3 de junho de 2017

Capítulo 32 - Questão de perspectiva

O vento-de-calor-da-manhã-sobre-a-planície, que era diferente do vento-de-calor-da-manhã-sobre-a-serra, mudou.
Saphira ajustou o ângulo das asas para compensar as mudanças na velocidade e na pressão do ar que sustentava seu peso a milhares de metros acima da terra ensolarada lá embaixo. Por um instante, fechou as pálpebras, deliciando-se no leito macio do vento bem como no calor dos raios do sol da manhã que batiam ao longo de seu corpo vigoroso.
Imaginava como a luz devia fazer cintilar suas escamas e como as pessoas que a viam descrever círculos no céu deviam ficar maravilhadas com a visão. Cantarolava de prazer, satisfeita com o conhecimento de que era a criatura mais bela da Alagaësia, pois quem poderia ter esperança de se comparar ao esplendor das suas escamas; da cauda longa e afilada; das asas tão bonitas e bem formadas; das garras curvas; das longas presas brancas, com as quais ela podia partir o pescoço de um boi bravo na primeira mordida? Não Glaedr-das-escamas-douradas, que tinha perdido uma perna durante a queda dos Cavaleiros. Nem Thorn nem Shruikan, já que os dois eram escravos de Galbatorix, e sua servidão forçada havia lhes deformado a mente. Um dragão sem a liberdade para fazer o que bem entendesse não era de modo algum um dragão.
Além do mais, eram machos; e, embora machos possam parecer majestosos, não poderiam encarnar a beleza que ela encarnava. Não, ela era a criatura mais impressionante da Alagaësia, e era assim que devia ser.
Saphira serpeou de prazer, desde a base da cabeça até a ponta da cauda. Hoje era um dia perfeito. O calor do sol lhe dava a sensação de estar aconchegada num ninho de brasas. Sua barriga estava cheia; o céu, límpido; e não havia nada que ela precisasse fazer, além de ficar alerta para inimigos desejosos por lutar, o que ela fazia de qualquer forma, por uma questão de hábito.
Sua felicidade tinha apenas uma falha, mas era uma falha profunda; e, quanto mais Saphira pensava nela, mais descontente ficava, até perceber que já não estava satisfeita.
Queria que Eragon estivesse ali para compartilhar aquele dia com ela.
Saphira rosnou e soltou um jato rápido de chama azul por entre os maxilares, queimando o ar à sua frente. Depois contraiu a garganta, interrompendo o fluxo de fogo líquido. Sua língua pinicava por conta das chamas que tinham passado por ali. Quando Eragon, o Eragon-seu-parceiro-do-coração-e-da-mente, ia entrar em contato com Nasuada de lá de Tronjheim e pedir que ela, Saphira, fosse se juntar a ele?
Saphira tinha lhe recomendado que obedecesse a Nasuada e viajasse para as montanhas-mais-altas-do-que-ela-conseguia-voar, mas agora já tinha se passado muito tempo, e ela se sentia fria e vazia por dentro. Há uma sombra no mundo, pensou. E isso o que me deixa perturbada. Eragon está com algum problema. Está em perigo ou esteve recentemente. E eu não posso ajudá-lo.
Ela não era um dragão selvagem. Desde que tinha rompido o ovo, compartilhava toda a sua vida com Eragon e, sem ele, era só metade de si mesma. Se ele morresse porque ela não estava lá para protegê-lo, ela não teria razão para viver, a não ser a da vingança. Sabia que destroçaria seus assassinos. Depois voaria até a cidade negra do traidor-destruidor-de-ovos, que a havia mantido prisioneira por tantas décadas, e faria tudo para acabar com ele, pouco se importando com o fato de que isso significaria para ela a morte certa.
Saphira rosnou mais uma vez e tentou abocanhar um pequeno pardal, tolo o suficiente para voar ao alcance dos seus dentes. Não acertou, e o pardal passou zunindo, prosseguindo seu caminho sem ter sido atingido, o que só exacerbou o mau humor de Saphira. Por um instante, ela cogitou persegui-lo, mas decidiu que não valia a pena se incomodar com um feixe tão insignificante de ossos e penas. Nem mesmo para um bom lanche ele serviria.
