24 de junho de 2017

Capítulo 21 - Pó e cinzas

D

úzias de edifícios com as paredes laterais de gesso
aglomeravam-se em torno dos portões da muralha exterior da
cidade, onde o canal entrava em Aroughs. Todos os edifícios —
frios e pouco convidativos devido ao olhar vazio das suas janelas
escuras — pareciam ser armazéns ou instalações para armazenagem,
o que aliado ao fato de ser ainda muito cedo significava que seria
pouco provável que alguém se tivesse apercebido do confronto dos
Varden com os guardas. De qualquer modo Roran não fazia
tenções de ficar ali para ter a certeza.
Raios nebulosos do sol nascente estendiam-se horizontalmente
pela cidade, dourando o topo das torres, ameias, cúpulas e
telhados inclinados. As ruas e as vielas estavam envoltas em
sombras cor de prata embaciada e a água no canal ladeado de
pedras estava escura, sombria e manchada de sangue. Uma estrela
solitária brilhava lá no alto como uma centelha furtiva no manto azul,
cada vez mais claro, onde a radiância crescente do sol extinguira
todas as outras jóias noturnas.
E os Varden avançaram, roçando com as botas na rua de
paralelepípedos.
Um galo cantou à distância.
Roran conduziu-os através do labirinto de edifícios em direção à
muralha interior da cidade, mas nem sempre escolhendo o caminho
mais óbvio ou mais direto, a fim de reduzir as hipóteses de se
depararem com alguém nas ruas. As vielas por onde seguiam eram
estreitas e escuras e, por vezes, era-lhe difícil ver onde punham os
pés. As sarjetas estavam atoladas de imundície e o fedor encheu-o de
asco, fazendo-o desejar os campos abertos a que estava
habituado.
“Como pode alguém suportar viver nestas condições?”,
perguntou a si mesmo. Nem os porcos chafurdam na sua própria
imundície.
Mais longe da muralha exterior, os edifícios davam lugar a casas
e lojas: altas, guarnecidas de traves mestras, com paredes brancas,
caiadas e com apliques de ferro forjado nas portas. Por trás das
janelas de portadas, Roran ouvia por vezes o som de vozes, o
ruído de pratos ou de uma cadeira a arranhar o chão de madeira ao
ser arrastada.
“Estamos a ficar sem tempo”, pensou. Mais alguns minutos e as
ruas iriam encher-se de habitantes de Aroughs.
Como que a satisfazer a sua previsão, dois homens saíram de
uma viela em frente da coluna de guerreiros. Ambos habitantes da
cidade traziam cangas aos ombros com baldes de leite fresco,
pendurados em cada ponta.
O homem parou surpreendido ao ver os Varden, vertendo algum
leite dos baldes. Os dois arregalaram os olhos e abriram a boca
preparando-se para exclamar algo.
Roran deteve-se tal como as tropas atrás de si.
— Se gritarem, matamos-vos — ameaçou ele, brandamente, num
tom amigável.
Os homens estremeceram e afastaram-se ligeiramente.
Roran deu um passo em frente.
— Se correrem matamos-vos. — Sem tirar os olhos dos dois
homens assustados, ele proferiu o nome de Carn e quando o
feiticeiro se colocou ao seu lado, disse:
— Põe-nos a dormir, se não te importas.
O feiticeiro apressou-se a recitar uma frase na língua antiga, que
terminava com uma palavra semelhante a slytha, e os dois homens
caíram inertes no chão, entornando os baldes ao tombarem nos
paralelepípedos. O leite cobriu a rua, formando uma delicada teia
de veias brancas, ao assentar nos sulcos entre as pedras da
calçada.
— Arrastem-nos para um canto onde não os possam ver — disse
Roran.
Assim que os guerreiros tiraram os dois homens inconscientes do
caminho, Roran ordenou de novo aos Varden que avançassem. E
retomaram a marcha apressada em direção à muralha interior.
Contudo, não tinham ainda percorrido trinta metros, quando
deram de caras com um grupo de quatro soldados, ao virar uma
esquina.
