3 de junho de 2017

Capítulo 3 - Ataque a Helgrind

Faltavam quinze minutos para raiar o dia quando Eragon se pôs de pé sem esforço. Ele estalou os dedos duas vezes para acordar Roran e então recolheu os cobertores e os amarrou numa trouxa apertada. Com um impulso, Roran se levantou e fez o mesmo com suas cobertas.
Os dois se entreolharam e estremeceram de emoção.
— Se eu morrer — disse Roran —, você cuida de Katrina?
— Cuido.
— Diga-lhe então que entrei em combate com alegria no coração e o nome dela nos lábios.
— Direi.
Eragon murmurou uma frase rápida na língua antiga. Foi quase imperceptível a queda que se seguiu nas suas forças.
— Pronto. Isso filtrará o ar diante de nós e nos protegerá dos efeitos paralisantes do bafo dos Ra’zac.
De suas bolsas, Eragon tirou a cota de malha e desenrolou o pano no qual a tinha guardado. Sangue da luta na Campina Ardente ainda estava incrustado no corselete que no passado refulgia; e a combinação de sangue seco, suor e falta de trato tinha permitido que manchas de ferrugem se espalhassem pelos elos. A malha estava livre de rasgos, porém, pois Eragon os consertara antes da partida para o Império. Ele vestiu a camisa de costas de couro, torcendo o nariz para o fedor de morte e desespero que estava impregnado nela. Depois, prendeu braçais nervurados aos antebraços e grevas às canelas. Na cabeça, ele pôs um gorro acolchoado, uma coifa de malha e um elmo simples de aço. Tinha perdido o outro elmo – o que tinha usado em Farthen Dûr e no qual os anões tinham gravado o timbre do Dûrgrimst Ingeitum – junto com o escudo durante o duelo aéreo entre Saphira e Thorn. Nas mãos calçou manoplas de malha de ferro.
Roran se preparou da mesma forma, embora completasse a armadura com um escudo de madeira. Uma faixa de ferro doce envolvia o rebordo do escudo, para melhor receber e reter o golpe da espada de um inimigo. Nenhum escudo sobrecarregava o braço esquerdo de Eragon. O cajado de espinheiro exigia duas mãos para ser brandido corretamente. A tiracolo, Eragon pendurou a aljava dada pela rainha Islanzadí. Além de vinte pesadas flechas de carvalho guarnecidas com penas cinzentas de ganso, a aljava continha o arco com apetrechos de prata que a rainha, com seu canto, tinha extraído de um teixo. O arco já estava encordoado e pronto para o uso.
Saphira amassava o solo debaixo de seus pés. Vamos de uma vez!
Deixando suas bolsas e suprimentos pendurados no galho de um zimbro, Eragon e Roran subiram de qualquer modo no dorso de Saphira. Não perderam tempo pondo-lhe a sela: ela passara a noite já com os arreios. O couro moldado estava morno, quase quente, por baixo de Eragon. Ele agarrou o espinho do pescoço à sua frente – para manter o equilíbrio durante mudanças súbitas de direção – enquanto Roran passava um braço forte em torno da cintura de Eragon e segurava o martelo com a outra mão.
Um pedaço de xisto rachou com o peso de Saphira quando ela agachou e, num único salto vertiginoso, saltou por cima da borda da ravina, onde se equilibrou um instante antes de desdobrar as asas enormes. As finas membranas zuniram quando Saphira as ergueu para o céu. Na vertical, elas pareciam duas velas azuis translúcidas.
— Não aperte tanto — resmungou Eragon.
— Desculpe — disse Roran, afrouxando o braço.
Tornou-se impossível falar quando Saphira deu mais um salto. Ao chegar ao cume, ela desceu as asas com uma poderosa rajada de vento, elevando os três ainda mais. A cada batida das asas, eles subiam para mais perto das nuvens estreitas, achatadas. Quando Saphira se voltou na direção de Helgrind, Eragon olhou de relance para a esquerda e descobriu que conseguia ver uma faixa larga do lago Leona, a alguns quilômetros de distância. Uma espessa camada de névoa, cinzenta e fantasmagórica na claridade anterior ao alvorecer, emanava da água, como se um fogo mágico estivesse ardendo sobre a superfície. Eragon tentou, mas, mesmo com sua visão de falcão, não conseguiu avistar a outra margem nem os confins meridionais da Espinha mais além, o que lamentou. Fazia muito tempo desde que tinha posto os olhos pela última vez na cadeia de montanhas da sua infância.
Para o norte, ficava Dras-Leona, uma massa imensa e emaranhada, que dava a impressão de uma silhueta atarracada em contraste com a muralha de névoa que delimitava seu flanco ocidental. A única construção que Eragon conseguiu identificar foi a catedral, onde os Ra’zac o tinham atacado. A trabalhada agulha da torre se erguia acima da cidade, como uma ponta de lança farpada. E em algum ponto na paisagem que passava veloz lá embaixo, Eragon sabia que estavam os destroços do acampamento onde os Ra’zac tinham ferido Brom mortalmente.
