3 de junho de 2017

Capítulo 27 - Por montes e vales

Eragon e Nar Garzhvog correram pelo resto do dia, da noite e do dia seguinte, parando apenas para beber e para se aliviarem.
Ao fim do segundo dia, Garzhvog disse:
— Espada de Fogo, preciso comer. E preciso dormir.
Eragon recostou-se sobre um toco próximo, ofegante, e assentiu. Ele não quis falar antes, mas estava tão faminto e exausto quanto o Kull. Logo após deixarem os Varden, descobrira que apesar de ser mais veloz do que Garzhvog em distâncias que não ultrapassavam os oito quilômetros, além deste limite, a resistência de Garzhvog era igual ou superior a sua.
— Eu vou ajudá-lo na caça — disse ele.
— Isso não é necessário. Faça uma grande fogueira para nós que eu vou trazer a comida.
— Certo.
Assim que Garzhvog caminhou em direção a uma moita de faias a norte de onde eles estavam, Eragon desamarrou a faixa em volta de sua cintura e, com um suspiro de alívio, colocou sua mochila perto do toco.
— Maldita armadura — murmurou ele.
Mesmo quando estava no Império, jamais correra tantos quilômetros carregando tanto peso. Não havia previsto como seria árduo. Seus pés doíam, suas pernas doíam, suas costas doíam, e quando tentou se agachar, seus joelhos se recusaram a funcionar adequadamente. Tentando ignorar seu desconforto, começou a juntar grama e galhos mortos para o fogo, que empilhava sobre um pedaço de chão rochoso e seco.
Ele e Garzhvog estavam em algum lugar a sudeste do lago Tüdosten. A paisagem era úmida e esplendorosa, com campos de grama que chegavam a quase dois metros de altura, através dos quais corriam manadas de veados, gazelas e bois selvagens de couro preto e chifres retorcidos. A abundância da área era em função – como sabia Eragon – das montanhas Beor, que causavam a formação de enormes nuvens que vagavam por muitos quilômetros por sobre as planícies além, trazendo chuva a lugares que seriam secos como o deserto Hadarac não fosse por isso.
Embora os dois já tivessem percorrido uma enorme distância, Eragon estava desapontado com o progresso que haviam feito. Entre o rio Jiet e o lago Tüdosten, haviam perdido muitas horas se escondendo e pegando atalhos para se ocultar. Agora que o lago ficara para trás, ele esperava que seu ritmo aumentasse.
Nasuada não previu esse atraso, previu? Oh, não. Ela pensou que eu pudesse correr no mesmo ritmo de lá até Farthen Dûr. Rá!
Chutando um galho que estava em seu caminho, continuou a juntar madeira, resmungando o tempo todo. Quando Garzhvog retornou uma hora mais tarde, Eragon havia feito uma fogueira de quase um metro de extensão por meio metro de largura e estava sentado em frente a ela, mirando as chamas e lutando contra a ânsia de sumir dentro do sonhar acordado que o fazia descansar. Seu pescoço estalou quando ergueu o olhar. Garzhvog andou até ele segurando a carcaça de uma corça roliça embaixo do braço esquerdo. Como se ela pesasse não mais do que um saco de trapos, ergueu a corça e encaixou a cabeça numa forquilha uns vinte metros distante da fogueira. Então, pegou uma faca e começou a limpar a carcaça. Eragon se levantou, sentindo como se suas juntas tivessem virado pedra, e cambaleou até Garzhvog.
— Como você a matou? — perguntou ele.
— Com minha atiradeira — ribombou Garzhvog.
— Você pretende grelhá-la em um espeto? Ou será que os Urgals comem carne crua?
Garzhvog virou a cabeça e mirou Eragon através da espiral de seu chifre esquerdo, um olho profundamente amarelado brilhando com alguma enigmática emoção.
— Nós não somos animais selvagens, Espada de Fogo.
