3 de junho de 2017

Capítulo 29 - Uma floresta de pedra

A multidão soltou urros de alegria.
Eragon estava sentado nas tribunas de madeira que os anões haviam construído ao longo da base das trincheiras na parte de fora da Fortaleza Bregan. A fortaleza situava-se sobre uma saliência arredondada da montanha Thardûr, mais de cento e cinquenta metros acima do solo do vale tomado de névoa, e de lá era possível ter uma boa visão por quilômetros e quilômetros em qualquer direção, ou até que as rígidas montanhas obscurecessem a visão.
Como Tronjheim e as outras cidades dos anões que Eragon conhecia, a Fortaleza Bregan era inteiramente feita de ardósia, neste caso, um granito avermelhado que dava um tom aconchegante aos recintos e aos corredores internos. A fortaleza propriamente dita era uma edificação sólida e pesada de cinco andares, culminando em uma torre aberta com um sino encimada por uma cúpula de vidro em forma de lágrima do tamanho de dois anões e que era sustentada por quatro vigas de granito que se uniam para formar um cume.
A cúpula em forma de lágrima, como Orik dissera a Eragon, era uma versão maior das lanternas sem chama dos anões e, durante importantes ocasiões de emergência, podia ser usada para iluminar todo o vale com uma luz dourada. Os anões a chamavam Az Sindriznarrvel, ou A Gema de Sindri.
Grudadas ao longo dos flancos da fortaleza encontravam-se inúmeras construções, aposentos para os criados e guerreiros do Dûrgrimst Ingeitum e também outras estruturas tais como mesas, ferrarias e uma igreja devotada a Morgothal, o deus do fogo dos anões e protetor dos ferreiros. Embaixo das muralhas altas e lisas da Fortaleza Bregan, ficavam dezenas de fazendas espalhadas pelas clareiras da floresta de onde podiam ser vistos anéis de fumaça subindo pelas chaminés das casas de pedra. Tudo isso e muito mais, Orik mostrara e explicara a Eragon depois que as três crianças anãs o haviam conduzido até a corte da Fortaleza Bregan, gritando “Argetlam!” a todos que passavam. Orik saudara Eragon como um irmão e então o levara aos banhos e, quando estava limpo, cuidou para que fosse vestido com uma veste púrpura e que lhe colocassem um diadema na testa.
Mais tarde, Orik surpreendeu Eragon apresentando-o a Hvedra, uma anã de olhos vividos, rosto em forma de maçã e cabelos longos que orgulhosamente anunciou que havia se casado com Orik dois dias atrás. Enquanto Eragon expressava seu espanto e os congratulava, Orik, inquieto, repetia:
— Foi muito duro para mim você não ter podido estar presente à cerimônia, Eragon. Mandei um de nossos feiticeiros fizer contato com Nasuada e perguntei se comunicaria meu convite a você e a Saphira, mas ela se recusou; temia que isso pudesse distraí-lo de suas tarefas. Não posso culpá-la, mas gostaria que essa guerra tivesse permitido a sua presença em nosso casamento e a nossa no de seu primo, já que somos todos parentes agora, se não pelo sangue, pelo menos pela lei.
Com seu sotaque acentuado, Hvedra disse:
— Por favor, me considere sua parenta agora, Matador de Espectros. No que depender de mim, sempre será tratado como um membro da família na Fortaleza Bregan e poderá pedir abrigo aqui sempre que precisar, inclusive se estiver fugindo de Galbatorix.
Eragon fez uma mesura, emocionado com a oferta.
— A senhora é muito gentil. — Então perguntou: — Se me permite uma curiosidade, por que vocês decidiram se casar agora?
— Havíamos planejado nos unir nessa primavera, mas...
— Mas — continuou Orik em seu modo áspero — os Urgals atacaram Farthen Dûr, e então Hrothgar me mandou seguir com você até Ellesméra. Quando voltei para cá e as famílias do clã me aceitaram como seu novo grimstborith, imaginamos que era o momento perfeito para consumar nossos votos e nos tornarmos marido e mulher. Talvez nenhum de nós consiga sobreviver até o fim do ano, então por que adiar?
— E quer dizer que você se tornou mesmo chefe do clã — disse Eragon.
