3 de junho de 2017

Capítulo 28 - Por meu amor

Roran olhava fixamente para a pedra chata e redonda que segurava nas palmas das mãos. Suas sobrancelhas estavam unidas numa careta de frustração.
— Stenr reisa! — resmungou, entre dentes.
A pedra se recusou a se mexer.
— O que você está aprontando, Martelo Forte? — perguntou Carn, deixando-se cair na tora em que Roran estava sentado.
Enfiando a pedra no cinto, aceitou o pão com queijo que Carn lhe trouxera.
— Nada — respondeu ele. — Só sonhando acordado.
— É o que a maioria faz antes de uma missão — disse Carn, concordando.
Enquanto comia, Roran permitiu que seu olhar vagasse pelos homens entre os quais se encontrava. Contando com ele mesmo, seu grupo era composto de trinta homens. Todos guerreiros calejados. Todos portavam um arco, e a maioria trazia também uma espada, embora alguns tivessem escolhido lutar com uma lança, com uma maça ou com um martelo. Dos trinta, Roran supunha que sete ou oito deviam estar com uma idade próxima da sua, enquanto os demais eram alguns anos mais velhos. O mais velho de todos era seu comandante, Martland Barba Ruiva, o deposto conde de Thun, que já havia visto uma quantidade suficiente de invernos na vida para que sua famosa barba tivesse se tornado salpicada de pelos prateados.
Quando Roran se juntou à tropa de Martland pela primeira vez, apresentou-se a ele na sua tenda. O conde era um homem baixo, de membros fortes de toda uma vida passada sobre um cavalo e brandindo uma espada. A barba que lhe valia a alcunha era densa, bem tratada e chegava ao meio do seu esterno.
— Lady Nasuada me contou muita coisa sobre você, meu rapaz — disse o conde, depois de avaliar Roran da cabeça aos pés. — E muito mais eu ouvi das histórias que meus homens contam, rumores, mexericos, boatos e semelhantes. Você sabe como é. Sem dúvida, você realizou feitos notáveis. Desafiar os Ra’zac em seu próprio covil, por exemplo, não deve ter sido brincadeira. É claro que você estava com seu primo para ajudar, não é?... Você pode estar acostumado a fazer valer sua vontade com o pessoal do seu vilarejo, mas agora você faz parte dos Varden, rapaz. Mais especificamente, você é um dos meus guerreiros. Nós não somos sua família. Não somos seus vizinhos. Nem mesmo somos necessariamente seus amigos. Nosso dever é cumprir as ordens de Nasuada, e cumpri-las é o que faremos, pouco importando o que qualquer um de nós achar dessas ordens. Enquanto você servir sob meu comando, fará o que eu mandar, quando eu mandar e como eu mandar, ou eu juro pelos ossos da minha mãe abençoada, que ela descanse em paz, que esfolarei suas costas com o açoite, sem me importar com quem seja seu parente. Você está me entendendo?
— Sim, senhor!
— Muito bem. Se você se comportar e demonstrar que tem bom senso e se conseguir se manter vivo, é possível que um homem de determinação tenha uma ascensão rápida entre os Varden. Se isso vai ou não vai acontecer depende, porém, inteiramente de eu considerá-lo apto para comandar seus próprios homens. Mas não queira acreditar, nem por um instante, nem pela droga de um único instante, que você possa me adular para eu ter uma boa opinião a seu respeito. Não me importa se você gosta de mim ou se me detesta. Meu único interesse é saber se você tem como fazer o que precisa ser feito.
— Entendo perfeitamente, senhor!
— É, sim, pode ser que sim, Martelo Forte. Logo saberemos. Está dispensado e apresente-se a Ulhart, meu braço direito.
Roran engoliu o último pedaço do pão e o ajudou a descer com um gole de vinho do odre que levava consigo. Gostaria de ter feito uma refeição quente naquela noite, mas estavam embrenhados no território do Império, e soldados poderiam ter avistado uma fogueira.
