Mais uma vez, desejou que o capitão tivesse permitido que os dois permanecessem no mesmo grupo. Conforme suas ordens, Roran não entrou no povoado direto, mas desviou, sim, para a esquerda e circundou as construções para conseguir atacar os soldados pelos flancos da tropa, vindo de outra direção. Sand agiu do mesmo modo para a direita, ao passo que Edric e seus guerreiros entraram direto no povoado.
Uma fileira de casas ocultou o confronto inicial dos olhos de Roran, mas ele ouviu um coro de gritos nervosos, seguido de uma série de estranhos zunidos metálicos e então os berros de homens e cavalos.
A preocupação provocou nós nas entranhas de Roran. Que barulho era aquele? Poderiam ser arcos de metal? Existe esse tipo de coisa? Independentemente da causa, sabia que não deveria ter havido tantos cavalos dando gritos de agonia. Os membros de Roran se enregelaram quando percebeu com total certeza que o ataque de alguma forma tinha dado errado e que talvez a batalha já estivesse perdida. Quando passaram pela última casa, puxou forte as rédeas de Fogo na Neve, guiando-o para o centro do povoado. Atrás dele, seus homens fizeram o mesmo. Uns duzentos metros à sua frente, Roran avistou uma linha tripla de soldados posicionados entre duas casas, de um modo que impedia a passagem dos Varden. Os soldados não demonstravam medo dos cavalos que corriam em sua direção. Roran hesitou. Suas ordens eram claras: ele e seus comandados deveriam atacar o flanco ocidental e abrir caminho através das tropas de Galbatorix até que voltassem a se juntar a Sand e Edric. No entanto, Edric não tinha dito a Roran o que deveria fazer se cavalgar direto contra os soldados já não parecesse ser uma boa ideia quando ele e seus homens estivessem posicionados. E Roran sabia que, caso se desviasse das ordens, mesmo para impedir que seus homens fossem massacrados, seria considerado culpado de insubordinação, e Edric poderia puni-lo por essa transgressão.
Então, os soldados afastaram de lado as capas volumosas e ergueram à altura dos ombros bestas prontas para disparar. Nesse instante, Roran decidiu que faria o que fosse necessário para garantir que os Varden vencessem a batalha. Não deixaria que os soldados destruíssem sua tropa com uma única saraivada de flechas só por querer evitar as consequências desagradáveis de desafiar seu comandante.
— Procurem abrigo! — gritou Roran, puxando a cabeça de Fogo na Neve para a direita e forçando o animal a dar uma guinada para trás de uma casa.
Um segundo depois, cerca de doze quadrelos cravaram-se na lateral da construção. Virando-se, Roran constatou que, com exceção de apenas um, todos os seus guerreiros haviam conseguido se esconder por trás de casas próximas antes que os soldados atirassem. O homem que não tinha sido ágil o suficiente jazia sangrando na terra batida, com dois quadrelos fincados em seu peito. Os projéteis perfuraram sua cota de malha como se fosse um tecido qualquer. Assustado com o cheiro de sangue, seu cavalo escoiceou e fugiu do povoado, deixando uma nuvem de poeira que se levantou à sua passagem.
Roran estendeu a mão e se agarrou a uma viga no lado da casa, mantendo Fogo na Neve parado enquanto tentava em desespero calcular uma forma de prosseguir. Os soldados tinham conseguido encurralar a ele e seus homens. Não poderiam sair de onde estavam sem que fossem alvo de tantos quadrelos que ficariam com a aparência de porcos-espinhos.
Um grupo de guerreiros seus aproximou-se de Roran, vindo de uma construção que a própria casa em que se escondiam ocultava da mira dos soldados.
— O que devemos fazer, Martelo Forte? — perguntaram-lhe. Não pareciam estar perturbados pelo fato de ele ter desobedecido às ordens. Pelo contrário, encaravam-no com ar de confiança renovada.
Pensando com a rapidez possível, Roran olhou ao redor. Por acaso, seus olhos deram com o arco e a aljava presos atrás da sela de um dos homens. Roran sorriu. Somente alguns guerreiros lutavam como arqueiros, mas todos carregavam arco e flechas para caçar e ajudar a alimentar a companhia quando estavam isolados na mata, sem apoio dos outros Varden. Roran indicou a casa na qual estava encostado.
— Peguem os arcos e subam no telhado, tantos de vocês quanto couber; mas, se valorizam as próprias vidas, mantenham-se escondidos até eu dar ordem contrária. Quando eu ordenar, comecem a atirar e continuem até que suas flechas tenham acabado ou até que tenham matado o último soldado. Entenderam?
— Sim, senhor!
— Andem, então! Os outros, tratem de encontrar casas de onde possam atingir os soldados. Harald, transmita as ordens para todos os demais. Procure também dez dos melhores lanceiros e dez dos melhores espadachins e os traga para cá o mais rápido que puder.
— Sim, senhor!
Com presteza, os guerreiros se apressaram a obedecer. Os que estavam mais perto de Roran tiraram os arcos e aljavas das selas e então, em pé sobre o dorso dos cavalos, içaram-se para o telhado de colmo da casa.
Quatro minutos depois, a maioria dos comandados de Roran estava posicionada no telhado de sete casas diferentes – com cerca de oito homens por telhado – e Harald havia voltado trazendo os espadachins e lanceiros solicitados.
