3 de junho de 2017

Capítulo 23 - Marido e mulher

Quatro horas mais tarde, Eragon estava em pé no cume de uma pequena colina pontilhada de flores silvestres.
Em volta, ficava um prado verdejante fronteiriço ao rio Jiet, que corria dezenas de metros à direita de Eragon. O céu estava claro e limpo; a luz do sol banhava a paisagem com um suave esplendor. O ar estava frio e calmo, e com um aroma de frescor, como se houvesse acabado de chover. Reunidos na frente da colina estavam os aldeões de Carvahall, nenhum deles fora ferido durante o combate, e pareciam ser metade dos soldados dos Varden. Muitos guerreiros tinham longas lanças adornadas com flâmulas de várias cores. Vários cavalos, incluindo Fogo na Neve, estavam amarrados no fim do prado. Apesar de todo o esforço de Nasuada, organizar aquela assembleia havia levado mais tempo do que qualquer um imaginara.
O vento despenteava o cabelo de Eragon, que ainda estava úmido do banho, quando Saphira pairou sobre a congregação e pousou perto dele, balançando as asas. Ele sorriu e tocou-a no ombro.
Pequenino.
Em circunstâncias normais, Eragon teria ficado nervoso em falar na frente de tantas pessoas e participar de urna cerimônia tão solene e importante, mas, após o recente combate, tudo havia adquirido um ar de irrealidade, como se nada daquilo passasse de um sonho particularmente realista.
Aos pés da colina estavam Nasuada, Arya, Narheim, Jörmundur, Angela, Elva e outras pessoas de importância. O rei Orrin estava ausente porque seus ferimentos eram mais sérios do que a avaliação inicial fazia crer e seus curandeiros ainda estavam trabalhando nele em seu pavilhão. O primeiro-ministro do rei, Irwin, participava em seu lugar. Os únicos Urgals presentes eram os dois da guarda pessoal de Nasuada. Eragon presenciou o momento em que Nasuada convidara Nar Garzhvog para o evento, e ficara aliviado quando ele teve o bom senso de declinar. Os aldeões jamais tolerariam muitos Urgals no casamento. A própria Nasuada teve dificuldades em convencê-los a permitir que seus guardas permanecessem.
Com um farfalhar de roupas, os aldeões e os Varden se dividiram, formando uma passagem longa da colina até a borda da multidão. Então, em coro, os aldeões começaram a cantar antigas canções de casamento do vale Palancar. Os versos bem urdidos falavam do ciclo das estações, da terra cálida que dava vida a uma nova colheita a cada ano, das crias da primavera, dos tordos fazendo seus ninhos, das desovas dos peixes e de como os jovens estavam destinados a substituir os velhos. Uma das feiticeiras de Blödhgarm, uma elfa de cabelos prateados, retirou uma pequena harpa dourada de um estojo de veludo e acompanhou os aldeões com notas de sua autoria, ornamentando os temas simples de suas melodias, emprestando à música familiar uma atmosfera melancólica.
Com passos lentos e seguros, Roran e Katrina emergiram dos dois lados da multidão no fim do caminho, se viraram para a colina e, sem se tocarem, começaram a avançar na direção de Eragon. Roran estava vestido com uma túnica nova, emprestada de um dos Varden. Seu cabelo estava penteado, sua barba aparada e suas botas limpas. Seu rosto irradiava uma alegria inexprimível. Em todos os sentidos, parecia belo e distinto a Eragon. Entretanto, era Katrina quem atraía sua atenção. Seu vestido era azul-claro – como convinha a uma noiva em seu primeiro casamento – de corte simples, mas com um laço de vinte metros carregado por duas garotas. Em contraste com o tecido claro, suas madeixas soltas brilhavam como cobre polido. Nas mãos, carregava um buquê de flores silvestres. Estava orgulhosa, serena e bela. Eragon ouviu algumas mulheres arfando com a passagem de Katrina. Ele decidiu agradecer a Nasuada por pedir que a Du Vrangr Gata fizesse o vestido de Katrina, porque ele achava que ela era a responsável pelo presente.
Três passos atrás de Roran, Horst caminhava. E a uma distância similar atrás de Katrina, Birgit caminhava, tomando o cuidado de evitar pisar na cauda. Quando Roran e Katrina estavam na metade do caminho para a colina, um par de pombas brancas voou dos salgueiros na margem do rio Jiet. As pombas carregavam uma argola com narcisos amarelos atados a suas patas. Katrina diminuiu o passo e parou quando elas se aproximaram. Os pássaros a circundaram três vezes, de norte a leste, e então mergulharam e puseram a argola no alto da cabeça da noiva antes de retornar ao rio.
