3 de junho de 2017

Capítulo 35 - Conselho de clãs

Os anões que montavam guarda fora da câmara de Orik abriram as portas duplas para Eragon entrar.
A passagem à frente era longa e decorada, mobiliada com três assentos circulares estofados em vermelho e alinhados no meio da sala. Cortinas bordadas adornavam as paredes ladeadas pelas onipresentes lanternas sem chama dos anões, e o teto havia sido entalhado com a representação de uma famosa batalha da história daquele povo.
Orik estava em conferência com um grupo de seus guerreiros e diversos anões do Dûrgrimst Ingeitum. Quando Eragon se aproximou, Orik virou-se para ele, seu olhar era sinistro.
— Bom, você não se atrasou! Hûndfast, pode se retirar para seus aposentos agora. Precisamos conversar em particular.
O tradutor de Eragon fez uma mesura e desapareceu pela arcada à esquerda, seus passos ecoando no piso de ágata polido. Assim que o anão se afastou o suficiente, Eragon perguntou:
— Você não confia nele?
Orik deu de ombros.
— Não sei em quem confiar no momento; quanto menos pessoas souberem o que nós descobrimos, melhor. Nós não podemos correr o risco de deixar a notícia escapar para outro clã até amanhã. Se escapar, certamente significará uma guerra de clãs.
Os anões atrás dele murmuraram entre si, parecendo constrangidos.
— Mas quais são as suas notícias? — quis saber Eragon, preocupado.
Os guerreiros que estavam juntos, atrás de Orik, se moveram para o lado quando este lhes fez um gesto, revelando assim três anões amarrados e ensanguentados empilhados num canto. O anão que estava embaixo rosnava e chutava o ar, mas era incapaz de se livrar de seus companheiros prisioneiros.
— Quem são eles? — perguntou Eragon.
— Mandei nossos ferreiros examinarem as adagas que seus agressores estavam usando — Orik começou a responder. — Eles identificaram o estilo de Kiefna Nariz-longo, um espadeiro de nosso clã, famoso entre nosso povo.
— Então ele pode nos dizer quem comprou as adagas e, por conseguinte, quem são nossos inimigos?
Uma brusca gargalhada sacudiu o peito de Orik.
— Pouco provável, mas nós conseguimos rastrear as adagas de Kiefna até um armeiro em Dalgon, a muitos quilômetros daqui, que as vendeu a uma knurlaf com...
— Uma knurlaf? — interrompeu Eragon.
Orik fez uma carranca.
— Uma mulher. Uma mulher com sete dedos em cada mão comprou as adagas dois meses atrás.
— E você a encontrou? Não pode haver muitas mulheres com essa quantidade de dedos.
— Na verdade, essa característica é muito comum em nosso povo — disse Orik. — Seja como for, mesmo com dificuldade, nós conseguimos localizar a mulher em Dalgon. Meus guerreiros estiveram lá e a questionaram minuciosamente. Ela é do Dûrgrimst Nagra, mas, até onde podemos determinar, estava agindo por conta própria e não sob influência dos líderes do clã. Por ela, soubemos que um anão a havia contratado para comprar as adagas e depois as entregar a um mercador de vinhos que sairia de Dalgon com as armas. O empregador da mulher não lhe disse para onde iriam as adagas, mas, perguntando aos mercadores da cidade, descobrimos que ele viajou diretamente de Dalgon para uma das cidades sob o comando do Dûrgrimst Az Sweldn rak Anhûin.
— Então foram eles! — exclamou Eragon.
— Ou isso, ou alguém queria que pensássemos assim. Nós precisávamos de mais evidências antes de determinar a culpa do Az Sweldn rak Anhûin. — Um brilho surgiu nos olhos de Orik, e ele ergueu um dedo. — Então, por meio de um encanto muito, muito sagaz, nós refizemos o caminho dos assassinos através dos túneis e cavernas até uma área deserta no décimo segundo nível de Tronjheim, perto do corredor auxiliar adjunto do raio sudoeste no quadrante oeste, ao longo do... ah, bem, pouco importa. Mas algum dia eu vou ter de ensinar a você como as salas estão dispostas em Tronjheim, de modo que possa algum dia encontrar por si próprio um lugar em nossa cidade, caso venha a precisar. De qualquer modo, a trilha nos levou a um armazém abandonado onde esses três estavam. — Ele gesticulou na direção dos anões amarrados. — Não estavam nos esperando, então pudemos capturá-los, embora tenham tentado se matar. Não foi fácil, mas invadimos a mente de dois deles e deixamos o terceiro para os outros grimsthorithn interrogarem a seu bel-prazer; extraímos deles tudo o que sabiam a respeito do assunto. — Orik apontou novamente para os prisioneiros. — Foram eles que equiparam os assassinos para o ataque, forneceram as adagas e as roupas negras e os alimentaram e os abrigaram na noite passada.
— Quem são os assassinos? — perguntou Eragon.
— Arh! — exclamou Orik e cuspiu no chão. — Eles são Vargrimstn, guerreiros que desgraçaram suas vidas e agora estão sem clã. Ninguém lida com esse rebotalho a menos que a pessoa esteja envolvida ela própria em vilanias e não quer que os outros saibam. Foi assim com esses três. Eles receberam as ordens diretamente de grimstborith Vermûnd do Az Sweldn rak Anhûin.
— Não há dúvida?
Orik balançou a cabeça.
— Não há dúvida; foi o Az Sweldn rak Anhûin que tentou matar você, Eragon. Provavelmente, jamais saberemos se algum outro clã se juntou a eles na tentativa, mas se expusermos a traição do Az Sweldn rak Anhûin, conseguiremos forçar todos os outros envolvidos no complô a desacreditar seus antigos aliados, a abandonar ou, pelo menos, adiar outros ataques ao Dûrgrimst Ingeitum e, se bem urdido por nós, a me dar seus votos para que eu me torne rei.
Surgiu como um flash na mente de Eragon a imagem da lâmina prismática emergindo da nuca de Kvîstor e a expressão agonizante do anão ao cair no chão, sem vida.
— Como vamos punir Az Sweldn rak Anhûin por esse crime? Teremos de matar Vermûnd?
— Ah, deixe isso comigo — disse Orik, e deu um tapinha no canto do nariz. — Eu tenho um plano. Mas devemos agir com cuidado, porque essa é uma situação extremamente delicada. Uma traição dessas não acontecia há muitos e muitos anos. Como um estrangeiro, você não pode saber o quão repugnante consideramos o fato de um de nós agredir um convidado. Você ser o último e único Cavaleiro a se opor a Galbatorix apenas piora a ofensa. Mais derramamento de sangue pode ainda ser necessário, no momento, porém, só proporcionaria outra guerra de clãs.