— Muito bem, agora prestem atenção. — Roran orientou seus guerreiros reunidos. — Quando eu der a ordem, os homens ali em cima começarão a atirar. Assim que a primeira saraivada de flechas atingir os soldados, vamos sair para tentar salvar o capitão Edric. Se não conseguirmos, teremos de nos contentar em fazer os túnicas-vermelhas provar o gosto do velho e frio aço. Nossos arqueiros devem gerar confusão suficiente para que cheguemos aos soldados antes que consigam usar as bestas. Entenderam?
— Sim, senhor!
— Então, fogo!
Com berros a plenos pulmões, os homens posicionados nas casas se ergueram acima da cumeeira dos telhados e, como se fossem apenas um, dispararam flechas contra os soldados lá adiante. A saraivada seguiu zunindo como picanços sedentos de sangue em mergulho para pegar sua presa. Daí a um instante, quando soldados começaram a uivar com a agonia dos ferimentos, Roran ordenou “Avançar!” e fincou os calcanhares em Fogo na Neve.
Juntos, ele e seus homens rodearam a casa, fazendo uma curva tão fechada com as montarias que quase tombaram. Confiante na velocidade e na habilidade dos arqueiros para sua proteção, Roran se desviou dos soldados, que se debatiam, desbaratados, e chegou ao local da desastrosa investida de Edric. Ali, o chão estava escorregadio de tanto sangue, e os corpos de muitos homens aptos e bons cavalos entulhavam o espaço entre as casas. O restante do contingente de Edric estava engajado em combate mano a mano com os soldados. Para surpresa de Roran, Edric ainda estava vivo, cercado e lutando em companhia de cinco dos seus homens.
— Venham comigo! — bradou Roran para os companheiros quando entraram velozes no combate.
Atacando com os cascos, Fogo na Neve derrubou dois soldados no chão, quebrando-lhes o braço que brandia a espada e afundando a caixa torácica, Satisfeito com seu garanhão, Roran golpeava com o martelo para todos os lados, rosnando na alegria feroz da batalha, enquanto derrubava um soldado atrás do outro, sem que nenhum deles conseguisse resistir à violência da investida.
— A mim! — gritou ele, quando se aproximou de Edric e dos outros sobreviventes. — A mim!
Diante dele, flechas continuavam a se despejar sobre a massa dos soldados, forçando-os a se cobrirem com os escudos, enquanto, ao mesmo tempo, tentavam rechaçar as lanças e espadas dos Varden. Assim que ele e seus guerreiros tinham cercado os Varden que estavam a pé, Roran gritou:
— Para trás! Para trás! Para as casas!
Passo a passo, todos recuaram até ficar fora do alcance das espadas dos soldados; e então deram meia-volta e correram para a casa mais próxima. Os soldados ainda atingiram e mataram três Varden no caminho, mas os demais chegaram à construção ilesos.
Edric se encostou na lateral da casa, tentando recuperar o fôlego. Quando finalmente estava em condições de falar, fez um gesto na direção dos homens de Roran.
— Sua intervenção é oportuníssima e bem-vinda, Martelo Forte, mas por que o vejo aqui e não cavalgando entre seus soldados, como eu esperava?
Roran então explicou o que tinha feito e indicou os arqueiros nos telhados. Uma expressão de enorme desagrado surgiu na fronte de Edric enquanto ouvia o relato. Contudo, não puniu Roran pela desobediência, dando-lhe apenas uma ordem.
— Mande esses homens descerem imediatamente. Já conseguiram abalar a disciplina dos soldados. Agora precisamos confiar no trabalho honesto das espadas para nos livrarmos deles.
— Os que restam de nós são insuficientes para um ataque direto aos soldados! — protestou Roran. — Sua vantagem em relação a nós é de mais de três para um.
— Então, trataremos de compensar com bravura o que nos faltar em número! — berrou Edric. — Já me falaram da sua coragem, Martelo Forte, mas é evidente que houve um engano nos rumores, porque você é tímido como um coelho assustado. Agora faça o que eu disse e não volte a me questionar! — O capitão indicou um dos guerreiros de Roran. — Você aí, me empreste seu cavalo. — Depois que o homem desmontou, Edric se alçou para o alto da sela. — Metade dos que estão a cavalo, sigam-me! Vou dar reforço a Sand. Todos os demais, fiquem com Roran.
Batendo com os pés nos flancos do cavalo, Edric foi embora a galope, acompanhado dos homens que decidiram ir com ele, correndo de uma casa para outra enquanto procuravam um caminho para passar para o outro lado dos soldados aglomerados no centro do povoado. Roran tremeu de raiva ao vê-los partir. Até aquele momento, nunca havia permitido que alguém questionasse sua coragem sem responder à crítica com palavras ou golpes. Enquanto a batalha continuasse, porém, não seria correto que enfrentasse Edric.
Muito bem, pensou Roran, vou mostrar para Edric a coragem que acha que me falta. Mas é só isso que terá de mim. Não vou despachar meus arqueiros para o confronto direto com os soldados quando estão em maior segurança e são mais eficazes onde estão
 Roran se voltou e inspecionou os homens que Edric deixara com ele. Entre os que havia conseguido salvar, Roran ficou feliz em ver Carn, arranhado e sangrando, mas praticamente ileso. Os dois se cumprimentaram e então Roran dirigiu a palavra ao grupo.
