3 de junho de 2017

Capítulo 22 - Fogo no céu

Enquanto observava Thorn e Murtagh se erguerem alto no céu ao norte, Eragon ouviu Narheim murmurar “Barzûl” e então amaldiçoar Murtagh por ter matado Hrothgar, o rei dos anões.
Arya girou para dar as costas à visão.
— Nasuada, Vossa Majestade — disse ela, relanceando os olhos na direção de Orrin —, é preciso deter os soldados antes que cheguem ao acampamento. Não se pode permitir que ataquem nossas defesas. Se chegarem a fazê-lo, passarão por cima dos baluartes como uma onda impelida por uma tempestade e provocarão uma devastação sem precedentes bem no meio de nós, entre as barracas, onde não podemos manobrar com eficácia.
— Devastação sem precedentes? — zombou Orrin. — Você tem tão pouca confiança em nosso poderio, embaixadora? Os humanos e os anões podem não ser tão talentosos como os elfos, mas não teremos nenhuma dificuldade para nos livrarmos desses pobres desgraçados, posso lhe garantir.
As linhas do rosto de Arya se retesaram.
— Seu poderio é incomparável, Vossa Majestade. Disso não tenho dúvida. Mas escutem: tudo isso é uma armadilha preparada para Eragon e Saphira. Eles — ela indicou com um braço os vultos ascendentes de Thorn e Murtagh — vieram capturar Eragon e Saphira para levá-los para Urû’baen. Galbatorix não teria enviado tão poucos homens a menos que tivesse certeza de que eles conseguiriam manter os Varden ocupados pelo tempo necessário para Murtagh derrotar Eragon. Galbatorix deve ter lançado encantamentos sobre esses homens, para ajudá-los na missão. Não sei quais possam ser esses encantamentos, mas tenho certeza de uma coisa: os soldados são mais numerosos do que parecem, e nós devemos impedi-los de entrar no acampamento.
— Vocês não vão querer deixar Thorn sobrevoar o acampamento — disse Eragon, saindo do seu choque inicial. — Ele poderia incendiar a metade com uma única passagem por nós.
Nasuada cerrou as mãos sobre o arção da sela, aparentemente esquecida de Murtagh, Thorn e dos soldados, que estavam a menos de um quilômetro e meio de distância.
— Mas por que não nos atacar enquanto estávamos desprevenidos? — perguntou ela. — Por que nos alertar da sua presença?
Foi Narheim quem respondeu.
— Porque eles não querem que Eragon e Saphira fiquem enredados no combate no chão. Não, a menos que eu me engane, o plano deles é que Eragon e Saphira enfrentem Murtagh e Thorn no ar enquanto os soldados atacam nossa posição aqui.
— Será então prudente atender aos desejos deles, despachando Eragon e Saphira por nossa própria vontade para essa armadilha? — perguntou Nasuada com uma sobrancelha levantada.
— É prudente, sim — insistiu Arya —, pois temos uma vantagem da qual eles não poderiam suspeitar. — Ela indicou Blödhgarm. — Desta vez, Eragon não enfrentará Murtagh sozinho. Ele tem a força combinada de treze elfos a lhe dar apoio. Murtagh não está esperando isso. Detenham os soldados antes que cheguem aqui, e vocês terão frustrado parte do projeto de Galbatorix. Enviem Saphira e Eragon lá para cima com os feiticeiros mais poderosos da minha raça sustentando seus esforços, e vocês arrasarão com o que sobrar do esquema de Galbatorix.
— Você me convenceu — disse Nasuada. — No entanto, os soldados estão perto demais para que os interceptemos a uma distância razoável do acampamento com a nossa infantaria. Orrin...
Antes que ela terminasse, o rei tinha dado meia-volta no cavalo e saído em disparada para o portão norte do acampamento. Alguém do seu séquito fez soar uma trombeta, sinal para que o restante da cavalaria de Orrin se reunisse para o ataque.
— O rei Orrin precisará de ajuda — disse Nasuada para Garzhvog. — Mande seu pessoal se juntar a ele.
— Lady Caçadora Noturna. — Jogando para trás a enorme cabeça provida de chifres, Garzhvog emitiu um berro selvagem, ululante. A pele na parte traseira dos braços e do pescoço de Eragon se arrepiou quando ele ouviu o uivo selvagem do Urgal. Fechando os maxilares com ruído, Garzhvog encerrou seu berro e então grunhiu: — Eles virão.
Os Kull irromperam num trote de abalar a terra, correndo na direção do portão onde o rei Orrin e seus cavaleiros estavam reunidos. Com esforço, quatro homens dos Varden puxaram o portão para abri-lo. O rei Orrin ergueu a espada, deu um grito e saiu do acampamento a galope, liderando seus homens em direção aos soldados de túnica de pespontado dourado. Uma nuvem de poeira creme se formou num turbilhão a partir dos cascos dos cavalos ocultando a formação em cunha.
— Jörmundur — disse Nasuada.
— Sim, minha lady?
— Envie duzentos espadachins e cem lanceiros atrás deles. E cinquenta arqueiros devem estar dispostos a setenta ou oitenta metros do combate. Quero esses soldados esmagados, destruídos, exterminados, Jörmundur. Os homens precisam entender que não haverá acordo nem rendição.
Jörmundur fez uma reverência.
— Diga-lhes também que, embora eu não possa me juntar a eles nesta batalha, por conta dos meus braços, em espírito estou marchando com eles.
— Minha lady.
Quando Jörmundur seguiu às pressas, Narheim levou seu pônei para mais perto de Nasuada.
— E meu próprio povo, Nasuada? Que papel desempenharemos?
Nasuada olhava com ar preocupado para a poeira espessa, sufocante, que atravessava a grande área da campina.
— Vocês podem ajudar a proteger nosso perímetro. Se os soldados de algum modo conseguirem se livrar do nosso ataque... — Ela foi forçada a se calar quando quatrocentos Urgals, pois mais tinham chegado desde a batalha da Campina Ardente, saíram do centro do acampamento, malhando o chão com seu peso, passaram pelo portão e seguiram para o campo mais além, o tempo todo rugindo gritos de guerra incompreensíveis. Quando desapareceram na poeira, Nasuada retomou o que estava dizendo: — Se os soldados conseguirem se livrar do nosso ataque, os machados de vocês serão extremamente bem-vindos na defesa do acampamento.
O vento lançou em direção a eles uma rajada, que trazia consigo os berros de homens e cavalos morrendo, o som arrepiante do metal deslizando sobre o metal, o retinir de espadas resvalando em elmos, o impacto surdo de lanças em escudos e, por baixo de tudo isso, um horrendo riso que saía de uma multidão de gargantas e prosseguia sem cessar ao longo de toda a violência. Era, pensou Eragon, o riso dos enlouquecidos.
Narheim bateu com o punho no quadril.
— Por Morgothal, não é da nossa natureza ficar de braços cruzados quando há uma luta à espera! Despache-nos, Nasuada, e permita que decepemos algumas cabeças para a senhora!
— Não! — exclamou Nasuada. — Não, não e não! Já lhe dei minhas ordens e espero que você as cumpra. Esta é uma batalha de cavalos, homens e Urgals, talvez até mesmo de dragões. Não é um lugar adequado para anões. Vocês seriam pisoteados como crianças. — Diante da imprecação indignada de Narheim, ela ergueu a mão. — Sei muito bem que vocês são guerreiros temíveis. Ninguém sabe disso melhor do que eu, que lutei ao seu lado em Farthen Dûr. Contudo, para ir direto ao ponto, vocês são baixos para nossos padrões, e eu preferiria não arriscar seus guerreiros numa refrega como esta, na qual sua estatura poderia ser sua desgraça. Melhor esperar aqui, no terreno elevado, onde vocês estarão mais altos que qualquer um que tente escalar este talude, e deixar que os soldados venham até vocês. Quaisquer soldados que cheguem até nós haverão de ser guerreiros de habilidade tão tremenda que eu vou querer que você e seu povo os rechacem, pois é tão fácil arrancar uma montanha do chão quanto derrotar um anão.