— Eu não disse que vocês eram.
Com um rosnado, o Urgal voltou ao seu trabalho.
— Vai demorar muito para grelhá-la em um espeto — disse Eragon.
— Eu pensei em fazer um cozido, e depois nós podemos fritar o resto sobre uma pedra.
— Cozido? Como? Não temos panela.
Garzhvog se abaixou e limpou a mão direita no chão, então removeu um material enrolado em forma de quadrado do saco em seu cinto e jogou para Eragon. Eragon tentou pegar, mas estava tão cansado que não conseguiu, e o objeto se chocou contra o chão. Parecia um pedaço extraordinariamente grande de pergaminho. Quando o pegou, o quadrado se abriu, e ele viu que o objeto tinha o formato de uma bolsa, talvez com uns cinquenta centímetros de largura por um metro de profundidade. A borda era reforçada com uma espessa tira de couro sobre a qual se encontravam anéis de metal costurados. Ele revirou o contêiner, impressionado pela maciez e pelo fato de que ele não continha nenhuma emenda.
— O que é isso? — perguntou.
— O estômago do urso que eu matei no ano em que ganhei meus primeiros chifres. Pendure em alguma estrutura ou coloque em um buraco, então encha com água e jogue pedras ferventes dentro. As pedras aquecem a água e o cozido fica gostoso.
— As pedras não queimam o estômago?
— Não queimaram até agora.
— Está enfeitiçado?
— Sem magia. Estômago forte. — Garzhvog respirava com força enquanto agarrava os quadris da corça e, com um único movimento, partia sua pélvis em dois. O esterno, ele separou usando a faca.
— Deve ter sido um urso grande — disse Eragon.
Garzhvog deixou escapar um ruído do fundo de sua garganta.
— Era maior do que eu, Matador de Espectros.
— Você também o matou com sua atiradeira?
— Eu asfixiei o urso com minhas mãos até ele morrer. Nenhuma arma é permitida quando você atinge a idade de provar sua coragem. — Garzhvog parou, sua faca enterrada até o cabo na carcaça. — A maioria não tenta matar um urso das cavernas. A maioria caça lobos ou cabritos monteses. Foi por isso que eu me tornei chefe de guerra e outros não.
Eragon o deixou preparando a carne e foi até a fogueira. Perto dela, cavou um buraco que alinhou com o estômago de urso, empurrando estacas entre os anéis de metal para segurar o estômago no lugar. Juntou dezenas de pedras do tamanho de uma maçã nas redondezas e as jogou no centro da fogueira. Enquanto esperava as pedras aquecerem, usou magia para encher dois terços do estômago de urso com água, e então moldou um par de tenazes a partir de galhos de um salgueiro jovem e pedaços de couro cru. Quando as pedras estavam em brasa, gritou:
— Estão prontas!
— Pode encher — replicou Garzhvog.
Usando as tenazes, Eragon extraiu a pedra mais próxima do fogo e a colocou dentro do contêiner. A superfície dá água explodiu em fumaça com o contato da pedra. Ele depositou mais duas no estômago de urso, e a água começou a borbulhar. Garzhvog aproximou-se e colocou dois punhados de carne na água, e então temperou o cozido com grandes pitadas de sal, que pegou no saco em seu cinto, e com diversos raminhos de alecrim, tomilho e outras hortaliças silvestres que encontrara ao acaso enquanto caçava. Em seguida, colocou um pedaço achatado de cascalho ao lado do fogo. Quando a pedra ficou quente, ele fritou fatias de carne sobre ela. Enquanto a comida cozinhava, Eragon e Garzhvog fizeram colheres a partir do toco onde Eragon deixara sua mochila.
Embora a fome fizesse crer que a demora era gigantesca, não se passaram mais do que alguns minutos até que o cozido estivesse pronto e os dois começassem a comer como dois lobos esfomeados. Eragon devorou duas vezes mais quantidade do que jamais imaginou ter devorado antes em sua vida, e o que não consumiu Garzhvog consumiu por ele, comendo o equivalente a seis homens grandes.
