3 de junho de 2017

Capítulo 24 - Sussurros na noite

Roran abriu os olhos e os fixou na curvatura da lona lá no alto.
Uma leve claridade cinzenta enchia a tenda, roubando a cor dos objetos, tornando tudo uma sombra desbotada do que era à luz do dia. Ele estremeceu. Os cobertores tinham escorregado até sua cintura, expondo seu torso ao ar frio da noite. Quando os puxou de novo para cima, percebeu que Katrina não estava ao seu lado. Ele a viu sentada junto da entrada da tenda, olhando para o alto, para o céu. Estava com uma capa enrolada por cima da camisola. O cabelo caía pelas costas até a cintura, um emaranhado escuro.
Roran sentiu um aperto na garganta enquanto a contemplava. Arrastando consigo os cobertores, foi se sentar ao seu lado. Pôs um braço em torno dos seus ombros, e ela encostou-se a ele, com a cabeça e a pescoço quentes no tórax de Roran. Ele a beijou na testa.
Por um bom tempo, ficou olhando para as estrelas com ela e ouvindo o som regular da sua respiração, o único som além da sua no mundo adormecido.
— As constelações têm desenhos diferentes aqui — sussurrou ela. — Você percebeu?
— Percebi. — Ele mudou o braço de posição, encaixando-o na curva da cintura e sentindo o leve volume da barriga em crescimento. — O que acordou você?
— Eu estava pensando. — Ela tremeu de frio.
— Ah.
A luz das estrelas cintilou nos seus olhos quando ela se contorceu nos braços de Roran e olhou para ele.
— Eu estava pensando em você e em nós... e em nosso futuro juntos.
— São pensamentos sérios para tão tarde da noite.
— Agora que estamos casados, como você pretende cuidar de mim e do nosso filho?
— É isso o que a preocupa? — Ele sorriu. — Você não vai passar fome. Temos ouro suficiente. Além do mais, os Varden sempre tratarão de dar abrigo e alimento aos primos de Eragon. Mesmo que me acontecesse alguma coisa, eles continuariam a dar o sustento a você e ao bebê.
— Certo, mas o que você pretende fazer?
Intrigado, ele procurou no rosto dela qual seria a fonte da sua inquietação.
— Vou ajudar Eragon a terminar esta guerra para nós podermos voltar para o vale Palancar e lá nos instalar, sem temer que soldados venham nos arrastar para Urû’baen. O que mais eu haveria de fazer?
— Quer dizer que você vai mesmo lutar com os Varden?
— Você sabe que vou.
— Como teria lutado hoje se Nasuada tivesse permitido.
— Isso mesmo.
— E o nosso bebê? Um exército em marcha não é lugar adequado para criar um filho.
— Não podemos fugir e nos esconder do Império, Katrina. A menos que os Varden saiam vitoriosos, Galbatorix irá nos encontrar e nos matar, ou irá encontrar e matar nossos filhos, ou os filhos dos nossos filhos. E eu acho que os Varden somente conseguirão sair vitoriosos se todos derem o melhor de si para ajudá-los.
Katrina levou um dedo à boca de Roran.
— Você é meu único amor. Nenhum outro homem vai conseguir conquistar meu coração. Farei o que puder para aliviar sua carga. Prepararei suas refeições, consertarei suas roupas e limparei sua armadura... Mas, assim que eu der à luz, deixarei este exército.
— Deixará! — Ele se enrijeceu. — Isso é loucura! Para onde você iria?
— Dauth, talvez. Lembre-se de que lady Alarice nos ofereceu refúgio, e alguns dos nossos ainda estão por lá. Eu não estaria sozinha.
— Se você acha que vou deixar que você e nosso filho recém-nascido saiam por aí para atravessar a Alagaësia sozinhos, então...
— Não precisa gritar.
— Não estou...
— Está, sim. — Segurando a mão dele entre as suas e a apertando junto ao coração, ela prosseguiu. — Aqui não é seguro. Se fôssemos só nós dois, eu poderia aceitar o perigo, mas nosso filho pode morrer. Eu te amo, Roran. Eu te amo tanto, mas nosso filho tem de vir antes de qualquer coisa, até de nós mesmos. Do contrário, não merecemos ser chamados de pais. — Lágrimas brilhavam nos olhos de Katrina, e Roran sentiu também seus olhos molhados. — Afinal de contas, foi você que me convenceu a sair de Carvahall e me esconder na Espinha quando os soldados atacaram. Isso aqui não é diferente.
As estrelas oscilaram diante de Roran à medida que sua visão se toldou.
— Eu preferia perder um braço a me separar de novo de você.
Nesse instante, Katrina começou a chorar, com seus soluços mudos sacudindo o corpo de Roran.
— Eu também não quero deixar você.
Ele a abraçou mais forte e a embalou de um lado para outro. Quando o choro cedeu, sussurrou no seu ouvido:
— Eu preferia perder um braço a me separar de você, mas seria melhor morrer do que permitir que alguém ferisse você ou nosso filho. Se pretende ir embora, deveria ir agora, enquanto a viagem ainda é fácil para você.
— Não — disse ela, abanando a cabeça. — Quero que Gertrude seja minha parteira. Só confio nela. Além do mais, se eu tiver qualquer dificuldade, seria melhor estar aqui, onde há mágicos treinados para a cura.
— Nada vai dar errado — disse ele. — Assim que nosso filho nascer, você irá, não para Dauth, mas para Aberon, onde é menos provável que ocorra um ataque. E, se Aberon se tornar perigosa demais, você irá para as montanhas Beor, para morar com os anões. E, se Galbatorix atacar os anões, você irá ficar com os elfos em Du Weldenvarden.
— E se Galbatorix atacar Du Weldenvarden, eu voarei para a lua e criarei nosso filho entre os espíritos que povoam o firmamento.
— E eles lhe farão reverência e a tornarão sua rainha, como você merece.
Ela se aninhou ainda mais. Juntos, os dois ficaram sentados e observaram quando as estrelas, uma a uma, desapareceram dos céus, apagadas pelo clarão que se espalhava no leste. Quando restava somente a estrela da manhã, Roran falou.
— Você sabe o que isso significa, não sabe?
— O quê?
— Eu simplesmente vou precisar matar até o último soldado de Galbatorix, conquistar todas as cidades do Império, derrotar Murtagh e Thorn, além de decapitar Galbatorix e seu dragão traidor antes da hora do parto. Assim, não haverá necessidade de você ir embora.
Ela permaneceu um instante em silêncio.
— Se você puder, ficarei muito feliz — disse, então.
Eles estavam prestes a voltar para a cama quando, do céu bruxuleante, veio velejando um navio em miniatura, tecido de tiras de capim seco. O navio pairou diante da sua tenda, balançando em ondas invisíveis de ar, e quase pareceu estar olhando para eles com sua proa em forma de cabeça de dragão. Roran ficou petrificado, e Katrina também. Como se fosse um ser vivo, o navio atravessou veloz a trilha diante da tenda e então subiu em espiral, perseguindo uma mariposa que vagava por ali. Quando a mariposa escapou, o navio voltou deslizando na direção da tenda, parando a poucos centímetros do rosto de Katrina. Antes que Roran decidisse se devia tentar agarrar o navio em pleno ar, ele deu meia-volta e saiu voando na direção da estrela da manhã, para tornar a desaparecer no infinito oceano do céu, deixando os dois olhando, procurando enxergá-lo, maravilhados.

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