Ainda insatisfeito, Narheim resmungou uma resposta qualquer, mas qualquer coisa que tivesse dito se perdeu quando os Varden que Nasuada tinha acionado saíram em fila pela brecha no aterro, onde antes estava o portão. O barulho dos passos fortes e do equipamento que chocalhava foi desaparecendo aos poucos à medida que os homens se afastavam do acampamento.
Então, o vento se fixou numa brisa constante; e, da direção da luta, voltou a vir o riso medonho. Daí a um momento, um grito mental de força incrível superou as defesas de Eragon e varou sua consciência, enchendo-o de agonia enquanto ele ouvia um homem dizer: Ah, não! Socorro! Eles não morrem! Angvard que os leve! Eles não morrem!
A ligação entre as mentes desapareceu nesse instante, e Eragon engoliu em seco ao perceber que o homem tinha sido morto.
— Quem era esse? — perguntou Nasuada, remexendo-se na sela, com a expressão tensa.
— Você também ouviu?
— Parece que todos nós ouvimos — disse Arya. — Acho que era Barden, um feiticeiro que segue com os cavaleiros do rei Orrin, mas...
— Eragon!
Thorn estivera descrevendo círculos a uma altitude cada vez maior, enquanto o rei Orrin e seus homens lutavam com os soldados, mas agora o dragão pairava imóvel no ar, a meio caminho entre os soldados e o acampamento; e a voz de Murtagh, amplificada pela magia, ressoou por toda a terra.
— Eragon! Eu o estou vendo, escondido por trás da saia de Nasuada. Venha lutar comigo, Eragon! É o seu destino. Ou será que você é um covarde, Matador de Espectros?
Saphira respondeu por Eragon, levantando a cabeça e rugindo ainda mais alto que a fala trovejante de Murtagh, para então lançar um jato de fogo azul crepitante, de uns seis metros de comprimento. Os cavalos perto de Saphira, o de Nasuada inclusive, dispararam assustados, deixando o dragão e Eragon sozinhos no aterro com os elfos.
Aproximando-se de Saphira, Arya pôs a mão na perna esquerda de Eragon e, com seus olhos verdes e repuxados, olhou para ele ali no alto.
— Aceite isso de mim, Shur’tugal — disse ela. E ele sentiu um jorro de energia penetrar nele.
— Eka elrun ono — murmurou ele para ela.
— Tenha cuidado, Eragon — disse ela, também na língua antiga. — Eu não ia querer vê-lo derrotado por Murtagh. Eu... — Parecia que ela ia dizer mais alguma coisa, mas hesitou; retirou então a mão de sua perna e recuou para onde estava Blödhgarm.
— Voe bem, Bjartskular! — entoaram os elfos quando Saphira se lançou do alto do aterro.
Enquanto Saphira voava na direção de Thorn, Eragon uniu sua mente primeiro com ela, depois com Arya e, através de Arya, com Blödhgarm e os outros onze elfos. Ao manter Arya como ponto central para os elfos, Eragon conseguiu se concentrar em seus pensamentos e nos de Saphira. Ele as conhecia tão bem que suas reações não o perturbariam no meio de uma luta. Eragon segurava o escudo com a mão esquerda e desembainhou a cimitarra, segurando-a para o alto para evitar ferir por acidente as asas de Saphira em movimento, nem cortar seus ombros ou seu pescoço, que também se movimentavam constantemente.
Que bom que ontem reservei tempo para reforçar a cimitarra com magia, disse ele a Saphira e Arya.
Tomara que seus encantamentos resistam, respondeu Saphira.
Lembre-se, disse Arya, permaneça tão perto de nós quanto for possível. Quanto maior for a distância entre nós, mais difícil será a manutenção deste nosso vínculo com você.
Thorn não mergulhou para investir contra Saphira, nem a atacou de outro modo enquanto ela se aproximava; preferiu se afastar com as asas rígidas, permitindo que ela chegasse à sua altura sem ser molestada. Os dois dragões se equilibravam em massas de ar quente, encarando-se por sobre um vazio de uns cinquenta metros, agitando a ponta das caudas farpadas e com os focinhos contraídos em rosnados ferozes.
Ele está maior, comentou Saphira. Não faz duas semanas desde nossa última luta, e ele já cresceu mais um metro e vinte, se não mais que isso.
Ela estava certa. Thorn estava mais comprido da cabeça até a cauda e seu tórax estava mais cheio do que em seu primeiro confronto acima da Campina Ardente. Ele era pouco mais que um filhote, mas já estava quase do tamanho de Saphira.
Relutante, Eragon passou seu olhar do dragão para o Cavaleiro. Murtagh estava com a cabeça exposta, e seu cabelo longo e negro ondulava às suas costas como uma crina lisa. Sua expressão era dura, mais dura do que Eragon jamais vira, e Eragon soube que dessa vez Murtagh não iria, não poderia, ter compaixão por ele.
Com o volume da voz substancialmente reduzido, porém ainda mais alto que o normal, Murtagh avisou:
— Você e Saphira nos causaram muita dor, Eragon. Galbatorix ficou furioso conosco por deixá-lo livre. E depois que vocês dois mataram os Ra’zac, ele ficou tão possesso que matou cinco criados antes de voltar sua ira contra Thorn e mim. Nós passamos por sofrimentos terríveis por sua causa, Eragon. E não voltaremos a passar. — Ele afastou o braço para trás, como se Thorn estivesse prestes a investir e ele, Murtagh, estivesse se preparando para atacar Eragon e Saphira a fio de espada.
— Espere! — gritou Eragon. — Sei de um modo pelo qual vocês dois podem se livrar dos juramentos feitos a Galbatorix.
Uma expressão de anseio desesperado transformou as feições de Murtagh, e ele baixou Zar’roc alguns centímetros. Depois amarrou a cara e cuspiu para o chão, com um grito.
— Não acredito em você! Não é possível!
— É verdade! Deixe-me explicar.
Murtagh parecia lutar consigo mesmo; e, por um instante, Eragon imaginou que ele fosse se recusar a ouvir. Girando a cabeça para trás, Thorn olhou para Murtagh, e alguma coisa se passou entre os dois.
— Maldito seja, Eragon — disse Murtagh, atravessando Zar’roc à sua frente na sela. — Maldito seja por nos seduzir com isso. Já tínhamos nos resignado ao que nos coube, e você precisa vir nos atormentar com a sombra de uma esperança que já tínhamos abandonado. Se essa se provar uma falsa esperança, irmão, juro que deceparei sua mão direita antes de entregá-lo a Galbatorix... Você não vai precisar dela para o que vai fazer em Urû’baen.
Uma resposta ocorreu a Eragon, mas ele a reprimiu. Baixando a cimitarra, começou a falar.
— Galbatorix não ia querer lhe contar; mas, quando estive entre os elfos...
Eragon, não revele mais nada sobre nós!, exclamou Arya.
— ... aprendi que, se a personalidade de uma pessoa mudar, o nome verdadeiro daquela pessoa na língua antiga também muda. Quem você é não é definitivo, imutável, Murtagh! Se você e Thorn conseguirem mudar alguma coisa em si mesmos, vocês se libertarão do juramento, e Galbatorix perderá o domínio que exerce sobre vocês.
Thorn veio pairando alguns metros mais para perto de Saphira.
— Por que você nunca mencionou isso? — perguntou Murtagh.
— Eu estava muito confuso naquele momento.
Não mais do que quinze metros separavam Thorn de Saphira àquela altura. O rosnado agressivo do dragão vermelho tinha se reduzido a uma ligeira crispação do lábio superior, e nos seus olhos de carmim faiscante surgiu uma enorme tristeza de perplexidade, como se ele esperasse que Saphira ou Eragon pudesse saber por que ele tinha sido trazido a este mundo apenas para que Galbatorix o escravizasse, o tratasse com violência e o obrigasse a destruir a vida de outros seres. A ponta do focinho de Thorn se encrespou quando farejou Saphira. Ela o farejou também, e sua língua se projetou da boca quando ela sentiu o sabor do cheiro dele. Uma enorme pena de Thorn cresceu no intimo de Eragon e Saphira juntos, e eles desejaram poder se comunicar com o dragão diretamente, mas não ousaram abrir a mente para ele. Tão próximos, Eragon percebeu os feixes de tendões que sulcavam o pescoço de Murtagh e a veia em forquilha que pulsava no meio da sua testa.
