24 de junho de 2017

Capítulo 35 - As margens do lago Leona


ragon caminhava pelo acampamento mergulhado na penumbra,
de dentes e punhos cerrados.
Passara as últimas horas em conferência com Nasuada, Orik,
Arya, Garzhgov, o rei Orrin e os seus inúmeros conselheiros a
discutir os acontecimentos do dia e a avaliar a presente situação
dos Varden. Quase no fim da reunião contactaram a rainha
Islanzadí para a informar que os Varden tinham tomado Dras-
Leona e também sobre a morte de Wyrden.
Não foi agradável para Eragon explicar como morrera um dos
seus feiticeiros mais antigos e mais poderosos, e a rainha não ficou
satisfeita com as notícias. A sua reação inicial foi de tamanha
tristeza que Eragon ficou surpreendido, pois nunca imaginara que
ela conhecesse Wyrden tão bem.
Falar com Islanzadí deixara-o mal-humorado, na medida em que
reforçara a evidência do quão aleatória e desnecessária fora a
morte de Wyrden. “Se eu tivesse ido à frente, seria eu que teria
ficado empalado naqueles espigões”, pensou, continuando a sua
busca pelo acampamento. “Ou Arya.”
Saphira sabia o que ele queria fazer, mas tinha decidido
regressar ao espaço junto da tenda, onde normalmente dormia,
dizendo:
Se andar acima e abaixo nas filas de tendas, os Varden não
conseguirão dormir e eles conquistaram o direito ao descanso.
Porém, as suas mentes continuavam unidas e ele sabia que se
precisasse de Saphira, ela estaria a seu lado em segundos.
Eragon evitou aproximar-se das fogueiras e das tochas que
ardiam em frente de muitas tendas, preservando a sua visão
noturna, mas fez por inspecionar todas as poças de luz, em busca
da sua presa.
Enquanto a procurava, ocorreu-lhe que ela poderia iludi-lo por
completo. Os seus sentimentos por ela estavam longe de ser
amigáveis e isso permitir-lhe-ia sentir onde ele estava e evitá-lo, se
quisesse. Contudo não a considerava cobarde. Apesar de ser muito
jovem, era uma das pessoas mais difíceis que conhecera, fosse
entre humanos, Elfos ou Anões.
Por fim viu Elva sentada em frente de uma pequena tenda,
incaracterística, a tecer um berço de gato, à luz de uma fogueira
mortiça. Junto dela estava Greta, a tutora, com um par de agulhas
de tricot que se moviam velozmente nas suas mãos nodosas.
Eragon parou por instantes, a observar. A velhota parecia mais
satisfeita que nunca e ele deu consigo relutante em perturbar a sua
tranquilidade.
Depois Elva disse:
— Não percas a coragem agora, Eragon. Se chegaste até aqui...
— Curiosamente, tinha uma voz dócil, como se tivesse estado a
chorar. Porém, ao levantar os olhos, o seu olhar revelou-se feroz e
desafiador.
Greta pareceu ficar sobressaltada quando Eragon se aproximou
da luz, reunindo a linha e as agulhas e cumprimentando-o com uma
vénia:
— Saudações, Matador de Espectros. Posso oferecer-te algo
de comer ou de beber?
— Não, obrigado. — Eragon parou diante de Elva e fitou a
pequena menina. Ela olhou-o por instantes, voltando a concentrarse
na tira de malha que tinha entre os dedos. O seu estômago
contraiu-se estranhamente ao reparar que os seus olhos violeta
tinham a mesma cor que os cristais de ametista que os sacerdotes
de Helgrind utilizaram para matar Wyrden e aprisionaram-no a ele e
a Arya.
Eragon ajoelhou-se e agarrou no emaranhado de fio, a meio,
interrompendo os movimentos de Elva.
— Eu sei o que vais dizer — comentou ela.
— É possível — rosnou Eragon —, mas mesmo assim vou dizê-lo.
Tu mataste Wyrden. Tão certo como se o tivesses apunhalado com
as tuas próprias mãos. Se tivesses vindo connosco tê-lo-ias
prevenido da armadilha, ter-nos-ias prevenido a todos. Eu vi
Wyrden morrer e vi Arya rasgar metade da mão por tua causa. À
conta da tua raiva, da tua teimosia e do teu orgulho... Odeia-me se
quiseres, mas não te atrevas a fazer mais ninguém sofrer por causa
disso. Se queres que os Varden sejam derrotados, junta-te a
Galbatorix e resolve o assunto de uma vez. É isso que queres?
