3 de junho de 2017

Capítulo 25 - Ordens

Mais tarde naquela noite, visões de morte e violência aglomeraram-se nos sonhos de Eragon, ameaçando soterrá-lo em pânico. Agitava-se inquieto, querendo se livrar do tormento, mas incapaz de fazê-lo. Logo, imagens desconexas de espadas golpeando e homens gritando, e do rosto enraivecido de Murtagh surgiam em flashes diante de seus olhos.
Então, Eragon sentiu Saphira entrando em sua mente. Ela invadiu seus sonhos como uma ventania, aniquilando seu pesadelo povoado de miragens. No silêncio que seguiu, ela sussurrou: Tudo está bem, pequenino. Durma tranquilo; você está a salvo e eu estou com você... Durma tranquilo.
Uma sensação de profunda paz tomou conta de Eragon. Rolou para o lado e vasculhou lembranças mais felizes, confortado com a percepção da presença de Saphira.
Quando Eragon abriu os olhos, uma hora antes no nascer do sol, encontrou-se deitado embaixo de uma das asas de Saphira. Ela estava com o rabo enrolado sobre ele, e o flanco, encostado em sua cabeça, tinha uma temperatura agradável. Ele sorriu e engatinhou para fora da asa quando ela ergueu a cabeça e bocejou.
Bom-dia, disse ele.
Ela bocejou novamente e espreguiçou-se como um gato. Eragon tomou banho, fez a barba com magia, limpou o sangue seco da bainha da cimitarra e então vestiu uma das túnicas de elfo. Assim que ficou satisfeito com. sua aparência, e após Saphira haver terminado seu banho de língua, caminharam até o pavilhão de Nasuada.
Todos os seis Falcões da Noite daquele turno estavam em pé do lado de fora, suas faces vincadas com a tradicional expressão aterradora. Eragon esperou enquanto um anão atarracado o anunciava. Então, entraram na tenda, e Saphira rastejou até o painel aberto onde ela podia inserir sua cabeça e participar da discussão.
Eragon fez uma mesura para Nasuada, que estava sentada em sua cadeira de espaldar alto entalhada com cardos em florescência.
— Minha lady, a senhora me pediu que viesse aqui para conversarmos a respeito de meu futuro; a senhora disse que tinha uma missão de grande importância para mim.
— Pedi e tenho — disse Nasuada. — Por favor, sente-se. — Ela indicou uma cadeira dobrável próxima a Eragon. Ele mudou a posição da espada na cintura para não incomodá-lo e se sentou. — Como você sabe, Galbatorix enviou batalhões para as cidades de Aroughs, Feinster e Belatona para tentar impedir que nós as sitiássemos ou, na impossibilidade disso, para tornar mais lento nosso progresso, forçando-nos assim a dividir nossas próprias tropas de modo que ficássemos mais vulneráveis às depredações dos soldados que estão acampados a norte de nós. Após a batalha de ontem, nossos batedores nos informaram que os últimos homens de Galbatorix se retiraram para locais desconhecidos. Eu iria atacar esses soldados dias atrás, mas fui obrigada a me conter já que você estava ausente. Sem você, Murtagh e Thorn poderiam ter chacinado nossos guerreiros impunemente, e nós não tínhamos nenhuma maneira de descobrir se os dois estavam entre os soldados. Agora que você está novamente entre nós, nossa posição de algum modo melhorou, embora não tanto quanto eu desejava, já que nós devemos enfrentar também o último artifício de Galbatorix: homens sem dor. Nosso único estímulo é que vocês dois, juntamente com os feiticeiros de Islanzadí, provaram que podem lutar contra Murtagh e Thorn. Nosso plano para a vitória depende dessa esperança.
Aquele dragãozinho vermelho não é páreo para mim, disse Saphira. Se ele não tivesse a proteção de Murtagh, eu o prenderia no chão e o sacudiria pelo pescoço até que se submetesse a mim e me reconhecesse como a líder da caçada.
— Estou certa de que você faria isso — disse Nasuada, sorrindo.
