24 de junho de 2017

Capítulo 30 - Infiéis à solta

—M

as que idiota! — exclamou Angela, caminhando
apressadamente para a borda do círculo ornamentado.
Sangrava de uma série de golpes e arranhões, e tinha mais
sangue nas roupas, que Eragon desconfiou não ser dela. Tirando
isso, parecia ilesa.
— Tudo o que ele tinha de fazer era... isto!
Ergueu a espada transparente e brandiu-a por cima da cabeça,
batendo com o pomo numa das ametistas em redor do círculo. O
cristal estilhaçou-se com um estalido estranho, semelhante a um
choque de estática, e a luz que emitia tremeluziu, apagando-se. Os
outros cristais mantinham a mesma radiância.
Sem se deter, Angela aproximou-se do pedaço de ametista
seguinte e partiu-o, depois partiu outro, e assim sucessivamente.
Nunca na sua vida Eragon se sentira tão grato por ver alguém.
Os olhos saltitavam entre a herbolária e as fissuras que se
alargavam cada vez mais, ao cimo do primeiro ovo. O Ra’zac
quase conseguira abrir caminho para o exterior e parecia consciente
disso, guinchando e batendo no ovo com um renovado vigor. Por
entre os fragmentos de casca, Eragon viu uma membrana branca e
espessa, e o bico da monstruosa cabeça do Ra’zac a empurrá-la às
cegas.
“Depressa”, depressa, pensou Eragon ao ver um fragmento, do
tamanho da sua mão, a tombar do ovo e a cair ruidosamente no
chão como um prato de barro cozido.
A membrana rasgou-se e o jovem Ra’zac esticou a cabeça para
fora do ovo, com um guincho triunfante, exibindo a língua farpada e
arroxeada. Um líquido viscoso escorria-lhe da carapaça e um odor
a fungos impregnou a câmara.
Eragon voltou a puxar pelas correntes que o prendiam, por
muito inútil que isso parecesse.
O Ra’zac voltou a guinchar, lutando para se libertar dos restos
do ovo. Soltou um braço com as garras mas, ao fazê-lo,
desequilibrou o ovo, que tombou para um lado, vertendo um
líquido espesso e amarelado sobre o círculo ornamentado. A
grotesca cria ficou por momentos aturdida, deitada de lado. Mas,
depois remexeu-se e ergueu-se hesitantemente sobre as patas
vacilantes, emitindo estalidos como um inseto agitado.
Eragon olhou horrorizado e fascinado.
O Ra’zac exibia umas nervuras fundas no peito como se tivesse
as costelas fora do corpo e não dentro. Os membros da criatura
eram finos e nodosos como paus, e a cintura era mais estreita do
que a de um humano. Cada pata tinha uma articulação adicional
virada para trás, algo que Eragon nunca antes vira, mas que
explicava o andar vacilante do Ra’zac. A carapaça parecia mole e
maleável, ao contrário das carapaças dos Ra’zac mais maduros
com que Eragon se defrontara. Sem dúvida que a carapaça iria
endurecer com o tempo.
O Ra’zac inclinou a cabeça — a luz refletia nos enormes olhos
salientes, sem pupilas — e chilreou como se tivesse descoberto algo
de excitante, dando um passo hesitante na direção de Arya...
depois outro... e mais outro, de bico aberto, avançando
penosamente rumo à poça de sangue a seus pés.
Eragon gritou contra a mordaça, esperando conseguir distrair a
criatura, mas esta ignorou-o, limitando-se a olhá-lo brevemente.
— Agora! — exclamou Angela, partindo o último cristal.
No mesmo instante que os cacos de ametista deslizaram pelo
chão, Solembum saltou na direção do Ra’zac. A forma do homemgato
desfez-se em pleno ar — a cabeça encolheu, as pernas ficaram
mais curtas e o pelo despontou-lhe no corpo —, aterrando sobre as
quatro patas, de novo sob a forma de animal.
O Ra’zac bufou e tentou atacar Solembum com as garras, mas o
menino-gato esquivou-se do golpe e atingiu a cabeça do Ra’zac, à
velocidade da luz, com uma das suas grandes e pesadas patas.
O pescoço do Ra’zac partiu-se com um estalido sonoro e a
criatura voou pela sala, aterrando toda torcida no chão, onde ficou
a estremecer, durante uns segundos.