Ele permitiu que toda a sua raiva e mágoas passadas daquele dia – assim como o assassinato de Garrow e a destruição da fazenda – brotassem e lhe dessem a coragem, mais que isso, o desejo de enfrentar os Ra’zac em combate.
Eragon, disse Saphira. Hoje não precisamos proteger nossa mente e manter nossos pensamentos em segredo um do outro, certo?
Não, a menos que apareça outro mágico.
Um leque de luz dourada começou a surgir quando a beira do sol rompeu o horizonte. Num instante, o pleno espectro das cores animou o mundo anteriormente sem graça: a névoa refulgiu branca, a água se tornou de um azul forte, a muralha de taipa que cercava o centro de Dras-Leona revelou seus amarelos encardidos, as árvores se cobriram com mantos em todos os tons de verde, e a terra enrubesceu em vermelho e laranja.
Helgrind, porém, continuou como sempre: negra. A montanha de pedra foi crescendo rapidamente à medida que eles se aproximavam. Mesmo do alto, era intimidante. Mergulhando na direção da base de Helgrind, Saphira se inclinou tanto para a esquerda que Eragon e Roran teriam caído se não tivessem amarrado as pernas à sela. Ela então deu uma volta acima da rampa de cascalho e do altar, onde os sacerdotes de Helgrind realizavam suas cerimônias. A borda do elmo de Eragon pegou o vento da passagem de Saphira e gerou um zunido que quase o ensurdeceu.
— E aí? — gritou Roran, pois não conseguia enxergar adiante deles.
— Os escravos sumiram!
Um peso enorme pareceu pressionar Eragon no assento quando Saphira saiu do mergulho e subiu em espiral em torno de Helgrind, em busca de uma entrada para o esconderijo dos Ra’zac.
Nem mesmo um buraquinho que desse para passar um rato-do-mato, declarou ela.
Ela reduziu a velocidade até pairar diante de uma vertente que ligava o terceiro pico mais baixo dos quatro ao cume acima. O contraforte recortado ampliava o estrondo produzido a cada batida das suas asas até soar tão alto quanto um trovão. Os olhos de Eragon se enchiam de lágrimas â medida que o ar pulsava de encontro à sua pele.
Uma teia de veios brancos adornava a traseira dos penhascos e colunas, ali onde a geada tinha se acumulado nas fissuras que sulcavam a rocha. Fora isso, nada perturbava a escuridão das ameias de Helgrind, retintas e varridas pelo vento. Entre as pedras inclinadas, não crescia árvore alguma, nem arbusto, capim ou líquen. Nem as águias ousavam fazer ninho sobre os ressaltos quebrados da torre.
Como seu nome indicava, Helgrind era um lugar da morte e se erguia envolto nas dobras serrilhadas e afiadíssimas de suas escarpas e fendas como um espectro descarnado surgido para assombrar a terra. Projetando sua mente, Eragon confirmou a presença das duas pessoas encarceradas no interior de Helgrind que tinha descoberto no dia anterior, mas nada sentiu dos escravos e, para sua preocupação, ainda não conseguia localizar os Ra’zac nem os Lethrblaka.
Se não estão aqui, onde estarão?, perguntou-se. Procurando mais um pouco, percebeu algo que lhe havia escapado antes: uma única flor, uma genciana, aberta a menos de quinze metros deles, onde, por tudo, deveria haver apenas rocha compacta.
Como ela recebe luz suficiente para viver?
Saphira respondeu à sua pergunta empoleirando-se num contraforte em processo de esboroamento alguns palmos à direita dali. Quando fez isso, ela perdeu o equilíbrio por um instante e abriu as asas para se reequilibrar. Em vez de roçar contra a parede rochosa de Helgrind, a ponta da sua asa direita mergulhou na rocha e saiu de novo.
Saphira, você viu isso?!
Vi.
Inclinando-se para a frente, Saphira empurrou a ponta do focinho na direção da rocha escarpada, parou a uns cinco centímetros de distância – como se esperasse que uma armadilha fosse acionada – e então continuou a avançar. Escama por escama, sua cabeça foi entrando em Helgrind, até que tudo o que Eragon via de Saphira era um pescoço, torso e asas.
É uma ilusão!, Saphira exclamou.
Com um impulso poderoso, ela abandonou o contraforte e fez o resto do corpo acompanhar a cabeça. Eragon recorreu a todo o seu auto-controle para não cobrir o rosto numa tentativa desesperada de se proteger à medida que o penhasco avançava na sua direção.
Um instante depois, ele se encontrava olhando para uma caverna ampla e abobadada, iluminada pela claridade morna da manhã. As escamas de Saphira refletiam a luz, lançando por toda a rocha milhares de pontinhos azuis que não ficavam parados. Virando-se para trás, Eragon não viu parede nenhuma, apenas a entrada da caverna e uma vista panorâmica da paisagem lá fora. Eragon fez uma careta. Nunca lhe havia ocorrido que Galbatorix pudesse ter ocultado o covil dos Ra’zac com magia.
Idiota! Preciso me sair melhor, pensou ele.
Subestimar o rei era o caminho certo para que todos eles fossem mortos.
Roran praguejou.
— Trate de me avisar antes de fazer alguma coisa semelhante outra vez — disse ele.