Inclinando-se com o vento e balançando a cauda na direção oposta para facilitar a curva, ela girou, examinando o chão lá embaixo e todas as criaturas pequenas alvoroçadas que procuravam se esconder dos seus olhos de caçadora. Mesmo daquela altura de milhares de metros, ela conseguia contar o número de penas no dorso de um falcão em rasante sobre os trigais plantados a oeste do rio Jiet. Conseguia ver o borrão de pelo marrom de um coelho que fugia para a segurança da sua toca. Conseguia avistar o pequeno rebanho de cervos escondido por baixo da copa das groselheiras que se amontoavam ao longo de um afluente do rio. E ouvia os guinchos agudos de animais assustados que avisavam os irmãos de sua presença. Os gritos trêmulos a agradavam. Era mais do que certo que seu alimento sentisse medo dela. Se algum dia ela sentisse medo deles, saberia que tinha chegado sua hora de morrer.
Uma légua mais adiante, rio acima, os Varden estavam apinhados junto do rio Jiet como um rebanho de cervos vermelhos encostado na borda de um penhasco. Os Varden haviam chegado à travessia no dia anterior; e, desde então, talvez um terço dos homens-que-eram-amigos e dos Urgals-que-eram-amigos e dos cavalos-que-ela-não-podia-comer tivesse vadeado o rio. O exército se movimentava com tamanha lentidão que ela às vezes se perguntava como os humanos encontravam tempo para qualquer outra coisa além de viajar, considerando-se como sua vida era curta. Seria muito mais conveniente se eles pudessem voar, pensou, sem conseguir entender por que preferiam não fazê-lo. Voar era tão fácil que ela nunca deixava de ficar intrigada com o motivo para qualquer criatura querer permanecer ligada à terra. Até mesmo Eragon mantinha seu apego ao chão-duro-e-mole, quando ela sabia que ele poderia se juntar a ela nos céus a qualquer momento, com a simples emissão de algumas palavras na língua antiga.
Mas a verdade é que ela nem sempre compreendia os atos dos que se equilibravam em duas pernas, não importava se suas orelhas fossem redondas ou pontudas, se tivessem chifres ou fossem tão baixos que ela poderia esmagá-los com os pés.
Um leve movimento para o lado vindo do nordeste atraiu sua atenção, e ela se virou, curiosa. Viu uma fila de quarenta e cinco cavalos cansados, seguindo pesadamente na direção dos Varden. A maioria estava sem cavaleiro. E, no entanto, foi necessário que se passasse mais meia hora e ela conseguisse discernir o rosto dos homens nas selas para lhe ocorrer que o grupo podia ser o de Roran voltando da sua incursão. Saphira se perguntou o que poderia ter acontecido para reduzir de tal maneira o contingente e sentiu uma fisgada momentânea de inquietação. Não estava ligada a Roran, mas Eragon gostava dele, o que era razão suficiente para se preocupar com seu bem-estar.
Forçando sua consciência a descer até os Varden desorganizados, procurou até encontrar a música da mente de Arya; e, uma vez que a elfa a reconheceu e lhe permitiu acesso aos seus pensamentos, Saphira disse: Roran estará aqui antes do final da tarde. Mas sua companhia sofreu graves baixas. Algum mal terrível se abateu sobre eles nessa incursão.
Obrigada, Saphira, disse Arya. Vou informar Nasuada.
Enquanto se retirava da mente de Arya, Saphira sentiu o toque investigador de Blödhgarm-do-pelo-de-lobo-azul-escuro.
Não sou um filhotinho, disse ela, irritada. Você não precisa verificar como estou de saúde de poucos em poucos minutos.
Peço-lhe minhas mais sinceras desculpas, Bjartskularmas você já saiu faz um tempo e, se houver alguém observando, podem começar a se perguntar por que você e...
Eu sei, eu sei, rosnou ela.
Recolhendo um pouco as asas, ela se inclinou para baixo, com a sensação de peso a abandonando, e girou em espirais lentas em seu mergulho até o rio transbordante. Lago estarei aí.
Uns trezentos metros acima da água, Saphira estendeu as asas e sentiu o esforço nas membranas de voo quando o vento fez contra elas uma pressão imensa. Desacelerou até quase ficar imóvel, esvaziou o vento das asas e voltou a acelerar, deslizando até uma distância de uns trinta metros da água-marrom-não-boa-para-beber. Com uma eventual batida das asas para manter a altitude, voou até o Jiet, alerta para as súbitas mudanças na pressão que assolavam o ar-fresco-acima-de-água-corrente e que poderiam empurrá-la para uma direção inesperada ou, pior, para cima de árvores-de-pontas-agudas ou do chão-duro-de-quebrar-ossos.
