3 de junho de 2017

Capítulo 26 - Pegadas de sombra

Com uma série de saltos ligeiros, Saphira atravessou o acampamento levando Eragon até a tenda de Roran e Katrina. Do lado de fora, Katrina estava lavando uma camisola num balde de água ensaboada, esfregando o tecido branco numa tábua provida de sulcos. Levantou a mão para proteger os olhos quando uma nuvem de poeira do pouso de Saphira veio na sua direção. Roran saiu da tenda, afivelando o cinto. Tossiu e semicerrou os olhos na poeira.
— O que o traz aqui? — perguntou, quando Eragon desmontou.
Falando rápido, Eragon os informou da sua partida iminente e transmitiu a importância do segredo entre outros aldeões.
— Por mais que eles se sintam rejeitados por eu me recusar a recebê-los, vocês não poderão lhes revelar a verdade, nem mesmo a Horst ou Elain. Deixem que pensem em mim como um grosseirão rude e ingrato, mas não pronunciem nem uma palavra sequer a respeito do plano de Nasuada. Isso eu lhes peço em nome de todos que já se dispuseram a combater o Império. Vocês concordam?
— Nós nunca o trairíamos, Eragon — disse Katrina. — Disso, você não precisa ter dúvida.
E então Roran disse que também estava de partida.
— Para onde? — perguntou Eragon.
— Acabei de receber minha missão há poucos minutos. Vamos fazer ataques-surpresa aos comboios de suprimentos do império, em algum ponto ao norte, por trás das linhas do inimigo.
Eragon olhou para eles três, cada um por sua vez. Primeiro, Roran, sério e determinado, já tenso com a expectativa do combate; depois, Katrina, preocupada e procurando disfarçar; e, por fim, Saphira, de cujas narinas bruxuleavam pequenas línguas de fogo, que crepitavam com sua respiração.
— Portanto, nós todos vamos seguir cada um seu caminho. — O que ele não disse, mas que pairava sobre eles como uma mortalha, era que talvez nunca mais se vissem com vida.
Segurando Eragon pelo antebraço, Roran o puxou para perto e o abraçou por um instante. Soltou-o, então, e olhou no fundo dos seus olhos.
— Muita cautela, irmão. Galbatorix não é o único que gostaria de lhe enfiar uma faca entre as costelas quando você não estiver olhando.
— Aja da mesma forma, Roran. E, se você se descobrir enfrentando um feiticeiro, fuja na outra direção. As proteções que instalei em torno de você não vão durar para sempre.
Katrina abraçou Eragon, sussurrando:
— Não demore demais.
— Não vou demorar.
Juntos, Roran e Katrina se aproximaram de Saphira e tocaram com a testa seu focinho longo e ossudo. O peito do dragão vibrou quando produziu uma nota pura e grave do fundo da garganta.
Lembre-se, Roran, disse ela, não cometa o erro de deixar seus inimigos vivos. E Katrina? Não fique remoendo aquilo que você não tem como mudar. Isso só vai agravar sua aflição.
Com um farfalhar de pele e escamas, Saphira desdobrou as asas e envolveu Roran, Katrina e Eragon num abraço carinhoso, isolando-os do mundo.
Quando Saphira ergueu as asas, Roran e Katrina se afastaram enquanto Eragon subiu para seu dorso. Ele acenou para os recém-casados, com um aperto na garganta, e continuou acenando mesmo quando Saphira alçou voo.
Piscando para desanuviar os olhos, Eragon encostou-se ao espinho logo atrás dele e olhou para o céu inclinado.
Agora para as tendas da cozinha?, perguntou Saphira.
Isso mesmo.
Saphira subiu algumas dezenas de metros antes de se dirigir para o quadrante sudoeste do acampamento, onde colunas de fumaça subiam de fileiras de fornos e de fogueiras grandes e largas armadas em buracos no chão. Uma fina corrente de ar passou pelos dois quando ela desceu planando em direção a um trecho de chão livre entre duas tendas sem paredes, cada uma com quinze metros de comprimento. A refeição da manhã tinha terminado. Por isso, as tendas estavam vazias quando Saphira pousou com um forte baque.