Desta vez Roran foi impiedoso. Correndo ao longo do espaço
que os separava enquanto os soldados tentavam ainda reunir ideias,
enterrou a lâmina chata do martelo na base do pescoço do que
vinha à frente. Baldor matou igualmente um dos outros soldados,
brandindo a espada com uma força que poucos homens poderiam
igualar, fruto de anos de trabalho na forja do pai.
Os dois últimos soldados guincharam, alarmados, deram meiavolta
e fugiram.
Uma flecha passou pelo o ombro de Roran vinda de trás,
atingindo um dos soldados nas costas e atirando-o ao chão.
Momentos depois, Carn gritou:
— “Jierda!” — O pescoço do último soldado partiu-se com um
estalido audível e ele tombou para a frente, caindo imóvel no meio
da rua.
O soldado com a flecha espetada começou a gritar.
— Os Varden estão aqui! Os Varden estão aqui! Deem o alarme,
os... Desembainhando a adaga, Roran correu para ele e cortou-lhe a
garganta. Limpou a lâmina à túnica do homem e depois levantou-se
e disse.
— Avancem, agora!
E os Varden correram pelas ruas, em direção à muralha interior
de Aroughs, como se fossem um só.
Quando estavam apenas a trinta metros, Roran parou numa
viela, atrás de uma casa, e ergueu a mão, fazendo sinal aos homens
para esperarem. Depois avançou cautelosamente ao longo da parte
lateral da casa e espreitou pela esquina, olhando para o portão
suspenso, instalado na alta muralha de granito.
O portão estava fechado.
Contudo, uma pequena porta de saída, à esquerda do portão,
estava escancarada. No instante em que a observava, um soldado
saiu por lá a correr, encaminhando-se para o extremo oeste da
cidade.
Roran praguejou para si ao olhar para a porta de saída. Não
estava disposto a desistir. E muito menos depois de terem chegado
até ali. Estavam numa posição cada vez mais precária e ele não
tinha qualquer dúvida de que lhes restavam apenas alguns minutos,
antes que a hora do recolher terminasse e todos ficassem a saber
da sua presença.
Recuou pela parte lateral da casa e baixou a cabeça,
ponderando intensamente.
— Mandel — disse, estalando os dedos. — Delwin, Carn e vocês
os três. — E apontou para três guerreiros de aspecto feroz. Os
homens mais velhos que, pela idade, deviam ter um jeitinho especial
para ganhar batalhas. — Venham comigo! Baldor, você ficas
encarregado dos outros. Se não voltarmos, ponham-se a salvo. É
uma ordem!
Baldor acenou afirmativamente, com uma expressão sombria.
Roran contornou a via principal que conduzia ao portão até
chegarem à base da muralha inclinada, coberta de lixo, a uns quinze
metros do portão suspenso e da porta de saída aberta.
Havia um soldado em cada uma das torres do portão, mas
naquele momento nenhum era visível, pelo que não conseguiriam
ver Roran nem os seus companheiros a aproximarem-se, a menos
que pusessem a cabeça de fora das muralhas.
Roran sussurrou:
— Logo que entremos pela porta, tu, você e você — apontou para
Varn, Delwin e para um dos outros guerreiros — vão para a casa
dos guardas, do outro lado, o mais depressa que puderem. Nós
ficaremos com a mais próxima. Façam o que for necessário, mas
abram-me aquele portão. Só deve haver uma roda para girar, caso
contrário teremos de trabalhar juntos para o abrir. Por isso não
pensem sequer em morrer. Preparados?... Agora!
Correndo o mais silenciosamente possível, Roran percorreu a
toda a velocidade a muralha e virou de repente, entrando pela
porta.
Diante de si tinha uma câmara de seis metros de comprimento
que dava acesso a uma grande praça, com uma fonte em socalcos
ao meio. Homens elegantemente vestidos andavam para trás e para
diante na praça, muitos deles com pergaminhos nas mãos.
Ignorando-os, Roran virou para uma porta fechada, que abriu à
mão, resistindo à tentação de a arrombar com um pontapé. Do
lado de lá da porta havia uma sala de guardas, decrépita, com uma
escada em caracol embutida na parede.
