3 de junho de 2017

Capítulo 30 - Os mortos que riem

Agachado, Roran espiava através da treliça de galhos de salgueiro. A duzentos metros dali, cinquenta e três soldados e carroceiros estavam sentados em torno de três fogueiras separadas, jantando enquanto o crepúsculo caía rapidamente sobre a terra.
Os homens haviam parado para passar a noite às margens largas e relvadas de um rio sem nome. Os carroções cheios de suprimentos para as tropas de Galbatorix estavam parados numa espécie de semicírculo em torno das fogueiras. Dezenas de bois acorrentados pastavam atrás do acampamento, mugindo de vez em quando uns para os outros. Cerca de vinte metros rio abaixo, entretanto, um barranco de terra macia se projetava bem alto do chão, o que impedia qualquer ataque ou escapada por aquele lado.
O que eles estavam pensando?, perguntou-se Roran. Mandava a prudência que, em território inimigo, se acampasse em local defensável, o que geralmente significava encontrar alguma formação natural que protegesse a retaguarda. Mesmo assim, era preciso ter o cuidado de escolher um lugar de descanso do qual fosse possível fugir em caso de emboscada. A situação que se via ali era que seria de uma facilidade extrema que Roran e os outros guerreiros sob o comando de Martland saíssem do mato baixo onde estavam escondidos e encurralassem os homens do Império na ponta do “V” formado pelo barranco e o rio, onde poderiam acabar com os soldados e os carroceiros a seu bel-prazer. O que deixava Roran intrigado era o fato de soldados treinados cometerem um erro tão óbvio. Talvez sejam de uma cidade, pensou. Ou talvez sejam apenas inexperientes. Ele franziu o cenho. Então por que alguém lhes confiaria uma missão tão crucial?
— Você detectou alguma armadilha? — perguntou ele.
Roran não precisava virar a cabeça para saber que Carn estava logo ali atrás dele, assim como Halmar e mais dois homens. Fora os quatro espadachins que se juntaram à companhia de Martland para substituir os que tinham morrido ou sofrido ferimentos incuráveis durante seu último confronto, Roran já havia lutado ao lado de todos os homens do grupo. Apesar de não gostar de todos, sem exceções, Roran confiava a vida a eles, como sabia que confiavam nele. Depois da primeira batalha, Roran havia se surpreendido pelo tanto que se sentia próximo dos companheiros, bem como pelo afeto que lhe demonstravam.
— Nada que eu possa dizer — murmurou Carn. — Mas a verdade é que...
— Eles podem ter inventado novos encantamentos que você não consiga detectar, é mesmo. Mas existe algum mágico entre eles?
— Não sei dizer ao certo, mas, não, acho que não.
Roran afastou um emaranhado de folhas de salgueiro para ver melhor a disposição dos carroções.
— Não estou gostando disso — resmungou. — Havia um mágico acompanhando o outro comboio. Por que não neste?
— Existem menos mágicos do que você poderia imaginar.
— Humm — Roran coçou a barba, ainda perturbado com a aparente falta de senso comum dos soldados. Eles poderiam estar tentando atrair um ataque? Não parecem preparados para isso, mas dificilmente as aparências são tudo. Que tipo de cilada eles aprontaram para nós? Não há mais ninguém num raio de trinta léguas; Murtagh e Thorn foram vistos peta última vez voando para o norte a partir de Feinster.
— Mande o sinal — disse ele. — Mas diga a Martland que me perturba o fato de terem acampado aqui. Ou são idiotas ou têm algum tipo de defesa invisível para nós: magia ou algum outro estratagema do rei.
Fez-se silêncio, e então:
— Já mandei. Martland diz que tem a mesma preocupação que você; mas, a menos que queiramos voltar para Nasuada com o rabo entre as pernas, vamos correr o risco.
Roran concordou, resmungando, e deu as costas aos soldados. Fez um gesto com o queixo, e os outros homens voltaram arrastando-se com ele para onde haviam deixado os cavalos. Pondo-se de pé, Roran montou em Fogo na Neve.
— Upa, calma, garoto — sussurrou ele, afagando Fogo na Neve enquanto o cavalo balançava a cabeça.
Na penumbra, a pelagem e a crina do animal reluziam como prata. Não pela primeira vez, Roran desejou que seu cavalo fosse de uma cor menos visível, talvez um belo baio ou castanho. Tirando o escudo de onde estava pendurado junto â sela, Roran encaixou o braço esquerdo nas alças e então puxou o martelo do cinto. Engoliu em seco, com um aperto familiar entre os ombros, e segurou melhor sua arma. Quando os cinco estavam prontos, Carn ergueu um dedo, e suas pálpebras se semicerraram enquanto seus lábios se mexiam, como se estivesse falando sozinho. Ouviu-se um grilo ali perto.
