24 de junho de 2017

Capítulo 22 - Interlúdio


Roran estava sentado, curvado sobre a beira da mesa, a brincar
com um cálice incrustado de jóias que observava com interesse.
A noite tinha caído e a única luz no luxuoso quarto provinha
de duas velas que estavam em cima de uma secretária e do
pequeno fogo que ardia na lareira, junto da cama de dossel vazia.
Tirando o estalido ocasional da lenha a arder, tudo estava em
silêncio.
Uma brisa ligeiramente salgada entrava suavemente pelas
janelas, separando as finas cortinas brancas. Roran virou a cara
para sentir a corrente de ar, acolhendo com agrado o ar fresco na
pele febril.
Através da janela, a cidade de Aroughs estendia-se diante de si.
Fogueiras de vigilância salpicavam as ruas, em cruzamentos, aqui e
ali, para além disso a cidade estava escura e sossegada —
invulgarmente escura e sossegada — pois todos os que podiam
estavam escondidos em casa.
Quando a brisa cessou, bebeu outro gole do cálice, vertendo o
vinho pelas goelas abaixo, para não ter de o engolir. Uma gota
caiu-lhe sobre o golpe, no lábio inferior, e ele contraiu-se, sorvendo
o ar enquanto esperava que a agulhada de dor lhe passasse.
Poisou o cálice em cima da secretária, junto de um prato com
pão e cordeiro, e da garrafa de vinho, meio vazia, olhando depois
para o espelho, entre duas velas. O espelho continuava a refletir o
seu rosto extenuado, contundido e ensanguentado, sem uma boa
parte da barba do lado direito.
Desviou os olhos. A seu tempo, ela iria contactá-lo. Entretanto
esperaria. Era tudo o que podia fazer, pois estava demasiado
dorido para dormir.
Voltou a pegar no cálice e girou-o entre os dedos.
O tempo passou.
Mais tarde, nessa noite, o espelho tremeluziu como uma poça de
mercúrio ondulante, e Roran pestanejou, olhando-o sonolento, de
olhos franzidos.
O rosto em forma de lágrima de Nasuada ganhou forma diante
dele, com uma expressão mais grave do que nunca.
— Roran — disse ela para o saudar, com uma voz clara e forte.
— Lady Nasuada. — Endireitou-se na mesa, afastando-se o mais
possível dela, o que correspondeu apenas a alguns centímetros.
— Foste capturado?
— Não.
— Então, presumo que Carn esteja morto ou ferido.
— Morreu enquanto combatia outro feiticeiro.
— Lamento sabê-lo... Parecia ser um homem decente e nós mal
podemos dar-nos ao luxo de perder um dos nossos feiticeiros. —
Silenciou por instantes. — E Aroughs?
— A cidade é nossa.
Nasuada arqueou as sobrancelhas.
— A sério? Estou impressionada. Diz-me, como correu a
batalha? Correu tudo de acordo com o planeado?
Abrindo a boca o menos possível para atenuar o desconforto
que sentia ao falar, Roran mastigou o relato dos últimos dias, desde
a sua chegada a Aroughs, passando pelo homem zarolho que o
atacara na tenda, a destruição dos diques, nos moinhos, a forma
como os Varden tinham atravessado Aroughs, até ao palácio do
Lorde Halstead, falando-lhe também do duelo de Carn com o
feiticeiro inimigo.
Depois contou-lhe que fora atingido nas costas e que Brigman
lhe tinha extraído a flecha.
— Foi uma sorte lá estar, fez um bom trabalho. Se não fosse ele,
eu ficaria praticamente sem préstimo até encontrarmos um
curandeiro. — Retraiu-se interiormente, por instantes, recordando
subitamente os seus ferimentos a serem cauterizados, e voltando a
sentir o toque do metal quente contra a carne.
— Espero que tenhas encontrado um curandeiro para te
examinar.
— Sim, mais tarde encontrei, mas não era feiticeiro.
Nasuada recostou-se na cadeira e estudou-o durante algum
tempo.
— Surpreende-me que ainda tenhas forças para falar comigo. O
povo de Carvahall é, de fato, rijo.
— Depois controlámos o palácio, bem como o resto de Aroughs,
embora haja ainda algumas zonas de que não temos o domínio. Foi
relativamente fácil convencer os soldados a renderem-se, logo que
perceberam que nós tínhamos penetrado nas suas linhas e
conquistado o centro da cidade.
— E o Lorde Halstead? Também conseguiram capturá-lo?
— Estava a tentar fugir do palácio quando alguns dos meus
homens se depararam com ele. Halstead tinha apenas um pequeno
número de guardas consigo, que não eram suficientes para
combater os nossos guerreiros. Por isso ele e os criados fugiram
para uma adega e barricaram-se lá... — Roran esfregou o polegar
num rubi embutido no cálice que tinha diante de si. — Não se
queriam render e eu não me atrevia a invadir a adega, pois ter-nosia
saído demasiado caro, por isso... ordenei aos homens que
fossem buscar panelas de óleo à cozinha, peguei-lhes fogo e atireias
contra a porta.
