3 de junho de 2017

Capítulo 31 - Sangue nas rochas

Frustrado, Eragon saiu às pressas da câmara circular enterrada bem fundo nos subterrâneos de Tronjheim. A porta de carvalho bateu com força atrás dele, produzindo um barulho seco.
Ficou de pé, com os braços na cintura, no meio do corredor arqueado do lado de fora da câmara e olhou fixamente para a porta, decorada com mosaicos de ágata e jade.
Desde que ele e Orik haviam chegado a Tronjheim, três dias antes, os treze chefes de clã dos anões não faziam nada além de discutir a respeito de questões que Eragon considerava inconsequentes, tais como quais clãs tinham o direito de levar seus rebanhos em determinadas pastagens disputadas. Enquanto os ouvia debater pontos obscuros de seu código de leis, Eragon frequentemente sentia vontade de gritar que estavam agindo como cegos idiotas que submeteriam toda a Alagaësia ao domínio de Galbatorix, a menos que colocassem de lado suas preocupações menores e escolhessem um novo governante sem mais delongas.
Ainda imerso em pensamentos, caminhou lentamente pelo corredor, quase sem notar os quatro guardas que o seguiam – como faziam aonde quer que ele fosse – nem os anões com quem cruzava e que o saudavam com variações de “Argetlam”.
A pior era Íorûnn, decidiu Eragon. A anã era grimstborith do Dûrmgrimst Vrenshrrgn, um clã poderoso e belicista, e deixara bem claro, desde o início das deliberações, que pretendia subir ela própria ao trono. Somente outro clã, o Urzhad, havia abertamente se comprometido com sua causa, mas, como ela havia demonstrado em múltiplas ocasiões durante as reuniões entre os chefes de clã, era sagaz, astuciosa e capaz de distorcer quase todas as situações em proveito próprio. Ela poderia ser uma excelente rainha, admitiu Eragon, mas é tão inescrupulosa que é impossível saber se apoiaria os Varden uma vez que fosse entronizada.
Permitiu-se uma careta. Conversar com Íorûnn era sempre esquisito para ele. Os anões a consideravam uma grande beldade e, mesmo para os padrões humanos, tinha uma presença arrebatadora. Além disso, parecia haver cultivado uma fascinação por Eragon que ele se sentia incapaz de alcançar. Em todas as conversas que mantinham, ela insistia em fazer alusões à história e à mitologia dos anões que Eragon não compreendia, mas que parecia divertir Orik e os outros até não poder mais.
Além de Íorûnn, dois outros chefes de clã haviam aparecido como concorrentes ao trono: Gannel, chefe do Dûrgrimst Quan, e Nado, chefe do Dûrgrimst Knurlcarathn. Na posição de guardiões da religião dos anões, o Quan exercia uma enorme influência em sua raça, mas até aquele momento Gannel só havia obtido o apoio de dois outros clãs, Dûrgrimst Ragni Hefthyn e Dûrgrimst Ebardac – um clã prioritariamente devotado à pesquisa acadêmica.
Nado, diferentemente, havia galvanizado uma coalizão maior, consistindo nos clãs Feldûnost, Fanghur e Az Sweldn rak Anhûin. Enquanto Íorûnn parecia querer o trono apenas pelo poder que teria em seguida, e Gannel não parecia inerentemente hostil aos Varden – embora tampouco fosse simpático a eles – Nado era aberta e veementemente contrário a qualquer envolvimento com Eragon, Nasuada, o Império, Galbatorix, a rainha Islanzadí ou, até onde Eragon podia entender, a qualquer ser vivo fora das montanhas Beor. O Knurlcarathn era o clã dos pedreiros e, no que concernia à quantidade de homens e bens materiais, não tinha concorrentes, já que todos os outros clãs dependiam de seus conhecimentos técnicos para escavar os túneis e construir as suas residências, e até mesmo o Ingeitum precisava deles para retirar o minério de ferro para seus ferreiros. E se Nado vacilasse em sua pretensão à coroa, Eragon sabia que vários dos outros chefes de clã menores que compartilhavam suas visões surgiriam para tomar o seu lugar.
O clã Az Sweldn rak Anhûin, por exemplo – que Galbatorix e os Renegados haviam quase obliterado quando ascenderam ao poder – havia se declarado inimigo de sangue de Eragon por ocasião de sua visita à cidade de Tarnag e, em cada ação que realizava no conselho de clãs, havia demonstrado seu ódio implacável a ele, a Saphira e a todas as coisas ligadas a dragões e seus Cavaleiros. Foram contrários à presença de Eragon nas reuniões dos chefes de clã – mesmo sendo perfeitamente legítimo pelas leis dos anões – e forçaram uma votação sobre a questão, adiando assim os procedimentos por mais seis desnecessárias horas.
Qualquer dia desses, pensou Eragon, vou ter de achar uma maneira de fazer as pazes com eles. Ou faço isso ou terei de terminar o que Galbatorix começou. Eu me recuso a viver toda a minha vida com medo do Az Sweldn rak Anhûin.
Novamente, como fizera tantas vezes nos últimos dias, esperou um momento pela resposta de Saphira e, como ela não vinha, uma familiar pontada de infelicidade atingiu-lhe o coração.
O grau de segurança das alianças entre quaisquer clãs, entretanto, era uma questão até certo ponto incerta. Nem Orik nem Íorûnn nem Gannel nem Nado tinham suficiente apoio para ganhar um voto popular. Assim, estavam todos ativamente engajados na tentativa de reter a lealdade dos clãs que já haviam prometido ajudá-los enquanto, ao mesmo tempo, tentavam minar os que estavam apoiando seus oponentes.
