23 de junho de 2017

Capítulo 3 - Sombras no horizonte

Eragon teve de largar Brisingr para conseguir agarrar Roran antes que ele caísse no chão, embora estivesse relutante em fazê-lo. Mesmo assim, abriu a mão e a espada caiu ruidosamente nas pedras no preciso instante em que o peso de Roran lhe assentava nos braços.
— Está muito ferido? — perguntou Arya.
Eragon encolheu-se, surpreendido por vê-la com Blödhgarm junto de si.
— Parece que não. — Bateu várias vezes de leve nas faces de Roran, limpando o pó que tinha na pele. Sob o brilho uniforme, cor de gelo, do feitiço de Eragon, Roran parecia abatido. Tinha manchas negras em torno dos olhos e os lábios arroxeados, como se estivessem sujos de sumo de amoras. — Vamos lá, acorde.
Segundos depois, as pálpebras de Roran estremeceram, ele abriu-as e olhou para Eragon, visivelmente confuso. Eragon sentiu tamanho alívio que quase podia sentir seu gosto.
— Você desmaiou — explicou ele.
— Ah.
Está vivo!, disse a Saphira, arriscando um breve momento de contato.
O prazer dela era visível. Ótimo. Ficarei aqui e ajudarei os elfos a remover as pedras do edifício. Se precisar de mim, grite, e eu arranjarei uma maneira de alcançá-lo.
A cota de malha de Roran tilintou quando Eragon o ajudou a levantar-se.
— E os outros? — perguntou Eragon, fazendo um gesto em direção ao amontoado de escombros.
Roran abanou a cabeça.
— Tem certeza?
— Ninguém poderia ter sobrevivido ali embaixo. Eu só escapei... porque estava parcialmente protegido pelos beirais.
— E você? Você está bem? — perguntou Eragon.
— O quê? — disse Roran, franzindo a sobrancelha, parecendo confuso, como se tal pensamento jamais lhe tivesse ocorrido. — Estou bem... talvez tenha quebrado o pulso, mas não é grave.
Eragon atirou um olhar suplicante a Blödhgarm e o elfo assumiu uma expressão tensa, numa vaga demonstração de desagrado, mas aproximou-se de Roran, dizendo-lhe numa voz suave:
— Se me permite... — Esticou a mão para o braço ferido de Roran.
Enquanto Blödhgarm tratava de Roran, Eragon apanhou Brisingr e ficou de guarda à entrada com Arya, para o caso de alguns soldados cometerem a imprudência de atacá-los.
— Pronto, já está bom — disse Blödhgarm, afastando-se de Roran, que girou o pulso em círculo para testar a articulação.
Satisfeito, Roran agradeceu a Blödhgarm, baixando depois a mão e começando a remexer no chão coberto de escombros até encontrar o martelo. Depois reajustou a armadura e olhou para a entrada.
— Já estou farto desse lorde Bradburn — disse ele num tom enganadoramente calmo. — Acho que ocupou seu assento por tempo demais e deveria ser aliviado das suas responsabilidades. Não concorda, Arya?
— Sim.
— Pois bem, então vamos procurar esse velho pançudo de barriga mole, eu gostaria de lhe dar umas pancadinhas de leve com o meu martelo em memória de todos os que perdemos hoje.
— Ele estava no salão principal há alguns minutos — disse Eragon — mas duvido que tenha ficado à nossa espera.
Roran acenou com a cabeça.
— Nesse caso, teremos que caçá-lo. — Dito isto, começou a andar.
Eragon extinguiu o feitiço de luz e seguiu apressadamente o primo, empunhando Brisingr em guarda. Arya e Blödhgarm mantiveram-se tão perto dele quanto possível na intrincada passagem.
A passagem dava acesso a uma câmara que estava deserta, tal como o salão principal do castelo, onde a única evidência da presença dos soldados e oficiais que a ocupavam anteriormente era um elmo caído no chão, a balançar de um lado para o outro em círculos cada vez menores.
Eragon e Roran passaram a correr pelo estrado de mármore.
