24 de junho de 2017

Capítulo 28 - Debaixo de morro e pedra

E

Eragon rodou os ombros, procurando ajustar melhor a cota de
malha, debaixo da túnica que usava para esconder a armadura.
Uma escuridão cerrada e opressiva estendia-se por toda a
parte, em seu redor. A lua e as estrelas estavam encobertas por
uma espessa camada de nuvens. Se não fosse a luz mágica,
vermelha, que Angela tinha na palma da mão, nem mesmo Eragon e
os Elfos conseguiriam ver alguma coisa.
O ar estava húmido e Eragon sentiu umas gotas frias de chuva a
caírem-lhe, uma ou duas vezes, nas faces.
Elva deu uma gargalhada e recusou-se a colaborar quando ele
lhe pediu ajuda. Tivera uma longa e intensa discussão com ela, mas
não lhe valeu de nada. Saphira chegara mesmo a intervir, voando
até à tenda onde a criança-feiticeira dormia, e colocou a sua grande
cabeça apenas a escassos metros da menina, forçando-a a fitar
um dos seus olhos brilhantes e fixos.
Elva não se atrevera a rir nessa altura, mas continuava a recusar
obstinadamente. Embora a sua teimosia o frustrasse, Eragon não
podia deixar de admirar a sua força de caráter. Dizer não a um
Cavaleiro e a um dragão não era algo fácil. Por outro lado, Elva
suportara a dor, às catadupas, durante a sua curta vida e essa
experiência endurecera-a a um nível raramente visto, mesmo entre
os guerreiros mais calejados.
Junto dele, Arya prendeu um longo manto à volta do pescoço.
Eragon usava também um manto, tal como Angela e Wyrden, o elfo
de cabelo preto que Blödhgarm destacara para os acompanhar. Os
mantos eram necessários, não só para os proteger do frio da noite,
como também para esconderem as armas de alguém que
encontrassem na cidade, se conseguissem lá chegar.
Nasuada, Jörmundur e Saphira acompanharam-nos até ao
extremo do campo, onde eles agora estavam. Por entre as tendas,
os homens dos Varden, os Anões e os Urgals ultimavam os
preparativos para o ataque.
— Não se esqueçam — disse Nasuada, projetando jatos de vapor
ao respirar. — Se não conseguirem alcançar os portões até ao
amanhecer, descubram um local onde esperar, até amanhã de
manhã, e voltaremos a tentar nessa altura.
— Talvez não nos possamos dar ao luxo de esperar — disse Arya.
Nasuada esfregou os braços e acenou com a cabeça. Parecia
invulgarmente preocupada.
— Eu sei. De qualquer forma estaremos prontos para atacar,
assim que nos contactarem, seja a que hora for. A vossa segurança
é mais importante do que conquistar Dras-Leona, lembrem-se
disso. — Desviou os olhos para Eragon, enquanto falava.
— É melhor irmos andando — disse Wyrden. — A noite está a
avançar.
Eragon encostou a testa a Saphira, por uns instantes.
Boa caçada, disse ela, brandamente.
Igualmente.
Separam-se relutantemente e Eragon reuniu-se a Arya e a
Wyrden, que se afastavam do acampamento, atrás de Angela, em
direção à zona este da cidade. Nasuada e Jörmundur desejaramlhes
felicidades e despediram-se ao passarem por eles e, depois, o
silêncio envolveu-os. Tudo o que se ouvia era o som da própria
respiração e o ruído das botas no chão.
Angela baixou a intensidade da luz na palma da mão até Eragon
mal conseguir ver os pés. Tinha de forçar a visão para distinguir as
pedras e os ramos caídos no caminho.
Caminharam em silêncio durante quase uma hora, altura em que
a herbolária parou e sussurrou:
— Tanto quanto sei, já chegámos. Sou bastante boa a calcular
distâncias. Devemos ter-nos desviado mais de trinta metros, mas é
difícil ter a certeza de alguma coisa nesta escuridão.
À esquerda, meia dúzia de pontos luminosos, que flutuavam por
cima do horizonte, eram a única evidência de que estariam perto de
Dras-Leona. As luzes estavam tão perto que quase parecia que as
poderiam colher do ar.
Wyrden ajoelhou-se e descalçou a luva da mão direita, Eragon e
as duas mulheres reuniram-se à volta dele. Poisando a palma da
mão sobre a terra nua, Wyrden começou a trautear o feitiço que
aprendera com o feiticeiro dos anões, que Orik enviara para lhes
ensinar os métodos de detetar câmaras subterrâneas, antes de
partirem para a missão.
