24 de junho de 2017

Capítulo 26 - Descoberta


Os três dias seguintes passaram depressa para Eragon, ao
contrário do resto dos Varden que continuavam mergulhados
em letargia. O impasse em relação a Dras-Leona arrastava-se
sem quaisquer alterações, embora se tivesse sentido alguma
excitação quando Thorn se mudou do seu posto costumeiro, por
cima dos portões da frente, para uma secção do baluarte, à direita,
a mais de cem metros de distância. Depois de muita discussão — e
de consultas extensivas a Saphira — Nasuada e os seus conselheiros
concluíram que Thorn mudara de poiso apenas por uma questão de
conforto, na medida em que a outra secção do baluarte era um
pouco mais plana e mais comprida. Tirando isso, o cerco
arrastava-se sem alterações.
Eragon passava as manhãs e as noites a estudar com Glaedr, e
as tardes a lutar com Arya e alguns dos outros Elfos. Os combates
com os Elfos não eram tão longos nem tão extenuantes como o
anterior com Arya — pois seria um disparate puxar tanto por si
todos os dias —, mas as sessões com Glaedr eram mais intensas do
que nunca. O velho dragão não se poupava a esforços para
melhorar a aptidão e o conhecimento de Eragon, e não fazia
cedências perante os erros ou o cansaço.
Eragon constatou com prazer que, finalmente, era capaz de se
aguentar nos combates com os Elfos, mas isso saía-lhe caro em
termos mentais, pois se a concentração vacilasse por um instante
que fosse, acabava com uma espada enterrada nas costelas ou
encostada à garganta.
Graças às lições com Glaedr, ele fez o que se poderia considerar
uma progressão exemplar, em circunstâncias normais. Porém,
atendendo à situação, tanto ele como Glaedr estavam frustrados
com o ritmo da sua aprendizagem.
No segundo dia, durante a lição da manhã com Glaedr, Eragon
disse em pensamento:
Mestre, quando cheguei aos Varden, em Farthen Dûr, os
Gémeos testaram-me — testaram o meu conhecimento da língua
antiga e da magia em geral.
Disseste isso a Oromis, porquê repeti-lo agora a mim?
Porque me ocorreu... os Gémeos pediram-me para invocar a
verdadeira forma de um anel de prata e, na altura, eu não sabia
como. Arya explicou-me mais tarde como conjurar a essência de
qualquer coisa ou de uma criatura na língua antiga. Contudo,
Oromis nunca falou nisso e eu estava aqui a pensar... porquê?
Glaedr pareceu suspirar.
Invocar a verdadeira forma de um objeto é um tipo de magia
difícil. Para que resulte, tens de perceber tudo o que é importante
acerca do objeto em questão — tal como quando queres adivinhar o
verdadeiro nome de uma pessoa ou de um animal. Além disso, não
tem grande valor prático e é perigoso, muito perigoso. O feitiço não
pode ser estruturado como um processo contínuo que possas
terminar a qualquer momento. Ou és bem-sucedido a invocar a
verdadeira forma de um objeto... ou falhas e morres. Oromis não
tinha razão para te mandar fazer algo tão arriscado.
Eragon estremeceu interiormente, ao perceber como Arya devia
ter ficado furiosa com os Gémeos para invocar a verdadeira forma
do anel que eles tinham. Depois disse:
Gostaria de o tentar agora.
Eragon sentiu todo o poder da atenção de Glaedr concentrado
em si.
Porquê?
Preciso de saber se tenho esse nível de entendimento, mesmo
que seja apenas em relação a uma coisa pequena.
Mais uma vez: Porquê?
Incapaz de o explicar por palavras, Eragon verteu as suas
emoções e pensamentos confusos na consciência de Glaedr.
Quando terminou, Glaedr silenciou durante algum tempo, enquanto
digeria o fluxo de informação.
Estarei errado se disser, começou por dizer o dragão, que
equiparas isso à derrota de Galbatorix? Que acreditas que se
sobreviveres a isso, talvez consigas derrotar o rei?
Sim, disse Eragon, aliviado. Não tinha conseguido expressar a
sua motivação tão claramente como o dragão, mas era exatamente
isso.E você está determinado a fazer isso?
Sim, Mestre.
Isso pode matar-te, lembrou-lhe Glaedr.
Eu sei.
Eragon!, exclamou Saphira debilmente, dentro da sua cabeça.
Saphira andava a sobrevoar o acampamento, a grande altitude,
atenta a possíveis perigos, enquanto ele estudava com Glaedr. É
demasiado perigoso. Eu não vou permitir.
Eu tenho de fazer isto, respondeu ele, brandamente.
Dirigindo-se a Saphira e também a Eragon, Glaedr disse:
Se ele insiste, é preferível que o faça onde eu o possa observar.
Se o seu conhecimento falhar talvez eu seja capaz de lhe fornecer a
informação necessária e salvá-lo.