— Estavas a tentar fazê-los sair com a fumaça? — perguntou
Nasuada.
Ele acenou lentamente com a cabeça.
— Alguns dos soldados fugiram cá para fora quando a porta
ardeu, mas Halstead esperou tempo de mais. Encontrámo-lo no
chão, sufocado.
— Isso é lamentável.
— E a sua filha, Galiana... também. — Roran conseguia ainda
revê-la mentalmente: pequena e delicada, com um belo vestido cor
de lavanda, coberto de folhos e laços.
Nasuada franziu a sobrancelha.
— Quem é o sucessor de Halstead, o novo conde de Fenmark?
— Tharos, o Lesto.
— O mesmo que comandou o ataque contra vós, ontem?
— Esse mesmo.
Só a meio da tarde é que os homens lhe tinham levado Tharos.
O homem baixo e barbudo parecera-lhe aturdido, embora ileso, e
faltava-lhe o elmo com aquelas penas extravagantes. Deitado de
barriga para baixo num sofá estofado, para poupar as costas,
Roran dissera-lhe:
— Creio que me deves uma garrafa de vinho.
— Como conseguiste fazer isto? — replicara-lhe Tharos,
enfaticamente, com o desespero estampado na voz. — A cidade era
inexpugnável. Só um dragão conseguiria penetrar nas nossas
muralhas. No entanto, vejam bem o que você arranjaste. você não
podes ser humano, você não podes ser... — Depois ficara em silêncio,
incapaz de dizer mais uma palavra.
— Como reagiu ele à morte do pai e da irmã? — perguntou
Nasuada.
Roran apoiou a cabeça na mão. Estava suada e pegajosa, por
isso limpou-a com a manga e começou a tremer. Apesar da
transpiração sentia frio no corpo todo, especialmente nas mãos e
nos pés.
— Não pareceu importar-se muito com o pai. Já em relação à
irmã... — Roran retraiu-se ao lembrar-se da torrente de insultos que
Tharos lhe dirigira depois de saber que Galiana tinha morrido.
— Matar-te-ei por isto, se alguma vez tiver hipótese — dissera
Tharos. — Juro.
— Então é melhor despachares-te — retorquira Roran. — Há já
outra pessoa que me quer matar e, se alguém acabar por me matar,
aposto que vai ser ela.
— ... Roran?... Roran!
Ligeiramente surpreendido, Roran apercebeu-se que Nasuada
chamava pelo seu nome, olhando de novo para ela, emoldurada no
espelho como um retrato, lutando para conseguir voltar a falar.
Finalmente disse:
— Tharos não é realmente o conde de Fenmark. É o mais novo
dos sete filhos de Halstead, porém todos os seus irmãos fugiram ou
estão escondidos. Por isso ele é o único que resta para reclamar o
título, neste momento. Será um bom enviado para comunicarmos
com os anciãos da cidade. Mas sem Carn, é-me impossível saber
quem é leal a Galbatorix e quem não é. Suponho que a maior parte
dos nobres o sejam, para além dos soldados, claro, mas é
impossível saber quem mais lhe é leal.
Nasuada crispou os lábios.
— Compreendo... Dauth é a cidade mais próxima. Vou pedir a
Lady Alarice — que suponho já teres conhecido — que mande a
Aroughs alguém especializado na arte de ler os pensamentos. A
maior parte dos nobres têm alguém desse género na sua comitiva,
por isso Alarice não deverá ter dificuldade em satisfazer o nosso
pedido. Contudo, ao marcharmos para as Planícies Flamejantes, o
rei Orrin trouxe consigo todos os feiticeiros importantes de Surda,
o que significa que, muito provavelmente, as aptidões mágicas da
pessoa que Alarice mandar se resumirão a ler os pensamentos de
outras pessoas e, sem os feitiços adequados, será difícil de evitar
que os que são leais a Galbatorix nos ofereçam uma constante
resistência.
Enquanto Nasuada falava, Roran passou os olhos pela
secretária, detendo-se na garrafa escura de vinho. Será que Tharos
a tinha envenenado? A ideia não o alarmou.
Depois Nasuada voltou a dirigir-se a ele:
— ... espero que tenhas mantido rédea curta com os teus homens
e não permitas que eles andem à solta em Aroughs, a incendiar, a
pilhar e a darem-se a certas liberdades com o seu povo.
Roran estava tão cansado que teve dificuldade em ponderar
numa resposta coerente, mas finalmente conseguiu dizer:
— O nosso número é demasiado reduzido para que os homens
cometam malfeitorias. Eles sabem tão bem como eu que os
soldados poderiam reconquistar a cidade, se lhes déssemos a
mínima hipótese.
— Isso é uma faca de dois gumes. Quantos homens perdeste
durante o ataque?
— Quarenta e dois.
O silêncio instalou-se durante algum tempo. Depois, Nasuada
disse:
— Carn tinha alguma família?
Roran encolheu ligeiramente o ombro esquerdo.
— Não sei. Era de algures no Norte, creio, mas nunca chegámos
a falar das nossas vidas, antes... antes de tudo isto acontecer...
Nunca pareceu muito relevante.