Depois disso, Eragon se deitou, aconchegando-se sobre os cotovelos, e mirou o brilho dos vaga-lumes que haviam aparecido ao longo da fileira de faias, realizando acrobacias abstratas no ar ao perseguirem uns aos outros. Em algum lugar, uma coruja piou, suave e profundamente. As primeiras estrelas pontilharam o céu purpúreo. Eragon mirava sem enxergar e pensava em Saphira e depois em Arya e depois em Arya e Saphira, e então fechou os olhos, uma desagradável palpitação formando-se atrás das têmporas.
Ouviu um som de estalo e, abrindo os olhos mais uma vez, viu que do outro lado do estômago vazio de urso, Garzhvog estava limpando seus dentes com a extremidade pontuda de um osso de coxa quebrado. Eragon desviou o olhar para os pés nus do Urgal – Garzhvog havia removido suas sandálias antes de começarem a refeição – e para sua surpresa reparou que ele possuía sete dedos em cada pé.
— Os anões têm o mesmo número de dedos que vocês — comentou ele.
Garzhvog espetou um pedaço de carne na fogueira.
— Eu não sabia disso. Eu nunca tive vontade de olhar para os pés de um anão.
— Você não acha estranho Urgals e anões terem catorze dedos ao passo que humanos e elfos têm dez?
Os lábios espessos de Garzhvog abriram-se no que parecia ser um rosnado.
— Nós não compartilhamos o sangue daqueles ratos de montanha sem chifres, Espada de Fogo. Eles têm catorze dedos e nós temos catorze dedos. Foi ideia dos deuses nos fazer dessa forma quando criaram o mundo. Não há outra explicação.
Eragon grunhiu em resposta e voltou a olhar para os vaga-lumes.
— Conte-me uma história apreciada por sua raça, Nar Garzhvog — disse, finalmente.
O Kull ponderou por um instante, e então removeu o osso da boca para dizer:
— Muito tempo atrás, viveu uma jovem Urgralga, e seu nome era Maghara. Tinha chifres que brilhavam como pedra polida, cabelos que chegavam à cintura e um riso que podia seduzir até os pássaros nas árvores. Mas ela não era bonita. Ela era feia. Em sua aldeia também vivia um macho que era muito forte. Ele havia matado diversos machos em combates e havia derrotado outros vinte e três. Mas embora seus feitos o houvessem deixado bastante famoso, ele ainda não havia escolhido uma companheira. Maghara desejava ser sua companheira, mas ele não olhava para ela porque ela era feia, e por causa da feiúra dela ele não via os vistosos chifres e o cabelo longo dela, e não ouvia o riso agradável que ela dava. Extremamente magoada por ele não olhar para ela, Maghara subiu até o cume da mais alta montanha da Espinha e clamou pela ajuda de Rahna. Rahna é a mãe de todos nós, e foi ela que inventou a tecelagem e a criação de animais, e foi ela que ergueu as montanhas Beor quando estava fugindo do grande dragão. Rahna, a dos Chifres de Ouro, respondeu a Maghara, e ela lhe perguntou por que a chamara. “Torne-me bela, Honrada Mãe, para que eu possa atrair o macho que desejo”, disse Maghara. E Rahna respondeu: “Você não precisa ser bela, Maghara. Você possui chifres vistosos e um cabelo longo e um riso agradável. Com tudo isso, você pode conseguir um macho que não seja tão tolo a ponto de só enxergar o rosto de uma fêmea.” E Maghara jogou-se no chão e disse: “Não serei feliz até conseguir aquele macho, Honrada Mãe. Por favor, torne-me bela.” Rahna sorriu e então disse: “Se eu fizer isso, filha, como você vai me pagar esse favor?” E Maghara disse: “Eu vou lhe dar tudo o que quiser.”