Solembum bufou, com a única orelha sã colada ao crânio.
Depois, desembaraçou-se da tanga ainda presa às ancas, e foi para
junto do outro ovo, sentando-se à espera.
— Mas o que andaste a fazer a ti própria? — disse Angela,
correndo para junto de Arya, que levantou penosamente a cabeça,
mas nem sequer tentou responder.
A herbolária cortou as grilhetas que ainda prendiam Arya, com
três golpes rápidos da espada incolor, como se o metal temperado
tivesse a consistência de queijo.
Arya caiu de joelhos e dobrou-se sobre si, apertando a mão
ferida contra o estômago, e arrancado a mordaça com a outra mão.
O ardor nos ombros de Eragon abrandou quando Angela o
libertou, e ele pôde finalmente baixar os braços. Tirou o pano da
boca e disse, num tom rouco:
— Julgávamos que estavas morta.
— Terão de se esforçar mais, se me quiserem matar. São um
bando de trapalhões.
Ainda dobrada sobre si, Arya começou a entoar feitiços para
unir as feridas e curá-las. Pronunciava as palavras num tom débil e
exausto, mas não vacilou nem as pronunciou mal.
Enquanto ela tentava reparar os danos da sua mão, Eragon
sarou o corte nas costelas e nas feridas dos pulsos. Depois, fez
sinal a Solembum e disse:
— Afasta-te!
O menino-gato sacudiu a cauda e fez o que Eragon lhe mandou.
Erguendo a mão direita, Eragon disse:
— Brisingr!
Uma coluna de chamas azuis irrompeu em torno do segundo ovo
e a criatura que estava no interior gritou — um grito terrível, que não
parecia deste mundo, mais semelhante ao rangido de metal a
rasgar-se do que a um grito de uma pessoa ou de um animal.
Franzindo os olhos para os proteger do calor, Eragon viu o ovo
a arder, com satisfação. “Que fosse o último da sua raça”, pensou.
Quando os gritos cessaram, ele extinguiu as chamas e estas
apagaram-se de baixo para cima. Depois, a sala ficou
inesperadamente silenciosa, Arya também terminara os seus
encantamentos e tudo estava sossegado.
Angela foi a primeira a mexer-se. Aproximou-se de Solembum e
parou junto dele, murmurando algumas palavras na língua antiga,
para lhe curar a orelha e outros ferimentos.
Eragon ajoelhou-se junto de Arya e poisou-lhe a mão no ombro.
Ela levantou os olhos na sua direção e endireitou o corpo para lhe
mostrar a mão. A pele ao longo da base do polegar, na parte
exterior da palma e nas costas da mão, estava brilhante e com um
tom vermelho vivo, contudo, os músculos pareciam intactos.
— Porque não a curaste por completo? — perguntou ele. — Se
estiveres demasiado cansada, eu posso...
Arya abanou a cabeça.
— Danifiquei vários nervos... e não estou a conseguir repará-los.
Preciso da ajuda de Blödhgarm; ele é mais hábil do que eu a
manipular a carne.
— Consegues lutar?
— Se tiver cuidado.
Eragon apertou-lhe o ombro por instantes.
— O que você fizeste...
— Fiz apenas o que era lógico.
— A maior parte das pessoas não teria tido força... Eu tentei,
mas a minha mão era demasiado grande. Vês? — E ergueu a mão,
encostando-a à mão de Arya.
Ela acenou com a cabeça e agarrou-se ao braço dele,
levantando-se lentamente. Eragon ergueu-se com ela, e amparou-a
firmemente.
— Temos de encontrar as nossas armas — disse ele —, bem como
o meu anel, o meu cinto e o colar que os Anões me deram.
Angela franziu a sobrancelha.
— Porquê o teu cinto? Está encantado?
Apercebendo-se da hesitação de Eragon, que não sabia se
deveria contar-lhe a verdade, Arya disse:
— Não irias reconhecer o nome do seu criador, emérita, mas
certamente que ouviste falar no cinto das doze estrelas, durante as
tuas viagens.
A herbolária arregalou os olhos:
— Esse cinto? Mas eu julgava-o perdido há mais de quatro
séculos, pensei que tinha sido destruído durante a ...
