24 de junho de 2017

Capítulo 23 - Thardsvergûndnzmal

—T

u você está bem — disse Eragon. — Para de te preocupar. Além
disso, não podes fazer nada.
Saphira resmungou e continuou a estudar a sua imagem no
lago. Virou a cabeça de um lado para o outro e depois suspirou
pesadamente, libertando uma nuvem de fumaça que ficou a pairar
sobre a água como uma pequena nuvem de trovoada.
Tens a certeza?, perguntou, olhando para ele. E se não voltar a
crescer?
— Os dragões substituem as escamas a toda a hora. você sabes
isso.
Sim, mas nunca antes tinha perdido alguma!
Ele não se deu ao trabalho de esconder o sorriso, pois sabia que
Saphira sentiria que estava divertido.
— Não devias estar tão aborrecida. Não era assim tão grande. —
Esticou o braço e passou a mão no buraco em forma de diamante,
do lado esquerdo do focinho, o motivo recente da sua
consternação. A falha na sua armadura cintilante não era maior que
a ponta do polegar e tinha cerca de dois centímetros e meio de
profundidade. Ao fundo via-se a pele coriácea.
Curioso, Eragon tocou-lhe na pele com a ponta do indicador.
Estava quente e macia como a barriga de um bezerro.
Saphira roncou e afastou a cabeça dele.
Para com isso. Faz cócegas.
Ele riu baixinho e sacudiu os pés na água, junto da base da rocha
onde estava sentado, apreciando a sensação nos pés descalços.
Talvez não fosse muito grande, disse ela, mas toda a gente vai
reparar que falta. Como poderiam não reparar? Mais valia
ignorarem uma extensão de terra nua na crista de uma montanha
coberta de neve. E entortou os olhos, na tentativa de olhar para o
pequeno buraco escuro que tinha por cima das narinas, na ponta do
longo focinho.
Eragon deu uma gargalhada e salpicou-a com água, dizendo-lhe
depois, para lhe apaziguar o orgulho ferido:
— Ninguém vai reparar, Saphira, confia em mim, e se repararem
vão achar que é um ferimento de guerra pelo que vão considerar-te
ainda mais temível.
Achas que sim?, e voltou a examinar-se no lago. A água e as
escamas refletiam-se mutuamente numa série de matizes
deslumbrantes da cor do arco-íris. E se um soldado me atingir
nesse sítio? A sua espada trespassar-me-ia imediatamente. Talvez
fosse boa ideia pedir aos Anões que me fizessem uma chapa de
metal para cobrir esta área enquanto a escama cresce.
— Isso seria demasiado ridículo.
Achas?
— Hum, hum. — Eragon acenou com a cabeça, prestes a rir de
novo.
Ela fungou. Não precisas de fazer pouco de mim. Se o pelo da
tua cabeça começasse a cair, ou se perdesses uma dessas
pequenas saliências ridículas a que chamam dentes, gostavas? Sem
dúvida que acabaria por ter de te consolar.
— Sem dúvida — anuiu ele, descontraidamente. — Mas os dentes
não voltam a crescer. — Levantou-se da rocha e dirigiu-se à
margem onde deixara as botas, caminhando com cuidado para não
magoar os pés nas pedras, nem nos ramos espalhados à beira da
água. Saphira seguiu-o, com a terra mole a esguichar debaixo das
garras.
Podias lançar-me um feitiço para proteger apenas esta zona,
disse ela, enquanto Eragon calçava as botas.
— Pois podia. Queres que o faça?
Quero.
Formulou mentalmente o encantamento enquanto atava as botas.
Depois, colocou a mão direita sobre o buraco no focinho e
murmurou as palavras necessárias na língua antiga. Uma ligeira
radiância azul irradiou da palma da sua mão ao unir a proteção ao
corpo dela.
— Pronto — disse, quando terminou. — Agora já não tens de te
preocupar.
A não ser com o fato de continuar a faltar-me uma escama.
Ele empurrou-lhe a maxila.
— Anda, vamos voltar para o acampamento.