— Uma guerra de clãs talvez seja a única maneira de lidar com Az Sweldn rak Anhûin — apontou Eragon.
— Acho que não, mas se eu estiver errado e a guerra for inevitável, precisamos garantir que seja uma guerra de todos os outros clãs contra o Az Sweldn rak Anhûin. Isso não seria tão ruim. Juntos, poderíamos esmagá-los em uma semana. Uma guerra com os clãs separados em duas ou três facções, entretanto, destruiria nosso território. Dessa forma, é crucial que antes de desembainharmos nossas espadas, tentemos convencer os outros do que Az Sweldn rak Anhûin fez. Com essa finalidade, você permitiria que magos de diferentes clãs examinassem suas lembranças do ataque de modo que pudessem ver que tudo aconteceu exatamente como estamos dizendo que aconteceu? Para que fique provado que não inventamos isso para nosso benefício?
Eragon hesitou, relutante de abrir sua mente para estranhos, então balançou a cabeça na direção dos três anões empilhados um em cima do outro.
— E quanto a eles? Suas lembranças não são suficientes para convencer os clãs da culpa do Az Sweldn rak Anhûin?
Orik fez uma careta.
— Eles devem ser, mas para que a coisa fique completa, os chefes de clã insistirão em comparar as lembranças deles com as suas e, caso você se recuse, Az Sweldn rak Anhûin dirá que estamos escondendo alguma coisa do conselho de clãs e que nossas acusações não passam de uma ficção caluniosa.
— Muito bem — concluiu Eragon. Se é preciso, farei. Mas se algum dos magos for aonde não deve ir, mesmo que por acidente, não vou ter escolha a não ser queimar em suas mentes o que tiverem visto. Há certas coisas que não posso permitir que sejam de conhecimento público.
Orik assentiu.
— Certo, posso imaginar pelo menos uma parte obscura e secreta que nos causaria alguma consternação se fosse anunciada por aí, hein? Estou certo de que os chefes de clã aceitarão suas condições, pois todos têm segredos que não querem ver divulgados, assim como estou certo de que vão pedir para os magos fazerem seu trabalho independentemente do perigo. Esse ataque tem o potencial de incitar tanta agitação entre nossa raça que os grimstborithn se sentirão compelidos a determinar a verdade sobre ele, mesmo que o custo seja as vidas de seus mais habilidosos feiticeiros.
Esticando-se o máximo que podia em sua limitada altura, Orik ordenou que os prisioneiros fossem removidos da passagem decorada e dispensou todos os vassalos, menos Eragon, e um contingente de vinte e seis de seus melhores guerreiros. Com um floreio gracioso, Orik agarrou o cotovelo esquerdo de Eragon e o conduziu até as salas internas de sua câmara.
— Você deve dormir essa noite aqui, comigo, onde Az Sweldn rak Anhûin não ousará atacar.
— Se você pretende dormir — disse Eragon —, eu devo alertá-lo, não consigo descansar, não nessa noite. Meu sangue ainda está fervendo devido ao tumulto da batalha, e meus pensamentos estão igualmente inquietos.
— Descanse ou não. A escolha é sua — retrucou Orik. — Você não perturbará meu sono, pois eu colocarei um gorro de lã grossa sobre os olhos. Mas insisto que você deveria tentar se acalmar, quem sabe com algumas técnicas que os elfos ensinaram, e recuperar suas forças. O novo dia já está quase nascendo e poucas horas restam até que o conselho de clãs se reúna. Deveríamos estar no melhor de nossas formas para o que vier a acontecer. O que fizermos e dissermos hoje deverá determinar o destino de meu povo, meu território e do resto da Alagaësia... Ah, não fique com essa cara tão agourenta! Pense nisso: não importa se vencermos ou perdermos, e eu certamente espero que vençamos, nossos nomes serão lembrados até o fim dos tempos pela forma como nos comportarmos nesse conselho de clãs. Isso pelo menos é um êxito para encher sua barriga de orgulho! Os deuses são inconstantes, e a única imortalidade que podemos esperar é aquela que conseguimos através de nossos feitos. Fama ou infâmia, qualquer uma delas é preferível ao esquecimento depois de sairmos desse domínio.


Mais tarde naquela noite, nas últimas horas da madrugada, os pensamentos de Eragon começaram a vagar assim que ele desabou no aconchego do abraço acolchoado de urna poltrona anã, e a moldura de sua consciência se dissolveu na fantasia desordenada de seu sonhar acordado. Ainda que estivesse consciente do mosaico de pedras coloridas na parede oposta, ele também via – como se houvesse uma tela brilhante costurada sobre o mosaico – cenas de sua vida no vale Palancar antes que o destino implacável e sangrento houvesse interferido em sua existência. As cenas, no entanto, divergiam dos fatos estabelecidos, e o faziam mergulhar em situações imaginárias construídas gradualmente a partir de fragmentos do que havia efetivamente acontecido. Nos últimos momentos antes de despertar de seu estupor, sua visão tremeluziu e as imagens adquiriram um sentido de delírio.
Ele estava em pé na oficina de Horst, aberta com as portas escancaradas e as dobradiças soltas, como se fossem os dentes à mostra de um idiota insolente. Do lado de fora havia uma noite sem estrelas, e a escuridão total parecia querer tomar conta da tênue luz vermelha das brasas, como se estivesse ansiosa para devorar tudo que se encontrava nos limites daquela esfera avermelhada e brilhante. Perto da forja, Horst assomava como um gigante, as sombras ziguezagueantes sobre seu rosto e barba proporcionando uma visão aterradora. Seu braço musculoso subia e descia, e um clangor parecido com o de um sino fazia o ar tremer quando o martelo que segurava golpeava a extremidade de uma barra de aço com um brilho amarelado. Uma explosão de fagulhas extinguia-se no chão. Por mais quatro vezes o ferreiro golpeou o metal. Então, ergueu a barra da bigorna e mergulhou-a em um barril de óleo. Chamas similares a fantasmas, azuis e diáfanas, tremeluziam ao longo da superfície do óleo e desapareciam com pequenos gritos de fúria. Removendo a barra do barril, Horst virou-se para Eragon e franziu o cenho.
— Por que você veio aqui, Eragon?
— Preciso de uma espada de Cavaleiro de Dragão.
— Vá embora. Não tenho tempo para forjar uma espada de Cavaleiro para você. Não consegue ver que eu estou trabalhando em um gancho de panelas para Elain? Ela precisa disso para a batalha. Você está sozinho?
— Não sei.
— Onde está seu pai? Onde está sua mãe?