Debruçando-se para a frente, Eragon começou a soltar as pernas da sela enquanto examinava os arredores, alerta para qualquer perigo. A entrada da caverna era um oval irregular, talvez com uns quinze metros de altura e uns dezoito de largura. A partir dali, a câmara dobrava de tamanho antes de terminar, à distância do alcance de uma boa flechada, numa pilha de grossas lajes de pedra que se apoiavam umas às outras numa confusão de ângulos incertos. Um emaranhado de riscos desfigurava o piso, prova das muitas vezes que os Lethrblaka tinham decolado daquela superfície, pousado e caminhado de um lado para outro nela. Como misteriosos buracos de fechadura, cinco túneis baixos penetravam nas laterais da caverna, do mesmo modo que um corredor em arco pontiagudo, grande o suficiente para permitir a passagem de Saphira.
Eragon examinou com cuidado os túneis, mas eles estavam em negrume total e pareciam vazios, fato que confirmou com pequenas investidas da sua mente. Estranhos murmúrios desconexos reverberavam a partir das entranhas de Helgrind, sugerindo a existência de coisas desconhecidas correndo aflitas no escuro e de água gotejando sem parar.
Ao coro de murmúrios, acrescentava-se a subida e a descida regulares da respiração de Saphira, que parecia excessivamente alta nos confins da câmara deserta. O aspecto mais característico da caverna era, porém, a mistura de odores que a impregnava. O cheiro de pedra fria era dominante, mas, por baixo dele, Eragon discernia bafos de umidade e mofo, além de algo muito pior: o fedor repulsivamente doce de carne em decomposição.
Desatando as últimas tiras, Eragon jogou a perna direita sobre a espinha de Saphira, de modo que ficou montado de lado, e se preparou para desmontar. Roran fez o mesmo do outro lado.
Antes de soltar a mão, Eragon ouviu, em meio às inúmeras farfalhadas que atingiam seu ouvido, uma quantidade de estalidos simultâneos, como se alguém tivesse batido na rocha com uma coleção de martelos. O som se repetiu meio segundo depois.
Ele olhou na direção de onde vinha o ruído, como fez Saphira. Um imenso vulto retorcido saiu em disparada da passagem em arco. Olhos negros, salientes, sem pálpebra. Um bico com mais de dois metros de comprimento. Asas semelhantes às de um morcego. O torso nu, sem pelo, de músculos vigorosos. Garras como espigões de aço.
Saphira cambaleou ao tentar evitar o Lethrblaka, mas sem êxito. A criatura colidiu com seu lado direito, dando a Eragon a impressão de ter a força e o furor de uma avalanche. Exatamente o que aconteceu depois, ele não soube, pois o impacto o catapultou sem nem mesmo uma vaga noção dos fatos no cérebro atordoado. O voo cego terminou de modo tão abrupto como quando começou: alguma coisa plana e dura bateu com violência nas suas costas, e ele caiu ao chão, batendo com a cabeça uma segunda vez. Essa última colisão extraiu o ar que restava nos pulmões de Eragon.
Estonteado, ficou deitado de lado, enrascado, arfando e lutando para recuperar pelo menos uma aparência de controle sobre seus membros sem reação.
Eragon!, Saphira gritou.
A preocupação na sua voz estimulou os esforços de Eragon como mais nada conseguiria estimular. À medida que a vida voltava para seus braços e pernas, estendeu a mão e agarrou o cajado, que tinha caído ao seu lado. Fincou a ponteira fixada na extremidade inferior do cajado numa fenda próxima e foi se levantando ao longo da vara de espinheiro até ficar em pé. Oscilou um pouco. Um enxame de centelhas vermelhas dançou diante dele. A situação era tão confusa que ele mal sabia para onde olhar primeiro.
Saphira e o Lethrblaka rolavam de um lado a outro da caverna, chutando, agadanhando e tentando morder um ao outro, com força suficiente para fender a rocha por baixo deles. O clamor da luta deve ter sido inimaginavelmente alto, mas para Eragon eles agiam em silêncio; seus ouvidos não estavam funcionando. Ainda assim, ele sentia as vibrações pela sola dos pés quando as feras colossais se debatiam para lá e para cá, ameaçando esmagar qualquer um que delas se aproximasse. Um jorro de fogo azul irrompeu por entre os maxilares de Saphira e banhou o lado esquerdo da cabeça do Lethrblaka num inferno devorador, quente o bastante para derreter o aço. As chamas descreveram curvas em torno do Lethrblaka e não o atingiram. Sem se impressionar, o monstro bicou o pescoço de Saphira, forçando-a a parar para se defender.
Veloz como uma flecha disparada de um arco, o segundo Lethrblaka saiu do corredor em arco, investiu contra o flanco de Saphira e, abrindo o bico estreito, deu um guincho horrível, enregelante, que fez formigar o couro cabeludo de Eragon e formou no seu estômago um nó gelado de pavor. Ele rosnou com a sensação desagradável. Aquilo ele podia ouvir. O cheiro agora, com a presença dos dois Lethrblaka, parecia o tipo de fedor insuportável resultante da mistura de três quilos de carne rançosa num barril de esgoto, fermentada por uma semana no verão.