Eragon seguiu apressado até as fogueiras para lá das mesas de tábuas, com Saphira ao lado. As muitas centenas de homens ocupados cuidando das fogueiras, cortando carne, abrindo ovos, amassando pão, mexendo em caldeirões cheios de líquidos misteriosos, limpando com esfregões pilhas enormes de panelas e utensílios sujos e engajados de várias maneiras na tarefa imensa e interminável de preparar comida para os Varden não pararam o que estavam fazendo para olhar boquiabertos para Eragon e Saphira. Que importância podiam ter dragão e Cavaleiro em comparação com as exigências implacáveis da criatura voraz de inúmeras bocas cuja fome eles se esforçavam para saciar?
Um homem atarracado, com a barba grisalha bem aparada, que era tão baixo que quase poderia passar por anão, veio correndo até Eragon e Saphira e fez uma reverência rápida.
— Sou Quoth Merrinsson. Em que posso ajudá-los? Se quiser, Matador de Espectros, temos pão que acabou de sair do forno. — Ele indicou uma dupla fileira de pães caseiros, dispostos numa travessa numa mesa próxima.
— Eu poderia ficar com meio pão, se não fizer falta — disse Eragon. — Mas o motivo para nossa visita não é a minha fome. Saphira gostaria de comer alguma coisa, e não temos tempo para ela caçar como é seu costume.
Quoth olhou para além de Eragon e avaliou o volume de Saphira, o que o fez empalidecer.
— Normalmente, que quantidade ela... Ah, quer dizer, que quantidade você come normalmente, Saphira? Posso servir seis peças de rosbife imediatamente, e mais seis estarão prontas em cerca de quinze minutos. Isso será suficiente ou...? — A proeminência no seu pescoço deu um salto quando engoliu em seco.
Saphira emitiu um rosnado baixo, murmurante, que fez com que Quoth desse um gritinho e pulasse para trás.
— Ela preferiria um animal vivo, se for conveniente — disse Eragon.
— Conveniente? — disse Quoth, com a voz aguda. — Ah, sim, é conveniente. — Ele balançou a cabeça, retorcendo o avental com as mãos engorduradas. — De fato, muito conveniente, Matador de Espectros, Saphira. Com isso, a mesa do rei Orrin não se ressentirá hoje à tarde. Não, mesmo.
E um barril de hidromel, disse Saphira a Eragon. Círculos brancos surgiram em torno das íris de Quoth quando Eragon repetiu o pedido de Saphira.
— Lamento, mas os anões compraram a maior parte das nossas reservas de hi-hi-hidromel. Restam-nos apenas alguns barris, e esses estão reservados para o rei... — Quoth se encolheu quando uma labareda de um metro e vinte centímetros saltou das narinas de Saphira e chamuscou o capim diante dele. Filetes espiralados de fumaça subiram dos talos enegrecidos. — V-v-vou mandar que lhe tragam um barril imediatamente. Se quiserem m-m-me acompanhar, eu os levarei aos nossos animais, onde você poderá escolher o que quiser.
Contornando as fogueiras, as mesas e os grupos de homens atarefados, o cozinheiro os levou até um aglomerado de grandes cercados de madeira, que continham porcos, gado, gansos, cabritos, carneiros, coelhos e uma quantidade de cervos que os caçadores dos Varden tinham capturado em expedições pela floresta ao redor. Junto dos cercados havia também viveiros cheios de galinhas, patos, pombos, codornas, tetrazes e outras aves. Seus grasnidos, gorjeios, arrulhos e cacarejos produziam uma cacofonia tão forte que fez Eragon ranger os dentes de irritação. Para evitar ser dominado pelos pensamentos e sensações de tantas criaturas, ele teve o cuidado de manter sua mente fechada para todos com exceção de Saphira.
Os três pararam a uns trinta metros dos cercados para que a presença de Saphira não causasse pânico entre os animais presos.
— Há ali algum que a agrade? — perguntou Quoth, olhando para o alto para ela e esfregando as mãos, com uma agilidade nervosa.
Enquanto observava os cercados, Saphira fungou e disse a Eragon: Que presas dignas de pena... Sabe que no fundo não estou com fome. Fui caçar anteontem, e ainda não digeri os ossos do cervo que comi.
Você ainda está em crescimento rápido. Alimentar-se vai lhe fazer bem.
Não se eu não conseguir aguentar comer. Escolha alguma coisa pequena, então. Talvez um porco.
Um porco dificilmente teria alguma utilidade para você. Não... Vou querer aquela ali.