— Sim. Escolher o próximo líder do Dûrgrimst Ingeitum foi uma questão difícil, ficamos nisso por mais de uma semana, mas, no final, a maioria das famílias concordou que eu deveria seguir os passos de Hrothgar e herdar sua posição, já que eu era seu único herdeiro nomeado.
Agora Eragon estava sentado próximo a Orik e Hvedra, devorando o pão e o carneiro que os anões haviam trazido para ele e observando a disputa que acontecia em frente às tribunas. Era costumeiro, como dissera Orik, que uma família anã provida de recursos proporcionasse jogos para o entretenimento dos convidados de casamento. A família de Hrothgar era tão rica que aqueles já duravam mais de três dias e estavam previstos para continuar por mais quatro. Os jogos consistiam em muitos eventos: luta livre, arco-e-flecha, esgrima, demonstrações de força e o evento que estava ocorrendo naquele momento, o Ghastgar.
Das duas extremidades opostas de um campo gramado, dois anões cavalgavam um na direção do outro sobre Feldûnost brancos. Os bodes monteses chifrados cruzavam a relva aos saltos, cada pulo com mais de vinte metros. O anão à direita tinha um pequeno escudo preso em seu braço esquerdo, mas não carregava nenhuma arma. O anão à esquerda não possuía escudo, mas com sua mão direita segurava um dardo pronto para o ataque. Eragon segurou a respiração quando a distância entre os Feldûnost diminuiu. Quando estavam a menos de nove metros um do outro, o anão com a lança levantou o braço e arremessou o projétil em seu oponente. O outro anão não se protegeu com o escudo. Em vez disso, avançou e, com uma impressionante habilidade, agarrou a lança pela haste e a brandiu por cima da cabeça. A multidão reunida na arena explodiu de alegria, no que foi imitada por Eragon, que bateu palmas vigorosamente.
— Aquilo foi muito bem-feito! — exclamou Orik. Ele riu e enxugou sua caneca de hidromel, sua polida cota de malha resplandecendo na luz do crepúsculo.
Estava usando um capacete adornado com ouro, prata e rubis, além de cinco grandes anéis nos dedos. Na cintura, estava pendurado seu sempre presente machado. Hvedra estava ainda mais ricamente vestida, com tiras de tecido bordadas em seu suntuoso vestido, colares de pérolas e ouro no pescoço e, em seu cabelo, uma crista de marfim decorada com uma esmeralda maior do que o polegar de Eragon.
Uma fileira de anões se levantou, soprando um conjunto de trompas, as notas metálicas ecoando montanha acima. Então, um anão redondo como um barril deu um passo à frente e anunciou, na língua anã, o vencedor da última disputa, assim como os nomes da próxima dupla a competir no Ghastgar.
Quando o mestre-de-cerimônias terminou de falar, Eragon se inclinou e perguntou:
— Você nos acompanhará até Farthen Dûr, Hvedra?
Ela balançou a cabeça e sorriu amplamente.
— Não posso. Devo ficar aqui e me debruçar sobre os assuntos do Ingeitum enquanto Orik está ausente, de modo que não encontre nossos guerreiros morrendo de fome e nosso ouro acabado quando voltar.
Rindo, Orik segurou sua caneca na direção de um dos criados a vários metros de distância. Assim que o anão correu e encheu a caneca com hidromel, Orik voltou-se para Eragon com um óbvio orgulho.
— Hvedra não está se gabando. Não é apenas minha mulher, ela é a... Argh! Vocês não têm uma palavra para isso. Ela é a grimstcarvlorss do Dûrgrimst Ingeitum. Grimstcarvlorss significa... “a mantenedora da casa”, “a administradora da casa”. É seu dever garantir que as famílias de nosso clã paguem os dízimos, previamente acertados, à Fortaleza Bregan; que nossos rebanhos sejam levados às pastagens corretas nas horas certas; que nossos estoques de cereais e comida não diminuam muito; que as mulheres do Ingeitum façam tecidos suficientes; que nossos guerreiros estejam bem equipados; que nossos ferreiros sempre tenham minério de ferro para fundir; e, em suma, que nosso clã seja bem administrado e que prospere e se desenvolva. Existe um ditado famoso entre nosso povo: uma boa grimstcarvlorss pode construir um clã...
— E uma má grimstcarvlorss destruirá um clã — completou Hvedra.