Eragon fechou a boca com força quando sentiu o volume na garganta e desviou a atenção para evitar o vômito.
A alguns passos dali, Roran jazia encolhido, encostado numa parede da caverna, aonde também tinha sido arremessado. E enquanto Eragon olhava, seu primo ergueu um braço e se forçou a ficar de quatro e então em pé. Seus olhos estavam vidrados, e ele cambaleava como se estivesse embriagado.
Atrás de Roran, os dois Ra’zac surgiram de um túnel próximo. Nas mãos malformadas traziam lâminas longas e pálidas de desenho antigo. Diferentemente dos genitores, os Ra’zac eram mais ou menos do mesmo tamanho e forma de seres humanos. Um exoesqueleto de ébano os cobria de cima a baixo, embora pouco dele aparecesse, pois, mesmo em Helgrind, os Ra’zac usavam vestes e capas escuras. Avançavam com uma rapidez espantosa, com movimentos definidos e desajeitados como os de um inseto. E ainda assim Eragon não conseguia percebê-los nem os Lethrblaka.
Será que eles também são uma ilusão?, ele se perguntou. Mas, não, era uma tolice. A carne que Saphira estava tentando rasgar com suas garras era bastante real. Outra explicação lhe ocorreu: talvez fosse impossível detectar sua presença. Talvez os Ra’zac pudessem se ocultar da mente de humanos, suas presas, exatamente como as aranhas se ocultam das moscas. Se fosse assim, então Eragon afinal entendia por que os Ra’zac haviam tido tanto sucesso em caçar mágicos e Cavaleiros para Galbatorix quando eles mesmos não tinham como usar magia.
Droga! Eragon teria preferido usar xingamentos mais interessantes, mas agora era hora de agir, não de praguejar pela má sorte.
Brom tinha afirmado que os Ra’zac não eram páreo para ele em plena luz do dia; e, embora isso pudesse ter valido para ele – já que Brom havia tido décadas para inventar encantos a serem usados contra os Ra’zac – Eragon sabia que, sem a vantagem da surpresa, ele, Saphira e Roran teriam enorme dificuldade para escapar com vida, ainda mais para salvar Katrina.
Levantando a mão direita sobre a cabeça, Eragon gritou “Brisingr!”, e lançou uma bola de fogo ribombante na direção dos Ra’zac. Eles se desviaram, e a bola de fogo caiu no piso rochoso, crepitou por um instante, piscou e desapareceu. O encanto era bobo e infantil, não podendo causar nenhum dano concebível se Galbatorix tivesse protegido os Ra’zac do mesmo modo que tinha protegido os Lethrblaka. Ele, no entanto, considerou o ataque imensamente gratificante. Também distraiu os Ra’zac o suficiente para Eragon correr até Roran e grudar as costas nas do primo.
— Mantenha esses dois ocupados um instante! — gritou ele, na esperança de que Roran o ouvisse.
Quer tivesse ouvido, quer não, Roran entendeu o que Eragon queria, pois se protegeu com o escudo e ergueu o martelo, preparando-se para lutar. A intensidade de força contida em cada um dos terríveis golpes dos Lethrblaka já tinha esgotado as proteções contra perigos físicos que Eragon tinha instalado ao redor de Saphira. Sem elas, os Lethrblaka infligiram algumas fileiras de arranhões – longos, porém rasos – pela extensão de suas coxas e conseguiram picá-la três vezes com o bico. Esses ferimentos eram pequenos, mas profundos, e lhe causavam uma dor enorme. Por sua vez, Saphira tinha deixado descobertas as costelas de um Lethrblaka e tinha decepado praticamente o último metro da cauda do outro. O sangue dos Lethrblaka, para espanto de Eragon, era de um verde-azulado metálico, não muito diferente do azinhavre que se forma em objetos velhos de cobre.
Naquele momento, os Lethrblaka haviam se afastado de Saphira e a estavam cercando, investindo de vez em quando contra ela para mantê-la à distância enquanto esperavam que se cansasse ou que eles pudessem matá-la com o golpe de um bico.
Saphira era mais adequada do que os Lethrblaka ao combate aberto graças às suas escamas – mais duras e resistentes do que o couro cinzento dos Lethrblaka – e graças aos seus dentes – muito mais letais de perto do que o bico dos Lethrblaka. Mas, apesar de tudo isso, tinha dificuldade para rechaçar as duas criaturas ao mesmo tempo, especialmente porque o teto a impedia de saltar, voar e superar seus inimigos com outras manobras. Eragon temia que, mesmo que ela saísse vitoriosa, os Lethrblaka conseguissem mutilá-la antes que ela os abatesse.
Respirando rápido, Eragon lançou um único encanto que continha cada uma das doze técnicas para matar que Oromis tinha lhe ensinado. Ele teve o cuidado de enunciar o sortilégio como uma série de processos, para que, se as proteções de Galbatorix anulassem seus esforços, ele pudesse interromper o fluxo de magia. Se não fosse assim, o encanto talvez consumisse suas forças até sua morte.