— Nós recuperámo-lo — disse Arya, sem rodeios.
Eragon percebeu que a herbolária estava desejosa de fazer mais
perguntas, de qualquer modo limitou-se a dizer:
— Compreendo... Porém, não podemos perder tempo a passar
revista a todas as salas deste labirinto. Assim que os sacerdotes
perceberem que vocês fugiram, tê-los-emos à perna.
Eragon apontou na direção do noviço caído no chão e disse:
— Talvez ele nos possa dizer para onde levaram as nossas coisas.
A herbolária agachou-se e colocou dois dedos sobre a veia
jugular do jovem, tomando-lhe a pulsação. Depois bateu-lhe nas
faces e abriu-lhe as pálpebras.
O noviço continuou inerte e imóvel.
A sua falta de reação pareceu irritar a herbolária.
— Um momento — disse ela, fechando os olhos. Franziu
ligeiramente a testa e ficou imóvel, por uns instantes. Depois
ergueu-se subitamente. — Mas que miserável mais egocêntrico! Não
admira que os pais o tenham mandado para junto dos sacerdotes.
Admira-me que o tenham aguentado durante tanto tempo.
— Ele sabe alguma coisa de útil? — perguntou Eragon.
— Apenas o caminho até à superfície. — E apontou para a porta à
esquerda do altar, a mesma por onde os sacerdotes tinham entrado
e saído. — É espantoso que tenha tentado libertar-te. Desconfio que
é a primeira vez que faz alguma coisa de livre vontade.
— Temos de o levar connosco. — Eragon detestava ter de o dizer,
mas o dever compelia-o a fazê-lo. — Eu prometi-lhe que o
levávamos se ele nos ajudasse.
— Ele tentou matar-te!
— Eu dei-lhe a minha palavra.
Angela suspirou e revirou os olhos, dirigindo-se a Arya:
— Presumo que não consigas fazê-lo mudar de ideias.
Arya abanou a cabeça, içando o jovem para cima do ombro,
sem qualquer esforço aparente.
— Eu levo-o — disse ela.
— Nesse caso — disse a herbolária a Eragon —, é melhor ficares
com isto. Parece que grande parte da luta ficará a nosso cargo. — E
entregou-lhe a sua espada curta, tirando um punhal de dentro das
pregas do vestido.
— De que é feita? — perguntou Eragon, olhando através da lâmina
transparente, reparando como a luz brilhava e refletia. A matéria
lembrava-lhe diamante, mas não imaginava ninguém a fazer uma
arma de uma pedra preciosa, na medida em que a energia
necessária para impedir a pedra de se partir a cada golpe, depressa
esgotaria qualquer feiticeiro vulgar.
— Não é de pedra nem de metal — respondeu a herbolária. —
Uma palavra de advertência: Deves ter muito cuidado ao manejála.
Nunca toques no seu gume nem o aproximes de nada que
estimes, senão irás arrepender-te. Também não deves encostar a
espada a nada que te faça falta — a tua perna, por exemplo.
Eragon afastou, cautelosamente, a espada do corpo.
— Porquê?
— Porque é a espada mais aguçada de toda a existência — disse a
herbolária, visivelmente satisfeita. — Nenhuma outra espada, faca
ou machado, se lhe equipara em agudeza de gume, nem mesmo
Brisingr. É a suprema reprodução de um instrumento de cortar. Isto
— e fez uma pausa para enfatizar — é o arquétipo de um plano
inclinado... Não encontrarás nada que se lhe compare em lado
algum. Consegue cortar tudo o que não esteja protegido por magia
e muitas coisas que estão. Experimenta-a se não acreditas.
Eragon olhou em redor em busca de algo onde pudesse testar a
arma. Finalmente, encaminhou-se para o altar, brandindo a arma
contra um dos cantos da pedra.
— Não tão depressa! — gritou Angela.
A lâmina transparente atravessou dez centímetros de pedra
como se o granito fosse creme de ovos, prosseguindo em direção
aos seus pés. Eragon gritou e saltou para trás, mal conseguindo
conter o braço de modo a não se cortar.
O canto do altar saltou e rebolou ruidosamente para o meio da
sala.
“Afinal, era bem provável que a lâmina da espada fosse de
diamante”, concluiu Eragon. Não precisaria de tanta proteção
como no início pensara, visto que raramente encontraria grande
resistência.