Orik sorriu e pegou em uma das mãos da esposa.
— E Hvedra é a melhor das grimstcarvlorssn. Não é um título herdado. Você precisa provar que é digno do posto se pretende mantê-lo. É raro que a mulher de um grimstborith também seja grimstcarvlorss. Eu tenho muita sorte.
Ambos se aproximaram um do outro e tocaram os respectivos narizes. Eragon desviou o olhar, sentindo-se solitário e excluído. Orik recostou-se, tomou um gole do hidromel e então continuou:
— Tivemos muitas grimstcarvlorssn em nossa história. Sempre se diz que a única coisa que nós, líderes de clã, fazemos de bom é declarar guerra um ao outro, e que as grimstcarvlorssn preferem que passemos nosso tempo discutindo entre nós mesmos de modo que não tenhamos tempo para interferir nos trabalhos do clã.
— Até parece, Skilfz Delva — ralhou Hvedra. — Você sabe que isso não é verdade. Ou pelo menos não é verdade conosco.
— Humm. — Orik tocou a testa na testa de Hvedra. E novamente tocaram os narizes.
Eragon voltou sua atenção para a multidão abaixo ao ouvir uma erupção frenética de assobios e zombadas. Viu que um dos anões competindo no Ghastgar havia perdido a paciência e, no último instante, puxara seu Feldûnost para o lado e ainda assim continuava tentando fugir de seu oponente. O anão com o dardo o perseguiu duas vezes na arena. Quando estavam bem próximos um do outro, ergueu-se sobre os estribos e arremessou a lança, acertando o anão covarde na parte de trás de seu ombro esquerdo. Com um uivo, o outro anão caiu de sua montaria e ficou deitado de lado, apertando a lâmina e a haste enfiada na carne. Um curandeiro disparou em sua direção. Depois de um instante, todos viraram as costas para o espetáculo. Orik fez uma careta de desgosto.
— Bah! Vai demorar muitos anos até que sua família consiga apagar a mancha da desonra de seu filho. Sinto muito que você tenha sido obrigado a testemunhar esse ato desprezível, Eragon.
— Nunca é agradável ver alguém realizar um ato vergonhoso.
Os três ficaram sentados em silêncio durante as duas disputas seguintes.
Então, Orik assustou Eragon ao agarrar seu ombro e perguntar:
— Gostaria de ver uma floresta de pedra, Eragon?
— Tais coisas não existem, a menos que sejam esculpidas.
Orik balançou a cabeça, os olhos cintilando.
— Não é esculpida e existe. Então repito a pergunta, você gostaria de ver uma floresta de pedra?
— Se você não está fazendo uma piada... sim, gostaria.
— Ah, estou contente por ter aceitado. Não estou fazendo piada, e prometo que amanhã eu e você caminharemos por entre árvores de granito. É uma das maravilhas das montanhas Beor. Todos os hóspedes do Dûrgrimst deveriam ter a oportunidade de visitá-la.


Na manhã seguinte, Eragon levantou-se de sua cama minúscula em seu quarto de pedra com teto baixo e mobília diminuta, lavou o rosto em uma bacia de água fria e, por puro vício, dirigiu sua mente para Saphira. Sentiu apenas os pensamentos dos anões e dos animais em torno da fortaleza. Eragon tropeçou e se inclinou para a frente, agarrando a borda da bacia, tomado por uma sensação de isolamento. Permaneceu nessa posição, incapaz de se mover ou pensar, até que sua visão ficou carmesim e pontinhos brilhantes começaram a flutuar diante de seus olhos. Com um arquejo, expirou e encheu novamente os pulmões.
Senti sua falta durante a viagem de volta de Helgrind, pensou ele, mas pelo menos eu sabia que estava voltando para ela da maneira mais rápida que podia. Agora, estou viajando cada vez para mais longe dela e não sei quando voltaremos a nos encontrar.
Ele sacudiu o corpo, vestiu-se e se dirigiu aos corredores frescos da Fortaleza Bregan saudando os anões com quem cruzava, os quais o saudavam com energéticas reiterações de “Argetlam!”. Encontrou Orik e doze outros anões no pátio da fortaleza. Estavam selando uma fileira de robustos pôneis, cujas respirações formavam pequenas nuvens brancas no ar frio.
