24 de junho de 2017

Capítulo 32 - Caverna-de-espinho-do-picanço-negro

O

ar fresco e húmido da manhã, carregado de água, assobiou
junto da cabeça de Saphira, que picava voo em direção ao
ninho de ratos, meio iluminado pelo sol nascente. Os raios de
luz baixos destacavam os edifícios malcheirosos de madeira e casca
de ovo, em alto-relevo, com a zona oeste mergulhada em sombras
negras.
O elfo lobo com a forma de Eragon, montado no seu dorso
gritou-lhe algo, mas o vento furioso esfarrapava as palavras e ela
não conseguiu perceber. Ele começou a fazer-lhe perguntas com a
mente recheada de canções, mas Saphira não o deixou acabar,
preferindo falar-lhe da difícil situação de Eragon e pedindo-lhe que
informasse Nasuada que era altura de agir.
Saphira não entendia como era possível que o espetro de
Eragon que Blödhgarm usava pudesse enganar alguém. Não
cheirava como o seu companheiro de mente, além de que o seu
coração e os seus pensamentos também não se pareciam com os
de Eragon. Ainda assim, os duas-pernas pareciam impressionados
com a aparição e eram os duas-pernas que eles pretendiam
enganar.
Do lado esquerdo do ninho de ratos, estava a figura cintilante de
Thorn, estendida sobre as muralhas, sobre o portão sul. Thorn
ergueu a cabeça vermelha e Saphira percebeu que ele já a vira a
picar voo em direção ao solo quebra-ossos, tal como esperava. Os
seus sentimentos para com Thorn eram demasiado complicados
para se conseguirem resumir em meia dúzia de breves impressões.
Sempre que pensava nele, Saphira ficava confusa e insegura, algo
que não estava habituada a sentir.
Porém, ela não estava na disposição de permitir que aquela cria
presunçosa a vencesse em combate.
Quando as chaminés escuras e os telhados de pontas aguçadas
começaram a ficar maiores, Saphira abriu um pouco mais as asas,
sentindo a tensão no peito, no dorso e nos músculos das asas
aumentar, e começou a abrandar na descida. Quando estava a
pouco mais de cem metros de altitude do denso amontoado de
edifícios, arremeteu no sentido ascendente, deixando que as suas
asas se estendessem em toda a sua amplitude. O esforço
necessário para travar a queda era imenso e, por instantes, ela
julgou que o vento lhe fosse arrancar as articulações das asas.
Moveu a cauda para manter o equilíbrio, girando depois sobre a
cidade até localizar a caverna negra do picanço, onde os
sacerdotes sanguinários faziam os seus cultos. Recolhendo de novo
as asas, Saphira desceu os últimos metros, aterrando no meio do
telhado da catedral, com um ruído atroador.
Enterrou as garras nas telhas para não escorregar para a rua, em
baixo. Depois atirou a cabeça para trás e rugiu o mais alto possível,
desafiando o mundo e tudo o que o habitava.
Um sino repicou na torre do edifício, junto da caverna negra do
picanço. Ela achou aquele ruído irritante, por isso torceu o pescoço
e libertou um jato de chamas azuis e amarelas sobre o edifício. A
torre não se incendiou, pois era de pedra, mas a corda e as vigas
que suportavam o sino pegaram fogo e, segundos depois, o sino
caiu ruidosamente no interior da torre.
Isso agradou-lhe, tal como os duas-pernas, de orelhas redondas,
que fugiram do local aos gritos. Afinal de contas, Saphira era um
dragão. Por isso, era justo que a temessem.
Um dos duas-pernas deteve-se numa ponta da praça, em frente
da caverna negra do picanço, e ela ouviu-o gritar-lhe um feitiço,
com uma voz semelhante aos guinchos de um rato assustado. Fosse
qual fosse o feitiço, as barreiras de Eragon protegeram-na — pelo
menos foi o que supôs, visto que não notou qualquer diferença em
si, nem na aparência do mundo em redor.
Foi o elfo lobo na forma de Eragon que matou o feiticeiro. Sentiu
Blödhgarm dominar a mente do mago e vergar o duas-pernas de
orelhas redondas. Depois proferiu uma única palavra na ancestral
língua mágica dos elfos e o duas-pernas de orelhas redondas caiu
para o chão, com sangue a escorrer-lhe da boca aberta.
A seguir, o elfo lobo bateu-lhe ao de leve no ombro e disse:
— Prepara-te, Escamas Brilhantes. Eles aí veem.
Saphira viu Thorn erguer-se sobre os telhados e Murtagh, o
meio-irmão de Eragon — uma figura pequena e escura — montado