Enquanto o elfo cantava, Eragon olhou para a escuridão em
redor, de ouvidos e olhos atentos ao inimigo. As gotas de chuva
começaram a cair-lhe no rosto com mais frequência. Esperava que
o tempo melhorasse antes da batalha, se houvesse batalha.
Uma coruja piou algures e ele levou a mão a Brisingr. Mas
depois deteve-se e cerrou o punho. “Barzúl”, disse para si,
utilizando a praga favorita de Orik. Estava mais nervoso do que
deveria. A evidência de que poderia estar prestes a defrontar-se de
novo com Murtagh e Thorn — individualmente ou em conjunto —
deixava-o com os nervos em franja.
“Se continuar assim, serei certamente derrotado”, pensou. Por
isso abrandou a respiração e iniciou o primeiro dos exercícios
mentais que Glaedr lhe ensinara, para manter as emoções sob
controlo.
O velho dragão não ficara muito entusiasmado com a missão
quando Eragon lhe falou dela, mas também não tinha colocado
objeções. Depois de discutirem várias possibilidades, Glaedr
dissera-lhe:
Tem cautela com as sombras, Eragon. Os locais escuros
escondem coisas estranhas, o que Eragon considerou muito pouco
encorajador.
Limpou a humidade que se acumulara no rosto, mantendo a
outra mão próxima do punho da espada, e sentiu o cabedal da luva
quente e macio na pele.
Baixando a mão, enganchou o polegar no cinto da espada, o
cinto de Beloth, O Sábio, sentindo o peso dos doze diamantes
perfeitos, escondidos dentro deste. Naquela manhã tinha ido aos
currais dos animais de criação e, enquanto os cozinheiros matavam
aves e ovelhas para o pequeno-almoço do exército, transferira a
energia dos animais moribundos para as jóias. Detestava fazê-lo,
pois ao alcançar a mente de um animal — se este ainda tivesse a
cabeça presa ao corpo —, a dor e medo deste transferiam-se para
dentro de si e, enquanto o animal mergulhava no vazio, era como se
ele próprio estivesse também a morrer. Era uma experiência
terrivelmente assustadora. Sempre que podia, sussurrava palavras
na língua antiga aos animais, para os confortar. Às vezes resultava,
outras vezes não. Embora as criaturas fossem morrer de qualquer
forma e ele precisasse da energia, odiava essa prática. Era como se
fosse responsável pela sua morte e isso fazia-o sentir-se impuro.
Carregado com a energia de tantos animais, calculava que o
cinto estivesse agora ligeiramente mais pesado. Mesmo que os
diamantes não tivessem qualquer valor, Eragon considerava o cinto
mais valioso do que ouro, em consequência das muitas vidas
perdidas para o carregar.
Quando Wyrden parou de cantar, Arya perguntou:
— Descobriste-o?
— Por aqui — disse Wyrden, levantando-se.
Uma sensação de alívio e de agitação percorreu Eragon. Jeod
tinha razão!
Wyrden conduziu-os ao longo de uma estrada e de uma série de
pequenas colinas, descendo depois para um riacho pouco fundo,
escondido entre as pregas do terreno.
— A entrada do túnel deve ficar algures por aqui — disse o elfo,
apontando para a margem oeste da depressão.
A herbolária aumentou a intensidade da luz mágica, para que
pudessem procurar em redor. Depois Eragon, Arya e Wyrden
começaram a sondar o mato, ao longo da margem, espetando paus
no chão. Eragon arranhou duas vezes as canelas em troncos de
bétulas caídas, sorvendo o ar com a dor. Desejava ter colocado os
braçais, mas deixara-os no acampamento, juntamente com o
escudo, pois iriam atrair demasiado as atenções na cidade.
Procuraram durante vinte minutos, calcorreando a margem de
cima a baixo, à medida que se afastavam do ponto de partida. Por
fim Eragon ouviu um tinido metálico e Arya chamou-os em voz
baixa:
— Aqui!
Eles apressaram-se a reunir-se a ela, junto de uma depressão
coberta de vegetação, no declive da margem. Arya afastou os
arbustos, revelando um túnel de pedra com um metro e meio de
altura e noventa centímetros de largura. Um portão enferrujado de
ferro cobria o enorme buraco.
— Olhem! — disse Arya, apontando para o chão.
Eragon olhou e viu um caminho que saía do túnel. Mesmo sob a
estranha luz mágica da herbolária, Eragon percebeu que o trilho
estava gasto e pisado. Uma ou mais pessoas deveriam estar a
utilizar o túnel para entrar e sair sub-repticiamente de Dras Leona.