— Você arranjou isso? — murmurou Eragon para Arya.
Ela sorriu. No topo da colina, Roran e Katrina ficaram imóveis diante de Eragon enquanto esperavam que os aldeões terminassem de cantar. Assim que o último refrão desapareceu no olvido, Eragon ergueu as mãos e disse:
— Bem-vindos todos. Hoje, nos reunimos para celebrar a união das famílias de Roran, filho de Garrow, e Katrina, filha de Ismira. Eles são ambos de boa reputação e, no meu entender, ninguém jamais lançou alguma acusação sobre eles. Se este não é o caso, contudo, ou se alguma outra razão existir para que não possam se tornar marido e mulher, então que suas objeções sejam explicitadas diante destas testemunhas para que possamos julgar o mérito de seus argumentos. — Eragon fez uma pausa para um intervalo apropriado, e então continuou: — Quem aqui fala por Roran, filho de Garrow?
Horst deu um passo à frente.
— Roran não possui nem pai nem tio, então eu, Horst, filho de Ostrec, falo por ele como meu sangue.
— E quem aqui fala por Katrina, filha de Ismira?
Birgit deu um passo à frente.
— Katrina não possui nem mãe nem tia, então eu, Birgit, filha de Mardra, falo por ela como meu sangue. — Apesar de sua vendeta contra Roran, por tradição era direito e responsabilidade de Birgit representar Katrina, já que ela fora amiga íntima da mãe da noiva.
— É justo e apropriado. O que, então, traz Roran, filho de Garrow, a esse casamento para que ambos possam prosperar?
— Ele traz seu nome — disse Horst. — Ele traz seu martelo. Ele traz a força de suas mãos. E ele traz a promessa de uma fazenda em Carvahall, onde ambos poderão viver em paz.
A multidão ficou embasbacada assim que percebeu o que Roran estava fazendo: ele estava declarando da maneira mais pública e compromissada possível que o Império não o impediria de voltar para casa com Katrina e de proporcionar-lhe a vida que ela teria, não fosse a interferência assassina de Galbatorix. Roran estava empenhando sua honra, de homem e marido, na queda do Império.
— Você aceita esta oferta, Birgit, filha de Mardra? — perguntou Eragon.
Birgit assentiu com a cabeça.
— Aceito.
— E o que traz Katrina, filha de Ismira, a esse casamento para que ambos possam prosperar?
— Ela traz seu amor e devoção, com os quais ela deverá servir a Roran, filho de Garrow. Ela traz suas habilidades em cuidar de um lar. E ela traz um dote.
Eragon observou, surpreso, Birgit fazer um gesto para que dois homens que estavam em pé ao lado de Nasuada se aproximassem carregando um baú de metal. Birgit abriu o fecho do baú e depois ergueu o tampo e mostrou a Eragon o conteúdo. Ele ficou estupefato ao ver a montanha de joias dentro do baú.
— Ela traz com ela um colar de ouro cravejado de diamantes. Ela traz um broche feito com coral vermelho dos Mares do Sul e uma rede de pérolas para segurar o cabelo. Ela traz cinco anéis de ouro e âmbar. O primeiro anel... — Ao descrever cada item, Birgit o erguia do baú para que todos pudessem ver que ela estava falando a verdade.
Atônito, Eragon olhou de relance para Nasuada e notou o sorriso de satisfação no rosto dela. Depois que Birgit terminou sua longa descrição e fechou o baú, Eragon perguntou:
— Você aceita essa oferta, Horst, filho de Ostrec?
— Aceito.
— Dessa forma, suas famílias se tornam uma única família, de acordo com a lei da região. — Então, pela primeira vez, Eragon se dirigiu diretamente a Roran e Katrina: — Aqueles que falam por vocês concordaram com os termos de seu casamento. Roran, você está satisfeito com a maneira pela qual Horst, filho de Ostrec, conduziu as negociações em seu favor?
— Estou.
— E, Katrina, você está satisfeita com a maneira pela qual Birgit, filha de Mardra, conduziu as negociações em seu favor?
— Estou.
— Roran Martelo Forte, filho de Garrow, você jura, pelo seu nome e pelo nome de sua linhagem, que protegerá e proverá Katrina, filha de Ismira, enquanto ambos estiverem vivos?