no seu dorso. Thorn cintilava quase tanto como ela sob o sol da
manhã, contudo as suas escamas estavam mais limpas que as dele,
pois preparara-se com especial cuidado nessa manhã. Não se
imaginava a entrar em combate a não ser com a sua melhor
aparência. Para além de a temerem, os seus inimigos deveriam
também admirá-la.
Sabia que era uma questão de vaidade, mas não se importava.
Nenhuma outra raça se igualava à grandeza dos dragões. Além
disso, era a última fêmea da espécie e queria que aqueles que a
vissem se maravilhassem com a sua aparência e que a recordassem
bem, pois, se os dragões desaparecessem para sempre, os duaspernas
continuariam a falar deles com o devido respeito e
assombro.
Ao ver Thorn voar sobre o ninho de ratos, a mais de trezentos
metros de altitude, Saphira olhou em redor para se assegurar de
que Eragon, o seu companheiro de mente e coração, não estava
perto da caverna negra do picanço, não queria feri-lo
acidentalmente no combate que se avizinhava. Ele era um caçador
feroz, mas era pequeno e fácil de esmagar.
Saphira tentava decifrar os ecos dolorosos das memórias
obscuras que Eragon partilhara com ela, mas tinha percebido o
suficiente para concluir que os acontecimentos provaram mais uma
vez aquilo em que há muito acreditava: sempre que ela e o seu
companheiro de mente e coração se separavam, ele acabava
metido em sarilhos de uma forma ou de outra. Sabia que Eragon
iria discordar, mas a sua última desventura não contribuíra em nada
para a convencer do contrário, e ela sentia uma satisfação perversa
pelo fato de ter razão.
Logo que Thorn alcançou a altitude desejada, ele deu meia-volta
e picou voo na sua direção, projetando jatos de chamas pela boca
aberta.
Não era o fogo que Saphira receava, pois a barreiras de Eragon
protegê-la-iam, mas o enorme peso e força de Thorn permitir-lheiam
esgotar rapidamente quaisquer feitiços destinados a protegê-la
de danos físicos. Agachou-se e deitou-se ao comprido sobre a
catedral, para se proteger, torcendo o pescoço na tentativa de
morder o baixo-ventre pálido de Thorn.
Uma parede rodopiante de chamas envolveu-a com um ronco
retumbante, semelhante a uma gigantesca queda-de-água. As
chamas tinham um brilho tão intenso que ela fechou instintivamente
as pálpebras interiores, tal como faria debaixo de água, e a luz
deixou de ser ofuscante.
As chamas depressa se dissiparam e a ponta da cauda grossa e
contundente de Thorn traçou uma linha ao longo da membrana da
sua asa direita, passando velozmente sobre ela. O arranhão
sangrou, mas não profusamente, pelo que Saphira deduziu que não
lhe dificultaria muito o voo, ainda que fosse doloroso.
Thorn mergulhou repetidas vezes na direção dela, tentando
persuadi-la a levantar voo, mas Saphira não se mexeu. Depois de
passar mais algumas vezes por ela, Thorn cansou-se de a
atormentar e aterrou no extremo oposto da caverna espinhosa do
picanço negro, abrindo as suas enormes asas para se equilibrar.
Todo o edifício estremeceu quando Thorn aterrou sobre as
quatro patas e muitas das janelas de pedras preciosas, com
desenhos, que preenchiam as paredes da catedral, estilhaçaram-se,
tilintando ao caírem no chão. Thorn estava maior do que ela, graças
à intervenção de Galbatorix, o destruidor de ovos. No entanto, ela
não se deixou intimidar, pois tinha mais experiência do que Thorn.
Além disso treinara com Glaedr, que era maior do que os dois
juntos. Por outro lado, Thorn não se atreveria a matá-la... nem lhe
parecia que fosse essa a sua intenção.
O dragão vermelho rugiu e avançou, arranhando as telhas com a
ponta das garras. Saphira rugiu também, recuando alguns metros,
até sentir a cauda encostada à base dos pináculos que se erguiam
como uma parede, na parte da frente da caverna espinhosa do
picanço negro.
A ponta da cauda de Thorn estremeceu e ela percebeu que o
dragão vermelho estava prestes a atacar.
Saphira inspirou e banhou-o numa torrente de chamas
bruxuleantes. Agora, a sua missão era impedir que Thorn e
Murtagh percebessem que não era Eragon que estava montado no
seu dorso. Para isso, ela tanto poderia manter a distância
necessária de Thorn de modo que Murtagh não pudesse ler os
pensamentos do elfo lobo na forma de Eragon, como poderia