— Devemos prosseguir com cautela — sussurrou Wyrden.
Angela pigarreou ligeiramente.
— Como planeavam prosseguir? Com trombetas e arautos?
Francamente.
O elfo evitou responder-lhe, mas parecia visivelmente
constrangido.
Arya a Wyrden arrancaram a grade e entraram com precaução
no túnel, conjurando cada um uma luz mágica. As esferas sem
chamas flutuavam por cima das suas cabeças como pequenos sóis
vermelhos, embora não emitissem mais luz do que meia dúzia de
brasas.
Eragon deixou-se ficar para trás e disse a Angela.
— Porque te tratam os Elfos tão respeitosamente? Quase
parecem ter medo de ti.
— Achas que não mereço respeito?
Ele hesitou.
— Um dia destes vais ter de me falar acerca de ti, sabes?
— O que te leva a pensar isso? — Dito isto, empurrou-o para
entrar no túnel com o manto a ondular como as asas de um
Lethrblaka.
Eragon abanou a cabeça e seguiu-a.
A pequena herbolária não teve de se baixar muito para evitar
bater com a cabeça no teto, mas Eragon precisou de se curvar
como um velho com reumático, tal como os dois elfos. O túnel
estava em grande parte vazio. Uma fina camada de poeira
acumulada cobria o chão. Havia pedras e paus espalhados à
entrada do túnel, até um cantil de pele abandonado. A passagem
cheirava a palha húmida e a asas de traças.
Eragon e os outros caminhavam tão silenciosamente quanto
possível mas, como o túnel amplificava os sons, todos os ruídos
ecoavam carregando o ar com uma infinidade de sussurros
sobrepostos, murmúrios e suspiros que pareciam ter vida própria.
Eragon tinha a impressão de estar rodeado de uma horda de
espíritos incorpóreos, que comentavam todos os seus movimentos.
“É escusado pensar em apanhar alguém de surpresa”, pensou,
ao raspar com uma bota numa pedra, que saltou contra a parede
do túnel com um estalido sonoro que se multiplicou umas cem
vezes, ao propagar-se pelo túnel.
— Desculpem — disse ele, movendo a boca em silêncio, ao ver
que todos o olhavam.
Um sorriso irónico desenhou-se nos seus lábios. “Pelo menos
sabemos a causa dos ruídos estranhos debaixo de Drás-Leona.”
Teria de contar a Jeod quando regressassem.
Depois de percorrem uma distância considerável no interior do
túnel, Eragon parou e olhou para a entrada, que entretanto
desaparecera na escuridão. A obscuridade era quase palpável,
como um pano pesado que cobria o mundo. Isso aliado às paredes
estreitas e ao teto baixo, fazia-o sentir-se desconfortavelmente
apertado e oprimido. Por norma não se importava de estar em
espaços confinados, mas o túnel lembrava-lhe o labirinto de
corredores rudemente talhados, no interior de Helgrind, onde ele e
Roran tinham combatido os Ra’zac — e não era uma memória nada
agradável.
Respirou fundo e deitou o ar fora.
No instante em que se dispunha a prosseguir, teve um vislumbre
de dois grandes olhos a cintilar nas sombras, como um par de
adulárias acobreadas. Agarrou Brisingr e tinha já desembainhado a
espada alguns centímetros, quando Solembum emergiu da
escuridão, caminhando sobre as patas silenciosas.
O menino-gato parou nos limites da luz. As orelhas de pontas
negras estremeceram e as mandíbulas entreabriram-se numa
expressão aparentemente divertida.
Eragon descontraiu e curvou a cabeça ao ver o gato. Já devia
calcular. Para onde quer que Angela fosse Solembum
invariavelmente seguia-a. Eragon interrogou-se mais uma vez sobre
o passado da herbolária: “Como teria ela conseguido conquistar a
sua lealdade?”
À medida que o resto do grupo se distanciava, as sombras iam
cobrindo de novo Solembum, ocultando-o de Eragon.
Reconfortado pela constatação de que o menino-gato os estava
a vigiar, Eragon apertou o passo para apanhar os outros.
Antes do grupo abandonar o acampamento, Nasuada informaraos
sobre o número exato de soldados que estavam na cidade, os
locais onde se encontravam estacionados, os seus deveres e
hábitos. Dera-lhes também detalhes sobre o quarto onde Murtagh
dormia, sobre o que ele comia e até sobre o seu estado de espírito
na noite anterior. As suas informações eram extraordinariamente
precisas. Quando a questionaram, ela sorriu e explicou que os
meninos-gatos andavam a espiar Dras-Leona, desde a chegada dos
Varden. E que logo que Eragon e os companheiros saíssem no
interior da cidade, os meninos-gatos iriam guiá-los até aos portões
sul, mas tentariam evitar revelar a sua presença ao Império; caso
contrário deixariam de poder informar Nasuada tão eficazmente.