De Saphira, Eragon recebeu a imagem de uma vaca de estatura média com umas manchas brancas salpicadas no flanco esquerdo. Depois que Eragon indicou a vaca, Quoth deu um grito para uma fileira de homens que estavam à toa perto dos cercados. Dois deles separaram a vaca do resto do rebanho, passaram uma corda pelo seu pescoço e puxaram o animal relutante em direção a Saphira. A uns dez metros do dragão, a vaca empacou e mugiu apavorada tentando se livrar da corda para fugir. Antes que o animal escapasse, Saphira atacou, transpondo aos saltos a distância que as separava. Os dois homens que vinham puxando a corda se jogaram de bruços no chão enquanto Saphira chegava veloz, com a boca aberta.
Ela atingiu a vaca de lado quando esta se virava para correr, derrubou-a no chão e a imobilizou com as patas abertas. A vaca soltou um único berro aterrorizado antes que os maxilares de Saphira se fechassem sobre seu pescoço. Com uma violenta sacudida da cabeça, Saphira partiu sua espinha. Parou então, abaixou-se sobre a presa morta e olhou com expectativa para Eragon. De olhos fechados, Eragon estendeu sua mente na direção da vaca. A consciência do animal já tinha desaparecido na escuridão, mas seu corpo ainda estava vivo, sua carne palpitando com energia motriz, que era ainda mais intensa em razão do medo que a tinha percorrido momentos antes. Uma repugnância pelo que estava prestes a fazer tomou conta de Eragon, mas ele não lhe deu atenção e, pondo a mão sobre o cinto de Beloth, o Sábio, transferiu a energia que pôde do corpo da vaca para os doze diamantes ocultos em torno da sua cintura. O processo durou apenas alguns segundos. Ele fez que sim para Saphira. Terminei.
Eragon agradeceu aos homens o auxílio prestado; e então os dois se foram deixando-o sozinho com Saphira. Enquanto Saphira se empanturrava, Eragon ficou sentado encostado no barril de hidromel, observando os cozinheiros no desempenho de suas tarefas. Cada vez que eles ou um dos auxiliares decapitava uma galinha, degolava um porco, uma cabra ou qualquer outro animal, Eragon transferia a energia do animal moribundo para o cinto de Beloth, o Sábio. Um trabalho sinistro, já que a maioria dos animais ainda estava consciente quando ele lhes tocava a mente, e o vendaval uivante de medo, confusão e dor que sentiam o agredia até fazer bater forte seu coração, o suor porejar na sua testa e ele não ter vontade de mais nada a não ser curar as criaturas em sofrimento. No entanto, Eragon sabia que seu destino era morrer para que os Varden não morressem de fome.
Durante os últimos combates, sua reserva de energia havia sido esgotada, e ele queria reabastecê-la antes de partir numa viagem longa e potencialmente arriscada. Se Nasuada permitisse sua permanência entre os Varden por mais uma semana, ele poderia ter realimentado os diamantes com energia do seu próprio corpo e ainda teria tempo para se recuperar antes de correr até Farthen Dûr, mas isso era impossível nas poucas horas que tinha. E, mesmo que não fizesse nada além de se deitar no catre e derramar nas pedras preciosas o fogo dos seus membros, não teria conseguido acumular tanta força como estava reunindo a partir de uma multidão de animais.
Como os diamantes no cinto de Beloth, o Sábio, pareciam poder absorver uma quantidade quase ilimitada de energia, Eragon parou quando não conseguiu suportar a morte de mais um animal que fosse. Trêmulo e molhado de suor dos pés à cabeça, inclinou-se para a frente, com as mãos nos joelhos, e olhou para o chão entre os pés, lutando para não passar mal. Lembranças que não eram suas invadiram seus pensamentos. Recordações de Saphira em voo acima do lago Leona, com ele no dorso, de quando mergulharam na água fria e cristalina, de uma nuvem de bolhas brancas passando borbulhantes por eles, do prazer compartilhado de voar, nadar e brincar juntos. Sua respiração se acalmou, e ele olhou para Saphira ali, onde ela estava em meio aos restos da presa, mastigando o crânio da vaca. Ele sorriu e lhe transmitiu sua gratidão pela ajuda.
Podemos ir agora, disse ele.
Engolindo, ela respondeu: Pegue minha força também. Você pode precisar.
Não.