Apesar da importância do processo, Eragon achou tudo aquilo excessivamente tedioso e frustrante. Baseado na explicação de Orik, Eragon entendeu que, antes dos chefes de clã terem a chance de eleger um líder, têm de decidir por voto se estão preparados para escolher um novo rei ou rainha e que a eleição preliminar precisa garantir pelo menos nove votos a seu favor para passar. Até aquele momento, nenhum dos chefes de clã, incluindo Orik, sentia suficiente segurança em suas posições para levantar a questão e proceder com a eleição final. Aquela era, como dissera Orik, a parte mais delicada do processo e, em algumas instâncias, havia se arrastado por um longo e frustrante tempo.
Enquanto ponderava a situação, Eragon vagava pelo aglomerado de câmaras abaixo de Tronjheim até se encontrar em uma sala árida e empoeirada com cinco arcos pretos alinhados de um lado e uma escultura em baixo-relevo de um urso com dentes à mostra, com seis metros de altura, do outro. O urso tinha dentes de ouro e rubis redondos e facetados no lugar dos olhos.
— Onde estamos, Kvîstor? — quis saber Eragon, olhando para seus guardas.
Sua voz produzia ecos vazios na sala. Podia sentir as mentes de muitos dos anões nos andares de cima, mas não fazia a menor ideia de como poderia alcançá-los. O guarda principal, um jovem anão com não mais do que sessenta anos, deu um passo à frente.
— Essas salas foram esvaziadas milhares de anos atrás por grimstnzborith Korgan quando Tronjheim estava sendo construída. Nós não as usamos muito desde então, exceto quando toda a nossa raça se reúne em Farthen Dûr.
Eragon assentiu.
— Você pode me levar de volta à superfície?
— Claro, Argetlam.
Alguns minutos de uma rápida caminhada os levaram até uma escadaria larga de degraus finos, adequados aos anões, que subia do chão até uma passagem em algum lugar do quadrante sudoeste da base de Tronjheim. De lá, Kvîstor guiou Eragon até o ramo sul dos corredores de seis quilômetros de comprimento que dividiam a cidade ao longo dos pontos cardinais do perímetro. Era a mesma escadaria pela qual Eragon e Saphira haviam entrado em Tronjheim vários meses atrás, e Eragon a percorreu em direção ao centro da cidade-montanha com uma estranha sensação de nostalgia. Sentia-se como se tivesse envelhecido vários anos nesse ínterim.
A avenida de quatro andares estava repleta de anões de todos os clãs. Notavam Eragon, estava certo disso, mas nem todos se dignavam a reconhecê-lo, o que ele agradecia, já que lhe poupava esforços de retribuir ainda mais saudações. Eragon enrijeceu quando viu urna fileira de Az Sweldn rak Anhûin cruzar o corredor. Como se fossem um único ser, os anões viraram suas cabeças e o encararam, suas expressões obscurecidas atrás dos véus purpúreos que os membros daquele clã sempre usavam em público. O último anão da fileira cuspiu no chão na direção de Eragon antes de sumir por uma arcada junto de seus pares.
Se Saphira estivesse aqui, eles não ousariam ser tão grosseiros, pensou Eragon.
Meia hora depois, chegou ao final do majestoso corredor e, embora tivesse estado lá muitas vezes antes, uma sensação de arrebatamento e admiração tornou conta dele à medida que pisava entre os pilares de ônix pretos encimados por zircões amarelos de três vezes o tamanho de um homem e entrava na câmara circular no coração de Tronjheim.
A câmara tinha trezentos metros de lado a lado, com um piso de cornalina polido onde estava desenhado um martelo cercado por doze pentagramas, que era o timbre do Dûrgrimst Ingeitum e do primeiro rei dos anões, Korgan, que descobrira Farthen Dûr enquanto extraía ouro. Opostos a Eragon, e em cada um dos lados, ficavam as entradas para os três outros corredores através da cidade-montanha. A câmara não possuía teto, mas ascendia quase dois quilômetros até o topo de Tronjheim. Lá, abria-se para a fortaleza de dragões – onde Eragon e Saphira residiram antes de Arya quebrar a grande estrela de safira – e para o céu e o infinito: um belíssimo disco azul que parecia inimaginavelmente distante, circundado como estava pela boca aberta de Farthen Dûr, a montanha oca de dezesseis quilômetros que protegia Tronjheim do resto do mundo. Apenas uma mínima quantidade de luz era filtrada até a base de Tronjheim. A Cidade do Eterno Crepúsculo, como os elfos a chamavam.
Como tão pouca luz solar entrava na cidade-montanha – exceto por uma encantadora meia hora antes e depois do meio-dia durante o pico do verão – os anões iluminavam o interior com incontáveis lanternas sem chama. Milhares delas estavam gloriosamente à disposição na câmara. Uma lanterna brilhante ficava pendurada do lado de fora de um ou outro pilar das arcadas curvadas que alinhavam cada nível do lugar. E ainda mais lanternas estavam penduradas dentro das arcadas, marcando as entradas para salas estranhas e desconhecidas, assim como para a trilha de Vol Turin, a Escadaria Sem Fim, que se espiralava em torno da câmara do topo à base.
O efeito era ao mesmo tempo melancólico e espetacular. As lanternas eram de muitas cores diferentes e faziam com que o interior da câmara parecesse pontilhado de joias resplandecentes.
Sua glória, todavia, empalidecia ao lado do esplendor de uma verdadeira joia, a maior joia de todas: Isidar Mithrim. No chão da câmara, os anões haviam construído um tablado de madeira de dezoito metros de diâmetro e, entre o cercado de vigas de carvalho encaixadas, estavam reunindo todos os preciosos pedaços da estrela de safira despedaçada com o maior cuidado e delicadeza.
