24 de junho de 2017

Capítulo 34 - E os muros ruíram...


Eragon deteve-se e olhou para trás, ao ouvir o estrondo da
alvenaria a desabar.
Por entre o topo de duas casas distantes, ele viu um espaço
vazio onde antes estava o pináculo farpado da catedral. No seu
lugar, uma coluna de pó erguia-se em direção às nuvens, como um
pilar de fumaça branco.
Eragon sorriu para si, orgulhoso de Saphira. Nada como os
dragões para espalhar o caos e a destruição. “Continua”, pensou,
“fá-la em pedaços! Enterra os seus santuários sob trezentos metros
de pedra!”
Depois continuou a percorrer a calçada sombria e sinuosa,
acompanhado de Arya, Angela e Solembum. Havia já algumas
pessoas nas ruas: mercadores a abrir as lojas, sentinelas da noite a
caminho de casa, nobres embriagados a sair das farras,
vagabundos a dormir nas soleiras das portas e soldados a correrem
atabalhoadamente em direção às muralhas da cidade.
À medida que o ruído dos dois dragões em combate se
propagava pela cidade, todos eles, incluindo os que corriam,
olhavam insistentemente na direção da catedral e todos pareciam
apavorados — desde o mendigo coberto de chagas, ao soldado
calejado ou ao nobre ricamente trajado —, e nenhum prestou muita
atenção a Eragon nem aos seus companheiros.
Eragon concluiu que o fato de ele e de Arya passarem por
humanos vulgares, à primeira vista, também ajudava.
Por insistência dele, Arya deixara o noviço inconsciente numa
viela, a uma distância considerável da catedral.
— Prometi-lhe que o levávamos connosco — explicara Eragon —
mas não disse até onde. Ele que arranje maneira de sair daqui. —
Arya tinha concordado e parecia aliviada por se livrar do peso do
noviço.
Ao descerem os quatro a rua, apressadamente, uma estranha
sensação de familiaridade invadiu Eragon. Tinha terminado a sua
última visita a Dras-Leona de forma muito semelhante: a correr por
entre os edifícios sebentos, encavalitados em cima uns dos outros,
esperando conseguir alcançar um dos portões antes que o Império
desse com ele. Só que, desta vez, tinha mais a recear do que
apenas os Ra’zac.
Voltou a olhar de relance para a catedral. Saphira teria apenas
de manter Murtagh e Thorn ocupados durante mais alguns minutos.
Depois seria tarde demais para qualquer um deles conter os
Varden. Contudo, os minutos podiam parecer horas durante uma
batalha e Eragon estava perfeitamente consciente de que os braços
da balança poderiam inverter-se rapidamente.
“Aguenta-te firme!”, — pensou, embora não transmitisse as
palavras a Saphira, com receio de a distrair ou denunciar a sua
posição. “Só mais um pouco!”
À medida que se aproximavam da muralha, as ruas tornavam-se
mais estreitas e os ressaltos dos edifícios — casas na sua maioria —
bloqueavam tudo, exceto uma estreita tira de céu azul. A água dos
esgotos estava estagnada nas valetas, ao longo dos edifícios.
Eragon e Arya taparam o nariz e a boca com a manga das túnicas.
O fedor parecia não afetar a herbolária, embora Solembum
rosnasse e sacudisse a cauda, incomodado.
Uma sensação de movimento no telhado de um edifício próximo,
chamou a atenção de Eragon, mas o que quer que o tivesse
provocado já tinha desaparecido quando ele olhou. Continuou a
olhar para cima e, momentos depois, começou a ver coisas
estranhas: uma mancha branca nos tijolos cobertos de fuligem de
uma chaminé; estranhas formas pontiagudas recortadas no céu da
manhã; uma mancha oval, do tamanho de uma moeda, que cintilava
nas sombras como fogo...