— Vocês ouviram o que Edric disse. Eu discordo. Se fizermos o que ele quer, todos nós acabaremos empilhados num monte fúnebre antes do pôr-do-sol. Ainda podemos vencer esta batalha, mas não marchando direto para a morte! O que nos falta em número podemos compensar em astúcia. Vocês sabem como cheguei para me juntar aos Varden. Sabem que lutei contra o Império e o derrotei antes, e num povoado exatamente igual a este! Isso eu posso fazer, juro para vocês. Mas não posso fazer sozinho. Vocês querem vir comigo? Pensem bem. Vou assumir a responsabilidade por desprezar as ordens de Edric, mas ele e Nasuada podem ainda punir todos os que estiverem envolvidos.
— E nesse caso seriam uns tolos — resmungou Carn. — Será que prefeririam que morrêssemos aqui? Não. Creio que não. Pode contar comigo, Roran.
Quando Carn fez essa declaração, Roran percebeu que os outros homens endireitavam os ombros, retesavam os maxilares e como seus olhos ardiam com uma determinação renovada. Com isso, soube que haviam decidido arriscar a sorte com ele, mesmo que tivesse sido simplesmente por não quererem se separar do único mágico da companhia. Eram muitos os guerreiros dos Varden que deviam a vida a um membro da Du Vrangr Gata, e os guerreiros que Roran tinha conhecido prefeririam cravar uma espada num pé a combater sem um feiticeiro por perto.
— É — disse Harald. — Pode contar também conosco, Martelo Forte.
— Então, venham comigo! — chamou Roran.
Alcançando Carn, içou-o para o dorso de Fogo na Neve, na sua garupa, e se apressou a dar a volta pelo povoado para chegar aonde os arqueiros continuavam a disparar flechas sobre os soldados. Enquanto Roran e seus comandados corriam de uma casa para outra, quadrelos passavam zunindo por eles, parecendo gigantescos insetos raivosos, e um chegou a se enterrar até a metade no escudo de Harald.
Assim que se encontraram protegidos e em segurança, Roran fez com que os homens que ainda estavam montados cedessem arcos e flechas para os que estavam a pé, os quais mandou para o alto das casas para se juntarem aos outros arqueiros. Enquanto os homens se apressavam a obedecer, Roran acenou para Carn, que havia saltado de Fogo na Neve no instante em que pararam.
— Carn, preciso de um encantamento seu. Você tem como proteger daquelas flechas a mim e mais dez?
— Por quanto tempo? — perguntou Carn, hesitante.
— Um minuto? Uma hora? Quem vai saber?
— Gerar um escudo em torno de tanta gente por mais do que um punhado de flechas logo excederia os limites da minha capacidade... Mas, se você não se importar de eu parar as flechas na trajetória, eu poderia desviá-las de vocês, o que...
— Isso já serve.
— Exatamente quem você quer que eu proteja?
Roran indicou os homens que tinha escolhido para vir junto com ele, e Carn perguntou o nome de cada um. Em pé, com os ombros encurvados para dentro, o feiticeiro começou a murmurar na língua antiga, com o rosto pálido e tenso. Três vezes tentou lançar o encantamento; e três vezes não conseguiu.
— Desculpem — disse ele, soltando uma respiração trêmula. — Parece que não consigo me concentrar.
— Droga! Não peça desculpas — rosnou Roran. — Só faça o que tem de fazer! — Descendo de Fogo na Neve de um salto, segurou Carn pelos dois lados da cabeça, mantendo-o firmo no lugar. — Olhe para mim! Olhe para o centro dos meus olhos. Isso! Não pare de olhar para mim... Ótimo. Agora ponha a proteção em torno de nós.
As feições de Carn se desanuviaram e seus ombros relaxaram. Então, com confiança na voz, recitou o encantamento. Enquanto pronunciava a última palavra, pareceu desfalecer nas mãos de Roran, mas logo se recuperou.
— Pronto — avisou.
Roran afagou seu ombro e subiu novamente na sela do seu garanhão.
— Protejam meus flancos e minhas costas, mas, em qualquer outro momento, mantenham-se atrás de mim o tempo suficiente para eu brandir meu martelo.
— Sim, senhor! — Lembrem-se, as flechas não têm como feri-los agora. Carn, fique aqui. Não se mexa muito. Poupe suas forças. Se tiver a impressão de que não conseguirá mais manter o encantamento, dê um sinal para nós antes de encerrá-lo. Certo?
— Certo. — Carn sentou no degrau da soleira da casa e assentiu.
Segurando de novo o escudo e o martelo, Roran respirou fundo, procurando se acalmar.
— Preparem-se! — bradou ele, e estalou a língua para Fogo na Neve.