atacá-lo repetidamente e com uma ferocidade tal que o dragão não
tivesse hipótese de retaliar — o que seria difícil, pois Murtagh estava
habituado a lutar montado no dorso de Thorn, mesmo quando este
se virava e se torcia no ar. Ainda assim, Thorn e Murtagh estavam
perto do solo e isso poderia ajudá-la, preferindo atacar. Ela
preferia sempre atacar.
— Não consegues fazer melhor? — gritou Murtagh com a voz
magicamente amplificada, no interior do casulo de fogo em
constante mutação.
Logo que as últimas chamas se extinguiram na sua boca, Saphira
saltou na direção de Thorn, atingindo-o no peito. Os seus pescoços
entrelaçaram-se e as cabeças batiam uma contra a outra, enquanto
ambos tentavam morder a garganta do seu adversário. A força do
impacto projetou Thorn para trás e ele acabou por cair da caverna
espinhosa do picanço negro, sacudindo as asas e atingindo Saphira.
Precipitaram-se ambos em direção ao solo.
Aterraram com um estrondo que rachou as pedras do pavimento
e fez tremer as casas em redor. Algo estalou na curva da asa de
Thorn e o seu dorso arqueou-se de forma pouco natural, enquanto
as proteções de Murtagh impediam o dragão de o esmagar.
Saphira conseguia ouvir Murtagh praguejar debaixo de Thorn,
concluindo que seria melhor afastar-se antes que o duas-pernas de
orelhas redondas começasse a lançar-lhe feitiços com a fúria.
Lançou-se no ar, pontapeando Thorn na barriga, e aterrou no
cimo da casa atrás do dragão vermelho. No entanto, o edifício era
demasiado fraco para suportar o seu peso, por isso voltou a
levantar voo, incendiando a fiada de edifícios, apenas como medida
de precaução.
Eles que lidem com aquilo, pensou Saphira, satisfeita, enquanto
as chamas consumiam furiosamente as estruturas de madeira.
Regressou à caverna espinhosa do picanço negro, enfiou as
garras por baixo das telhas e começou a esburacar o telhado,
destruindo-o tal como fizera ao telhado do castelo de Durza, em
Gil’ead. Só que agora ela estava maior e mais forte, e os blocos de
pedra pareciam-lhe tão leves como seixos para Eragon. Os
sacerdotes sanguinários que faziam os seus cultos lá dentro tinham
ferido Eragon, o seu companheiro de mente e coração, Arya, o elfo
com sangue de dragão, Angela, a mente antiga de rosto jovem,
Solembum, o menino-gato — que dava por muitos nomes — e tinham
matado Wyrden. Por isso Saphira estava determinada a destruir a
caverna espinhosa do picanço negro como vingança.
Em segundos abriu um enorme buraco no teto do edifício e
projetou um jato de chamas para o seu interior. Depois, enganchou
as garras nas extremidades dos tubos de latão do órgão de vento,
arrancou-os da parede traseira da catedral e estes caíram
ruidosamente sobre os bancos, em baixo.
Thorn rugiu e saltou da rua, voando para cima da caverna
espinhosa do picanço negro onde ficou a pairar, batendo
pesadamente as asas para manter a posição. Parecia uma silhueta
negra e sem traços definidos contra a parede de chamas que se
erguia das casas atrás dele. Apenas as asas translúcidas brilhavam
em tons de laranja e vermelho.
Thorn saltou na direção de Saphira, tentando alcançá-la com as
garras serrilhadas.
Saphira esperou até ao último momento e saltou para o lado,
afastando-se da caverna espinhosa do picanço negro, e Thorn
bateu violentamente com a cabeça na base do pináculo central da
catedral. O grande espinho de pedra esburacada estremeceu com
impacto e o topo — uma vara dourada, ornamentada — tombou,
mergulhando mais de trinta metros em direção à praça, lá em baixo.
Rugindo de frustração, Thorn fez um esforço para se erguer, mas
os quadris escorregaram para o buraco que Saphira abrira no
telhado e ele esgravatou nas telhas tentando agarrar-se para
conseguir voltar a sair.
Enquanto isso, Saphira voou para a parte da frente da caverna
espinhosa do picanço negro e colocou-se do lado oposto do
pináculo, contra o qual Thorn colidira.
Ela reuniu todas as forças e bateu no pináculo com a pata direita
dianteira.
Estátuas e entalhes decorativos estilhaçaram-se sob a sua pata,
entupindo-lhe as narinas com nuvens de pó e projetando uma chuva
de fragmentos de pedra e de argamassa na praça. Contudo, o
pináculo aguentou-se, por isso Saphira voltou a atingi-lo.