— Eu, Roran Martelo Forte, filho de Garrow, juro, pelo meu nome e pelo nome de minha linhagem, que protegerei e proverei Katrina, filha de Ismira, enquanto estivermos vivos.
— Você jura que garantirá sua honra, que permanecerá constante e fiel a ela nos anos vindouros e que a tratará com o devido respeito, dignidade e carinho?
— Eu juro que garantirei sua honra, que permanecerei constante e fiel a ela nos anos vindouros e que a tratarei com o devido respeito, dignidade e carinho.
— E você jura que dará a ela as chaves de suas posses, conforme existam, e de seu cofre onde você guarda seu dinheiro a partir do pôr-do-sol de amanhã de modo que ela possa cuidar de seus negócios como é função de uma esposa?
Roran jurou que sim.
— Katrina, filha de Ismira, você jura, pelo seu nome e pelo nome de sua linhagem, que servirá e provera Roran, filho de Garrow, enquanto ambos estiverem vivos?
— Eu, Katrina, filha de Ismira, juro, pelo meu nome e pelo nome de minha linhagem, que servirei e proverei Roran, filho de Garrow, enquanto ambos estivermos vivos.
— Você jura que garantirá sua honra, que permanecerá constante e fiel a ele nos anos vindouros, que terá filhos dele, se assim for, e que será uma mãe cuidadosa?
— Eu juro que garantirei sua honra, que permanecerei constante e fiel a ele nos anos vindouros, que terei filhos dele, se assim for, e que serei uma mãe cuidadosa.
— E você jura que assumirá a responsabilidade pela riqueza e pelas posses dele, e que as administrará responsavelmente de modo que ele possa se concentrar nas tarefas que são dele e de mais ninguém?
Katrina jurou que sim.
Sorrindo, Eragon retirou uma fita vermelha de sua manga e disse:
— Cruzem seus punhos. — Roran e Katrina estenderam seus braços esquerdo e direito, respectivamente, e seguiram as instruções. Dispondo o meio da fita ao longo dos pulsos dos dois, Eragon envolveu a faixa de seda três vezes sobre os braços e então amarrou as pontas com um laço. — De acordo com meus direitos de Cavaleiro de Dragão, eu agora os declaro marido e mulher!
A multidão irrompeu em aplausos. Inclinando-se um para o outro, Roran e Katrina se beijaram, e a multidão redobrou os aplausos.
Saphira mergulhou sua cabeça na direção do casal radiante e, assim que eles se separaram, tocou cada um deles na testa com a ponta do focinho.
Que vocês tenham uma vida longa e que o amor de vocês se aprofunde a cada ano que passar, disse ela.
Roran e Katrina se voltaram para a multidão e ergueram juntos seus braços na direção do céu.
— Que o banquete se inicie! — declarou Roran.
Eragon seguiu o casal na descida da colina e caminhavam em meio ao tumulto de gritos até duas cadeiras colocadas na frente de uma fileira de mesas. Lá, Roran e Katrina se sentaram como o rei e a rainha de seu casamento. Então, os convidados fizeram uma fila para dar as congratulações e os presentes.
Eragon foi o primeiro. Com um sorriso tão grande quanto o dos noivos, ele apertou a mão livre de Roran e inclinou a cabeça na direção de Katrina.
— Obrigada, Eragon — disse ela.
— Sim, obrigado — acrescentou Roran.
— A honra foi toda minha. — Ele olhou para ambos e então soltou uma gargalhada.
— O que foi? — perguntou Roran.
— Vocês! Vocês dois estão felizes como dois tolos.
Com os olhos cintilando, Katrina riu e abraçou Roran.
— Estamos sim!
Mais sério, Eragon disse:
— Vocês devem saber o quanto são afortunados por estar aqui hoje, juntos. Roran, se você não tivesse conseguido arregimentar todos e seguir para a Campina Ardente, e se os Ra’zac tivessem levado você, Katrina, para Urû’baen, nenhum dos dois teria...
— Sim, mas eu consegui, e eles não — interrompeu Roran. — Não vamos escurecer esse dia com pensamentos desagradáveis sobre o que poderia ter acontecido.
— Não foi por isso que eu toquei no assunto. — Eragon olhou de relance para a fila de pessoas esperando atrás dele e certificou-se de que elas não estavam suficientemente próximas para ouvir. — Nós três somos inimigos do Império. E como ficou provado hoje, não estamos a salvo, mesmo aqui entre os Varden. Se Galbatorix puder, vai atacar qualquer um de nós, incluindo você, Katrina, para ferir os outros. Então, eu fiz isso para vocês.
