24 de junho de 2017

Capítulo 29 - Alimento de um deus

A

primeira coisa em que Eragon reparou foi na diferença de
cores.
Os blocos no teto tinham uma cor mais intensa. Detalhes
anteriormente ocultos pareciam agora precisos e vívidos, e os que
sobressaíam estavam menos percetíveis. A sumptuosidade do
círculo ornamentado, por baixo dele, era ainda mais evidente.
Demorou algum tempo a perceber o motivo da mudança: a luz
mágica de Arya já não iluminava a câmara. Toda a luz provinha do
brilho suave dos cristais e das velas dos candelabros.
Só então Eragon deu conta que tinha algo entalado na boca, que
o forçava a abrir completamente o maxilar, num ângulo doloroso, e
que estava pendurado pelos pulsos, numa corrente presa ao teto.
Tentou mexer-se e apercebeu-se de que tinha os tornozelos
agrilhoados, presos a um aro metálico no chão.
Ao torcer-se no mesmo sítio, viu Arya a seu lado, presa e
suspensa da mesma forma. Tal como ele, estava amordaçada com
um novelo de tecido e tinha um trapo amarrado à volta da cabeça
para a imobilizar.
Arya já estava consciente e observava-o. Eragon percebeu que
ela ficou aliviada por ter recuperado os sentidos.
“Porque é que ela ainda não fugiu?” perguntou-se a si próprio. E
depois: “O que aconteceu?” Ele sentia-se embotado e lento, como
se estivesse bêbado de cansaço.
Olhou para baixo e viu que fora despojado das armas e da
armadura; estava apenas de perneiras. O cinto de Beloch, o Sábio,
tinha desaparecido tal como o colar que os Anões lhe ofereceram
para impedir que lhe sondassem a mente.
Olhou para cima e viu que Aren, o anel dos Elfos, lhe
desaparecera da mão.
Eragon foi invadido por uma sensação de pânico, mas depois
tranquilizou-se com a evidência de que não estava indefeso, pelo
menos enquanto conseguisse fazer magia. Como tinha um pano na
boca, teria de lançar um feitiço sem o proferir em voz alta, o que
era um pouco mais perigoso do que o método habitual. Na medida
em que, se a mente se dispersasse no processo, ele poderia
escolher acidentalmente as palavras erradas. Não era, contudo, tão
perigoso quanto lançar um feitiço sem utilizar a língua antiga; o que
era de fato perigoso. De qualquer forma, ele precisaria apenas de
uma pequena quantidade de energia para se libertar e estava
confiante que o conseguiria sem grandes problemas.
Fechou os olhos e preparou-se, reunindo os seus recursos. Ao
fazê-lo, ouviu Arya sacudir a sua corrente, emitindo ruídos
abafados.
Ele olhou-a de relance e viu-a abanar a cabeça. Arqueou as
sobrancelhas e questionou-a sem falar: “O que é?” Mas ela
conseguia apenas roncar e abanar a cabeça.
Frustrado, Eragon projetou cautelosamente a mente na direção
de Arya — atento à mais pequena intrusão de outra pessoa — e ficou
alarmado ao sentir apenas uma pressão suave e indistinta em seu
redor, como se tivesse fardos de lã em redor da mente.
O pânico começou a crescer dentro dele, apesar dos esforços
para o controlar.
Não estava drogado, disso Eragon tinha a certeza. Mas também
não sabia o que mais o poderia impedir de tocar na mente de Arya
para além de uma droga. Se se tratava de magia, era diferente de
qualquer tipo que conhecia.
Eragon e Arya cruzaram o olhar por uns instantes. Depois, uma
sensação de movimento fê-lo olhar para cima e ele viu fios de
sangue a escorrerem-lhe pelos antebraços; as grilhetas em torno
dos pulsos tinham-lhe esfolado a pele.
A raiva tomou conta dele. Agarrou na corrente por cima de si e
puxou-a com toda a força. Os elos aguentaram, mas Eragon
recusou-se a desistir. Frenético de raiva, ele puxou-a
repetidamente, sem querer saber do mal que causava a si próprio.