— Eu não sou do mal! — disse Murtagh. — Fiz o melhor que pude, dadas as circunstâncias. Duvido que você tivesse sobrevivido tão bem quanto eu se nossa mãe tivesse achado melhor deixar você em Urû’baen e esconder a mim em Carvahall.
— Talvez não.
Murtagh deu um soco no próprio peitoral.
— A-rá! Então, como eu deveria pensar em seguir seu conselho? Se já sou uma boa pessoa, se já me saí melhor do que se poderia esperar, como vou poder mudar? Deverei me tornar pior do que sou? Deverei me envolver nas trevas de Galbatorix para me livrar delas? Dificilmente essa me pareceria uma solução razoável. Se eu tivesse êxito em alterar minha identidade tanto assim, você não gostaria da pessoa que eu me tornaria; e me amaldiçoaria tanto como amaldiçoa Galbatorix agora.
— Sim — respondeu Eragon, frustrado. — Mas você não tem de se tornar melhor ou pior do que é agora, apenas diferente. Existem muitos tipos de pessoas no mundo e muitas maneiras de agir com honradez. Olhe para uma pessoa que você admira, mas que escolheu caminhos diferentes dos seus pela vida afora, e inspire seus atos nos dessa pessoa. Pode levar um tempo; mas, se vocês conseguirem mudar a personalidade o suficiente, poderão abandonar Galbatorix, poderão abandonar o Império, e você e Thorn poderiam se juntar a nós com os Varden, onde teriam a liberdade de fazer o que quisessem.
E seus próprios juramentos de vingar a morte de Hrothgar?, perguntou Saphira a Eragon, que não lhe deu atenção.
Murtagh encarou Eragon com sarcasmo.
— Portanto, você está me pedindo para ser o que eu não sou. Se Thorn e eu quisermos nos salvar, precisamos destruir nossa identidade atual. Sua cura é pior que nossa aflição.
— Estou pedindo que você se permita um crescimento que o transforme em alguém diferente do que você é agora. Sei que é difícil, mas as pessoas aprendem. Desista da sua raiva, e você poderá dar as costas a Galbatorix de uma vez por todas.
— Desistir da minha raiva? — Murtagh deu uma risada. — Eu desisto da minha raiva no instante em que você se esquecer da sua, pelo papel do Império na morte do seu tio e na destruição da sua fazenda. A raiva nos define, Eragon; e sem ela, você e eu não seríamos mais do que um banquete para larvas. Ainda assim... — Com os olhos semicerrados, Murtagh bateu no guarda-mão de Zar’roc, com os tendões no pescoço se relaxando, embora a veia que dividia sua testa permanecesse estufada como sempre. — Admito que a ideia é interessante. Talvez possamos trabalhar juntos nela quando estivermos em Urû’baen. Quer dizer, se o rei permitir que fiquemos a sós. É claro que ele pode resolver nos manter permanentemente separados. É o que eu faria se estivesse no lugar dele.
— Parece que você está pensando que nós iremos com vocês para a capital — disse Eragon, apertando os dedos em torno do punho da cimitarra.
— Ah, mas vocês irão, meu irmão. — Um sorriso falso esticou a boca de Murtagh. — Mesmo que quiséssemos, Thorn e eu não poderíamos mudar quem somos de um instante para outro. Até a ocasião em que tenhamos essa oportunidade, nosso compromisso com Galbatorix permanece. E ele nos ordenou, em termos perfeitamente explícitos, que levássemos vocês dois à sua presença. Nenhum de nós dois está disposto a enfrentar o desagrado do rei outra vez. Nós os derrotamos antes. Não será nenhum feito extraordinário derrotá-los outra vez.
Uma labareda escapou entre os dentes de Saphira, e Eragon precisou sufocar uma reação semelhante em palavras. Se perdesse o controle agora, seria inevitável o derramamento de sangue.
— Por favor, Murtagh, Thorn, vocês pelo menos não querem tentar o que sugeri? Vocês não têm nenhum desejo de resistir a Galbatorix? Vocês nunca se libertarão dos grilhões a menos que se disponham a desafiá-lo.
— Você subestima Galbatorix, Eragon — rosnou Murtagh. — Ele vem escravizando pelo nome há mais de um século, desde que conseguiu recrutar nosso pai. Você acha que ele não se dá conta de que o verdadeiro nome de uma pessoa pode variar ao longo da vida? Tenho certeza de que tomou precauções para essa eventualidade. Se meu verdadeiro nome ou o de Thorn mudasse neste exato instante, é enorme a probabilidade de que isso acionaria um encantamento que alertaria Galbatorix dessa mudança e nos forçaria a voltar para Urû’baen para ele poder novamente nos vincular a ele.
— Mas somente se ele conseguisse adivinhar seus novos nomes.
— Ele é exímio nisso. — Murtagh levantou Zar’roc da sela. — Podemos no futuro fazer uso da sua sugestão, mas apenas após meticuloso estudo e a e preparação, para que Thorn e eu não recuperemos nossa liberdade só para Galbatorix voltar a roubá-la de nós imediatamente. — Ele ergueu Zar’roc, com a lâmina iridescente da espada tremeluzindo. — Portanto, não temos escolha, a não ser levá-los conosco para Urû’baen. Vocês virão em paz?
— Eu preferiria arrancar fora meu próprio coração! — respondeu Eragon, sem se conter mais.
— Melhor arrancar fora os meus corações — respondeu Murtagh, fincando Zar’roc para o alto, com um terrível grito de guerra.
Rugindo em uníssono, Thorn bateu as asas duas vezes, veloz, para saltar sobre Saphira. Girou graus enquanto subia, para que sua cabeça ficasse sobre o pescoço de Saphira, onde ele poderia imobilizá-la com uma única mordida na base do crânio.
Saphira não esperou por ele. Inclinou-se para a frente, fazendo uma rotação com as asas a partir da articulação dos ombros, de modo que, pela duração de uma pulsação, ela estava apontando direto para baixo, com as asas ainda paralelas ao chão poeirento, sustentando todo o seu peso instável. Então recolheu a asa direita e girou a cabeça para a esquerda e a cauda para a direita, na direção de um ponteiro de relógio. A cauda musculosa atingiu Thorn no flanco esquerdo exatamente quando ele passava acima dela, fraturando sua asa em cinco lugares diferentes. As extremidades pontudas dos ossos ocos que permitiam o voo de Thorn perfuraram seu couro e se projetaram por entre as escamas faiscantes. Gotas de sangue fumegante de dragão caíram como chuva sobre Eragon e Saphira. Uma gotícula se chocou com a parte traseira da coifa de armas de Eragon e se infiltrou pela malha até a pele desprotegida. Ardeu como óleo fervente. Eragon levou a mão desordenadamente ao pescoço, procurando limpar o sangue. Com o rugido se transformando num ganido de dor, Thorn passou caindo por Saphira, sem conseguir se manter no ar.
— Muito bem! — gritou Eragon para Saphira, enquanto ela se endireitava.
Eragon ficou olhando do alto quando Murtagh tirou do cinto um pequeno objeto redondo e o pressionou no ombro de Thorn. Eragon não sentiu nenhuma onda de magia partir de Murtagh, mas o objeto na sua mão se acendeu, e a asa quebrada de Thorn deu um solavanco com os ossos voltando para o lugar com estalidos, e os músculos e tendões se encresparam, os rasgos neles desapareceram. Por fim, os ferimentos no couro de Thorn se fecharam.
Como ele fez aquilo?, exclamou Eragon.
Arya respondeu: Ele deve ter impregnado antecipadamente o objeto com um encantamento de cura. Deveríamos ter pensado nisso também.
Curado, Thorn interrompeu a queda e começou a subir em direção a Saphira, a uma velocidade prodigiosa, rasgando o ar à sua frente, com um jato fervente de fogo vermelho obstinado. Saphira mergulhou contra ele, descrevendo círculos em torno da torre de chamas. Ela tentou uma mordida no pescoço de Thorn, fazendo com que ele se encolhesse, arranhou os ombros e o seu peito com as garras dianteiras e o fustigou com suas asas enormes. A ponta da sua asa direita atingiu Murtagh, derrubando-o de lado na sela. Ele se recuperou rapidamente e golpeou Saphira com a espada, abrindo-lhe um rasgo de noventa centímetros na membrana da asa. Chiando, Saphira afastou Thorn com coices e soltou um jato de fogo, que se dividiu e passou de cada lado de Thorn sem lhe causar dano.