De um saquinho no cinto, Eragon puxou dois anéis de ouro simples, tão polidos que brilhavam. Na noite anterior, ele os havia moldado a partir da última esfera de ouro que extraíra da terra. Ele deu o maior para Roran e o menor para Katrina.
Roran revirou o anel, examinando-o, e então o segurou contra o céu, estreitando os olhos para os hieróglifos na língua antiga gravados na parte interna das peças.
— É muito bonito, mas como isso pode nos proteger?
— Eu os encantei para que realizassem três coisas — disse Eragon. — Se alguma vez vocês precisarem de minha ajuda ou de Saphira, torçam o anel em volta do dedo uma vez e digam “Ajude-me, Matador de Espectros; ajude-me, Escamas Brilhantes”, e nós ouviremos vocês e viremos o mais rápido que pudermos. Da mesma forma, se algum de vocês estiver próximo da morte, o anel vai nos alertar e você, Roran, ou você, Katrina, dependendo de quem estiver em perigo. E contanto que os anéis estejam tocando a pele de vocês, vocês sempre saberão como encontrar um ao outro, não importa o quanto estejam distantes. — Ele hesitou, e então acrescentou: — Espero que vocês concordem em usá-los.
— É claro que usaremos — disse Katrina.
O peito de Roran inflou, e sua voz ficou rouca.
— Obrigado — disse ele. — Obrigado. Eu gostaria de já ter esses anéis quando ela e eu fomos separados em Carvahall.
Como cada um deles só tinha uma das mãos livre, Katrina deslizou o anel de Roran, colocando-o no terceiro dedo da mão direita, e ele deslizou o anel de Katrina para ela, colocando-o no terceiro dedo da mão esquerda.
— Também tenho outro presente para vocês — continuou Eragon. Ele se virou, assoviando e gesticulando. Arrumando passagem em meio à multidão, um cavalariço correu na direção deles, conduzindo Fogo na Neve pelas rédeas. O cavalariço deu as rédeas do garanhão para Eragon, fez uma mesura e se retirou. Eragon explicou: — Roran, você vai precisar de um bom corcel. Inicialmente, ele pertencia a Brom, depois a mim, e agora eu o estou dando a você.
Roran passou os olhos por Fogo na Neve.
— É um animal magnífico.
— O melhor. Você o aceita?
— Com prazer.
Eragon chamou de volta o cavalariço e devolveu Fogo na Neve, avisando que Roran era o novo dono.
Assim que o homem e o cavalo saíram, Eragon olhou para as pessoas na fila que estavam carregando presentes para Roran e Katrina. Rindo, comentou:
— Vocês dois podem ter sido pobres hoje de manhã, mas serão ricos de noite. Se Saphira e eu tivermos oportunidade de nos fixar em algum lugar, nós viremos morar com vocês nos salões gigantescos que vocês vão construir para todos os seus filhos.
— Seja lá o que viermos a construir, dificilmente será grande o suficiente para Saphira — disse Roran.
— Mas vocês sempre serão bem-vindos em nossa casa — completou Katrina. — Os dois.
Depois de congratular o casal mais uma vez, Eragon escondeu-se no fim da mesa e se divertiu jogando pedaços de frango assado para Saphira e observando o dragão pegá-los no ar.
Permaneceu lá até Nasuada falar com Roran e Katrina, quando ela lhes entregou alguma coisa pequena que ele não pôde enxergar. Então, ele interceptou Nasuada quando ela estava saindo da festa.
— O que há, Eragon? — perguntou ela. — Não posso permanecer.
— Foi a senhora que deu o vestido e o dote de Katrina?
— Sim. Você desaprova?
— Estou grato por ter sido tão gentil com minha família, mas imagino que...
— Pois não?
— Os Varden não estão desesperados por ouro?
— Estamos — disse Nasuada —, mas não tão desesperados quanto antes. Desde o meu esquema com as rendas, e desde que triunfei no Desafio das Facas Longas e as tribos nômades juraram absoluta fidelidade a mim e me garantiram acesso a suas riquezas, nós estamos menos propensos a morrer de fome e mais propensos a morrer porque não dispomos de uma espada ou de uma lança. — Seus lábios contorceram-se em um sorriso. — O que eu dei a Katrina é insignificante comparado às vastas somas que este exército requer para funcionar. E não acredito que eu tenha desperdiçado meu ouro. Ao contrário, acredito ter feito uma aquisição valiosa. Adquiri prestígio e autoconfiança para Katrina e, por extensão, adquiri a boa vontade de Roran. Pode ser que eu esteja sendo exageradamente otimista, mas suspeito que a lealdade dele nos provará ser muito mais valiosa do que cem escudos ou cem lanças.