Eragon concluiu, surpreendido, que os telhados estavam
cobertos de dúzias de meninos-gatos, todos eles na forma animal. Os
meninos-gatos corriam de edifício em edifício, observando-os
silenciosamente, dos telhados, enquanto Eragon e os companheiros
seguiam o seu caminho ao longo do labirinto sombrio da cidade.
Eragon sabia que os esquivos transmórficos não se dignariam a
ajudá-los, a não ser nas circunstâncias mais desesperadas — pois
pretendiam esconder o seu envolvimento com os Varden, enquanto
lhes fosse possível —, de qualquer modo achou encorajador tê-los
ali tão perto.
A rua terminava num cruzamento com cinco outras ruas. Depois
de consultar Arya e a herbolária, decidiram atravessar o
cruzamento e prosseguir na mesma direção.
Trinta metros mais adiante, a rua que tinham escolhido descrevia
uma curva pronunciada e abria-se para uma praça, em frente ao
portão sul de Dras-Leona.
Eragon parou.
Diante do portão havia centenas de soldados. Os homens
andavam de um lado para o outro, aparentemente confusos,
empunhando armas e colocando armaduras, enquanto os
comandantes lhes gritavam ordens. O fio dourado, bordado nas
túnicas carmesim dos soldados, cintilava ao correrem para trás e
para diante.
A presença dos soldados desanimou Eragon, ficando ainda mais
desmoralizado ao ver que os defensores da cidade tinham
empilhado um enorme amontoado de entulho, encostando-o aos
portões, para impedir que os Varden os abrissem à força.
Eragon praguejou. A pilha de entulho era tão grande que uma
equipa de cinquenta homens demoraria vários dias a removê-la.
Saphira conseguiria desobstruir os portões em minutos, mas
Murtagh e Thorn jamais lhe dariam essa oportunidade.
“Precisamos de outra distração”, pensou, embora não soubesse
como criá-la.
Saphira!, gritou, projetando os pensamentos na direção dela.
Tinha a certeza que ela o ouvira, mas não teve tempo de lhe
explicar a situação, pois nesse preciso momento um dos soldados
parou, apontando para ele e para os seus companheiros.
— Rebeldes!
Eragon desembainhou bruscamente Brisingr e saltou para diante,
antes que os restantes soldados pudessem dar atenção ao aviso do
homem. Não tinha alternativa. Recuar seria deixar os Varden à
mercê do Império. Além disso, não podia permitir que Saphira
enfrentasse a muralha e os soldados, sozinha.
Ao saltar, gritou, tal como Arya, que o acompanhou naquele
ataque insensato. Juntos correram para o meio dos soldados
surpreendidos. Durante breves instantes, os homens ficaram de tal
forma perplexos que alguns deles só perceberam que Eragon era o
inimigo depois dele os golpear.
Rajadas de flechas dos arqueiros estacionados nos baluartes
voaram em arco para a praça. Meia dúzia ricochetearam nas
proteções de Eragon e as restantes feriram ou mataram os homens
do Império.
Por muito rápido que fosse, Eragon não conseguia aparar todas
as espadas e adagas que o tentavam atingir. Sentia a energia
enfraquecer a um ritmo alarmante, enquanto repelia os ataques com
magia. Se não se desembaraçasse daquela turba, os soldados
acabariam por esgotá-lo a ponto de já não conseguir lutar.
Com um grito de guerra feroz, Eragon girou em círculo,
mantendo Brisingr perto da cintura e ceifando todos os soldados
que estavam ao seu alcance.
A lâmina iridescente, azul, retalhava ossos e carne como se
fossem insubstanciais. Pedaços retorcidos de sangue escorriam da
ponta da espada, dispersando-se lentamente em gotas cintilantes,
como esferas de coral polido, e os homens que ele atingia
dobravam-se sobre si, agarrados à barriga, na tentativa de estancar
as feridas.