— Não sei.
Então, uma nova voz surgiu. Uma voz bem limpa, forte e poderosa, dizendo:
— Bom ferreiro, ele não está só. Ele veio comigo.
— E quem é você? — quis saber Horst.
— Sou o pai dele.
Pelas portas escancaradas, uma enorme figura envolta em uma luz tênue emergiu da densa escuridão e postou-se na soleira da oficina. Uma capa vermelha caía por cima de ombros mais largos do que os de um Kull. Na mão esquerda do homem brilhava Zar’roc, afiada como a dor. Através das gretas de seu resplandecente elmo, seus olhos azuis grudaram-se em Eragon, fixando-se como uma flecha em um coelho. Ergueu sua mão livre e estendeu na direção de Eragon.
— Meu filho, venha comigo. Juntos nós podemos destruir os Varden, matar Galbatorix e conquistar toda a Alagaësia. Dê-me seu coração e seremos invencíveis. Dê-me seu coração, meu filho.
Com um gemido, Eragon saltou da poltrona e ficou mirando o chão, os punhos cerrados, o peito arfando. Os guardas de Orik olhavam-no de modo inquisitivo, mas ele os ignorou, irritado demais para explicar seu ataque. Ainda estava cedo, então, depois de um momento, Eragon voltou à poltrona.
Mas a partir daquele instante permaneceu alerta e não se permitiu mais mergulhar no território dos sonhos por temer as manifestações que o atormentariam dessa vez.


Eragon estava encostado na parede, a mão no cabo da espada anã, enquanto observava os vários chefes de clã entrarem na sala de conferências enterrada embaixo de Tronjheim. Mantinha um olho especialmente atento em Vermûnd, o grimstborith do Az Sweldn rak Anhûin, mas se o anão com véu purpúreo ficou surpreso em ver Eragon vivo e saudável, não demonstrou.
Sentiu a bota de Orik tocar a sua. Sem desviar os olhos de Vermûnd, Eragon inclinou-se na direção de Orik e o ouviu sussurrar:
— Lembre-se, para a esquerda e três entradas abaixo — disse ele, referindo-se ao local onde Orik havia disposto cem de seus guerreiros sem o conhecimento dos outros chefes de clã.
Igualmente sussurrando, Eragon perguntou:
— Se sangue for derramado, eu devo aproveitar a oportunidade para matar aquele Vermûnd peçonhento?
— Por favor, não, a menos que ele esteja tentando fazer o mesmo com você ou comigo. — Uma gargalhada baixinha emanou de Orik. — Isso dificilmente aumentaria sua estima entre os outros grimstborithn... Ah, devo ir agora. Reze a Sindri por sorte, hein? Estamos a ponto de nos aventurar em um campo de lava que nenhum de nós jamais ousou atravessar.
E Eragon rezou. Quando todos os chefes de clã estavam sentados em volta da mesa no centro da sala, os que estavam assistindo do perímetro, incluindo Eragon, sentaram-se no círculo de cadeiras encostadas na parede curva. Mas ele não relaxou na sua cadeira, como fizeram muitos anões. Sentou-se na borda, preparado para lutar ao mais leve sinal de perigo.
Assim que Gannel, o guerreiro-sacerdote de olhos negros do Dûrgrimst Quan, se levantou e começou a falar na língua dos anões, Hûndfast aproximou-se do lado direito de Eragon e murmurou uma tradução simultânea. O anão disse:
— Saudações mais uma vez, meus companheiros chefes de clã. Mas se o encontro é oportuno ou não, ainda não decidi, pois certos boatos perturbadores, boatos de boatos, verdade seja dita, alcançaram meus ouvidos. Não tenho informação além desses vagos e preocupantes murmúrios, nem prova sobre a qual fundamentar uma acusação de atos errôneos. Entretanto, como hoje é meu dia de presidir nossa congregação, proponho que atrasemos, por enquanto, nossos debates mais sérios. E se vocês concordarem, permitam-me colocar umas poucas questões ao conselho.
Os chefes de clã murmuraram entre si. Então, Íorûnn, com seu rosto vivido e cheio de covinhas, se pronunciou:
— Não tenho objeção, grimstborith Gannel. O senhor atiçou minha curiosidade com essas insinuações. Vamos ouvir quais são as suas questões.
— Sim, vamos ouvi-las — manifestou-se Nado.
— Vamos ouvi-las — concordou Manndrâth e todos os outros chefes de clã, incluindo Vermûnd.
Tendo recebido a permissão que buscava, Gannel pousou seus dedos sobre a mesa e ficou em silêncio por um instante, atraindo a atenção de todos no recinto. Então, começou sua explanação.
— Ontem, enquanto estávamos almoçando no local que escolhemos para nosso repasto, knurlan nos túneis abaixo do quadrante sul de Tronjheim ouviram um barulho. Relatos da intensidade do barulho diferem, mas o fato de que tantas pessoas numa área tão extensa puderam ouvi-lo é prova suficiente de que o distúrbio não foi pequeno. Como vocês, eu recebi os alertas usuais de uma possível escavação. Todavia, talvez não saibam que somente duas horas após...
Hûndfast hesitou, e rapidamente sussurrou:
— É uma palavra difícil de traduzir em sua língua. Corredores de túneis, acho eu. — E então recomeçou a traduzir como antes. — ... Corredores de túneis descobriram evidências de um poderoso combate em meio a um dos antigos túneis que nosso famoso ancestral, Korgan Barba Longa, escavou. O chão estava pintado de sangue, as paredes estavam escuras de fuligem devido a uma lanterna que a lâmina descuidada de um guerreiro havia quebrado, as pedras em volta estavam rachadas e, espalhados por todos os lados, estavam sete corpos calcinados e mutilados, e havia sinais de que outros haviam sido removidos. Tampouco eram eles resquícios de alguma obscura desavença da batalha de Farthen Dûr. Não! Pois o sangue ainda não havia secado, a fuligem estava macia, as rachaduras eram obviamente recentes e, tal qual me foi relatado, resíduos de poderosos encantamentos ainda podiam ser detectados na área. Neste exato momento, vários dos nossos mais aclamados feiticeiros estão tentando reconstruir uma cópia exata do que ocorreu, mas têm poucas esperanças de sucesso, já que aqueles que estão envolvidos estavam revestidos dos mais remotos encantamentos. Então, minha primeira questão ao conselho é: alguém aqui possui mais informações dessa ação misteriosa?
Assim que Gannel concluiu seu discurso, Eragon ficou com as pernas tensas, preparado para se levantar se os anões com véus purpúreos do Az Sweldn rak Anhûin sacassem suas espadas.