Eragon sentiu-se um gigante quando os homenzinhos atarracados se moveram em torno dele.
— Nós temos um jumento no estábulo, se você quiser montar — Orik gritou.
— Não, vou continuar a pé, se vocês não se importarem.
— Como queira. — Orik deu de ombros.
Quando estavam prontos para partir, Hvedra desceu os largos degraus de pedra que ia da entrada ao salão principal da Fortaleza Bregan, o vestido arrastando-se atrás dela, e deu para Orik uma trompa de marfim adornada com filigranas douradas em volta da boca e da campana.
— Isso pertencia a meu pai quando ele cavalgava com o grimstborith Aldhrim — ela informou. — Eu lhe dou para que possa se lembrar de mim nos dias vindouros. — Ela disse mais alguma coisa na língua anã, tão suavemente que Eragon não pôde ouvir, e então ela e Orik tocaram as testas.
Esticando-se em sua sela, Orik colocou a trompa nos lábios e soprou. Uma nota profunda e vibrante soou, aumentando de volume até que o ar no pátio pareceu vibrar como uma corda açoitada pelo vento. Um par de corvos pretos surgiu na torre acima, grasnando. O som da trompa fez o sangue de Eragon formigar. Ele inquietou-se, ansioso para partir.
Erguendo a trompa por sobre a cabeça e olhando uma última vez para Hvedra, Orik esporeou seu pônei e partiu, trotando para fora dos portões principais da Fortaleza Bregan e tomando a direção leste, para o topo do vale. Eragon e os outros doze anões seguiram logo atrás. Por três horas, seguiram uma trilha em boas condições que flanqueava a montanha Thardûr, subindo cada vez mais alto em relação a onde estavam. Os doze anões conduziam os pôneis da maneira mais rápida que podiam sem forçar os animais, mas sua velocidade era, ainda assim, uma fração da velocidade de Eragon quando ficava livre para correr sem ser admoestado. Embora estivesse frustrado, ele evitou reclamar porque percebeu que era inevitável que tivesse de viajar mais lentamente com qualquer criatura que não fosse elfo ou Kull. Tremeu e cobriu-se mais ainda com a capa. O sol ainda estava para nascer sobre as montanhas Beor e uma triagem úmida impregnava o vale, por mais que o meio-dia estivesse se aproximando. Então, encontraram uma faixa de granito com mais de trezentos metros de extensão limitada à direita por um penhasco enviesado formado por pilares naturalmente octogonais. Cortinas de névoa obscureciam o campo de pedra ao longe. Orik ergueu uma das mãos e avisou:
— Atenção, Az Knurldrâthn.
Eragon franziu o cenho. Por mais que olhasse, não conseguia discernir nada de interessante naquele local árido.
— Não vejo nenhuma floresta de pedra.
— Ande comigo, por favor, Eragon — Orik pediu, saltando do pônei e entregando as rédeas ao guerreiro atrás dele.
Juntos, caminharam em direção à névoa, Eragon diminuindo os passos para acompanhar Orik. O nevoeiro beijou seu rosto, frio e úmido. A névoa ficou tão espessa que obscureceu o resto do vale, envolvendo-os em uma acinzentada paisagem indefinida onde até mesmo a sensação de alto e baixo parecia arbitrária. Sem se intimidar, Orik prosseguiu com passadas confiantes. Eragon, todavia, sentia-se desorientado e levemente desequilibrado, e caminhava com uma das mãos estendida à sua frente caso tropeçasse em alguma coisa escondida em meio ao nevoeiro.
Orik parou na beira de uma estreita fissura que ficava de frente para o granito no qual estavam.
— O que você enxerga agora?
Estreitando os olhos, Eragon vasculhou o local em todas as direções, mas a névoa parecia tão monótona quanto antes. Abriu sua boca para expressar o que estava sentindo, mas reparou uma leve irregularidade na textura da neblina à sua direita, uma suave combinação de luz e escuridão que mantinha sua forma mesmo enquanto a névoa se afastava. Percebeu outras áreas igualmente estáticas: estranhos e abstratos fragmentos de contraste que não formavam nenhum objeto reconhecível.
— Eu não... — ele começou a dizer quando um sopro despenteou seus cabelos.