Todos os detalhes pareciam vívidos e nítidos como se fossem
esculpidos em vidro. Eragon conseguia distinguir cada pelo da
barba do espadachim que tinha diante de si, contar as gotas de suor
que lhe cobriam a pele, por baixo dos olhos, e assinalar cada
nódoa, arranhão ou rasgão nas suas roupas.
O estrépito do combate era dolorosamente intenso para a sua
audição sensível, no entanto Eragon sentia-se perfeitamente calmo.
Não estava imune aos medos que outrora o perturbavam, mas
estes pareciam não despertar tão facilmente e, graças a isso,
conseguia lutar melhor.
Completou o círculo e tinha acabado de avançar na direção de
um espadachim quando viu Saphira descer velozmente sobre a sua
cabeça. As asas estavam coladas ao corpo e estremeciam como
folhas num temporal. Ao passar por ele, uma rajada de vento
despenteou-lhe o cabelo, forçando-o atirar-se para o chão.
Instantes depois, Thorn surgiu atrás Saphira, de dentes
arreganhados e chamas a ferver na boca aberta. Os dois dragões
percorreram a toda a velocidade oitocentos metros, para lá da
muralha de lama amarela de Dras-Leona, e depois deram a volta,
voltando a aproximar-se velozmente.
Eragon ouviu uma estrondosa ovação no exterior das muralhas.
“Os Varden devem estar quase a chegar aos portões.” pensou.
Parte da pele do antebraço esquerdo ardia-lhe como se lhe
tivessem derramado gordura quente sobre este. Sorveu o ar e
sacudiu o braço, mas o ardor não passava. Depois viu uma mancha
de sangue ensopar-lhe a túnica e olhou de relance para Saphira. Só
podia ser sangue de dragão, embora não soubesse de qual.
Quando os dragões se aproximaram, Eragon aproveitou a
desorientação momentânea dos soldados para matar mais três, mas
entretanto os outros homens recuperaram o controlo e a batalha
recomeçou em força.
Um soldado com um machado de guerra apareceu diante de si,
brandindo-o na sua direção, mas Arya despachou o homem a meio
do ataque, com um golpe nas costas que o cortou praticamente ao
meio.
Eragon agradeceu-lhe a ajuda com um breve aceno de cabeça.
Depois, por acordo tácito, colocaram-se de costas um para o outro
e enfrentaram os soldados juntos.
Eragon apercebeu-se de que Arya estava tão ofegante como ele.
Embora fossem mais fortes e mais rápidos do que a maioria dos
humanos, a sua resistência tinha limites. Já tinham eliminado dúzias
de soldados mas restavam ainda centenas deles e Eragon sabia
que, em breve, surgiriam reforços, vindos de outros pontos de
Dras-Leona.
— E agora? — gritou ele, aparando uma lança que alguém lhe
tentara espetar na coxa.
— Magia! — respondeu Arya.
Enquanto se defendia dos ataques dos soldados, Eragon
começou a recitar todos os feitiços de que se lembrou, para matar
os inimigos.
O seu cabelo voltou a despentear-se com uma rajada de vento e
uma sombra fresca passou velozmente por ele. Saphira descreveu
vários círculos para reduzir a velocidade, abriu as asas e picou voo
na direção das ameias na muralha.
Mas Thorn alcançou-a antes que ela conseguisse aterrar,
picando voo e projetando um jato de chamas com mais de trinta
metros. Saphira rugiu de frustração e desviou-se da muralha,
batendo rapidamente as asas para ganhar altitude. Os dois dragões
descreviam espirais em torno um do outro, à medida que subiam,
mordendo-se e arranhando-se com um desapego feroz.
Ver Saphira em perigo apenas reforçou a determinação de
Eragon, e acelerou o ritmo das palavras, entoando-as tão depressa
quanto possível na língua antiga, sem as pronunciar mal. Mas, por
muito que tentasse, nem os seus feitiços nem os de Arya produziam
qualquer efeito nos soldados.
Depois a voz de Murtagh estrondeou do céu, como a voz de um
gigante capaz de arranhar as nuvens:
— Esses homens estão sob a minha proteção, Irmão!