— Qual é o plano que a senhora decidiu? — Eragon quis saber.
— Eu decidi diversas estratégias, e nós devemos seguir todas simultaneamente se é que desejamos que cada uma seja bem-sucedida. Primeiro, nós não podemos adentrar mais o Império, deixando para trás cidades que Galbatorix ainda controla. Fazer isso significaria nos expor a ataques não só da vanguarda como também da retaguarda e convidar Galbatorix a invadir e tomar Surda enquanto estivéssemos ausentes. Assim, eu já mandei os Varden marcharem para o norte, para o local mais próximo onde nós pudermos cruzar em segurança o rio Jiet. Uma vez que estejamos do outro lado do rio, eu mandarei guerreiros para o sul para capturar Aroughs enquanto o rei Orrin e eu seguiremos com o restante de nossas tropas para Feinster que, com sua ajuda e a de Saphira, deverá cair diante de nós sem muitos problemas.
“Enquanto estivermos engajados nessa tediosa questão da marcha no interior, você estará com outras responsabilidades, Eragon.” Ela se inclinou para a frente em seu assento. “Nós precisamos de toda a ajuda dos anões. Os elfos estão combatendo por nós no norte da Alagaësia, os surdanos se juntaram a nós de corpo e alma e até mesmo os Urgals são nossos aliados. Mas precisamos dos anões. Nós não podemos ter sucesso sem eles. Principalmente agora que temos de enfrentar soldados que não sentem dor.”
— Os anões já escolheram outro rei ou rainha?
Nasuada fez uma careta.
— Narheim me assegura que o processo caminha a passos rápidos, mas a exemplo dos elfos, os anões têm uma visão mais longa da vida do que nós. Rápido para eles pode significar meses de deliberações.
— Eles não percebem a urgência da situação?
— Alguns sim, mas muitos se opõem a nos ajudar nessa guerra, e tentam atrasar o processo o máximo que podem e também demoram a instalar um deles no trono de mármore em Tronjheim. Os anões vivem escondidos há tanto tempo que se tornaram perigosamente suspeitos para com estrangeiros. Se alguém hostil a nossos objetivos subir ao trono, perderemos os anões. Não podemos deixar que isso aconteça. Nem podemos esperar que os anões resolvam suas diferenças no ritmo deles. Mas — ela ergueu um dedo —, de tão longe, eu não tenho como interferir efetivamente na política deles. Mesmo que eu estivesse em Tronjheim, não poderia ter certeza de um resultado favorável; os anões não veem com bons olhos alguém de fora de seus clãs se imiscuindo em seu governo. De modo que eu quero que você, Eragon, viaje para Tronjheim em meu lugar e faça o que puder para garantir que os anões escolham um novo monarca de forma rápida; e que eles escolham um monarca que seja simpático a nossa causa.
— Eu! Mas...
— O rei Hrothgar adotou você no Dûrgrimst Ingeitum. De acordo com as leis e costumes deles, você é um anão, Eragon. Você tem direito legal de participar das reuniões oficiais do Ingeitum. E como Orik está para se tornar o chefe deles e como é seu irmão postiço e amigo dos Varden, tenho certeza de que ele aceitará que você o acompanhe nos conselhos secretos dos treze clãs que elegem os líderes anões.
A proposta parecia ridícula a Eragon.
— E quanto a Murtagh e Thorn? Quando eles voltarem, e certamente voltarão, o que acontecerá, tendo em vista que Saphira e eu somos os únicos que podemos enfrentá-los, mesmo assim com alguma ajuda? Se nós não estivermos aqui, ninguém terá como impedi-los de matar a senhora ou Arya ou Orrin ou o resto dos Varden.
O espaço entre as sobrancelhas de Nasuada se estreitou.