As pálpebras de Carn se abriram de repente.
— Lembrem-se de manter o olhar voltado para o chão até sua visão se ajustar; e mesmo nessa hora não olhem para o céu. — Começou então uma cantilena na língua antiga, palavras ininteligíveis que vibravam com poder.
Roran se cobriu com o escudo e fixou os olhos contraídos em sua sela, quando uma pura luz branca, brilhante como o sol do meio-dia, iluminou a paisagem. O brilho violento se originava de algum ponto acima do acampamento. Roran resistiu à tentação de ver exatamente onde. Com um grito, bateu com os calcanhares nas costelas de Fogo na Neve e se curvou sobre o pescoço do cavalo, que saltou em disparada. De cada lado, Carn e os outros guerreiros fizeram o mesmo, brandindo suas armas.
Galhos arranhavam a cabeça e os ombros de Roran, e então Fogo na Neve se livrou das árvores e seguiu para o acampamento a pleno galope. Outros dois grupos de cavaleiros também investiram a toda a velocidade na direção do acampamento, um chefiado por Martland, o outro, por Ulhart. Os soldados e os carroceiros gritaram alarmados e cobriram os olhos. Cambaleando como cegos, procuravam aflitos pelas armas enquanto tentavam se posicionar para rechaçar o ataque. Roran não fez nenhuma tentativa de reduzir a velocidade de Fogo na Neve. Esporeando o garanhão mais urna vez, levantou-se nos estribos e se segurou com toda a força quando o cavalo saltou por cima da pequena brecha entre dois carroções.
Seus dentes bateram uns nos outros quando animal e cavaleiro pousaram do outro lado. Fogo na Neve escavou terra para cima de uma das fogueiras, fazendo subir uma explosão de faíscas. Os outros membros do grupo de Roran também saltaram pelos carroções. Sabendo que cuidariam dos soldados atrás dele, Roran se concentrou nos que estavam à sua frente. Direcionando Fogo na Neve para um homem, aplicou-lhe um golpe com a ponta do martelo e lhe quebrou o nariz, espalhando sangue vermelho por todo o seu rosto. Roran despachou o homem com um segundo golpe na cabeça e então se defendeu da espada de outro soldado. Mais adiante, no arco formado pelos carroções, Martland, Ulhart e seus homens também saltaram para invadir o acampamento, pousando com um estrondo de cascos e uni fragor de armas e armaduras. Um cavalo berrou e caiu quando um soldado o feriu com uma lança.
Roran bloqueou pela segunda vez a espada do soldado e então atingiu a mão com que brandia a espada, quebrando ossos e forçando o homem a largar a arma. Sem parar, Roran golpeou-o no centro da túnica vermelha, fraturando seu esterno e o derrubando, ofegante e mortalmente ferido.
Roran se virou na sela, esquadrinhando o acampamento em busca do seu próximo adversário. Seus músculos vibravam com uma empolgação nervosa. Cada detalhe ao seu redor estava nítido e claro como se fora gravado em vidro. Sentia-se invencível, invulnerável. O próprio tempo parecia se esticar e se tornar lento, tanto que uma mariposa confusa que passou adejando por ele parecia estar voando através de mel em vez de ar. E então, um par de mãos agarrou as costas da sua cota de malha, arrancou-o de cima de Fogo na Neve e o atirou com violência no chão duro, tirando-lhe o fôlego. A visão de Roran falhou, e tudo se apagou por um instante. Quando se recuperou, viu que o primeiro soldado que tinha atacado estava sentado no seu tórax, tentando sufocá-lo. O vulto escondia a fonte de luz que Carn tinha criado no céu. Um halo branco cercava sua cabeça e seus ombros, mantendo suas feições numa sombra tão densa que Roran não conseguia distinguir nada do seu rosto a não ser o lampejo dos dentes à mostra.
Enquanto Roran arquejava, lutando para respirar, o soldado apertava mais os dedos em torno do seu pescoço. Tateou em busca do martelo, que tinha deixado cair, mas ele não estava ao seu alcance. Retesando o pescoço para evitar que o homem o esmagasse e lhe tirasse a vida, Roran tirou a adaga do cinto e a fincou através da cota de malha do soldado, através do gibão de couro e por entre suas costelas esquerdas. O soldado não chegou a se encolher, nem relaxou o aperto no pescoço. Um fluxo contínuo de riso gorgolejante emanava dele.