Com os dez cavaleiros atrás, Roran saiu pelo meio da rua de terra que seguia entre as casas para encarar a tropa de Galbatorix mais uma vez. Cerca de quinhentos soldados permaneciam no centro do povoado, em sua maioria agachados ou ajoelhados por trás dos escudos enquanto se esforçavam para recarregar as bestas. De vez em quando, um soldado se punha de pé e lançava uma flecha em direção a um dos arqueiros nos telhados, antes de recuar por trás do escudo quando uma revoada de flechas cortava o ar exatamente no lugar onde estivera instantes antes. Por toda parte na clareira coberta de corpos, o chão se mostrava crivado de flechas, como folhas de junco brotando do solo ensanguentado. A poucas centenas de metros dali, do outro lado dos soldados, Roran podia ver um emaranhado de corpos que se debatiam, e supôs que era lá que Sand, Edric e o que restava das suas forças estavam combatendo os soldados. Se a mulher e o menino ainda estavam na clareira, ele não os percebeu.
Um quadrelo veio zunindo na direção de Roran. Quando estava a menos de um metro do seu tórax, o projétil mudou de direção abruptamente e se lançou para longe, num desvio imenso, não atingindo nem a ele nem a seus homens. Roran se encolheu, mas a flecha já havia passado. Sua garganta se contraiu, e seu coração ficou acelerado. Relanceando ao redor, Roran avistou um carroção quebrado, encostado em uma casa mais à sua direita, e apontou para ele.
— Puxem aquele carroção para cá e o deitem de cabeça para baixo. Bloqueiem a rua o máximo que puderem. — Para os arqueiros, gritou: — Não deixem que os soldados cheguem sorrateiros e nos ataquem pelos francos! Quando investirem contra nós, raleiem ao máximo as fileiras. E assim que tiverem esgotado as flechas, venham se juntar a nós.
— Sim, senhor!
— Tenham cuidado para não nos atingir por acaso, ou juro que volto para assombrar suas casas por todo o sempre!
— Sim, senhor!
Mais quadrelos voaram em direção a Roran e aos outros cavaleiros na rua, mas novamente as flechas resvalaram na proteção de Carn, desviando-se para uma parede ou para o chão, ou ainda desaparecendo no céu. Roran observou seus homens arrastarem o carroção para a rua. Quando tinham quase terminado, ele levantou o queixo, encheu os pulmões e então, projetando a voz na direção dos soldados, vociferou:
— Ei, vocês, seus cães imundos, encolhidos de medo! Venham ver como somente onze de nós conseguimos impedir sua passagem. Se passarem por nós, conquistarão a liberdade. Venham se arriscar se tiverem coragem! O quê? Estão hesitando? Onde está sua macheza, seus vermes deformados, seus porcos assassinos, doentes? Seus pais eram uns palermas babões, deviam ter sido afogados na hora em que nasceram! E, e suas mães eram umas rameiras bexiguentas, companheiras de Urgals! — Roran sorriu, satisfeito, quando alguns soldados uivaram com indignação e começaram a retribuir seus insultos.
Um deles, porém, pareceu perder a disposição para continuar a lutar, porque ficou de pé de um salto e saiu correndo para o norte, cobrindo-se com o escudo e ziguezagueando veloz na tentativa desesperada de fugir dos arqueiros. Apesar dos seus esforços, os Varden conseguiram matá-lo a flechadas antes que tivesse percorrido cem metros.
— Rá! — exclamou Roran. — Covardes é o que vocês são, do primeiro ao último, seus ratos repugnantes! Se servir para vocês endireitarem a espinha, saibam o seguinte: Roran Martelo Forte é meu nome, e Eragon Matador de Espectros é meu primo! Podem me matar, e aquele seu rei nojento há de recompensá-los com um título de conde ou mais. Mas terão de me matar com uma lâmina; suas bestas não servem para nada contra mim. Venham logo, suas lesmas, seus sanguessugas, seus carrapatos de sangue de barata! Venham e me derrotem se puderem!
Com uma rajada de gritos de guerra, um grupo de trinta soldados largou as bestas, sacou as espadas chamejantes e, segurando no alto os escudos, correu em direção a Roran e seus homens.
— Senhor — Roran ouviu Harald dizer por cima do seu ombro direito —, eles estão em número muito maior que nós.
— É — disse Roran, mantendo os olhos fixos nos soldados que se aproximavam. Quatro deles tropeçaram e ficaram imóveis no chão, perfurados por uma quantidade de flechas. — Se todos nos atacarem ao mesmo tempo, não teremos nenhuma chance.
— É verdade, mas não vão atacar. Olhem, estão confusos e desorganizados. O comandante deve ter morrido. Desde que mantenhamos a ordem, eles não conseguirão nos superar.
— Mas, Martelo Forte, sozinhos, não temos como matar tantos homens.
Roran olhou de relance para Harald ali atrás.
— É claro que temos! Nós lutamos para proteger nossas famílias e para recuperar nossas casas e nossas terras. Eles lutam porque Galbatorix os força a isso. Não têm o entusiasmo necessário para essa batalha. Portanto, pensem nas suas famílias, pensem nas suas casas, e lembrem-se de que é isso o que estão defendendo. Um homem que luta por alguma coisa maior do que ele pode matar cem inimigos com facilidade! — Enquanto falava, Roran viu mentalmente uma imagem de Katrina, no vestido azul do casamento, sentiu o cheiro da sua pele e ouviu os tons contidos da sua voz nas conversas que tiveram tarde da noite.