— Você impôs uma implacável derrota a Murtagh ontem. Muito provavelmente, ele e Thorn estão voando de volta para Urû’baen neste exato momento, para serem interrogados a respeito da batalha e para serem castigados pelo fracasso por Galbatorix. Ele não os mandará novamente ao ataque até que tenha confiança de que derrotarão vocês. Murtagh evidentemente não tem certeza sobre os verdadeiros limites de sua força agora, de modo que esse infeliz evento talvez esteja ainda muito distante. Nesse ínterim, acredito que você terá tempo suficiente para ir e vir de Farthen Dûr.
— A senhora poderia estar enganada — argumentou Eragon. — Além disso, como impediria que Galbatorix soubesse de nossa ausência e atacasse enquanto nós estivéssemos fora? Duvido que tenha encontrado todos os espiões que ele plantou entre nós.
Nasuada batia os dedos nos braços da cadeira.
— Eu disse que queria que você fosse para Farthen Dûr, Eragon. Eu não disse que queria que Saphira também fosse.
Virando a cabeça, Saphira liberou uma pequena quantidade de fumaça que vagou na direção do teto da tenda.
— Eu não vou...
— Deixe-me terminar, Eragon. Por favor.
Ele trincou os dentes e olhou de modo penetrante para ela, sua mão esquerda apertada no cabo da cimitarra.
— Você não tem obrigação para comigo, Saphira, mas minha esperança é que você concorde em ficar aqui enquanto Eragon vai até os anões de modo que possamos enganar o Império e os Varden sobre o verdadeiro paradeiro de Eragon. Se pudermos esconder sua partida das massas — ela fez um gesto para Eragon —, ninguém terá nenhum motivo para suspeitar que você ainda não esteja aqui. Só teremos que arranjar uma desculpa apropriada que justifique seu desejo súbito de permanecer em sua tenda durante o dia. Talvez você e Saphira estejam voando muito sobre o território inimigo à noite e isso o obrigue a descansar enquanto o sol está alto. O que acha?
“Para que o estratagema funcione, contudo, Blödhgarm e seus companheiros terão que ficar aqui também, não só para evitar suspeitas, como também por motivos de defesa. Se Murtagh e Thorn reaparecerem enquanto você está ausente, Arya pode tomar o seu posto com Saphira. Com Arya, os feiticeiros de Blödhgarm e os mágicos da Du Vrangr Gata, nós podemos ter boas chances de contrariar os planos de Murtagh.”
Com uma voz dura, Eragon disse:
— Se Saphira não me levar para Farthen Dûr, então como chegarei lá em tempo hábil?
— Correndo. Você mesmo me disse que correu grande parte da distância de Helgrind até aqui. Espero que, sem ter de se esconder de soldados ou de camponeses, você possa transpor muitos quilômetros mais a cada dia até Farthen Dûr do que conseguiu no Império. — Novamente Nasuada batucou na madeira polida de sua cadeira. — É claro que seria tolice viajar sozinho. Até mesmo um mago poderoso pode morrer de um simples acidente na imensidão da natureza se não tem ninguém para ajudá-lo. Acompanhá-lo nas montanhas Beor seria um desperdício dos talentos de Arya, e as pessoas notariam se algum dos elfos de Blödhgarm desaparecesse sem explicação. Portanto, eu decidi que um Kull deverá ir com você, já que eles são as únicas outras criaturas capazes de acompanhar seu ritmo.
— Um Kull! — exclamou Eragon, incapaz de conter-se por mais tempo. — A senhora me mandaria para os anões com um Kull? Não posso imaginar uma raça que os anões detestem mais do que os Urgals. Eles fazem arcos dos próprios chifres! Se eu chegasse em Farthen Dûr com um Urgal, os anões não prestariam a menor atenção ao que eu dissesse.
— Estou bem ciente disso — disse Nasuada. — E é por isso que você não vai direto para Farthen Dûr. Em vez disso, fará uma parada inicial na Fortaleza Bregan, no monte Thardûr, que é o lar ancestral do Ingeitum. Lá você encontrará Orik e deixará o Kull para, em seguida, continuar seu caminho para Farthen Dûr na companhia do anão.
Mirando algo além de Nasuada, Eragon disse:
— E se eu não concordar com o caminho que a senhora escolheu? E se eu acreditar em outros meios mais seguros para realizar o seu desejo?