Finalmente parou e ficou suspenso, inerte, sentindo o sangue
quente a escorrer-lhe dos pulsos até à nuca e aos ombros.
Decidido a escapar, Eragon sondou o fluxo de energia dentro do
seu corpo e gritou mentalmente, dirigindo o feitiço às grilhetas:
Kverst malmr du huidrs edtha, mar frëma né thön eka threyja!
Sentiu todos os nervos do corpo a arderem de dor e gritou
contra a mordaça. Incapaz de manter a concentração, Eragon
perdeu o controlo do feitiço e o encantamento cessou.
A dor desapareceu de imediato, mas deixou-o sem ar e com o
coração a martelar-lhe pesadamente o peito, como se tivesse
saltado de um penhasco. A experiência era semelhante aos ataques
que sofrera antes dos dragões lhe curarem a cicatriz nas costas,
durante o Agaetí Blödhren.
Enquanto recuperava lentamente, viu Arya olhar para ele com
uma expressão preocupada. Também ela deveria ter tentado lançar
um feitiço. E depois: “Como é possível que isto tenha acontecido?”
Ambos presos e indefesos, Wyrden morto, a herbolária capturada
ou assassinada e Solembum muito provavelmente caído, ferido,
algures no labirinto subterrâneo. Isto se os guerreiros de negro não
o tivessem já matado. Eragon não conseguia entender. Ele, Arya,
Wyrden e Angela eram dos grupos mais capazes e perigosos de
Alagaësia. No entanto tinham fracassado, e ele e Arya estavam à
mercê dos seus inimigos.
“Se não conseguirmos fugir...” Tentou abstrair-se disso, pois
não suportava pensar no assunto. Desejava, acima de tudo, poder
contactar Saphira, nem que fosse apenas para se assegurar de que
ela estava bem e consolar-se na sua companhia. Embora Arya
estivesse com ele, sentia-se incrivelmente só, e isso enervava-o
mais do que qualquer outra coisa.
Apesar das dores nos pulsos, Eragon voltou a puxar a corrente
convencido de que se continuasse, conseguiria soltá-la do teto.
Tentou torcê-la, pensando que seria mais fácil parti-la dessa forma,
mas as grilhetas em torno dos tornozelos impediam-no de se virar
muito, quer para um lado quer para o outro.
As feridas nos pulsos forçaram-no a parar. Ardiam-lhe como
fogo e ele receava acabar por cortar um músculo se continuasse.
Temia perder demasiado sangue, pois as feridas sangravam
intensamente e Eragon não sabia quanto tempo ambos teriam de
ficar ali pendurados, à espera.
Era impossível saber que horas eram, mas ele calculava que
estivessem presos apenas há algumas horas, dado que não sentia
necessidade de comer, beber, ou aliviar-se. Porém isso iria mudar,
o que apenas aumentaria o seu desconforto.
A dor nos pulsos de Eragon tornava cada minuto
insuportavelmente longo. De vez em quando, olhavam um para o
outro, tentando comunicar, mas os seus esforços revelavam-se
sempre inúteis. Por duas vezes, as suas feridas criaram crosta e ele
arriscou puxar de novo a corrente, mas sem sucesso. De uma
maneira geral, ele e Arya estavam a aguentar-se.
Quando Eragon se começou a interrogar se alguém iria aparecer,
ouviu o som de sinos de ferro algures nos túneis e nos corredores, e
as portas de ambos os lados do altar negro abriram-se em silêncio.
Eragon contraiu os músculos, expectante, e ficou de olhos postos
nas entradas, tal como Arya.
Um minuto aparentemente interminável passou.
Depois os sinos voltaram a repicar num tom dissonante e
desabrido, enchendo a câmara de uma infinidade de ecos furiosos.