— Toma — disse Angela. — É melhor ficares também com isto. —
Desapertou a bainha da espada e deu-lha. — É uma das poucas
coisas que não consegues cortar com essa lâmina.
Eragon demorou alguns momentos a recuperar a voz, depois de
quase cortar os dedos dos pés.
— A espada tem nome?
Angela soltou uma gargalhada:
— Claro. Na língua antiga o seu nome é Albitr, que significa
exatamente o que você pensas, mas eu prefiro chamar-lhe Tinido
Mortal.
— Tinido Mortal!
— Sim, por causa do som que a lâmina produz quando lhe tocas
levemente. — E demonstrou-o com a ponta de uma unha, sorrindo
ao ouvir uma nota aguda cortar a escuridão da sala, como um raio
de sol.
— Bom, vamos andando?
Eragon olhou em redor para se assegurar de que não se
esqueciam de nada e depois acenou com a cabeça, encaminhandose
para a porta da esquerda e abrindo-a o mais silenciosamente
possível.
Do outro lado da porta havia um longo e amplo corredor,
iluminado por tochas. A guardá-lo estavam vinte guerreiros de
negro, como os que os tinham emboscado anteriormente, formados
em duas linhas ordenadas, de ambos os lados do corredor.
Os soldados olharam para Eragon e levaram as mãos às armas.
Eragon praguejou mentalmente e saltou para diante, com a
intenção de atacar antes que os guerreiros conseguissem
desembainhar as espadas e organizar-se em grupo. Tinha
percorrido apenas uns escassos metros, quando se apercebeu de
um ligeiro movimento junto de cada homem: uma mancha suave e
sombria, como o movimento de um estandarte ao vento, detetada
pela sua visão periférica.
Os homens retesaram-se sem dar sequer um grito e todos
caíram no chão, mortos.
Alarmado, Eragon abrandou, parando para não tropeçar nos
corpos. Cada um dos homens levara uma punhalada no olho. O
golpe não podia ter sido mais limpo.
Virou-se para perguntar a Arya e a Angela o que acontecera,
mas as palavras morreram-lhe na garganta ao olhar para a
herbolária. Ela estava encostada a uma parede, apoiada nos
joelhos, e bastante ofegante. Parecia mortalmente pálida e as mãos
tremiam-lhe. O punhal pingava sangue.
Eragon foi invadido por uma sensação de medo e assombro.
Fosse o que fosse que a herbolária fizera, estava muito além da sua
compreensão.
— Emérita — interpelou Arya, igualmente hesitante —, como
conseguiste fazer isto?
A herbolária riu baixinho enquanto recuperava o fôlego e disse:
— Usei um truque... que aprendi com o meu mestre... Tenga...
há muito tempo atrás. Que mil aranhas lhe mordam as orelhas e
outras saliências!
— Sim, mas como o fizeste? — insistiu Eragon. — Um truque
destes pode ser-nos ser útil em Urû’baen.
A herbolária voltou a rir baixinho.
— O que é o tempo senão movimento? O que é o movimento
senão calor? Calor e energia não são dois nomes diferentes para o
mesmo? — Afastou-se da parede e aproximou-se de Eragon,
batendo-lhe ao de leve na face. — Quando perceberes as
implicações disso, perceberás o que fiz e como o fiz... Não
conseguirei voltar a usar o feitiço hoje, sem me prejudicar
seriamente. Por isso não esperem que mate toda a gente, da
próxima vez que nos depararmos com um grupo de guerreiros.
Eragon engoliu a curiosidade, com alguma dificuldade, e acenou
com a cabeça.
Tirou uma túnica e uma jaqueta acolchoada de um dos homens
caídos e, depois de as vestir, seguiu à frente, percorrendo o
corredor e entrando pela arcada no extremo oposto.
Não encontraram mais ninguém no complexo de salas e
corredores, nem viram quaisquer sinais dos pertences roubados.
Embora estivesse satisfeito por passar despercebido, Eragon ficou
preocupado pelo fato de não ver criados. Esperava que ele e os
companheiros não tivessem acionado alarmes que prevenissem os
sacerdotes da sua fuga.