— Que outros meios seriam? Eu lhe suplico que me diga — pediu Nasuada, seus dedos parando no ar.
— Eu teria de pensar, mas tenho certeza que eles existem.
— Eu pensei nisso, Eragon, e muito. Ter você como meu emissário é a nossa única esperança de influenciar a sucessão dos anões. Eu fui criada entre os anões, lembre-se disso, e tenho uma compreensão melhor deles do que a maioria dos humanos.
— Eu ainda acredito que isso é um erro — resmungou Eragon. — Mande Jörmundur em meu lugar, ou um de seus comandantes. Eu não irei, não enquanto...
— Você não vai? — disse Nasuada, erguendo a voz. — Um vassalo que desobedece a sua senhora não vale mais do que um guerreiro que ignora seu capitão no campo de batalha e pode ser punido da mesma maneira. Assim, como sua suserana, Eragon, eu ordeno que corra até Farthen Dûr, queira você ou não, e supervisione a escolha do próximo líder dos anões.
Furioso, Eragon respirou fundo, apertando com força a cimitarra. Com um tom de voz mais suave, porém ainda contido, Nasuada disse:
— E então, Eragon? Você fará como eu estou pedindo, ou se desligará de mim e conduzirá os Varden por conta própria? Essas são suas únicas opções.
— Não, eu posso argumentar — respondeu, chocado. — Eu posso convencê-la de outra possibilidade.
— Não pode, porque você não pode me proporcionar uma alternativa que tenha tantas possibilidades de sucesso quanto essa.
Ele encontrou seu olhar.
— Eu poderia recusar sua ordem e deixar que a senhora me puna da maneira que melhor lhe convier.
A sugestão dele a chocou.
— Vê-lo chicoteado em um pelourinho causaria um mal irreparável aos Varden — disse, então. — E destruiria minha autoridade, porque as pessoas saberiam como você poderia me desafiar sempre que quisesse. E a única consequência seria um punhado de marcas que você sararia em dois minutos, já que nós não podemos executá-lo como faríamos com qualquer outro guerreiro que desobedecesse a um superior. Eu preferiria abdicar de meu posto e lhe entregar o comando dos Varden a permitir que tal fato ocorresse. Se você acredita que está mais capacitado para esta tarefa, então tome meu lugar, sente em minha cadeira e declare a si mesmo comandante de meu exército! Mas enquanto eu falar pelos Varden, tenho o direito de tomar essas decisões. Se elas são equivocadas, então isso também é minha responsabilidade.
— A senhora vai se recusar a ouvir qualquer conselho? — perguntou Eragon, preocupado. — A senhora vai ditar o rumo dos Varden independentemente dos conselhos daqueles que a cercam?
A unha do dedo médio de Nasuada batia contra a madeira polida da cadeira.
— Eu ouço conselhos, sim. Eu ouço uma contínua torrente de conselhos absolutamente todos os dias de minha existência, mas, às vezes, minhas conclusões não combinam com as de meus subordinados. Agora você deve decidir se honrará seu juramento de fidelidade e acatará minha decisão, mesmo estando em desacordo com ela, ou se vai se transformar na contraparte de Galbatorix.
— Eu só quero o melhor para os Varden — disse ele.
— Como eu.
— A senhora não me dá nenhuma opção além dessa que me desagrada.
— Às vezes, é mais difícil obedecer do que liderar.
— Posso ter um momento de reflexão?
— Como queira.
Saphira?, perguntou ele.
Partículas de luz púrpura dançaram no interior do pavilhão quando ela girou o pescoço e fixou os olhos sobre os de Eragon.
Pequenino?
Devo ir?
Acho que deve.
Ele pressionou os lábios com força.
E quanto a você?
Você sabe que eu odeio me separar de você, mas os argumentos de Nasuada são bem fundamentados. Se eu puder ajudar a manter Murtagh e Thorn longe permanecendo com os Varden, então, quem sabe eu não deva ficar.