Orik limpou a garganta e disse:
— Eu acredito poder satisfazer um pouco da sua curiosidade a respeito desse ponto, Gannel. Entretanto, como minha resposta deve necessariamente ser longa, sugiro que você faça suas outras perguntas antes de eu começar.
Uma carranca escureceu a testa de Gannel. Batendo com as juntas dos dedos sobre a mesa, ele concordou:
— Muito bem... No que está indubitavelmente relacionado à luta armada nos túneis de Korgan, eu recebi relatos de inúmeros knurlan circulando em Tronjheim e, com intenções furtivas, juntando-se aqui e ali e formando grupos maiores de homens armados. Meus agentes foram incapazes de me dizer com certeza o clã dos guerreiros, mas que qualquer um nesse conselho tente clandestinamente organizar tropas enquanto nós estamos engajados em decidir quem deve suceder o rei Hrothgar sugere motivos dos mais torpes. Então, minha segunda questão ao conselho é essa: quem é o responsável por essa manobra mal pensada? E se ninguém estiver disposto a admitir sua má conduta eu sugiro com todas as minhas forças que ordenemos que todos os guerreiros, independentemente do clã, sejam expulsos de Tronjheim pelo período de duração desse conselho e que nós apontemos imediatamente um jurisconsulto para investigar essa ocorrência e determinar quem deveremos censurar.
A revelação, a questão e a subsequente proposta de Gannel proporcionaram uma agitação de conversas animadas entre os chefes de clã. Anões lançavam acusações, negações e contra-acusações uns aos outros com crescente causticidade até que, finalmente, quando um enfurecido Thordris começou a berrar para um Gáldhiem com o rosto vermelho, Orik limpou a garganta novamente, fazendo com que todos parassem e olhassem para ele. Num tom suave, Orik retornou a palavra:
— Acredito que também isso eu possa explicar, Gannel, pelo menos em parte. Não posso falar pelas atividades dos outros clãs, mas várias centenas de guerreiros que têm andado pelos aposentos dos criados em Tronjheim pertencem ao Dûrgrimst Ingeitum. Admito isso de livre e espontânea vontade.
Todos ficaram em silêncio até Íorûnn perguntar:
— E qual é a sua explicação para esse comportamento beligerante, Orik, filho de Thrifk?
— Como eu disse antes, bela Íorûnn, minha resposta deve necessariamente ser longa, então se você, Gannel, tiver alguma outra questão a fazer, eu sugiro que siga adiante com ela.
A carranca de Gannel se acentuou até suas sobrancelhas protuberantes quase se tocarem. Ele recomeçou:
— Vou reter minhas outras questões por enquanto, pois todas são relacionadas àquelas que já enderecei ao conselho, e parece que precisamos esperar a sua boa vontade para saber algo mais sobre esses assuntos. Entretanto, já que você está envolvido dos pés à cabeça com essas atividades duvidosas, acaba de me ocorrer uma nova questão que eu gostaria de fazer especificamente a você, grimstborith Orik. Por qual motivo você abandonou a reunião de ontem? E deixe-me avisá-lo, eu não tolerarei nenhuma evasão. Você já anunciou que tem conhecimento acerca desses assuntos. Bem, é chegada a hora de nos proporcionar um relato completo de si mesmo, grimstborith Orik.
Orik se levantou no exato instante em que Gannel se sentou.
— Será um prazer.
Baixando seu queixo barbado até que tocasse o peito, Orik fez uma breve pausa e então começou a falar com uma voz marcante, mas não começou como Eragon esperava e tampouco como a congregação esperava, supôs o Cavaleiro. Em vez de descrever a tentativa de assassinato sofrida por Eragon e, assim, explicar por que ele havia encerrado a reunião anterior prematuramente, Orik começou relatando como, na aurora da história, a raça dos anões havia migrado dos então verdes campos do deserto Hadarac para as montanhas Beor, onde escavaram seus incontáveis quilômetros de túneis, construíram suas magníficas cidades acima e abaixo do solo e travaram vigorosa guerra entre seus vários clãs e também contra os dragões que, por mil anos, foram vistos pelos anões com uma mistura de ódio, medo e relutante adoração. Então, Orik falou da chegada dos elfos na Alagaësia e de como estes haviam combatido os dragões até que quase destruíram uns aos outros, e de como, consequentemente, as duas raças haviam concordado em criar os Cavaleiros de Dragão para manter a paz daquele momento em diante.
— E qual foi nossa resposta quando soubemos das suas intenções? — demandou Orik, sua voz ecoando alto na câmara. — Pedimos para ser incluídos em seu pacto? Aspiramos compartilhar o poder que teriam os Cavaleiros de Dragão? Não! Mantivemo-nos fixos em nossas antigas tradições, em nossos ódios, e rejeitamos a própria ideia de nos aliarmos aos dragões ou permitir que qualquer pessoa de fora de nosso domínio nos governasse. Para preservar nossa autoridade, sacrificamos nosso futuro, pois estou convencido de que se alguns Cavaleiros de Dragão tivessem sido knurlan, Galbatorix talvez jamais tivesse ascendido ao poder. Mesmo que eu esteja errado, e eu não quero com isso diminuir Eragon, que provou ser um excelente Cavaleiro, o dragão Saphira poderia ter nascido para alguém de nossa raça e não para um humano. E então, que glórias teriam sido nossas?
“Ao contrário, nossa importância na Alagaësia tem diminuído desde que a rainha Tarmunora e o homônimo de Eragon fizeram as pazes com os dragões. A princípio, nosso status diminuído não era uma bebida tão amarga de engolir e, frequentemente, era mais fácil negá-lo do que aceitá-lo. Mas vieram os Urgals e depois os humanos, e os elfos aperfeiçoaram seus encantamentos de modo que os humanos também pudessem ser Cavaleiros. E então, por acaso, procuramos nos incluir nesse acordo como deveríamos... como era nosso direito?” Orik balançou a cabeça. “Nosso orgulho não permitiria. Por que deveríamos nós, a raça mais antiga da região, implorar aos elfos pelo favor de sua magia? Não precisávamos ligar nosso destino ao dos dragões para salvar nossa raça da destruição, como haviam feito os elfos e os humanos. Ignoramos, é claro, as batalhas que travamos entre nós mesmos. Aqueles, pensávamos nós, eram assuntos privados e que não concerniam a mais ninguém.”
A audiência dos chefes de clã se agitou. Muitos deles demonstravam insatisfação com as críticas de Orik, ao passo que o restante parecia mais receptivo aos seus comentários e estavam com o semblante pensativo.