Abandonaram o lago, subindo a margem íngreme de terra solta,
atrás deles, e Eragon usou as raízes expostas das árvores como
apoio para as mãos.
Ao cimo da ladeira havia uma vista desobstruída do
acampamento dos Varden a Este, a cerca de oitocentos metros, e
da massa desordenada de Dras-Leona, ligeiramente a Norte do
acampamento. Os únicos sinais de vida dentro da cidade eram os
filamentos de fumaça que se erguiam das chaminés de muitas das
casas. Thorn, como sempre, estava deitado em cima das muralhas,
por cima do portão Norte, refastelado ao sol luminoso da tarde. O
dragão vermelho parecia estar adormecido, mas Eragon sabia, por
experiência, que ele estava de olho nos Varden. Pelo que, no
instante em que alguém se aproximasse da cidade, erguer-se-ia e
daria o alarme a Murtagh e aos outros, lá dentro.
Eragon saltou para o dorso de Saphira e esta transportou-o, sem
pressas, até ao acampamento.
Quando chegaram, ele saltou para o chão e foi à frente,
caminhando por entre as tendas. O acampamento estava sossegado
e tudo nele sugeria lentidão e sonolência, desde o tom baixo e
arrastado das conversas dos guerreiros aos estandartes imóveis no
ar pesado. As únicas criaturas que pareciam imunes à letargia eram
os cães esguios, semi-selvagens que vagueavam pelo
acampamento, a farejar, em busca de restos de comida. Alguns
tinham arranhões no focinho e nos flancos por terem cometido o
erro idiota, ainda que compreensível, de achar que poderiam
perseguir e atormentar um menino-gato de olhos verdes, como se
se tratasse de qualquer outro gato. Quando isso aconteceu os
ganidos de dor despertaram a atenção de todo o acampamento e
os homens riram à gargalhada, ao verem os cães a fugir do homemgato
com o rabo entre as pernas.
Consciente dos inúmeros olhares que ele e Saphira atraíam,
Eragon levantou o queixo e alargou os ombros, adoptando uma
passada vigorosa na tentativa de transmitir a ideia de propósito e
energia. Os homens tinham de sentir que ele continuava cheio de
confiança e que não se deixara abater pelo tédio resultante da difícil
situação em que se encontravam.
“Se ao menos Thorn e Murtagh se fossem embora”, pensou
Eragon. “Bastaria que se ausentassem um dia para que tomássemos
a cidade.”
Até então, o cerco a Dras-Leona revelara-se particularmente
escasso de acontecimentos, pois Nasuada recusava-se a atacar a
cidade pelos motivos que tinha expressado a Eragon:
— Mal conseguiste vencer Murtagh da última vez que se
encontraram. Já te esqueceste que ele te golpeou na anca? Além
disso, assegurou-te que estaria ainda mais forte, da próxima vez
que os vossos caminhos se cruzassem. Murtagh pode ser muita
coisa, mas não me parece que seja mentiroso.
— A força não é tudo num combate entre feiticeiros — comentara
Eragon.
— Não, mas também não é de desprezar. Além disso, ele agora
tem o apoio dos sacerdotes de Helgrind, muitos dos quais
desconfio que sejam feiticeiros. Não vou correr o risco de permitir
que os enfrentes num combate direto, juntamente com Murtagh,
nem mesmo com os feiticeiros de Blödhgarm a teu lado. Enquanto
não arquitetarmos um plano para instigar Murtagh e Thorn a
afastarem-se, para os encurralar ou ganhar alguma vantagem sobre
eles, ficaremos aqui e não atacaremos Dras-Leona.
Eragon protestou, argumentando que era inútil adiar a invasão e
que, se não conseguisse derrotar Murtagh, ela não poderia esperar
que ele derrotasse Galbatorix. Mas Nasuada mantinha-se cética.
Ambos tinham pesquisado, arquitetado e planeado formas de
ganhar a vantagem de que Nasuada falava — juntamente com Arya,
Blödhgarm e todos os feiticeiros de Du Vrangr Gata. Mas todas as
estratégias que concebiam, falhavam pois exigiam mais tempo e
mais recursos do que os Varden dispunham ou porque, em última
análise, não solucionavam a questão de como matar, capturar ou
afastar Murtagh e Thorn.