As emoções dele e as dela inundaram ambas as mentes, as ondas golpeando um único mar de raiva, expectativa, relutância e carinho. Da parte dele fluíam a raiva e a relutância; da parte dela, outros sentimentos mais gentis – mas tão ricos em intensidade quantos os dele – que moderavam a paixão colérica dele e lhe proporcionavam perspectivas que não obteria de outra maneira.
Todavia, mantinha-se grudado com teimosa relutância ao esquema de Nasuada.
Se você voasse comigo para Farthen Dûr, eu não ficaria tanto tempo fora, o que significaria que Galbatorix teria menos uma oportunidade de organizar outro ataque.
Mas os espiões diriam a ele que os Varden estariam vulneráveis assim que saíssemos.
Eu não quero me separar de você novamente tão pouco tempo depois de Helgrind.
Nossos desejos pessoais não podem ter precedência sobre as necessidades dos Varden, mas eu também não quero me separar de você. Mesmo assim, lembre-se do que Oromis dizia: que a excelência de um dragão e seu Cavaleiro é medida não apenas pelo bom entrosamento deles no trabalho, como também pelo bom funcionamento dos dois quando estão separados. Nós somos ambos maduros o suficiente para operar independentes um do outro, Eragon, por mais que a perspectiva nos seja desagradável. Você provou sua eficácia durante a volta de Helgrind.
Você ficaria chateada em lutar com Arya em suas costas, como Nasuada propôs?
Ela seria a minha menor preocupação. Nós lutamos juntas antes, e foi ela que me conduziu através da Alagaësia por quase vinte anos quando eu estava em meu ovo. Você sabe disso, Pequenino. Por que colocar essa questão? Está com ciúmes?
E se eu estiver?
Um brilho de bom humor surgiu nos olhos de Saphira. Ela bateu com a língua nele. Sendo assim, é muito simpático da sua parte...
Você prefere que eu vá ou que eu fique?
A escolha é sua, não minha.
Mas afeta a nós dois.
Eragon cavou o chão com a ponta da bota e disse: Se devemos mesmo participar desse esquema insano, precisamos fazer tudo o que pudermos para que dê certo. Fique, e veja se consegue impedir Nasuada de enlouquecer com este plano triplamente horroroso que ela inventou.
Fique animado, Pequenino. Corra rápido, e nós logo estaremos juntos novamente.
Eragon ergueu o olhar para Nasuada.
— Muito bem — disse ele. — Eu vou.
A postura de Nasuada relaxou de alguma forma.
— Obrigada. E você, Saphira? Vai ou fica?
Projetando seus pensamentos de modo a incluir não só Nasuada como também Eragon, Saphira disse: Ficarei, Caçadora Noturna.
Nasuada inclinou sua cabeça.
— Obrigada, Saphira, sou muito grata por seu apoio.
— A senhora falou com Blödhgarm a respeito disso? — perguntou Eragon. — Ele concordou?
— Não, eu imaginei que você o informaria dos detalhes.
Eragon duvidava de que os elfos ficassem satisfeitos com a perspectiva de ele viajar para Farthen Dûr acompanhado apenas de um Urgal.
— Se eu pudesse fazer uma sugestão...
— Você sabe que suas sugestões são bem-vindas.
Aquilo o interrompeu por um instante.
— Uma sugestão e um pedido, então. — Nasuada ergueu um dedo, indicando que ele prosseguisse. — Quando os anões tiverem escolhido seu novo rei ou rainha, Saphira deverá se juntar a mim em Farthen Dûr, não somente para honrar o novo líder dos anões como também para cumprir a promessa que ela fez ao rei Hrothgar após a batalha por Tronjheim.
A expressão de Nasuada ficou mais acentuada, parecendo a de um gato selvagem à espreita de sua caça.
— Que promessa foi essa? — perguntou ela. — Você não me falou disso antes.
— Que Saphira consertaria a grande estrela de safira, Isidar Mithrim, como compensação por Arya tê-la quebrado.
— Você é capaz de tal feito? — disse Nasuada, fitando Saphira com os olhos arregalados de surpresa.