Orik continuou:
— Enquanto os Cavaleiros de Dragão protegiam a Alagaësia, gozamos o maior período de prosperidade registrado nos anais de nosso domínio. Prosperamos como nunca antes, e ainda assim não fazíamos parte da causa: os Cavaleiros de Dragão. Quando os Cavaleiros caíram, nossas fortunas claudicaram, mas novamente não fazíamos parte da causa: os Cavaleiros. Nenhuma das duas situações é, eu reputo, digna de uma raça da estatura da nossa. Nós não somos uma nação de vassalos subjugados aos caprichos de líderes estrangeiros. Nem deveriam aqueles que não são descendentes de Odgar e Hlordis ditar nosso destino.
Essa linha de argumentação era mais do gosto dos chefes de clã; eles assentiram com a cabeça e sorriram, e Havard inclusive bateu palmas algumas vezes ao ouvir a última frase.
— Consideremos agora nossa era atual — propôs Orik. — Galbatorix está no poder, e todas as raças lutam para permanecer livres de sua tutela, bicou tão poderoso que o único motivo de ainda não termos nos tornado seus escravos é que, até agora, ele não escolheu voar com seu dragão negro até aqui para nos atacar diretamente. Se o fizesse, cairíamos diante dele como árvores jovens numa avalanche. Felizmente, ele parece contente de esperar que tracemos uma trilha de destruição até os portões de sua cidadela em Urû’baen. Agora, lembro a vocês que, antes de Eragon e Saphira aparecerem encharcados e esgotados à nossa porta com uma centena de vociferantes Kull em seus calcanhares, nossa única esperança de derrotar Galbatorix era que, algum dia, em algum lugar, Saphira nasceria para seu Cavaleiro escolhido e que essa pessoa desconhecida seria capaz, quem sabe, por um acaso, se fôssemos mais afortunados do que todos os apostadores existentes, de derrotar Galbatorix. Esperança? Rá! Nem esperança tínhamos: tínhamos esperança de ter esperança. Quando Eragon se apresentou pela primeira vez, muitos de nós ficamos consternados por sua aparição, inclusive eu. “Ele não passa de um garoto”, dissemos. “Teria sido melhor se fosse um elfo”, dissemos. Mas, não, ele demonstrou incorporar todas as nossas esperanças! Destruiu Durza e assim permitiu que salvássemos nossa amada cidade, Tronjheim. Seu dragão, Saphira, prometeu restaurar e trazer de volta a antiga glória de nossa Estrela Rosa. Durante a batalha da Campina Ardente, derrotou Murtagh e Thorn e assim permitiu que ganhássemos o dia. E olhem! Agora mantém a aparência de um elfo e, através de sua estranha magia, adquiriu a velocidade e a força daquela raça.
Orik ergueu o dedo em riste para dar ênfase ao discurso.
— Além do mais, o rei Hrothgar, em sua sabedoria, fez o que nenhum outro rei ou grimstborith jamais havia feito: ele recebeu Eragon no Dûrgrimst Ingeitum e o tornou membro de sua própria família. Eragon não tinha nenhuma obrigação de aceitar essa oferta. Na verdade, estava ciente de que muitas das famílias do Ingeitum eram contrárias a isso e que, no geral, muitos knurlan não olhariam a coisa com bons olhos. Mesmo assim, apesar desse desestímulo, e apesar do fato de que já havia jurado fidelidade a Nasuada, Eragon aceitou a dádiva de Hrothgar, sabendo muito bem que isso apenas tornaria sua vida mais difícil. Como ele próprio me disse, Eragon fez o juramento solene ao Coração de Pedra por causa da responsabilidade que sente por todas as raças da Alagaësia e, principalmente, para conosco, já que nós, pelas ações de Hrothgar, demonstramos muita consideração com ele e Saphira. Por causa da genialidade de Hrothgar, o último Cavaleiro livre da Alagaësia e nossa única esperança de vitória contra Galbatorix escolheu livremente tornar-se um knurla de corpo e alma. Desde então, Eragon tem seguido nossas leis e tradições com todos os seus conhecimentos e tem procurado aprender ainda mais acerca de nossa cultura, de modo que possa honrar o verdadeiro significado de seu juramento. Quando Hrothgar caiu, golpeado pelo traidor Murtagh, Eragon jurou para mim, por todas as pedras da Alagaësia e também como membro do Dûrgrimst Ingeitum, que lutaria com todas as suas forças para vingar a morte de Hrothgar. Ele me deu o respeito e a obediência que me são devidas como grimstborith e eu tenho orgulho de considerá-lo meu irmão adotivo.
Eragon baixou os olhos, seu rosto e as pontas das orelhas queimando. Ele gostaria que Orik não fosse tão livre em seus elogios. Isso apenas tornaria mais difícil a manutenção de sua posição no futuro.
Esticando os braços, num gesto que incluía os outros chefes de clã, Orik exclamou:
— Tudo o que sempre esperamos de um Cavaleiro de Dragão recebemos em Eragon! Ele existe! Ele é poderoso! E abraçou nosso povo como nenhum outro Cavaleiro jamais abraçou! — Então, Orik baixou os braços e, com eles, o volume de sua voz, até que Eragon precisou se esforçar para ouvir suas palavras. — Todavia, como respondemos à sua amizade? Na maioria das vezes, com gracejos, indiferença e um arrogante ressentimento. Somos uma raça ingrata, eu digo a vocês, e nossas mágoas são longas demais, dificultam nosso próprio bem... Existem, inclusive, aqueles tão cheios de ódio putrefato que passaram a usar a violência para saciar a sede de sua raiva. Talvez ainda acreditem que estejam fazendo o melhor para nossa raça, mas, se é assim, então suas mentes são tão apodrecidas quanto um pedaço de queijo envelhecido. Se não, por que teriam tentado matar Eragon?
A audiência dos chefes de clã ficou absolutamente imóvel, seus olhos fixados no rosto de Orik. Tão intensa era sua concentração que o corpulento grimstborith Freowin havia deixado de lado seu corvo entalhado e estava com as mãos juntas sobre a ampla barriga, parecendo a todos uma das estátuas dos anões.
À medida que miravam Orik com olhos fixos, o grimstborith relatava ao conselho como os sete anões vestidos de preto haviam atacado Eragon e seus guardas enquanto estavam passeando pelos túneis no subsolo de Tronjheim. Então, Orik contou a eles a respeito do bracelete de crina de cavalo trançada e preso com cabochões de ametista que os guardas de Eragon haviam encontrado em um dos cadáveres.
— Não pense em culpar meu clã por esse ataque baseado numa evidência tão ridícula! — exclamou Vermûnd, elevando a voz. — Pode-se comprar esse tipo de quinquilharia em quase todos os mercados populares de nosso domínio!