Esta é uma discussão que você não vai ganhar. Eu insisto.
E eu resisto. Não vou deixá-la aqui enfraquecida e incapacitada para o combate. E se Murtagh e Thorn atacarem mais tarde, ainda hoje? Nós dois precisamos estar prontos para lutar a qualquer instante. Você estará exposta a um perigo maior do que eu porque Galbatorix e o Império inteiro ainda acreditarão que estou com você.
É, mas você estará sozinho com um Kull no meio da floresta.
Estou tão acostumado à floresta quanto você. Estar longe da civilização não me assusta. Quanto a eu estar com um Kull, bem, não sei se eu conseguiria derrotar um num corpo-a-corpo, mas minhas proteções me resguardarão de qualquer traição... Tenho energia suficiente, Saphira. Você não precisa me dar mais.
Ela o observou, avaliando suas palavras, depois ergueu uma pata e começou a lambê-la para limpar o sangue.
Muito bem, vou me guardar... para mim mesma? Os cantos da sua boca pareceram subir numa expressão de divertimento. Baixando a pata, ela disse: Você faria a gentileza de rolar esse barril aqui para mim?
Com um resmungo, ele se levantou e fez o que ela pedia. Ela estendeu uma garra e fez dois furos no alto do barril, de onde emanou o doce aroma do hidromel de maçãs. Arqueando o pescoço para que sua cabeça ficasse diretamente acima do barril, ela o agarrou entre os maxilares vigorosos, levantou-o em direção ao céu e despejou goela abaixo o conteúdo gorgolejante.
O barril vazio se espatifou no chão quando ela o deixou cair, e um dos arcos de ferro rolou alguns metros. Com o lábio superior se encrespando, Saphira abanou a cabeça. Depois, sua respiração parou, e ela deu um espirro tão forte que seu nariz bateu no chão e uma bola de fogo irrompeu tanto da boca como das narinas. Eragon deu um grito de surpresa e pulou de lado, batendo na bainha fumegante da túnica. O lado direito do rosto dava a impressão de estar esfolado pelo calor do fogo.
Saphira, tenha mais cuidado!, advertiu ele.
Desculpe. Ela abaixou a cabeça e esfregou o focinho empoeirado na borda da perna dianteira, coçando as narinas. O hidromel me faz cócegas.
Ora, a esta altura você já devia saber se comportar melhor, resmungou ele, enquanto subia no seu dorso.
Depois de esfregar o focinho na perna mais uma vez, Saphira alçou voo de um salto e, planando acima do acampamento dos Varden, levou Eragon de volta à sua tenda. Ele desmontou e ficou ali, parado, olhando para Saphira. Por um tempo, não disseram nada, permitindo que suas emoções compartilhadas falassem por eles. Saphira piscou, e Eragon achou que seus olhos brilhavam mais do que o normal.
Esta é uma prova para nós, disse ela. Se passarmos, sairemos mais fortes, como dragão e Cavaleiro.
Precisamos saber funcionar isoladamente, se necessário. Do contrário, estaremos sempre em desvantagem.
É verdade.
Ela sulcou a terra, com as garras contraídas. Só que saber isso não colabora em nada para amenizar minha dor. Um tremor percorreu seu corpo sinuoso. Ela ajeitou as asas. Que ventos favoráveis o acompanhem e que o sol sempre guie seus caminhos. Viaje bem e viaje rápido, Pequenino.
Até a volta, disse ele.
Eragon sentiu que, se ficasse mais um instante com ela, nunca partiria. Por isso, girou nos calcanhares e, sem olhar para trás, mergulhou na escuridão da sua tenda. A ligação entre eles, que tinha se tornado parte tão integrante dele como a estrutura da sua própria carne, ele rompeu totalmente. Fosse como fosse, em breve, estariam distantes demais para um sentir a mente do outro, e ele não tinha desejo algum de prolongar a agonia da despedida.
Ficou parado por um instante, segurando o punho da cimitarra e oscilando como se estivesse tonto. A dor surda da solidão já o invadia, e ele se sentia pequeno e isolado sem a presença tranquilizadora da consciência de Saphira.
Eu fiz isso antes e posso fazer de novo, pensou, forçando-se a endireitar os ombros e levantar o queixo.