A risada oscilante, de gelar o sangue, medonha ao extremo, revoltou de pavor o estômago de Roran. Lembrava-se deste som em outra ocasião. Ele o tinha ouvido enquanto via os Varden lutar contra os homens que não sentiam dor no campo relvado ao lado do rio Jiet. Num átimo, compreendeu por que os soldados tinham escolhido um local tão pouco apropriado para acampar: Eles não se importam se forem alvos de emboscada ou não, porque não temos como feri-los.
Roran passou a ver tudo vermelho, e estrelas amarelas dançavam diante dos seus olhos. Balançando à beira da inconsciência, arrancou a adaga da carne e tentou golpear mais para cima, penetrando na axila do soldado e girando a lâmina no ferimento. Jorros de sangue quente espirraram na sua mão, mas o soldado nem pareceu perceber. O mundo explodiu em manchas de cores pulsantes quando o homem bateu com a cabeça de Roran no chão. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Roran levantou o quadril tentando derrubar o agressor de cima dele, mas sem sucesso. Cego e desesperado, tentou atingir o ponto onde supunha que estivesse o rosto do homem e sentiu que a adaga pegava em carne macia. Puxou-a de leve para trás e então a fincou na mesma direção, sentindo o impacto quando a ponta da lâmina bateu no osso.
A pressão em torno do seu pescoço desapareceu. Roran ficou deitado onde estava, com o peito arfando. Depois, rolou de lado e vomitou, com uma ardência na garganta.
Ainda arquejando e tossindo, cambaleou até ficar em pé e viu o soldado jogado imóvel ali ao lado, com a adaga fincada na narina esquerda.
— Ataquem na cabeça! — gritou Roran, apesar da dor na garganta. — Na cabeça!
Ele deixou a adaga enterrada na narina do soldado e apanhou o martelo do chão pisoteado onde tinha caído, parando o tempo suficiente para também apanhar uma lança largada, que segurou com a mão do escudo. Pulando por cima do soldado caído, ele correu na direção de Halmar, que estava também a pé, lutando contra três homens ao mesmo tempo. Antes que os soldados se dessem conta dele, Roran atingiu os dois mais próximos na cabeça com tanta força que partiu seus cimos. O terceiro deixou a cargo de Halmar. Roran saltou, então, em direção ao soldado cujo esterno havia fraturado e que pensara estar morto. Encontrou o homem sentado, encostado à roda de um carroção, cuspindo sangue coagulado e se esforçando para pôr a corda num arco. Roran o feriu, penetrando seu olho com a lança. Pedaços de carne cinzenta ficaram grudados à lâmina da lança quando ele a puxou do ferimento. Ocorreu, então, uma ideia a Roran. Atirou a lança num homem de túnica vermelha do outro lado da fogueira mais próxima, atravessando-o pelo torso, enfiou o cabo do martelo no cinto e pôs a corda no arco do soldado. Encostando-se a um carroção, Roran começou a lançar flechas nos soldados que corriam pelo acampamento, tentando matá-los com uma flechada de sorte que atingisse o rosto, o pescoço ou o coração; ou imobilizá-los para que seus companheiros pudessem acabar com eles com mais facilidade. Se não fosse por mais nada, calculava que um soldado ferido poderia sangrar até morrer antes que a luta terminasse.
A confiança inicial do ataque tinha desaparecido em total confusão. Os Varden estavam dispersos e transtornados, alguns em suas montarias, alguns a pé, e a maioria ensanguentada. Pelo menos cinco, ao que Roran pudesse dizer, haviam morrido quando homens que acreditavam ter matado voltaram para atacá-los. Quantos soldados restavam, era impossível calcular na multidão de corpos que se debatiam, mas Roran podia ver que o contingente inimigo ainda era mais numeroso do que os meros vinte e cinco Varden sobreviventes. Eles poderiam nos estraçalhar com as mãos desarmadas enquanto nós tentamos destruí-los, concluiu ele.
Em meio à algazarra, procurou por Fogo na Neve e viu que o cavalo branco tinha descido mais adiante pela margem do rio, onde agora estava parado junto a um salgueiro, com as narinas dilatadas e as orelhas grudadas no crânio. Com o arco, Roran matou mais quatro soldados e feriu mais de vinte. Quando só lhe restavam duas flechas, avistou Carn em pé, do outro lado do acampamento, lutando com um soldado próximo ao canto de uma tenda em chamas. Retesando o arco até as penas na flecha fazerem cócegas em sua orelha, Roran acertou no peito do soldado. Ele tropeçou e Carn o decapitou. Roran largou de lado o arco e, de martelo na mão, correu em direção a Carn, gritando:
— Você não consegue matá-los com magia?