— É bem verdade — concordou Orik, e inclinou a cabeça na direção de Vermûnd. Com uma voz imparcial e num ritmo acelerado, pôs-se a contar à audiência, como contara a Eragon na noite anterior, como seus súditos em Dalgon haviam confirmado que as estranhas adagas tremeluzentes que os assassinos usaram haviam sido forjadas pelo ferreiro Kiefna, e também como haviam descoberto que o anão que comprara as armas havia encontrado uma maneira de transportá-las de Dalgon para uma das cidades mantidas por Az Sweldn rak Anhûin.
Rosnando um juramento baixo, Vermûnd levantou-se novamente.
— Aquelas adagas podem jamais ter chegado à nossa cidade e, mesmo que o tivessem, você não pode tirar nenhuma conclusão desse fato! Knurlan de muitos clãs moram em nossa cidade, assim como moram na Fortaleza Bregan. Isso não significa nada. Tenha cuidado com o que dirá em seguida, grimstborith Orik, pois você não tem provas sobre as quais sustentar acusações contra o meu clã.
— Eu tinha a mesma opinião que você, grimstborith Vermûnd — replicou Orik. — Assim, na noite passada, meus feiticeiros e eu refizemos a rota dos assassinos de volta ao local de origem, e no décimo segundo nível de Tronjheim nós capturamos três knurlan que estavam se escondendo em um armazém empoeirado. Invadimos as mentes de dois deles e, a partir daí, soubemos que haviam equipado os assassinos para o ataque. E — a voz de Orik ficou mais áspera e terrível — então soubemos a identidade do seu chefe. Eu o chamo, grimstborith Vermûnd! Eu o chamo de assassino e traidor de juramento. Eu o chamo de inimigo do Dûrgrimst Ingeitum, e eu o chamo de traidor de seu povo, já que você e seu clã tentaram matar Eragon!
O conselho de clãs irrompeu em caos quando cada chefe de clã, exceto Orik e Vermûnd, começou a gritar e balançar as mãos, ou tentou dominar a conversa. Eragon ficou de pé e desembainhou alguns centímetros a espada, de modo que pudesse responder o mais rápido possível caso Vermûnd ou algum de seus anões escolhesse aquele momento para atacar. Todavia, o grimstborith não se moveu, nem Orik; miravam um ao outro como lobos rivais e não prestavam atenção à agitação a sua volta.
Finalmente, Gannel conseguiu restaurar a ordem.
— Grimstborith Vermûnd, você pode refutar essas acusações?
Com uma voz neutra e sem demonstrar emoção, Vermûnd respondeu:
— Eu nego as acusações com cada osso de meu corpo, e desafio qualquer um a prová-las para a satisfação do jurisconsulto.
Gannel voltou-se para Orik.
— Então, apresente suas evidências, grimstborith Orik, para que possamos julgar se são válidas ou não. Há cinco jurisconsultos aqui hoje, se não estou enganado. — Ele apontou para a parede, onde cinco anões de barba branca se levantaram e fizeram uma mesura. — Eles cuidarão para que não ultrapassemos os limites da lei em nossa investigação. Estamos de acordo?
— Estou de acordo — manifestou-se Ûndin.
— Estou de acordo — imitou Hadfala, e todo o resto dos chefes de clã após ela, exceto Vermûnd.
Primeiro, Orik colocou o bracelete de ametista sobre a mesa. Cada chefe de clã mandou um de seus magos examinar a peça, e todos concordaram que, como evidência, aquilo não era conclusivo.
Então, Orik mandou um ajudante trazer um espelho sobre um tripé de bronze. Um dos magos de seu séquito lançou um encanto e, por sobre a superfície lustrosa do espelho apareceu a imagem de uma pequena sala cheia de livros. Um instante passou, e logo um anão correu para dentro da sala e saudou o conselho de clãs do interior do espelho. Com uma voz arquejante, se apresentou como Rimmar e, após fazer juramentos na língua antiga para assegurar sua honestidade, contou para o conselho de clãs como ele e seus assistentes haviam feito suas descobertas concernentes às adagas usadas pelos agressores de Eragon. Quando os chefes de clã terminaram de interrogar Rimmar, Orik mandou seus guerreiros trazerem os três anões que o Ingeitum havia capturado. Gannel mandou que fizessem o juramento de confiabilidade na língua antiga, mas eles o amaldiçoaram, cuspiram no chão e se recusaram. Então, magos de todos os diferentes clãs uniram seus pensamentos, invadiram as mentes dos prisioneiros e arrancaram deles a informação que o conselho de clãs desejava. Sem exceção, os magos confirmaram o que Orik já havia dito. Finalmente, Orik chamou Eragon para depor, que se sentiu nervoso enquanto caminhava em direção à mesa e os treze aterradores chefes de clã o encararam. Olhou para o outro lado da sala, fixou-se sobre uma espiral de cores em um pilar de mármore e tentou ignorar o desconforto. Repetiu os juramentos de confiabilidade que os magos anões lhe propuseram e então, falando não mais do que o necessário, Eragon contou aos chefes de clã como ele e seus guardas haviam sido atacados. Em seguida, respondeu às inevitáveis perguntas dos anões e depois permitiu que dois dos magos – os quais Gannel escolheu ao acaso dentre os reunidos – examinassem suas lembranças do evento.
Assim que baixou as barreiras de sua mente, Eragon notou que os dois magos ficaram, aparentemente, apreensivos, o que o deixou de certa forma contente. Bom, pensou. Se eles estiverem com medo de mim, será menos provável que se aventurem onde não são bem-vindos.
Para alívio de Eragon, a inspeção transcorreu sem incidente algum, e os magos corroboraram seu relato aos chefes de clã. Gannel se levantou de sua cadeira e se dirigiu aos jurisconsultos.
— Estão satisfeitos com a qualidade das evidências que grimstborith Orik e Eragon Matador de Espectros nos mostraram?
Os cinco anões de barba branca fizeram uma mesura, e o anão do meio respondeu por todos:
— Estamos, grimstborith Gannel.
Gannel grunhiu, parecendo não estar surpreso.
— Grimstborith Vermûnd, você é o responsável pela morte de Kvîstor, filho de Bauden, e tentou matar um convidado. E ao fazer isso você envergonhou toda a nossa raça. O que tem a dizer?
O chefe do clã Az Sweldn rak Anhûin pressionou suas mãos abertas sobre a mesa, as veias ingurgitadas por baixo da pele bronzeada.
— Se esse Cavaleiro de Dragão é um knurla de corpo e alma, então não é nenhum convidado e nós podemos tratá-lo como trataríamos qualquer inimigo nosso de um clã diferente.