Nasuada chegara a ir ter com Elva para lhe pedir se usava o seu
dom — que lhe permitia sentir a dor das outras pessoas e qualquer
mágoa que estivessem para sofrer num futuro imediato — para
derrotarem Murtagh ou entrarem na cidade sub-repticiamente, mas
a menina de testa prateada rira-se de Nasuada e mandara-a
embora com piadas escarnecedoras e insultos, dizendo:
— Não tenho compromissos de lealdade convosco nem com
ninguém, Nasuada. Arranja outra criança para te ajudar a ganhar as
batalhas; não contes comigo.
Por isso os Varden esperaram.
Os dias sucediam-se inexoravelmente e Eragon via os homens
cada vez mais deprimidos e descontentes, e a preocupação de
Nasuada aumentava. Eragon sabia que um exército era uma besta
voraz e insaciável que depressa morreria e se separaria dos
elementos que a constituíam, a menos que os milhares de
estômagos que a habitavam fossem alimentados regularmente, com
doses maciças de comida. Sempre que um exército marchava para
um novo território, obter mantimentos era uma simples questão de
confiscar comida e outros bens essenciais aos povos conquistados,
usando os recursos dos campos em redor. À semelhança de uma
praga de gafanhotos, os Varden deixavam atrás de si um rasto de
terra árida, desprovido de quase tudo o que era necessário para
sustentar a vida.
Assim que paravam, depressa esgotavam os stocks de comida
mais à mão, pelo que eram forçados a subsistir inteiramente das
provisões que tinham trazido de Surda e das várias cidades que
tinham tomado. Por muito generosos que fossem os habitantes de
Surda, por muito ricas que fossem as cidades vencidas, as entregas
regulares de comida não eram suficientes para os suprir durante
muito mais tempo.
Embora Eragon soubesse que os guerreiros eram devotos à sua
causa, ele não tinha qualquer dúvida de que, se fossem
confrontados com a possibilidade de sofrerem uma morte lenta e
agonizante por inanição, isso apenas daria a Galbatorix a satisfação
de se vangloriar com a sua derrota. E a maioria dos homens iriam
optar por fugir para um recanto distante de Alagaësia, onde
pudessem viver o resto das suas vidas a salvo do Império.
Esse momento ainda não chegara, mas estava iminente.
E Eragon tinha a certeza de que era o pavor desse destino que
mantinha Nasuada acordada à noite, o que lhe dava uma aparência
mais extenuada todas as manhãs. Os papos debaixo dos olhos
pareciam pequenos e tristonhos sorrisos.
Perante as dificuldades que tinham enfrentado em Dras-Leona,
Eragon sentiu-se grato pelo fato de Roran não se ter deixado
atolar de forma semelhante em Aroughs. E isso acentuara a
admiração e o apreço que ele sentia em relação ao que o primo
fizera na cidade do Sul. “Ele é um homem mais corajoso do que
eu.” Nasuada não aprovava, mas assim que Roran regressasse — o
que deveria acontecer dentro de apenas alguns dias, se tudo
corresse bem —, Eragon estava determinado a conceder-lhe uma
nova série de proteções, pois já perdera demasiados membros da
família às mãos do Império e de Galbatorix, e não estava a fim de
permitir que Roran sofresse o mesmo destino.
Deteve-se para dar passagem a três anões que cruzavam o seu
caminho, a discutir. Os anões não usavam elmos nem insígnias, mas
Eragon sabia que não eram do Dûrgrimst Ingeitum pois tinham as
barbas entrançadas, decoradas com contas — uma moda que ele
nunca vira no Ingeitum. O motivo da discussão dos anões era um
mistério, pois ele apenas conseguia perceber algumas palavras da
sua linguagem gutural. Mas o tema era obviamente de enorme
importância, a avaliar pelo tom elevado das vozes, os gestos
incontidos e as expressões exageradas, bem como o fato de não
terem reparado nele nem em Saphira.