Ela passou deslizando acima dos Varden próximos do rio, alto o suficiente para que sua chegada não assustasse indevidamente os cavalos bobos. Depois, deixando-se descer com as asas paradas, ela pousou numa clareira entre as tendas – e seguiu pelo acampamento até a tenda vazia de Eragon, onde Blödhgarm e os outros onze elfos que ele comandava estavam esperando por ela. Saudou-os com uma piscada de olhos e uma agitada de língua, para então se enrascar diante da tenda, resignada a cochilar e esperar anoitecer como faria se Eragon estivesse de fato naquele lugar, e ele e ela estivessem voando em missões noturnas. Ficar ali deitada, um dia atrás do outro, era monótono e entediante, mas necessário para manter a ilusão de que Eragon ainda estava com os Varden, tanto que Saphira não se queixava, mesmo que, depois de doze horas ou mais passadas sujando suas escamas no chão-duro-e-áspero, ela sentisse vontade de lutar com mil soldados; arrasar uma floresta com dentes, garras e fogo; ou então dar um salto e sair voando até não poder mais ou até chegar ao fim da terra, da água e do ar.
Rosnando consigo, remexeu o chão com as garras, para amaciá-lo, e então deitou a cabeça atravessada sobre as patas dianteiras, fechando as pálpebras internas para poder descansar e continuar a observar os que passassem por ali.
Um dragão-voador passou planando por cima da sua cabeça, e não pela primeira vez ela se perguntou o que poderia ter inspirado algum pateta descerebrado a dar a um bichinho daqueles o nome da sua espécie. Dragão? Uma criatura tão insignificante!, resmungou ela, e foi caindo num sono superficial.


O grande-fogo-redondo-no-céu estava perto do horizonte quando Saphira ouviu os gritos e brados de boas-vindas, indicação de que Roran e os guerreiros, seus companheiros, haviam chegado ao acampamento. Ela se ergueu. Como tinha feito antes, Blödhgarm meio cantou, meio sussurrou, um encanto que gerou uma imagem insubstancial de Eragon, que o elfo fez com que saísse da tenda e subisse no dorso de Saphira, onde ficou sentado, olhando ao redor, numa perfeita imitação de vida. Em termos visuais, a aparição era impecável, mas não dispunha de vontade. E, se algum agente de Galbatorix tentasse espionar os pensamentos de Eragon, ele logo descobriria o engodo. Portanto, o sucesso do artifício dependia de Saphira transportar a aparição pelo acampamento e tirá-la da vista das pessoas o mais rápido possível, torcendo para que a reputação de Eragon fosse tão amedrontadora que desencorajasse quaisquer observadores clandestinos de tentar colher informações sobre os Varden a partir da consciência do Cavaleiro, pelo temor da sua vingança.
Saphira se pôs em marcha e atravessou pulando o acampamento, com os doze elfos correndo em torno dela em formação. Homens saltavam para abrir caminho, aos gritos de “Salve, Matador de Espectros!” e “Salve, Saphira!”, o que lhe dava um calorzinho gostoso na barriga.
Quando chegou à tenda-crisálida-de-borboleta-vermelha-de-asas-dobradas de Nasuada, ela se agachou e enfiou a cabeça pelo buraco escuro ao longo de uma parede, onde os guardas de Nasuada haviam afastado um painel de tecido para permitir seu acesso. Blödhgarm retomou sua cantilena em voz baixa, e a aparição de Eragon desmontou de Saphira, entrou na tenda rubra e, assim que estava fora do alcance visual dos circunstantes boquiabertos ali fora, se dissolveu como se não fosse nada.
— Você acha que nosso estratagema foi descoberto? — perguntou Nasuada, da sua cadeira de espaldar alto.
Blödhgarm fez uma reverência elegante.
— Novamente, lady Nasuada, não sei dizer. Teremos de esperar para ver se o Império se movimenta para tirar proveito da ausência de Eragon. Só então saberemos a resposta.
— Obrigada, Blödhgarm. Está dispensado.
Com mais uma reverência, o elfo se retirou da tenda e assumiu uma posição alguns metros atrás de Saphira, protegendo seu flanco. Saphira se acomodou de barriga no chão e começou a lamber as escamas da terceira garra do pé esquerdo, em torno das quais haviam se acumulado linhas inconvenientes do barro seco esbranquiçado no qual ela estava parada quando comeu sua última presa. Nem um minuto depois, Martland Barba Ruiva, Roran e um homem-de-orelhas-redondas, que ela não reconhecia, entraram na tenda vermelha e fizeram reverência diante de Nasuada. Saphira interrompeu sua limpeza para provar o ar com a língua e conseguiu discernir o odor picante de sangue seco, o almíscar agridoce do suor, o cheiro interligado de couro e de cavalos e, leve, porém inconfundível, a emanação penetrante do medo-dos-homens. Ela examinou o trio novamente e viu que o homem-de-barba-longa-e-vermelha tinha perdido a mão direita. Voltou então a escavar o barro preso em torno das suas escamas.