Com um suspiro, esticou as pernas. Os joelhos estavam doloridos de cavalgar Fogo na Neve do anoitecer até a aurora nos três últimos dias. No fundo da sua mente, Roran sentiu uma pressão leve, porém constante, uma inquietação mental que, noite e dia, apontava na mesma direção: a de Katrina. A fonte da sensação era o anel que Eragon lhe dera; e Roran se sentia tranquilizado por saber que, graças àquela joia, ele e Katrina poderiam encontrar um ao outro em qualquer ponto da Alagaësia, mesmo que os dois tivessem ficado cegos e surdos.
Ao seu lado, ouviu Carn murmurar frases na língua antiga, e sorriu. Carn era seu feiticeiro, enviado para garantir que um mágico inimigo não matasse a todos eles com apenas um gesto. De alguns dos outros homens, Roran tinha ouvido dizer que Carn não era um mágico assim tão poderoso – ele lutava para lançar cada encantamento – mas que compensava sua fraqueza com a invenção de encantamentos de uma criatividade extraordinária e com sua enorme capacidade de penetrar na mente dos adversários.
Carn era magro de rosto e de corpo, com olhos caídos e um ar nervoso, impulsivo. Roran tinha gostado dele de imediato.
À frente de Roran, dois homens, Halmar e Ferth, estavam sentados diante da sua tenda, e Halmar contava uma história a Ferth.
— ... por isso, quando os soldados vieram apanhá-lo, ele chamou todos os seus homens para o interior da propriedade e ateou fogo às poças de óleo que seus servos tinham derramado antes, encurralando os soldados e dando a todos os que chegaram depois a impressão de que tinham morrido queimados. Dá para acreditar? Quinhentos soldados ele matou de uma tacada, sem chegar a sacar uma espada!
— E como ele escapou? — perguntou Ferth.
— O avô de Barba Ruiva era um safado muito esperto, isso ele era. Havia mandado cavar um túnel que ia desde o solar da família até o rio mais próximo. Por esse túnel, Barba Ruiva conseguiu tirar dali toda a família e todos os servos com vida. Então, ele os levou para Surda, onde o rei Larkin lhes deu abrigo. Passou-se uma boa quantidade de anos antes que Galbatorix descobrisse que ainda estavam vivos. Temos sorte de estar sob o comando de Barba Ruiva, sem dúvida. Ele só perdeu duas batalhas, e essas, por causa de magia.
Halmar se calou quando Ulhart chegou ao meio das fileiras de dezesseis tendas. O veterano sério parou, com as pernas afastadas, imóvel como um carvalho de raízes profundas, e observou as tendas para verificar que todos estavam presentes.
— O sol se pôs. Vão dormir — disse ele. — Partiremos duas horas antes da primeira luz do dia. O comboio deve estar uns onze quilômetros a noroeste de nós. Cubram a distância a uma boa velocidade. Atacamos exatamente quando eles começarem a se movimentar. Matem todos, queimem tudo e depois voltamos. Vocês sabem como funciona. Martelo Forte, você vem comigo. Um passo em falso, e eu o estripo com um anzol rombudo. — Os homens reprimiram risinhos. — Agora, vão dormir.