Os cacos que ainda colocariam no lugar estavam guardados em caixas abertas e acolchoadas com ninhos de lã crua, cada uma rotulada com uma sequência de rimas dispostas como em uma teia. As caixas estavam espalhadas em um grande espaço do lado oeste da vasta sala. Talvez trezentos anões estivessem debruçados sobre elas, concentrados em seu trabalho, enquanto lutavam para combinar os cacos e formar um todo coeso. Outro grupo estava alvoroçado no tablado, cuidando da gema fragmentada e construindo estruturas adicionais.
Eragon observou-os em seu trabalho por vários minutos, então, foi até o pedaço do chão que Durza quebrara quando ele e seus guerreiros Urgal haviam entrado em Tronjheim pelos túneis subterrâneos. Com a ponta da bota, Eragon deu um chute na pedra polida à sua frente. Nenhum sinal do estrago permanecera. Os anões haviam feito um maravilhoso trabalho apagando as marcas deixadas pela batalha de Farthen Dûr, embora Eragon esperasse que fossem comemorar a batalha com algum tipo de memorial, já que sentia ser importante que as gerações futuras não esquecessem o custo em sangue que os anões e os Varden pagaram no curso da guerra com Galbatorix.
Enquanto caminhava na direção do tablado, Eragon fez um sinal com a cabeça para Skeg, que estava em pé sobre uma plataforma que dava para a estrela de safira. Já se encontrara antes com o anão magro e de dedos rápidos. Skeg era do Dûrgrimst Gedthrall e havia sido a ele que o rei Hrothgar confiara a restauração do mais valioso tesouro dos anões. Skeg fez um gesto para Eragon.
Uma visão cintilante das hastes enviesadas em forma de agulhas afiadas, das finíssimas bordas brilhantes e das superfícies onduladas confrontou Eragon quando ele pisou nas mal cortadas pranchas de madeira. O topo da grande estrela de safira lembrava-lhe o gelo sobre o rio Anora, no vale Palancar, no final do inverno, que derrete e gela novamente múltiplas vezes e é traiçoeiro para quem caminha sobre ele por causa das saliências e dos sulcos que a inconstância da temperatura proporciona. Só que em vez do azul, do branco e da claridade, os restos da estrela de safira eram de uma tonalidade levemente rosa com traços de um pálido laranja.
— Como está indo? — perguntou Eragon.
Skeg deu de ombros e balançou as mãos no ar como um par de borboletas.
— Está indo como é possível ir, Argetlam. Não se pode apressar a perfeição.
— Eu tenho a sensação de que você está progredindo rapidamente.
Com um dedo ossudo, Skeg deu uma pancadinha no lado de seu amplo e achatado nariz.
— O topo de Isidar Mithrim, que agora é a base, Arya quebrou em pedaços grandes, que são fáceis de encaixar. A base de Isidar Mithrim, todavia, que agora é o topo... — Skeg balançou a cabeça, seu rosto enrugado demonstrando desconsolo. — A intensidade do golpe, todos os pedaços se chocando com a face da gema, deslocando-se para longe de Arya e do dragão Saphira, caindo na sua direção e na do Espectro de coração negro... espatifou as pétalas da rosa em fragmentos ainda menores. E a rosa, Argetlam, a rosa é a chave para a gema. É a parte mais complexa, mais bonita de Isidar Mithrim. E é a parte que está mais despedaçada. Se não conseguirmos colocar novamente cada pequeno pedaço em seu devido lugar, será melhor dar a gema a nossos joalheiros para que façam anéis para nossas mães. — As palavras escapavam de Skeg como água transbordando de um vaso. Gritou em sua língua para um anão que estava carregando uma caixa na câmara, e então cofiou a barba branca e perguntou: — Argetlam, você já ouviu a história de como Isidar Mithrim foi esculpida, na Era de Herran?
Eragon hesitou, relembrando suas lições de história em Ellesméra.
— Eu sei que foi Dûrok quem a esculpiu.
— Foi — disse Skeg. — Foi Dûrok Ornthrond, Olho de Águia, como você diz em sua língua. Não foi ele que descobriu Isidar Mithrim, mas foi quem a extraiu sozinho da pedra, a esculpiu e a poliu. Cinquenta e sete anos passou trabalhando na Rosa Estrela. A gema o cativou mais do que qualquer outra coisa. Todas as noites, debruçava-se sobre Isidar Mithrim até o nascer do sol, porque estava determinado a fazer com que a Rosa Estrela fosse não apenas uma obra de arte, mas também uma coisa que tocasse os corações de todos que a olhassem, o que garantiria a ele um lugar de honra junto aos deuses. Sua devoção era tanta que no trigésimo segundo ano de sua labuta, quando sua mulher lhe disse que, se ele não dividisse o ônus do projeto com seus aprendizes, ela o abandonaria, Dûrok não disse uma palavra e deu as costas para ela, continuando a cinzelar os contornos da pétala que começara no início daquele ano.
“Dûrok trabalhou em Isidar Mithrim até ficar satisfeito com cada linha e cada curva. Então, soltou o pano de polir, deu um passo para trás, afastando-se da Rosa Estrela e disse: ‘Gûntera, proteja-me; está pronto’, e caiu morto no chão.” Skeg deu um tapa no peito, produzindo um som abafado. “Seu coração parou de funcionar, o que mais teria ele a fazer na vida? É isso o que estamos tentando reconstruir, Argetlam: cinquenta e sete anos de uma incessante concentração da parte de um dos maiores artistas que nossa raça já produziu. Se não conseguirmos refazer Isidar Mithrim exatamente da maneira como era, vamos diminuir o êxito de Dûrok para todos que ainda estão para ver a Rosa Estrela.”