Três noviços entraram pela porta: jovens vestidos de dourado,
cada qual com uma armação com sinos suspensos. Atrás deles
vinham vinte e quatro homens e mulheres, nenhum dos quais tinha
todos os membros. Ao contrário dos seus antecessores, os
aleijados usavam túnicas de cabedal escuro, cortadas em função
das suas deficiências. Atrás de todos, seis escravos oleados
transportavam uma padiola sobre a qual vinha sentada uma figura
sem braços, sem pernas, sem dentes e, aparentemente, sem sexo: o
sumo-sacerdote de Helgrind. Sobre a sua cabeça erguia-se uma
crista de noventa centímetros, que lhe dava uma aparência ainda
mais disforme.
Os sacerdotes e os noviços colocaram-se junto ao círculo
ornamentado, no chão, enquanto os escravos poisavam
delicadamente a padiola sobre o altar, no topo da sala. Depois, os
três jovens perfeitos e atraentes tocaram de novo os sinos, gerando
um estrépito dissonante, e os sacerdotes vestidos de cabedal
entoaram uma frase curta, tão rapidamente que Eragon não
conseguiu perceber bem o que eles disseram, embora lhe tivesse
parecido uma frase ritualista. Por entre o amontoado de palavras,
Eragon distinguiu os nomes de três picos de Helgrind: Gorm, Ilda e
Fell Angvara.
O sumo-sacerdote olhou para ele e para Arya; tinha uns olhos
semelhantes a lascas de obsidiana.
— Bem-vindos ao palácio de Tosk — disse ele e a sua boca
mirrada distorceu as palavras. — É a segunda vez que invades os
nossos aposentos privados, Cavaleiro do Dragão. Não terás
oportunidade de o fazer de novo... Galbatorix ter-nos-ia mandado
poupar as vossas vidas e mandar-vos para Urû’baen. Acha que
consegue obrigar-vos a servi-lo. Sonha em ressuscitar os
Cavaleiros e recuperar a raça dos dragões, mas eu considero os
sonhos dele uma loucura. Vocês são demasiado perigosos e nós
não queremos que os dragões reapareçam. As pessoas, regra
geral, acreditam que adoramos Helgrind, mas isso é uma mentira
que contamos para esconder a verdadeira natureza da nossa
religião. Não é Helgrind que veneramos, mas os Anciãos que
fizeram dele o seu covil e a quem sacrificámos a nossa carne e o
nosso sangue. Os Ra’zac são os nossos deuses, Cavaleiro do
Dragão — os Ra’zac e os Lethrblaka.
O pavor percorreu Eragon como uma doença.
O sumo-sacerdote cuspiu nele e a saliva escorreu-lhe pelo lábio
inferior, flácido.
— Não há tortura que seja suficientemente penosa para o teu
crime, Cavaleiro. Mataste os nossos deuses, você e esse teu maldito
dragão. Por isso tens de morrer.
Eragon debateu-se nas grilhetas e tentou gritar ainda que com a
mordaça. Se pudesse falar poderia ganhar algum tempo, talvez
dizendo-lhes quais tinham sido as últimas palavras dos Ra’zac, ou
ameaçando-os com a vingança de Saphira. Mas os seus captores
não pareciam inclinados a tirar-lhe a mordaça.
O sumo-sacerdote sorriu com um esgar hediondo, revelando as
gengivas cinzentas.
— Jamais escaparás, Cavaleiro. Estes cristais foram encantados
para aprisionar qualquer pessoa que tente profanar o nosso templo
ou roubar os nossos tesouros, mesmo alguém como tu. E também
não há ninguém que te possa salvar. Dois dos teus companheiros
estão mortos — sim, mesmo aquela bruxa intrometida — e Murtagh
não sabe da vossa presença aqui. Hoje é o dia da tua morte,
Eragon Matador de Espectros. — Depois, o sumo-sacerdote
inclinou a cabeça para trás e soltou um assobio medonho e
gorgolejante.
Quatro escravos de tronco nu saíram pela entrada escura, à
esquerda do altar. Traziam às costas uma plataforma com duas
grandes protuberâncias baixas em forma de xícara, ao centro.
Dentro das protuberâncias havia um par de objetos ovais, cada um
com cerca de quarenta e cinco centímetros de comprimento e
quinze centímetros de largura. Os objetos eram negros azulados e
esburacados como o arenito.