Ao contrário das salas desertas que tinham visto antes da
emboscada, as salas por onde passavam estavam recheadas de
tapeçarias, mobília e estranhos dispositivos de latão e cristal, cujo
propósito Eragon não conseguia sequer imaginar. Por mais do que
uma vez sentiu-se tentado a parar junto de uma secretária ou
estante de livros e examinar o seu conteúdo, mas resistiu sempre à
tentação. Não havia tempo para ler documentos antigos e
bolorentos, por muito intrigantes que fossem.
Angela escolheu o caminho por onde seguiam, sempre que havia
mais do que uma opção, mas Eragon continuou na dianteira,
apertando de tal forma o punho envolto em arame de Tinido Mortal
que começou a sentir cãibras na mão.
Pouco depois, chegaram a um corredor que terminava num lance
de escadas de pedra, cujos degraus iam ficando mais estreitos à
medida que subiam. Junto das escadas estavam dois noviços, um
de cada lado, com duas grelhas de sinos iguais às que Eragon vira
anteriormente.
Ele correu para os dois jovens e conseguiu golpear um dos
noviços no pescoço, antes que este pudesse gritar ou tocar os
sinos. O outro, contudo, teve tempo para fazer ambas as coisas
antes de Solembum saltar para cima dele e o atirar ao chão,
dilacerando-lhe o rosto e fazendo uma barulheira que ecoou pelo
corredor.
— Depressa! — disse Eragon, subindo apressadamente as
escadas.
Ao cimo dos degraus encontrava-se uma parede isolada, com
cerca de três metros de largura, coberta de arabescos
ornamentados e de entalhes que lhe pareciam vagamente familiares.
Contornou-a e deparou-se com um raio de luz rosada, de tal forma
intensa que cambaleou confuso, erguendo a bainha de Tinido
Mortal para proteger os olhos.
À sua frente, a menos de um metro e meio, estava o sumosacerdote
sentado na sua padiola, com sangue a escorrer-lhe de um
golpe no ombro. Um outro sacerdote — uma mulher a quem
faltavam ambas as mãos, estava de joelhos ao lado da padiola, a
aparar o sangue para um cálice, entalado nos antebraços. Tanto ela
como o sumo-sacerdote olharam atónitos para Eragon.
Depois — como por entre clarões de relâmpagos — Eragon olhou
para trás deles e viu enormes colunas estriadas que se erguiam em
direção a um teto abobadado, perdido nas sombras. As
gigantescas paredes tinham janelas de vitrais — as das esquerda
iluminadas pelo brilho intenso do sol nascente e as da direita
mortiças e foscas — despojados de vida. Entre as janelas viam-se
estátuas brancas. Filas de bancos de granito, salpicados de diversas
cores, estendiam-se até à entrada distante da nave. Um grupo de
sacerdotes, vestidos de cabedal, preenchia as quatro primeiras filas
de bancos. Estavam de rosto virado para cima e entoavam um
cântico, de boca aberta, como crias de pássaros a implorarem
comida.
Eragon concluiu tardiamente estar na grande catedral de Dras-
Leona, do lado oposto do altar diante do qual se ajoelhara uma vez
reverentemente, há muito tempo atrás.
A mulher sem mãos largou o cálice e levantou-se, abrindo os
braços para proteger o sumo-sacerdote com o corpo. Atrás dela,
Eragon viu de relance a bainha azul de Brisingr, poisada no canto
dianteiro da padiola, parecendo-lhe também distinguir Aren junto
dela. Mas antes que ele conseguisse resgatar a sua espada, dois
guardas correram na sua direção, vindos de ambos os lados do
altar, tentando golpeá-lo com piques entalhados, ornados de borlas
vermelhas. Esquivou-se do primeiro guarda e cortou-lhe o cabo do
pique ao meio, atirando-lhe com a lâmina pelo ar. Depois cortou o
homem ao meio, retalhando-lhe carne e ossos com uma facilidade
surpreendente.
Eragon despachou o segundo homem com a mesma rapidez,
virando-se para enfrentar dois guardas que se aproximavam pelas
suas costas. A herbolária juntou-se a ele, brandindo o punhal, e
Solembum rosnou algures à sua esquerda. Arya deixou-se ficar
para trás, ainda com o jovem pendurado ao ombro.