Skeg deu um soco na própria coxa para enfatizar suas palavras.
Eragon inclinou-se no parapeito à sua frente e observou quando cinco anões no lado oposto da gema abaixaram um sexto, que estava preso numa corda, até que ficasse pendurado alguns centímetros acima da safira fraturada. O anão suspenso enfiou a mão dentro da túnica e removeu uma lasca de Isidar Mithrim de uma bolsa de couro. Em seguida, segurando a lasca com pinças minúsculas, encaixou-a em um pequeno espaço na parte de baixo da gema.
— Se a coroação fosse daqui a três dias — disse Eragon — Isidar Mithrim já estaria pronta?
— O que será, será — disse Orik. Ele sorriu, mas seus olhos estavam tristes e vazios. — Ninguém pode escapar dos desígnios do destino.
— Você não teria como tomar o poder à força? Eu sei que você não tem tantos soldados assim em Tronjheim, mas, com meu apoio, quem ficaria contra você?
Orik parou a faca entre o prato e a boca, balançou a cabeça e continuou a comer. Entre uma garfada e outra, disse:
— Uma tática como essa seria desastrosa.
— Por quê?
— Eu preciso explicar? Toda a nossa raça se voltaria contra nós, e em vez de assumir o controle da nação eu herdaria um título vazio. Se isso acontecesse, eu não apostaria uma espada quebrada que nós viveríamos até o fim do ano.
— Ah.
Orik não disse nada mais até acabar a comida em seu prato. Então entornou a cerveja, arrotou e retomou a conversa.
— Nós estamos nos equilibrando sobre uma trilha ventosa de montanha com um precipício de quase dois quilômetros de cada lado. Muitos de minha raça odeiam e temem os Cavaleiros de Dragão por causa dos crimes que Galbatorix, os Renegados e agora Murtagh cometeram contra nós. E muitos deles temem o mundo além das montanhas, túneis e cavernas onde nos escondemos. — Ele girou a caneca na mesa. — Nado e Az Sweldn rak Anhûin estão apenas piorando a situação. Jogam com o medo das pessoas e envenenam suas mentes contra você, os Varden e o rei Orrin... Az Sweldn rak Anhûin é o epítome do que nós devemos superar se eu quiser me tornar rei. De algum modo temos de encontrar uma maneira de aliviar as preocupações deles e daqueles que pensam como eles, porque, mesmo eu sendo rei, terei de manter uma boa relação com eles se quiser manter o apoio dos clãs. Um rei ou rainha dos anões está sempre à mercê dos clãs, não importa o quanto ele ou ela seja um líder forte, assim como os grimstborithn estão à mercê das famílias de seus clãs. — Jogando a cabeça para trás, Orik bebeu o que restava da cerveja e então baixou a caneca com força sobre a mesa.
— Existe alguma coisa que eu possa fazer, alguma tradição ou cerimônia de vocês que eu possa celebrar, que pudesse apascentar Vermûnd e seus seguidores? — perguntou Eragon, referindo-se ao grimstborith de Az Sweldn rak Anhûin que estava no poder. — Deve haver alguma coisa que eu possa fazer para aliviar suas suspeitas e colocar um ponto final nesse conflito.
Orik riu e se levantou.
— Você poderia morrer.


Na manhã seguinte, bem cedo, Eragon estava sentado, encostado na parede curvada da sala redonda que ficava bem abaixo do centro de Tronjheim, junto com um seleto grupo de guerreiros, conselheiros, serviçais e membros das famílias dos chefes de clã que tinham o privilégio de participar da reunião de clãs. Os próprios chefes estavam sentados em pesadas cadeiras entalhadas dispostas em volta da mesa circular que, como a maioria dos objetos de valor nos níveis inferiores da cidade-montanha, tinha o timbre de Korgan e do Ingeitum.
Naquele momento, Gáldhiem, grimstborith do Dûrgrimst Feldûnost, estava falando. Era pequeno, mesmo para um anão – pouco mais de meio metro de altura – e usava vestes em tons dourado, castanho-avermelhado e azul-escuro. Diferentemente dos anões do Ingeitum, não aparava ou trançava a barba, que lhe caía pelo peito como se fosse uma sarça emaranhada. Em pé sobre a cadeira, dava socos na mesa polida e rosnava:
— Eta! Narho ûdim etal os isû vond! Narho ûdim etal os formvm mendûnost brakn, az Varden, hrestvog dûr grimstnzhadn! Az Jurgenvren qathrid né dômar oen etal...
— Não — sussurrou o anão chamado Hûndfast, tradutor de Eragon, em seu ouvido —, eu não vou deixar que isso aconteça. Eu não vou deixar que esses tolos sem barba, os Varden, destruam nosso país. A Guerra dos Dragões nos deixou fracos e não...