Elva abanou lentamente a cabeça.
— Então, não quero voltar a ouvir dizer que te recusaste a ajudar
Nasuada apenas por rancor, senão você e eu iremos ajustar contas,
Presciente Elva, e não é disputa que possas ganhar.
— você jamais me conseguirias vencer — murmurou ela, com a voz
embargada de emoção.
— Talvez tenhas uma surpresa. Tens uma valiosa aptidão, Elva, e
os Varden precisam da tua ajuda. Agora mais do que nunca. Não
sei como vamos derrotar o rei de Urû’baen, mas se te juntares a
nós — se usares as tuas aptidões contra ele — talvez tenhamos uma
hipótese.
Elva parecia estar numa luta interior. Depois, acenou com a
cabeça e Eragon viu que ela estava a chorar. As lágrimas
transbordavam-lhe dos olhos. Não lhe dava qualquer prazer vê-la
perturbada, mas ele sentiu uma certa satisfação pelo fato de as
suas palavras a terem afetado.
— Desculpa — sussurrou ela.
Ele largou o fio e levantou-se:
— As tuas desculpas não poderão trazer Wyrden de volta. Faz
melhor no futuro e talvez possas redimir-te do teu erro.
Eragon acenou com a cabeça a Greta, que ficara em silêncio
durante toda a conversa, e afastou-se depois da luz, regressando às
filas escuras de tendas.
Fizeste bem, disse Saphira. Acho que ela vai agir de forma
diferente, de hoje em diante.
Espero que sim.
Repreender Elva fora uma experiência invulgar para ele.
Lembrava-se de Brom e Garrow o repreenderem por cometer
erros, e o fato de dar consigo no papel de admonitório fazia-o
sentir-se... diferente... mais maduro.
“E assim os ciclos se sucedem”, pensou.
Caminhou sem pressa pelo acampamento, apreciando a brisa
fresca que soprava do lago escondido nas sombras.
Depois da conquista de Dras-Leona, Nasuada surpreendera
todos, insistindo para que os Varden não passassem a noite na
cidade. Não dera qualquer explicação para a sua decisão, mas
Eragon desconfiava que o fato de se terem atrasado em Dras-
Leona a deixara demasiado ansiosa de retomar a viagem para
Urû’baen. Além disso, ela não deveria querer ficar numa cidade
onde poderiam estar escondidos inúmeros espiões de Galbatorix.
Logo que os Varden controlaram as ruas, Nasuada destacara
vários guerreiros para permanecerem na cidade, sob as ordens de
Martland Barba Ruiva. Depois disso os Varden tinham
abandonado Dras-Leona e marchado para Norte, ao longo da
margem do lago vizinho. Um fluxo constante de mensageiros
cavalgava para trás e para diante entre os Varden e Dras-Leona,
para que Martland e Nasuada conferenciassem acerca dos
numerosos assuntos a ter em conta na governação da cidade.
Antes de os Varden partirem, Eragon, Saphira e os feiticeiros de
Blödhgarm tinham regressado à catedral destruída para recolher o
corpo de Wyrden e procurar o cinto de Beloth, o Sábio. Saphira
demorara apenas alguns minutos a remover o amontoado de pedras
que bloqueavam o acesso às câmaras subterrâneas, para que
Blödhgarm e os outros elfos fossem buscar Wyrden, mas por muito
que tivessem procurado e por muitos feitiços que tivessem lançado
não conseguiram encontrar o cinto.
Os elfos transportaram Wyrden sobre os escudos, levando-o da
cidade até um pequeno outeiro junto de um ribeiro, onde o
enterraram entoando vários cânticos de lamento na língua antiga —
melodias tão tristes que Eragon chorara copiosamente e todos os
pássaros e os animais que os escutaram, pararam para ouvir.
Yaela, a mulher elfo de cabelos prateados, ajoelhara-se ao lado
da campa, tirara uma bolota de uma bolsa que trazia presa ao cinto,
e colocara-a sobre o peito de Wyrden. Depois os doze elfos,
incluindo Arya, entoaram cânticos à bolota, que criou raízes,
despontou e cresceu, retorcendo-se em direção ao céu como umas
mãos crispadas.