Foi bom tomar essa precaução. Quando lançou o encantamento, Eragon logo percebeu que a magia não estava surtindo efeito algum sobre os Lethrblaka e abandonou o ataque. Não tinha imaginado ser bem-sucedido com as palavras da morte tradicionais, mas era preciso tentar, contando com a improvável possibilidade de Galbatorix ter sido negligente ou incompetente quando lançou proteções sobre os Lethrblaka e suas crias.
— Iaahh! — gritou Roran, atrás dele.
Um instante depois, o baque de uma espada batendo no escudo de Roran, seguido do retinir do ondular da cota de malha e o toque de sino de uma segunda espada ricocheteando no elmo de Roran. Eragon percebeu que sua audição estava melhorando.
Os golpes dos Ra’zac não paravam, mas em todas as vezes suas armas resvalavam na armadura de Roran ou deixavam de acertar seu rosto ou braços por um triz, não importava a velocidade com que fossem manejadas. Roran era lento demais para retaliar, mas os Ra’zac também não conseguiam feri-lo. Eles chiavam de frustração e vomitavam um jato contínuo de acusações, que pareciam ainda mais imundas por causa da forma como a língua era deturpada pelo jeito duro de falar e cheio de estalidos das criaturas.
Eragon sorriu. O casulo de encantos que ele havia tecido em torno de Roran tinha funcionado. Ele esperava que a rede invisível de energia aguentasse até encontrar outro modo de parar os Lethrblaka.
Tudo estremeceu e ficou cinzento em torno de Eragon quando os dois Lethrblaka guincharam juntos. Por um instante, sua determinação o abandonou, deixando-o incapaz de qualquer movimento. E então, ele reuniu forças e se sacudiu como um cachorro, desfazendo-se da influência cruel. O som fez com que se lembrasse principalmente de um par de crianças berrando de dor. Depois, Eragon começou a recitar o mais rápido possível sem errar a pronúncia da língua antiga. Cada frase que dizia, e foram inúmeras, continha o potencial para produzir uma morte instantânea, e cada morte era única e singular. Enquanto ele entoava seu solilóquio improvisado, Saphira recebeu outro corte no flanco esquerdo. Em contrapartida, ela quebrou a asa do adversário, dilacerando em tiras, com suas garras, a fina membrana. Uma série de impactos pesados foi transmitida das costas de Roran para as de Eragon quando os Ra’zac tentavam golpeá-lo e feri-lo numa velocidade frenética. O maior dos dois Ra’zac começou a circundar Roran, para poder atacar Eragon diretamente.
Então, em meio ao alarido de aço contra o aço, aço contra madeira e garras contra a pedra, veio o som raspado de uma espada cortando malha de ferro, seguido de um ruído úmido de esmagamento. Roran deu um berro, e Eragon sentiu o sangue se espalhar por sua panturrilha direita.
Com o canto de um olho, Eragon viu um vulto corcunda saltar na sua direção, estendendo a espada de lâmina em forma de folha para perfurá-lo. O mundo pareceu se contrair em torno da extremidade fina, estreita; a ponta cintilava como um estilhaço de cristal, cada arranhão um fio de mercúrio na claridade do alvorecer. Ele tinha tempo somente para mais um encanto antes de impedir que o Ra’zac enfiasse a espada entre seu fígado e seus rins. Em desespero, desistiu de tentar ferir diretamente os Lethrblaka e, em vez disso, deu um grito.
— Garjzla, letta!
Foi um encantamento tosco, criado às pressas e com uma expressão pobre, mas funcionou. Os olhos protuberantes do Lethrblaka de asa quebrada se tornaram um conjunto de espelhos, cada um deles um perfeito hemisfério, enquanto a magia de Eragon refletia a luz que, de outro modo, teria entrado pelas pupilas do Lethrblaka.
Cega, a criatura tropeçou e agitou os braços tentando em vão atingir Saphira. Eragon girou o cajado de espinheiro nas mãos e desviou para o lado a espada do Ra’zac quando ela estava a menos de três centímetros das suas costelas. A criatura caiu diante dele e esticou o pescoço. Eragon recuou quando um bico curto e grosso apareceu das profundezas do capuz. O apêndice quitinoso se fechou com um estalo quase atingindo o olho direito de Eragon. Com bastante frieza, ele percebeu que a língua do Ra’zac era roxa, farpada e se contorcia como uma cobra sem cabeça. Unindo as mãos no centro do cajado, Eragon empurrou os braços para a frente, atingindo o Ra’zac de um lado a outro do tórax oco e lançando o monstro alguns metros para trás, onde caiu de quatro.
Eragon girou em torno de Roran, cujo lado esquerdo estava banhado de sangue, e aparou o golpe da espada do outro Ra’zac. Ele fez finta, atingiu a espada do Ra’zac e, quando este tentou picar seu pescoço, virou a outra metade do cajado diante do corpo e desviou o golpe. Sem parar, Eragon se atirou para a frente e fincou a ponta de madeira do cajado no abdome do Ra’zac. Se estivesse brandindo Zar’roc, Eragon teria matado o Ra’zac ali mesmo. Como não estava, alguma coisa se rompeu dentro do Ra’zac, e a criatura saiu rolando pela caverna por uns doze passos ou mais. E imediatamente se pôs de pé, deixando um borrão de sangue azul na rocha irregular. Preciso de uma espada, pensou Eragon.