Eragon soltou um bocejo, entediado. Seu olhar vagou pela mesa de granito, de Gáldhiem a Nado, um anão de rosto redondo com cabelos cor de linho que assentia com a cabeça em sinal de aprovação ao discurso explosivo de Gáldhiem. Olhou para Havard, que usava uma adaga para limpar as unhas dos dois dedos remanescentes de sua mão direita; para Vermûnd, com a testa pesada, mas inescrutável por trás do véu púrpura; para Gannel e Ûndin, que estavam sentados um encostado ao outro, sussurrando, enquanto Hadfala, uma anã anciã que era a chefe do clã Ebardac e o terceiro membro da aliança de Gannel, franzia o cenho para o molho de pergaminhos cobertos de runas que levava consigo a todas as reuniões. Então, Eragon olhou para o chefe do Dûrgrimst Ledwonnû, Manndrâth, que estava sentado de forma que visse seu perfil, expondo muito bem seu longo e caído nariz; para Thordris, a grimstborith do Dûrgrimst Nagra, de quem enxergava pouco mais do que os cabelos ruivos e ondulados que lhe caíam pelos ombros e se espiralavam no chão numa trança duas vezes maior do que o seu tamanho; para a nuca de Orik enquanto ele pendia para um dos lados da cadeira; para Freowin, grimstborith do Dûrgrimst Gedthrall, um anão imensamente corpulento que mantinha os olhos fixos sobre um bloco de madeira que se ocupava em entalhar com o formato de algo parecido com um corvo corcunda; para Hreidamar, grimstborith do Dûrgrimst Urzhad, que, em contraste com Freowin, tinha o corpo compacto e em forma, com antebraços bem definidos e que usava uma cota de malha e um capacete em todas as reuniões; e finalmente olhou para Íorûnn, com sua pele castanha onde se via apenas uma pequena cicatriz em forma crescente sobre sua bochecha esquerda, com seus cabelos sedosos e brilhantes presos abaixo de um elmo prateado feito no formato da cabeça de um lobo rosnando, com seu vestido escarlate e com seu colar de esmeraldas cintilantes dispostas em quadrados de ouro entalhados com fileiras de runas arcanas.
Íorûnn reparou que Eragon estava olhando para ela. Um sorriso preguiçoso apareceu em seus lábios. Com uma voluptuosa naturalidade, piscou para ele, obscurecendo um de seus olhos amendoados por um par de batimentos cardíacos. As bochechas de Eragon formigaram de tão vermelhas, e as pontas das orelhas ficaram em brasa.
Desviou o olhar para Gáldhiem, que ainda estava ocupado pontificando, seu peito subindo e descendo como o de um pombo caminhando. Seguindo o conselho de Orik, Eragon permaneceu impassível ao longo da reunião, escondendo suas reações daqueles que estavam observando. Quando a reunião foi interrompida para o almoço, correu na direção de Orik e, inclinando-se de modo que ninguém mais pudesse ouvir, disse:
— Não procure por mim em sua mesa. Já fiquei sentado demais ouvindo discursos. Vou explorar os túneis um pouco.
Orik assentiu com a cabeça, parecendo distraído, e murmurou em resposta:
— Faça como quiser, mas não se esqueça de estar aqui quando retomarmos a reunião. Não é adequado você vadiar, por mais que todo esse falatório seja tedioso.
— Como queira.
Eragon saiu da sala de conferências com uma leva de anões ansiosos para almoçar e reencontrou seus quatro guardas do lado de fora da sala, onde estiveram jogando dados com guerreiros ociosos de outros clãs. Com os quatro a tiracolo, Eragon pôs-se a caminhar sem uma direção determinada, deixando seus pés carregarem-no para onde quisessem enquanto imaginava algum método de unir as facções dos anões em conflito de modo a combater Galbatorix.
Exasperado, concluiu que os únicos métodos que conseguia vislumbrar eram tão inexequíveis que era absurdo imaginar qualquer sucesso. Eragon prestava pouca atenção aos anões que encontrava nos túneis – exceto as saudações murmuradas que a polidez ocasionalmente demandava – e tampouco se concentrava em saber por onde estava andando, confiando que Kvîstor poderia guiá-lo de volta à sala de conferências.
Embora não estivesse analisando os detalhes visuais das redondezas, Eragon mantinha um registro de mentes de todas as criaturas vivas que conseguia sentir em um raio de dezenas de metros, até a menor aranha agachada atrás de sua teia no canto da sala, já que não desejava ser surpreendido por ninguém que pudesse ter um motivo para procurá-lo. Quando finalmente parou, ficou surpreso de encontrar-se na mesma sala empoeirada que descobrira durante suas perambulações no dia anterior. A sua esquerda, estavam as mesmas cinco arcadas pretas que levavam a cavernas desconhecidas, ao passo que à sua direita estava a mesma escultura em baixo-relevo da cabeça e dos ombros de um urso com os dentes à mostra.
Espantado com a coincidência, Eragon dirigiu-se à escultura de bronze e olhou para os dentes brilhantes do urso, imaginando o que o fizera desistir. Depois de um momento, foi até o meio das cinco arcadas e olhou através delas. O estreito corredor que estava além era desprovido de lanternas e logo escureceu numa tênue sombra. Projetando sua consciência, F.ragon testou o comprimento do túnel e das várias câmaras abandonadas para as quais se abria. Uma meia dúzia de aranhas e uma esparsa coleção de traças, centopeias e grilos cegos eram os únicos habitantes.
— Oi! — chamou Eragon, e ouviu o corredor retornar sua voz em um volume cada vez mais baixo. — Kvîstor — disse Eragon, olhando para ele — ninguém vive mesmo nessas partes antigas?
O anão de rosto jovem respondeu:
— Alguns vivem. Alguns estranhos knurlan, aqueles para quem a solidão é mais prazerosa do que o toque da mão de sua mulher ou do que o som das vozes de seus amigos. Foi um desses knurlag que nos avisou da chegada do exército Urgal, se é que você se lembra, Argetlam. E também, embora nós não falemos frequentemente a respeito disso, existem aqueles que desrespeitaram as leis de nossa terra e que foram exilados pelos chefes de clã, sob pena de morte se reincidissem, por alguns anos ou, se a ofensa tivesse sido grave, pelo restante de suas vidas. Todos esses são como mortos-vivos para nós; nós os afugentamos se os avistamos fora de nossas terras e os enforcamos se os encontramos no interior de nossas fronteiras.