“Rahna ficou bastante satisfeita com a oferta e então fez com que Maghara ficasse bela; Maghara retornou à aldeia e todos ficaram maravilhados com sua beleza. Com seu novo rosto, Maghara se tornou a companheira do macho que havia escolhido, e eles tiveram muitos filhos, e viveram felizes por sete anos. Então, Rahna apareceu para Maghara e disse: ‘Você teve sete anos com o macho que escolheu. Você aproveitou?’ E Maghara disse: ‘Aproveitei.’ E Rahna disse: ‘Então estou aqui pelo meu pagamento.’ E ela deu uma olhada ao redor da casa de pedra e pegou o filho mais velho de Maghara e disse: ‘Vou ficar com ele.’ Maghara implorou para que Ela, dos Chifres de Ouro, não levasse seu filho mais velho, mas Rahna não aceitava. Finalmente, Maghara pegou o porrete de seu companheiro e golpeou Rahna, mas o porrete despedaçou em suas mãos. Como punição, Rahna retirou a beleza de Maghara e então foi embora com o filho de Maghara para sua morada, onde habitam os quatro ventos, e ela deu o nome de Hegraz ao garoto e o criou para se tornar um dos mais poderosos guerreiros que jamais pisou nessas paragens. E então devemos aprender a partir de Maghara que jamais podemos lutar contra nosso destino porque perderemos o que é mais caro a nós.”
Eragon observou o brilho da lua crescente surgindo acima do horizonte a leste.
— Conte-me alguma coisa sobre suas aldeias.
— O quê?
— Qualquer coisa. Eu experimentei centenas de lembranças quando estava em sua mente, e na de Khagra e na de Otvek, mas só consigo me lembrar de algumas e mesmo assim de modo imperfeito. Estou tentando entender o que vi.
— Há muitas coisas que eu poderia lhe contar — trovejou Garzhvog. Com os olhos pesados pensativos, ele colocou seu palito de dente improvisado em uma das garras. — Nós pegamos toras de madeira, e as entalhamos com rostos de animais das montanhas e depois as fincamos nas entradas de nossas casas para afugentar os espíritos da natureza. Às vezes, as estacas parecem estar quase vivas. Quando você entra em uma de nossas aldeias, sente o olhar de todos os animais entalhados o observando... — O osso descansou um pouco nos dedos do Urgal, e então recomeçou seu movimento para a frente e para trás. — No umbral de cada cabana, penduramos o namna. É um pedaço de tecido do tamanho de minha mão estendida. Os namna são intensamente coloridos e os estilos representam as histórias das famílias que moram em cada cabana. Só é permitido às tecelãs mais velhas e mais habilidosas acrescentar algo a um namna, ou tecer novamente um deles se ficar estragado... — O osso desapareceu no interior do punho de Garzhvog. — Durante os meses de inverno, as que possuem um companheiro trabalham com eles tecendo os tapetes de lareira. Leva pelo menos cinco anos para terminar um tapete como esse, então quando acaba o trabalho, você sabe se escolheu um bom companheiro.
— Eu jamais estive em uma de suas aldeias — comentou Eragon. — Elas devem ser bem escondidas.
— Bem escondidas e bem defendidas. Poucos que veem nossos lares vivem para contar.
Focalizando o Kull e permitindo que uma pontinha de aspereza ressaltasse em sua voz, Eragon perguntou:
— Como foi que você aprendeu essa língua, Garzhvog? Viveu algum humano com vocês? Vocês mantinham alguns de nós como escravos?
Garzhvog retornou o olhar de Eragon sem recuar.
— Nós não temos escravos, Espada de Fogo. Eu arranquei o conhecimento das mentes dos homens que combati e compartilhei com o restante da tribo.
— Você matou muitos humanos, não matou?
— Você matou muitos Urgralgra, Espada de Fogo. É por isso que nós precisamos ser aliados. Do contrário minha tribo não sobreviverá.