Sou, mas não sei se serei capaz de reunir a magia que necessitarei quando estiver diante de Isidar Mithrim. Minha habilidade para lançar encantos não está sujeita ao meu desejo. Às vezes, é como se eu tivesse adquirido um novo sentido, e eu consigo sentir a pulsação de energia dentro de mim. E ao direcioná-la com minha vontade, eu posso remodelar o mundo de acordo com meu desejo. Contudo, na maior parte das vezes, meus encantos são tão irreais quanto um peixe voando. Se eu conseguir consertar Isidar Mithrim, entretanto, será uma excepcional oportunidade para ganharmos a boa vontade de todos os anões, não apenas de um seleto grupo que possui o escopo do conhecimento para apreciar a importância de sua cooperação conosco.
— Seria mais importante do que você imagina — disse Nasuada. — A grande estrela de safira ocupa uma posição muito especial nos corações dos anões. Todos são apaixonados pelas gemas, mas amam e adoram Isidar Mithrim acima de todas, por causa de sua beleza e principalmente por causa de sua imensidão. Restaurar sua antiga glória significará restaurar o orgulho da raça anã.
Eragon insistiu:
— Mesmo que Saphira fracassasse em consertar Isidar Mithrim, ela deveria estar presente na coroação do novo líder dos anões. A senhora poderia esconder sua ausência por alguns dias espalhando entre os Varden que eu e ela tivemos de fazer uma rápida viagem até Aberon, ou qualquer outro lugar. Quando os espiões de Galbatorix perceberem que os enganou, já será tarde demais para o Império organizar um ataque antes de nossa chegada.
Nasuada assentiu.
— Boa ideia. Contate-me assim que os anões estabelecerem uma data para a coroação.
— Assim o farei.
— Você fez sua sugestão, agora faça o pedido. O que deseja?
— Já que insiste que eu devo fazer essa viagem, gostaria, com sua permissão, de voar com Saphira de Tronjheim até Ellesméra depois da coroação.
— Com qual propósito?
— De fazer uma consulta com os mestres com quem treinamos durante nossa última visita a Du Weldenvarden. Nós prometemos a eles que assim que os eventos permitissem, voltaríamos a Ellesméra para completar nosso treinamento.
A linha entre as sobrancelhas de Nasuada se aprofundou.
— Não há tempo para passar semanas ou meses em Ellesméra dando continuidade à formação de vocês.
— Não, mas talvez tenhamos tempo para uma breve visita.
Nasuada inclinou a cabeça na cadeira entalhada e mirou Eragon por baixo de pálpebras pesadas.
— E quem são exatamente esses mestres? Eu reparei que você sempre evita dar respostas diretas a respeito deles. Quem foi que treinou vocês dois em Ellesméra, Eragon?
Passando o dedo em seu anel, Aren, Eragon respondeu:
— Nós fizemos um juramento a Islanzadí que não revelaríamos as identidades deles sem sua permissão, de Arya ou de quem quer que suceda Islanzadí no trono.
— Por todos os demônios do céu e do inferno, quantos juramentos você e Saphira fizeram? — perguntou Nasuada. — Vocês parecem se comprometer com todos que encontram pelo caminho.
Sentindo-se um pouco estúpido, Eragon deu de ombros e começou a abrir a boca para falar quando Saphira disse a Nasuada:
Nós não os procuramos, mas como podemos evitar nos comprometer se é impossível derrotar Galbatorix e o Império sem o apoio de todas as raças da Alagaësia? O juramento é o preço que pagamos pela ajuda dos que estão no poder.
— Hum — murmurou Nasuada. — Então, devo perguntar a Arya sobre a verdade dessa questão?
— Sim, mas duvido que ela lhe diga; os elfos consideram a identidade de nossos mestres um dos segredos mais preciosos. Não arriscarão revelar os nomes a menos que seja absolutamente necessário, para impedir que a informação chegue a Galbatorix. — Eragon olhou para a pedra azul em seu anel, imaginando quantas informações seu juramento e sua honra lhe permitiriam divulgar. — Mas saiba disso: nós não estamos tão sós quanto imaginávamos inicialmente.