Ela continuou a lamber o pé, restaurando cada escama a seu brilho original, enquanto Martland, em primeiro lugar, seguido pelo homem-de-orelhas-redondas-que-era-Ulhart e depois Roran transmitiam um relato de sangue, fogo e homens que riam e se recusavam a morrer na hora designada, mas insistiam em continuar lutando muito depois que Angvard tinha chamado seu nome.
Como era seu hábito, Saphira se manteve em silêncio enquanto outros – especificamente Nasuada e seu conselheiro, Jörmundur, o homem-alto-da-cara-macilenta – interrogaram os guerreiros acerca dos detalhes da missão malfadada. Saphira sabia que às vezes Eragon ficava intrigado, querendo saber por que ela não participava mais das conversas. Seus motivos para o silêncio eram simples: fora Arya ou Glaedr, ela se sentia mais à vontade comunicando-se somente com Eragon; e, na sua opinião, a maioria das conversas não passava de hesitação. Não importava se tivessem a orelha redonda ou pontuda, se tivessem chifres ou fossem baixinhos, os bípedes pareciam ser dependentes da hesitação.
Brom não hesitava, esse era um aspecto que Saphira apreciara nele. Para ela, as escolhas eram simples: ou havia uma ação que podia adotar para melhorar a situação, e nesse caso ela a adotava; ou não havia, e qualquer outra palavra a respeito não passava de ruído sem sentido. Fosse como fosse, ela não se preocupava com o futuro, a não ser no que dissesse respeito a Eragon. Com ele, ela sempre se preocupava.
Quando as perguntas terminaram, Nasuada lamentou a mão perdida de Martland. Dispensou então Barba Ruiva e Ulhart, mas não Roran.
— Você demonstrou mais uma vez sua bravura, Martelo Forte. Estou bastante satisfeita com seu talento.
— Obrigado, minha lady.
— Nossos melhores curandeiros vão cuidar de Martland, mas ele ainda precisará de tempo para se recuperar do ferimento. Mesmo quando estiver recuperado, ele não poderá chefiar incursões como essas com apenas uma mão. De agora em diante, ele terá de servir os Varden na retaguarda do exército, não na vanguarda. Creio que talvez eu o promova e faça dele um dos meus conselheiros de guerra. Jörmundur, o que acha da ideia?
— Creio ser uma ideia excelente, minha lady.
Nasuada acenou com a cabeça, aparentando estar contente.
— Isso significa, porém, que preciso encontrar outro comandante para você, Roran.
— Minha lady, e meu próprio comando? — perguntou Roran. — Já não provei meu valor com essas duas incursões, e ainda com meus feitos passados?
— Se continuar a se distinguir como tem feito, Martelo Forte, conquistará sua posição de comando em breve. É preciso, porém, que você tenha paciência e aguarde mais um pouco. Duas missões, apenas, por mais impressionantes que tenham sido, podem não revelar toda a extensão do caráter de um homem. Sou uma pessoa cautelosa quando se trata de confiar minha gente a outros, Martelo Forte. Com isso, você precisará se conformar.
Roran segurou a cabeça do martelo que se projetava do seu cinto, com as veias e tendões salientes na mão, mas seu tom permaneceu cortês.
— Claro, lady Nasuada.
— Muito bem. Um pajem irá lhe informar seu novo posto mais tarde ainda hoje. Ah, e trate de fazer uma boa refeição depois que você e Katrina terminarem de comemorar seu retorno. Esta é uma ordem. Martelo Forte. Você está me dando a impressão de que vai cair desmaiado.
— Minha lady.
Quando Roran se preparava para ir embora, Nasuada ergueu uma mão.
— Roran. — Ele parou. — Agora que lutou com esses homens que não sentem dor, você acredita que ter uma proteção semelhante das agonias da carne tornaria mais fácil derrotá-los?
Roran hesitou e depois abanou a cabeça.
— Seu ponto forte é sua maior fraqueza. Eles não usam o escudo como o usariam se temessem a cutilada de uma espada ou a espetada de uma flecha. Desse modo, são descuidados com a vida. É verdade que conseguem lutar muito além do momento em que um homem normal teria tombado morto, e essa não é uma vantagem insignificante no combate, mas também morrem em números maiores porque não protegem o corpo como deveriam. Na sua confiança entorpecida, caem em armadilhas e se arriscam em situações que nós faríamos enorme esforço para evitar. Enquanto o ânimo dos Varden permanecer alto, creio que, com a tática certa, podemos vencer esses monstros que riem. Se fôssemos como eles, no entanto, iríamos nos estraçalhar uns aos outros, sem que nenhum dos dois lados se importasse, já que não teríamos nenhuma preocupação com nossa própria proteção. É o que penso.