Através de Saphira, Eragon sentiu que seu ferimento latejava. Olhou espantado para o rasgo sangrento, com os pensamentos em disparada. Se estivessem lutando contra um mágico que não fosse Murtagh, Eragon não ousaria lançar um encantamento enquanto estivessem trocando hostilidades, pois o mágico teria grande probabilidade de acreditar que estava prestes a morrer e poderia reagir com um ataque de magia desesperado, descontrolado. Com Murtagh era diferente. Eragon sabia que Galbatorix tinha dado ordens a Murtagh para capturar, não matar, Saphira e ele.
Não importa o que eu faça, pensou Eragon, ele não tentará me matar.
Era, portanto, seguro tentar curar Saphira, concluiu Eragon. E, percebeu também com atraso, que poderia atacar Murtagh com quaisquer encantos que quisesse, e Murtagh não poderia retaliar com força letal. No entanto, ele não entendia por que Murtagh tinha usado um objeto encantado para curar os ferimentos de Thorn, em vez de lançar um encantamento por si mesmo.
Talvez ele queira guardar suas forças, disse Saphira. Talvez pretenda evitar assustá-lo. Galbatorix não ficaria satisfeito se Murtagh, ao usar magia, causasse algum pânico em você que o levasse a se matar, matar Thorn ou Murtagh em consequência disso. Lembre-se, a maior ambição do rei é ter nós quatro sob seu comando. Ele não nos quer mortos, onde estaríamos fora do seu alcance.
Deve ser isso, concordou Eragon.
Enquanto ele se preparava para curar a asa de Saphira, Arya disse: Espere. Não faça isso.
O quê? Por quê? Você não está sentindo a dor de Saphira?
Deixe que meus irmãos e eu cuidemos dela. Murtagh ficará confuso; e, desse modo, o esforço não o enfraquecerá.
Vocês não estão longe demais para operar uma transformação dessas?
Não quando todos nós reunirmos nossos recursos. E, Eragon? Recomendamos que você se abstenha de atacar Murtagh com magia enquanto ele próprio não o atacar com a mente ou com magia. Ele ainda pode ser mais forte que você, mesmo com nós treze lhe emprestando nossa força. Não sabemos. É melhor você somente tentar se testar contra ele quando não houver alternativa.
E se eu não conseguir vencer?
A Alagaësia inteira cairá sob o domínio de Galbatorix.
Eragon sentiu que Arya se concentrava, e então o corte na asa de Saphira parou de sangrar e os bordos irregulares da delicada membrana cerúlea confluíram sem formar casca nem cicatriz.
O alívio de Saphira foi intenso. Com um toque de fadiga, Arya disse: Proteja-se melhor se for possível. Isso não foi fácil.
Depois que Saphira o escoiceou, Thorn se debateu e perdeu altitude. Talvez supondo que Saphira pretendesse forçá-lo mais para baixo, onde seria mais difícil para ele escapar dos seus ataques, Thorn fugiu uns quatrocentos metros para o oeste. Quando, por fim, percebeu que Saphira não o estava perseguindo, descreveu círculos ascendentes até se encontrar uns bons trezentos metros acima de onde ela estava. Recolhendo as asas, Thorn se arremessou em direção a Saphira, com chamas tremeluzindo pela boca aberta, as garras de marfim estendidas, no seu dorso, Murtagh brandia Zar’roc. A cimitarra quase se soltou da mão de Eragon quando Saphira fechou uma asa e virou de cabeça para baixo numa arrancada vertiginosa, para depois esticar a asa de novo e desacelerar a descida. Se tentasse espiar para trás, Eragon veria o chão lá embaixo. Ou seria acima? Ele trincou os dentes e se concentrou em não largar a sela.
Thorn e Saphira se chocaram; e para Eragon foi como se Saphira tivesse colidido com a encosta de uma montanha. A força do impacto o empurrou para a frente, e ele bateu com o elmo no espinho do pescoço diante dele, amassando o aço espesso. Atordoado, ficou pendurado na sela enquanto via os discos dos céus e da terra inverterem sua posição, girando sem um padrão discernível. Sentiu Saphira estremecer quando Thorn atingiu seu ventre exposto. Quem dera ele tivesse tido tempo de vesti-la com a armadura que os anões lhe tinham dado, pensou. Uma cintilante perna cor de rubi apareceu em volta do ombro de Saphira, ferindo-a com garras sangrentas. Sem pensar, Eragon a golpeou com a espada, destruindo uma fileira de escamas e cortando um feixe de tendões. Três dedos daquela pata perderam o movimento. Eragon atacou novamente. Com um rosnado, Thorn rompeu o contato com Saphira. Ele arqueou o pescoço, e Eragon ouviu uma inspiração à medida que o dragão corpulento enchia os pulmões. Eragon se abaixou, escondendo o rosto no cotovelo. Um fogo devorador envolveu Saphira. O calor daquele inferno não tinha como lhes fazer mal, pois as proteções mágicas de Eragon impediam que isso acontecesse, mas a torrente de labaredas ainda os cegava. Saphira deu uma guinada para a esquerda, saindo do fogaréu revolto. A essa altura, Murtagh já havia reparado a lesão na perna de Thorn, que mais uma vez investiu contra Saphira, engalfinhando-se com ela enquanto os dois se precipitavam em solavancos estonteantes na direção das tendas cinzentas dos Varden.
Saphira conseguiu fincar os dentes na crista chifrada de Thorn, apesar das pontas de ossos que perfuravam sua língua. Thorn berrou e se debateu como um peixe fisgado, tentando se afastar, mas ele não era páreo para os músculos de ferro dos maxilares de Saphira. Os dois dragões desceram à deriva, lado a lado, como um par de folhas entrelaçadas.
Eragon se debruçou e tentou uma cutilada transversal no ombro direito de Murtagh, sem a intenção de matá-lo, mas sim feri-lo com gravidade suficiente para encerrar a luta. Diferentemente da ocasião do seu confronto acima da Campina Ardente, Eragon estava descansado. Com o braço veloz como o de um elfo ele confiava que Murtagh estaria indefeso diante dele.
Murtagh ergueu o escudo e bloqueou a cimitarra. Sua reação foi tão inesperada que Eragon hesitou e então mal teve tempo para se recolher e se defender quando Murtagh retaliou, brandindo Zar’roc contra ele, com a lâmina zunindo pelo ar a uma velocidade espantosa. O golpe atingiu o ombro de Eragon. Reforçando o ataque, Murtagh procurou acertar o pulso e então, quando Eragon afastou Zar’roc de lado, Murtagh a fincou por baixo do escudo de Eragon, atravessando a beira da sua cota de malha e da túnica, a cintura dos calções e penetrando no seu quadril esquerdo.
A ponta de Zar’roc se cravou no osso. A dor atingiu Eragon como um balde de água gelada, mas também conferiu aos seus pensamentos uma clareza sobrenatural, fazendo com que um jorro de força extraordinária percorresse seus membros. Quando Murtagh recolheu Zar’roc, Eragon deu um berro e investiu contra o irmão, que, com uma virada do pulso, prendeu a cimitarra por baixo de Zar’roc. Murtagh arreganhou os dentes num sorriso sinistro. Sem parar, Eragon deu um puxão para soltar a cimitarra, fez que ia atingir o joelho direito de Murtagh, mas levou a arma no sentido contrário e cortou-lhe a bochecha.
— Você devia ter posto um elmo — disse Eragon. Estavam tão perto do solo nessa hora – a apenas algumas dezenas de metros – que Saphira precisou soltar Thorn, e os dois dragões se separaram antes que Eragon e Murtagh pudessem trocar mais golpes.
Enquanto Saphira e Thorn subiam em espiral, apostando corrida em direção a uma nuvem de um branco-pérola que estava se formando acima das tendas dos Varden, Eragon levantou a cota de malha e a túnica para examinar o quadril. Um trecho de pele do tamanho de um punho estava sem cor, no lugar onde Zar’roc tinha esmagado a cota contra a carne. No meio desse trecho, havia uma fina linha vermelha, com uns cinco centímetros de comprimento, onde Zar’roc o tinha perfurado. O sangue escorria do ferimento, empapando a parte superior dos seus calções.