— A senhora está sempre procurando melhorar as perspectivas dos Varden, não está? — perguntou Eragon.
— Sempre. Como você também deveria estar. — Nasuada começou a se afastar dele, mas voltou e disse: — Alguma hora antes do pôr-do-sol, venha ao meu pavilhão e nós visitaremos os feridos na batalha de hoje. Há muitos que não podemos curar, você sabe. Vai lhes fazer bem saber que nós nos preocupamos com seu bem-estar e que somos gratos pelo sacrifício.
Eragon assentiu com a cabeça.
— Estarei lá.
— Bom.


As horas passavam, Eragon ria e comia e bebia e trocava histórias com antigos amigos. Hidromel fluía como água, o banquete de casamento ficava cada vez mais barulhento. Abrindo espaço entre as mesas, os homens testavam suas bravuras uns contra os outros com apresentações de luta livre, arco e flecha e ataques com porretes. Dois elfos, um homem e uma mulher, demonstravam suas habilidades com a espada – maravilhando a assistência com a velocidade e a desenvoltura da dança de espadas. Até mesmo Arya aceitou cantar uma canção, o que arrepiou Eragon.
Em meio a tudo isso, Roran e Katrina falavam pouco, preferindo ficar sentados olhando um para o outro, esquecidos da festa que os cercava. Quando a ponta do sol alaranjado tocou o horizonte distante, contudo, Eragon desculpou-se relutante. Com Saphira ao seu lado, deixou o folguedo para trás e se encaminhou para o pavilhão de Nasuada, respirando fundo o ar frio da noite para limpar a cabeça. Ela estava esperando por ele na frente de sua tenda vermelha, com os Falcões da Noite por perto. Sem dizer uma palavra, ela. Eragon e Saphira atravessaram o acampamento em direção às tendas dos curandeiros, onde estavam os feridos.
Por mais de uma hora, Nasuada e Eragon visitaram os homens que haviam perdido braços, pernas ou os olhos; que haviam contraído uma infecção incurável no curso da guerra contra o Império. Alguns dos guerreiros haviam se ferido naquela manhã. Outros, como descobriu Eragon, feriram-se na Campina Ardente e ainda não haviam se recuperado, apesar de todas as ervas e encantamentos que lhes haviam sido lançados.
Antes de se encaminharem para as fileiras de homens embaixo de cobertores, Nasuada avisou para Eragon não se cansar ainda mais tentando curar todos que encontrava, mas ele não conseguia se conter e acabava murmurando um encanto aqui e ali para aliviar uma dor, para drenar um abscesso, para consertar um osso quebrado ou para apagar uma cicatriz desagradável.
Um dos homens que Eragon encontrou havia perdido a perna esquerda abaixo do joelho, assim como dois dedos da mão direita. Sua barba era curta e grisalha, e seus olhos estavam cobertos com uma tira de pano preto. Quando Eragon o saldou e perguntou como ele estava, o homem se aproximou e agarrou o cotovelo de Eragon com os três dedos da mão direita. Com uma voz rouca, o homem disse:
— Ah, Matador de Espectros. Eu sabia que você viria. Eu estou esperando você desde a luz.
— O que quer dizer?
— A luz que iluminou a carne do mundo. Num único instante, eu vi todas as coisas vivas ao meu redor, da maior à menor. Eu vi meus ossos brilhando em meus braços. Eu vi as minhocas na terra e os corvos no céu e os micuins nas asas dos corvos. Os deuses tocaram em mim, Matador de Espectros. Eles me deram a visão por alguma razão. Eu vi você no campo de batalha, você e o dragão, e você parecia um sol flamejante entre uma floresta de velas fracas. E eu vi seu irmão, seu irmão e o dragão dele, e eles também pareciam um sol.
A nuca de Eragon se arrepiou ao ouvir aquilo.
— Não tenho irmão — disse ele.
O espadachim mutilado cacarejou.
— Você não pode me enganar, Matador de Espectros. Eu sei muito bem. O mundo queima ao meu redor, e do fogo, eu ouço o sussurro de mentes, e aprendo coisas dos sussurros. Você se esconde de mim agora, mas eu ainda posso vê-lo, um homem como uma chama amarelada com doze estrelas flutuando em volta de sua cintura e outra estrela, mais brilhante do que as outras, sobre sua mão direita.
