24 de junho de 2017

Capítulo 33 - Martelo e elmo

“F

inalmente!”, pensou Roran ao ouvir as trompas dos Varden
anunciarem o avanço das tropas.
Olhou de relance para Dras-Leona e teve um vislumbre de
Saphira a mergulhar em direção ao amontoado escuro de edifícios,
com as escamas a brilhar à luz do sol nascente. Thorn mexeu-se
por baixo dela, como um enorme gato deitado ao sol, em cima de
um muro, e levantou voo para a perseguir.
Uma explosão de energia percorreu Roran. Chegara, finalmente,
a hora da batalha e ele estava ansioso por resolver o assunto.
Pensou por instantes em Eragon, com alguma preocupação,
levantando-se depois do tronco onde estava sentado, e reuniu-se
com o resto dos homens, que entretanto se organizavam numa
ampla formação retangular.
Roran passou os olhos pelas hostes de uma ponta à outra,
certificando-se de que as tropas estavam a postos. Os homens
tinham esperado durante quase toda a noite e estavam fatigados,
mas ele sabia que o medo e a excitação depressa lhes limpariam a
mente. Roran também estava cansado, mas não deu importância a
isso; poderia dormir quando a batalha terminasse. Até lá, a sua
principal preocupação era assegurar a sua sobrevivência e a dos
seus homens.
Gostaria, contudo, de ter tempo para beber uma caneca de chá
quente, que lhe acalmasse o estômago. Comera algo estragado ao
jantar, pelo que as cólicas e as náuseas não o largavam desde
então. Ainda assim, o desconforto não era tão grande que o
impedisse de lutar. Ou pelo menos, assim esperava.
Satisfeito com as condições dos seus homens, Roran colocou o
elmo, fazendo-o deslizar sobre a touca de proteção acolchoada.
Depois empunhou o martelo e enfiou o braço nas correias do
escudo.
— Estamos às tuas ordens — disse Horst, aproximando-se.
Roran acenou com a cabeça. Escolhera o ferreiro como segundo
comandante, decisão que Nasuada tinha aceitado sem discussão.
Para além de Eragon, Horst era a pessoa que ele mais desejaria ter
a seu lado. Sabia que era um egoísmo da sua parte, pois Horst
tinha uma filha recém-nascida e os Varden precisavam das suas
aptidões de ferreiro, mas Roran não via mais ninguém capaz de
desempenhar a missão tão bem como ele. Horst não se tinha
mostrado especialmente satisfeito com a promoção, mas também
não parecera ficar aborrecido, organizando o batalhão de Roran
com a segurança, a serenidade e a competência que lhe eram
características.
As trompas soaram de novo e Roran ergueu o martelo por cima
da cabeça.
— Avante! — gritou ele.
Assumiu a dianteira, enquanto várias centenas de homens
avançavam, acompanhados, de ambos os lados, pelos outros
quatro batalhões dos Varden.
Enquanto os guerreiros atravessavam os campos abertos que os
separavam de Dras-Leona, soaram gritos de alarme na cidade.
Momentos depois, ouviram-se sinos e trompas, e a algazarra
furiosa depressa se instalou por toda a cidade, à medida que os
defensores iam despertando. Terríveis rugidos e estrondos vindos
do centro da cidade, onde os dois dragões lutavam, intensificavam
o alvoroço. De vez em quando, Roran via um deles aparecer por
cima dos edifícios, com a pele cintilante, mas de uma forma geral os
dois gigantes mantinham-se fora do alcance da sua visão.
Aproximavam-se rapidamente do labirinto de edifícios
decrépitos que circundavam as muralhas da cidade. As ruas
estreitas e sombrias pareciam-lhe ameaçadoras e aziagas. Seria
mais fácil para os soldados do Império — ou até mesmo para os
cidadãos de Dras-Leona — emboscarem-nos naqueles pontos de
passagem sinuosos. Lutar em quarteirões tão estreitos seria ainda
mais brutal, confuso e caótico do que o normal. Se a situação
chegasse a esse ponto, Roran sabia que poucos homens
escapariam incólumes. Ao avançar para as sombras, sob os beirais
da primeira fiada de casebres, um nó de inquietude invadiu-lhe as
entranhas, exacerbando-lhe o mau estar, e Roran lambeu os lábios,
nauseado.
“É bom que Eragon abra aquele portão”, pensou, “de contrário,
ficaremos aqui presos como uma rebanho de cordeiros
encurralados para a matança.”


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