Tirou debaixo do catre a mochila que tinha preparado durante a viagem de volta de Helgrind. Nela, pôs o tubo de madeira entalhada, enrolado em pano, que continha o pergaminho do poema que havia escrito para o Agaetí Blödhren, copiado para ele por Oromis com sua caligrafia mais caprichada; o frasco de faelnirv encantado e a pequena caixa de pedra-sabão de nalgask que também eram presentes de Oromis; o grosso livro, Domia abr Wyrda, presente de Jeod; sua pedra de amolar e a correia de afiar lâminas; e, depois de alguma hesitação, as numerosas peças da sua armadura pois, segundo seu raciocínio: Se surgir a ocasião em que eu precise dela, ficarei mais feliz de tê-la comigo do que me sentirei desgraçado por carregá-la toda essa distância até Farthen Dûr. Era essa sua esperança.
O livro e o pergaminho ele levou porque, depois de tanto viajar, tinha concluído que a melhor maneira de preservar os objetos que importavam era levá-los junto aonde quer que fosse. As únicas peças de vestuário que decidiu levar a mais foram um par de luvas, que enfiou no elmo, e sua pesada capa de lã, para a eventualidade de estar frio quando parassem durante a noite. Tudo o mais ele deixou enrolado e guardado nos alforjes de Saphira.
Se sou mesmo membro do Dûrgrimst Ingeitum, pensou ele, eles vão me vestir condignamente quando eu chegar à Fortaleza Bregan.
Fechando a mochila, pôs transversalmente no alto o arco sem corda e a aljava, prendendo-os à estrutura. Estava prestes a fazer o mesmo com a cimitarra quando se deu conta de que, caso se inclinasse para um lado, a espada poderia sair da bainha. Por isso, amarrou-a com a face encostada na parte traseira da mochila, dispondo-a num ângulo no qual o punho ficasse entre seu pescoço e seu ombro direito, onde poderia sacá-la se necessário. Eragon pôs a mochila nas costas e então penetrou na barreira na sua mente, sentindo a energia aumentar no seu corpo e nos doze diamantes engastados no cinto de Beloth, o Sábio. Recorrendo a esse fluxo de força, murmurou o encantamento que usara apenas uma vez antes: aquele que dobrava os raios de luz em torno dele, tornando-o invisível. Uma leve fadiga enfraqueceu seus membros quando lançou o encantamento. Olhou para baixo e teve a experiência desconcertante de ver através de onde sabia que estavam seu torso e suas pernas e enxergar a marca das suas botas na terra ali embaixo.
Agora, vamos á parte difícil, pensou.
Nos fundos da tenda, cortou o tecido esticado com sua faca de caça e passou pela abertura. Lustroso como um gato bem alimentado, Blödhgarm estava esperando por ele do lado de fora. Inclinou a cabeça mais ou menos na direção de Eragon e sussurrou: “Matador de Espectros” para então dedicar sua atenção ao conserto do corte, o que fez com meia dúzia de palavras curtas proferidas na língua antiga.
Eragon seguiu entre duas fileiras de tendas, usando seu conhecimento de movimentação na floresta para causar o mínimo ruído possível. Sempre que alguém se aproximava, Eragon saía veloz do caminho e ficava imóvel, esperando que não percebessem as pegadas de sombra na terra ou no capim. Amaldiçoou o fato de a terra estar tão seca. Suas botas levantavam pequenas nuvens de poeira por mais que procurasse pisar delicadamente. Para sua surpresa, a invisibilidade prejudicava sua noção de equilíbrio. Sem poder ver onde estavam suas mãos ou seus pés, ele calculava mal as distâncias e dava encontrões nas coisas, quase como se tivesse bebido muita cerveja.
Apesar de seu avanço incerto, chegou à fronteira do acampamento num tempo razoavelmente bom e sem despertar suspeitas. Parou por trás de um barril de água de chuva, escondendo as pegadas ria sua sombra escura, e examinou os taludes de terra batida e os fossos cercados com estacas pontudas que protegiam o flanco oriental dos Varden. Se estivesse tentando entrar no acampamento, teria sido extremamente difícil evitar um dos muitos sentinelas que patrulhavam as defesas, mesmo estando invisível. Contudo, como as trincheiras e os taludes haviam sido projetados para repelir quem os atacasse e não para prender os defensores, atravessá-los no sentido contrário era uma tarefa muito mais fácil.