Katrina. E então os soldados já estavam ali, e por um tempo Roran não ouviu nada a não ser o baque das espadas rechaçadas por seu escudo, o ruído metálico do martelo que batia nos elmos dos soldados e seus gritos enquanto caíam debaixo dos seus golpes.
Os soldados se jogaram contra ele com uma força desesperada, mas não estavam à sua altura ou à de seus homens. Quando derrubou o último dos soldados atacantes, Roran caiu na risada, satisfeitíssimo. Que alegria esmagar quem pretendia prejudicar sua mulher e seu filho por nascer! Ficou feliz de ver que nenhum dos seus guerreiros fora ferido com gravidade. Também percebeu que, durante a refrega, alguns dos arqueiros haviam descido dos telhados para lutar a cavalo ao seu lado.
— Bem-vindos ao combate! — disse ele, sorrindo para os recém-chegados.
— Boas-vindas de fato acolhedoras! — retrucou um deles.
Roran indicou o lado direito da rua com seu martelo coalhado de sangue.
— Você, você e você, empilhem os corpos logo ali. Façam com eles e com o carroção um funil, para que somente dois ou três soldados consigam chegar a nós de cada vez.
— Sim, senhor! — responderam os guerreiros, apeando com agilidade.
Um quadrelo veio zunindo na direção de Roran. Ele não fez caso da flecha e concentrou a atenção no corpo principal de soldados, de onde um grupo de talvez cem indivíduos estava se reunindo para uma segunda investida.
— Depressa! — gritou Roran para os homens que estavam mudando os corpos de lugar. — Eles estão quase chegando. Harald, vá ajudar.
Roran molhou os lábios, nervoso, assistindo ao trabalho braçal dos seus homens enquanto os soldados avançavam. Para seu alívio, os quatro Varden arrastaram o último corpo para o lugar e voltaram correndo para suas montarias momentos antes que outro grupo de soldados chegasse. As casas de cada lado da rua, assim como o carroção virado e a medonha barricada de restos humanos, retardavam e comprimiam o fluxo de soldados, tanto que chegavam a quase parar quando alcançavam Roran. Estavam tão apinhados que não conseguiam escapar das flechas atiradas sobre eles.
As duas primeiras fileiras de soldados portavam lanças, com as quais ameaçavam Roran e os outros Varden. Roran se defendeu de três investidas separadas, praguejando o tempo todo enquanto se dava conta de que, com seu martelo, não conseguia dar nenhum golpe além das lanças. Então, um soldado feriu Fogo na Neve na espádua, e Roran se debruçou para a frente para evitar ser jogado quando o garanhão guinchou e se empinou. Quando Fogo na Neve pisou de novo nas quatro patas, Roran saiu deslizando da sela, mantendo o garanhão entre si mesmo e a cerca de soldados lanceiros. Fogo na Neve refugou quando outra lança penetrou seu couro. Antes que os soldados pudessem feri-lo de novo, Roran puxou-o pelas rédeas e o forçou a andar de ré até que houvesse espaço suficiente entre os outros cavalos para que desse a volta.
— Iá! — gritou ele, dando um tapa no traseiro de Fogo na Neve, para que saísse a galope do povoado. — Abram caminho! — berrou Roran, acenando para os Varden.
Eles abriram uma passagem entre suas montarias, e ele saltou de novo para a frente de combate, enfiando o martelo no cinto. Um soldado tentou cravar uma lança no peito de Roran, que bloqueou o golpe com o pulso, ferindo-se na haste de madeira dura e depois arrancando a lança das mãos do soldado. O homem caiu de cara no chão. Girando a arma, Roran atingiu o agressor e então avançou para ferir mais dois soldados.
Sua postura era aberta, com os pés plantados com firmeza no solo fértil onde um dia teria tentado plantar uma lavoura, e ele agitava a lança contra seus inimigos aos gritos.
— Venham, seus malditos desnaturados! Venham me matar se puderem! Sou Roran Martelo Forte, e não existe homem vivo que eu tema!
Os soldados avançavam arrastando os pés, três homens pisando sobre os corpos dos antigos companheiros para trocar golpes com Roran. Saindo para um lado como num passo de dança, Roran fincou sua lança no queixo do soldado mais à direita, destroçando seus dentes. Um filete de sangue acompanhou a lâmina da lança quando Roran a retirou e abaixando-se sobre um joelho, perfurou o soldado do meio através de uma axila.
Um impacto abalou o ombro de Roran. Seu escudo pareceu dobrar de peso. Levantando-se, viu uma lança cravada nas tábuas de carvalho do seu escudo; e o soldado que restava do trio vinha investindo contra ele com a espada em riste. Roran ergueu a lança acima da cabeça, como se estivesse prestes a atirá-la e, quando o soldado hesitou, deu-lhe um chute no meio das pernas. Despachou, então, o homem com apenas um golpe.
Durante a trégua momentânea que se seguiu no combate, Roran soltou o braço do escudo inutilizado e o jogou, junto com a lança que o perfurava, diante dos pés dos inimigos, esperando emaranhar suas pernas.