— Obrigada, Roran.
Quando Roran saiu, Saphira quis saber: Ainda nenhuma notícia de Eragon?
Nasuada balançou a cabeça.
— Não, ainda não soubemos nada dele, e seu silêncio começa a me preocupar. Se não tiver nos contatado até depois de amanhã, farei com que Arya envie uma mensagem para um dos feiticeiros de Orik, pedindo alguma informação dele. Se Eragon não conseguir apressar o fim do conselho de clãs, receio que já não poderemos contar com os anões como abados durante as batalhas que estão por vir. O único aspecto positivo de um desdobramento tão desastroso seria que Eragon poderia voltar para nós sem mais demora.
Quando Saphira estava pronta para deixar a tenda-da-crisálida-vermelha, Blödhgarm mais uma vez invocou a aparição de Eragon e a colocou no dorso de Saphira. Depois, o dragão retirou a cabeça do recinto da tenda e, como tinha feito antes, atravessou o campo pulando, com os elfos ágeis acompanhando seu passo pelo caminho inteiro. Assim que chegou à tenda de Eragon e que o Eragon-espectro-colorido entrou e sumiu, Saphira se ajeitou no chão, resignada a esperar o resto do dia numa monotonia sem trégua. Antes de retomar seu cochilo relutante, porém, ela projetou a mente na direção da tenda de Roran e Katrina, fazendo pressão até Roran baixar as barreiras em torno da sua consciência.
Saphira?, perguntou ele.
Você conhece mais alguém como eu?
É claro que não. Você só me surpreendeu. Eu... bem, estou meio ocupado agora.
Ela estudou a cor das emoções dele, bem como as de Katrina, e achou graça das conclusões.
Eu só queria lhe dar as boas-vindas. Estou feliz por você ter voltado ileso.
Os pensamentos de Roran lampejaram rápidos-quentes-confusos-frios, e ele precisou se esforçar para formar uma resposta coerente. Por fim, disse: É muita gentileza sua, Saphira.
Se você puder, venha me visitar amanhã, quando poderemos falar sem pressa. Fico inquieta aqui sentada, um dia atrás do outro. Talvez você pudesse me contar como Eragon era antes de eu nascer para ele.
Seria... seria uma honra.
Satisfeita por ter cumprido as exigências da cortesia dos bípedes-de-orelhas-redondas ao dar as boas-vindas a Roran, e animada por saber que o dia seguinte não seria tão entediante – pois era impensável que alguém ousasse deixar de atender a um pedido de audiência seu – Saphira ajeitou-se o melhor que pôde na terra nua, desejando, como era seu costume, estar no ninho macio que era seu na casa-da-árvore-que-balança-com-os-ventos de Eragon em Ellesméra.
Um sopro de fumaça lhe escapou quando ela suspirou, adormeceu e sonhou que voava mais alto do que nunca.
Ela batia as asas sem parar até se encontrar acima dos picos inatingíveis das montanhas Beor. Lá, ela girou por um tempo, contemplando a Alagaësia inteira estendida diante dos seus olhos. Depois, um desejo incontrolável a invadiu, o de subir ainda mais alto para ver se conseguiria. Com isso, começou a bater as asas de novo e, no que lhe pareceu um piscar de olhos, passou além da lua fulgurante, até que somente ela e as estrelas de prata pairavam no céu negro. Passeou pelo firmamento por um período indeterminado, minha do mundo brilhante, semelhante a pedras preciosas lá embaixo; mas nessa hora a inquietação penetrou na sua alma, e ela gritou com seus pensamentos: Eragon, onde é que você está?

2 comentários:

  1. "Um dragão-voador passou planando por cima da sua cabeça, e não pela primeira vez ela se perguntou o que poderia ter inspirado algum pateta descerebrado a dar a um bichinho daqueles o nome da sua espécie. Dragão? Uma criatura tão insignificante!, resmungou ela, e foi caindo num sono superficial."

    Para quem ficou sem entender essa parte, em inglês, libélula é 'dragon fly', que na trdução literal, significa vôo de dragão ou dragão voador.
    Entâo, provavelmente, o que passou por Saphira nesse momento foi uma libélula ;)

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  2. Aline, foi bem vinda sua explicação. O trecho em questão me deixou um pouco confusa. Obrigada!

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Boa leitura :)