Eragon cruzou os braços.
— Quando Brom e eu estávamos rastreando os Ra’zac, nós passamos por Yazuac, uma aldeia perto do rio Ninor. Nós encontramos todas as pessoas empilhadas no centro da aldeia, mortas, e um bebê preso na ponta de uma lança no topo da pilha. Foi a pior coisa que vi na minha vida. E foram Urgals que mataram aquelas pessoas.
— Antes de adquirir meus chifres — disse Garzhvog —, meu pai me levou para visitar uma de nossas aldeias ao longo da margem oeste da Espinha. Nós encontramos nosso povo torturado, queimado e chacinado. Os homens de Narda haviam tomado conhecimento de nossa presença e surpreenderam a aldeia com muitos soldados. Ninguém de nossa tribo sobreviveu... É verdade que nós adoramos a guerra muito mais do que outras raças, Espada de Fogo, e que isso já nos arruinou muitas vezes antes. Nossas mulheres jamais aceitariam um macho como companheiro a não ser que ele lute e mate três adversários. E existe uma alegria na batalha que não se assemelha a nenhuma outra. Mas, embora nosso povo adore a luta, isso não significa que não estejamos cientes de nossos erros. Se nossa raça não puder mudar, Galbatorix nos matará se derrotar os Varden, e você e Nasuada nos matarão se derrotarem aquele traidor com língua de cobra. Não estou certo, Espada de Fogo?
Eragon torceu o queixo em concordância.
— Está.
— Não adianta nada, então, remoer erros do passado. Se nós não pudermos perdoar o que nossas raças fizeram no passado, jamais haverá paz entre humanos e os Urgralgra.
— Como nós devemos tratar vocês, então, se nós vencermos Galbatorix e Nasuada der a vocês a terra que pediram e, daqui a vinte anos, suas crianças começarem a matar e saquear para conquistar companheiras? Se você conhece sua própria história, Garzhvog, então sabe que sempre foi assim quando os Urgals assinaram tratados de paz.
Com um suspiro profundo, Garzhvog retrucou:
— Então nós vamos esperar que ainda existam Urgralgra do outro lado do oceano e que eles sejam mais inteligentes do que nós, porque nós não mais existiremos aqui.
Nenhum dos dois falou mais naquela noite. Garzhvog enroscou-se de lado e dormiu com sua gigantesca cabeça sobre o chão enquanto Eragon enrolou-se em sua capa, sentou encostado no cepo e mirou as estrelas moverem-se lentamente, imergindo e emergindo de seu sonhar acordado.


Ao final do dia seguinte, eles já podiam avistar as montanhas Beor. Inicialmente, não passavam de formas fantasmagóricas no horizonte, facetas oblíquas tingidas de branco e púrpura, mas quando a noite se aproximou a paisagem distante adquiriu substância, e Eragon foi capaz de distinguir a negrura das árvores ao sopé das montanhas e, acima disso, a grande extensão de neve brilhante e gelo e, ainda mais acima, os próprios picos de pedra acinzentados e desertos, porque eram tão altos que nenhuma planta crescia sobre eles e neve alguma caía ali.
Como da primeira vez em que as vira, o tamanho assoberbante das montanhas Beor impressionou Eragon. Seus instintos tentavam convencê-lo de que nada tão imenso podia existir, mas, mesmo assim ele sabia que seus olhos não podiam estar enganando-o. As montanhas tinham em média dezesseis mil metros e alguns picos atingiam alturas superiores a essa.
Eragon e Garzhvog não pararam naquela noite. Continuaram correndo durante as horas de escuridão e durante o dia seguinte. Quando a manhã chegou, o céu ficou brilhante, mas, devido às montanhas Beor, foi preciso esperar até quase o meio-dia para que o sol finalmente surgisse por entre os dois picos e raios de luz tão amplos quantos as próprias montanhas se espalhassem sobre a região, que até aquele momento estava imersa no estranho crepúsculo de sombras. Então, Eragon parou na margem de um córrego e contemplou a vista em silencioso encanto por vários minutos.