Roran sentiu uma comichão súbita na garganta que o obrigou a
tossir várias vezes. Curvou-se sobre a mesa até tocar com a testa
na madeira, fazendo caretas, ao sentir vagas de dor nas costas, no
ombro e na boca ferida. As convulsões foram tão violentas que o
vinho saltou do cálice, salpicando-lhe a mão e o pulso.
Enquanto ele recuperava lentamente, Nasuada disse:
— Tens de chamar um curandeiro para te examinar, Roran. Não
você está bem. Devias estar na cama.
— Não. — Limpou o cuspo ao canto da boca e depois olhou para
ela. — Eles fizeram tudo o que podiam e eu não sou nenhuma
criança para que me deem tantos mimos.
Nasuada hesitou e a seguir baixou a cabeça:
— Como queiras.
— E agora o que se segue? — perguntou ele. — Posso ir embora
daqui?
— Era minha intenção mandar-te regressar logo que tomássemos
Aroughs — fosse de que maneira fosse —, mas você não você está em
condições de cavalgar até Dras-Leona. Terás de esperar até que...
— Não vou esperar — resmungou Roran, agarrando no espelho e
puxando-o para si até este ficar a escassos centímetros do seu
rosto. — Não me dês mimos, Nasuada, eu consigo andar a cavalo e
bem. Só aqui vim porque Aroughs era uma ameaça para os
Varden, mas essa ameaça já não se coloca — eu eliminei-a. Esteja
ferido ou não, não tenciono ficar aqui com a minha mulher e o meu
filho por nascer acampados a menos de um quilômetro e meio de
Murtagh e do seu dragão!
A voz de Nasuada endureceu por instantes:
— Foste a Aroughs porque eu te mandei. — Depois disse num
tom mais calmo: — Contudo o teu argumento é pertinente. Podes
regressar de imediato, se te sentes capaz. Não há motivo para
cavalgares dia e noite como fizeste na viagem para aí, mas também
não deves demorar uma eternidade. Usa o teu bom senso. Não
quero ter de explicar a Katrina que te mataste a viajar... Quem
achas que devo nomear para te substituir, quando partires de
Aroughs?
— O Capitão Brigman.
— Brigman? Porquê? Não tiveste dificuldades com ele?
— Ele ajudou-me a manter os homens na linha, depois de ficar
ferido. Eu não estava com as ideias muito claras nessa altura...
— Imagino que não.
— ... e ele fez os possíveis para que eles não entrassem em
pânico, nem perdessem a coragem. Além disso, comandou-os em
meu nome enquanto eu estava preso nesta miserável caixa de
música acastelada, pois era o único que tinha experiência suficiente
para tal. Sem ele não teríamos conseguido controlar toda a cidade
de Aroughs. Os homens gostam dele, e é hábil a planear e a
organizar. Vai governar bem a cidade.
— Seja então Brigman. — Nasuada desviou os olhos do espelho e
murmurou algo a alguém que ele não conseguia ver. Depois virouse
de novo para ele e disse: — Tenho de admitir que nunca pensei
que conseguisses tomar Aroughs. Parecia-me impossível que
alguém conseguisse penetrar nas defesas da cidade, em tão pouco
tempo, com tão poucos homens e sem a ajuda de um dragão ou de
um Cavaleiro.
— Então porque me mandaste aqui?
— Porque tinha de tentar algo antes de permitir que Eragon e
Saphira voassem para tão longe, e porque você tens a mania de
contrariar as expetativas e vencer onde outros acabariam por falhar
ou desistir. Se o impossível tivesse de acontecer, o mais provável
era que fosse sob a tua alçada, como de fato aconteceu.
Roran roncou baixinho. “E quanto tempo poderei continuar a
desafiar o destino, até ser morto como Carn?”
— Desdenha se quiseres, mas não podes negar o teu próprio
sucesso. Hoje deste-nos uma grande vitória, Martelo Forte, ou
Capitão Martelo Forte, melhor dizendo. O título é mais do que
merecido e estou-te imensamente grata pelo que fizeste. Ao
tomares Aroughs, libertaste-nos da possibilidade de nos vermos
forçados a lutar em duas frentes, o que certamente implicaria a
nossa destruição. Todos os Varden estão em dívida para contigo e
eu prometo-te que os sacrifícios que você e os teus homens fizeram
não serão esquecidos.
Roran tentou dizer algo mas não conseguiu, voltou a tentar e
falhou uma segunda vez até que finalmente conseguiu dizer:
— Eu... eu não me esquecerei de transmitir as tuas impressões
aos homens. Terão um grande significado para eles.
— Por favor. Agora tenho de me despedir de ti. É tarde, você você está
ferido, e eu já te tomei demasiado tempo.
— Espera... — Roran esticou o braço e bateu com a ponta dos
dedos no espelho. — Espera. Ainda não me disseste como vai o
cerco a Dras-Leona.
Ela olhou-o com uma expressão vazia.
— Mal. E sem sinais de melhoria. Davas-nos jeito aqui, Martelo
de Ferro. Se não conseguirmos resolver a situação rapidamente,
tudo aquilo por que lutámos estará perdido.

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