Eragon sorriu quando eles passaram, pois achou aquela
preocupação um pouco cómica, apesar da postura visivelmente
séria. Para alívio de muitos dos Varden, o exército dos Anões,
comandado pelo seu novo rei, Orik, chegara a Dras-Leona há dois
dias. Isso e a vitória de Roran em Aroughs eram os temas
principais de conversa por todo o acampamento. Os Anões quase
duplicavam as dimensões das tropas aliadas dos Varden e iriam
aumentar substancialmente as hipóteses de os Varden alcançarem
Urû’baen e Galbatorix, caso se conseguisse descobrir uma solução
vantajosa para o impasse com Murtagh e Thorn.
Ao caminhar pelo acampamento com Saphira, Eragon viu
Katrina sentada em frente da tenda, a tricotar roupas para a criança
que estava para nascer. Ela saudou-o de mão erguida, dizendo em
voz alta:
— Primo!
Ele respondeu de igual modo, como era hábito desde que
Katrina se casara.
Depois de um almoço pausado com Saphira — em que esta se
entreteve a morder e a rasgar grandes quantidades de ossos e
carne —, os dois retiraram-se para a extensão ensolarada de erva
macia, ao lado da tenda de Eragon. Por ordem de Nasuada, essa
extensão de erva ficaria sempre disponível para Saphira, uma
indicação que os Varden cumpriam religiosamente.
Saphira enroscou-se para dormitar um pouco sob o calor do
meio-dia. Enquanto isso, Eragon foi buscar o Domia abr Wyrda
aos alforges, trepando depois para debaixo da saliência da asa
direita e aninhando-se entre a curva interior do pescoço e a
musculosa pata direita de Saphira. A luz que se filtrava através das
pregas da asa e se projetava das escamas em manchas brilhantes,
conferia-lhe à pele uma estranha tonalidade arroxeada, cobrindo as
páginas do livro com uma série de formas cintilantes que
dificultavam a leitura das finas runas angulares. Mas ele não se
importava, pois o prazer de estar com Saphira compensava
largamente o incómodo.
Ficaram os dois sentados durante uma ou duas horas, até
Saphira digerir a refeição e Eragon se cansar de decifrar as
intricadas frases do Monge Heslant. Depois vaguearam pelo
acampamento, entediados, inspecionando as defesas e trocando
algumas palavras com as sentinelas estacionadas ao longo do
perímetro.
Perto do extremo leste do acampamento, onde a maior parte
dos Anões estava instalada, deparam-se com um anão acocorado
junto de um balde de água, com as mangas enroladas sobre os
cotovelos, a moldar uma bola de terra. A seus pés tinha uma poça
de lama e o pau que tinha usado para a revolver.
A cena era de tal forma incongruente, que só ao fim de alguns
minutos Eragon percebeu que o anão era Orik.
— Derûndânn, Eragon... e Saphira — disse Orik sem levantar os
olhos.
— Derûndânn — disse Eragon, repetindo a saudação tradicional
dos Anões. E agachou-se do outro lado da poça a observar Orik,
enquanto este refinava os contornos da bola, alisando-a e
modelando-a com a curva exterior do polegar direito. De vez em
quando, Orik esticava a mão e agarrava numa mão-cheia de terra
seca, salpicando-a sobre a esfera amarelada de terra e sacudindo
delicadamente o que estava a mais.
— Nunca pensei ver o rei dos Anões agachado no chão, a
brincar com lama como uma criança — disse Eragon.
Orik bufou, soprando o bigode:
— E eu nunca pensei ter um dragão e um Cavaleiro a olharem
para mim enquanto faço uma Eröthknurl.
— E o que é uma Eröthknurl?
— É uma thardsvergûndnzmal.
— Uma thardsver... — Eragon desistiu a meio, incapaz de se
lembrar da palavra completa, muito menos de a pronunciar. — E o
que é...?
— Algo que parece uma coisa diferente do que realmente é. —
Orik ergueu a bola de terra. — Repara: isto é uma pedra feita de
terra, ou melhor, é isso que parecerá quando eu terminar.
— Uma pedra de terra... É mágica?