O vento açoitava o rosto de Roran. O retumbar do sangue pulsante enchia seus ouvidos, abafando todos os outros sons. Fogo na Neve se sacudia entre suas pernas, a galope. A visão de Roran tinha se estreitado. Ele nada via além dos dois soldados montados em éguas castanhas junto do antepenúltimo carroção do comboio de suprimentos. Levantando o martelo bem alto, Roran uivou com toda a força. Os dois soldados se sobressaltaram e se atrapalharam com suas armas e escudos. Um deles deixou cair a lança e se curvou para apanhá-la. Puxando as rédeas de Fogo na Neve para reduzir sua velocidade, Roran ficou em pé nos estribos e, parando diante do primeiro soldado, atingiu-o no ombro, partindo sua cota de malha. O homem deu um berro, com o braço ficando inerte. Roran acabou com ele com um golpe de viés. O outro soldado tinha recuperado a lança e investiu contra Roran, mirando seu pescoço. Roran se abaixou por trás do escudo redondo, com a lança o fustigando cada vez que se enterrava na madeira. Com as pernas, apertou os flancos de Fogo na Neve, e o garanhão empinou, relineliando e patejando o ar com os cascos ferrados. Um casco pegou o soldado no peito, rasgando-lhe a túnica vermelha. Quando Fogo na Neve voltou a pisar com as quatro patas no chão, Roran girou o martelo de lado e esmagou o pescoço do soldado.
Deixando-o se debater no chão, Roran esporeou Fogo na Neve na direção do próximo carroção do comboio, onde Ulhart estava lutando com três soldados sozinho. Quatro bois puxavam cada carroção; e, quando Fogo na Neve passou pelo que Roran tinha acabado de capturar, o boi de guia sacudiu a cabeça, e a ponta do chifre esquerdo o atingiu na parte inferior da perna direita. Roran sufocou um grito. Tinha a sensação de que um ferro em brasa havia sido encostado em sua canela. Olhou de relance e viu uma tira da sua bota pendurada, solta, junto com uma camada de pele e músculo. Com mais um grito de guerra, Roran cavalgou até o mais próximo dos três soldados com quem Ulhart estava lutando e o derrubou com um único golpe do martelo. O seguinte conseguiu se desviar do ataque subsequente de Roran, fez o cavalo girar e fugiu a galope.
— Não o deixe escapar! — gritou Ulhart, mas Roran já tinha começado a perseguição.
O soldado em fuga fincou as esporas no ventre do cavalo até o animal sangrar; mas, apesar de sua crueldade desesperada, a montaria não teria como correr mais do que Fogo na Neve. Roran se abaixou bem sobre o pescoço de seu cavalo, à medida que o garanhão se superava, voando sobre o chão a uma velocidade incrível. Percebendo que não podia ter esperança de fugir, o soldado ficou, deu meia-volta e atacou Roran com um sabre. Roran ergueu o martelo e mal teve tempo de desviar a lâmina afiadíssima. Ele retaliou imediatamente com um ataque giratório por cima da cabeça, mas o soldado se desviou e, então, tentou acertar os braços e pernas de Roran mais duas vezes com o sabre. Roran praguejou para si mesmo. Estava óbvio que o soldado tinha mais experiência com a esgrima do que ele. Se não conseguisse vencer o confronto nos segundos seguintes, estaria morto. O soldado deve ter percebido essa sua vantagem, pois acirrou o ataque, forçando Fogo na Neve a se empinar, recuando.
Em três ocasiões, Roran teve certeza de que o soldado estava prestes a feri-lo, mas o sabre do homem se retorcia no último instante e não atingia Roran, desviado por alguma força invisível. Ele, então, se sentiu grato pelas proteções de Eragon.
Não tendo outro recurso, Roran lançou mão do inesperado: esticou a cabeça e o pescoço e gritou “Bah!”, como faria se estivesse querendo dar um susto em alguém num corredor escuro. O soldado se retraiu. E, no instante em que fez isso, Roran se inclinou para ele e desceu o martelo com força total sobre o joelho esquerdo do homem, cujo rosto ficou branco de dor. Antes que ele se recuperasse, Roran o atingiu perto dos rins. E então, quando o soldado deu um berro e arqueou a espinha, Roran deu um fim ao seu sofrimento com um golpe rápido na cabeça.