Quando os elfos terminaram, o frondoso carvalho tinha seis
metros de altura, com longas fiadas de flores verdes na ponta de
cada ramo.
Eragon achou que tinha sido o funeral mais bonito a que assistira,
considerando-o preferível à prática dos Anões, que sepultavam os
seus mortos em pedra dura e fria, debaixo do chão. Além disso,
agradava-lhe a ideia de que o corpo de alguém servisse de alimento
a uma árvore que poderia viver algumas centenas de anos. Por isso
decidiu que se morresse queria uma macieira plantada em cima de
si, para que os seus amigos e familiares pudessem comer os frutos
nascidos do seu corpo.
A ideia divertira-o tremendamente, ainda que de uma forma um
tanto mórbida.
Além de passarem revista à catedral e de recolherem o corpo de
Wyrden, Eragon fizera outra coisa digna de nota em Dras-Leona,
depois da conquista: com o acordo prévio de Nasuada, declarara
todos os escravos da cidade livres e fora pessoalmente às mansões
e aos leiloeiros libertar muitos dos homens, mulheres e crianças que
lá permaneciam acorrentados. Esse gesto dera-lhe grande
satisfação, esperando com isso poder melhorar as vidas das
pessoas que libertara.
Ao aproximar-se da tenda, viu Arya à sua espera junto da
entrada e acelerou o passo. Mas antes que a pudesse
cumprimentar, alguém gritou:
— Matador de Espectros!
Eragon virou-se e viu um dos pajens de Nasuada que caminhava
na sua direção.
— Matador de Espectros — repetiu o rapaz, um pouco ofegante,
cumprimentando Arya com uma vénia. — Lady Nasuada gostaria
que comparecesses na sua tenda, amanhã de manhã, uma hora
antes do nascer do sol, para conferenciares com ela. O que devo
dizer-lhe, Lady Arya?
— Podes dizer-lhe que estarei lá à hora que ela pretende —
respondeu Arya, inclinando ligeiramente a cabeça.
O pajem fez outra vénia, deu meia volta, e seguiu a correr pelo
mesmo caminho.
— É um pouco confuso o fato de ambos termos matado um
Espetro — comentou Eragon com um sorriso tímido.
Arya sorriu também, num movimento dos lábios quase
imperceptível na escuridão.
— Preferias que eu tivesse deixado Varaug vivo?
— Não, não... de maneira alguma.
— Poderia tê-lo mantido como escravo, para me fazer as
vontades.
— Agora você está a provocar-me — disse ele.
Ela fez um ruído suave e bem-disposto.
— Talvez fosse melhor tratar-te por princesa, princesa Arya —
disse Eragon, apreciando o som das palavras.
— Não deves chamar-me isso — reagiu ela, num tom mais sério. —
Eu não sou princesa.
— Porque não? A tua mãe é rainha. Como é possível que não
sejas uma princesa? O título dela é dröttning e o teu é dröttningu.
Um significa rainha e o outro...
— Não significa princesa — disse ela —, não propriamente. Não há
qualquer palavra equivalente nesta língua.
— Mas, se a tua mãe morresse ou abdicasse do trono você tomarias
o seu lugar como soberana do teu povo, certo?
— Não é assim tão simples.
Arya não parecia disposta a explicar mais nada, por isso Eragon
disse:
— Queres entrar?
— Sim — respondeu.
Eragon abriu a entrada da tenda e Arya baixou-se para entrar.
Depois de olhar brevemente para Saphira — enroscada ali perto, a
respirar pesadamente, mergulhando no sono —, Eragon seguiu-a.
Aproximou-se da lanterna pendurada no poste, ao centro da
tenda, e murmurou:
— Istalrí — evitando usar a palavra brisingr, para não incendiar a
espada. A chama resultante impregnou o interior da tenda de uma
luz quente e constante, emprestando uma aparência quase
acolhedora à tenda do exército parcamente mobilada.
Sentaram-se e Arya disse:
— Encontrei isto entre os pertences de Wyrden e pensei que o
poderíamos apreciar juntos. — Tirou um frasco de madeira
trabalhada, mais ou menos do tamanho da mão de Eragon, do
bolso lateral das calças e deu-lho.
Eragon abriu o frasco, aproximou-o da boca e cheirou-o,
arqueando as sobrancelhas ao sentir um odor forte e adocicado a
licor.
