3 de junho de 2017

Capítulo 33 - “Venha me dar um beijo carinhoso”

Roran acordou, desprendeu-se dos braços macios de Katrina e se sentou sem camisa na borda do catre que compartilhavam. Bocejou, esfregou os olhos e então olhou para a tênue faixa de luz da fogueira, que brilhava entre as duas abas da entrada, sentindo-se chateado e idiota e com uma acumulada exaustão. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, mas ele permaneceu onde estava, imóvel.
— Roran? — chamou Katrina, com uma voz sonolenta. Ela se apoiou sobre um dos braços e o alcançou com o outro. Ele não reagiu ao toque da mão dela, que deslizava por suas costas e massageava seu pescoço. — Durma. Você precisa de descanso. Logo, logo você vai partir de novo.
Ele balançou a cabeça sem olhar para ela.
— O que há? — perguntou ela. Sentando-se, cobriu os ombros de Roran com um cobertor e depois se inclinou na sua direção, o rosto cálido contra o braço do esposo. — Você está preocupado com seu novo capitão ou com o local para onde Nasuada o enviará da próxima vez?
— Não.
Ela ficou em silêncio por um tempo.
— Sempre que sai, eu sinto como se menos de você retornasse para mim. Você se tornou tão soturno e quieto... Se quiser contar para mim o que o está afligindo, você sabe que pode, não importa o quanto seja terrível. Sou filha de um açougueiro e já vi muitos homens caírem em batalha.
— Querer! — exclamou Roran, engasgando com a palavra. — Eu nunca mais quero pensar nisso. — Ele cerrou os punhos, sua respiração ofegante. — Um verdadeiro guerreiro não sentiria o que eu sinto.
— Um verdadeiro guerreiro — começou ela — não luta porque deseja, mas porque precisa. Um homem que anseia por guerras, um homem que sente prazer em matar, é um bruto e um monstro. Não importa quanta glória adquira no campo de batalha, isso não pode apagar o fato de que ele não é melhor do que um lobo raivoso que se volta contra seus amigos e sua família tão rápido quanto seus inimigos. — Ela retirou alguns fios de cabelo dele da testa e acariciou o topo de sua cabeça, leve e lentamente. — Uma vez você me contou que a “Canção de Gerand” era a história que você mais gostava do repertório de Brom, que era por causa dela que você lutava com um martelo em vez de usar uma lâmina. Você se lembra como Gerand não gostava de matar e como relutava em pegar novamente em armas?
— Lembro.
— E ainda assim ele era considerado o maior guerreiro de sua época. — Ela pegou o rosto dele e o virou para si, de modo que ele foi obrigado a mirar seus solenes olhos. — E você é o maior guerreiro que eu conheço, Roran, daqui ou de qualquer outro lugar.
Com a boca seca, ele disse:
— E Eragon e...
— Eles não têm a metade do valor que você tem, Eragon, Murtagh, Galbatorix, os elfos... todos marcham para a batalha com encantamentos na ponta da língua e com poderes que excedem em muito os seus. Mas você... — ela o beijou no nariz — você não é mais do que um homem. Você encara seus inimigos sobre os próprios pés. Você não é um mago, e ainda assim acabou com os Gêmeos. Você é apenas tão rápido e tão forte quanto qualquer ser humano, e ainda assim não se esquivou de atacar os Ra’zac no covil deles e me libertar daquele calabouço.
Ele engoliu em seco.
— Eu tinha as proteções de Eragon.
— Mas não tem mais. Além disso, você também não tinha nenhuma proteção em Carvahall, e por acaso fugiu dos Ra’zac naquele momento? — Como ele não respondia, ela continuou: — Você não é mais do que um homem, mas fez coisas que nem mesmo Eragon ou Murtagh poderiam ter feito. Para mim, isso faz de você o maior guerreiro da Alagaësia... Não consigo imaginar mais ninguém em Carvahall que teria ido até onde você foi para me resgatar.
— Seu pai teria ido — disse ele.
Ele sentiu o tremor dela.
— Sim, ele teria ido — sussurrou ela —, mas jamais teria conseguido convencer outros a segui-lo, como você conseguiu. — Ela intensificou o abraço. — O que quer que você tenha visto ou feito, você sempre terá a mim.
— Isso é tudo de que eu preciso — disse ele, e a pegou em seus braços, retendo-a por um tempo. Então, suspirou. — Ainda assim eu gostaria que essa guerra estivesse no fim. Eu gostaria de voltar a cuidar de um campo e de cultivar minha horta e fazer a colheita. Ter uma fazenda é muito cansativo, mas pelo menos é um trabalho honesto. Essa matança não é honesta. E roubo... E roubo de vidas humanas, e nenhuma pessoa correta deveria ter essa aspiração.
— Como eu disse.
— Como você disse. — Apesar de toda a dificuldade, ele conseguiu sorrir. — Aqui estou eu amolando você com meus problemas sabendo que você já tem problemas suficientes. — E colocou uma das mãos sobre a barriga redonda de Katrina.
— Seus problemas serão sempre meus problemas enquanto estivermos casados — murmurou ela, e esfregou o braço de Roran com o nariz.
— Alguns problemas ninguém mais deveria ser obrigado a suportar, principalmente aqueles que nós amamos.
Ela se afastou alguns centímetros, e ele viu seus olhos ficarem tristes e lânguidos, como ficavam sempre que ela caía em melancolia a respeito da época em que ficara aprisionada em Helgrind.
— É verdade — sussurrou Katrina —, alguns problemas ninguém mais deveria ser obrigado a suportar.
— Ah, não fique tão triste. — Ele a puxou para perto e a abraçou com carinho, embalando-a levemente, e desejou com toda a sua força que Eragon jamais tivesse achado o ovo de Saphira na Espinha.
Depois de um tempo, quando Katrina já estava relaxada em seus braços, e nem ele mesmo estava mais tão tenso, Roran acariciou a curva do pescoço dela.
— Vamos, venha me dar um beijo carinhoso, e depois vamos voltar para a cama, pois estou cansado e quero dormir.
Ela riu para ele e o beijou, com o maior carinho do mundo, e então os dois se deitaram, como estavam antes. E do lado de fora da tenda, tudo estava quieto e tranquilo, exceto o rio Jiet, que fluía pelo acampamento, sem jamais parar, sem jamais cessar, até mergulhar nos sonhos de Roran, onde ele se imaginava na proa de um navio, Katrina ao seu lado, e mirando o apetite de um gigantesco redemoinho, o Olho do Javali. E ele pensou: Como podemos ter a esperança de escapar?

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Boa leitura :)