À medida que ladeavam a vasta cadeia de montanhas, a jornada dos dois começava a parecer a Eragon desconfortavelmente familiar à sua viagem de Gil’ead até Farthen Dûr com Murtagh, Saphira e Arya. Pensou inclusive haver reconhecido o local onde haviam acampado depois de cruzar o deserto Hadarac.
Os longos dias e as noites ainda mais longas passavam ao mesmo tempo com uma lentidão lancinante e uma velocidade surpreendente, já que cada hora era idêntica à última, o que fazia Eragon ter a contraditória sensação de que não apenas o ordálio dos dois jamais terminaria como também que grandes partes deste desafio jamais haviam ocorrido. Quando ele e Garzhvog chegaram à entrada da grande fenda que separava a cadeia de montanhas por muitos quilômetros de norte a sul, viraram à direita e passaram entre os frios e indiferentes picos. Chegando ao rio Dente-de-Urso – que fluía pelo estreito vale que levava a Farthen Dûr – vadearam as águas frígidas e continuaram na direção do sul.
Naquela noite, antes de seguirem para leste, para as montanhas propriamente ditas, acamparam perto de uma pequena fonte e descansaram as pernas. Garzhvog matou outro veado com a atiradeira – dessa vez um gamo – e ambos comeram. Com a fome saciada, Eragon estava debruçado remendando um buraco em sua bota quando ouviu um uivo assustador que acelerou sua pulsação.
Deu uma olhada ao redor da paisagem escurecida e, para aumentar ainda mais sua preocupação, viu a silhueta de um enorme animal galopando sobre o leito de pedras da fonte.
— Garzhvog — disse Eragon com voz baixa, e se aproximou da mochila para pegar sua cimitarra.
Pegando no chão uma pedra do tamanho de um punho, o Kull a colocou no compartimento de couro de sua atiradeira e então, erguendo-se o máximo que pôde, abriu sua bocarra e bramiu para a noite até que a região vibrasse com os ecos de seu desafio.
O animal parou, então continuou com um ritmo mais lento, farejando o chão aqui e ali. Quando transpôs o círculo da fogueira, a respiração de Eragon ficou presa na garganta. Parado diante deles estava um lobo cinzento tão grande quanto um cavalo, com presas iguais a sabres e flamejantes olhos amarelos que seguiam todos os movimentos deles. As patas do lobo eram do tamanho de escudos. Um Shrrg!, pensou Eragon.
Quando o lobo gigante circundou o acampamento, movendo-se quase silenciosamente apesar de seu enorme tamanho, Eragon pensou nos elfos, em como eles lidariam com um animal selvagem, e na língua antiga pronunciou: “Irmão Lobo, não queremos lhe fazer nenhum mal. Nessa noite descansamos e não caçamos. Você está convidado a compartilhar de nossa comida e do conforto de nosso covil até amanhã de manhã.” O Shrrg parou, e suas orelhas se moveram para a frente ao ouvir a língua antiga.
— Espada de Fogo, o que está fazendo? — rosnou Garzhvog.
— Não ataque a não ser que ele ataque.
O animal de ombros, largos entrou lentamente no acampamento deles, a ponta de seu enorme focinho úmido avaliando tudo. O lobo aproximou sua cabeça rude do fogo, aparentemente curioso a respeito das chamas distorcidas, e então foi em direção aos pedaços de carne e de vísceras espalhados no local onde Garzhvog havia retalhado o gamo. Agachando-se, o lobo abocanhou os pedaços de carne e então se levantou e, sem olhar para trás, sumiu nas profundezas da noite.