Abaixo do delicado estímulo da brisa recém-nascida, a névoa afinou e as desmembradas combinações de sombra transformaram-se em troncos de árvores grandes e cinzentos com galhos nus e quebrados. Dezenas de árvores cercavam a ele e Orik, pálidos esqueletos de uma antiga floresta. Eragon pressionou a palma da mão contra um tronco. A casca era tão dura e fria quanto um penedo. Manchas de liquens esbranquiçados estavam grudadas na superfície da árvore. Eragon arrepiou-se na nuca. Embora não se considerasse exageradamente supersticioso, a neblina fantasmagórica, a assustadora meia-luz e a própria aparência das árvores – sinistras, agourentas e misteriosas – acenderam uma fagulha de medo dentro dele. Umedeceu os lábios e perguntou:
— Como isso veio a acontecer?
Orik deu de ombros.
— Alguns afirmam que Gûntera deve tê-las colocado aqui quando criou a Alagaësia a partir do nada. Outros afirmam que Helzvog as fez, já que pedra é seu elemento preferido, e como seria possível que o deus da pedra não tivesse árvores de pedra em seu jardim? Outros ainda afirmam que não, que uma vez essas árvores foram iguais a todas as outras e uma grande catástrofe milhões de anos atrás deve tê-las enterrado no chão e que, com o passar do tempo, a madeira virou terra e a terra virou pedra.
— Isso é possível?
— Apenas os deuses sabem. Quem além deles pode esperar entender os porquês do mundo? — Orik mudou de posição. — Nossos ancestrais descobriram a primeira dessas árvores enquanto extraíam granito aqui, mais de mil anos atrás. O grimstborith do Dûrgrimst Ingeitum de então, Hvalmar Lackhand, parou a extração e mandou os mineiros escavarem as árvores das cercanias. Quando já haviam escavado quase cinquenta árvores, Hvalmar percebeu que talvez existissem centenas ou mesmo milhares de árvores de pedra enterradas no flanco do monte Thardûr e então mandou que seus homens abandonassem o projeto. Esse lugar, todavia, capturou a imaginação de nossa raça e, desde então, knurlan de todos os clãs veem até aqui e trabalham para soltar mais árvores da prisão de granito. Existem, inclusive, knurlan que dedicaram suas vidas à tarefa. Também virou uma tradição enviar filhos problemáticos para escavar uma ou outra árvore sob a supervisão de um mestre mineiro.
— Isso parece tedioso.
— Faz com que tenham tempo para se arrepender de seus erros. — Com uma das mãos, Orik cofiou a barba trançada. — Eu mesmo passei alguns meses aqui quando era um selvagem rapazote de trinta e quatro anos.
— E você se arrependeu de seus modos?
— Ah, não. Era muito... tedioso. Depois de todas aquelas semanas, eu só havia livrado um único galho de árvore do granito, então fugi e me juntei a um grupo de Vrenshrrgn...
— Anões do clã Vrenshrrgn?
— Exato, knurlagn do clã Vrenshrrgn, Lobos de Guerra, Lobos Guerreiros, seja lá como você diz na sua língua. Eu me juntei a eles, fiquei bêbado com cerveja e, quando estavam caçando Nagran, decidi que também eu deveria matar um javali e levá-lo para Hrothgar para apascentar a raiva que ele tinha de mim. Não foi a coisa mais sábia que fiz na vida. Até mesmo nossos guerreiros mais habilidosos temem caçar Nagran, e eu ainda era mais criança do que adulto. Assim que minha mente clareou, eu xinguei a mim mesmo de idiota, mas eu fizera um juramento, então não tive escolha a não ser prosseguir.
Quando Orik fez uma pausa, Eragon perguntou:
— O que aconteceu?
— Oh, eu matei um Nagra com a ajuda dos Vrenshrrgn, mas o javali me acertou um dos ombros e me jogou contra os galhos de uma árvore nas proximidades. Os Vrenshrrgn tiveram que carregar não só a mim como também o Nagra de volta para a Fortaleza Bregan. O javali agradou a Hrothgar e eu... eu, apesar das tentativas de nossos melhores curandeiros, tive de passar o mês seguinte deitado em uma cama, o que Hrothgar disse já ser castigo suficiente por ter desobedecido às suas ordens.
Eragon observou o anão por um tempo.
— Você sente saudades dele.
