24 de junho de 2017

Capítulo 24 - O caminho do conhecimento

A

lgumas horas depois, nessa tarde, quando parecia menos
provável que o Império lançasse um ataque a partir de Dras-
Leona, nas poucas horas de sol que restavam Eragon e Saphira
foram para o campo de treino nas traseiras do acampamento dos
Varden.
Eragon encontrou-se aí com Arya, como todos os dias fazia
desde que chegara à cidade. Perguntou-lhe como estava e ela
respondeu-lhe brevemente, dizendo-lhe que estivera presa numa
cansativa conferência com Nasuada e o rei Orrin, que tinha
começado antes do amanhecer. Depois Eragon e Arya
desembainharam as espadas e ambos assumiram posições opostas.
Para variar, tinham acordado antecipadamente usar escudos, pelo
fato de os aproximarem mais do combate real e de introduzirem
um elemento bem-vindo, de diversidade, nos seus duelos.
Circundaram-se um ao outro, com passos curtos e leves, e
moveram-se como dois bailarinos no solo irregular, sentindo o
chão, sem nunca olharem para baixo nem desviarem os olhos um
do outro.
Para Eragon, aquele era o momento favorito dos combates.
Havia algo de muito íntimo no ato de olhar Arya diretamente, sem
pestanejar nem vacilar, fazendo-a olhar para si com o mesmo grau
de concentração e intensidade. Podia ser desconcertante, mas ele
gostava da sensação de ligação que se gerava entre os dois.
Arya iniciou o primeiro ataque e, num segundo, Eragon deu
consigo curvado para a frente, num ângulo desconfortável, com a
espada dela encostada ao lado esquerdo do seu pescoço,
repuxando-lhe dolorosamente a pele. Eragon ficou paralisado até
Arya achar conveniente aliviar a pressão, permitindo-lhe que se
endireitasse.
— Isso foi falta de cuidado — disse ela.
— Como é possível que continues a vencer-me? — rosnou
Eragon, muito pouco satisfeito.
— Porque tenho mais de cem anos de prática — respondeu Arya,
fingindo atacar o seu ombro direito, o que o compeliu a erguer o
escudo e a saltar para trás, alarmado. — Seria estranho se eu não
fosse melhor do que tu, não é? Devias sentir-te orgulhoso por teres
conseguido marcar-me. Poucos conseguem.
Brisingr assobiou no ar, ao tentar atingir Arya na coxa dianteira.
Ela aparou o golpe com o escudo e um ruído clangoroso ressoou
no ar. Arya contra-atacou com uma hábil estocada enviesada que
apanhou Eragon no pulso que segurava a espada, projetando-lhe
agulhas geladas ao longo do braço e do ombro, até à base do
crânio.
Ele retraiu-se e afastou-se, procurando um alívio temporário.
Um dos desafios de lutar com Elfos era o fato de poderem saltar e
atacar um inimigo a distâncias muito maiores do que um humano,
atendendo à sua rapidez e força. Por isso Eragon teve de se afastar
quase trinta metros de Arya para ficar a salvo.
Mas antes que conseguisse afastar-se o suficiente, ela saltou na
sua direção, dando dois passos pelo ar, com os cabelos a ondular
atrás de si. Eragon brandiu a arma na direção dela, quando vinha
ainda no ar, mas Arya virou-se e a espada passou-lhe a todo o
comprimento do corpo, sem lhe tocar. Depois colocou a borda do
escudo por baixo do dele e arrancou-lho, deixando-lhe o peito
totalmente exposto. Finalmente, ergueu a espada tão depressa
quanto possível, encostando-a de novo ao seu pescoço, desta vez,
por baixo do queixo.
Arya manteve-o naquela posição, com os grandes olhos
rasgados a escassos centímetros dos seus. Havia uma ferocidade e
uma atenção na sua expressão que Eragon não sabia interpretar,
mas que o deixou hesitante.
Nessa altura, uma sombra pareceu cruzar rapidamente o rosto
de Arya, e ela baixou a espada, afastando-se.
Eragon esfregou a garganta.
— Se sabes tanto acerca do manejo de espada — disse ele —,
porque não me consegues ensinar a ser melhor?
Os seus olhos cor de esmeralda brilharam com maior
intensidade.
— Estou a tentar — respondeu ela —, mas o problema não está
aqui. — Tocou levemente com a espada no seu braço direito. — O
problema está aqui. — E tocou-lhe no elmo, produzindo um ruído
metálico. — E eu não sei como te ensinar o que precisas de
aprender, a não ser mostrando-te os erros que cometes, vezes sem
conta, até deixares de os cometer. — Bateu-lhe de novo no elmo. —
Mesmo que para isso tenha de te fazer umas nódoas negras.
O fato de Arya continuar a vencê-lo com aquela regularidade
feria-lhe o orgulho mais do que ele estava disposto a admitir,
mesmo perante Saphira. E fazia-o duvidar se alguma vez
conseguiria vencer Galbatorix, Murtagh, ou qualquer outro
adversário verdadeiramente temível, caso tivesse a infelicidade de
os defrontar sozinho, sem a ajuda de Saphira e da sua magia.
Afastando-se de Arya, Eragon encaminhou-se para um local a
cerca de dez metros.
— Bom — disse ele de dentes cerrados —, então continua. — Dito
isto agachou-se ligeiramente e preparou-se para mais um violento
ataque.
Arya franziu os olhos, o que deu uma aparência cruel ao seu
rosto anguloso.
— Muito bem.
Correram um para o outro, entoando gritos de guerra, e o
furioso choque das armas ecoou pelo campo. Combate após
combate, lutaram até ficarem exaustos, suados, cobertos de pó, e
Eragon ficou marcado por dolorosos vergões. Ainda assim
continuaram a atacar-se violentamente, com uma expressão
determinada e grave, nunca antes presente nos seus duelos.