A expressão de Nasuada se acentuou.
— Entendo. É bom saber disso, Eragon... Eu apenas gostaria que os elfos fossem mais próximos de mim. — Após morder os lábios por alguns instantes, ela continuou: — Por que vocês precisam viajar até Ellesméra? Vocês não têm meios de se comunicar diretamente com seus mestres?
Eragon esticou as mãos em um gesto de desamparo.
— Se ao menos pudéssemos. Infelizmente, ainda está para ser inventado o encanto que conseguirá ultrapassar as proteções que circundam Du Weldenvarden.
— Os elfos não deixaram uma abertura que eles próprios podem explorar?
— Se tivessem deixado, Arya teria contatado a rainha Islanzadí assim que readquiriu a consciência em Farthen Dûr, em vez de ter de ir para Du Weldenvarden.
— Suponho que você esteja certo. Mas, então, como foi que você conseguiu consultar Islanzadí a respeito do destino de Sloan? Você deu a entender que quando falou com ela, o exército dos elfos ainda estava sitiado em Du Weldenvarden.
— Estava — disse ele —, mas apenas na margem, além das medidas de proteção.
O silêncio entre eles era palpável enquanto Nasuada refletia sobre o pedido. Do lado de fora da tenda, Eragon ouviu os Falcões da Noite discutindo se uma verga era melhor do que uma alabarda para lutar contra uma grande quantidade de homens a pé. E, além das vozes, o ruído de um carro de boi, o tilintar de armaduras em homens trotando na direção oposta e centenas de outros sons indistinguíveis que vagavam pelo acampamento.
Quando resolveu falar, Nasuada disse:
— O que exatamente você espera ganhar com essa visita?
— Não sei! — rosnou Eragon. Ele golpeou o cabo da cimitarra com o punho. — E esse é o cerne do problema: nós não sabemos o suficiente. Talvez não consigamos nada, mas, por outro lado, talvez pudéssemos aprender alguma coisa que pudesse nos ajudar a derrotar Murtagh e Galbatorix de uma vez por todas. Nós vencemos por muito pouco ontem, Nasuada. Por muito pouco! E eu temo que, quando enfrentarmos novamente Thorn e Murtagh, Murtagh estará mais forte do que antes. E eu fico com os ossos gelados quando imagino que as habilidades de Galbatorix são muito maiores do que as de Murtagh, a despeito da vasta quantidade de poder que ele já aplicou em meu irmão. O elfo que me treinou... — Eragon hesitou, sopesando o conhecimento que estava a ponto de divulgar, e então seguiu em frente: — deu a entender que sabe como a força de Galbatorix tem aumentado a cada ano, mas recusou-se a revelar mais naquela época porque nós não estávamos suficientemente avançados em nosso treinamento. Agora, depois de nossos encontros com Thorn e Murtagh, eu penso que ele compartilhará seu conhecimento conosco. Além do mais, existem ainda ramos inteiros de magia que temos de explorar, e qualquer um deles pode fornecer os meios para derrotarmos Galbatorix. Se a ideia é apostarmos alguma coisa nessa viagem, Nasuada, então que apostemos não em manter nossa posição atual; apostemos em melhorar nossa posição e assim vencer esse jogo.
Nasuada ficou imóvel por mais de um minuto.
— Não posso tomar essa decisão antes de os anões escolherem seu líder. A sua ida à Du Weldenvarden dependerá das movimentações do Império naquele momento e dos relatórios de nossos espiões a respeito das atividades de Murtagh e Thorn.
No decorrer das duas horas seguintes, Nasuada instruiu Eragon sobre os treze clãs dos anões. Ela ensinou sua história e sua política; os produtos sobre os quais cada clã baseava a maioria de seu comércio; os nomes, famílias e personalidades dos chefes de clã; a lista de túneis importantes escavados e controlados por cada clã; e o que ela sentia ser a melhor maneira de convencer os anões a eleger um rei ou rainha que fosse simpático às metas dos Varden.