Eragon tentou não correr muito depressa para que Roran não ficasse para trás. Logo à esquerda da plataforma, deram um pontapé numa porta e subiram apressadamente as escadas por trás desta.
Paravam em cada andar para que Blödhgarm pudesse sondar mentalmente em busca de quaisquer vestígios de lorde Bredburn e de sua comitiva, mas não encontrou nenhum.
Ao chegarem ao terceiro andar, Eragon ouviu o estrépito de passos e viu uma infinidade de lanças em riste preencherem a passagem em arco, à frente de Roran. As lanças golpearam Roran no rosto e na coxa direita, cobrindo-lhe o joelho de sangue. Ele urrou como um urso ferido e investiu contra as lanças com o escudo, tentando subir os últimos degraus e sair da escadaria. Os homens gritavam freneticamente.
Eragon passou Brisingr para a mão esquerda, atrás de Roran, esticou o braço para a frente do primo, agarrou numa das lanças pelo punho e arrancou-a de quem a segurava, virando-a ao contrário e arremessando-a para o meio dos homens que se amontoavam na passagem. Alguém gritou e surgiu uma abertura na parede de corpos. Eragon repetiu a operação e os seus arremessos reduziram depressa o número de soldados, permitindo a Roran forçar o amontoado de homens a recuar aos poucos.
Logo que Roran conseguiu sair das escadas, os doze soldados que restavam dispersaram-se por um amplo patamar circundado por balaustradas numa tentativa de arranjar espaço para brandir as armas sem entraves. Roran voltou a urrar e lançou-se em perseguição do soldado mais próximo. Aparou a espada do homem, conseguiu penetrar no seu espaço defensivo e atingiu-o no elmo, que retiniu como uma panela de ferro.
Eragon correu pelo patamar e deu uma rasteira nos dois soldados que estavam mais próximos, atirando-os ao chão e despachando cada um deles com um único golpe de Brisingr. Um machado voou na sua direção, girando, mas ele se abaixou e empurrou um homem por cima de uma balaustrada, antes de enfrentar outros dois que tentavam furá-lo com piques de pontas recurvas.
Arya e Blödhgarm já se moviam entre os homens, silenciosos e letais com a graciosidade própria dos elfos, capaz de transformar a violência em algo mais semelhante a uma encenação artística do que à luta sórdida que caracterizava a maior parte dos combates.
Os quatro mataram o resto dos soldados numa explosão de ruídos metálicos, ossos partidos e membros decepados. Eragon, como sempre, vibrou com o combate. Era como se alguém o surpreendesse com um balde de água fria, proporcionando-lhe uma sensação de clareza sem paralelo em qualquer outra atividade.
Roran curvou-se e pousou as mãos sobre os joelhos, tentando recuperar o fôlego, como se tivesse acabado de correr uma maratona.
— Posso? — perguntou Eragon, apontando para os cortes no rosto e na coxa de Roran.
Roran experimentou, várias vezes, assentar o peso do corpo sobre a perna ferida.
— Eu posso esperar. Primeiro, vamos à procura de Bradburn.
Eragon seguiu na dianteira ao regressarem à escada e recomeçarem a subi-la. Finalmente, depois de mais cinco minutos de buscas, encontraram lorde Bradburn barricado na sala mais alta da torre, voltada para o oeste. Eragon, Arya e Blödhgarm desmantelaram as portas e a torre de mobília empilhada atrás delas com uma série de feitiços.
Ao entrarem nos aposentos com Roran, os camareiros e os guardas do castelo que tinham se reunido à frente de Bradburn empalideceram e muitos deles começaram a tremer. Para seu alívio, Eragon teve de matar apenas três dos guardas para que o resto do grupo depusesse as armas e os escudos em sinal de rendição.
Arya aproximou-se de lorde Bradburn, que permanecera em silêncio durante todo o tempo, e disse:
— Agora, o senhor vai ordenar às duas tropas que se rendam? Restam apenas alguns homens, mas ainda pode salvar-lhes a vida.