Ser ferido por Zar’roc – uma espada que nunca lhe tinha falhado em momentos de perigo e que ele ainda considerava legitimamente sua – o deixou perturbado. Era errado que sua própria arma fosse voltada contra ele. Era uma deformação do mundo, contra a qual todos os seus instintos se rebelavam.
Saphira balançou quando passou por uma turbulência, e Eragon se encolheu, com uma dor renovada subindo lancinante pela lateral de seu corpo. Concluiu que era uma felicidade eles não estarem lutando no chão, pois achava que seu quadril não conseguiria suportar seu peso.
Arya, disse ele, você quer me curar, ou eu deveria fazer isso sozinho e deixar Murtagh me impedir se puder
Nós cuidaremos disso para você, disse Arya. Talvez você consiga apanhar Murtagh de surpresa se ele acreditar que você ainda está ferido.
Ah, espere.
Por quê?
Preciso lhe dar permissão. Se não, minhas proteções bloquearão o encantamento.
De início, a frase não ocorreu a Eragon, mas acabou se lembrando da construção da salvaguarda e murmurou na língua antiga.
— Arya, filha de Islanzadí, tem minha permissão para lançar sobre mim um encantamento.
Vamos precisar conversar sobre suas proteções quando você não estiver tão ocupado. E se você estivesse inconsciente? Como poderíamos cuidar de você nesse caso?
Isso pareceu uma boa ideia depois da Campina Ardente. Murtagh nos imobilizou com magia. Não quero que ele nem mais ninguém tenha condição de lançar encantamentos sobre nós sem nosso consentimento.
Isso não deveria ser possível, mas existem soluções mais elegantes que a sua.
Eragon se contorceu na sela à medida que a magia dos elfos surtia efeito e seu quadril começava a formigar e coçar, como se estivesse coberto de picadas de pulgas. Quando a coceira parou, ele deslizou a mão por baixo da túnica e ficou feliz de não sentir nada além de pele lisa.
Certo, disse ele, girando os ombros. Vamos ensiná-los a temer nossos nomes.
Com a nuvem branca perolada cada vez maior à sua frente, Saphira desviou para a esquerda e, enquanto Thorn se esforçava para virar, mergulhou no coração da nuvem. Tudo ficou frio, úmido e branco. E, então, Saphira saiu veloz do outro lado, apenas alguns metros acima e por trás de Thorn. Com um rugido de triunfo, Saphira se deixou cair sobre Thorn e o agarrou pelos flancos, fincando-lhe as garras nas coxas e ao longo da espinha. Sua cabeça serpeou mais para a frente, e ela agarrou a asa esquerda do outro dragão com a boca, prendendo-a com o estalido de dentes afiados cortando carne.
Thorn se contorcia e berrava, um som horrível que Eragon não tinha suspeitado que dragões fossem capazes de produzir.
Eu o peguei, disse Saphira. Posso arrancar sua asa fora, mas preferia não fazer isso.
Não importa o que vá fazer, faça agora antes de cairmos demais.
Com o rosto pálido por baixo dos borrões de sangue, Murtagh apontou para Eragon com Zar’roc – a espada tremendo no ar – e um raio mental de poder imenso invadiu a consciência de Eragon. A presença estranha buscava seus pensamentos, procurando agarrá-los, dominá-los e sujeitá-los a Murtagh. Como tinha acontecido na Campina Ardente, Eragon percebeu que a mente de Murtagh dava a impressão de conter multidões, como se um confuso coro de vozes estivesse murmurando por baixo da barafunda dos próprios pensamentos de Murtagh. Eragon se perguntou se Murtagh não teria um grupo de mágicos a auxiliá-lo, exatamente como os elfos faziam por ele. Por mais difícil que fosse, Eragon esvaziou a mente de tudo exceto uma imagem de Zar’roc. Concentrou-se na espada com todo o seu poder, alisando o plano da sua consciência na calma da meditação para que Murtagh não encontrasse nenhuma saliência que pudesse lhe proporcionar um ponto de apoio em seu ser.
E, quando Thorn se debateu abaixo deles, e a atenção de Murtagh hesitou por um instante, Eragon lançou um contra-ataque furioso, procurando agarrar a consciência de Murtagh. Num silêncio sinistro, os dois lutaram, um contra o outro, enquanto caíam, engalfinhando-se para lá e para cá nos confins das mentes.
Às vezes, parecia que Eragon sobrepujava; às vezes, Murtagh. Mas nenhum dos dois conseguia derrotar o outro. Eragon olhou de relance para o chão que se aproximava veloz e se deu conta de que sua disputa teria de ser decidida por outros meios.
Abaixando a cimitarra para que ficasse no mesmo nível de Murtagh, Eragon gritou “Letta!” – o mesmo encantamento que Murtagh tinha usado contra ele durante seu confronto anterior. Era uma magia simples, que não faria mais do que imobilizar os braços e o torso de Murtagh, mas ela permitiria que eles se testassem diretamente, um contra o outro, para determinar qual dos dois tinha mais energia à sua disposição. Murtagh pronunciou um contra-encantamento, as palavras perdidas em meio aos rosnados de Thorn e os uivos do vento.
O pulso de Eragon se acelerou à medida que a força ia se escoando dos seus membros. Quando suas reservas estavam quase esgotadas e ele estava fraco por conta do esforço, Saphira e os elfos derramaram sua energia para seu corpo, mantendo o encantamento por ele. Ali diante dele, Murtagh tinha originalmente parecido confiante, com um ar de superioridade, mas como Eragon continuava a contê-lo, sua expressão de raiva se aprofundou, e ele arreganhou os lábios, revelando os dentes. E o tempo todo, os dois assediavam um a mente do outro.
Eragon sentiu a energia que Arya estava canalizando para ele se reduzir uma vez, e então uma segunda vez. Supôs que dois dos criadores de encantamentos sob o comando de Blödhgarm tinham desmaiado.
Murtagh não pode aguentar muito mais, pensou ele, e então precisou lutar para recuperar o controle da sua mente, pois essa falta momentânea de concentração tinha permitido a entrada de Murtagh. A força proveniente de Arya e dos outros elfos caiu pela metade, e até mesmo Saphira começou a tremer de exaustão. Exatamente quando Eragon se convenceu de que o irmão sairia vitorioso, Murtagh deu um grito angustiado, e Eragon teve a sensação de que um enorme peso era retirado de cima dele, com o desaparecimento da resistência do irmão.
Murtagh parecia perplexo diante do sucesso de Eragon.
E agora?, perguntou Eragon a Arya e Saphira. Vamos tomá-los como reféns? Temos como jazer isso?
Agora, disse Saphira, eu preciso voar.
Ela soltou Thorn e se afastou dele com ímpeto, erguendo as asas e as batendo com enorme esforço enquanto se empenhava em manter-se no ar. Eragon olhou por cima do ombro dela e teve urna breve impressão de cavalos e capim raiado de sol se precipitando na direção deles.
Depois, foi como se um gigante o tivesse atingido por baixo, e ele tivesse perdido a visão. A imagem seguinte que Eragon viu foi uma faixa de escamas do pescoço de Saphira a três ou quatro centímetros diante do seu nariz. As escamas brilhavam como um gelo azul-cobalto. Eragon tinha uma vaga percepção de que alguém estava tentando entrar em contato com ele de uma enorme distância, com uma consciência que projetava uma forte noção de urgência. À medida que suas faculdades lhe voltavam, ele reconheceu que a outra pessoa era Arya. Ela dizia:
Encerre o encantamento, Eragon! Se você o mantiver, nós todos morreremos. Encerre-o. Murtagh está longe demais! Eragon, acorde, ou você fará a passagem para o nada.
Com um solavanco, Eragon se sentou empertigado na sela, mal percebendo que Saphira estava agachada em meio aos cavaleiros do rei Orrin. Arya não estava em nenhum lugar visível. Agora que estava novamente alerta, Eragon sentia o encantamento que havia lançado sobre Murtagh ainda esgotando sua energia, e em quantidades cada vez maiores. Se não fosse pela ajuda de Saphira, de Arya e dos outros elfos, ele já estaria morto.