Orik ficou parado um momento com o queixo enfiado em seu peito encorpado. Erguendo o machado, golpeou o granito com a extremidade da haste, produzindo um estalo agudo que ecoou entre as árvores.
— Já faz quase dois séculos que a última Dûrgrimstvren, a última guerra de clãs, afligiu nossa nação, Eragon. Mas, pelas barbas negras de Morgothal, nós estamos a ponto de começar outra agora.
— Agora? No pior momento possível? — exclamou Eragon, chocado. — A questão é assim tão ruim?
Orik franziu as sobrancelhas.
— É pior. As tensões entre os clãs estão mais acentuadas do que jamais estiveram em tempos recentes. A morte de Hrothgar e a invasão do Império por Nasuada serviram para inflamar as paixões, agravar antigas rivalidades e dar força àqueles que acreditam ser loucura nós nos aliarmos com os Varden.
— Como podem acreditar nisso com Galbatorix tendo atacado Tronjheim com os Urgals?
— Porque — explicou Orik — estão convencidos de que é impossível derrotar Galbatorix, e seu argumento tem muita acolhida em nosso povo. Eragon, você pode me dizer, com toda honestidade que, caso Galbatorix enfrentasse, neste exato momento, você e Saphira, vocês dois poderiam superá-lo?
Eragon sentiu um nó na garganta.
— Não.
— Foi o que eu imaginei. Aqueles que se opõem aos Varden estão cegos às ameaças de Galbatorix. Dizem que se nós tivéssemos negado abrigo aos Varden, se nós não tivéssemos aceito você e Saphira na bela Tronjheim, então Galbatorix não teria nenhum motivo para nos atacar. Dizem que se nós apenas permanecermos em nossos domínios, se ficarmos escondidos em nossas cavernas e túneis, não teremos nada a temer da parte de Galbatorix. Não percebem que a fome de poder de Galbatorix é insaciável e que ele não descansará até que toda a Alagaësia esteja a seus pés. — Orik balançou a cabeça, e os músculos de seu antebraço se retesaram e incharam quando apertou a lâmina do machado entre os dedos grossos. — Eu não permitirei que nossa raça se acovarde em túneis como coelhos assustados até que o lobo do lado de fora cave seu caminho e nos coma. Devemos continuar lutando na esperança de que, de algum modo, vamos encontrar um meio de matar Galbatorix. E eu não permitirei que nossa nação se desintegre em uma guerra de clãs. Nas atuais circunstâncias, outra Dûrgrimstvren destruiria nossa civilização e possivelmente também arruinaria os Varden. — Trincando os dentes, Orik se voltou para Eragon. — Pelo bem de meu povo, pretendo eu mesmo subir ao trono. Dûrgrimstn Gedthrall, Ledwonnû e Nagra já me afiançaram apoio. Entretanto, há muitos que se interpõem entre a coroa e mim; não será fácil angariar votos suficientes para me tornar rei. Preciso saber se você me apoiará nisso, Eragon.
Cruzando os braços, Eragon andou de uma árvore a outra e depois retornou.
— Se eu o fizer, é possível que meu apoio jogue os outros clãs contra você. Você não apenas estará pedindo a seu povo que se alie aos Varden como também estará pedindo que aceitem um Cavaleiro de Dragão como um dos seus, o que jamais fizeram antes. E eu duvido que queiram fazer agora.
— É verdade, pode ser que alguns se virem contra mim — disse Orik —, mas também pode me garantir votos de outros. Deixe-me ser o árbitro disso. Tudo o que desejo saber é se você me apoiará. Eragon... Por que está hesitante?
Eragon mirou a raiz retorcida que brotava do granito a seus pés, evitando os olhos de Orik.
— Você está preocupado com o bem de seu povo, e com razão. Mas minhas preocupações são mais amplas; compreendem o bem dos Varden, dos elfos e de todos os outros povos que se opõem a Galbatorix. Se... se não for provável que você assuma o trono, e exista outro chefe de clã com maiores possibilidades e que não seja antipático aos Varden...
— Ninguém seria um grimstnzborith mais simpático do que eu!
— Não estou questionando sua amizade — protestou Eragon. — Mas se o que eu disse acontecesse e meu apoio pudesse garantir que tal chefe de clã subisse ao trono, pelo bem de seu povo e pelo bem do restante da Alagaësia, não seria justo que eu apoiasse o anão que tem as melhores chances de sucesso?