Afinal de contas, quem iria desconfiar que um gato invulgarmente
grande, que andava ali por perto, era um espião inimigo?
Ao rever o briefing de Nasuada, Eragon constatou que a grande
fraqueza de Murtagh era o fato de ter ainda de dormir. “Se não o
capturarmos nem o matarmos hoje, da próxima vez que nos
encontrarmos, talvez seja boa ideia descobrirmos uma forma de o
acordar a meio da noite e durante mais de uma noite, se possível.
Três ou quatro noites mal dormidas e deixará de estar em
condições de lutar.”
Continuaram a caminhar sem parar ao longo do túnel, que seguia
a direito como uma flecha, sem curvas nem esquinas. Eragon julgou
detetar uma ligeira inclinação ascendente — o que faria todo o
sentido, uma vez que fora concebido para canalizar os desperdícios
para fora da cidade —, mas não tinha bem a certeza.
Algum tempo depois, a terra debaixo dos seus pés começou a
tornar-se mais macia e a colar-se às botas como barro húmido. A
água pingava do teto, caindo por vezes sobre a nuca de Eragon e
deslizando-lhe pela espinha como um dedo frio. Uma vez ele
escorregou num pedaço de lama e, quando esticou a mão para se
equilibrar, viu que a parede estava coberta de lodo.
Um período indeterminado de tempo passou. Tanto poderiam
ter passado uma hora no túnel como dez horas, ou apenas alguns
minutos. Fosse como fosse, Eragon sentia o pescoço e os ombros
doridos de caminhar meio curvado, e começou a ficar saturado de
estar sempre a olhar para o que pareciam ser os mesmos seis
metros de pedra com matizes rosados.
Por fim, reparou que os ecos estavam a diminuir e que o som se
propagava em intervalos cada vez maiores. Pouco depois, o túnel
desembocou numa ampla câmara retangular, com um teto em semicúpula,
com nervuras, e mais de quatro metros e meio de altura, no
ponto mais alto. Tirando um barril apodrecido a um canto, a
câmara encontrava-se vazia. Do lado oposto, três arcadas idênticas
abriam-se para três salas iguais, pequenas e escuras, mas Eragon
não conseguia ver onde iam dar.
O grupo parou e Eragon endireitou lentamente as costas,
retraindo-se ao esticar os músculos doridos.
— Isto não devia fazer parte das plantas de Erst Barba Azul —
disse Arya.
— Por onde seguimos? — perguntou Wyrden.
— Não é óbvio? — interpelou a herbolária. — Pela esquerda, é
sempre pela esquerda — disse, avançando para essa arcada, ao
mesmo tempo que falava.
Eragon não se conseguiu conter.
— A esquerda para quem vem de onde? Se viéssemos do outro
lado, a esquerda...
— A esquerda seria a direita e a direita seria a esquerda, sim, sim
— continuou a herbolária, franzindo os olhos. — Por vezes és mais
inteligente do que convém, Matador de Espectros... Muito bem,
vamos fazer as coisas à tua maneira. Mas depois não digas que não
te avisei, se acabarmos por aí perdidos, dias a fio.
Na verdade, Eragon teria preferido seguir pela arcada do meio,
pois parecia-lhe a que mais provavelmente os conduziria às ruas,
em cima; mas não queria envolver-se numa discussão com a
herbolária. “Seja como for, não tardaremos a encontrar escadas”,
pensou ele. “Não devem existir assim tantas câmaras por baixo de
Dras-Leona.”
Angela seguiu à frente, erguendo a luz mágica bem alto. Wyrden
e Arya avançaram atrás dela e Eragon seguiu-os à retaguarda.
A sala depois da arcada da direita era maior do que parecia, de
início, pois estendia-se doze metros para o lado, virava, e
prolongava-se por mais alguns metros, terminando num corredor
salpicado de castiçais vazios. Ao fundo do corredor havia uma
pequena sala, ladeada por três arcos, que davam acesso a salas
com mais arcos, e por aí adiante.
“Quem terá construído isto e porquê?”, pensou Eragon,
perplexo. Todas as salas que tinham visto estavam desertas e sem
mobília. A única coisa que encontraram foi um banco de duas
pernas, que se desmanchou quando Eragon lhe tocou com a
biqueira da bota, e uma pilha de loiça de cerâmica partida, a um
canto, por baixo de um véu de teias de aranha.