Eragon pressionou a palma da mão no cinto de Beloth, o Sábio, verificando se os doze diamantes costurados por dentro ainda estavam escondidos. Estavam.
— Ouça-me, Matador de Espectros — sussurrou o homem, puxando Eragon para perto de seu rosto enrugado. — Eu vi seu irmão, e ele queimava. Mas ele não queimava como você. Oh, não. A luz da alma dele brilhava através dele, como se viesse de algum outro lugar. Ele, ele era um vácuo, uma forma de homem. E através daquela forma vinha o brilho que queimava. Você compreende? Outros o iluminavam.
— Onde estavam esses outros? Você também os via?
O guerreiro hesitou.
— Eu podia senti-los por perto, enraivecidos com o mundo, como se odiassem tudo nele, mas seus corpos estavam ocultos. Eles estavam lá e não estavam. Não consigo dar uma explicação melhor do que essa... Eu não desejaria chegar mais perto daquelas criaturas, Matador de Espectros. Elas não são humanas, disso eu tenho certeza, e o ódio delas era como se fosse a maior tempestade que você já viu entalada numa pequena garrafa de vidro.
— E quando a garrafa se quebrar... — murmurou Eragon.
— Exatamente, Matador de Espectros. Às vezes eu imagino se Galbatorix não conseguiu capturar os próprios deuses e os transformou em escravos, mas aí eu rio e digo para mim mesmo que não passo de um idiota.
— Mas os deuses de quem? Dos anões? Os deuses das tribos nômades?
— Isso tem importância, Matador de Espectros? Um deus é um deus, independentemente de onde vem.
Eragon grunhiu.
— Talvez você tenha razão.
Ao deixar o homem, uma das curandeiras puxou Eragon e disse:
— Perdoe-o, meu Senhor. O choque dos seus ferimentos deixou-o bem louco. Ele está sempre falando sem parar em sóis e estrelas e luzes brilhantes que afirma ver. Às vezes, parece que sabe de coisas que não deveria saber, mas não se deixe enganar, ele pega tudo isso dos outros pacientes. Eles fofocam o tempo todo, o senhor sabe. E tudo o que podem fazer, pobrezinhos.
— Eu não sou seu Senhor — disse Eragon —, e ele não está louco. Não sei ao certo o que ele é, mas possui uma habilidade incomum. Se ele melhorar ou piorar informe, por favor, a alguém da Du Vrangr Gata. A curandeira fez uma mesura. — Como queira, Matador de Espectros.
— Sinto muito por meu erro, Matador de Espectros.
— Como ele se feriu?
— Um soldado cortou seus dedos quando ele tentava bloquear uma espada com a mão. Mais tarde, um dos projéteis das catapultas do Império aterrissou em sua perna, esmagando-a definitivamente. Tivemos de amputá-la. Os homens que estavam aqui, ao seu lado, disseram que quando o projétil o atingiu, ele imediatamente começou a gritar a respeito da luz, e quando eles o ergueram, repararam que os olhos dele haviam ficado totalmente brancos. Até as pupilas haviam desaparecido.
— Ah. Você foi muito prestativa. Obrigado.
Já estava escuro quando Eragon e Nasuada finalmente deixaram a tenda dos curandeiros. Nasuada suspirou:
— Agora eu tomaria uma caneca de hidromel. — Eragon assentiu com a cabeça, mirando o espaço entre seus pés. Eles começaram a caminhar em direção ao pavilhão dela e, depois de um tempo, ela perguntou: — O que está pensando, Eragon?
— Que nós vivemos em um mundo estranho, e terei sorte se algum dia eu compreender mais do que uma pequena parte dele. — Então, ele narrou sua conversa com o homem, o que ela achou tão interessante quanto ele próprio havia achado.
— Você deveria contar a Arya a respeito disso — disse Nasuada. — Talvez ela saiba quem poderiam ser esses “outros”.
Separaram-se à entrada do pavilhão. Nasuada entrou para terminar a leitura de um relatório, enquanto Eragon e Saphira continuaram até a tenda dele. Lá, Saphira enroscou-se no chão e já se preparava para dormir quando Eragon sentou-se perto dela e mirou as estrelas, um desfile de homens feridos marchando diante de seus olhos.
O que muitos deles haviam contado continuava reverberando em sua mente: Nós combatemos por você, Matador de Espectros.

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