Eragon olhou para cima e viu Thorn precipitar-se na direção da
praça. A súbita mudança de direção do dragão vermelho apanhou
Saphira desprevenida e ela continuou a pairar por cima da cidade,
como uma silhueta azul-escura recortada no azul mais claro do céu.
“Eles já sabem”, pensou Eragon, e o pavor destruiu a serenidade
que anteriormente ele sentia. Depois, baixou a cabeça e passou os
olhos pela multidão. Havia cada vez mais soldados a saírem das
ruas de ambos os lados da muralha de Dras-Leona A herbolária
estava encostada a uma das casas, nos limites da praça, atirando
frascos de vidro com uma mão e brandindo Tinido Mortal com a
outra. À medida que se partiam, os frascos libertavam nuvens de
vapor verde e qualquer soldado que fosse apanhado no miasma
caía para o chão, a espernear, agarrado à garganta, com pequenos
cogumelos castanhos a crescerem-lhe em todos os centímetros de
pele exposta. Solembum estava agachado atrás de Angela, em cima
de um muro de jardim. O menino-gato aproveitou o plano elevado
para arranhar a cara dos soldados e arrancar-lhes os elmos,
distraindo-os, à medida que estes tentavam aproximar-se da
herbolária. Tanto ele como Angela pareciam cercados e Eragon
duvidava que eles resistissem muito mais tempo.
Nada do que viu lhe deu esperança. Voltou a desviar o olhar
para o imenso volume do corpo de Thorn, no instante em que este
enfunava as asas para abrandar a sua descida.
— Temos de ir embora! — gritou Arya.
Eragon hesitou. Não seria difícil passarem os quatro por cima da
muralha, até ao local onde os Varden os esperavam. Mas, se
fugissem, os Varden não ficariam em melhor situação. O exército
não podia dar-se ao luxo de esperar mais pois os mantimentos
esgotar-se-iam dentro de alguns dias e os homens começariam a
desertar. Eragon sabia que se isso acontecesse jamais conseguiriam
voltar a unir todas as raças contra Galbatorix.
O corpo e as asas de Thorn encobriram o céu, envolvendo toda
a área numa escuridão rósea e escondendo Saphira. Gotas de
sangue do tamanho do pulso de Eragon pingavam do pescoço e
das pernas de Thorn. Vários soldados gritaram de dor ao sentirem
o líquido a escaldá-los.
— Agora, Eragon! — gritou Arya, agarrando-lhe no braço e
puxando-o. Mas ele não arredou pé, recusando-se a admitir a
derrota.
Arya puxou-o com mais força, forçando-o a olhar para baixo,
para se equilibrar. Ao fazê-lo, o seu olhar fixou-se no terceiro dedo
da sua mão direita, onde usava Aren.
Eragon guardava a energia contida no anel para o dia em que
tivesse, finalmente, de defrontar Galbatorix. Seria uma
insignificância, em comparação com a que o rei certamente
acumulara durante o seu longo reinado. De qualquer modo, era o
maior reservatório de energia que ele possuía e sabia que não teria
hipótese de reunir igual quantidade de energia antes dos Varden
chegarem a Urû’baen. Se lá chegassem. Era também uma das
poucas coisas que Brom lhe deixara. Daí sentir-se tão relutante em
usar a energia.
Porém, não lhe ocorria outra alternativa.
O reservatório de energia dentro de Aren sempre lhe parecera
enorme, no entanto agora interrogava-se se seria suficiente para o
que pretendia fazer.
Pelo canto do olho, viu Thorn a tentar alcançá-lo, com umas
garras do tamanho de um homem, e uma parte de si gritou-lhe que
fugisse antes que o monstro o apanhasse e o comesse vivo.
Eragon respirou fundo e penetrou no precioso tesouro de Aren,
gritando:
— Jierda!