Angela não hesitava nem parecia confusa em relação à direção
que deveria seguir, pois escolhia invariavelmente o caminho da
direita. Eragon ter-se-ia oposto, mas não lhe ocorria melhor
alternativa ao seu método.
A herbolária parou ao chegarem a uma sala circular com sete
arcadas, ao longo das paredes, em intervalos equidistantes. Sete
corredores estendiam-se das arcadas, incluindo aquele que tinham
acabado de percorrer.
— Marca o sítio de onde viemos senão vamos ficar
completamente baralhados — sugeriu Arya.
Eragon foi para o corredor e traçou uma linha na parede de
pedra com o guarda-mão de Brisingr. Ao fazê-lo, olhou para a
escuridão, na tentativa de ver Solembum, mas não lhe distinguiu
sequer um bigode. Esperava que o menino-gato não se tivesse
perdido algures no labirinto de salas. Esteve quase para tentar
alcançá-lo com a mente mas resistiu à tentação, pois poderia alertar
o Império para o local onde estavam, se mais alguém o sentisse por
ali às apalpadelas.
— Ah! — exclamou Angela. Pondo-se em bicos de pés, ergueu a
luz mágica o mais alto possível, fazendo mover as sombras em
torno de Eragon.
Eragon dirigiu-se apressadamente para o centro da sala, onde
estava ela, Arya e Wyrden.
— O que é? — sussurrou ele.
— O teto, Eragon — murmurou Arya. — Olha para o teto.
Ele fez o que lhe disseram, mas tudo o que viu foram blocos de
pedra antigos, carregados de bolor, e de tal forma cobertos de
rachas que lhe pareceu incrível que o teto não tivesse desabado há
muito.
Depois a sua visão modificou-se e ele arquejou.
As linhas não eram rachas mas runas profundamente entalhadas
na pedra — fiadas e fiadas delas. Eram pequenas e elegantes, com
ângulos agudos e pernas direitas. O bolor e a passagem dos
séculos tinham feito sumir partes do texto, mas grande parte era
ainda legível.
Eragon debateu-se com as runas durante uns breves instantes,
mas reconheceu apenas algumas das palavras, e mesmo essas
estavam escritas de maneira diferente do que ele estava habituado.
— O que diz? — perguntou ele. — Está escrito na Língua dos
Anões?
— Não — respondeu Wyrden —, está na língua do teu povo, mas
como ela era falada e escrita há muito tempo atrás, e num dialeto
muito particular: o dialeto do zelote Tosk.
Aquele nome era-lhe familiar.
— Quando eu e Roran resgatámos Katrina, ouvimos os
sacerdotes de Helgrind falarem num livro de Tosk.
Wyrden acenou com a cabeça.
— É ele que fundamenta a sua fé. Tosk não foi o primeiro a
devotar orações a Helgrind, mas foi o primeiro a codificar as suas
crenças e práticas, e muitos outros o imitaram desde então. Todos
os que veneram Helgrind reconhecem-no como um profeta do
divino. E isto... — O elfo abriu os braços — é a história de Tosk
desde o nascimento até à morte: uma história verdadeira, que os
seus discípulos jamais partilharam com alguém estranho à sua seita.
— Poderíamos aprender muito com isto — disse Angela, sem
nunca tirar os olhos do teto. — Se ao menos tivéssemos tempo... —
Eragon estava surpreendido por vê-la tão fascinada.
Arya olhou de relance para os sete corredores.
— Esperamos um momento então, mas leiam depressa.
Enquanto Angela e Wyrden liam atenta e avidamente as runas,
Arya aproximou-se de uma das arcadas e começou a entoar um
feitiço de localização, num tom de voz baixo. Quando terminou,
esperou um momento de cabeça inclinada, encaminhando-se
depois para a arcada seguinte.
Eragon olhou um pouco mais para as runas, voltando depois
para a entrada do corredor que os conduzira até lá, e encostou-se
a uma parede enquanto esperava. O frio das pedras infiltrou-se-lhe
no ombro.
Arya parou diante da quarta arcada. A cadência familiar da
recitação, subia e descia, como uma brisa suave.
Mais uma vez, nada.
Eragon sentiu uma ligeira comichão nas costas da mão direita e
olhou para baixo. Tinha um enorme grilo sem asas agarrado à luva.
O inseto era horrível: negro e bulboso, com patas farpadas e uma
cabeça semelhante a um crânio. A carapaça brilhava como óleo.
Eragon estremeceu, com a pele arrepiada, e sacudiu o braço,
atirando com o grilo para a escuridão.