Saphira rosnou — um rosnido furioso e áspero que ecoou na
mente de Eragon. Depois, do exterior da tenda, Eragon sentiu uma
terrível corrente de ar e ouviu os gritos assustados de homens e
Elfos, ao verem Saphira mergulhar em direção ao solo. Aterrou
com uma violência tal que a tenda e tudo o que estava dentro
abanou.
Segundos depois, Saphira enfiou a cabeça na tenda e olhou
furiosa para Eragon. Estava ofegante e o ar que lhe saía pelas
narinas despenteou-lhe o cabelo e fê-lo lacrimejar, com o odor a
carne queimada.
És mais casmurro que um Kull, disse ela.
Não sou mais do que tu.
Ela revirou o lábio, mostrando ligeiramente os dentes.
De que estamos à espera? Se tens de fazer isso, despacha-te!
O que vais invocar?, perguntou Glaedr. Tem de ser algo com
que estejas intimamente familiarizado.
O olhar de Eragon vagueou pelo interior da tenda, detendo-se
no anel de safira que usava na mão direita.
Aren... Raramente tirava o anel desde que Ajihad lho dera a
pedido de Brom. Tornara-se parte do seu corpo, tal como os
braços ou as pernas. Durante as horas que passara a olhar para ele,
memorizara todas as suas curvas e facetas e, se fechasse os olhos,
conseguia invocar uma imagem que era a perfeita reprodução do
objeto real. Mas, apesar de tudo, havia muita coisa que não sabia
acerca do anel — a sua história, como os Elfos o tinham feito e que
feitiços poderia conter.
Não... Aren, não.
Depois desviou os olhos para o pomo de Brisingr, encostada a
um canto do catre.
— Brisingr — murmurou ele.
Um ruído abafado emanou da espada e esta ergueu-se um
centímetro da bainha, como se tivesse sido empurrada por baixo.
Pequenas línguas de fogo elevaram-se da boca da bainha,
lambendo a base do punho. Depois Eragon pôs fim ao feitiço
acidental, as chamas desapareceram e a espada voltou a deslizar
para dentro da bainha.
Brisingr, pensou, perfeitamente seguro da sua escolha. Tinha
sido a perícia de Rhunön que forjara a espada, mas tinha sido ele
que empunhara as ferramentas, unindo-se à mente da ferreira elfo,
ao longo de todo o processo. Se havia algum objeto no mundo que
ele entendia em todos os seus aspectos, era a espada.
Tens a certeza?, perguntou Glaedr.
Eragon acenou com a cabeça, mas depois conteve-se, ao
lembrar-se que o dragão dourado não o podia ver.
Sim, Mestre... Mas tenho uma pergunta a fazer: o verdadeiro
nome da espada é Brisingr? Preciso de saber o seu verdadeiro
nome, para o feitiço resultar, caso não seja.
Brisingr é o nome do fogo, como bem sabes. O verdadeiro
nome da tua espada é, sem dúvida, algo muito mais complicado,
embora possa muito bem incluir brisingr na descrição. Se quiseres
podes referir-te à espada usando o seu verdadeiro nome, mas
poderás igualmente chamar-lhe Espada e obter o mesmo resultado,
desde que mantenhas o conhecimento adequado em mente. O
nome é simplesmente um rótulo para o conhecimento e você não
precisas disso para usares o conhecimento. É uma distinção subtil,
mas importante. Entendes?
Sim.
Então prossegue como quiseres.
Eragon procurou descontrair-se durante alguns momentos.
Depois, descobriu o nó algures na sua mente e alcançou o
reservatório de energia do seu corpo através dele. Canalizando
essa energia para a palavra, enquanto pensava em tudo o que sabia
acerca da Espada, disse clara e distintamente:
— Brisingr.
Eragon sentiu a sua energia decair bruscamente. Alarmado,
tentou falar e mexer-se, mas o feitiço imobilizara-o. Não conseguia
sequer pestanejar nem respirar.
Contrariamente ao que acontecera antes, a espada não irrompeu
em chamas, ondulando como um reflexo na água, e junto dela
surgiu uma aparição transparente no ar: uma réplica perfeita e
cintilante de Brisingr, fora da bainha. A réplica que flutuava diante
de si era tão bem feita como a própria espada — senão mais
refinada — e Eragon nunca lhe encontrara um único defeito. Era
como se visualizasse a ideia da Espada, uma ideia que nem Rhunön
poderia captar, mesmo com toda a sua experiência a trabalhar o
metal.
Logo que a manifestação se tornou visível, Eragon voltou a
conseguir respirar e a mover-se. Manteve o feitiço durante alguns
segundos para poder maravilhar-se com a beleza da invocação.
Depois libertou o feitiço e a espada fantasmagórica desapareceu
lentamente.
Na sua ausência, o interior da tenda pareceu-lhe
inesperadamente escuro.
Só então Eragon voltou a sentir Saphira e Glaedr, colados à sua
mente, permanentemente atentos a todos os pensamentos que lhe
surgiam. Eragon nunca antes sentira os dois dragões tão tensos.
Desconfiava que se espetasse um dedo em Saphira esta ficaria tão
sobressaltada que daria várias voltas sobre si mesma.