Com uma voz mortalmente tranquila, Orik disse:
— Você fez um juramento ao sangue no Knurlnien, Eragon. Em todas as leis de nosso reino, você é um membro do Dûrgrimst Ingeitum, independentemente da desaprovação de outros anões. O que Hrothgar fez ao adotá-lo não tem precedentes em toda a nossa história e não pode ser desfeito a menos que, como grimstborith, eu o expulse de nosso clã. Eragon, se você se voltar contra mim, vai me desonrar perante toda a nossa raça, e ninguém mais vai confiar em minha liderança. Além do mais, você provará a seus inimigos que não podemos confiar em um Cavaleiro de Dragão. Membros de clãs não traem uns aos outros para outros clãs, Eragon. Isso não acontece, a não ser que deseje acordar no meio da noite com uma adaga enterrada em seu coração.
— Você está me ameaçando? — perguntou Eragon, igualmente tranquilo.
Orik praguejou e bateu novamente seu machado no granito.
— Não! Eu jamais levantaria a mão contra você, Eragon! Você é meu irmão postiço, você é o único Cavaleiro livre da influência de Galbatorix e raios me partam se eu não passei a gostar de você durante nossas viagens. Mas mesmo que eu jamais faça algum mal a você, isso não significa que o resto do Ingeitum agiria de modo tão condescendente. Digo isso não como uma ameaça, mas como uma possibilidade real. Você tem de entender isso, Eragon. Se o clã ficar sabendo que você deu seu apoio a outro clã, talvez eu não consiga contê-los. Mesmo que você seja nosso convidado e as regras da hospitalidade o protejam, se você falar contra o Ingeitum, o clã o verá com o um traidor, e não é nosso costume permitir que traidores permaneçam em nosso meio. Você me compreende, Eragon?
— O que você espera de mim? — gritou Eragon. Ele balançou os braços freneticamente na frente de Orik. — Eu também fiz um juramento a Nasuada, e essas foram as ordens que ela me deu.
— E você também fez uma promessa ao Dûrgrimst Ingeitum! — rosnou Orik.
Eragon parou e mirou o anão.
— Você me obrigaria a arruinar toda a Alagaësia só para poder manter sua posição no clã?
— Não me insulte!
— Então não me peça o impossível! Eu vou apoiá-lo se for provável que você suba ao trono, e se não for, então não apoiarei. Você se preocupa com o Dûrgrimst Ingeitum e com toda a sua raça, enquanto é meu dever me preocupar com eles e também com toda a Alagaësia. — Eragon desabou sobre o tronco frio da árvore. — E eu não posso ofender você ou o seu, quero dizer, nosso clã ou todo o reino dos anões.
— Há uma alternativa, Eragon — Orik disse num tom mais ameno. — Seria mais difícil para você, mas resolveria seu dilema.
— Ah, é? Que solução espetacular seria essa?
Deslizando seu machado para o cinto, Orik caminhou em direção a Eragon, agarrou-o pelo antebraço e ergueu para ele os olhos emoldurados por espessas sobrancelhas.
— Confie em mim, Matador de Espectros. Eu farei o que deve ser feito. Seja tão leal comigo como você seria se fosse de fato um nativo do Dûrgrimst Ingeitum. Os que estão sob minha tutela jamais cogitariam falar contra seu próprio grimstborith em favor de outro clã. Se um grimstborith atira mal a pedra, é responsabilidade dele apenas, mas isso não significa que eu seja indiferente às suas preocupações. — Ele baixou o olhar por um instante e então continuou: — Se eu não puder ser rei, tenha confiança que eu não serei tão cego com a perspectiva do poder a ponto de não reconhecer o fracasso de minha aposta. Se isto tiver de acontecer, não que eu queira, então eu darei de livre e espontânea vontade meu apoio a um dos outros candidatos, porque desagrada a mim tanto quanto a você ver a eleição de um grimstnzborith hostil aos Varden. E se eu tiver de ajudar a promover outro ao trono, o status e o prestígio que eu colocarei à disposição daquele clã deverá, naturalmente, incluir o seu próprio status e prestígio, já que você é um Ingeitum. Você confia em mim, Eragon? Você me aceitará como seu grimstborith, a exemplo de todos os meus outros súditos?