Por um momento, Carn só conseguiu arfar, mas depois abanou a cabeça.
— Todos os encantamentos que lancei foram bloqueados. — A luz da tenda em chamas dourava o lado do seu rosto.
Roran praguejou.
— Juntos, então! — bradou ele, erguendo o escudo.
Ombro a ombro, os dois investiram contra o grupo mais próximo de soldados: oito homens que cercavam três dos Varden. Os minutos seguintes foram uma convulsão de armas faiscantes, carne dilacerada e dores súbitas para Roran. Os soldados se cansavam mais devagar que os homens normais e jamais se esquivavam de um ataque. Nem esmoreciam mesmo quando atingidos pelas lesões mais horrendas. O empenho da luta era tamanho que a náusea de Roran voltou; e depois que caiu o oitavo soldado, ele se debruçou e vomitou novamente. Então cuspiu para limpar a boca.
Um dos Varden que procuravam salvar morreu na refrega, derrubado por uma faca nos rins, mas os dois que ainda estavam em pé uniram forças com Roran e Carn. E, com o reforço, eles atacaram o lote seguinte de soldados.
— Empurrem todos para o rio! — gritou Roran. A água e a lama limitariam os movimentos dos soldados e talvez permitissem que os Varden virassem o jogo.
Não longe dali, Martland havia conseguido reunir os doze Varden que ainda estavam a cavalo, e já estavam fazendo o que Roran sugeria: arrebanhando os soldados para trás, para a água brilhante.
Os soldados e os poucos carroceiros que ainda estavam vivos resistiam. Enfiavam os escudos nos homens a pé. Tentavam fincar lanças nos cavalos. Mas, apesar da oposição violenta, os Varden os forçavam a recuar passo a passo, até que os homens de túnica vermelha estavam na correnteza forte até a altura dos joelhos, meio ofuscados pela luz espectral que brilhava sobre eles.
— Mantenham a posição! — gritou Martland, desmontando e se plantando com as pernas separadas na beira da margem do rio. — Não deixem que voltem para a terra!
Roran se deixou cair meio acocorado, enfiou os calcanhares na terra macia até se sentir numa postura confortável e esperou pelo ataque do grandalhão, em pé na água fria, poucos metros à sua frente. Com um rugido, o soldado saiu da água rasa, lançando respingos e brandindo a espada em direção a Roran, a qual ele aparou com o escudo. Ele retaliou com um golpe do martelo, mas o soldado se defendeu com o escudo e tentou atingir suas pernas. Por alguns segundos, lutaram sem que nenhum dos dois ferisse o outro. E, então, Roran esmagou o antebraço esquerdo do homem, derrubando-o alguns passos para trás. O soldado apenas sorriu e deu uma risada sem alegria, horripilante. Roran se perguntou se ele ou algum dos companheiros sobreviveriam àquela noite.
Eles são mais difíceis de matar do que cobras. Nós podemos cortá-los em tiras, e ainda continuam a atacar, a menos que atinjamos algum ponto vital.
Seu pensamento seguinte desapareceu quando o soldado voltou a investir contra ele, com a espada rombuda tremeluzindo como uma labareda à luz desbotada. A partir desse momento, a batalha assumiu um quê de pesadelo para Roran. A luz estranha e maligna conferia à água e aos soldados um aspecto espectral, retirando-lhes toda a cor e projetando sombras longas, finas e afiadas sobre a água em movimento, enquanto mais além e em toda a volta prevalecia a escuridão da noite. Repetidamente, ele repelia os soldados que saíam cambaleando da água para matá-lo, martelando-os até praticamente deixarem de ser reconhecíveis como humanos. E ainda assim não morriam.
A cada golpe, medalhões de sangue negro manchavam a superfície do rio, como borrões de tinta derramada, e eram levados pela correnteza. A monotonia mortal de cada confronto entorpecia e horrorizava Roran. Por mais que se esforçasse, sempre havia outro soldado mutilado que aparecia para tentar cortá-lo e furá-lo. E sempre o risinho alucinado dos homens que sabiam que estavam mortos e, no entanto, continuavam a manter uma aparência de vida mesmo enquanto os Varden destruíam seu corpo.
E, então, o silêncio.