Quando os dois Ra’zac convergiram sobre ele, Eragon abriu mais a postura. Não tinha escolha, a não ser a de defender sua posição e enfrentar o ataque combinado dos Ra’zac, pois ele era tudo o que se encontrava entre aqueles abutres de garras em gancho e Roran.
Começou a dizer o mesmo encanto que tinha se revelado eficaz contra os Lethrblaka, mas os Ra’zac desfecharam golpes altos e baixos antes que pronunciasse uma sílaba sequer. As espadas ricocheteavam no cajado com um baque surdo, sem conseguir fazer uma mossa nem ferir de outro modo a madeira encantada.
Esquerda, direita, de cima, de baixo. Eragon não pensava. Somente agia e reagia enquanto trocava uma confusão de golpes com os Ra’zac. O cajado era ideal para lutar contra mais de um adversário, pois Eragon podia atacar e bloquear com as duas extremidades e, muitas vezes, ao mesmo tempo. Essa capacidade agora lhe era muito útil. Ele arfava, cada respiração vindo curta e rápida. O suor escorria da sua testa e se acumulava nos cantos dos olhos, banhava suas costas e a parte inferior dos braços. A névoa vermelha do combate nublava sua visão e pulsava em resposta às convulsões do seu coração. Nunca se sentia tão vivo, nem com tanto medo, quanto na hora da luta.
As próprias proteções de Eragon eram escassas. Como tinha sido pródigo na atenção dedicada a Saphira e a Roran, as defesas mágicas de Eragon logo se esgotaram, e o Ra’zac menor o feriu na parte externa do joelho esquerdo. A lesão não era uma ameaça à sua vida, mas era sério mesmo assim, pois sua perna esquerda já não sustentaria seu peso. Agarrando a ponteira da base, Eragon empunhou o cajado como uma clava e golpeou um Ra’zac na cabeça. A criatura caiu, mas Eragon não saberia dizer se estava morta ou apenas inconsciente. Investindo contra o Ra’zac que restava, ele espancou seus braços e ombros e, com um desvio repentino, arrancou-lhe da mão a espada. Antes que Eragon pudesse terminar com o Ra’zac, o Lethrblaka cego, de asa quebrada, voou de um lado a outro da caverna e colidiu com a parede mais afastada, fazendo cair uma chuva de flocos de pedra do teto. A visão e o barulho foram tão colossais que Eragon, Roran e o Ra’zac se encolheram e viraram, por puro instinto. Saltando atrás do Lethrblaka, em quem tinha acabado de dar um chute, Saphira fincou os dentes na nuca vigorosa da criatura. O Lethrblaka se debateu num último esforço para se livrar, e então Saphira agitou a cabeça de um lado a outro, quebrando-lhe a espinha. Erguendo-se do corpo ensanguentado, Saphira encheu a caverna com um rugido selvagem de vitória.
O Lethrblaka que restava não hesitou. Atacando Saphira, ele enfiou as garras por baixo das bordas das escamas para puxá-la para uma queda descontrolada. Juntos eles rolaram até o limite da caverna, balançaram ali por meio segundo e depois caíram desaparecendo de vista, sem parar de lutar o tempo todo. Foi uma tática inteligente, porque levou o Lethrblaka para longe do alcance dos sentidos de Eragon; e aquilo que Eragon não conseguia perceber era muito difícil de contrapor com algum encanto.
Saphira!, Eragon gritou.
Cuide de si mesmo. Este aqui não vai me escapar.
Com um sobressalto, Eragon girou nos calcanhares bem a tempo de ver os dois Ra’zac desaparecerem nas profundezas do túnel mais próximo, com o menor apoiando o maior. Fechando os olhos, Eragon localizou a mente dos prisioneiros em Helgrind, murmurou uma frase na língua antiga e então falou com Roran.
— Isolei a cela de Katrina para que os Ra’zac não possam usá-la como refém. Agora, só você e eu podemos abrir a porta.
— Ótimo — disse Roran, entre dentes. — Você pode fazer alguma coisa para me ajudar com isso aqui? — Ele mostrou com o queixo o lugar que estava segurando com a mão direita. O sangue brotava entre os dedos.
Eragon avaliou o ferimento. Assim que tocou nele, Roran se encolheu e recuou.
— Você teve sorte — disse Eragon. — A espada atingiu uma costela. — Colocando uma mão sobre a lesão e a outra sobre os doze diamantes escondidos no cinto de Beloth, o Sábio, atado à sua cintura, Eragon recorreu ao poder que tinha armazenado nas pedras. — Waíse heill!
Uma ondulação percorreu a lateral do corpo de Roran à medida que a magia entretecia a pele e o músculo, reunindo-os outra vez. Em seguida, Eragon curou seu próprio ferimento: o corte aberto no joelho esquerdo. Por fim, empertigou-se e olhou de relance para o lugar por onde Saphira tinha saído. A ligação dos dois estava se apagando com a perseguição que ela fazia ao Lethrblaka, na direção do lago Leona. Estava louco para ajudá-la, mas sabia que, por enquanto, ela teria de se virar sozinha.