Eragon resmungou, recostou a cabeça na árvore áspera e olhou para os retorcidos galhos brancos envoltos na névoa.
Confiança. Entre todas as coisas que Orik podia pedir a ele, aquela era a mais difícil de prometer. Eragon gostava de Orik, mas subordinar-se à autoridade do anão com tantas coisas em risco seria abdicar ainda mais de sua liberdade, uma perspectiva que lhe causava ojeriza. E junto com a sua liberdade, ele estaria abdicando de parte de sua responsabilidade com o destino da Alagaësia. Eragon estava se sentindo como se estivesse pendurado na beira de um precipício, e Orik estivesse tentando convencê-lo de que havia uma saliência logo abaixo, mas ele não estava conseguindo se agarrar à pedra por medo de cair e arruinar tudo.
— Eu não seria um servo sem cérebro para você dar ordens. No que diz respeito ao Dûrgrimst Ingeitum, eu acataria suas orientações, mas em todos os outros assuntos você teria de me consultar.
Orik assentiu com a cabeça, o rosto sério.
— Eu não estou preocupado com as missões para as quais Nasuada pode enviá-lo, nem com quem você deve matar em sua luta com o Império. Não, o que me proporciona noites inquietas quando eu deveria estar dormindo profundamente como Arghen em sua caverna é imaginar você tentando influenciar a votação dos clãs. Suas intenções são nobres, eu sei, mas nobres ou não, você não está familiarizado com nossa política, independentemente do quanto Nasuada pode ter lhe ensinado. Essa é minha área, Eragon. Deixe-me conduzi-la da maneira que eu achar apropriada. Foi para isso que Hrothgar me preparou durante toda a minha vida.
Eragon suspirou e, com uma sensação de queda, disse:
— Muito bem. Vou seguir sua orientação no que diz respeito à sucessão, grimstborith Orik.
Um largo sorriso se espalhou pelo rosto de Orik. Ele apertou com mais força ainda o antebraço de Eragon e depois o soltou.
— Ah, obrigado, Eragon. Você não sabe o que isso significa para mim. Você fez bem, você fez muito bem e eu não esquecerei isso, nem que eu viva duzentos anos e minha barba fique tão longa a ponto de se arrastar no chão.
Sem poder se conter, Eragon riu.
— Bem, eu espero que ela não cresça tanto. Você tropeçaria nela o tempo todo!
— Talvez — disse Orik, rindo. — Além do mais, eu imagino que Hvedra a cortaria assim que atingisse meus joelhos. Ela tem opiniões bem definitivas a respeito do comprimento das barbas.
Orik seguiu na frente quando os dois partiram da floresta de árvores de pedra, caminhando em meio à névoa pálida que se espiralava por entre os troncos calcificados. Juntaram-se novamente aos doze guerreiros de Orik e então começaram a descer o monte Thardûr. Aos pés do vale, continuaram em linha reta até o outro lado. Lá, os anões levaram Eragon a um túnel escondido com tanto esmero na face da pedra que ele jamais teria encontrado a entrada por conta própria.
Eragon lamentou trocar a pálida luz do sol e o ar fresco da montanha pela escuridão do túnel. A passagem tinha dois metros e meio de largura por um metro e oitenta centímetros de altura – baixo demais para Eragon – e como todos os túneis dos anões que visitara, aquele era reto como uma flecha até onde ele conseguia enxergar. Olhou por cima dos ombros no exato instante em que o anão Farr fechava a placa de granito que servia de porta para o túnel, mergulhando o grupo na escuridão noturna. Um momento depois, catorze esferas brilhantes de diferentes cores apareceram quando os anões removeram suas lanternas sem chama das mochilas. Orik entregou uma a Eragon.
Então, caminharam embaixo das raízes da montanha. Os cascos dos pôneis preencheram o túnel com ruídos metálicos que pareciam berrar com eles como se fossem aparições enraivecidas. Eragon fez uma careta, ciente de que teriam de ouvir o barulho até chegarem a Farthen Dûr, porque era lá que terminava o túnel, a muitos quilômetros dali. Abaixou os ombros, apertou com força as correias de sua mochila e desejou estar com Saphira, voando bem acima do solo.

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