Eragon sustou a magia e então procurou Thorn e Murtagh.
, disse Saphira, apontando com o focinho. Bem baixo no céu a noroeste, Eragon viu o vulto cintilante de Thorn, seguindo pelo ar o percurso do rio Jiet, fugindo na direção do exército de Galbatorix, a alguns quilômetros de distância.
Como?
Murtagh curou Thorn mais uma vez, e Thorn teve a sorte de pousar na encosta de um morro. Ele desceu correndo por ela e decolou antes que você recuperasse os sentidos.
De lá do outro lado da paisagem ondulante, retumbou a voz amplificada de Murtagh.
— Não pensem que venceram, Eragon e Saphira. Juro que nos encontraremos outra vez; Thorn e eu os derrotaremos, pois estaremos ainda mais fortes do que agora!
Eragon segurou com tanta força o escudo e a cimitarra que chegou a sangrar por baixo das unhas.
Você acha que conseguiria ultrapassá-lo?
Eu conseguiria, mas os elfos não teriam condições de ajudá-lo a uma distância daquelas, e eu duvido que pudéssemos sair vitoriosos sem o apoio deles.
Talvez pudéssemos. Eragon parou e bateu na perna, frustrado. Droga, sou um idiota! Eu me esqueci de Aren. Poderíamos ter usado a energia no anel de Brom para nos ajudar a derrotá-los.
Você estava com outras coisas na cabeça. Qualquer um poderia ter cometido o mesmo erro.
Pode ser, mas eu ainda queria ter me lembrado de Aren antes. Ainda poderíamos usá-lo para capturar Thorn e Murtagh.
E depois iríamos fazer o quê?, perguntou Saphira. Como poderíamos mantê-los prisioneiros? Drogaria-os como Durza fez com você em Gil’ead? Ou simplesmente vai querer matá-los?
Não sei! Poderíamos ajudá-los a mudar seu verdadeiro nome, para romper os votos que fizeram a Galbatorix.
Deixá-los perambular por ai sem restrições é, no entanto, perigoso demais.
Arya interveio: Na teoria, você está certo, Eragon, mas está cansado, e Saphira também. Eu prefiro que Thorn e Murtagh escapem a perdermos vocês dois porque estavam cansados.
Mas...
Mas não temos as instalações para deter em segurança um dragão e Cavaleiro por um período prolongado, e acho que matar Thorn e Murtagh não seria tão fácil quanto você imagina, Eragon. Seja grato por termos conseguido rechaçá-los, e fique tranquilo sabendo que podemos fazer isso novamente quando eles ousarem nos enfrentar da próxima vez. Tendo dito isso, ela se afastou da mente de Eragon.
Eragon ficou observando até Thorn e Murtagh desaparecerem. Deu então um suspiro e afagou o pescoço de Saphira.
Eu poderia dormir quinze dias seguidos.
E eu também.
Você deveria ter orgulho de si mesma. Voou melhor que Thorn praticamente em todas as manobras.
Sim, voei, não é mesmo?, reconheceu ela, envaidecida. Mas dificilmente teria sido uma competição justa. Thorn não tem a experiência que eu tenho.
Nem seu talento, eu diria.
Torcendo o pescoço, ela lambeu a parte superior do seu braço direito, fazendo retinir a cota de malha, e então olhou do alto para ele com os olhos cintilantes. Ele conseguiu dar uma sombra de sorriso.
Suponho que eu deveria ter esperado, mas ainda assim fiquei surpreso por Murtagh ser tão veloz quanto eu. Sem dúvida, mais magia por parte de Galbatorix.
Por que suas proteções não conseguiram desviar os golpes de Zar’roc? Elas o salvaram de golpes piores quando lutamos contra os Ra’zac.
Não sei ao certo. Murtagh ou Galbatorix podem ter inventado um encantamento contra o qual não tenha me ocorrido criar uma proteção. Ou pode ser simplesmente que o motivo seja o de Zar’roc ser a arma de um Cavaleiro; e, como Glaedr disse...
... as espadas forjadas por Rhunön são insuperáveis em...
... atravessar encantamentos de qualquer tipo, e...
... é raro que sejam...
... afetadas pela magia. Exatamente.
Exausto, Eragon fixou o olhar nas faixas de sangue de dragão na face da cimitarra.
Quando seremos capazes de derrotar nossos inimigos sem ajuda? Eu não poderia ter matado Durza se Arya não tivesse quebrado a estrela de safira. E nós somente, conseguimos vencer Murtagh e. Thorn com a ajuda de Arya e mais doze elfos.
Precisamos nos tornar mais poderosos.
É, mas como? Como Galbatorix acumulou tanta força? Será que ele descobriu um modo de se nutrir dos corpos dos escravos mesmo quando está a centenas de milhas de distância? Argh! Eu não sei.
Um filete de suor escorreu pela testa de Eragon e entrou pelo canto do olho direito. Ele enxugou o rosto com a palma da mão, piscou e percebeu mais uma vez os cavaleiros reunidos em torno dele e de Saphira.
O que eles estão fazendo aqui?
Olhando mais adiante, ele se deu conta de que Saphira tinha pousado perto de onde o rei Orrin tinha interceptado os soldados dos barcos. Não muito longe dali, à esquerda, havia um alvoroço de centenas de homens, Urgals e cavalos, em pânico e confusão. De quando em quando, o fragor de espadas ou o grito de um homem ferido sobressaía em meio à algazarra, acompanhado de risadas alucinadas.
Acho que estão aqui para nos proteger, disse Saphira.
Nos proteger? De quê? Por que ainda não mataram os soldados? Onde... Eragon desistiu da pergunta quando Arya, Blödhgarm e mais quatro elfos de aparência abatida chegaram correndo, vindo da direção do acampamento. Erguendo a mão num cumprimento, Eragon gritou:
— Arya! O que houve? Parece que ninguém está no comando.
Para alarme de Eragon, Arya estava respirando com tanta dificuldade que somente conseguiu falar depois de alguns instantes.
— Os soldados se revelaram mais perigosos do que previmos. Não sabemos como. A Du Vrangr Gata não ouviu nada que fizesse sentido dos feiticeiros de Orrin. — Recuperando o fôlego, Arya começou a examinar os cortes e contusões de Saphira.
Antes que Eragon pudesse fazer mais perguntas, gritos nervosos provenientes do redemoinho de guerreiros abafaram o resto do tumulto, e ele ouviu o rei Orrin bradar:
— Para trás, para trás, todos vocês! Arqueiros, segurem a corda! Cuidado, ninguém se mexa! Nós o pegamos!
Saphira teve o mesmo pensamento que Eragon. Contraindo as pernas por baixo do corpo, ela saltou por cima dos cavaleiros – espantando os cavalos, que corcovearam e fugiram – e atravessou o campo de batalha coalhado de cadáveres, seguindo para o lugar de onde vinha a voz do rei Orrin, afastando homens e Urgals da mesma forma, como se fossem talos de capim. Os elfos se apressaram para não ficar para trás, com espadas e arcos a postos.
Saphira encontrou Orrin montado em seu cavalo de batalha na vanguarda dos guerreiros bem unidos, olhando fixamente para um homem sozinho a uns doze metros de distância. O rei estava afogueado e tinha o olhar alucinado, sua armadura, manchada com a imundície do combate. Havia sido ferido por baixo do braço esquerdo, e a haste de uma lança se projetava alguns centímetros para fora da sua coxa direita. Quando a chegada de Saphira atraiu sua atenção, seu rosto revelou um súbito alívio.
— Bom, que bom que vocês estão aqui — resmungou ele, quando Saphira chegou se arrastando, diante do seu cavalo. — Tivemos necessidade de você, Saphira, e de você, Matador de Espectros. — Um dos arqueiros avançou alguns centímetros. Orrin apontou para ele com a espada, vociferando. — Para trás! Mando decapitar quem quer que não permaneça onde está, juro pela coroa de Angvard! — E então voltou a olhar furioso para o homem sozinho.