E se eu te espetasse um dedo, sobraria apenas um borrão,
comentou ela.
Eragon sorriu e sentou-se no catre, cansado.
Glaedr descontraiu e Eragon ouviu um ruído como o vento a
soprar numa planície deserta, dentro da sua mente.
Portaste-te bem, Matador de Espectros. Eragon ficou
surpreendido com o elogio de Glaedr, pois o velho dragão poucos
elogios lhe tecera desde que começara a ensiná-lo. Mas é melhor
não repetires.
Eragon tremeu e massajou os braços, tentando livrar-se do frio
que lhe invadira os membros.
Combinado, Mestre. Não era uma experiência que ele sentisse
grande empenho em repetir. Ainda assim, sentia uma profunda
satisfação. Provara, sem sombra de dúvida, que havia pelo menos
uma coisa em Alagaësia que ele conseguia fazer melhor do que
ninguém.
E isso deu-lhe esperança.
Na manhã do terceiro dia, Roran chegou ao acampamento dos
Varden, com os seus companheiros, cansado, ferido e esgotado da
viagem. O regresso de Roran arrancou os Varden do seu torpor
durante algumas horas, pois ele e os que o acompanhavam foram
acolhidos como heróis. Mas o tédio depressa se voltou a instalar na
maioria dos homens.
Eragon ficou aliviado por ver Roran. Sabia que o primo estava
bem, pois comunicara com ele várias vezes, por vidência, durante a
sua ausência. Porém, vê-lo em pessoa libertou-o de uma ansiedade
que só então percebeu que trazia consigo. Roran era o único
familiar que lhe restava, pois Murtagh para ele não contava, e
Eragon não suportava a ideia de o perder.
Ao vê-lo de perto, ficou chocado com a sua aparência.
Esperava que Roran e os outros estivessem exaustos, mas o primo
parecia muito mais extenuado que os companheiros. Era como se
tivesse envelhecido cinco anos durante aquela viagem. Tinha os
olhos vermelhos, com olheiras escuras, a testa coberta de rugas e
movia-se rigidamente, como se tivesse o corpo coberto de nódoas
negras. Metade da barba tinha sido queimada o que lhe dava uma
aparência sebenta.
Os cinco homens — menos um do que o número inicial — foram
primeiro visitar os curandeiros de Du Vrangr Gata, onde os
feiticeiros trataram dos ferimentos e a seguir apresentaram-se a
Nasuada, no seu pavilhão. Depois de os enaltecer pela sua bravura,
Nasuada mandou todos os homens saírem exceto Roran, a quem
pediu um relatório detalhado da sua ida e regresso de Aroughs,
bem como da conquista da cidade. O relato de Roran demorou
algum tempo, mas tanto Nasuada como Eragon — sentado à sua
direita — escutaram-no com enlevo, por vezes até horrorizados,
enquanto ele falava. Quando terminou, Nasuada surpreendeu-os a
ambos, anunciando que iria colocar Roran ao comando de um dos
batalhões dos Varden.
Eragon esperava que a notícia agradasse a Roran mas, em vez
disso, viu as rugas no rosto do primo acentuarem-se e a testa
franzir-se, carregando-lhe a sobrancelha. Contudo, Roran não
levantou quaisquer objeções nem se queixou, curvando-se numa
vénia e dizendo na sua voz áspera:
— Como queiras, Lady Nasuada.
Mais tarde Eragon levou Roran à sua tenda onde Katrina os
esperava, saudando Roran com uma demonstração tão explícita de
emoção que Eragon desviou os olhos, embaraçado.
Jantaram os três juntos com Saphira, mas o dragão e Eragon,
pediram licença para se retirar logo que puderam, pois era óbvio
que Roran não tinha energia suficiente para estar em companhia de
ninguém e Katrina queria-o só para ela.
Enquanto vagueava pelo acampamento com Saphira, ao cair da
noite, Eragon ouviu alguém atrás de si gritar:
— Eragon! Eragon! Espera um momento!
Virou-se e viu a figura magra e desengonçada de Jeod, o
estudioso, que corria na sua direção, com madeixas de cabelo a
voarem em torno do rosto magro. Jeod trazia um pedaço recortado
de pergaminho na mão esquerda.
— O que é? — perguntou Eragon, preocupado.
— Isto! — exclamou Jeod, de olhos cintilantes, erguendo o
pergaminho e sacudindo-o. — Consegui outra vez, Eragon!
Descobri um caminho! — À luz do crepúsculo, a cicatriz que tinha
no couro cabeludo e na têmpora parecia assustadoramente branca,
em contraste com a pele tisnada.
— Conseguiste outra vez o quê? Que caminho descobriste tu?
Mais devagar; o que dizes não faz qualquer sentido!
Jeod olhou furtivamente em redor e depois inclinou-se para
Eragon, sussurrando:
— As minhas leituras e as minhas pesquisas compensaram.
Descobri um túnel secreto que conduz diretamente a Dras-Leona!

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