— Mas isso é grotesco! — exclamou Orik, quase explodindo de indignação. — Você não pode dizer que ele...
— Por favor, acalme sua língua, Orik — advertiu Gannel. — Gritar não resolverá essa questão. Orik, Nado, Íorûnn, venham comigo, por favor.
Eragon começou a ficar preocupado quando os quatro anões foram conversar com os jurisconsultos por alguns minutos. Certamente não vão deixar de punir Vermûnd só por causa de alguns truques verbais!, pensou.
De volta à mesa, Íorûnn comunicou:
— Os jurisconsultos são unânimes. Mesmo que Eragon Matador de Espectros tenha feito um juramento de pertencimento ao Dûrgrimst Ingeitum, ele também possui uma posição de importância além de nossas fronteiras: notadamente, a de Cavaleiro de Dragão, mas também a de um enviado oficial dos Varden, mandado por Nasuada para testemunhar a coroação de nosso próximo líder, e também a de amigo de alta influência da rainha Islanzadí e de sua raça como um todo. Por essas razões, a Eragon é devida a mesma hospitalidade que estenderíamos a qualquer embaixador visitante, príncipe, monarca ou outra pessoa de significância. — A anã olhou de relance para Eragon, seus olhos escuros e brilhantes pousados sobre ele. — Em suma, ele é nosso hóspede de honra, e devemos tratá-lo como tal... o que qualquer knurla que não é um louco das cavernas deveria saber.
— Sim, ele é nosso convidado — concordou Nado. Seus lábios estavam comprimidos e esbranquiçados, e suas bochechas enrugadas, como se houvesse acabado de morder uma maçã ainda não madura.
— O que tem a dizer agora, Vermûnd? — demandou Gannel.
Levantando-se, o anão com véu purpúreo olhou ao redor da mesa, mirando cada um dos chefes de clã.
— Eu digo isso, e ouçam-me bem, grimstborithn: se algum clã virar seu machado contra Az Sweldn rak Anhûin por causa dessas falsas acusações, nós consideraremos isso um ato de guerra e responderemos apropriadamente. Se me aprisionarem, isso também será considerado por nós como um ato de guerra e também responderemos apropriadamente. — Eragon viu o véu de Vermûnd se mexer e imaginou que o anão pudesse ter rido por baixo dele. — Se nos atacarem da maneira que for, seja com aço ou com palavras, não importa o quanto seja suave a investida, consideraremos isso um ato de guerra e responderemos apropriadamente. A menos que estejam ansiosos para transformar nosso domínio em milhares de cacos sangrentos, preencham suas mentes com pensamentos de quem deveria ser o próximo líder a subir em nosso trono de granito.
Os chefes de clã ficaram em silêncio por um bom tempo. Eragon precisou morder a língua para não saltar sobre a mesa e insultar Vermûnd até que os anões concordassem em enforcá-lo por seus crimes. Lembrou-se de que havia prometido a Orik que seguiria sua orientação ao lidar com o conselho de clãs. Orik é meu chefe de clã, e eu devo deixar que responda a isso da maneira que achar melhor.
Freowin descruzou as mãos e bateu na mesa com a palma musculosa. Com sua voz rouca de barítono, que atravessava a sala, embora não parecesse mais alta do que um sussurro, o corpulento anão se pronunciou:
— Você envergonhou nossa raça, Vermûnd. Nós não podemos manter nossa honra como knurlan se ignorarmos sua falta.
A anciã Hadfala embaralhou seu calhamaço de páginas cobertas de runas e também se manifestou:
— O que você pretendia, além de nossa ruína, tentando matar Eragon? Mesmo que os Varden pudessem destronar Galbatorix sem ele, o que seria da dor que o dragão Saphira despejaria sobre nossas cabeças se tivéssemos matado seu Cavaleiro? Ela encheria Farthen Dûr com um oceano de nosso próprio sangue.
Nenhuma palavra escapou da boca de Vermûnd. Uma gargalhada quebrou o silêncio. O som era tão inesperado que, a princípio, Eragon não percebeu que estava vindo de Orik. Com sua alegria diminuindo, ele opinou:
— Se nos colocarmos contra você ou contra Az Sweldn rak Anhûin, você considerará um ato de guerra, Vermûnd? Muito bem, então não nos colocaremos contra você. De forma alguma.
A testa de Vermûnd se projetou.
— Como isso pode ser fonte de diversão para você?
Orik riu novamente.
— Porque pensei em algo que você não tem, Vermûnd. Você deseja que o deixemos e a seu clã em paz? Então, proponho ao conselho de clãs que façamos como Vermûnd deseja. Se Vermûnd tivesse agido por conta própria e não como grimstborith, seria banido por suas ofensas sob pena de morte. Portanto, tratemos o clã como trataríamos a pessoa; proponho banirmos Az Sweldn rak Anhûin de nossos corações e mentes até que escolham substituir Vermûnd por um grimstborith de temperamento mais moderado e até que reconheçam sua vilania e se arrependam dela perante o conselho de clãs, mesmo que esperemos mil anos por isso.
A pele enrugada em volta dos olhos de Vermûnd ficou pálida.
— Você não ousaria.
Orik sorriu.
— Ah, mas não levantaríamos um só dedo contra você ou contra alguém de seu clã. Simplesmente o ignoraremos e nos recusaremos a comerciar com o Az Sweldn rak Anhûin. Você vai declarar guerra contra nós por não termos feito nada, Vermûnd? Por que se o conselho concordar comigo, isso é exatamente o que faremos: nada. Você nos forçará de espada em punho a comprar seu mel, seus tecidos e suas joias de ametista? Você não tem tantos soldados para nos obrigar a fazer isso. — Voltando-se para o restante da mesa, Orik perguntou: — O que vocês dizem?
O conselho de clãs não demorou muito a decidir. Um a um, os chefes de clã se levantaram e votaram pelo banimento do Az Sweldn rak Anhûin. Até mesmo Nado, Gáldhiem e Havard – antigos aliados de Vermûnd – apoiaram a proposta de Orik.
A cada voto favorável, cada pedaço de pele visível do rosto de Vermûnd ficava mais branco, até que ficou parecido com um fantasma vestido nas roupas de sua vida anterior. Quando a votação se encerrou, Gannel apontou na direção da porta.
— Saia, vargrimstn Vermûnd. Saia de Tronjheim hoje mesmo, e que ninguém do Az Sweldn rak Anhûin perturbe o conselho de clãs até que tenham cumprido as condições por nós estabelecidas. Até que esse momento aconteça, nenhum membro do Az Sweldn rak Anhûin será bem-vindo aqui. Mas saiba de uma coisa: apesar de seu clã poder ser absolvido da desonra, você, Vermûnd, permanecerá sempre vargrimstn, até a sua morte. Essa é a vontade do conselho de clãs.