Mais soldados avançaram arrastando os pés, intimidando-se perante o sorriso cruel e a lança penetrante de Roran. Um monte fúnebre foi crescendo diante dele. Quando atingiu a altura da sua cintura, Roran saltou para o topo da banqueta encharcada de sangue e lá permaneceu porque, apesar do apoio escorregadio, a altura lhe era vantajosa. Como os soldados eram forçados a escalar uma rampa de cadáveres para chegar a ele, Roran conseguia matar muitos quando tropeçavam num braço, numa perna, quando pisavam no pescoço mole de um dos predecessores ou quando escorregavam num escudo inclinado. Do alto, Roran pôde ver que os soldados que restavam haviam decidido se juntar ao ataque, fora cerca de vinte do outro lado do povoado que ainda estavam lutando contra os guerreiros de Sand e de Edric. Ele se deu conta de que não teria mais descanso até que a batalha terminasse.
Roran recebeu grande quantidade de ferimentos ao longo daquele dia. Muitos eram de pouca importância – um corte na parte interna do antebraço, um dedo quebrado, um arranhão nas costelas onde uma adaga tinha rompido sua cota de malha – mas outros, não. De onde estava caído sobre a pilha de corpos, um soldado cortou Roran no músculo da panturrilha direita, prejudicando seus movimentos. Pouco depois, um homem troncudo, que cheirava a cebola e queijo, caiu se apoiando em Roran e, com seu último alento, enfiou a flecha de sua besta em seu ombro esquerdo, o que daí em diante o impediu de levantar o braço acima da cabeça. Roran deixou a flecha fincada na carne, pois sabia que poderia sangrar até a morte se a arrancasse. A dor passou a ser sua sensação mais nítida. Cada movimento lhe causava uma agonia renovada; mas ficar imóvel equivaleria a morrer, e assim continuou a distribuir golpes mortais, sem fazer caso dos ferimentos e do cansaço. Às vezes, Roran tinha consciência dos Varden logo atrás ou ao seu lado, como, por exemplo, quando projetavam uma lança que passava por ele, ou quando a lâmina de uma espada surgia veloz ao lado do seu ombro para abater um soldado que estava prestes a lhe esmagar o crânio. Contudo, na maior parte do tempo, Roran enfrentava os soldados sozinho, por causa da pilha de corpos e do espaço apertado entre o carroção virado e as laterais das casas. Lá no alto, os arqueiros que ainda dispunham de munição mantinham sua barragem letal, com suas flechas com penas de ganso cinza penetrando em ossos e tendões indiscriminadamente.
Mais tarde na batalha, Roran atirou uma lança num soldado; e, quando a ponta atingiu a armadura do homem, a haste rachou e se partiu ao comprido. O fato de ainda estar vivo pareceu apanhar o soldado de surpresa, pois ele hesitou antes da brandir a espada para revidar. Esse atraso imprudente permitiu que Roran mergulhasse por baixo do aço que zunia e apanhasse do chão outra lança, com a qual matou o soldado. Para sua aflição e revolta, a segunda lança durou menos de um minuto até que também se estilhaçou nas suas mãos. Jogando as lascas sobre os soldados, Roran pegou um escudo de um morto e sacou o martelo do cinto. Seu martelo, pelo menos, nunca o deixara na mão.
A exaustão provou ser o maior adversário de Roran à medida que os últimos soldados iam se aproximando, cada homem esperando sua vez de duelar com ele. Os braços de Roran pareciam pesados e sem vida, sua visão tremia, e ele parecia estar sem ar. Mesmo assim, de algum modo, sempre conseguia reunir a energia necessária para derrotar o próximo oponente. Como seus reflexos estavam mais lentos, os soldados conseguiram lhe impor muitos cortes e contusões que mais cedo teria evitado com facilidade. Quando surgiram lacunas entre os soldados, e Roran pôde ver depois deles o espaço aberto, ele soube que sua terrível provação estava quase chegando ao fim. Não ofereceu misericórdia aos doze últimos, nem eles lhe fizeram esse pedido, muito embora não pudessem ter esperança de conseguir passar por Roran assim como pelos Varden logo adiante. Também não tentaram fugir. Pelo contrário, vieram correndo contra ele, rosnando, praguejando, com o único desejo de matar o homem que havia derrubado tantos dos seus companheiros, antes que igualmente passassem para o nada.
De certo modo, Roran admirou sua bravura. Flechas crivaram o peito de quatro dos homens, derrubando-os. Uma lança atirada de algum ponto por trás de Roran atingiu um quinto homem na clavícula, e ele também tombou num leito de cadáveres. Mais duas lanças fizeram suas vítimas, e então os homens chegaram a Roran.
O soldado da vanguarda tentou atingi-lo com uma archa. Apesar de sentir a ponta da flecha da besta arranhando seu osso, Roran levantou o braço esquerdo e bloqueou o machado com o escudo. Uivando de dor e raiva, somadas a um desejo avassalador de que a batalha terminasse, Roran girou de repente seu martelo e matou o soldado com um golpe na cabeça. Sem parar, pulou para a frente com a perna boa e atingiu o soldado seguinte duas vezes no peito, fraturando suas costelas antes que ele pudesse se defender. O terceiro homem se defendeu de dois ataques, mas depois Roran o enganou com uma finta e também o matou. Os dois últimos soldados convergiram contra Roran, cada um de um lado, procurando acertar seus tornozelos enquanto subiam ao topo do monte de corpos. Sem forças, Roran lutou contra eles por um tempo prolongado e cansativo, tanto ferindo como sendo ferido, até que por fim matou um homem afundando-lhe o elmo, e o outro, quebrando seu pescoço com um golpe preciso.