Nenhum pediu para terminar o violento confronto, nem se ofereceu
para o fazer.
Saphira observava de um lado do campo, esticada num
confortável tapete de erva. Durante a maior parte do tempo,
guardou os pensamentos para si, evitando distrair Eragon, mas de
vez em quando fazia uma breve observação acerca da sua técnica
ou da de Arya, e Eragon achava-as sempre úteis. Desconfiava
também que ela interferira mais do que uma vez para o salvar de
um ou de outro golpe particularmente perigoso, pois os seus braços
e pernas pareciam por vezes mover-se ligeiramente mais depressa
do que deviam, ou mesmo um pouco antes do que era sua intenção
movê-los. E, quando isso acontecia, sentia um formigueiro algures
na mente, o que sabia de antemão ser um sinal de que Saphira
estava a interferir com parte da sua consciência.
Por fim Eragon pediu-lhe que parasse:
Eu tenho de conseguir fazer isto sozinho, Saphira, disse. Não
podes ajudar-me sempre que preciso.
Posso tentar.
Eu sei. Sinto o mesmo em relação a ti. Mas sou eu que tenho de
escalar esta montanha, não tu.
A extremidade do seu lábio estremeceu.
Para quê escalares quando podes voar? Nunca conseguirás
chegar a lado nenhum com essas perninhas curtas.
Isso não é verdade e você sabes. Além disso, se voasse seria com
asas emprestadas e tudo o que ganharia seria a emoção barata de
uma vitória imerecida.
Vitória é vitória e morte é morte, independentemente de como se
conquistam.
Saphira... disse Eragon num de advertência.
Pequenino.
Ainda assim, para seu alívio, ela deixou-o entregue a si mesmo
depois disso, embora continuasse a vigiá-lo incessantemente.
Para além de Saphira, os Elfos destacados para a guardar a ela
e a Eragon tinham-se reunido num dos extremos do campo e
Eragon sentiu-se desconfortável com a sua presença — não lhe
agradava que mais ninguém testemunhasse os seus fracassos, para
além de Saphira e Arya —, mas sabia que os Elfos nunca aceitariam
retirar-se para as tendas. De qualquer forma, serviam um propósito
útil, para além de o protegerem a ele e a Saphira: evitavam que os
outros guerreiros que estavam no campo se aproximassem e
ficassem pasmados a olhar para um Cavaleiro e um elfo que
lutavam vigorosamente. Não é que os feiticeiros de Blödhgarm
fizessem algo específico para desencorajar os espetadores, mas a
sua aparência, por si, era suficientemente intimidante afastando
espetadores ocasionais.
Quanto mais lutava com Arya mais frustrado Eragon se sentia.
Ganhou dois dos combates — embora por pouco, lutando
freneticamente e utilizando táticas desesperadas que resultaram
mais por sorte do que por perícia, e que jamais utilizaria num duelo
real, a menos que já não estivesse preocupado com a sua
segurança. Mas, tirando essas duas vitórias isoladas, Arya
continuava a vencê-lo com uma facilidade deprimente.
Por fim a raiva e a frustração de Eragon transbordaram e ele
perdeu toda a noção das proporções. Inspirado pelos métodos que
lhe tinham garantido as suas parcas vitórias, Eragon ergueu o braço
direito, preparando-se para atirar Brisingr a Arya, como se
lançasse um machado de guerra.
Nesse preciso momento, uma outra mente tocou na consciência
de Eragon e ele percebeu de imediato que não era a mente de Arya
nem a de Saphira, nem de nenhum dos outros Elfos, pois era
indubitavelmente a mente de um macho, de um dragão macho.
Eragon defendeu-se do contato e apressou-se a organizar ideias
para se proteger do que temia ser um ataque de Thorn. Mas, antes
que o conseguisse fazer, uma voz imensa ecoou através dos atalhos
sombrios da sua consciência, como o ruído de uma montanha a
mover-se sob o próprio peso.
Basta, disse Glaedr.
Eragon ficou hirto e cambaleou meio passo para a frente,
apoiando-se nos calcanhares para evitar lançar Brisingr. Depois viu
ou sentiu Arya, Saphira e os feiticeiros de Blödhgarm reagirem e
remexerem-se, surpreendidos, e percebeu que também eles tinham
ouvido Glaedr.
A mente do dragão parecia a mesma de sempre — ancestral,
insondável e dilacerada pela dor. Mas pela primeira vez desde a
morte de Oromis, em Gil’ead, Glaedr parecia possuído pelo desejo
de fazer algo mais que não afundar-se no pântano absorvente dos
seus próprios tormentos.
Glaedr-elda!, disseram Eragon e Saphira, ao mesmo tempo.
Como você está?
Você está bem?
Conseguiste...
Outros falaram também — Arya, Blödhgarm e dois elfos que
Eragon não conseguiu identificar — e as palavras dissonantes
misturaram-se, numa algazarra incompreensível.
Basta, repetiu Glaedr, parecendo cansado e exasperado.
Querem atrair atenções indesejáveis?
Todos silenciaram de imediato e esperaram para ouvir o que
dragão dourado iria dizer a seguir. Eragon trocou um olhar
entusiasmado com Arya.
Glaedr não falou logo, observando-os durante mais alguns
minutos. Eragon sentiu o peso imenso da sua presença dentro de si,
tal como os outros deveriam certamente sentir.