— Em condições ideais, Orik seria o escolhido para subir ao trono — disse ela. — O rei Hrothgar era bastante querido pela maioria de seus súditos, e o Dûrgrimst Ingeitum continua sendo um dos clãs mais ricos e influentes. Tudo isso beneficia Orik. Ele é devotado à nossa causa. Serviu como um dos Varden, você e eu o consideramos amigo e ele é seu irmão postiço. Acredito que possua as qualidades para se tornar um excelente rei para os anões. — Sua expressão adquiriu um tom de bom humor. — Pequeno problema, esse. Entretanto, é jovem pelos padrões dos anões, e sua associação conosco pode vir a ser uma barreira intransponível para os outros chefes de clã. Outro obstáculo é que os vários grandes clãs, o Dûrgrimst Feldûnost e o Dûrgrimst Knurlcarathn, para mencionar apenas dois, estão ansiosos para ver a coroa nas mãos de outro clã, depois de mais de cem anos de reinado do Ingeitum. De qualquer modo, apoie Orik se isso o ajudar a chegar ao trono, mas se ficar óbvio que a tentativa dele está condenada ao fracasso e que seu apoio pode garantir o sucesso de outro chefe de clã favorável aos Varden, então transfira seu apoio mesmo que isso signifique uma ofensa a Orik. Você não pode permitir que a amizade interfira na política. Não agora.
Quando Nasuada terminou sua palestra sobre os clãs dos anões, ela, Eragon e Saphira passaram vários minutos tentando arranjar uma maneira de Eragon deixar o acampamento discretamente. Depois de terem finalmente arrematado os detalhes do plano, o Cavaleiro e Saphira voltaram à sua tenda e disseram a Blödhgarm o que haviam decidido.
Para surpresa de Eragon, o elfo peludo não fez nenhuma objeção. Curioso, Eragon perguntou:
— Você aprova?
— Dizer se aprovo ou não não é da minha alçada — respondeu Blödhgarm, ronronando baixinho. — Mas já que o estratagema de Nasuada não parece colocar nenhum dos dois em insensato perigo, e por meio dele vocês poderão ter a oportunidade de aumentar seus conhecimentos em Ellesméra, nem eu nem meus irmãos nos oporemos. — Ele inclinou a cabeça. — Se me dão licença, Bjartskular, Argetlam. — Contornando Saphira, o elfo saiu da tenda, permitindo que um raio de luz furasse a escuridão de dentro ao empurrar para o lado a aba da entrada.
Por minutos, Eragon e Saphira ficaram sentados em silêncio. Então, Eragon colocou sua mão no topo da cabeça dela. Diga o que quiser, eu vou sentir sua falta.
E eu a sua, Pequenino. Se alguma coisa acontecesse a você, eu...
E com você também. Ele suspirou. Estivemos juntos apenas alguns dias e já devemos nos separar novamente. Eu acho difícil perdoar Nasuada por isso.
Não a condene por cumprir suas obrigações.
Não, mas deixa um sabor amargo em minha boca.
Mexa-se então, para que eu logo possa me juntar a você em Farthen Dûr.
Eu não me importaria de ficar tão longe se ao menos ainda pudesse tocar sua mente. Essa é a pior parte: a horrível sensação de vazio. Nós não devemos falar um com o outro pelo espelho na tenda de Nasuada porque as pessoas ficariam pensando por que você estaria visitando-a sem mim.
Saphira pestanejou e colocou a língua para fora. Ele sentiu uma estranha mudança nas emoções dela.
O que há?, perguntou ele.
Eu... Ela pestanejou novamente. Eu concordoGostaria de poder permanecer em contato mental com você quando estivéssemos muito distantes um do outro. Isso reduziria nossa preocupação e nossos problemas e permitiria que confundíssemos o Império mais facilmente.
Ela se agitou de satisfação quando ele se sentou perto dela e começou a coçar as pequenas escamas atrás da mandíbula.

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