Eragon acompanhou seu olhar. O homem era um soldado de altura média, com uma marca de nascença vermelha no pescoço e o cabelo castanho achatado pelo elmo que estivera usando. Seu escudo estava destroçado. Sua espada estava marcada, entortada e quebrada, faltando-lhe os últimos quinze centímetros. A lama do rio estava emplastrada em suas perneiras de cota de malha. O sangue fluía de um corte ao longo das costelas. Uma flecha provida de penas brancas de cisne tinha perfurado seu pé esquerdo, prendendo-o ao chão, com três quartos da haste enterrados na terra batida. Da garganta do homem, saía uma risada horrível, gorgolejante. Ela subia e descia num ritmo de embriaguez, saltando de uma nota para outra como se o homem estivesse prestes a começar a dar berros de horror.
— O que você é? — gritou o rei Orrin. Quando o soldado não respondeu de imediato, o rei praguejou e insistiu: — Responda-me ou mandarei meus feiticeiros cuidarem de você. Você é homem, fera ou algum demônio que deu errado? Em que fossa imunda Galbatorix encontrou você e seus irmãos? Vocês são aparentados com os Ra’zac?
A última pergunta do rei agiu como uma agulha fincada em Eragon. Ele se empertigou todo, com todos os sentidos em alerta. A risada parou por um instante.
— Homem. Sou um homem.
— Você não é como nenhum homem que eu conheça.
— Eu quis garantir o futuro da minha família. Será que isso é assim tão estranho para você, surdano?
— Não me venha com enigmas, seu desgraçado traiçoeiro! Diga-me como se tornou o que é. E fale com franqueza para eu não me convencer de que devo derramar chumbo fervente por sua goela abaixo para ver se com isso você sente dor.
Os risinhos desequilibrados aumentaram antes que o soldado falasse.
— Você não pode me ferir, surdano. Ninguém pode. Foi o próprio rei que nos tornou imunes à dor. Como recompensa, nossas famílias viverão no conforto pelo resto da vida. Vocês podem se esconder de nós, mas nunca deixaremos de persegui-los, mesmo quando homens normais já teriam caído mortos de esgotamento. Vocês podem lutar conosco, mas nós continuaremos a matar desde que tenhamos um braço que se mexa. Vocês nem podem se render a nós, pois nós não fazemos prisioneiros. Vocês não podem fazer nada a não ser morrer e devolver a paz a esta terra.
Com uma careta medonha, o soldado envolveu a flecha com a mão destroçada que segurava o escudo e, com o ruído de carne sendo rasgada, arrancou-a do pé. Nacos de carne da cor de carmim vieram agarrados à ponta quando a seta se soltou. O soldado a agitou na direção deles e então a atirou sobre um dos arqueiros, ferindo-o na mão. Com a risada mais alta do que nunca, o soldado tombou para a frente, arrastando o pé ferido. Ele ergueu a espada, como se pretendesse atacar.
— Podem atirar! — gritou Orrin.
Cordas de arcos zuniram como alaúdes mal afinados, e então uma dúzia de setas rodopiantes saltou na direção do soldado, atingindo-o no torso daí a um instante. Duas delas ricochetearam no gibão de couro acolchoado. As demais penetraram na sua caixa torácica. Com as risadas reduzidas a um risinho chiado à medida que o sangue se infiltrava nos seus pulmões, o soldado continuou a avançar, pintando de vermelho vivo o capim aos seus pés. Os arqueiros atiraram novamente, e flechas fincaram-se nos ombros e braços do homem, mas ele não parou. Outra rajada veio logo em seguida. O soldado tropeçou e caiu quando uma flecha partiu a rótula do joelho esquerdo, outras se fincaram nas coxas e uma passou de um lado ao outro do pescoço, fazendo um furo na sua marca de nascença, e saiu zunindo pelo campo afora seguida de respingos de sangue. E ainda assim o soldado se recusava a morrer. Ele começou a rastejar, arrastando-se com a força dos braços, dando risinhos contidos como se o mundo inteiro fosse urna piada obscena que somente ele conseguia entender.
Um forte calafrio percorreu a espinha de Eragon enquanto ele observava. O rei Orrin praguejou com violência, e Eragon detectou um toque de histeria em sua voz. Saltando do cavalo, Orrin jogou a espada e o escudo ao chão e apontou para o Urgal mais próximo.
— Dê-me seu machado.
Espantado, o Urgal de pele cinzenta hesitou e depois entregou a arma. O rei Orrin foi mancando até onde estava o soldado, ergueu com ambas as mãos o pesado machado e, com um golpe único, decapitou o soldado.
Os risinhos pararam. Os olhos do soldado se reviraram, e sua boca tentou formar palavras por mais alguns segundos, e então ele ficou imóvel.
Orrin agarrou a cabeça e a levantou para que todos a vissem.
— É possível matá-los, sim — declarou ele. — Espalhem a notícia de que a única forma garantida de deter essas abominações é cortando fora a cabeça. Isso ou esmagando o crânio com uma maça ou flechando-os no olho de uma distância segura... Dente Cinzento, onde você está? — Um cavaleiro corpulento, de meia-idade, fez avançar sua cavalgadura. Orrin lhe lançou a cabeça, que ele apanhou no ar. — Ponha isso aí num poste junto ao portão norte do acampamento. Ponha lá todas as cabeças. Que elas sirvam de recado para Galbatorix: nós não temos medo dos seus truques sujos e sairemos vitoriosos apesar deles.
Voltando para seu cavalo, Orrin devolveu o machado ao Urgal e então apanhou suas próprias armas do chão. A alguns metros de distância, Eragon avistou Nar Garzhvog em pé em meio a um grupo de Kull. Eragon disse algumas palavras para Saphira, e ela foi se aproximando dos Urgals. Depois de uma troca de cumprimentos, Eragon fez uma pergunta a Garzhvog.
— Todos os soldados eram assim? — Ele fez um gesto na direção do cadáver crivado de flechas.
— Todos homens que não sentiam dor. Você os acerta e acha que estão mortos. Dá as costas e eles lhe cortam o jarrete. — A expressão de Garzhvog era feroz. — Perdemos muitos guerreiros hoje. Já lutamos contra enxames de humanos, Espada de Fogo, mas nunca contra esses monstros que riem. Não é natural. Faz a gente pensar que eles estão possuídos por espíritos sem chifres, que talvez os próprios deuses tenham se voltado contra nós.
— Bobagem — zombou Eragon. — É apenas um encantamento de Galbatorix, e logo teremos uma fórmula para nos proteger dele. — Apesar de sua confiança exterior, o conceito de lutar com inimigos que não sentissem dor o perturbava tanto quanto perturbava os Urgals. Ademais, a partir do que Garzhvog dissera, Eragon supôs que manter o moral entre os Varden ia ser ainda mais difícil para Nasuada, uma vez que todos tomassem conhecimento dos soldados.
Enquanto os Varden e os Urgals trataram de recolher os companheiros caídos, tirando dos mortos o equipamento que fosse útil e decapitando os soldados para arrastar os corpos mutilados, formando pilhas pata incinerá-los, Eragon, Saphira e o rei Orrin voltaram para o acampamento, acompanhados por Arya e os outros elfos.
No caminho, Eragon se ofereceu para curar a perna de Orrin, mas o rei recusou sua ajuda.
— Tenho meus próprios médicos, Matador de Espectros.
Nasuada e Jörmundur os estavam esperando junto ao portão norte.
— O que deu errado? — perguntou Nasuada, abordando Orrin.
Eragon fechou os olhos enquanto Orrin explicava como de início o ataque aos soldados parecia ter dado certo. Os cavaleiros arrasavam suas fileiras, desferindo o que imaginavam ser golpes mortais a torto e a direito, tendo sofrido apenas urna baixa durante o ataque. Quando atacaram os soldados restantes, porém, muitos daqueles que tinham sido derrubados antes se ergueram para voltar à luta. Orrin estremeceu.
— Nesse momento, ficamos descontrolados. Qualquer homem teria ficado. Não sabíamos se os soldados eram invencíveis ou se sequer eram humanos. Quando se vê um inimigo investindo contra você com um osso saltado da batata da perna, um dardo fincado na barriga e com metade do rosto arrancada, e ele ainda ri de você, é raro o homem que consegue se manter firme. Meus guerreiros entraram em pânico. Saíram da formação. Foi uma confusão total. Urna carnificina. Quando os seus guerreiros, Nasuada, e os Urgals nos alcançaram, eles também foram tomados pela loucura. — Ele abanou a cabeça. — Nunca vi nada parecido, nem mesmo na Campina Ardente.