O grilo aterrou com um ruído surdo.
O quinto corredor revelou-se tão infrutífero para Arya quanto os
precedentes. Ignorando a entrada onde Eragon estava, ela
colocou-se diante da sétima arcada.
Antes que conseguisse lançar o feitiço, um uivo gutural ecoou
pelo corredor, parecendo vir de todas as direções ao mesmo
tempo. Depois ouviu-se bufar, um ruído seco e um guincho que
arrepiou todos os pelos do corpo de Eragon.
Angela virou-se.
— Solembum!
Todos desembainharam as espadas, como se fossem um só.
Eragon recuou para o centro da sala, olhando sucessivamente
para cada arcada, e sentiu uma comichão e um formigueiro,
semelhante a uma picada de mosca, no seu gedwëy ignasia — um
aviso inútil, pois não lhe revelava de que perigo se tratava nem onde
estava.
— Por aqui — disse Arya, encaminhando-se para a sétima arcada.
A herbolária recusou-se a mexer.
— Não! — sussurrou ela, com veemência. — Temos de o ajudar. —
Eragon reparou que ela empunhava uma espada curta com uma
estranha lâmina incolor que brilhava à luz como uma pedra
preciosa.
Arya franziu a sobrancelha.
— Se Murtagh ficar a saber que estamos aqui, vamos...
Tudo aconteceu tão depressa e tão silenciosamente, que Eragon
jamais teria dado por isso se não estivesse a olhar na direção certa:
meia dúzia de portas ocultas nas paredes de três corredores
abriram-se e cerca de trinta homens, vestidos de negro, correram
na direção deles, de armas em punho.
— Letta! — gritou Wyrden, e os homens de um grupo chocaram
uns com os outros, como se os da frente esbarrassem de cabeça
contra uma parede.
Mas, depois, o resto dos atacantes caiu-lhes em cima e não
houve tempo para magia. Eragon aparou facilmente um golpe,
decapitando o atacante com um inesperado golpe circular. Tal
como todos os outros, o homem usava um lenço a cobrir-lhe o
rosto, deixando-lhe apenas os olhos à vista, e este flutuou quando a
cabeça girou pelo ar em direção ao chão.
Eragon sentiu-se aliviado ao sentir Brisingr enterrar-se em carne.
Por instantes ele receou que os adversários estivessem protegidos
por feitiços, armaduras — ou pior do que isso — que não fossem
humanos.
Trespassou outro homem nas costelas e, tinha acabado de se
virar para lidar com mais dois atacantes, quando uma espada que
não deveria lá estar descreveu um arco pelo ar, em direção à sua
garganta. As proteções salvaram-no de uma morte certa, contudo,
com a espada a escassos centímetros do pescoço, Eragon não teve
outro remédio senão cambalear para trás.
Para seu espanto, o homem que trespassara estava ainda de pé,
com sangue a escorrer-lhe do flanco, aparentemente alheado do
buraco que Eragon lhe fizera.
O pavor apossou-se de Eragon.
— Eles não sentem dor — gritou ele, ao mesmo tempo que tentava
freneticamente aparar espadas de três direções distintas. Se alguém
o ouviu, não respondeu.
Não perdeu mais tempo a falar, concentrando-se no combate
com os homens que tinha à sua frente, e confiante de que os seus
companheiros lhe protegeriam a retaguarda.
Eragon atacava, aparava golpes e esquivava-se, brandindo
Brisingr no ar, como se esta não pesasse mais do que uma chibata.
Em circunstâncias normais, ele teria matado qualquer um dos
homens num instante. No entanto, o fato de serem imunes à dor,
significava que Eragon teria de os decapitar, trespassar-lhes o
coração, ou golpeá-los e contê-los até que a perda de sangue os
deixasse inconscientes; de contrário os atacantes continuariam a
tentar matá-lo, independentemente dos ferimentos que sofressem.
Com aquele número de homens, era-lhe difícil evitar todos os
golpes e contra-atacar. Poderia ter parado de se defender e deixar
simplesmente que as suas defesas o protegessem, mas isso cansálo-
ia tão depressa como se usasse Brisingr. Como não podia
prever ao certo o momento em que as suas proteções começariam
a falhar — o que aconteceria a dada altura, de contrário matá-lo-iam
— e sabia que poderia precisar delas mais tarde, lutou tão
cautelosamente como se estivesse a enfrentar homens cujas
espadas o pudessem matar ou mutilar de uma só vez.
Mais guerreiros vestidos de negro saíram das entradas ocultas
dos corredores. Aglomeravam-se em torno de Eragon, obrigandoo
a recuar apenas devido à superioridade numérica, e agarravamlhe
as pernas e os braços, ameaçando imobilizá-lo.