Eragon esperou até que os dois sentinelas mais próximos estivessem de costas para ele, e então avançou correndo, procurando ganhar velocidade com o uso dos braços. Em questão de segundos, transpôs os cerca de trinta metros que separavam o barril de água da chuva até a encosta do aterro e subiu a rampa tão rápido que se sentiu como uma pedra atirada para ricochetear na água.
No alto do aterro, fincou as pernas no chão e, sacudindo os braços, saltou por cima das linhas das defesas dos Varden. Pelo tempo de três pulsações, ele voou e então pousou com um impacto de abalar os ossos. Assim que recuperou o equilíbrio, Eragon se jogou ao comprido no chão e prendeu a respiração. Um dos sentinelas parou sua ronda, mas deu a impressão de não ter percebido nada fora do normal e, daí a um instante, retomou seu percurso.
— Du deloi lunaea — sussurrou Eragon, soltando a respiração e sentindo o encantamento apagar as marcas que suas botas tinham deixado no aterro.
Ainda invisível, levantou e se afastou correndo do acampamento, com o cuidado de pisar somente em trechos cobertos de capim para não levantar mais poeira. Quanto mais se afastava das sentinelas, mais rápido corria, até desenvolver uma velocidade maior do que a de um cavalo a galope. Quase uma hora depois, desceu em ziguezague a encosta íngreme de um barranco que o vento e a chuva tinham escavado na superfície das pradarias. Lá no fundo escorria um filete de água, margeado por juncos e tábuas. Ele prosseguiu acompanhando o curso da água, mantendo-se longe da terra macia e úmida das margens, na tentativa de evitar deixar rastros da sua passagem, até o córrego se alargar formando um remanso; e lá, junto da beira, viu o grande vulto de um Kull de peito nu, sentado numa rocha.
Quando Eragon abriu caminho através de uma moita de tábuas, o farfalhar das folhas alertou o Kull para sua presença. A criatura virou a impressionante cabeça chifruda na direção de Eragon, farejando. Era Nar Garzhvog, líder dos Urgals que tinham se aliado aos Varden.
— Você! — exclamou Eragon, tornando-se visível novamente.
— Saudações, Espada de Fogo — disse a voz retumbante de Garzhvog.
Levantando o peso dos braços grossos e do torso gigantesco, o Urgal atingiu sua altura total de mais de dois metros e meio, com os músculos cobertos de pele cinzenta formando ondulações à luz do sol de meio-dia.
— Saudações, Nar Garzhvog — disse Eragon, antes de perguntar, confuso: — E seus guerreiros? Quem vai liderá-los se você for comigo?
— Meu irmão de sangue, Skgahgrezh, será o líder. Ele não é Kull, mas tem chifres compridos e um pescoço vigoroso. É um excelente comandante.
— Entendo... Mas por que você quis vir comigo?
O Urgal empinou o queixo, expondo a garganta.
— Você é o Espada de Fogo. Para que nós, os Urgralgra... os Urgals, como vocês nos chamam... possamos nos vingar de Galbatorix e para que nossa espécie não morra nesta terra, você não pode morrer. Por isso, vou correr com você. Sou o melhor dos nossos guerreiros. Já derrotei quarenta e dois dos nossos.
Eragon concordou, nem um pouco insatisfeito com esse desdobramento. De todos os Urgals, Garzhvog era em quem ele mais confiava, pois tinha sondado a consciência do Kull antes da batalha da Campina Ardente e tinha descoberto que, pelos padrões da sua gente, Garzhvog era honesto e confiável. Desde que ele não decida que sua honra exige um desafio para um duelo, não devemos ter nenhum motivo para conflito.
— Muito bem, Nar Garzhvog — disse ele, apertando a correia da mochila em torno da cintura. — Vamos correr juntos, você e eu, como jamais aconteceu em toda a história de que se tem conhecimento.
Garzhvog reprimiu um riso no fundo do peito.
— Vamos correr, Espada de Fogo.
Juntos, voltaram-se para o leste e juntos partiram para as montanhas Beor, Eragon correndo leve e veloz, e Garzhvog galopando ao lado, dando um passo para cada dois de Eragon, com a terra estremecendo sob seu peso.
Lá no alto, gordas nuvens de tempestade iam se acumulando no horizonte, prenunciando uma tempestade torrencial, e falcões giravam, emitindo gritos solitários enquanto caçavam suas presas.

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