O sangue vertido do cálice cobria o chão, em torno do altar. Os
guardas escorregaram na poça de sangue e o de trás caiu,
derrubando o companheiro. Eragon arrastou os pés até junto deles,
sem nunca os levantar chão para não perder o equilíbrio, e matou
os guardas antes que estes pudessem reagir, procurando controlar
a espada encantada da herbolária enquanto esta retalhava os
corpos dos dois homens sem dificuldade.
Entretanto ele apercebeu-se de que o sumo-sacerdote estava a
gritar, como se estivesse a uma grande distância:
— Matem os infiéis! Matem-nos! Não deixem escapar os
blasfemos! Eles têm de ser castigados pelos seus crimes contra os
Anciãos!
A congregação de sacerdotes começou a uivar e a bater com os
pés, e Eragon sentiu as suas mentes a atacá-lo como uma alcateia
de lobos a dilacerar um veado enfraquecido. Recolheu-se em si
mesmo, protegendo-se dos ataques com técnicas que andava a
praticar sob a tutela de Glaedr. No entanto, era difícil defender-se
de tantos inimigos, pelo que Eragon receou não conseguir manter as
barreiras durante muito tempo. A sua única vantagem era que os
sacerdotes apavorados e desorganizados atacavam-no
individualmente e não em unidade. O seu poder combinado tê-lo-ia
esmagado.
Depois sentiu a consciência de Arya a tentar comunicar com a
sua — uma presença familiar e reconfortante, no meio de um
punhado de inimigos que tentava destroçar o seu interior. Aliviado,
abriu-se para ela e os dois uniram as mentes, tal como ele e Saphira
faziam. As suas identidades fundiram-se durante algum tempo e ele
deixou de conseguir discernir de onde vinham muitos dos
pensamentos e sensações que partilhavam.
Juntos atacaram um sacerdote com as suas mentes. O homem
lutou para escapar ao seu domínio, como um peixe a contorcer-se
por entre os dedos, mas Eragon e Arya apertaram-no mais,
recusando-se a deixá-lo escapar. O sacerdote recitava uma frase
com estranhas palavras, num tom empolado, na tentativa de os
manter afastados da sua consciência, e Eragon deduziu que se
tratasse de uma passagem das escrituras do Livro de Tosk.
Porém, o sacerdote tinha falta de disciplina e a sua concentração
depressa enfraqueceu, ao pensar:
“Os infiéis estão demasiado próximos do Mestre. Temos de os
matar antes que... Esperem! Não! Não!...”
Eragon e Arya aproveitaram a fraqueza do sacerdote e
subjugaram rapidamente a mente do homem. Assim que se
certificaram de que ele não podia retaliar, fosse com a mente ou
com o corpo, Arya lançou-lhe um feitiço que lhe permitiria penetrar
nas defesas do homem, depois de sondar as suas memórias.
Na terceira fila de bancos, um homem gritou e irrompeu em
chamas, um fogo verde que lhe saía dos ouvidos, boca e olhos. As
chamas incendiaram as roupas de vários sacerdotes, que estavam
perto dele, e os homens e mulheres em chamas começaram a
esbracejar e a correr descontroladamente, perturbando os ataques
contra Eragon. As chamas ondulantes produziam um ruído
semelhante a ramos a partirem-se numa tempestade.
A herbolária correu do altar e misturou-se com os sacerdotes,
apunhalando-os aqui e ali. Solembum seguia-a de perto,
aniquilando os sacerdotes que ela atingia.
Depois disso, foi fácil para Eragon e Arya invadirem e
dominarem a mente dos seus inimigos. Continuando a trabalhar
juntos, mataram mais quatro sacerdotes, altura em que o resto da
congregação cedeu e dispersou. Alguns fugiram pelo vestíbulo que
Eragon sabia que conduziria ao priorado, junto da catedral, outros
esconderam-se atrás dos bancos, com os braços à volta da
cabeça.
Contudo, seis dos sacerdotes não fugiram nem se esconderam,
atacando Eragon com facas recurvas, que seguravam nas mãos que
ainda tinham. Eragon tentou golpear a sacerdotisa da frente, antes
que esta o conseguisse atacar, mas para sua irritação a mulher
estava protegida por um encantamento que deteve Tinido Mortal a
quinze centímetros do pescoço, fazendo a espada virar-se na sua
mão e provocando-lhe um choque ao longo do braço. Eragon
tentou atacar a mulher com a mão esquerda. Por qualquer razão, o
feitiço não deteve o seu punho e ele sentiu o ossos do peito da
sacerdotisa cederem, derrubando-a e fazendo-a cair desamparada
sobre as pessoas que estavam atrás.