— Não, é uma obra minha. Nada mais.
Ao ver que Orik não se explicava, Eragon insistiu:
— Como se faz?
— Verás, se fores paciente. — Algum tempo depois, Orik cedeu e
disse: — Primeiro tens de arranjar um pouco de terra.
— Eis uma tarefa difícil.
Orik lançou-lhe um olhar peculiar por baixo das suas fartas
sobrancelhas.
— Certos tipos de terra são melhores do que outros. A areia, por
exemplo, não serve. A terra tem de conter partículas de tamanho
variado para se agregar convenientemente. Deve também conter
um pouco de barro, como esta. Mas o mais importante é que se eu
fizer isto — e bateu ao de leve com a mão numa extensão de solo
entre torrões de erva pisada —, a terra deve conter muito pó, vês? —
Ergueu a mão, mostrando a Eragon a camada de poeira fina que
tinha na palma da mão.
— Porque é que isso é importante?
— Ah — disse Orik, batendo na asa do nariz e deixando uma
mancha esbranquiçada. Depois recomeçou a esfregar a esfera,
virando-a para que ficasse simétrica. — Logo que encontres terra
boa, molha-a e mistura-a com água e farinha até obteres uma lama
grossa. — Acenou com a cabeça para a poça a seus pés. — E da
lama fazes uma bola assim. Depois espreme-a para extrair toda a
água que puderes e a seguir dás-lhe uma forma perfeitamente
redonda. Quando ela começar a ficar pegajosa fazes como eu:
polvilha-a com terra para drenares mais a humidade para o exterior
e, depois, continuas até a bola ficar suficientemente seca para
manter a forma; mas não pode secar a ponto de se rachar.
«A minha Erôthknurl está quase nesse ponto. Quando terminar
levo-a para a minha tenda e deixo-a ao sol durante um bom
bocado. A luz e o calor drenarão mais a humidade do centro. A
seguir, volto a polvilhá-la com terra e a limpá-la. Depois de fazer
isso três ou quatro vezes, o exterior da minha Erôthknurl deverá
estar tão rijo como a pele de um Nagra.
— Tudo isso só para teres uma bola de lama seca? — interpelou
Eragon, intrigado. Saphira sentia o mesmo.
Orik pegou numa outra mão-cheia de terra.
— Não, porque a história não acaba aqui. A seguir é que o pó se
torna útil. Pego nele e esfrego o exterior da Erôthknurl, formando
uma carapaça fina e macia. Depois poiso a bola e espero que a
humidade emerja à superfície. Polvilho-a, espero, polvilho-a,
espero, e por aí adiante.
— Quanto tempo demora isso?
— Até que o pó já não se agarre à Erôthknurl. É a carapaça de
pó que lhe confere toda a beleza. Ao longo do dia irá adquirir um
lustro brilhante, como se fosse feita de mármore polido, e você terás
feito uma pedra com terra vulgar, sem polimento, esmeris, ou magia
— apenas com o coração, a cabeça e as mãos — ... uma pedra
frágil, é certo, mas ainda assim uma pedra.
Apesar da insistência de Orik, a Eragon ainda lhe custava
acreditar que a lama a seus pés pudesse ser transformada em algo
semelhante ao que Orik descrevera, sem magia.
Mas, porque você está você a fazer uma pedra, Orik, rei dos Anões? —
perguntou Saphira. Deves ter muitas responsabilidades agora que te
tornaste soberano do teu povo.
Orik resmungou:
— Não tenho nenhuma tarefa a cumprir neste momento. Os meus
homens estão prontos para a batalha, mas não há batalha alguma e
não seria bom que eu andasse em cima deles como uma mãe
galinha. Tão-pouco me apetece ficar na minha tenda sozinho, a ver
a barba crescer... Daí o Erôthknurl.