Com a declaração concluída, Gannel se sentou. Vermûnd permaneceu onde estava, seus ombros tremendo com uma emoção que Eragon não conseguia identificar.
— Foi você que envergonhou e traiu nossa raça — grunhiu ele. — Os Cavaleiros de Dragão mataram todo o nosso clã, exceto Anhûin e seus guardas. Você espera que nos esqueçamos disso? Espera que perdoemos isso? Arh! Eu cuspo nos túmulos de seus ancestrais. Nós, pelo menos, não perdemos nossas barbas. Não vamos participar das extravagâncias dessa marionete dos elfos enquanto os membros de nossas famílias mortas ainda clamam por vingança.
Eragon foi acometido por uma sensação de ultraje ao perceber que nenhum dos outros chefes de clã ofereceu uma resposta, e ele próprio estava para responder aos insultos de Vermûnd com duras palavras quando Orik olhou para ele de relance e balançou a cabeça levemente.
Por mais difícil que fosse, Eragon manteve seu ódio sob controle, embora estivesse imaginando por que Orik permitiria que palavras tão pesadas passassem sem contestação. É quase como se... Oh.
Afastando-se da mesa, Vermûnd levantou-se, seus punhos cerrados e os ombros elevados. Retomou o discurso, censurando e depreciando os chefes de clã com crescente intensidade até que começou a gritar a plenos pulmões. Entretanto, por mais vis que fossem as imprecações de Vermûnd, os chefes de clã não respondiam. Miravam ao longe, como se estivessem ponderando complexos dilemas, e seus olhos deslizavam por Vermûnd sem fazer uma pausa. Quando, em sua fúria, o anão agarrou a parte da frente da cota de malha de Hreidamar, seus guardas saltaram sobre ele e o afastaram. Mas, apesar da atitude, Eragon notou que seus semblantes permaneceram brandos e imutáveis, como se estivessem somente ajudando Hreidamar a endireitar sua cota de malha. Assim que soltaram Vermûnd, os guardas não voltaram a olhar para ele.
Um calafrio percorreu a coluna de Eragon. Os anões estavam agindo como se Vermûnd houvesse deixado de existir. Então isso é o que significa ser banido entre os anões. Eragon pensou que seria melhor morrer do que sofrer tamanha sina e, por um instante, sentiu uma pontinha de pena de Vermûnd, que desapareceu logo em seguida, quando se lembrou da expressão de Kvîstor ao morrer.
Vermûnd proferiu uma última vociferação e saiu da sala, seguido pelos membros de seu clã que o acompanhavam na reunião.
A atmosfera entre os chefes que permaneceram melhorou assim que as portas bateram atrás de Vermûnd. Mais uma vez os anões olhavam para todos os lados sem restrição, e retomaram a conversa em voz alta, discutindo o que mais havia para ser feito com relação ao Az Sweldn rak Anhûin. Então, Orik bateu com o cabo de sua adaga na mesa, e todos se voltaram para ouvir o que ele tinha a dizer.
— Agora que resolvemos o assunto de Vermûnd, existe outra questão que eu gostaria de dirigir ao conselho. Nosso propósito aqui é eleger o sucessor de Hrothgar. Todos tivemos muitas coisas a dizer a respeito desse tópico, mas agora acredito que o momento seja oportuno para que coloquemos as palavras atrás de nós e permitamos que nossas ações falem por nós. Assim, eu convoco o conselho a decidir se estamos prontos, e nós estamos mais do que prontos em minha opinião, para proceder à votação final daqui a três dias, como prevê nossa lei. Meu voto é sim.
Freowin olhou para Hadfala, que olhou para Gannel, que olhou para Manndrâth, que deu um tapinha em seu nariz torto e olhou para Nado, mergulhado em sua cadeira e mordendo o interior de sua bochecha.
— Sim — votou Íorûnn.
— Sim — concordou Ûndin.
— Sim — prosseguiu Nado, e assim fizeram os outros oito chefes de clã.


Horas mais tarde, quando o conselho de clãs fez uma pausa para o almoço, Orik e Eragon retornaram aos aposentos do grimstborith para comer. Nenhum dos dois falou até entrarem na sala, que era à prova de escutas. Lá, Eragon permitiu-se um sorriso.
— Você planejou o tempo todo banir o Az Sweldn rak Anhûin, não foi?
Uma expressão de satisfação no rosto, Orik sorriu e bateu com a mão na barriga.
— Planejei sim. Era a única atitude que não levaria inevitavelmente a uma guerra de clãs. Ainda podemos ter uma guerra, mas não será por nosso desígnio. Duvido que tal calamidade venha a acontecer, todavia. Por mais que o odeiem, a maioria dos membros do Az Sweldn rak Anhûin ficará enfraquecida pelo que Vermûnd fez em seu nome. Acho que não continuará sendo grimstborith por muito tempo.
— E agora você garantiu que a votação para o novo rei...
— Ou rainha.
— ... ou rainha aconteça. — Eragon hesitou, relutante em manchar a alegria do triunfo de Orik, mas quis saber: — Você tem realmente o apoio que necessita para subir ao trono?
Orik deu de ombros.
— Antes dessa manhã, ninguém tinha o apoio que necessitava. Agora a correlação de forças mudou, e por enquanto a simpatia está conosco. Talvez devêssemos atacar enquanto o ferro ainda está quente; talvez jamais tenhamos uma oportunidade melhor do que essa. De qualquer modo, não podemos permitir que o conselho se arraste por mais tempo. Se você não voltar logo para os Varden, tudo estará perdido.
— O que devemos fazer enquanto esperamos pela votação?
— Primeiro, devemos celebrar nosso sucesso com um banquete — declarou Orik. — Depois, quando estivermos saciados, devemos continuar como antes: tentando angariar votos adicionais enquanto defendemos aqueles que já ganhamos. — Os dentes de Orik brilhavam sob sua barba quando sorriu mais uma vez. — Mas, antes de tomarmos um gole que seja de hidromel, há algo que você precisa fazer e que acabou esquecendo.
— O quê? — perguntou Eragon, confuso com a óbvia satisfação de Orik.
— Ora, você deve convocar Saphira a Tronjheim, é claro! Tornando-me rei ou não, deveremos coroar um novo monarca em três dias. Se Saphira vai participar mesmo da cerimônia, então vai precisar voar com rapidez para conseguir chegar aqui a tempo.
Com uma alegria súbita que o deixou sem palavras, Eragon apressou-se em encontrar um espelho.

2 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)