Os restantes sacerdotes desembaraçaram-se do corpo e
retomaram o ataque. Eragon avançou e aparou um golpe
desajeitado do sacerdote da frente. Depois gritou:
— Ah! — e desferiu um soco no ventre do homem. O sacerdote
voou para cima de um banco, embatendo nele com um estalido
desagradável.
Eragon matou o homem a seguir, de forma semelhante. Um
quadrelo verde e amarelo enterrou-se na garganta do sacerdote
que estava à sua direita e Solembum surgiu como uma mancha
amarela acastanhada, saltando por cima dele e derrubando outro
homem do grupo.
Eragon já só tinha uma seguidora de Tosk diante de si. Com a
mão livre, Arya agarrou na mulher, pela parte da frente da túnica de
cabedal, e projetou-a num voo de nove metros por cima dos
bancos, aos gritos.
Quatro noviços tinham erguido a padiola do sumo-sacerdote e
estavam a transportá-lo apressadamente, pelo lado este da
catedral, em direção à entrada da frente do edifício.
Ao vê-los escapar, Eragon bramiu e saltou para cima do altar,
atirando um prato e um cálice ao chão. Transpôs os corpos dos
sacerdotes caídos e aterrou suavemente no corredor, correndo até
ao extremo da catedral, em direção aos noviços.
Os quatro jovens pararam ao ver Eragon alcançar as portas.
— Voltem para trás! — guinchou o sumo-sacerdote. — Voltem
para trás! — Os servos obedeceram-lhe, mas foram confrontados
por Arya, que estava atrás deles, com um dos seus elementos
pendurado ao ombro.
Os noviços guincharam e viraram, fugindo por entre duas filas de
bancos. Depois de percorrerem apenas alguns metros, Solembum
apareceu ao fundo da fila e começou a avançar na direção deles. O
menino-gato tinha as orelhas coladas ao crânio e o rumor constante
e cavo do seu rosnido arrepiou a nuca de Eragon. Angela vinha do
altar, ligeiramente mais atrás, com o punhal numa mão e um
quadrelo verde e amarelo na outra.
“Quantas armas teria ela escondidas nas roupas?”, perguntou-se
Eragon a si mesmo.
Para seu próprio mérito, os noviços não perderam a coragem
nem abandonaram o mestre, gritando e correndo os quatro ainda
mais depressa na direção de Solembum, provavelmente por o
menino-gato ser o mais pequeno e o mais próximo, e por
acreditarem que seria o mais fácil de vencer.
Estavam enganados.
Com um único movimento fluído, Solembum agachou-se, saltou
do chão para cima de um banco, lançando-se de seguida na
direção de um dos noviços da frente.
Ao ver o menino-gato voar, o sumo-sacerdote gritou algo na
língua antiga — Eragon não reconheceu a palavra, mas o som era,
sem dúvida, o da língua nativa dos Elfos. Fosse qual fosse o feitiço,
não pareceu produzir qualquer efeito em Solembum, embora
Eragon visse Angela cambalear como se tivesse sido atingida.
Solembum colidiu com o noviço ao qual se lançara e o jovem
caiu para o chão, aos gritos, enquanto o menino-gato o atacava
ferozmente. Os restantes noviços tropeçaram no corpo do
companheiro e caíram uns por cima dos outros, atirando com o
sumo-sacerdote da padiola, para cima de um dos bancos, onde a
criatura se contorcia.
Eragon alcançou-os um segundo depois e matou todos os
noviços, com três golpes rápidos, excepto aquele cujo pescoço
Solembum mantinha preso entre as patas.
Logo que se assegurou de que os homens estavam mortos,
Eragon virou-se para matar o sumo-sacerdote de uma vez por
todas. Ao avançar na direção da figura desmembrada, outra mente
invadiu a sua, sondando-a e tentando alcançar as zonas mais
recônditas do seu ser, na tentativa de controlar os seus
pensamentos. O violento ataque forçou Eragon a parar e a
concentrar-se, defendendo-se do intruso.