Depois Glaedr disse no seu tom de voz sonoro e perentório:
Isto já se arrasta há demasiado tempo... Eragon, não devias
passar tanto tempo a lutar, pois isso está a distrair-te de assuntos
mais importantes. Não é a espada na mão de Galbatorix que mais
deves temer, tão-pouco a espada na sua boca. É a espada na sua
mente. O seu maior talento é a aptidão para se infiltrar nas mais
pequenas partes do teu ser e forçar-te a obedecer à sua vontade.
Em vez de travares estas lutas com Arya, devias aplicar-te no
domínio dos teus pensamentos, pois ainda estão terrivelmente
indisciplinados... Porque insistes, então, neste esforço fútil?
De repente, ocorreu-lhe um sem número de respostas: que
gostava de lutar com Arya, apesar da irritação que isso lhe
causava; que queria ser o melhor espadachim — o melhor do
mundo, se possível; que o exercício lhe acalmava os nervos e lhe
modelava o corpo; e muitas outras razões. Eragon tentou conter a
confusão de pensamentos, não só para manter alguma privacidade,
mas também para evitar inundar Glaedr com informação
indesejável, confirmando assim a opinião do dragão acerca da sua
falta de disciplina. Contudo, não foi inteiramente bem-sucedido e
sentiu algum desapontamento em Glaedr.
Eragon escolheu os argumentos mais fortes:
Se eu conseguir conter Galbatorix com a minha mente — mesmo
que não consiga vencê-lo —, se ao menos conseguir contê-lo, isto
poderá ainda ser resolvido com a espada. Seja como for, o rei não
é o único inimigo com que nos deveríamos preocupar: para
começar temos Murtagh e sabe-se lá que outro tipo de homens ou
criaturas ao seu serviço. Não consegui derrotar Durza sozinho, nem
Varaug, nem mesmo Murtagh. Tive sempre ajuda. Mas não posso
esperar que Arya, Saphira ou Blödhgarm venham em meu auxílio
sempre que estou em apuros. Tenho de melhorar no manejo da
espada. No entanto, pareço não estar a fazer progressos, por muito
que me esforce.
Varaug?, perguntou Glaedr. Nunca ouvi esse nome antes.
Foi a vez de Eragon relatar a Glaedr a tomada de Feinster e
como ele e Arya tinham matado o Espetro recém-nascido, ao
mesmo tempo que Oromis e Glaedr encontravam a morte — dois
tipos diferentes de morte, mas ainda assim dois fins mortais — ao
combaterem nos céus de Gil’ead. Eragon resumiu-lhe também as
atividades dos Varden daí em diante, ao perceber que Glaedr se
mantivera de tal forma isolado que pouco sabia acerca deles. O seu
relato demorou alguns minutos, durante os quais tanto ele como os
Elfos permaneceram paralisados no campo, a olharem
apaticamente uns para os outros, concentrados na rápida troca de
pensamentos, imagens e sentimentos.
Seguiu-se mais um longo período de silêncio, enquanto Glaedr
digeria a informação que lhe fora transmitida. Quando se dignou a
falar de novo, parecia divertido:
És demasiado ambicioso se aspiras a matar Espetros com
impunidade. Mesmo o mais velho e mais sensato dos Cavaleiros
hesitaria em atacar um Espetro sozinho e você já sobreviveste a
encontros com dois deles, o que é mais do que a maioria
conseguiria fazer. Congratula-te por teres tido tanta sorte e deixa as
coisas por aí. Tentar vencer um Espetro é como tentar voar mais
alto que o sol.
Sim, respondeu Eragon, mas os nossos inimigos são tão fortes
como os Espetros, ou até mesmo mais fortes, e Galbatorix pode
criar mais Espetros só para travar o nosso avanço. Usa-os
imprudentemente, sem ter em atenção a destruição que podem
causar por toda a parte.
Ebrithil, disse Arya, ele tem razão. Os nossos inimigos são
absolutamente mortíferos... como bem sabes — acrescentou, num
tom gentil — e Eragon não está ao nível que precisaria de estar. Tem
de aprender a dominar a espada para se preparar para o que está
para vir. Fiz tudo o que podia para o ensinar, mas a mestria vem
basicamente de dentro e não de fora.
O fato de Arya o defender, aqueceu o coração de Eragon.
Tal como anteriormente, Glaedr demorou a responder:
Mas Eragon ainda não domina os seus pensamentos e também
terá de aprender a dominá-los. Nenhuma destas aptidões mentais
ou físicas vale de muito isolada, mas a aptidão mental é a mais
importante. É possível ganhar uma batalha contra um feiticeiro ou
um espadachim apenas com a mente. A tua mente e o teu corpo
deviam estar equilibrados, mas se tiveres de optar, deverás
escolher o treino da mente. Arya... Blödhgarm... Yaela...vocês
sabem que isto é verdade. Porque é que nenhum se encarregou de
prosseguir com a educação de Eragon nesta área?
Arya baixou os olhos como uma criança repreendida. O pelo
nos ombros de Blödhgarm ondulou e eriçou-se, e ele arreganhou os
lábios, revelando a ponta dos caninos brancos e aguçados.
Foi Blödhgarm quem finalmente se atreveu a dar uma resposta.
Falando apenas na língua antiga — o que nenhum deles fizera até
então — disse:
Arya está aqui como embaixatriz do nosso povo. Eu e o meu
grupo estamos aqui para proteger as vidas de Saphira Escamas
Brilhantes e de Eragon Matador de Espectros, e tem sido uma
tarefa difícil e demorada. Todos nós tentámos ajudar Eragon, mas
não é a nós que compete treinar um Cavaleiro, nem nos passaria
pela cabeça fazê-lo, estando um dos seus legítimos mestres ainda
vivo e presente... mesmo que esse mestre estivesse a descurar o
seu dever.