Eragon relaxou e embainhou a cimitarra. Garzhvog, entretanto, permaneceu parado onde estava, seus lábios formando uma careta, olhando e ouvindo em busca de qualquer coisa anormal na escuridão circundante.


Ao primeiro brilho da manhã, Eragon e Garzhvog saíram do acampamento e correram em direção ao leste, entrando no vale que os levaria até o monte Thardûr. Ao passarem embaixo dos galhos da densa floresta que guardava o interior da cadeia de montanhas, o ar ficou notavelmente mais fresco e o suave leito de folhas no chão abafava suas pegadas. As árvores altas, escuras e sombrias que assomavam diante deles pareciam observá-los enquanto percorriam o caminho por entre os espessos troncos e em torno de raízes retorcidas que brotavam do chão de terra úmida, com alturas que chegavam a mais de um metro. Grandes esquilos pretos corriam pelos galhos em balbúrdia. Uma grossa camada de musgo decalcava os cadáveres das árvores que haviam caído. Samambaias, framboesas e outras plantas de folhas verdes floresciam ao lado de cogumelos de todo formato, tamanho e cor.
O mundo ficava mais estreito quanto mais Eragon e Garzhvog penetravam no longo vale. As montanhas gigantescas quase os esmagavam de ambos os lados, opressivas devido ao tamanho, e o céu era uma distante e inalcançável faixa de azul-marinho, o céu mais alto que Eragon jamais vira. Umas poucas e magras nuvens massageavam os ombros das montanhas.
Em torno de uma hora após o meio-dia, Eragon e Garzhvog diminuíram o ritmo quando uma série de terríveis rugidos ecoou entre as árvores. Eragon desembainhou a espada e Garzhvog pegou uma pedra no chão e a colocou na atiradeira.
— É um urso das cavernas — disse Garzhvog. Um guincho agudo e furioso, similar ao barulho de metal contra metal, acompanhou sua colocação. — E Nagra. Devemos ter cuidado, Espada de Fogo.
Eles seguiram em passos lentos e logo avistaram os animais dezenas de metros acima de uma encosta na montanha. Uma manada de javalis avermelhados, com presas espessas e afiadas, rodopiava em meio a um alarido de guinchos na frente de uma enorme massa de pelos marrons brilhantes, com garras em gancho e dentes à mostra, que se movia a uma velocidade aterradora.
A princípio, a distância enganou Eragon, mas logo comparou os animais às árvores a seu lado e percebeu que cada javali faria de um Shrrg um anão e que o urso era quase tão grande quanto uma casa no vale Palancar. Os javalis haviam sangrado os flancos do urso das cavernas, mas aquilo parecia estar apenas enraivecendo o animal. Voltando-se sobre as patas traseiras, o urso rugiu e atingiu um dos javalis com a garra gigantesca, jogando-o para o lado e rasgando seu pelo. Três vezes o javali tentou se erguer e três vezes o urso das cavernas o golpeou, até que finalmente o javali desistiu e ficou no chão. Quando o urso se inclinou para comer, o restante da barulhenta manada fugiu para baixo das árvores e se dirigiu para o alto das montanhas e para longe do urso.
Impressionado com a força do animal, Eragon seguiu Garzhvog quando o Urgal lentamente saiu do campo de visão do urso. Erguendo seu focinho carmim da barriga de sua presa, o urso observou-os com olhos pequenos e redondos, e então aparentemente decidiu que não eram nenhuma ameaça e recomeçou a comer.
— Acho que nem mesmo Saphira conseguiria superar tal monstro — murmurou Eragon.
Garzhvog deu um pequeno grunhido.
— Ela solta fogo. Um urso, não.
Nenhum dos dois tirou os olhos do urso até o animal ser escondido pelas árvores, mas, mesmo assim, mantiveram as armas a postos, sem saber que outros perigos poderiam encontrar.
O dia se transformara em tarde quando perceberam outro som: riso.