Pelo canto do olho, ele viu que Arya e Solembum também
pareciam imobilizados. A herbolária era a única exceção. Parara
por instantes, no início do ataque, mas depois continuara a arrastar
lentamente os pés na direção de Eragon.
O sumo-sacerdote olhou para Eragon. Os seus olhos
encovados, rodeados de olheiras escuras, ardiam de ódio e fúria.
Se a criatura tivesse braços e pernas, Eragon tinha a certeza de que
teria tentado arrancar-lhe o coração com as próprias mãos. Fosse
como fosse, a malevolência no seu olhar era tão intensa, que
Eragon quase esperou que o sacerdote saltasse do banco e
começasse a morder-lhe os tornozelos.
O ataque à sua mente intensificou-se, quando Angela se
aproximou. O sumo-sacerdote — só podia ser ele o responsável —
era de longe mais hábil que qualquer um dos seus subordinados.
Envolver-se num combate mental com quatro pessoas, em
simultâneo, e revelar-se uma ameaça credível para cada uma delas
era uma proeza extraordinária, especialmente sendo os seus
inimigos um elfo, um Cavaleiro do Dragão, uma bruxa e um
menino-gato. O sumo-sacerdote era uma das mentes mais temíveis
com que Eragon alguma vez se defrontara. Se não fosse a ajuda
dos amigos Eragon teria certamente sucumbido aos violentos
ataques da criatura. O sacerdote fazia coisas que ele jamais sentira
antes, como prender os seus pensamentos desgarrados aos de
Arya e de Solembum, embrulhando-os numa confusão tal, que
Eragon perdeu, por instantes, a noção da sua identidade.
Finalmente Angela virou-se para o intervalo entre os bancos,
contornando Solembum — agachado ao lado do noviço que matara,
com o pelo completamente eriçado — e caminhando depois, com
cautela, por cima dos cadáveres dos três noviços que Eragon
matara.
Ao vê-la aproximar-se, o sumo-sacerdote começou a remexerse
como um peixe preso num anzol, tentando avançar ao longo do
banco e aliviando, em simultâneo, a pressão na mente de Eragon,
embora não o suficiente para que este arriscasse mexer-se.
Ao aproximar-se da criatura, a herbolária parou e Eragon ficou
surpreendido ao ver aquela desistir do combate e ficar prostrada no
banco, ofegante. Durante um minuto a criatura de olhos vazios e a
pequena mulher de expressão severa olharam-se ferozmente,
dando início a uma batalha invisível de vontades.
Depois o sumo-sacerdote vacilou e um sorriso surgiu nos lábios
de Angela. Ela largou o punhal e tirou do vestido uma pequena
adaga com uma lâmina da cor de um pôr-do-sol róseo. Inclinandose
sobre a criatura, sussurrou-lhe muito baixinho:
— Devias saber o meu nome homem-sem-língua. Se soubesses,
jamais te terias atrevido a fazer-nos frente. Permite-me que to
revele...
Nessa altura baixou ainda mais o tom de voz, falando baixo
demais para que Eragon a conseguisse ouvir. Mas, quando falou o
sumo-sacerdote empalideceu e a sua boca enrugada abriu-se,
formando uma oval negra e redonda. Um uivo sinistro soltou-se da
sua garganta e a catedral ecoou com o grito da criatura.
— Faz pouco barulho! — exclamou a herbolária, enterrando a
adaga rosada no meio do peito do sumo-sacerdote.
A lâmina cintilou com um brilho incandescente e desapareceu
com um ruído semelhante a um trovão. A área em torno do
ferimento da criatura brilhava como uma floresta em chamas e
depois a pele e a carne começaram a desfazer-se numa fuligem
escura, que entrou no peito do sumo-sacerdote e o uivo da criatura
cessou tão abruptamente como tinha começado, com uma agonia
gorgolejante.
O feitiço depressa devorou o que restava do sumo-sacerdote,
reduzindo o corpo a um amontoado de pó negro, cuja forma se
ajustava aos contornos da cabeça e do torso.
— Boa viagem — disse Angela, acenando firmemente com a
cabeça.

Um comentário:

  1. Angela é SHOW, só acho que ela deveria ter uma série só para ela :D

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Boa leitura :)