Quando Kvîstor terminou de falar, Eragon indicou que estava pronto para partir. Kvîstor tomou a dianteira e, seguido por Eragon, atravessaram o umbral por onde haviam entrado, os três outros anões logo atrás. Caminharam não mais do que seis metros até que Eragon ouviu um leve ruído de alguma coisa se arrastando atrás deles, tão leve que Kvîstor nem pareceu reparar.
Eragon olhou para trás. Em meio à luz âmbar das lanternas sem chama penduradas de cada lado do corredor, viu sete anões inteiramente vestidos de preto, seus rostos escondidos atrás de tecidos escuros e seus pés envoltos em trapos, correndo na direção deles numa velocidade que Eragon imaginava ser exclusividade dos elfos, Espectros e outras criaturas cujo sangue pulsava com magia. Em suas mãos direitas, os anões seguravam longas e afiadas adagas com pálidas lâminas que tremeluziam em cores vivas, enquanto nas esquerdas, cada um carregava um escudo de metal com uma lança afiada e protuberante. Suas mentes, como as dos Ra’zac, estavam ocultas para Eragon.
Saphira!, foi a primeira coisa que veio à cabeça de Eragon. Então, lembrou que estava sozinho. Girando o corpo para encarar os anões vestidos de preto, Eragon alcançou o cabo da cimitarra enquanto abria a boca para gritar por ajuda. Tarde demais.
Assim que a primeira palavra escapou de sua garganta, três dos estranhos anões agarraram o último dos guardas de Eragon e levantaram suas adagas cintilantes para golpeá-lo. Mais rápido do que a fala ou a consciência, Eragon mergulhou todo o seu ser em um fluxo de magia e, sem confiar na língua antiga para estruturar seu encanto, remendou o tecido do mundo para que ficasse com um padrão mais agradável a ele. Os três guardas que estavam entre ele e os atacantes voaram em sua direção, como se arremessados por cordas invisíveis, e aterrissaram a seu lado, a salvo, porém desorientados.
Eragon estremeceu em função do súbito decréscimo de sua força. Dois dos anões vestidos de preto correram até ele, golpeando sua barriga com suas adagas sedentas de sangue. De espada na mão, Eragon desviou de ambos os golpes, impressionado com a velocidade e a ferocidade dos anões. Um dos guardas deu um salto para a frente, gritando e brandindo seu machado na direção dos potenciais assassinos. Antes que Eragon pudesse agarrar a cota de malha do anão e arrancá-lo dali, uma lâmina branca, retorcida como uma chama espectral penetrou o pescoço do anão. No instante em que o anão caiu, Eragon olhou de relance para seu rosto agonizante e ficou chocado por identificar Kvîstor com sua garganta liquefeita em um vermelho brilhante se desintegrando em volta da adaga.
Não posso nem deixar que me arranhem, pensou Eragon. Enraivecido pela morte de Kvîstor, Eragon golpeou seu assassino com tanta velocidade que o anão vestido de preto não teve nenhuma chance de escapar, desabou morto aos pés de Eragon. Com toda a sua força, gritou:
— Fiquem atrás de mim!
Estreitas fissuras separavam os pisos e as paredes, e pedacinhos de pedra caíam do teto à medida que sua voz reverberava pelo corredor. Os anões agressores vacilaram devido à irrefreável potência de sua voz, mas logo retomaram a ofensiva.
Eragon recuou vários metros para ganhar terreno e se livrar dos cadáveres, e ficou agachado, brandindo a cimitarra para todos os lados, como se fosse uma cobra se preparando para o ataque. Seu coração estava batendo em um ritmo duas vezes mais rápido do que o habitual e, embora o combate mal houvesse começado, já estava ofegante.
O corredor tinha dois metros de largura, o que significava espaço suficiente para três de seus inimigos o atacarem juntos. Espalharam-se, dois tentando pegá-lo pelos flancos, enquanto o terceiro atacou-o de frente, açoitando os braços e as pernas de Eragon numa velocidade frenética.
Temendo duelar com os anões como o faria se estivessem portando espadas normais, Eragon impulsionou as pernas contra o chão e saltou. Deu um giro no ar e atingiu o teto com os pés. Deu outro giro e aterrissou agachado, cerca de um metro atrás dos três anões. Quando rodopiaram em sua direção, Eragon deu um passo à frente e decapitou os três com um só golpe.
As adagas dos anões tilintaram no chão um instante antes de suas cabeças. Saltando sobre os corpos mutilados, Eragon girou no ar e pousou no local onde partira. Não houve tempo para respirar. Sentiu um zunido e viu a ponta de uma adaga passar por seu pescoço. Outra lâmina acertou a bainha de sua perneira, abrindo-a em duas. Ele recuou e brandiu a cimitarra, tentando ganhar espaço para lutar.
Minhas proteções deveriam ter jogado suas espadas para longe!, pensou ele, perplexo.
Um grito involuntário lhe escapou pela garganta quando pisou em uma poça de sangue, perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Com um baque nauseante, sua cabeça colidiu com o chão de pedra. Luzes azuis piscaram diante de seus olhos. Ele arquejou. Seus três guardas remanescentes correram até ele e brandiram os machados em uníssono, liberando a tensão e livrando-o do ataque das adagas brilhantes. Foi o tempo necessário para Eragon se recuperar. Levantou-se rapidamente e, ralhando consigo mesmo por não haver tentado isso antes, gritou um encanto amarrado com nove das doze palavras mortais que Oromis lhe ensinara. Entretanto, logo depois de liberar sua magia, abandonou o encanto, pois os anões vestidos de preto estavam protegidos de inúmeras formas. Se dispusesse de alguns minutos, talvez pudesse escapar ou derrotar as proteções, mas minutos poderiam significar dias em uma batalha como aquela, onde cada segundo tinha a duração de urna hora.