Nuvens escuras de fúria acumularam-se dentro de Glaedr, como
gigantescas nuvens de trovoada a crescerem no horizonte. Eragon
distanciou-se da consciência de Glaedr, receoso da ira do dragão.
Este já não podia molestar ninguém fisicamente, mas era ainda
incrivelmente perigoso. Se perdesse o controlo e os atacasse com a
mente, nenhum deles conseguiria resistir ao seu poder.
No início, a indelicadeza e a insensibilidade de Blödhgarm
chocaram Eragon, pois nunca antes ouvira um elfo dirigir-se a um
dragão daquela forma. Mas, depois de refletir um momento,
Eragon percebeu que Blödhgarm o deveria ter feito para puxar por
Glaedr e impedir que ele voltasse a recolher-se na sua carapaça de
tristeza. Embora admirasse a coragem do elfo, Eragon interrogouse
se a melhor abordagem seria realmente insultar Glaedr. Não era
certamente a estratégia mais segura.
As nuvens de trovoada ondulantes cresciam, iluminadas por
clarões semelhantes a relâmpagos, à medida que os pensamentos
se sucediam na mente de Glaedr:
Ultrapassaste os limites, elfo, rugiu, também na língua antiga.
Não tens nada que questionar as minhas ações. Não está sequer ao
teu alcance compreender o que eu perdi. Se não fosse Eragon e
Saphira, e o meu dever para com eles, há muito que teria
enlouquecido. Por isso não me acuses de negligência, Blödhgarm,
filho de Ildrid, a menos que te queiras pôr à prova com o último
dos grandes Anciãos.
Arreganhando mais os dentes, Blödhgarm bufou. Apesar disso,
Eragon detetou uma ligeira satisfação no rosto do elfo, mas, para
sua consternação, o elfo insistiu, dizendo:
Então não nos culpes por não cumprir o que é da tua
responsabilidade e não da nossa, Ancião. A nossa raça chora a tua
perda, mas não podes esperar que façamos cedências em função
da tua auto-piedade, estando em guerra com o mais mortífero dos
inimigos da nossa História — o mesmo inimigo que exterminou
praticamente toda a tua espécie e que matou o teu Cavaleiro.
A fúria de Glaedr era vulcânica, negra e terrível, fustigando
Eragon com tamanha violência que ele receou que o seu ser se
rasgasse em dois, como uma vela fustigada pelo vento. Do outro
lado do campo, ele viu homens largarem as armas e agarrarem-se à
cabeça, com o rosto desfigurado pela dor.
A minha auto-piedade?, disse Glaedr, acentuando cada palavra
como uma sentença de morte. Eragon sentiu algo de desagradável
ganhar forma nas profundezas da mente do dragão, algo que
poderia ser motivo de muita mágoa e de remorsos se chegasse a
ganhar forma.
Depois Saphira falou e a sua voz mental penetrou nas emoções
agitadas de Glaedr como uma faca na água:
Mestre, disse, tenho estado preocupada contigo. É bom saber
que você está bem e que você está de novo forte. Nenhum de nós te pode
igualar e precisamos da tua ajuda. Sem ti não temos qualquer
hipótese de derrotar o Império.
Glaedr roncou ameaçadoramente mas não a ignorou, nem a
interrompeu, nem a insultou. Na verdade, o elogio pareceu
agradar-lhe, mesmo que ligeiramente. “Afinal de contas”, pensou
Eragon, “se havia coisa a que os dragões eram sensíveis era à
lisonja, como Saphira bem o sabia.”
Sem se deter para permitir que Glaedr lhe respondesse, Saphira
disse:
Como já não podes usar as tuas asas, permite-me que te ofereça
as minhas em substituição. O ar está calmo e o céu está limpo.
Seria uma alegria voar bem alto acima do solo, mais alto que as
águias se atrevem a voar. Deves estar desejoso de deixar tudo isto
para trás e voltar a sentir as correntes de ar subirem por baixo de ti,
depois de tanto tempo aprisionado no coração dos corações.
A tempestade negra dentro de Glaedr abrandou um pouco,
embora continuasse vasta e ameaçadora, prestes a explodir de
novo com uma renovada violência. Isso... seria agradável.
Então voaremos juntos muito em breve. Mas Mestre...
Sim, minha pequena?
Primeiro gostaria de te pedir uma coisa.
Então pede.
Ajudarás Eragon no manejo da espada? Podes ajudá-lo? Ele
não tem a perícia que deveria ter e eu não quero perder o meu
Cavaleiro. Saphira manteve uma postura dignificante, mas havia
uma nota de súplica na sua voz e Eragon sentiu a garganta contrairse.
As nuvens de trovoada implodiram, deixando atrás de si uma
paisagem árida e cinzenta, indescritivelmente triste. Glaedr fez uma
pausa. Estranhas formas indistintas moviam-se lentamente a um
extremo — enormes monólitos que Eragon não tinha qualquer
desejo de ver de perto.
Muito bem, disse Glaedr, ao fim de algum tempo. Farei o que
puder pelo teu Cavaleiro. Mas, depois de sairmos deste campo, ele
terá de me deixar ensiná-lo como eu achar melhor.
Combinado, disse Saphira. Eragon viu Arya e os outros Elfos
descontraírem, como se tivessem estado a conter a respiração.
Eragon recolheu-se por momentos, ao ser contactado por
Trianna e outros feiticeiros que prestavam serviço nos Varden,
todos lhe exigiam que ela lhes explicasse o que acabara de lhes
destroçar a mente, perturbando tanto os homens como os animais
no acampamento. Trianna atropelou os outros, perguntando:
Estamos a ser atacados, Matador de Espectros? É Thorn? É
Shruikan?! O seu pânico era de tal forma intenso, que Eragon teve
vontade de largar a espada e o escudo, e fugir para um local
seguro.