Ainda que com a pele escura, Nasuada empalideceu. Ela olhou para Eragon e depois para Arya.
— Como Galbatorix conseguiu fazer uma coisa dessas?
Foi Arya quem respondeu.
— Bloqueando em sua maior parte, mas não no total, a capacidade de sentir dor de uma pessoa. Deixando apenas sensações suficientes para eles saberem onde estão e o que estão fazendo, mas não tantas que a dor pudesse detê-los. O encantamento deveria exigir somente uma pequena quantidade de energia.
Nasuada umedeceu os lábios. Voltou então a falar com Orrin.
— Você sabe quantos nós perdemos?
Um espasmo fez Orrin tremer. Ele se curvou, apertou a mão sobre o ferimento da perna e trincou os dentes antes de responder com a voz embargada:
— Trezentos soldados contra... Qual era o tamanho da força que você enviou?
— Duzentos espadachins. Cem lanceiros. Cinquenta arqueiros.
— Esses, mais os Urgals, mais minha cavalaria... Digamos cerca de mil combatentes. Contra trezentos soldados de infantaria num campo aberto. Nós matamos todos eles, até o último homem. Mas o que isso nos custou... — O rei abanou a cabeça. — Somente vamos saber com certeza quando contarmos os mortos, mas me pareceu que perdemos três quartos dos espadachins, mais os lanceiros e alguns arqueiros. Da minha cavalaria, restam poucos, uns cinquenta, setenta. Muitos eram meus amigos. Talvez uns cem, cento e cinquenta Urgals mortos. No todo? De quinhentos a seiscentos para enterrar, e a maior parte dos sobreviventes feridos. Eu não sei... Não sei. Eu não... — Com o queixo mole, Orrin foi se inclinando para o lado e teria caído de cima do cavalo se Arya não tivesse avançado com um salto para segurá-lo.
Nasuada estalou os dedos, convocando dois Varden do meio das tendas e lhes ordenou que levassem Orrin para seu pavilhão e fossem buscar os curandeiros do rei.
— Sofremos uma terrível derrota, por mais que tenhamos exterminado os soldados — murmurou Nasuada. Ela crispou os lábios, com a tristeza e o desespero mesclados em sua expressão. Seus olhos refulgiam com as lágrimas acumuladas. Enrijecendo a espinha, encarou Eragon e Saphira com um olhar de aço. — E como foi a luta para vocês dois? — Ela escutou sem se mexer enquanto Eragon descrevia seu confronto com Murtagh e Thorn. Depois, ela fez que sim. — Que vocês conseguissem escapar das garras deles era tudo o que ousávamos esperar. No entanto, vocês fizeram mais que isso. Vocês comprovaram que Galbatorix não tornou Murtagh tão poderoso que nós não possamos ter nenhuma esperança de derrotá-lo. Com mais alguns feiticeiros para ajudá-lo, Eragon, Murtagh teria ficado inteiramente à sua mercê para você fazer o que quisesse. Por esse motivo, ele não ousará enfrentar o exército da rainha Islanzadí sozinho, creio eu. Se pudermos reunir em torno de você, Eragon, um número suficiente de feiticeiros, creio que por fim poderemos matar Murtagh e Thorn da próxima vez que eles vierem tentar raptar vocês dois.
— Você não quer capturá-los? — perguntou Eragon.
— Eu quero uma enorme quantidade de coisas, mas duvido que consiga muitas delas. Murtagh e Thorn podem não estar tentando matar vocês, mas, se a oportunidade se apresentar, nós devemos matá-los sem hesitação. Ou você tem outra ideia?
— ... Não.
Voltando a atenção para Arya, Nasuada perguntou:
— Algum dos seus criadores de encantamentos morreu durante a luta?
— Alguns desmaiaram, mas todos já se recuperaram, obrigada.
Nasuada respirou fundo e olhou para o norte, com os olhos focalizados no infinito.
— Eragon, por favor, informe a Trianna que quero que a Du Vrangr Gata descubra um modo de reproduzir o encantamento de Galbatorix. Por mais desprezível que seja, precisamos imitar Galbatorix nisso. Não podemos nos dar ao luxo de não fazê-lo. Não será prático se todos nós nos tornarmos incapazes de sentir dor. Nós nos machucaríamos com excessiva facilidade. Mas deveríamos ter algumas centenas de espadachins, voluntários, que sejam imunes ao sofrimento físico.
— Minha lady.
— Tantos mortos — disse Nasuada, retorcendo as rédeas. — Ficamos tempo demais parados num lugar só. Está na hora de voltar a forçar o Império a assumir uma atitude defensiva. — Ela esporeou Tempestade na Guerra para que ele se afastasse da carnificina que se estendia diante do acampamento, e o garanhão meneou a cabeça e mordeu o freio. — Eragon, seu primo me implorou permissão para participar do combate de hoje. Eu neguei por conta do casamento iminente, o que não foi do agrado dele, embora eu imagine que a noiva tenha uma opinião diferente. Você faria o favor de me avisar se eles ainda pretendem que a cerimônia se realize hoje? Depois de tanto sangue derramado, acho que comparecer a um casamento animaria os Varden.
— Assim que eu descobrir, avisarei.
— Obrigada. Agora pode ir, Eragon.


A primeira coisa que Eragon e Saphira fizeram ao deixar Nasuada foi visitar os elfos que tinham desmaiado durante a batalha com Murtagh e Thorn para agradecer a eles e a seus companheiros o auxílio prestado. Depois, Eragon, Arya e Blödhgarm cuidaram dos ferimentos que Thorn tinha causado em Saphira, reparando seus cortes e arranhões, bem como algumas contusões. Quando terminaram, Eragon localizou Trianna mentalmente e transmitiu as instruções de Nasuada. Somente então ele e Saphira foram procurar Roran. Blödhgarm e seus elfos os acompanharam. Arya foi cuidar de assuntos seus.
Roran e Katrina estavam entretidos discutindo em voz baixa, quando Eragon os avistou parados junto do canto da tenda de Horst. Eles emudeceram quando Eragon e Saphira se aproximaram. Katrina cruzou os braços e ficou olhando para longe de Roran, ao passo que este segurava a cabeça do seu martelo enfiado no cinto e raspava o salto da bota numa pedra. Parando diante deles, Eragon esperou alguns instantes, calculando que fossem lhe explicar o motivo da briga.
— Algum de vocês dois se feriu? — perguntou Katrina, em vez de dar qualquer explicação.
— Sim, mas já estamos curados.
— Isso é tão... estranho. Em Carvahall, ouvíamos histórias de magia, mas eu, no fundo, nunca acreditei nelas. Pareciam tão impossíveis. Mas aqui há mágicos por toda parte... Vocês causaram ferimentos graves em Murtagh e Thorn? Foi por isso que eles fugiram?
— Nós os derrotamos, mas não lhes causamos nenhuma lesão permanente. — Eragon parou um instante e, quando viu que nem Roran nem Katrina falavam, perguntou se eles ainda pretendiam se casar naquele dia. — Nasuada sugeriu que vocês seguissem em frente, mas talvez fosse melhor esperar. Os mortos ainda não foram enterrados, e ainda há muito que precisa ser feito. Amanhã seria mais conveniente... e mais correto.
— Não — disse Roran, raspando com força a ponta da bota na pedra. — O Império pode atacar de novo a qualquer instante. Amanhã pode ser tarde demais. Se... se de algum modo eu morrer antes de nos casarmos, o que seria de Katrina e do nosso... — Ele hesitou e seu rosto enrubesceu.
Com a expressão se abrandando, Katrina se voltou para Roran e segurou sua mão.
— Além do mais, a comida está pronta, os enfeites foram pendurados, e nossos amigos estão reunidos para o casamento. Seria uma pena se todos esses preparativos tiverem sido por nada. — Estendendo a mão, ela afagou a barba de Roran. Ele sorriu para a noiva e pôs um braço em torno dela.
Não entendo a metade do que acontece entre esses dois, queixou-se Eragon a Saphira.
— Quando vai ser a cerimônia, então?
— Daqui a uma hora — disse Roran.

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Boa leitura :)