Ao perceber o que ela estava a fazer, os urros de Thorn
adquiriram um tom frenético, pelo que o dragão fez redobrados
esforços para se libertar.
Ao terceiro golpe de Saphira, o grande espinho de pedra rachou
pela base e tombou para trás, com uma lentidão agonizante,
precipitando-se em direção ao telhado. Thorn teve apenas tempo
para rugir furiosamente antes da torre de escombros lhe cair em
cima, atirando-o para o interior da estrutura do edifício destoçado e
soterrando-o sob pilhas de entulho.
O ruído do pináculo a desfazer-se em pedaços ecoou por todo
o ninho de ratos como um trovão ensurdecedor.
Saphira retorquiu com um rugido, desta vez com uma selvática
sensação de vitória. Thorn iria desenterrar-se depressa, mas até lá
ele estaria à sua mercê.
Inclinando as asas, Saphira contornou a caverna espinhosa do
picanço negro. Ao passar pelas partes laterais do edifício, bateu
nas escoras estriadas que sustentavam as paredes e demoliu-as
uma por uma. Os blocos de pedra tombaram para o chão com um
fragor muito desagradável.
Uma vez removidas todas as escoras, as paredes sem apoio
começaram a baloiçar e a tombar para fora, pelo que os esforços
de Thorn para se libertar serviram apenas para agravar a situação.
Segundos depois, as paredes cederam e toda a estrutura se
desmoronou com um ruído cavo, semelhante a uma avalanche,
libertando uma enorme coluna de pó.
Saphira rejubilou com o seu triunfo. Depois aterrou sobre as
patas traseiras, junto do amontoado de escombros, e coloriu os
blocos de pedra com um jato de chamas tão escaldante quanto
possível. As chamas eram fáceis de desviar com magia, mas conter
o calor exigia maior esforço e dispêndio de energia. Ao forçar
Murtagh a despender mais energia para não ser assado vivo
juntamente com Thorn, depois da que já usava para não ser
esmagado, Saphira esperava enfraquecer-lhe as reservas o
suficiente para que Eragon e os duas-pernas de orelhas bicudas o
derrotassem.
Enquanto ela cuspia fogo, o elfo lobo montado no seu dorso
entoava feitiços, embora Saphira não soubesse bem com que
propósito, nem estivesse particularmente interessada em saber.
Confiava no duas-pernas. O que quer que fosse que ele estivesse a
fazer, iria certamente ajudar.
Os blocos amontoados explodiram e Saphira saltou para trás,
vendo Thorn irromper do entulho. Tinha as asas amarrotadas como
as de uma borboleta pisada e sangrava de diversos golpes nas
pernas e no dorso.
Ele olhou-a ferozmente e rugiu, com os olhos cor de rubi
escurecidos pela fúria do combate. Pela primeira vez, Saphira
conseguira enfurecê-lo, percebendo que ele estava ansioso por lhe
dilacerar a carne e provar o seu sangue.
Ótimo, pensou ela. Talvez Thorn não fosse o canalha assustado
e vencido que ela achava que era.
Murtagh levou a mão a uma bolsa que tinha no cinto e tirou um
pequeno objeto redondo. Saphira sabia, por experiência, que o
objeto estava encantado e que ele iria utilizá-lo para curar os
ferimentos de Thorn.
Ela levantou voo tentando ganhar o máximo de altitude possível
antes que Thorn estivesse em condições de a perseguir. Depois de
bater as asas algumas vezes, olhou de relance para baixo e viu-o
subir na sua direção, a uma velocidade incrível, como um enorme
gavião vermelho de garras aguçadas.
Torceu-se no ar e preparava-se para picar voo quando ouviu
Eragon gritar nas profundezas da sua mente:
Saphira!
Alarmada, continuou a torcer o corpo até ficar virada para a
arcada do portão sul, onde sentira a presença de Eragon. Depois
encolheu as asas tanto quanto possível e mergulhou num ângulo
inclinado em direção ao arco.
Thorn tentou atacá-la ao cruzar-se com ele em voo picado, mas
Saphira não precisou de olhar para trás para saber que ele a seguia
de perto.
E foi assim que ambos picaram voo em direção à fina muralha
do ninho de ratos, com o vento fresco da manhã, carregado de
água, a uivar nos ouvidos de Saphira como um lobo ferido.

Um comentário:

  1. "Não se
    imaginava a entrar em combate a não ser com a sua melhor
    aparência. Para além de a temerem, os seus inimigos deveriam
    também admirá-la."

    Kkkkk Saphira é D+

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Boa leitura :)