Não, está tudo bem, disse ele tão calmamente, quanto possível.
A existência de Glaedr era ainda um segredo para a maioria dos
Varden, incluindo Trianna, e os feiticeiros sob as suas ordens e
Eragon queria que se mantivesse assim, não fosse a notícia do
dragão dourado chegar aos ouvidos dos espiões do Império. Era
extremamente difícil mentir em comunicação com a mente de outra
pessoa, pois era quase impossível não pensar no que se pretendia
esconder, daí que Eragon tenha abreviado a conversa o mais
possível. Eu e os Elfos estávamos a praticar magia, mais tarde
explico. Mas não há qualquer motivo para se preocuparem.
Eragon percebeu que as suas garantias não os convenceram
totalmente, mas eles não se atreveram a insistir numa explicação
mais detalhada e despediram-se antes de vedarem a mente ao seu
olho interior.
Arya devia ter-se apercebido de uma mudança no seu
comportamento, pois foi ao seu encontro e murmurou em voz
baixa:
— Está tudo bem?
— Está tudo bem — respondeu Eragon, num tom semelhante,
acenando com a cabeça em direção aos homens que apanhavam as
armas do chão.
— Tive de responder a algumas perguntas.
— Ah, mas não lhes disseste quem...
— Claro não.
Assumam as anteriores posições, resmungou Glaedr. Eragon e
Arya separam-se, afastando-se seis metros em ambas as direções.
Consciente de que poderia ser um erro, mas incapaz de se
conter, Eragon disse: Mestre, poderás mesmo ensinar-me o que
preciso de aprender antes de chegarmos a Urû’baen? Resta-nos
tão pouco tempo, que eu...
Posso ensinar-te agora mesmo, se me escutares, disse Glaedr.
Mas terás de me escutar mais atentamente do que nunca.
Estou a ouvi-lo, Mestre. Ainda assim, Eragon não pôde deixar
de se interrogar sobre o que o dragão saberia realmente acerca do
manejo da espada. Glaedr devia ter aprendido bastante com
Oromis, tal como Saphira aprendera com Eragon. Mas, apesar
dessas experiências partilhadas, Glaedr nunca pegara uma espada —
como poderia tê-lo feito? Glaedr ensinar esgrima a Eragon seria
como Eragon ensinar um dragão a navegar nas correntes de ar
quente que subiam pela encosta de uma montanha. Poderia fazê-lo,
mas jamais seria capaz de o explicar tão bem como Saphira, pois o
seu conhecimento era indireto e nenhuma reflexão abstrata poderia
sobrepor-se a essa desvantagem.
Eragon guardou as dúvidas para si, mas algo deveria ter
escapado através das barreiras que erguera, porque o dragão fez
um ruído divertido, ou melhor, reproduziu-o na sua mente — não era
fácil esquecer os hábitos do corpo — dizendo:
Os grandes combates são todos iguais, Eragon, tal como os
grandes guerreiros são iguais. A partir de um certo ponto, pouco
importa se lutas com uma espada, com as garras, com os dentes ou
com a cauda. É certo que tens de saber manejar convenientemente
a tua arma, mas qualquer pessoa com tempo e inclinação para isso,
consegue adquirir a competência técnica. Contudo, para se
alcançar a excelência é necessário um talento artístico, o que exige
imaginação e ponderação. São essas as qualidades comuns aos
melhores guerreiros, mesmo que à superfície pareçam totalmente
diferentes.
Glaedr ficou em silêncio por momentos e depois continuou:
Bom, o que foi que eu te disse antes?
Eragon não teve sequer de parar para pensar.
Que eu tinha de aprender a observar o que via. E eu tentei,
Mestre, a sério que tentei.
Mas ainda não vês. Olha para Arya. Porque será que ela
conseguiu derrotar-te inúmeras vezes? Porque ela te entende,
Eragon. Ela sabe quem você és e como pensas, e é isso que lhe
permite derrotar-te tão frequentemente. Porque será que Murtagh
conseguiu derrotar-te nas Planícies Flamejantes, embora não fosse
nem de longe tão rápido nem tão forte como tu?
Porque eu estava cansado e...
E como conseguiu ele ferir-te na anca, da última vez que se
encontraram, e você apenas lhe fizeste um arranhão na face? Eu
explico-te, Eragon. Não foi pelo fato de você estares cansado e ele
não. É porque ele te entende e você não o entendes. Murtagh sabe
mais do que tu, por isso tem poder sobre ti, tal como Arya.
Glaedr continuou a falar:
Olha para ela, Eragon, olha bem para ela. Ela vê-te como você és,
mas será que você a vês a ela? Consegues vê-la com clareza suficiente
para a derrotares em combate?
Eragon olhou Arya nos olhos e viu neles um misto de
determinação e instinto defensivo, como se ela o dasafiasse a
desvendar os seus segredos, mas ao mesmo tempo receasse o que
poderia acontecer se ele o fizesse. A dúvida cresceu dentro de
Eragon. Será que ele a conhecia realmente tão bem como pensava
ou ter-se-ia enganado a si mesmo, confundindo o exterior com o
interior?
Deixaste-te enfurecer mais do que devias, disse Glaedr,
brandamente. A raiva tem o seu lugar, mas aqui não poderá ajudarte.
O método do guerreiro é o método do saber. Se esse saber te
exigir que uses raiva, usas raiva, mas não poderás conquistar mais
saber perdendo a cabeça. Se o fizeres, a dor e a frustração serão
as tuas únicas recompensas.