“O tempo pareceu abrandar para Eragon. Não é possível que
sejam...”, pensou. Mas o ovo de Saphira era liso e raiado como
mármore. Fossem o que fossem aqueles objetos, não eram ovos de
dragão. As alternativas assustaram-no ainda mais.
— Uma vez que mataste os Anciãos — disse o sumo-sacerdote —,
parece-me perfeitamente adequado que sirvas de alimento para o
seu renascimento. Não mereces tamanha honra, mas irá agradar
aos Anciãos e nós lutamos acima de tudo para satisfazer os seus
desejos. Nós somos os seus servos leais e eles são os nossos amos
cruéis e implacáveis: os deuses das três caras — os caçadores de
homens, os devoradores de carne e os bebedores de sangue.
oferecemos-lhes os vossos corpos, na esperança que os mistérios
desta vida nos sejam revelados e na esperança de sermos
absolvidos dos nossos pecados. “Assim escreveu Tosk, assim será
feito.”
Os padres de cabedal repetiram em uníssono:
— “Assim escreveu Tosk, assim será feito.”
O sumo-sacerdote acenou com a cabeça.
— Os Anciãos sempre fizeram os ninhos em Helgrind. Mas no
tempo do avô do meu pai, Galbatorix roubou os seus ovos e matou
as suas crias, forçando-os a jurar-lhe lealdade sob pena de
erradicar a sua linhagem. Foi Galbatorix que escavou as cavernas e
os túneis que eles usam desde então, encarregando-nos — seus
devotados acólitos — de vigiar, guardar e cuidar dos ovos, até estes
serem necessários. Foi isso que fizemos e ninguém nos poderá
criticar pelo serviço prestado.
«Mas rezamos para que Galbatorix seja derrotado um dia, pois
ninguém deveria submeter os Anciãos à sua vontade. É uma
abominação. — A criatura deformada lambeu os lábios e Eragon
concluiu, enojado, que lhe faltava parte da língua: fora arrancada
com uma faca. — Também desejamos que você desapareças,
Cavaleiro. Os dragões eram os maiores inimigos dos Anciãos. Sem
eles e sem Galbatorix, não haverá ninguém que os impeça de se
banquetearem onde e como lhes aprouver.
Enquanto o sumo-sacerdote falava, os quatro escravos que
transportavam a plataforma avançaram e baixaram-na
cuidadosamente dos ombros sobre o círculo ornamentado,
poisando-a a alguns passos de Eragon e Arya. Logo que
terminaram, baixaram a cabeça e retiraram-se pela porta por onde
tinham entrado.
— Haverá coisa melhor que alimentar um deus com o tutano dos
seus ossos? — perguntou o sumo-sacerdote. — Rejubilem ambos
pois hoje receberão a bênção dos Anciãos, o vosso sacrifício
limpará os vossos pecados e entrarão na vida do Além tão puros
quanto uma criança recém-nascida.
Depois o sumo-sacerdote e os seus seguidores ergueram o rosto
em direção ao teto e começaram a entoar uma bizarra melodia,
com um estranho sotaque que Eragon teve dificuldade em entender,
interrogando-se se seria o dialeto de Tosk. Por vezes julgava ouvir
palavras na língua antiga — distorcidas e incorretamente empregues,
mas na língua antiga.
Quando a grotesca congregação terminou, dizendo de novo
“Assim escreveu Tosk, assim será feito”, os três noviços agitaram
os sinos num êxtase de fervor religioso. Parecia um alarido
suficiente para fazer cair o teto.
Os noviços abandonaram a sala ainda a agitar os sinos, os vinte
e quatro sacerdotes menores saíram a seguir e, finalmente, os seis
escravos oleados transportaram o seu amo desmembrado na
padiola, na cauda da procissão.
A porta fechou-se atrás deles com um estrondo sinistro e Eragon
ouviu uma pesada tranca cair do outro lado.