Roran permaneceu agachado por trás do escudo com o martelo erguido, arfando, empapado de suor e sangue. Passou-se um minuto até se dar conta de que não havia ninguém em pé ali na água, diante dele. Olhou para a direita e a esquerda três vezes, sem conseguir captar que os soldados estavam por fim, abençoada e irrevogavelmente mortos.
Um cadáver passou boiando por ele na água cintilante. Um berro incoerente lhe escapou quando uma mão segurou seu braço direito. Girou com violência, rosnando e se afastando, só para ver Carn ao seu lado. O feiticeiro lívido e ensanguentado estava falando.
— Nós vencemos, Roran! Hein? Eles se foram! Nós acabamos com eles!
Roran relaxou os braços e inclinou a cabeça para trás, cansado demais até mesmo para se sentar. Sentia-se... sentia-se como se seus sentidos estivessem extraordinariamente aguçados; e ao mesmo tempo suas emoções estavam amortecidas, silenciadas, abafadas em algum lugar de seu íntimo. Estava feliz com isso. Se não fosse assim, achava que enlouqueceria.
— Reúnam-se para inspecionar os carroções! — gritou Martland. — Quanto mais cedo vocês se mexerem, mais rápido sairemos deste lugar amaldiçoado! Carn, cuide de Welmar. Não estou gostando da cara desse corte.
Com uma enorme determinação, Roran se virou e atravessou pesadamente a margem até o carroção mais próximo. Piscando para se livrar do suor na testa, viu que, do contingente original, somente nove ainda conseguiam ficar em pé. Afastou da mente essa observação. Agora não é hora de chorar os mortos.
Enquanto Martland Barba Ruiva atravessava o acampamento juncado de cadáveres, um soldado que Roran tinha suposto estar morto virou de repente e, do chão, decepou a mão direita do conde. Com um movimento tão elegante que pareceu ter sido ensaiado, Martland chutou a espada das mãos do soldado, ajoelhou-se sobre seu pescoço e, usando a mão esquerda, tirou uma adaga do cinto e a fincou numa das orelhas do homem, matando-o. Com o rosto vermelho e contraído, Martland enfiou o toco do pulso por baixo da axila esquerda e mandou embora todos os que correram para o seu lado.
— Deixem-me em paz! Praticamente não é nada. Já para os carroções! Se vocês não se apressarem, seus imprestáveis, nós vamos demorar tanto tempo aqui que minha barba ficará branca como a neve. Andem! — Quando Carn recusou-se a se mexer, porém, Martland amarrou a cara. — Fora daqui — berrou ele — ou eu mando açoitá-lo por insubordinação. Mando mesmo!
O feiticeiro exibiu a mão perdida de Martland.
— Eu talvez consiga prendê-la de volta no lugar, mas vou precisar de alguns minutos.
— Ora, droga! Dê-me isso aí! — exclamou Martland, arrancando a mão de Carn, e a enfiando na sua túnica. — Pare de se preocupar comigo e trate de salvar Welmar e Lindel se puder. Você pode tentar prendê-la de volta depois que tivermos nos afastado algumas léguas desses monstros.
— Talvez seja tarde demais até lá — observou Carn.
— Isso foi uma ordem, feiticeiro, não um pedido! — vociferou Martland.
Enquanto Carn recuava, o conde usou os dentes para tapar com a manga da túnica o toco do braço, que ele mais uma vez enfiou debaixo da axila esquerda. Seu rosto estava coberto de gotas de suor.
— Pois bem! Que itens malditos estão escondidos nesses carroções dos infernos?
— Corda! — gritou alguém.
— Uísque! — gritou outro.
— Ulhart, registre as quantidades para mim — ordenou ele, com um grunhido.
Roran ajudou os outros enquanto remexiam em cada um dos carroções, gritando o conteúdo para Ulhart. Depois, mataram as juntas de bois e atearam fogo aos carroções, como antes. Em seguida, reuniram seus cavalos e montaram, amarrando os feridos às selas. Quando estavam prontos para partir, Carn fez um gesto na direção do clarão no céu e murmurou uma palavra longa e complicada. A noite envolveu o mundo.
Olhando para o alto, Roran avistou uma sombra da imagem do rosto de Carn superposta sobre as estrelas fracas e, então, quando se acostumou à escuridão, viu as formas leves e cinzentas de milhares de mariposas desnorteadas que se espalhavam pelo céu como sombras de almas humanas. Com o coração pesado, Roran tocou os flancos de Fogo na Neve com os calcanhares e se afastou dos restos do comboio.

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Boa leitura :)