Em vez disso, tens de fazer um esforço para ficares calmo,
mesmo que uma centena de inimigos vorazes te tente morder os
calcanhares. Esvazia a tua mente e deixa que esta se transforme
num lago calmo, capaz de refletir tudo em seu redor e ainda assim
intocado por tudo. A compreensão virá ao teu encontro nesse
vazio, assim que te libertares de medos irracionais sobre vitória ou
derrota, sobre vida ou morte.
Não podes prever todas as eventualidades e não podes garantir
o sucesso sempre que enfrentas um inimigo. Mas, se vires tudo,
sem descartares nada, poderás adaptar-te sem hesitação a
qualquer mudança. O guerreiro que mais tempo vive é o que mais
facilmente se consegue adaptar ao inesperado.
Por isso, olha para Arya, observa o que você está a ver, e depois
age como achares mais conveniente. Quando passares à ação, não
permitas que os teus pensamentos te distraiam. Pensa sem
pensares, para que possas agir por instinto e não racionalmente.
Agora vai e experimenta.
Eragon, procurou acalmar-se durante um momento e pensar em
tudo o que sabia acerca de Arya: o que ela gostava e não gostava,
os hábitos e maneirismos, os acontecimentos importantes da sua
vida, os medos e as esperanças e, acima de tudo, o seu
temperamento — o que ditava a forma como abordava a vida... e o
combate. Pensou em tudo isso e depois tentou descortinar a
essência da sua personalidade. Era uma tarefa difícil, especialmente
por estar a fazer um esforço para a ver não da forma habitual —
uma bela mulher que admirava e desejava —, mas como a pessoa
inteira e completa que realmente ela era, independente das suas
necessidades e desejos.
Tirou todas as conclusões que lhe foi possível num curto espaço
de tempo, embora receasse que os seus juízos fossem infantis e
demasiado simplistas. Depois, pôs de parte a incerteza e avançou,
erguendo o escudo e a espada.
Sabia que Arya esperava que ele tentasse algo de diferente, por
isso iniciou o duelo tal como fizera as duas vezes anteriores: correu
na diagonal, na direção do seu ombro direito, como se quisesse
contornar o escudo e atacá-la no flanco exposto. O estratagema
não a iria enganar, mas iria forçá-la a conjeturar sobre o que ele
estaria realmente a planear e, quanto mais tempo conseguisse
mantê-la nessa incerteza, melhor.
Uma pequena pedra rebolou sob o calcanhar do seu pé direito
pelo que ele transferiu o peso do corpo para o outro lado, de forma
a manter o equilíbrio.
O movimento provocou-lhe uma hesitação quase impercetível no
andar, de outro modo fluido, mas Arya apercebeu-se da
irregularidade e saltou na direção dele, com um grito de clarim.
As espadas roçaram uma na outra, uma, duas vezes, e depois
Eragon virou-se. Subitamente convicto de que Arya o iria atingir
junto da cabeça, Eragon apontou-lhe a espada ao peito, tão
rapidamente quanto possível, dirigindo-a para um ponto junto do
esterno que ela seria forçada a deixar exposto, se tentasse atingirlhe
o elmo.
A sua intuição estava certa mas os seus cálculos falharam.
Eragon atacou-a tão rapidamente que Arya não teve tempo de
afastar o braço e o punho da espada, desviando a ponta azulescura
de Brisingr e fazendo-a passar inofensivamente junto da sua
face. Um instante depois, o mundo girou em torno de Eragon.
Explosões de faíscas vermelhas e laranjas salpicaram o seu campo
de visão, ele cambaleou e caiu sobre o joelho, apoiando-se no
chão com ambas as mãos. Um ruído surdo, inundou-lhe os
ouvidos.
O som abrandou gradualmente, altura em que Glaedr disse:
Não tentes ser rápido nem lento Eragon. Se te moveres no
momento certo, o teu golpe não parecerá rápido nem lento, mas
espontâneo. O timing é tudo em combate. Tens de estar muito
atento aos padrões e ritmos dos corpos dos teus adversários: se
são fortes ou fracos, se são rígidos ou flexíveis. Se combinares os
seus ritmos quando estes servirem os teus propósitos e os
confundires quando não servirem, poderás controlar o ritmo da
batalha a teu favor. Isto é algo que terás de entender em absoluto.
Memoriza-o e pensa no assunto mais tarde... Agora, volta a tentar!
Olhando ferozmente para Arya, Eragon voltou a levantar-se e
abanou a cabeça para clarear as ideias, assumindo, aparentemente
pela centésima vez, a postura de combate. As dores nos vergões e
nas contusões redobraram. Sentia-se como um velho que sofre de
artrite.
Arya sacudiu os cabelos para trás e sorriu-lhe, mostrando-lhe os
dentes fortes e brancos.
O gesto não produziu qualquer efeito, pois ele estava
concentrado na tarefa que tinha em mãos e não estava disposto a
cair no mesmo truque duas vezes.
Antes do sorriso de Arya começar a desvanecer-se já Eragon
corria para diante, com a espada baixa, virada para o lado, e o
escudo à frente. Ao saltar, a posição da sua espada instigou Arya a
desferir um golpe precipitado e irrefletido: um golpe violento que o
teria atingido na clavícula se ela lhe tivesse acertado.
Eragon esquivou-se por baixo da espada de Arya, deixou-a
bater no escudo, e ergueu Brisingr brandindo-a em círculo, como
se quisesse golpeá-la nas pernas e nas ancas. Arya aparou o golpe
com o escudo e empurrou-o, deixando Eragon sem ar nos
pulmões.