Roran ficou parado recuperando o fôlego por um momento, até dar um toque nas rédeas de Fogo na Neve e o esporeou para que voltasse a meio galope até o comboio. Disparando os olhos de um lugar para outro, atraídos por qualquer movimento mínimo, Roran avaliou a batalha. Em sua maioria, os soldados estavam mortos, da mesma forma que os homens que vinham conduzindo os carroções. Junto ao primeiro carroção, Carn estava em pé encarando um homem alto de vestes longas, os dois rígidos a não ser por eventuais contrações, únicos sinais do duelo invisível. E enquanto Roran olhava, o adversário de Carn se inclinou para a frente e caiu deitado imóvel no chão.
Lá pelo meio do comboio, porém, cinco soldados cheios de iniciativa tinham soltado os bois de três carroções e os arrumado num triângulo, de dentro do qual estavam conseguindo rechaçar Martland Barba Ruiva e mais dez Varden. Quatro soldados mantinham lanças em riste entre os carroções, enquanto o quinto disparava flechas contra os Varden, forçando-os a recuar em busca de abrigo. O arqueiro já ferira diversos Varden, alguns deles haviam caído do cavalo, enquanto outros haviam se mantido na sela tempo suficiente para procurar proteção.
Roran amarrou a cara. Eles não podiam se dar ao luxo de ficar ali expostos, numa das principais estradas do Império enquanto iam matando ura a um os soldados entrincheirados. O tempo corria contra eles.
Todos os soldados estavam voltados para o oeste, direção da qual os Varden tinham atacado. Com exceção de Roran, nenhum dos Varden tinha passado para o outro lado do comboio. Portanto, os soldados não se davam conta de que ele vinha investindo contra eles a partir do leste. Ocorreu a Roran um plano. Em qualquer outra circunstância, teria se desfeito da ideia por ser ridícula e impraticável, mas do jeito que as coisas andavam, aceitou o plano como a única solução que poderia resolver o impasse sem demora. Ele nem se deu ao trabalho de avaliar o perigo que corria. Havia abandonado todo o medo da morte e de ferimentos no instante em que o ataque começou.
Roran instigou Fogo na Neve a um pleno galope. Pôs a mão esquerda no arção da sela, quase tirou as botas dos estribos e contraiu os músculos em preparação. Quando o garanhão estava a uns quinze metros do triângulo de carroções, ele fez força para baixo com a mão e, erguendo-se, pôs os pés na sela, ficando agachado em Fogo na Neve. Foi necessário usar toda a sua perícia e concentração para manter seu equilíbrio. Como Roran tinha calculado, o cavalo reduziu a velocidade e começou a guinar para o lado quando o grupo de carroções veio crescendo em sua direção. Roran soltou as rédeas exatamente quando Fogo na Neve virou, e saltou de seu dorso, pulando alto por cima do carroção que formava a face leste do triângulo.
Seu estômago sofreu um tranco. Viu de relance o rosto do arqueiro voltado para o alto, os olhos redondos com a borda branca. Caiu então em cima do homem, e os dois tombaram no chão com estrondo. Roran caiu por cima, o corpo do soldado protegeu-o do impacto. Forçando-se a ficar de joelhos, ergueu o escudo e fincou sua borda na falha entre o elmo e a túnica do soldado, quebrando-lhe o pescoço. E então Roran se forçou a ficar em pé.
Os outros quatro soldados tiveram uma reação lenta. O que estava à esquerda de Roran cometeu o erro de tentar sacar a lança dentro do triângulo; mas, com a pressa, fincou-a entre a traseira de um carroção e a roda dianteira de outro, e a haste se estilhaçou nas suas mãos. Roran investiu contra ele. O soldado tentou recuar, mas os carroções bloquearam sua fuga. Brandindo o martelo num golpe de baixo para cima, Roran atingiu o soldado abaixo do queixo.
O segundo foi mais esperto. Largou a lança e tentou sacar a espada do cinto, mas só conseguiu tirar metade da lâmina antes de Roran lhe esmagar o peito.