— É faelnirv? — perguntou, mencionando o nome da bebida que
os Elfos faziam de bagas de sabugueiro. — E raios de lua, segundo
Narí.
Arya deu uma gargalhada e a sua voz tilintou como aço bem
temperado.
— É, mas Wyrden acrescentou-lhe mais qualquer coisa.
— Ah sim?
— As folhas de uma planta que cresce na zona leste de Du
Weldenvarden, ao longo das margens do Lago Röna.
Eragon franziu a sobrancelha.
— Sabes o nome dessa planta?
— Talvez, mas não é importante. Anda, bebe. Vais gostar,
prometo.
E voltou a dar uma gargalhada, o que o deixou hesitante, pois
nunca a vira assim antes. Parecia-lhe travessa e afoita, e ele
apercebeu-se, sobressaltado, de que ela já estava bastante
embriagada.
Eragon hesitou, interrogando-se se Glaedr estaria a observá-los.
Depois levou o frasco aos lábios e bebeu um grande gole de
faelnirv. O licor tinha um sabor diferente daquele a que estava
acostumado, um sabor forte e almiscarado, semelhante ao cheiro
de uma marta ou de uma doninha.
Eragon fez uma careta e conteve um vómito, sentindo o faelnirv
deixar-lhe um rasto ardente na garganta. Bebeu outro gole mais
pequeno, voltando depois a passar o frasco a Arya, que bebeu
também.
O dia anterior fora sangrento e pavoroso, e Eragon passara
grande parte desse dia a lutar e a matar. Por pouco não fora morto.
Precisava de um escape... precisava de esquecer. A tensão que
sentia estava demasiado entranhada para diminuir apenas com
alguns truques mentais. Era preciso mais qualquer coisa, algo
exterior a si, ainda que a violência em que participara fosse em
grande parte externa e não interna.
Quando Arya lhe devolveu o frasco, ele bebeu um grande trago
e depois riu baixinho, incapaz de se conter.
Arya arqueou a sobrancelha e olhou-o com uma expressão
pensativa, ainda que bem-disposta.
— Qual é a graça?
— Isto... Nós... O fato de ainda estarmos vivos e eles... não —
e acenou em direção a Dras-Leona. — A vida diverte-me. A vida e
a morte. — Sentia um fulgor quente no estômago e começava a
sentir um formigueiro na ponta das orelhas.
— É bom estar vivo — disse Arya.
Continuaram a passar o frasco um ao outro até o esvaziarem,
altura em que Eragon voltou a rolhar o gargalo — uma tarefa que
teve de repetir várias vezes, pois sentia os dedos grossos e
desajeitados, e o catre parecia estar a inclinar-se debaixo de si,
como o convés de um navio em alto mar.
Devolveu o frasco vazio a Arya e, quando ela lhe pegou,
agarrou-lhe na mão — a mão direita —, virando-o para a luz. A sua
pele estava de novo lisa e imaculada. Não restavam quaisquer
vestígios do ferimento na mão.
— Foi Blödhgarm que te curou? — perguntou Eragon.
Arya anuiu e ele largou-a.
— Quase totalmente. Recuperei por completo a mobilidade. —
Abriu e fechou a mão várias vezes para o demonstrar. — Mas ainda
não tenho sensibilidade numa extensão de pele na base do polegar.
— E apontou com o indicador esquerdo.
Eragon esticou a mão, tocando-lhe ao de leve nessa área.
— Aqui?
— Aqui — disse ela, deslocando um pouco a mão para a direita.
— E Blödhgarm não conseguiu fazer nada?
Ela abanou a cabeça.
— Tentou meia dúzia de feitiços, mas os nervos recusaram a unirse.
— Fez um gesto displicente. — Não tem importância. Ainda
posso empunhar uma espada e puxar um arco. É isso que importa.
Eragon hesitou e depois disse:
— Bem sabes como te estou agradecido pelo que fizeste... pelo
que tentaste fazer. Só lamento que te tenha deixado uma marca
permanente. Se o pudesse ter evitado de alguma forma...
— Não te sintas mal por isso. É impossível viver a vida incólume,
tão pouco deverias desejá-lo. É pelos ferimentos que acumulamos
que avaliamos as nossas loucuras e as nossas conquistas.
— Angela disse algo semelhante acerca dos inimigos. Do género:
que se não fizéssemos inimigos éramos cobardes, ou algo pior.