Tendo fracassado com a magia, Eragon forçou seus pensamentos para criar uma lança de ferro e arremessou-a onde imaginava que estaria a consciência de um dos anões de preto. A lança foi desviada por algum tipo de armadura mental que Eragon jamais encontrara antes: lisa e inconsútil, aparentemente intacta no que concerne a criaturas naturais e mortais engajadas em uma luta até a morte. Alguém mais os está protegendo, percebeu Eragon. Há mais seres por trás desse ataque do que apenas esses sete.
Sustentando-se sobre um pé, Eragon avançou e, com sua cimitarra, penetrou o joelho de seu agressor, fazendo jorrar sangue. O anão perdeu o equilíbrio e os guardas de Eragon foram até ele e agarraram seus braços, de modo que não pudesse brandir sua lâmina afiada, e golpearam-no com seus machados curvos.
O mais próximo dos dois últimos agressores ergueu seu escudo em antecipação ao golpe que Eragon estava prestes a desferir sobre ele. Reunindo todo o seu poder, Eragon atacou o escudo com a intenção de destruí-lo e de cortar aquele braço em dois, como fizera com Zar’roc. Todavia, no calor da batalha, esqueceu de levar em conta a inexplicável rapidez do anão. Quando a cimitarra estava pronta atingir seu alvo, o anão movimentou o escudo de modo a desviar o golpe. Duas chispas irromperam da superfície do escudo quando a cimitarra ricocheteou na parte de cima, e então a ponta do aço penetrou no centro. A intensidade do golpe fez a cimitarra ir mais longe do que Eragon desejava, e ela continuou voando no ar até atingir uma parede, sacudindo o braço do Cavaleiro. Com um som cristalino, a lâmina da cimitarra se despedaçou em dezenas de pedaços, deixando-o com uma ponta de metal, partido e inútil. Desalentado, Eragon dispensou a espada quebrada e agarrou a borda do escudo do anão, lutando e se esforçando para manter o escudo entre ele e a adaga de cores translúcidas.
O anão era incrivelmente resistente; seus esforços se comparavam aos de Eragon, e conseguiu até mesmo empurrá-lo alguns centímetros para trás. Soltando o anteparo de defesa com a mão direita, mas ainda segurando-o com a esquerda, Eragon afastou o braço e golpeou o escudo com toda a força que conseguiu, socando o aço diluído com tanta facilidade que parecia ser feito de madeira podre.
Devido aos calos em suas juntas, não sentiu nenhuma dor com o impacto. A força do golpe arremessou o anão contra a parede oposta. Com a cabeça pendendo sobre um pescoço sem osso, o anão desabou no chão como uma marionete cujas cordas foram arrebentadas. Eragon puxou sua mão de volta pelo buraco deformado do escudo, se arranhando no metal cortado, e pegou sua faca de caça. Então, o último dos anões vestidos de preto pulou em cima dele.
Eragon desviou duas, três vezes, e atravessou a manga inflada do anão, rasgando do cotovelo ao pulso o braço com o qual ele segurava a adaga. O anão gemeu de dor, olhos azuis furiosos acima da máscara de pano. Ele iniciou uma série de golpes, a adaga sibilando no ar com tanta rapidez que o olhar não era capaz de seguir, o que forçava Eragon a se distanciar para evitar o fio mortal.
O anão intensificou o ataque. Por vários metros, Eragon conseguiu se evadir, até que seu calcanhar atingiu um corpo e, na tentativa de evitá-lo, tropeçou e caiu contra uma parede, machucando o ombro. Com um riso malévolo, o anão golpeou o tórax exposto de Eragon. Levantando um dos braços numa tentativa inútil se proteger, o Cavaleiro rolou mais ainda no corredor, ciente de que dessa vez sua sorte havia acabado e que não teria como escapar.
Assim que completou uma cambalhota e seu rosto ficou momentaneamente virado para o anão, Eragon olhou de relance a adaga esbranquiçada descaindo sobre seu corpo como um raio vindo do céu. Então, para seu espanto, a ponta da adaga ficou presa em uma das lanternas em chama penduradas na parede. Eragon rodopiou para longe antes que pudesse ver mais alguma coisa, mas, um instante depois a mão incandescente de alguém pareceu acertá-lo por trás, arremessando-o uns seis metros pela parede, até que conseguiu se segurar na abertura de uma arcada, acumulando instantaneamente uma nova coleção de arranhões e contusões.
Um estrondo o deixou surdo. Sentindo-se como se alguém estivesse enfiando tenazes em seus ouvidos, Eragon cobriu os ouvidos com as palmas das mãos e se encolheu, uivando. Quando o ruído e a dor diminuíram, abaixou suas mãos e se esforçou para se levantar, rangendo os dentes à medida que as contusões anunciavam uma miríade de sensações desagradáveis.
Debilitado e confuso, ele mirou o local da explosão. A rajada deixara os três metros de extensão do corredor com uma cor preta de fuligem. Suaves flocos de cinza caiam do ar, que estava tão quente quanto o ar de uma forja acesa. O anão que quase acertara Eragon estava deitado no chão, sacudindo-se, seu corpo coberto de queimaduras. Após mais algumas convulsões, ficou inerte.
Os três guardas remanescentes de Eragon estavam deitados onde terminavam a fuligem, para onde haviam sido arremessados pela explosão. No momento em que observava, eles se levantaram, com sangue pingando de suas orelhas e das bocas abertas, suas barbas chamuscadas e desalinhadas. Os anéis da cota de malha estavam bem vermelhos devido ao fogo, mas o couro por baixo da armadura os havia protegido da pior parte do calor.