Seguiu-se um breve período de calma em que os dois circularam
em torno um do outro, à espera de uma aberta que pudessem
explorar. O ar entre eles estava carregado de tensão. Estudavamse
mutuamente, com movimentos rápidos e bruscos quase
semelhantes aos dos pássaros, devido à energia superabundante
que lhes percorria as veias.
A tensão quebrou-se como uma vara de vidro que se partia ao
meio.
Eragon golpeou-a e Arya aparou o golpe. As espadas moviamse
tão velozmente que mal se viam. Eragon manteve-se de olhos
pregados nela ao trocarem os golpes, esforçando-se também para
observar os ritmos e padrões do seu corpo — tal como Glaedr lhe
aconselhara —, sem se esquecer de quem ela era e de como
provavelmente iria agir e reagir. Desejava tanto vencer que sentiu
que rebentaria se não o conseguisse.
Ainda assim, apesar de todos os seus esforços, Arya apanhou-o
de surpresa com um golpe invertido do pomo nas costelas.
Eragon parou e praguejou.
Já foi melhor, disse Glaedr, muito melhor. O teu timing foi quase
perfeito.
Mas não totalmente.
Não totalmente. Você está ainda demasiado zangado e a tua mente
ainda está demasiado obstruída. Não te esqueças do que te deves
lembrar, mas não deixes que isso te distraia do que está a
acontecer. Descobre um local calmo dentro de ti e deixa-te varrer
pelas preocupações do mundo, sem te deixares arrastar por elas.
Devias sentir-te como quando Oromis te mandou escutar os
pensamentos das criaturas da floresta. Nessa altura estavas
consciente de tudo o que se passava em teu redor, sem contudo te
fixares em nenhum detalhe. Não olhes apenas para os olhos de
Arya. A tua atenção é demasiado limitada, demasiado detalhista.
Mas Brom disse-me...
Há muitas formas de usar os olhos. Brom tinha a sua, mas não
era dos estilos mais flexíveis, nem o mais adequado para grandes
batalhas. Ele passou grande parte da sua vida a lutar mano a mano,
ou em pequenos grupos, e os seus hábitos refletiam isso. Mais vale
ter uma visão aberta do que um olhar demasiado próximo,
permitindo que algo no local ou na situação te apanhe
desprevenido. Entendes?
Sim, Mestre.
Então, volta a tentar, e desta vez descontrai e alarga a tua
perceção.
Eragon reviu mais uma vez o que sabia acerca de Arya. Depois
de pensar num plano de ação, fechou os olhos, abrandou a
respiração e recolheu-se em si mesmo. Os seus medos e a
ansiedade foram desaparecendo lentamente, deixando atrás de si
um vazio profundo que lhe atenuou a dor dos ferimentos e lhe
proporcionou uma invulgar sensação de clareza. Embora ainda
tivesse interesse em ganhar, a perspetiva da derrota já não o
incomodava. Seria como tivesse de ser, e ele não iria lutar
inutilmente contra os desígnios do destino.
— Preparado? — perguntou Arya, quando ele voltou a abrir os
olhos.
— Preparado.
Tomaram as posições iniciais e ficaram onde estavam, imóveis,
ambos à espera que o adversário atacasse primeiro. O sol estava à
direita de Eragon, o que queria dizer que se manobrasse Arya na
direção oposta, a luz incidiria sobre os seus olhos. Já antes o
tentara, sem sucesso, mas agora ele tinha pensado numa forma que
talvez lhe permitisse fazê-lo.
Sabia que Arya estava confiante de que o conseguiria derrotar.
Tinha a certeza de que ela não desvalorizava as suas aptidões mas,
por muito consciente que ela estivesse das suas aptidões e do seu
desejo de melhorar, vencera a esmagadora maioria dos combates.
Tais experiências revelaram-lhe que ele seria fácil de derrotar,
mesmo que, racionalmente, soubesse que não era bem assim.
Portanto, a sua confiança era também a sua fraqueza.
“Ela pensa que é melhor do que eu com uma espada”, disse
Eragon para consigo mesmo, “e talvez seja, mas eu posso usar
essas expetativas contra ela. Quanto muito, serão a sua ruína.”
Avançou alguns metros de lado e sorriu para Arya, ao mesmo
tempo que ela lhe sorria de volta. Arya tinha uma expressão
impassível. Momentos depois atacou-o, como se o fosse derrubar.
Eragon deu um salto para trás, desviando-se lentamente para a
direita, para tentar guiá-la na direção que pretendia.
Arya parou bruscamente a vários metros dele e ficou tão imóvel
quanto um animal selvagem surpreendido numa clareira. Depois
traçou um semicírculo com a espada, olhando-o diretamente.
Eragon desconfiava que ela estaria ainda mais empenhada em fazer
boa figura, pelo fato de Glaedr os estar a observar.
Depois, ela surpreendeu-o com um rugido suave, semelhante ao
de um felino. O rugido era uma arma para o destabilizar, tal como o
sorriso que fizera antes, e resultou, embora apenas parcialmente,
pois ele passara a contar com tais gestos, senão com esse em
particular.
Arya cruzou a distância que os separava com um único salto,
brandindo a espada na direção dele, com pesados golpes circulares
que Eragon aparou com o escudo. Deixou que ela o atacasse sem
oferecer resistência, como se os seus golpes fossem tão fortes que
apenas lhe permitissem defender-se. A cada sacudidela dolorosa
do braço e do ombro, Eragon recuava, cambaleando de vez em
quando para dar a impressão de que estava a ser forçado a recuar.
Ainda assim permaneceu sereno e controlado — como que vazio.
Percebeu que o momento oportuno se aproximava mesmo antes
deste chegar e, logo que chegou, ele agiu sem pensar nem hesitar,
sem querer ser rápido ou lento, procurando apenas aproveitar o
potencial daquele momento único e perfeito.