Eragon nunca sentira tamanha torrente de energia fluir através de
si; era como um rio gelado que queimava e ardia de uma forma
quase insuportável. A sensação era, em simultâneo, de agonia e de
êxtase.
Ao proferir uma ordem, a enorme pilha de entulho, que
bloqueava os portões, explodiu em direção ao céu numa coluna
cerrada de terra e pedra. Os escombros atingiram Thorn no flanco,
retalhando-lhe a asa e derrubando o dragão para lá da periferia de
Dras-Leona, aos guinchos. Depois a coluna espalhou-se para fora,
formando um teto de pedras e terra solta sobre a metade sul da
cidade.
A explosão de entulho fez estremecer a praça, atirando toda a
gente ao chão. Eragon aterrou sobre as mãos e os joelhos, e ficou
onde estava, a olhar para cima tentando manter o feitiço ativo.
Quando a energia do anel estava praticamente esgotada,
sussurrou:
— Gánga raehta. — A coluna de entulho flutuou para a direita, na
direção das docas e do Lago Leona, como uma nuvem escura de
trovoada apanhada por um vendaval. Eragon continuou a empurrar
o entulho para longe do centro da cidade, enquanto lhe foi possível,
pondo fim ao feitiço mal sentiu os últimos resíduos de energia a
percorrem-lhe o corpo.
A nuvem de destroços implodiu com um ruído enganadoramente
suave. Os elementos mais pesados — pedras, lascas de madeira e
torrões de terra — caíram, fustigando a superfície do lago. Mas, as
partículas mais pequenas ficaram suspensas no ar, formando uma
enorme mancha castanha, que se afastou lentamente para Oeste.
No sítio onde o entulho anteriormente estava, via-se agora uma
cratera vazia. Pedras da calçada partidas orlavam a depressão
como um círculo de dentes estilhaçados. Os portões da cidade
estavam pendurados, deformados e rachados, sem recuperação
possível.
Através dos portões destruídos, Eragon viu os Varden
aglomerados nas ruas e respirou fundo, deixando cair a cabeça
para a frente, exausto. “Resultou”, pensou, abismado. Depois,
levantou-se devagar, vagamente consciente de que ainda não
estavam livres de perigo.
Enquanto os soldados tentavam levantar-se, os Varden
invadiram Dras-Leona com gritos de guerra, batendo com as
espadas nos escudos. Segundos depois, Saphira aterrou entre eles
e o que estivera prestes a transformar-se numa batalha campal
converteu-se numa balbúrdia, com soldados a fugirem para se
salvar.
Eragon teve um vislumbre de Roran no meio do mar de homens
e Anões, mas perdeu-o de vista antes de conseguir captar a
atenção do primo.
“Arya...?” Eragon virou-se e ficou alarmado ao ver que ela não
estava junto de si. Alargou a busca e depressa a avistou no meio da
praça, rodeada de uns vinte soldados. Os homens seguravam-lhe
nos braços e nas pernas com uma tenacidade implacável, tentando
arrastá-la. Arya libertou uma das mãos e atingiu um homem no
queixo, partindo-lhe o pescoço, mas outro soldado tomou o seu
lugar, antes que ela tivesse tempo de o agredir.
Eragon correu na direção dela. Exausto, baixou demasiado a
espada e a ponta de Brisingr prendeu-se na cota de malha de um
soldado caído, arrancando-lhe o punho da mão. A espada caiu
ruidosamente no chão e Eragon hesitou, sem saber se deveria voltar
para trás. Mas depois viu dois soltados atacarem Arya com adagas
e correu duas vezes mais depressa.
Quando ele a alcançou, Arya repeliu os atacantes por breves
instantes. Os homens atacaram-na de mãos abertas, mas antes que
conseguissem voltar a agarrá-la, Eragon agrediu um dos homens no
flanco, esmurrando-o nas costelas. Um soldado com uns bigodes
encerados tentou golpear o peito de Eragon, mas ele agarrou na
espada com ambas as mãos, arrancou-a do soldado e partiu-a ao
meio, estripando-o com o coto da própria arma. Numa questão de
segundos, todos os soldados que tinham ameaçado Arya estavam
mortos ou moribundos, e os que Eragon não matava, eram
aniquilados por Arya.