— Depressa! — chamou Roran. — Eles estão escapando!
— Certo.
Erguendo o cajado, Eragon se aproximou do túnel sem iluminação e lançou seu olhar de uma pedra saliente para outra, esperando os Ra’zac saltarem de uma delas. Ele se movimentava lentamente para que seus passos não ecoassem no buraco sinuoso. Quando por acaso tocou numa rocha para se equilibrar, sentiu que ela estava coberta de limo.
Depois de uns vinte metros, várias curvas e dobras no corredor esconderam a caverna principal e os mergulharam em trevas tão profundas que até mesmo Eragon descobriu ser impossível enxergar.
— Pode ser que você seja diferente, mas eu não consigo lutar no escuro — sussurrou Roran.
— Se eu acender uma luz, os Ra’zac não chegarão perto de nós, não agora que eu conheço um encanto que funciona sobre eles. Eles simplesmente vão ficar escondidos até nós irmos embora. Precisamos matá-los enquanto temos oportunidade.
— O que espera que eu faça? É mais provável eu dar um encontrão numa parede e quebrar meu nariz do que encontrar aqueles dois besouros... Eles poderiam vir sorrateiros por trás de nós e nos apunhalar pelas costas.
— Psssiu... Segure no meu cinto, venha atrás de mim e esteja pronto para se abaixar de repente.
Eragon não enxergava nada, mas ainda ouvia, apalpava, sentia cheiros e sabores; e essas faculdades eram bastante sensíveis para ele ter uma boa ideia do que estava por perto. O maior perigo era que os Ra’zac atacassem de alguma distância, talvez com um arco, mas Eragon confiava que seus reflexos fossem aguçados o suficiente para salvar Roran e a si mesmo de algum míssil lançado contra eles.
Uma corrente de ar afagou a pele de Eragon, então parou e inverteu a direção à medida que a pressão lá de fora crescia e diminuía. O ciclo se repetiu a intervalos aleatórios, criando remoinhos invisíveis que roçavam nele como chafarizes de água agitada.
Sua respiração, como a de Roran, estava alta e descompassada em comparação com a variedade de sons que se propagava pelo túnel. Mais alto que a respiração, Eragon ouviu o retinir prolongado de uma pedra que caiu em algum ponto do emaranhado de ramificações de túneis, bem como o gotejar uniforme de gotículas condensadas que atingiam a superfície de um lago subterrâneo como se fosse um tambor. Ele também ouviu o atrito de cascalho do tamanho de ervilhas esmagado debaixo da sola das suas botas. Um gemido longo e lúgubre vibrou em algum ponto muito adiante. Dos cheiros, nenhum era novo: suor, sangue, umidade e mofo.
Passo a passo, Eragon ia à frente enquanto eles se enfurnavam cada vez mais nas entranhas de Helgrind. O túnel descia sempre e muitas vezes se bifurcava ou fazia curvas, tanto que Eragon logo estaria perdido se não fosse capaz de usar a mente de Katrina como ponto de referência. Os diversos buracos cheios de calombos eram baixos e apertados. Uma vez, quando Eragon bateu com a cabeça no teto, uma súbita explosão de claustrofobia o deixou abatido.
Já voltei, anunciou Saphira exatamente quando Eragon punha o pé num degrau tosco cortado na rocha abaixo dele. Ele parou. Ela não tinha sofrido outras lesões, o que lhe causou alívio.
E o Lethrblaka?
Boiando de barriga para cima no lago Leona. Receio que uns pescadores tenham visto nosso combate. Estavam remando para Dras-Leona quando os vi pela última vez.
Bem, não dá para evitar. Veja o que consegue encontrar no túnel de onde os Lethrblaka saíram. E fique alerta para os Ra’zac. Eles podem tentar passar de mansinho por nós e escapar de Helgrind pela entrada que usamos.
É provável que tenham uma saída de emergência no nível do chão.
É provável, mas acho que ainda não vão fugir.
Depois do que lhes pareceu uma hora confinados na escuridão – apesar de Eragon saber que não poderiam ter sido mais do que dez ou quinze minutos – e depois de descerem mais de trinta metros dentro de Helgrind, Eragon parou num trecho plano de pedra.
Transmitindo seus pensamentos para Roran, disse: A cela de Katrina fica cerca de quinze metros à nossa frente, à direita. Não podemos nos arriscar a soltar Katrina antes que os Ra’zac estejam mortos ou que tenham ido embora.
E se eles não se revelarem enquanto nós não a soltarmos?
Por algum motivo, não consigo sentir a presença deles. Aqui dentro eles poderiam se esconder de mim até o dia do Juízo Final.
E então, vamos esperar sem saber por quanto tempo ou vamos libertar Katrina enquanto ainda temos a oportunidade?
Posso pôr algumas proteções em torno dela que devem protegê-la da maioria dos ataques.
Roran ficou calado por um instante.
Então vamos soltar Katrina.