Ao ver a espada de Arya descer num arco cintilante, girou para
a direita, esquivando-se da arma e colocando-se em simultâneo de
costas para o sol.
A ponta da espada dela enterrou-se no chão com um ruído
seco.
Arya virou a cabeça para não o perder de vista, cometendo o
erro de olhar diretamente para o sol. Franziu os olhos e as suas
pupilas contraíram-se em pequenos pontos escuros.
Enquanto estava ofuscada, Eragon golpeou-a por baixo do
braço esquerdo, com Brisingr, tocando-lhe nas costelas. Poderia
tê-la atingido na nuca — e tê-lo-ia feito se estivessem realmente a
lutar — mas conteve-se, pois, mesmo com uma espada romba, um
golpe desses poderia matá-la.
Ao sentir Brisingr tocar-lhe, Arya soltou um grito agudo,
recuando vários passos, e parou com o braço encostado ao flanco
e a testa franzida de dor, olhando-o com uma expressão estranha.
Excelente!, exclamou Glaedr. Mais uma vez!
Eragon sentiu uma satisfação momentânea, mas depois abstraiuse
da emoção, regressando ao anterior estado de vigilância
desprendida.
Quando o rosto de Arya regressou ao normal e ela baixou o
braço, os dois caminharam cautelosamente em torno um do outro,
até que o sol deixasse de incidir nos olhos de ambos, altura em que
recomeçaram a luta. Eragon depressa reparou que Arya estava a
tratá-lo com mais cautela. Habitualmente isso ter-lhe-ia agradado,
compelindo-o a atacar com uma maior agressividade, no entanto
ele resistiu a esse impulso, pois parecia-lhe óbvio que ela fazia-o
propositadamente. Se ele mordesse o isco, em breve ficaria à sua
mercê, como tantas vezes antes.
O duelo durou apenas alguns segundos, embora fosse o
suficiente para trocarem uma série de golpes. Os escudos
estalavam, torrões de erva arrancada voavam pelo ar e as espadas
tilintavam uma contra a outra, à medida que mudavam de posição,
torcendo os corpos no ar como colunas de fumaça gémeas.
O resultado final foi o mesmo que anteriormente. Eragon
penetrou nas defesas de Arya com um hábil trabalho de pés e uma
sacudidela de pulso, golpeando Arya ao longo do peito, desde o
ombro ao esterno.
O golpe desequilibrou-a, fazendo-a cair sobre o joelho e ali
ficou, de sobrancelha franzido, respirando pesadamente de narinas
contraídas. Tirando as rosetas vermelhas que lhe apareceram ao
cimo das faces, Arya estava invulgarmente pálida.
Mais uma vez!, ordenou Glaedr.
Eragon e Arya obedeceram sem questionar. O cansaço de
Eragon diminuíra graças às duas vitórias, embora ele percebesse
que se passava precisamente o oposto com Arya.
Não ficou muito claro quem venceu o combate seguinte. Arya
recuperou e conseguiu frustrar todos os truques e armadilhas de
Eragon, e vice-versa. Continuaram a lutar indefinidamente até que,
por fim, ficaram ambos tão cansados que nenhum conseguiu
prosseguir. Apoiaram-se ambos nas espadas, agora demasiado
pesadas, ofegantes, com o suor a escorrer-lhes pelo rosto.
Mais uma vez, disse Glaedr em voz baixa.
Eragon fez uma careta ao arrancar Brisingr do chão. Quanto
mais exausto se sentia, mais difícil lhe era manter a mente
desobstruída e ignorar os protestos do seu corpo dorido. Achou
também que se tornava cada vez mais difícil manter um estado de
espírito equilibrado e evitar cair nas garras do mau humor que
habitualmente o acossava quando precisava de descanso. Aprender
a lidar com esse desafio, era parte do que Glaedr lhe tentava
ensinar, concluiu.
Sentia os ombros demasiado doridos para aguentar a espada e o
escudo diante de si. Por isso, deixou-os pendurados à altura da
cintura, esperando conseguir erguê-los com a rapidez necessária
mal fosse preciso. Arya fez o mesmo.
Arrastaram os pés em direção um ao outro, numa imitação
grosseira da anterior graciosidade.
Eragon estava exausto, ainda assim recusava-se a desistir.
Embora não entendesse bem como, o combate parecia ter-se
transformado em algo mais do que um mero teste de armas.
Convertera-se num teste a si mesmo, um teste ao seu caráter, à sua
força e à sua resiliência. E também não era Glaedr que o estava a
testar, mas sim Arya — pelo menos era o ele que sentia. Era como
se ela quisesse algo dele, como se ela quisesse que ele
demonstrasse algo... O quê, ele não sabia ao certo, mas estava
determinado a fazer o melhor possível. Enquanto Arya estivesse na
disposição de combater, ele estaria também, por muito que doesse.
Uma gota de suor caiu-lhe sobre o olho esquerdo. Pestanejou e
Arya atirou-se a ele, a gritar.
Mais uma vez iniciaram a sua dança mortífera e, mais uma vez,
lutaram até chegarem a um impasse. A fadiga tornava-os
desastrados. Mesmo assim moviam-se com uma harmonia
grosseira, que os impedia de alcançar a vitória.
Por fim, deram consigo face a face, de espadas cruzadas junto
dos punhos, empurrando-se um ao outro, com a pouca energia que
lhes restava.
Depois, enquanto ali estavam, empurrando-se inutilmente para
trás e para diante, Eragon disse num tom de voz grave e
ameaçador:
— Eu... vejo-te.
Uma centelha de luz surgiu nos olhos de Arya, voltando a
desaparecer com a mesma rapidez.

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