— Kverst — resmungou ele entredentes, proferindo uma das doze
palavras mortais que Oromis lhe ensinara. Mas o feitiço não
produziu efeito, tal como ele desconfiava: os homens estavam
protegidos contra ataques mágicos diretos. Eragon preparou
rapidamente um feitiço que Murtagh usara uma vez nele:
— Thrysta vindr! — Era uma forma indireta de atacar os homens,
pois não estava realmente a atacá-los, mas a empurrar o ar contra
eles. De qualquer modo, resultou.
Um rajada de vento encheu a sala e fustigou o cabelo e o manto
de Eragon, projetando os homens que estavam mais perto contra
os seus companheiros e abrindo um espaço de três metros à sua
frente. A sua energia declinou proporcionalmente, mas não a ponto
de o incapacitar.
Virou-se para ver como os outros se estavam a sair. Ele não
tinha sido o primeiro a descobrir uma forma de contornar as
proteções dos atacantes; explosões de relâmpagos projetavam-se
do braço direito de Wyrden, enrolando-se em torno de qualquer
guerreiro que tivesse a infelicidade de passar diante de si. Os
cordões luminosos de energia pareciam quase líquidos, ao
retorcerem-se em torno das vítimas.
Mas havia mais homens a tentar entrar na sala.
— Por aqui! — gritou Arya, saltando na direção do sétimo
corredor — aquele que não conseguira examinar antes da
emboscada.
Wyrden seguiu-a, tal como Eragon. Angela vinha atrás, a
coxear, agarrada a um golpe ensanguentado no ombro. Atrás deles,
os homens vestidos de negro hesitaram, deambulando por uns
instantes, em alvoroço pela sala. Depois deram um urro estrondoso
e começaram a persegui-los.
Enquanto corria pelo corredor, Eragon esforçou-se por criar
uma variação do anterior feitiço, que lhe permitiria matar os homens
e não apenas atirá-los para longe. Ele concebeu rapidamente um
feitiço e preparou-se para o lançar, pois conseguia ver um número
considerável de atacantes.
“Quem serão eles?”, pensou. “Quantos serão?”
Mais adiante teve um vislumbre de uma passagem através da
qual brilhava uma luz ténue, arroxeada. Mal teve tempo para se
preocupar de onde vinha a luz, pois a herbolária deu um grito
sonoro e ele viu um clarão mortiço, alaranjado, acompanhado de
um estrondo ensurdecedor. Um cheiro a enxofre impregnou o ar.
Eragon deu meia-volta e viu cinco homens a arrastarem a
herbolária através de uma entrada que se abrira de um dos lados
do corredor.
— Não! — gritou Eragon, mas a porta fechou-se tão
silenciosamente como se abrira, antes que ele o conseguisse
impedir, e a parede voltou a parecer perfeitamente sólida.
— Brisingr! — gritou ele e a sua espada irrompeu em chamas.
Encostou a ponta da espada à parede e tentou perfurar a pedra,
com o intuito de abrir a porta. Contudo a pedra era espessa e
derretia lentamente, pelo que ele depressa entendeu que gastaria
muito mais energia do que estava disposto a sacrificar.
Arya apareceu depois a seu lado, colocando a mão no sítio onde
a porta estava, e murmurou:
— Ládrin. Abre-te —, mas a porta permaneceu teimosamente
fechada. Eragon sentiu-se embaraçado por não se ter lembrado de
tentar isso primeiro.
Os seus perseguidores estavam agora tão perto que ele e Arya
não tiveram outro remédio senão virar-se e enfrentá-los. Eragon
queria lançar o feitiço que inventara, mas o corredor tinha apenas
espaço para dois homens de cada vez e ele não conseguiria matar
os restantes, na medida em que não estavam visíveis. Decidiu que
seria melhor manter o feitiço em segredo e guardá-lo para quando
pudesse matar a maioria dos guerreiros, de uma só vez.
Eragon e Arya decapitaram os dois homens da frente e atacaram
os dois que estavam a seguir, passando por cima dos seus corpos.
Mataram mais seis atacantes numa rápida sucessão, mas estes
pareciam nunca mais acabar.
— Por aqui! — gritou Wyrden.
— Stenr slauta! — exclamou Arya e as pedras das paredes
explodiram ao longo do corredor, a poucos metros do local onde
eles se encontravam. Os homens de negro encolheram-se e
cambalearam com a saraivada de estilhaços aguçados, e alguns
deles caíram, incapacitados.