Eles começaram a avançar novamente, tateando o caminho pelo corredor baixo, com seu piso áspero, sem acabamento. Eragon precisava dedicar quase toda a sua atenção a escolher onde pisar para poder manter o equilíbrio. Resultado, quase deixou de perceber o farfalhar de pano roçando em pano e depois o leve zunido que vinha de algum lugar à sua direita. Ele se retraiu contra a parede, empurrando Roran para trás. Ao mesmo tempo, alguma coisa afiada passou pelo seu rosto, cavando um sulco na carne da sua bochecha direita. A fina trincheira ardia como se tivesse sido cauterizada.
— Kveykva! — gritou Eragon.
Acendeu-se uma luz vermelha, forte como o sol do meio-dia. Ela não tinha fonte e, por isso, iluminava todas as superfícies uniformemente e sem sombras, dando às coisas uma estranha aparência achatada. O brilho súbito ofuscou Eragon, mas fez mais que isso com o Ra’zac solitário diante dele: a criatura deixou cair o arco, cobriu o rosto encapuzado e deu um guincho agudo e estridente. Um guincho semelhante disse a Eragon que o segundo Ra’zac estava atrás deles.
Roran! Eragon girou nos calcanhares a tempo de ver Roran investir contra o outro Ra’zac, segurando o martelo no alto. O monstro desnorteado recuou cambaleando, mas foi lento demais. O martelo baixou.
— Por meu pai! — gritou Roran, dando mais um golpe. — Por nossa casa! — O Ra’zac já estava morto, mas Roran ergueu o martelo mais uma vez. — Por Carvahall! — Seu último golpe espatifou a carapaça do Ra’zac como a casca de uma cabaça seca.
No clarão vermelho impiedoso, a poça de sangue que se espalhava parecia roxa. Girando o cajado para desviar a flecha ou a espada que estava convencido de ter sido lançada contra ele, Eragon se virou para enfrentar o Ra’zac que restava. O túnel diante deles estava vazio. Ele praguejou. Eragon avançou até a figura contorcida no chão. Passou o cajado por cima da cabeça e o fez cair atravessado no peito do Ra’zac morto com um baque retumbante.
— Esperei muito para fazer isso — disse Eragon.
— Como eu.
Ele e Roran se entreolharam.
— Aaaai! — gritou Eragon, segurando a bochecha com a dor cada vez mais forte.
— Está borbulhando! — exclamou Roran. — Faça alguma coisa!
Os Ra’zac devem ter untado a ponta da flecha com óleo de Seithr, pensou Eragon. Lembrando-se de seu treinamento, ele limpou o ferimento e tecidos vizinhos com um encantamento e então reparou a lesão no seu rosto. Abriu e fechou a boca algumas vezes para se certificar de que os músculos estavam funcionando direito.
— Imagine o estado em que estaríamos sem a magia — disse ele, com um sorriso sinistro.
— Sem a magia, não precisaríamos nos preocupar com Galbatorix.
Conversem depois, disse Saphira. Assim que aqueles pescadores chegarem a Dras-Leona, o rei poderá receber notícia dos nossos feitos por um dos seus feiticeiros prediletos na cidade, e nós não queremos que Galbatorix recorra à cristalomancia para esquadrinhar Helgrind enquanto ainda estivermos aqui.
Está bem, está bem, disse Eragon. Apagando o clarão vermelho onipresente, ele disse “Brisingr raudhr”, e criou com um isso uma luz-viva vermelha como a da noite anterior, com a diferença de que esta permanecia ancorada a quase um palmo do teto em vez de acompanhar Eragon aonde ele fosse. Agora que tinha a oportunidade de examinar o túnel com mais atenção, Eragon viu que ao longo do corredor de pedra estavam dispostas cerca de vinte portas reforçadas com ferro, algumas dos dois lados. Ele indicou uma.
— Descendo por aqui, a nona, à direita. Você vai apanhá-la. Eu verifico as outras celas. Os Ra’zac podem ter deixado alguma coisa interessante nelas.
Roran concordou. Agachando-se, ele fez uma busca no corpo aos seus pés, mas não encontrou chaves. Deu de ombros, então.
— Eu abro do jeito mais difícil.
Correu até a porta certa, deixou de lado o escudo e começou a trabalhar nas dobradiças com o martelo. Cada martelada gerava um estrondo assustador. Eragon não se ofereceu para ajudar. Seu primo não ia querer nem apreciar auxílio naquela hora. Além do mais, havia outra coisa que Eragon precisava fazer.
Ele foi à primeira cela, sussurrou três palavras e então, depois que a fechadura se abriu sozinha, ele empurrou a porta para o lado. Tudo o que o pequeno cômodo continha era uma corrente preta e uma pilha de ossos em decomposição. Aqueles tristes restos não eram mais do que ele esperava. Eragon já sabia onde estava o objeto da sua busca, mas manteve a simulação de ignorância para evitar despertar suspeitas em Roran. Outras duas portas se abriram e se fecharam sob o toque dos dedos de Eragon. E então, na quarta cela, a porta se abriu para admitir o brilho tremeluzente da luz-viva e revelar exatamente o homem que Eragon havia desejado não encontrar: Sloan.

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