Eragon deu um único passo à frente, e então parou e rosnou ao sentir uma corrente de agonia percorrer-lhe os ombros. Ele tentou girar o braço para examinar a extensão do ferimento, mas ao esticar a pele, a dor ficou forte demais e foi obrigado a parar. Quase perdendo a consciência, recostou-se na parede em busca de apoio. Olhou novamente para o anão queimado.
Eu devo ter sofrido ferimentos similares em minhas costas. Forçando-se a se concentrar, recitou dois encantamentos criados para curar queimaduras que Brom lhe havia ensinado durante suas viagens. Assim que começaram a fazer efeito, teve a sensação de água fria e terapêutica fluindo por suas costas. Suspirou de alívio e se esticou.
— Vocês estão feridos? — perguntou quando os guardas se aproximaram cambaleando.
O anão líder franziu as sobrancelhas, deu um tapinha na orelha direita e balançou a cabeça. Eragon murmurou uma praga e só então reparou que não conseguia ouvir sua própria voz. Novamente vasculhando as reservas de energia em seu corpo, lançou um encanto para reparar seus ouvidos e dos guardas. Assim que concluiu o encantamento, uma coceira irritante acometeu o interior de seus ouvidos, e então desapareceu junto com a magia.
— Vocês estão feridos?
O anão à direita, um sujeito corpulento com a barba em forma de garfo, tossiu e cuspiu uma gota de sangue coagulado, então grunhiu:
— Nada que o tempo não ajeite. E você, Matador de Espectros?
— Vou viver.
Testando o chão a cada passo, Eragon entrou na área preta de fuligem e se ajoelhou ao lado de Kvîstor, na esperança de ainda poder salvar o anão das garras da morte. Assim que examinou novamente seu ferimento, viu que isso não aconteceria.
Eragon inclinou a cabeça, a lembrança de banhos de sangue antigos e recentes amargurava sua alma. Levantou-se.
— Por que as lanternas explodiram?
— Elas são preenchidas de luz e calor, Argetlam — respondeu um dos guardas.
— Se elas se quebram, tudo isso escapa de imediato e então é melhor estar bem longe. Fazendo um gesto na direção dos corpos destruídos de seus agressores, Eragon perguntou:
— Vocês sabem a que clã eles pertencem?
O anão com a barba em forma de garfo passou a mão pela roupa de vários dos anões vestidos de preto e disse:
— Barzûl! Eles não carregam marcas para não serem reconhecidos, Argetlam, mas carregam isto. — Ele ergueu um bracelete feito de crina de cavalo trançada e preso com cabochões de ametista polida.
— O que isso significa?
— Essa ametista — disse o anão, e deu uma pancadinha em um dos cabochões com a unha cheia de fuligem —, essa variedade particular de ametista, só é encontrada em quatro locais nas montanhas Beor, e três deles pertencem a Az Sweldn rak Anhûin.
Eragon franziu o cenho.
— Grimstborith Vermûnd ordenou esse ataque?
— Não posso dizer com certeza, Argetlam. Algum outro clã poderia ter deixado o bracelete para que nós o encontrássemos. Poderiam ter feito isso para que pensássemos que a culpa fosse de Az Sweldn rak Anhûin. Para que não tivéssemos ciência de quem são nossos verdadeiros inimigos. Mas... se fosse para eu apostar, Argetlam, eu apostaria uma carrada de ouro que o responsável é Az Sweldn rak Anhûin.
— Maldito seja! — murmurou Eragon. — Seja lá quem for, maldito seja! — Ele cerrou os punhos para que parassem de tremer. Tocou com o lado da bota em uma das adagas prismáticas que os assassinos estavam manuseando. — Os encantamentos que estavam nessas armas e nesses... nesses homens — ele indicou com o queixo —, homens, anões, seja lá o que for, devem ter requerido uma incrível quantidade de energia, e eu não consigo nem mesmo imaginar o quão complexas as palavras mágicas devem ter sido. Lançá-las teria sido difícil e perigoso... — Eragon olhou para cada um dos guardas e disse: — Como vocês são minhas testemunhas, eu juro que não deixarei esse ataque nem a morte de Kvîstor ficarem impunes. Seja lá qual tenha sido o clã, ou os clãs, que enviou esses assassinos sujos, assim que eu descobrir seus nomes, vão desejar jamais terem pensado em me atacar e, me atacando, atacar o Dûrgrimst Ingeitum. Isso eu juro a vocês, como Cavaleiro de Dragão e como membro do Dûrgrimst Ingeitum, e se alguém perguntar a respeito do ocorrido, repitam minha promessa exatamente como eu a fiz.
Os anões fizeram uma mesura para ele, e aquele com a barba em forma de garfo, respondeu:
— Como você ordena, assim obedeceremos, Argetlam. Você honra a memória de Hrothgar com suas palavras.
Então, outro anão completou:
— Seja lá qual tenha sido o clã ou os clãs, eles violaram a lei de hospitalidade; atacaram um convidado. Não chegam nem aos pés de um rato; eles são menknurlan. — Ele cuspiu no chão, e os outros anões acompanharam seu gesto.
Eragon caminhou até onde estava o que sobrara de sua cimitarra. Ajoelhou-se na fuligem e, com a ponta do dedo, tocou um dos pedaços de metal, sentindo o fio arrebentado.
Eu devo ter atingido o escudo e a parede com tanta força que acabei sobrepujando os encantamentos que usei para reforçar o aço, pensou ele. Preciso de uma espada. Preciso de uma espada de Cavaleiro.

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Boa leitura :)