Virou-se para olhar para Arya. A expressão nos seus olhos era
de desespero e ele percebeu que também ela não fazia a mínima
ideia como fugir.
Voltou a olhar para cima e puxou a corrente que o prendia,
fazendo tanta força quanto podia. As feridas nos seus pulsos
voltaram a abrir-se, salpicando-o com gotas de sangue.
Em frente deles, o ovo da esquerda começou ligeiramente a
baloiçar para trás e para diante, e ouviu-se uma série de batidas
leves, como pancadas de um martelo minúsculo.
Uma profunda sensação de terror inundou Eragon. De todas as
maneiras como imaginara morrer, ser comido vivo por um Ra’zac
era de longe a pior. Voltou a puxar a corrente com uma renovada
determinação, trincando a mordaça para o ajudar a aguentar as
dores nos braços. A dor que sentiu fez-lhe turvar a vista.
Junto dele, Arya remexia-se e torcia-se também. Ambos lutavam
para se libertarem, num silêncio mortal.
As batidas na casca negra azulada continuavam.
“Não vale a pena”, concluiu Eragon. A corrente não cedia. Logo
que ele aceitou esse fato, tornou-se óbvio que seria impossível
evitar ficar mais ferido do que já estava. A única questão era se as
feridas lhe seriam infligidas à força ou por opção. “Pelo menos
tenho de salvar Arya.”
Estudou a grilhetas de ferro que tinha em torno dos pulsos. “Se
conseguir partir os polegares, talvez consiga libertar as mãos.” Pelo
menos depois poderia lutar. “Talvez possa agarrar num pedaço da
casca do ovo do Ra’zac e usá-lo como faca.” Se tivesse algo para
cortar poderia libertar também as pernas, embora a ideia fosse tão
apavorante que tenha decidido ignorá-la naquele momento. “Tudo
o que tenho de fazer é gatinhar para fora do círculo de pedras.”
Nessa altura poderia usar a magia e acabar com a dor e com a
hemorragia, o que ele achava que levaria apenas alguns minutos,
embora soubesse que seriam os minutos mais longos da sua vida.
Inspirou para se preparar. Primeiro a mão esquerda.
Mas antes que começasse, Arya gritou.
Eragon virou-se para ela, exclamando algo ao ver os dedos da
sua mão direita mutilados. A pele estava arrepanhada como uma
luva, em direção às unhas, e o branco do osso via-se através do
músculo vermelho. Arya vergou-se e pareceu perder a consciência
por momentos; depois recuperou e voltou a puxar o braço. Eragon
gritou-lhe quando a mão deslizou pela grilheta de metal, rasgandolhe
a pele e a carne. Ela deixou cair o braço para o lado,
escondendo a mão dele, embora visse o sangue a salpicar o chão,
junto dos pés dela.
As lágrimas toldaram-lhe a visão e ele gritou o nome dela contra
a mordaça, mas ela não pareceu ouvi-lo.
Ao preparar-se para repetir a operação, a porta do lado direito
do altar abriu-se e um dos noviços de túnica dourada esgueirou-se
para dentro da câmara. Ao vê-lo, Arya hesitou, embora Eragon
soubesse que ela libertaria a outra mão da grilheta ao menor sinal
de perigo.
O jovem olhou-a de soslaio, encaminhando-se depois
cautelosamente para o centro do círculo ornamentado, e olhou
apreensivo para o ovo que baloiçava para trás e para diante. O
jovem era baixo, tinha uns olhos grandes e umas feições delicadas.
Parecia-lhe óbvio que fora escolhido para aquela posição, devido à
sua aparência.
— Toma! — sussurrou o jovem. — Trouxe isto. — Tirou uma lima,
um cinzel e um malho de madeira de dentro da túnica. — Se eu vos
ajudar têm de me levar convosco. Não suporto estar aqui. Odeio
isto, é horrível. Prometem que me levam?
Antes dele acabar de falar já Eragon acenava com a cabeça.
Contudo, quando o jovem começou a andar na sua direção,
Eragon rosnou e fez sinal com a cabeça para Arya. Só passados
alguns segundos é que o noviço entendeu.