Depois ela disse:
— Eu teria conseguido derrotá-los sozinha.
Eragon curvou-se, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar
o fôlego.
— Eu sei... — E apontou com a cabeça para a mão direita de
Arya — a que tinha ferido ao soltar-se da grilheta de ferro, agora
fechada contra a perna. — Entende-o como um agradecimento.
— Um presente um tanto deprimente — disse ela com um leve
sorriso nos lábios.
Grande parte dos soldados tinha fugido da praça e os que
restavam estavam encostados às casas, encurralados pelos Varden.
Ao olhar em redor, Eragon viu um elevado número de soldados de
Galbatorix a deporem armas e a renderem-se.
Juntos, ele e Arya recuperaram a sua espada. Depois,
encaminharam-se para a muralha de lama amarela, onde o solo
estava consideravelmente limpo, e sentaram-se contra a parede a
ver os Varden marchar para o interior da cidade.
Saphira depressa se reuniu a eles. Tocou ao de leve em Eragon
com o nariz e ele sorriu, coçando-lhe o focinho. Ela gemeu.
Conseguiste, disse ela.
Conseguimos, respondeu ele.
Montado no seu dorso, Blödhgarm desapertou as correias que
lhe prendiam as pernas à sela da Saphira, deslizando do dorso.
Eragon viveu, por instantes, a experiência absolutamente
desconcertante de encontrar-se consigo mesmo, concluindo desde
logo que não gostava de ter o cabelo encaracolado nas têmporas.
Depois, Blödhgarm proferiu uma palavra indistinta na língua
antiga, a sua forma tremeluziu como um reflexo de calor e voltou a
ser ele próprio: alto, coberto de pelo, com olhos amarelos, orelhas
compridas e dentes aguçados. Não se parecia com um elfo nem
com um ser humano, mas Eragon detetou uma marca de mágoa e
raiva na sua expressão tensa e severa.
— Matador de Espectros — disse ele, fazendo uma vénia a Arya
e Eragon. — Saphira informou-me da sorte de Wyrden. Eu...
Antes que pudesse terminar a frase, os outros dez elfos, sob as
ordens de Blödhgarm, emergiram da multidão de soldados dos
Varden, aproximando-se rapidamente de espada em punho.
— Matador de Espectros — exclamaram eles. — Argetlam!
Escamas Brilhantes!
Eragon saudou-os com um ar cansado e esforçou-se por
responder às suas perguntas, embora preferisse não ter de o fazer.
Depois a conversa foi interrompida por um rugido e todos
ficaram imersos na sombra. Eragon olhou para cima e viu Thorn —
de novo incólume —, equilibrando-se numa coluna de ar, a grande
altitude.
Eragon praguejou, trepou para cima de Saphira,
desembainhando Brisingr, e Arya, Blödhgarm e os outros elfos
formaram um círculo de proteção em torno dela. O seu poder
combinado era formidável, mas Eragon não sabia se seria o
suficiente para manter Murtagh à distância.
Todos os Varden olharam para cima ao mesmo tempo. Por
muito corajosos que fossem, mesmo os mais valentes se encolhiam
perante um dragão.
— Irmão! — gritou Murtagh, com a voz de tal forma amplificada
que Eragon teve de tapar os ouvidos. — Pagarás com sangue os
ferimentos que infligiste em Thorn! Fica com Dras-Leona, se
quiseres, pois nada significa para Galbatorix. Mas esta não será a
última vez que nos encontramos, Eragon, Matador de Espectros.
Prometo.
Depois Thorn virou-se, sobrevoou Dras-Leona em direção a
Norte, e depressa desapareceu na cortina de fumaça que se erguia
das casas incendiadas, junto da catedral destruída.
E

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