Eragon e Arya viraram-se para seguir Wyrden, que corria em
direção à passagem, ao fundo do corredor, e que estava agora a
menos de dez metros dela...
Três metros...
Dois metros...
Depois, dezenas de espigões de ametista irromperam de uns
buracos no chão e no teto, apanhando Wyrden entre eles. O elfo
parecia flutuar no meio do corredor, com os espigões a escassos
milímetros da pele, pois as suas proteções repeliam os espinhos de
cristal. Uma descarga crepitante de energia percorreu os espigões
que projetaram um brilho ofuscante na ponta, cravando-se no seu
corpo com um ruído desagradável.
Wyrden gritava e esbracejava. Depois a sua luz mágica apagouse
e ele não se voltou a mexer.
Eragon olhou incrédulo, parando aos tropeções diante dos
espigões. Apesar de toda a experiência que tinha em combate,
nunca testemunhara a morte de um elfo. Wyrden, Blödhgarm e o
resto do bando eram de tal forma talentosos que Eragon acreditava
que apenas poderiam morrer em combate com Galbatorix ou
Murtagh.
Arya parecia igualmente estupefacta, contudo recuperou
depressa.
— Eragon — disse num tom insistente —, abre-nos caminho com
Brisingr.
Ele percebeu. A sua espada, ao contrário da dela, resistia à
magia maléfica dos espigões.
Eragon puxou o braço para trás, brandindo a espada com toda a
força. Meia dúzia de espigões estilhaçaram-se por baixo do gume
adamantino de Brisingr. As ametistas produziram um som
semelhante a um sino, quando se partiram, e os cacos cintilaram
como gelo ao caírem no chão.
Eragon manteve-se do lado direito do corredor, tendo o cuidado
de não tocar nos espigões ensanguentados sobre os quais se erguia
o corpo de Wyrden. E brandiu repetidas vezes a espada, na
tentativa de abrir caminho por entre o labirinto de espigões.
Fragmentos de ametista voavam pelo ar, sempre que Eragon
desferia um golpe. Um deles cortou-lhe a face esquerda e ele
retraiu-se, surpreendido, receando que as suas proteções tivessem
falhado.
As pontas aguçadas dos espigões partidos forçavam-no a
avançar com cautela. Os cepos de baixo poderiam facilmente furarlhe
as botas e os de cima ameaçavam golpeá-lo à altura da cabeça
e do pescoço. Ainda assim Eragon conseguiu abrir caminho até ao
lado oposto do labirinto de espigões apenas com um pequeno
golpe na barriga da perna, que lhe ardia sempre que assentava o
peso do corpo sobre ela.
Os guerreiros vestidos de negro estavam prestes a alcançá-los.
E Eragon ajudava Arya a ultrapassar as últimas fiadas de espigões.
Assim que ela se desembaraçou deles, os dois correram através da
passagem em direção à luz arroxeada, embora a vontade de
Eragon fosse dar meia-volta e confrontar os seus atacantes,
matando-os como retaliação pela morte de Wyrden.
Do outro lado da passagem, havia uma câmara de construção
sólida que lhe lembrava as cavernas por baixo de Tronjheim. Um
enorme desenho circular com incrustações de pedra — mármore,
calcedónia e hematite polida — preenchia o chão, ao centro. Em
redor do círculo ornamentado viam-se pedaços grosseiros de
ametista, do tamanho de um punho, encaixados em anéis de prata.
Cada pedaço purpúreo de rocha brilhava suavemente — era daí que
provinha a luz que tinham visto do corredor. Na parede oposta, do
outro lado do círculo, havia um grande altar negro, coberto com um
pano dourado e vermelho. O altar estava ladeado de colunas e
candelabros, e tinha uma porta fechada de cada lado.
Eragon viu tudo isto ao irromper pela sala, breves instantes antes
de perceber que o seu balanço o levaria a atravessar o anel de
ametistas, entrando no círculo. Tentou parar e desviar-se para o
lado, mas ia demasiado depressa.
Desesperado, fez a única coisa que poderia fazer: saltou em
direção ao altar, esperando conseguir ultrapassar o círculo num
único salto.
Ao voar sobre a ametista mais próxima, a sua última sensação

foi de arrependimento e o seu último pensamento foi para Saphira.

Um comentário:

  1. "Poisando(Pousando) a palma da
    mão sobre a terra"

    "ensinar os métodos de detetar(detectar) câmaras"

    "manter as emoções sob
    controlo(controle)."

    "a recuar apenas devido à superioridade numérica, e agarravamlhe(agarravam-lhe)"

    ResponderExcluir

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Boa leitura :)