— Ah sim — murmurou o jovem, aproximando-se de Arya.
Eragon rilhou os dentes através da mordaça, furioso com a lentidão
do rapaz.
O arranhar áspero da lima depressa abafou as batidas no interior
do ovo oscilante.
Eragon observava o melhor possível, enquanto o seu presumível
salvador serrava uma secção da corrente, por cima da mão
esquerda de Arya. “Mantém a lima no mesmo elo, idiota!”, pensou
Eragon, furioso. O noviço parecia nunca ter usado uma lima e
Eragon duvidava que ele tivesse força ou resistência suficiente para
cortar nem que fosse de metal um pequeno segmento.
Arya estava suspensa, inerte, e tinha os longos cabelos a
cobrirem-lhe o rosto, enquanto o noviço trabalhava. Tremia em
intervalos regulares e o sangue continuava a pingar incessantemente
da mão mutilada.
Para consternação de Eragon, a lima parecia não deixar
qualquer marca na corrente. Quaisquer que fossem os feitiços que
protegiam o metal, eles eram demasiado poderosos para serem
ultrapassados por algo tão simples como uma lima.
O noviço bufou com um ar petulante, por não estar a conseguir
quaisquer progressos. Fez uma pausa, limpou a testa, e voltou a
atacar a corrente de sobrancelha franzido, sacudindo os cotovelos,
ofegante, com as mangas da túnica a ondular no ar.
“Não vês que não vai resultar?”, pensou Eragon. “Experimenta o
cinzel nas grilhetas, à volta dos tornozelos dela.”
Mas o jovem continuou a fazer o que estava a fazer.
Um estalido agudo ecoou pela câmara e Eragon viu uma estreita
fissura surgir no topo do ovo escuro e esburacado. A extensão da
fissura aumentou e uma teia de fraturas finas como um fio de cabelo
espalhou-se, de dentro para fora.
A seguir, o segundo ovo começou também a baloiçar e ouviramse
mais algumas batidas, que se reuniram às primeiras, gerando uma
cadência de enlouquecer.
O noviço ficou pálido e deixou cair a lima, recuando do local
onde Arya estava, a abanar a cabeça.
— Lamento... lamento. É tarde demais. — O seu rosto enrugouse
e as lágrimas começaram escorrer-lhe.
Eragon ficou ainda mais alarmado ao ver o jovem tirar uma
adaga do bolso.
— Não posso fazer mais nada — disse ele, quase como se
estivesse a falar consigo mesmo. — Não posso mesmo... — Fungou
e aproximou-se de Eragon. — É para o teu bem.
Quando o jovem avançou, Eragon puxou as correntes na
tentativa de libertar uma das mãos da grilheta, mas estas estavam
demasiado apertadas e tudo o que conseguiu foi esfolar mais a pele
dos pulsos.
— Lamento — sussurrou o jovem ao parar diante de Eragon e,
depois, puxou a adaga atrás.
Não! gritou Eragon mentalmente.
Um pedaço cintilante de ametista voou do túnel que os conduzira
à câmara, atingindo o noviço na nuca, e ele caiu para cima de
Eragon. Eragon encolheu-se ao sentir o gume da adaga deslizar-lhe
ao longo das costelas. A seguir o jovem tombou para o chão onde
ficou inconsciente.
Uma pequena figura a coxear emergiu das profundezas do túnel.
Eragon ficou a olhar e, quando a figura se aproximou da luz, viu que
era Solembum.
Eragon foi varrido por uma sensação de alívio.
O menino-gato estava na sua forma humana e usava apenas uma
tanga que parecia ter sido rasgada das roupas dos atacantes. O
cabelo preto, espetado, eriçou-se quase por completo e um esgar
felino desfigurou-lhe os lábios. Tinha vários cortes nos antebraços,
a orelha esquerda pendurada e faltava-lhe uma tira de pele no
couro cabeludo. Trazia uma faca ensanguentada.
E, a alguns passos do menino-gato vinha Angela, a herbolária.

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