Roran se apoiou no martelo e examinou o campo de batalha. Pela primeira vez, avaliava a que altura o monte de corpos tinha crescido. Ele e os companheiros estavam no mínimo a seis metros do chão, o que era quase no mesmo nível do alto do telhado das casas de cada lado.
Roran constatou que a maioria dos soldados morrera de flechadas, mas, mesmo assim, sabia que havia abatido um grande número sozinho.
— Quan... quantos? — perguntou a Harald.
O guerreiro banhado em sangue abanou a cabeça.
— Perdi a conta depois de trinta e dois. Pode ser que outro de nós possa dizer. O que você fez, Martelo Forte... Nunca vi um feito desses, não por parte de alguém de capacidade humana. O dragão Saphira escolheu bem. Os homens da sua família são lutadores incomparáveis. Não existe mortal que tenha sua bravura, Martelo Forte. Não importa quantos você tenha matado aqui hoje, eu...
— Foram cento e noventa e três! — gritou Carn, subindo na direção deles.
— Você tem certeza? — perguntou Roran, sem acreditar.
Carn fez que sim, quando chegou onde eles estavam.
— Tenho! Fiquei olhando e contei com atenção. Foram cento e noventa e três. Cento e noventa e quatro se contarmos o homem que você feriu na barriga antes que os arqueiros terminassem com ele.
A soma deixou Roran impressionado. Não suspeitara que o total fosse tão alto. Uma risada rouca lhe escapou.
— Pena que não haja mais nenhum deles. Mais sete e eu teria conseguido duzentos redondo.
Os outros homens riram também. Com o rosto magro enrugado de preocupação, Carn estendeu a mão para a flecha fincada no ombro esquerdo de Roran.
— Ei, deixe-me cuidar dos seus ferimentos.
— Não! — disse Roran, afastando-o. — Pode haver outros com ferimentos mais graves que os meus. Cuide deles primeiro!
— Roran, alguns desses cortes poderão acabar sendo fatais a menos que eu estanque a hemorragia. Não vai demorar um...
— Estou bem — rosnou ele. — Me deixe em paz.
— Roran, apenas olhe para si mesmo!
Roran olhou e desviou o olhar.
— Mas que seja rápido. — Roran fitou o céu desinteressante, com a cabeça vazia de pensamentos enquanto Carn arrancava a flecha do seu ombro e murmurava vários encantamentos. Em cada ponto em que a magia fazia efeito, Roran sentia sua pele comichar e formigar, sensações seguidas de uma abençoada anestesia. Quando Carn terminou, Roran ainda sentia dor, mas não tão forte, e sua cabeça estava mais desanuviada do que antes. A cura deixou Carn pálido e trêmulo. Ele se apoiou nos próprios joelhos até os tremores passarem.
— Vou... — Ele parou para recuperar fôlego. — Vou agora ajudar os outros feridos. — Endireitou-se e começou a descer do monte de corpos, guinando de um lado para outro como se estivesse bêbado.
Preocupado, Roran observou-o enquanto o feiticeiro caminhava. Depois, ocorreu-lhe saber qual teria sido o destino do restante da expedição. Olhou para o outro lado do povoado sem ver nada a não ser corpos espalhados, alguns trajados no vermelho do Império, outros, na lã marrom preferida pelos Varden.
— E Edric e Sand? — perguntou ele a Harald.
— Desculpe, Martelo Forte, mas não vi nada além do alcance da minha espada.
— E Edric e Sand? — gritou ele para os poucos homens que ainda estavam em pé no telhado das casas.
— Não sabemos, Martelo Forte! — responderam.
Apoiando-se no martelo, Roran desceu aos poucos a ladeira de corpos tombados e, com Harald e mais três ao lado, atravessou a clareira no centro do povoado, executando cada soldado que encontravam ainda com vida. Quando chegaram ao ponto em que o número de Varden caídos ultrapassava o de soldados mortos, Harald bateu com a espada no escudo e deu um grito.
— Será que resta alguém vivo?
Daí a um instante, uma voz voltou para eles do meio das casas.
— Identifique-se!
— Harald, Roran Martelo Forte e outros dos Varden. Se você serve ao Império, entregue-se, pois seus companheiros morreram e você não tem como nos derrotar.
De algum ponto no meio das casas, veio o estrondo de metal caindo, e então, isoladamente e aos pares, guerreiros dos Varden surgiram saindo do esconderijo e vieram mancando em direção à clareira, muitos deles amparando companheiros feridos. Pareciam atordoados, e alguns estavam tão manchados de sangue que Roran de início os confundiu com soldados capturados. Contou vinte e quatro homens. Entre o grupo final de retardatários estava Edric, amparando um homem que havia perdido o braço direito durante o combate. Roran fez um gesto, e dois dos seus homens se apressaram a aliviar Edric desse encargo. O capitão se empertigou ao se livrar do peso. Com passos lentos, caminhou até Roran e o encarou direto nos olhos, com uma expressão impossível de interpretar. Nem ele nem Roran se mexeram, e Roran se deu conta de que a clareira estava num silêncio extraordinário. Edric foi o primeiro a falar.