Arya acenou com a cabeça.
— Há alguma verdade nisso.
Continuaram a conversar e a rir noite fora. Em vez de
enfraquecer, o efeito do faelnirv continuava a acentuar-se. Eragon
sentia-se entorpecido e tonto, e reparou que as bolsas de sombra
na tenda pareciam rodopiar. Viu também estranhos clarões a
flutuarem no seu campo de visão — como normalmente lhe
acontecia ao fechar os olhos à noite. As pontas das orelhas ardiamlhe
febrilmente, e ele sentia comichão e cócegas nas costas como se
tivesse formigas a percorrerem-lhe a pele. Certos ruídos tinham
também adquirido uma intensidade peculiar — o zunido rítmico dos
insetos, do lado do rio, e os estalidos da tocha do lado de fora da
tenda —, dominando a sua audição a ponto de ele ter dificuldade em
distinguir qualquer outro ruído.
“Será que me envenenaram?”, pensou.
— O que é? — perguntou Arya, reparando no seu ar alarmado.
Ele humedeceu a boca, sentindo-a incrivelmente seca, e contoulhe
o que estava a sentir.
Arya deu uma gargalhada e recostou-se, com os olhos pesados
e semicerrados.
— É assim que deve ser. Essas sensações vão passar ao nascer
do dia. Até lá, descontrai-te e aprecia-as.
Eragon lutou consigo mesmo, por instantes, ponderando se havia
de usar um feitiço para limpar a cabeça — se é que o conseguiria
fazer —, mas depois decidiu confiar em Arya e seguir o seu
conselho.
Ao sentir o mundo inclinar-se à sua volta, ocorreu-lhe o quão
dependente estava dos sentidos para definir o que era real e o que
não era. Quase poderia jurar que os clarões estavam lá, embora o
lado racional da sua mente lhe dissesse que eram apenas
alucinações induzidas pelo faelnirv.
Eragon e Arya continuaram a falar, mas as suas conversas
tornaram-se gradualmente mais desarticuladas e incoerentes. No
entanto, Eragon estava convencido de que tudo o que tinham
discutido era da maior importância, embora não conseguisse
explicar porquê, ou lembrar-se do que tinham falado minutos antes.
Algum tempo depois, Eragon ouviu o ruído grave e gutural de
uma flauta de cana, algures no acampamento. A princípio julgou
estar a imaginar os tons melodiosos, mas depois viu Arya inclinar a
cabeça e virar-se na direção da música, como se também tivesse
reparado nela.
Eragon não sabia quem estava a tocar, nem porquê, e também
não queria saber. Era como se a própria melodia tivesse surgido
subitamente na escuridão da noite, como um vento solitário e
esquecido.
Ouviu com a cabeça inclinada para trás e as suas pálpebras
quase se fecharam, ao sentir imagens fantásticas misturarem-se no
interior da sua cabeça, imagens induzidas pelo faelnirv mas
modeladas pela música.
À medida que progredia, a melodia foi-se tornando mais
turbulenta e o que havia de lamentoso, tornou-se insistente. As
variações das notas eram de tal forma rápidas, insistentes,
intrincadas e alarmantes que Eragon começou a temer pela
segurança do músico. Tocar com tamanha rapidez e perícia não
parecia natural, nem mesmo num elfo.
A música atingiu um tom particularmente animado e Arya soltou
uma gargalhada. Depois, levantou-se e fez pose, erguendo os
braços sobre a cabeça, batendo com o pé no chão e batendo
palmas — uma, duas, três vezes. E, para surpresa de Eragon,
começou a dançar. A princípio, os movimentos eram lentos, quase
langorosos, mas depressa acelerou o ritmo até o ajustar à cadência
frenética da música.
A música depressa atingiu o seu auge, começando depois a
abrandar gradualmente. O tocador de flauta repetiu as fases
musicais, concluindo a melodia. Mas, antes da música parar,
Eragon sentiu uma súbita comichão que o fez agarrar na mão direita
e coçar a palma da mão. Em simultâneo, sentiu uma pontada
algures na mente no mesmo instante em que uma das suas
proteções se ativou, avisando-o de um perigo.
Segundos depois, um dragão rugiu por cima da sua cabeça e
Eragon foi percorrido por um medo gelado.

O rugido não era o de Saphira.

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