Eragon e Garzhvog pararam, e então Garzhvog ergueu um dedo e, com espantosa discrição, penetrou em um matagal, seguindo o som do riso. Pisando com cuidado, Eragon foi junto com o Kull, contendo a respiração por temer que o ruído traísse sua presença.
Olhando através de um emaranhado de folhas de corniso, Eragon descobriu uma trilha bem construída aos pés do vale. E perto da trilha, três crianças anãs brincavam jogando gravetos uns nos outros e dando gargalhadas. Nenhum adulto estava visível.
Eragon retirou-se para uma distância segura, suspirou e estudou o céu, onde avistou diversas nuvenzinhas de fumaça talvez uns dois quilômetros vale acima. Um galho quebrou quando Garzhvog se agachou perto dele, de modo que ficassem nivelados.
— Espada de Fogo, aqui nos separamos — informou Garzhvog.
— Você não vai até a Fortaleza Bregan comigo?
— Não. Minha tarefa era mantê-lo a salvo. Se eu for, os anões não confiarão em você como deveriam. O monte Thardûr está bem próximo e eu tenho certeza de que ninguém ousará agredi-lo no caminho até lá.
Eragon coçou a nuca e olhou para trás e depois para a frente entre Garzhvog e a fumaça a leste dos dois.
— Você vai voltar correndo direto para os Varden?
— Vou, mas talvez não com a mesma rapidez com que viemos para cá — Garzhvog respondeu com um riso discreto.
Sem ter certeza sobre o que dizer, Eragon chutou a extremidade podre de um pedaço de madeira e expôs uma colônia de larvas brancas que rastejavam para seus túneis.
— Veja se não vai deixar um Shrrg ou um urso comê-lo, ouviu? Senão eu vou ter de rastrear o bicho e matá-lo, e eu não tenho tempo para isso.
Garzhvog pressionou os dois pulsos contra a cabeça ossuda.
— Que seus inimigos se acovardem diante de você, Espada de Fogo.
Levantando-se e se virando, Garzhvog se afastou de Eragon. A floresta logo escondeu a corpulenta silhueta do Kull.
Eragon encheu os pulmões com o ar fresco da montanha e seguiu caminho através do matagal. Quando surgiu do meio dos densos galhos de cornisos, as minúsculas crianças anãs ficaram petrificadas, a expressão de seus rostinhos redondos demonstrando cautela.
— Sou Eragon, Matador de Espectros, filho de ninguém — Eragon anunciou, com as mãos visíveis. — Procuro Orik, filho de Thrifk, na Fortaleza Bregan. Vocês podem me levar até ele? — Como as crianças não responderam, percebeu que elas não compreendiam nada da sua língua. — Sou um Cavaleiro de Dragão — informou, falando lentamente e enfatizando as palavras. — Eka eddyr aí Shur’tugal... Shur’tugal... Argetlam.
Ao ouvir aquilo, os olhos das crianças brilharam e suas bocas ficaram redondas de assombro.
— Argetlam! — exclamaram elas. — Argetlam!
E correram e se jogaram sobre ele, envolvendo seus braços curtos em suas pernas e puxando sua roupa, gritando de alegria o tempo todo.
Eragon olhou para elas, sentindo um risinho tolo percorrer seu rosto. As crianças agarraram suas mãos, e ele permitiu que elas o puxassem pela trilha. Apesar de ele não entender nada, as crianças continuavam a falar sem parar na língua anã, contando para ele tudo o que não sabia. Todavia, ele estava gostando de ouvi-las. Quando uma das crianças – uma garota, pensou ele – esticou seus braços em sua direção, ele a ergueu e a colocou sobre os ombros, e estremeceu quando ela agarrou um punhado de seus cabelos. Ela riu, um riso alto e doce, o que o fez sorrir também. Assim equipado e acompanhado, Eragon seguiu caminho até o monte Thardûr e de lá até a Fortaleza Bregan e seu irmão postiço, Orik.

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