— Quantos dos seus homens sobreviveram?
— A maioria. Não todos, mas a maioria.
Edric assentiu.
— E Carn?
— Está vivo... E Sand?
— Um soldado o atingiu durante a investida. Morreu há apenas alguns minutos. — Edric olhou para além de Roran, na direção do monte de corpos. — Você desafiou minhas ordens, Martelo Forte.
— Desafiei.
Edric lhe estendeu a mão aberta.
— Capitão, não! — exclamou Harald, dando um passo adiante. — Se não fosse por Roran, nenhum de nós estaria aqui. E o senhor precisava ver o que ele fez. Só ele matou quase duzentos.
A súplica de Harald não causou nenhuma impressão em Edric, que continuou com a mão estendida. Roran também permaneceu impassível.
— Roran — Harald voltou-se para ele —, você sabe que os homens são seus. Basta dar a ordem e nós...
— Não seja tolo — disse Roran, calando-o com um olhar furioso.
— Pelo menos, você não está totalmente desprovido de juízo — observou Edric, com os lábios crispados. — Harald, feche a matraca a menos que queira conduzir os cavalos de carga todo o caminho de volta.
Erguendo o martelo, Roran o entregou a Edric. Depois desafivelou o cinto, do qual pendiam sua espada e sua adaga, que também entregou a Edric.
— Não tenho outras armas — informou ele.
Edric anuiu, com ar severo, e jogou o cinto sobre um ombro.
— Roran Martelo Forte, neste momento eu o dispenso do comando. Dá-me sua palavra de honra de que não tentará fugir?
— Dou-lhe minha palavra de honra.
— Então, trate de ser útil no que for possível, mas em tudo o mais deverá se comportar como um prisioneiro. — Edric olhou ao redor e apontou para outro guerreiro. — Fuller, você assumirá a posição de Roran até voltarmos ao grupo principal dos Varden, quando Nasuada decidirá o que será feito a respeito desse assunto.
— Sim, senhor — disse Fuller.
Por algumas horas, Roran curvou-se junto com os outros guerreiros enquanto recolhiam seus mortos e os enterravam na periferia do povoado. Durante esse processo, Roran soube que somente nove dos seus oitenta e um guerreiros morreram na batalha, ao passo que, entre eles, Edric e Sand haviam perdido quase cento e cinquenta homens; e Edric teria perdido mais, se não fosse pelo fato de que um punhado dos seus guerreiros havia permanecido com Roran depois do resgate.
Quando terminaram de enterrar suas baixas, os Varden recuperaram suas flechas. Construíram, então, uma pira no centro do povoado, retiraram o equipamento dos soldados e os arrastaram para cima da pilha de madeira, à qual atearam fogo. Os corpos em incineração encheram o céu com uma coluna de fumaça negra e gordurosa que subiu pelo que deu a impressão de ser quilômetros. Através dela, o sol parecia um disco plano e vermelho. A mulher e o menino que os soldados haviam capturado não foram encontrados em parte alguma. Como seus corpos não estavam entre os mortos, Roran supôs que os dois tivessem fugido do povoado quando o combate começou, o que, pensou ele, foi provavelmente a melhor coisa que poderiam ter feito. Desejou que tivessem sorte, aonde quer que tenham ido.
Para agradável surpresa de Roran, Fogo na Neve voltou trotando para o povoado minutos antes que os Varden partissem. De início, o garanhão estava arredio e nervoso, não permitindo a aproximação de ninguém. Falando em voz baixa, porém, Roran conseguiu acalmá-lo o suficiente para limpar os ferimentos na espádua do animal e aplicar-lhe curativos. Como não seria prudente montar em Fogo na Neve enquanto ele não estivesse totalmente curado, Roran o amarrou à frente dos cavalos de carga, o que imediatamente desagradou ao garanhão, fazendo com que achatasse as orelhas para trás, agitasse a cauda e encrespasse os beiços para mostrar os dentes.
— Comporte-se! — repreendeu Roran, afagando-lhe o pescoço. Fogo na Neve revirou um olho para ele e relinchou baixo, relaxando um pouco as orelhas. Então Roran montou num capão que tinha pertencido a um dos Varden mortos e foi para seu lugar no final da fila de homens organizada entre as casas.
Não fez caso dos muitos olhares dirigidos para ele, mas se sentiu encorajado quando diversos guerreiros murmuraram “Muito bem!”. Enquanto esperava que Edric comandasse o avanço, Roran pensou em Nasuada, Katrina e Eragon, e uma nuvem de pavor toldou seus pensamentos ao se perguntar como reagiriam ao ter notícia do seu motim. Daí a um segundo, afastou suas preocupações. Fiz o que era certo e necessário, disse a si mesmo. Não me arrependerei, não importam as consequências.
— Avante! — gritou Edric, da vanguarda da procissão.
Roran esporeou sua montaria num passo rápido, e como se fossem um, ele e os outros homens cavalgaram para o oeste, afastando-se do povoado, deixando que a pilha de soldados queimasse até se extinguir.

2 comentários:

  1. Hey Ka! Tem alguma previsão de quando vcs vão terminar de revisar Brisingr e Herança????

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    1. Só quando eu estiver de férias, lá pro meio de agosto...

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Boa leitura :)