Depois ficou em silêncio. Mas Eragon desconfiava que Orik
estava aborrecido com algo, por isso conteve-se e esperou para
ver se ele dizia mais alguma coisa. Um minuto depois, Orik
pigarreou e disse:
— Antigamente, podia beber e jogar aos dados com os outros
membros do meu clã, independentemente de ser herdeiro adotivo
de Hrothgar. Podíamos ainda falar e rir juntos, sem nos sentirmos
desconfortáveis e eu não pedia nem fazia favores nenhuns. Mas
agora é diferente. Os meus amigos não conseguem esquecer que eu
sou o rei e eu não consigo ignorar que o comportamento deles se
modificou.
— Isso era de esperar — comentou Eragon. Identificava-se com a
difícil situação de Orik, pois sentia algo muito semelhante desde que
se tornara Cavaleiro.
— Talvez. Mas não é mais fácil de suportar pelo simples fato de
o sabermos. — Orik fez um ruído exasperado. — A vida por vezes é
uma jornada estranha e cruel... Eu admirava Hrothgar como rei,
mas muitas vezes parecia-me que ele era irascível com aqueles com
quem lidava, sem razão. Agora entendo melhor porque era assim. —
Orik aninhou a bola de terra em ambas as mãos e olhou-a,
franzindo a testa. — Quando te encontraste com o Grimsborith
Gannel, em Tarnag, ele explicou-te o significado das Erôthknurl?
— Nunca falou nisso.
— Suponho que houvesse outros assuntos para discutir... Ainda
assim, como membro dos Ingeitum e seu knurla adotivo, deverias
estar a par da importância e da simbologia das Erôthknurl. Não é
apenas uma forma de nos concentrarmos, passarmos o tempo e
criarmos uma lembrança interessante. O ato de fazer uma pedra
com terra é sagrado. Ao praticá-lo, reafirmamos a nossa fé no
poder de Helzvog e prestamos-lhe homenagem. A tarefa deve ser
desempenhada com reverência e propósito. Criar uma Erôthknurl é
uma forma de veneração e os deuses não veem com bons olhos
aqueles que praticam os ritos de uma forma frívola... Da pedra à
carne, da carne à terra e da terra de novo à pedra. Os ciclos
sucedem-se e nós temos apenas um vislumbre da totalidade.
Só então Eragon entendeu o significado da profunda inquietação
de Orik.
— Hvedra devia estar contigo — disse ele. — Ela poderia fazer-te
companhia e evitaria que ficasses tão melancólico. Nunca te vi tão
feliz como quando estavas com ela no Forte de Bregan. — As rugas
em torno dos olhos abatidos de Orik acentuaram-se, ao sorrir.
— Sim, mas ela é a grimstcarvlorss do Ingeitum e não pode
abandonar os seus deveres só para me consolar. Além disso,
dificilmente me sentiria descansado se ela estivesse a cem léguas de
Murtagh e Thorn, ou pior ainda, de Galbatorix e do seu maldito
dragão negro.
Tentando animar Orik, Eragon disse:
— você lembras-me a resposta a uma adivinha: um rei anão sentado
no chão a fazer uma pedra de terra. Não sei ao certo o que dizia a
adivinha, mas talvez fosse algo do género:
Qual é coisa qual é ela
Forte e robusta
Com treze estrelas na testa,
Pedra viva, a fazer pedra morta, de terra morta?
— Não rima, mas também não se pode esperar que eu componha
versos decentes por impulso. Creio que uma adivinha dessas seria
um quebra-cabeças para a maior parte das pessoas.
— Hum — reagiu Orik. — Não para um anão. Até as nossas
crianças a resolveriam num abrir e fechar de olhos.
Um dragão também, disse Saphira.
— Acho que tens razão — disse Eragon.
Entretanto ele quis saber tudo o que acontecera entre os Anões,
depois de ele e Saphira partirem de Tronjheim para a sua segunda
viagem à floresta dos Elfos. Eragon não tivera oportunidade de se
alongar muito nas suas conversas com Orik, desde que os Anões
tinham chegado a Dras-Leona, pelo que estava ansioso por saber
como passara o seu amigo desde que tinha assumido o trono.