— Mesmo que pudesse não o faria — disse Bradburn num tom desdenhoso e cheio de ódio que Eragon quase o golpeou. — Não lhes farei quaisquer concessões, elfo. Não entregarei os meus homens a criaturas tão nojentas e tão pouco naturais como você. Antes a morte. E não pense que me ilude com palavras doces. Eu sei da aliança de vocês com os Urgals. Mais depressa confiaria numa serpente do que em alguém que partilha o seu pão com esses monstros.
Arya acenou com a cabeça e colocou a mão sobre o rosto de Bradburn. Fechou os olhos e, durante algum tempo, tanto ela como Bradburn ficaram imóveis. Eragon alcançou-os com a mente e sentiu a guerra de vontades que acontecia entre eles, enquanto Arya tentava vencer as defesas de Bradburn e penetrar na sua consciência. Levou cerca de um minuto, mas conseguiu finalmente controlar a mente do homem, invocando e examinando as suas memórias até descobrir a natureza das suas proteções.
Depois falou na língua antiga e lançou um intrincado feitiço concebido para contornar essas defesas e pôr Bradburn para dormir. Quando terminou, os olhos de Bradburn fecharam-se e ele caiu em seus os braços com um suspiro.
— Ela o matou! — gritou um dos guardas.
Ouviram-se gritos de pavor e de indignação entre os homens.
Enquanto tentava convencê-los do contrário, Eragon ouviu uma das trombetas dos Varden à distância. Pouco depois, ouviu outra trombeta, esta muito mais próxima, depois outra e, finalmente, começou a apanhar fragmentos de sons que quase poderia jurar tratarem-se de vivas indistintos e dispersos vindos do pátio abaixo.
Intrigado, trocou um olhar com Arya e, depois, contornou a sala em círculo, olhando para fora de cada janela, nas paredes da câmara.
A sudoeste ficava Belatona, uma grande e próspera cidade, uma das maiores do Império. Os edifícios perto do castelo eram estruturas imponentes de pedra, com telhados inclinados e janelas ogivais, enquanto os mais distantes eram de madeira e argamassa.
Vários dos edifícios parcialmente feitos de madeira tinham-se incendiado durante a batalha e a fumaça impregnava o ar com uma camada de névoa castanha que fazia arder os olhos e a garganta.
A sudeste, a cerca de um quilômetro e meio da cidade, estava o acampamento dos Varden; longas filas de tendas cinzentas de lã circundadas por trincheiras ladeadas de estacas, alguns pavilhões de cores alegres, com bandeiras e estandartes, e centenas de homens feridos deitados no chão. As tendas dos curandeiros já estavam além do limite da sua capacidade.
Ao norte, depois das docas e dos armazéns, ficava o Lago Leona, uma vasta extensão de água, salpicada aqui e ali de cristas brancas.
Lá no alto, uma parede de nuvens negras que avançava do oeste aproximava-se da cidade, ameaçando envolvê-la nas pregas de chuva que se precipitavam do seu ventre como uma saia. Luz azul relampejava aqui e ali nas profundezas da tempestade e os trovões ribombavam como um animal enfurecido.
Mas Eragon não via, em parte alguma, uma explicação para a agitação que chamara a sua atenção.
Ele e Arya correram para a janela que dava para o pátio. Saphira, os homens e os elfos que trabalhavam com ela tinham acabado de remover as pedras em frente da fortaleza. Eragon assobiou e, quando Saphira olhou para cima, ele acenou. Esta abriu as mandíbulas num sorriso de dentes afiados, exalando uma tira de fumaça na direção dele.
— Ei! Alguma novidade? — gritou Eragon.
Um dos Varden que estava nas muralhas do castelo levantou o braço e apontou para o lste:
— Veja, Matador de Espectros! Os meninos-gatos estão chegando!
Eragon sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe a espinha. Seguiu a linha do braço do homem em direção a leste e, desta vez, viu uma pequena hoste de figuras sombrias a emergir de uma dobra de terra, a alguns quilômetros de distância, do outro lado do rio Jiet. Algumas das figuras caminhavam sobre quatro patas, outras sobre duas, mas estavam demasiado distantes para ele ter a certeza de que eram meninos-gatos.
— Será possível? — perguntou Arya, surpreendida.
— Não sei... seja lá o que forem, logo descobriremos.

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