A essa altura, o terceiro e o quarto soldados estavam prontos para Roran. Convergiram contra ele, com as lâminas em riste, os dentes à mostra. Roran tentou se desviar, mas sua perna rasgada não o sustentou; e ele tropeçou e caiu sobre um joelho. O soldado mais próximo tentou um golpe de cima para baixo. Com o escudo, Roran se defendeu, depois mergulhou para a frente e esmagou o pé do soldado com a parte plana do seu martelo. Praguejando, o soldado tombou no chão. Roran de imediato lhe esmagou o rosto, e se virou rápido de costas, sabendo que o último soldado estava logo atrás dele.
Roran ficou paralisado, de pernas e braços abertos. O soldado estava em pé, acima dele, segurando a espada, com a ponta da lâmina reluzente a cerca de um centímetro de seu pescoço.
Então é assim que tudo vai terminar, pensou Roran. E então, um braço grosso apareceu em volta do pescoço do soldado, arrastando-o para trás, e o soldado deu um grito sufocado quando a lâmina de uma espada brotou do meio do seu peito, junto com respingos de sangue.
O homem caiu numa pilha inerte, e em seu lugar estava Martland Barba Ruiva. O conde respirava com dificuldade, e sua barba e tórax estavam salpicados de sangue. Martland fincou a espada na terra, apoiando-se no botão, e examinou a carnificina dentro do triângulo de carroções.
— Você vai servir, acho — disse ele, fazendo que sim.


Roran estava sentado na beira de um carroção, mordendo a língua enquanto Carn cortava fora o resto da sua bota. Procurando não dar atenção às fisgadas de agonia que vinham da sua perna, olhou para os abutres que giravam lá no alto e se concentrou em lembranças da sua casa no vale Palancar.
Deu um grunhido quando Carn mexeu fundo demais no corte.
— Desculpe — disse o feiticeiro. — Preciso examinar o ferimento.
Roran não parou de olhar para os abutres e não respondeu. Daí a um minuto, Carn pronunciou algumas palavras na língua antiga; e, alguns segundos depois, a dor na perna de Roran foi se abrandando até se tornar uma dor menor. Olhando para baixo, viu que sua perna estava inteira novamente. O esforço de curar Roran e os outros dois antes dele deixou Carn lívido e trêmulo. O mágico se encostou pesadamente no carroção, cruzando os braços diante do corpo, com uma expressão de enjoo.
— Tudo bem com você? — perguntou Roran.
Carn ergueu os ombros num ínfimo gesto de descaso.
— Só vou precisar de um instante para me recuperar... O boi arranhou o osso externo da sua perna. Consertei o arranhão, mas não tive forças para curar totalmente o resto da lesão. Suturei seu músculo e sua pele, para que não haja sangramento nem dor demasiada, mas apenas uma dor leve. A carne nesse local não vai aguentar muito mais que seu próprio peso, quer dizer, pelo menos enquanto não se curar sozinha.
— E quanto tempo vai levar?
— Uma semana, talvez duas.
Roran calçou o que restava da sua bota.
— Eragon lançou sobre mim proteções que me resguardariam de ferimentos. Salvaram minha vida algumas vezes hoje. Mas por que não me protegeram do chifre do boi?
— Não sei, Roran — disse Carn, com um suspiro. — Ninguém pode estar preparado para todas as eventualidades. Esse é um dos motivos pelos quais a magia é tão perigosa. Se você não der atenção a uma única faceta de um encantamento, ele pode não fazer nada além de enfraquecê-lo; ou pior, pode fazer alguma coisa terrível que nunca havia sido sua intenção. Acontece até com os melhores mágicos. Deve haver uma falha nas proteções do seu primo... uma palavra mal colocada ou um enunciado mal desenvolvido... que permitiu que o boi o ferisse.
Deixando-se escorregar do carroção, Roran foi mancando em direção à frente do comboio, para uma avaliação do combate. Cinco dos Varden tinham sido feridos durante o ataque, ele inclusive, e mais dois tinham morrido: um homem que Roran mal conhecera; e outro, Ferth, com quem conversara em várias ocasiões. Dos soldados e homens que conduziam o comboio, não restou nenhum com vida.