Orik pareceu não se importar de explicar as complexidades da
política dos Anões. Na verdade, a sua expressão iluminou-se
enquanto falava, mostrando-se cada vez mais animado. Ele passou
quase uma hora a relatar as altercações e as manobras entre os clãs
dos Anões, antes de reunirem o exército e marcharem para se
juntarem aos Varden. Os clãs eram irascíveis, como Eragon bem
sabia e, mesmo sendo rei, Orik tinha dificuldade em impor-lhes
obediência.
— É como tentar conduzir um bando de gansos — disse Orik. —
Estão constantemente a tentar partir sozinhos, fazem um barulho
horrível e mordem-te a mão à primeira oportunidade.
No decurso da narrativa de Orik, Eragon pensou em perguntarlhe
acerca de Vermûnd. Interrogara-se inúmeras vezes sobre o que
teria acontecido ao chefe dos Anões que conspirara para o
assassinar. Gostava de saber onde estavam os seus inimigos,
especialmente alguém tão perigoso como Vermûnd.
— Regressou à aldeia onde nasceu, Felderast — disse Orik. —
Segundo consta, passa o tempo sentado a beber e a bramar sobre
o que aconteceu ou o que poderia ter acontecido, mas já ninguém
lhe presta atenção. Os knurlan dos Az Sweldn rak Anhûin são
orgulhosos e teimosos. Na maioria das circunstâncias continuariam
leais a Vermûnd, independentemente do que os outros clãs
dissessem ou fizessem, mas tentar assassinar um convidado é um
delito imperdoável. Nem todos os membros do Az Sweldn Anhûin
te odeiam como Vermûnd e eu não acredito que eles aceitem
permanecer isolados do resto da sua raça só para proteger um
grimstborith que perdeu a honra. Pode demorar anos, mas
acabarão por se virar contra ele. Já ouvi dizer que muitos dos
membros do clã ostracizaram Vermûnd, ao mesmo tempo que eles
próprios eram ostracizados.
— O que achas que lhe irá acontecer?
— Aceitará o inevitável e abdicará da sua posição, de contrário,
um dia destes, alguém lhe deita veneno no hidromel, ou lhe crava
uma adaga entre as costelas. Seja como for, ele já não é uma
ameaça para ti, como líder dos Az Sweldn rak Anhûin.
Continuaram a conversar até Orik completar os primeiros
passos na criação da sua Erôthknurl e estar disposto a levar a bola
de terra, deixando-a a secar na sua tenda sobre um pedaço de
pano. Ao levantar-se e ao pegar no balde e no pau, Orik disse:
— Agradeço teres tido a gentileza de me ouvires, Eragon, e tu
também Saphira. Por estranho que pareça, vocês são os únicos
com quem posso falar livremente, para além de Hvedra. Todos os
outros... — Encolheu os ombros. — Bah!
Eragon também se levantou.
— Independentemente do fato de seres rei dos Anões, és nosso
amigo, Orik e nós temos sempre gosto em falar contigo. Não tens
de recear que revelemos aos outros o que nos contaste, sabes?
— Eu sei, Eragon. — Orik fitou-o de olhos franzidos. — Tu
participas nos acontecimentos do mundo e, no entanto, ainda não te
deixaste envolver pelas maquinações mesquinhas em teu redor.
— Não me interessam. Além disso há questões mais importantes
para resolver agora.
— Isso é bom. Um Cavaleiro deve manter-se à parte de toda a
gente. Como conseguirias julgar as coisas por ti, se assim não
fosse? Nunca dei muito valor à independência dos Cavaleiros, mas
agora dou, quanto mais não seja por motivos egoístas.
— Eu não estou totalmente à parte — disse Eragon. — Tenho um
pacto de lealdade para contigo e para com Nasuada.
Orik inclinou a cabeça.
— É verdade. Mas não fazes realmente parte dos Varden nem
dos Ingeitum. Seja como for, fico feliz por poder confiar em ti.
Um sorriso cresceu no rosto de Eragon.
— Eu também.
— Afinal de contas somos irmãos adotivos e os irmãos devem-se
proteger uns aos outros, verdade?
“Lá isso é verdade”, pensou Eragon, embora não o tivesse
verbalizado.
— Irmãos adotivos — anuiu ele, batendo ao de leve no ombro de

Orik.

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