Roran parou junto aos dois primeiros soldados que havia matado e olhou para os cadáveres. Sua saliva se tornou amarga, e suas entranhas se agitaram de repugnância.
Agora já matei... não sei mais quantos. Ele percebeu que, durante a loucura da batalha da Campina Ardente, perdera a conta dos homens que havia abatido. O fato de ter despachado para a morte tantos homens que não conseguia se lembrar da quantidade total o deixou perturbado. Será que vou precisar matar campos inteiros de homens para recuperar o que o Império roubou de mim? Ocorreu-lhe um pensamento ainda mais desconcertante: E se eu o fizer, como poderia voltar para o vale Palancar e lá viver em paz quando minha alma está enegrecida pelo sangue de centenas?
Fechando os olhos, Roran relaxou conscientemente todos os músculos do corpo, num esforço para se acalmar. Eu mato por meu amor. Mato por meu amor a Katrina, por meu amor a Eragon e a todos os moradores de Carvahall, também por meu amor aos Varden e por meu amor a esta nossa terra. Por meu amor, atravessarei a pé um oceano de sangue, mesmo que isso me destrua.
— Nunca vi nada parecido, Martelo Forte — disse Ulhart.
Roran abriu os olhos para encontrar, parado à sua frente, o guerreiro grisalho, que segurava Fogo na Neve pelas rédeas.
— Não existe outra pessoa maluca o suficiente para tentar um movimento daqueles, de saltar por cima dos carroções, pelo menos ninguém que tenha sobrevivido para contar a história. Bom trabalho esse. Mas tome cuidado. Você não pode sair por aí saltando de cavalos para enfrentar cinco homens sozinho e esperar ver a chegada do próximo verão, certo? Um pouco de cautela, espero que você me entenda.
— Não vou me esquecer — disse Roran enquanto apanhava as rédeas de Fogo na Neve oferecidas por Ulhart.
Nos minutos que transcorreram desde que Roran tinha acabado com o último dos soldados, os guerreiros ilesos foram a cada um dos carroções rasgando os fardos de carga e informando o conteúdo a Martland, que registrou o que encontraram para que Nasuada estudasse a informação e talvez extraísse dela alguma indicação de quais seriam os planos de Galbatorix. Roran ficou olhando enquanto os homens examinavam os poucos carroções que faltavam, que continham sacas de trigo e pilhas de uniformes. Terminada essa tarefa, os homens degolaram os bois que restavam, empapando de sangue a estrada. Matar os animais perturbou Roran, mas entendeu a importância de negá-los ao Império e teria manejado a faca por si mesmo se lhe tivessem pedido. Poderiam ter levado os bois até o acampamento dos Varden, mas os animais eram vagarosos e incômodos demais.
No entanto, os cavalos dos soldados conseguiriam acompanhar seu ritmo quando fugissem do território inimigo e, por isso, capturaram tantos quantos conseguiram alcançar e os amarraram atrás de suas próprias montarias. E então, um homem tirou dos alforjes um archote impregnado de resina e, depois de alguns segundos de esforço com sua pederneira e o aço, conseguiu acendê-lo. Ao longo do comboio, tocou com o archote cada carroção até pegarem fogo e, no final, jogou o archote na traseira do último.
— Montem! — gritou Martland.
A perna de Roran latejou quando conseguiu subir em Fogo na Neve. Esporeou o garanhão para se posicionar ao lado de Carn à medida que os sobreviventes se reuniam em suas montarias em fila dupla atrás de Martland.
Os cavalos bufavam e escavavam o chão, impacientes para se distanciar do fogo.
Martland partiu a trote rápido, e o restante do grupo acompanhou, deixando para trás a fileira de carroções em chamas, como um monte de gotas de luz dispostas ao longo da estrada deserta.

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