Correu pelas escadas acima e depois de um único lance circular,
deu consigo numa sala de teto baixo onde estavam cinco soldados
a fumar e a jogar aos dados, numa mesa junto de um enorme
guincho envolto em correntes mais grossas do que seu braço.
— Saudações! — disse Roran numa voz grave e autoritária. —
Tenho uma mensagem muito importante para vos dar.
Os soldados hesitaram, levantando-se depois, subitamente, e
puxando para trás os bancos onde estavam sentados. As pernas de
madeira chiaram, ao arrastarem pelo chão.
Tarde demais. Por muito breve que fosse, a hesitação foi o
suficiente para que Roran cobrisse a distância que os separava,
antes que os soldados conseguissem desembainhar as armas.
Roran gritou e correu para o meio deles, brandindo o martelo à
esquerda e à direita e encurralando os cinco homens a um canto.
Depois, Mandel e dois outros guerreiros foram para o seu lado, de
espadas cintilantes, e juntos acabaram rapidamente com os
guardas.
Roran cuspiu para o chão junto do corpo trémulo do último
guarda e disse:
— Não confiem em estranhos.
A luta poluíra a sala com uma série de odores horríveis que
pareciam colar-se ao corpo de Roran como uma manta grossa e
pesada, composta das substâncias mais desagradáveis que lhe era
possível imaginar. Mal conseguia respirar sem vomitar, por isso
tapou o nariz e a boca com a manga da túnica, na tentativa de
suprimir alguns dos odores.
Aproximaram-se os quatro do guincho, com cuidado, para não
escorregarem nas poças de sangue, examinando-o por momentos,
a fim de tentarem descobrir como funcionava.
Roran virou-se e ergueu o martelo ao ouvir metal a tilintar e,
depois, o rangido alto de um alçapão de madeira a ser aberto,
seguido do ruído de passos de um soldado que descia a escada em
caracol, vindo da torre do portão que ficava por cima.
— Taurin, o que raio vai... — A voz do soldado morreu-lhe na
garganta e ele deteve-se a meio das escadas, ao ver Roran e os
seus companheiros, bem como os corpos mutilados a um canto.
Um guerreiro à direita de Roran arremessou a lança ao soldado,
mas este baixou-se e a lança bateu na parede, por cima dele. O
soldado praguejou e voltou a subir pelas escadas, de mãos e pés
no chão, desaparecendo numa curva da parede.
Momentos depois, o alçapão fechou-se com um estrondo
reverberante. Depois ouviram o soldado a soprar numa trompa e a
gritar avisos frenéticos às pessoas que estavam na praça.
Roran franziu a sobrancelha e voltou para junto do guincho.
— Deixem-no — disse, enfiando o martelo por baixo do cinto.
Encostou-se à roda travada, utilizada para subir e descer o portão
suspenso, e empurrou-a com toda a força, esforçando todos os
seus músculos. Os outros homens uniram esforços com ele e a roda
começou a girar muito lentamente. A roda dentada na parte lateral
do guincho produzia ruidosos estalidos, enquanto a enorme garra
de madeira deslizava sobre os dentes, em baixo.
O esforço necessário para mover a roda diminuiu
consideravelmente alguns segundos depois, o que Roran atribuiu à
equipa que mandara infiltrar-se na outra casa dos guardas.
Não se deram ao trabalho de abrir totalmente o portão suspenso
e, depois de meio minuto a gemer e a suar, os ferozes gritos de
guerra dos Varden chegaram aos seus ouvidos, à medida que os
homens que esperavam lá fora corriam pelo portão e entravam na
praça.
Roran largou a roda e voltou a tirar o martelo, encaminhando-se
para a escada, seguido de perto pelos outros.
Fora da casa dos guardas, viu Carn e Delwin no instante em que
estes saíam da estrutura, do outro lado do portão. Nenhum parecia
estar ferido, mas Roran reparou que o guerreiro mais velho que os
acompanhara, não estava lá.
Enquanto esperavam que o grupo de Roran se voltasse a reunir
a eles, Baldor e o resto dos Varden organizaram-se num bloco
compacto de homens, no extremo da praça. Estavam formados
ombro a ombro, em cinco fileiras, com os escudos sobrepostos.
Ao correr devagar para junto deles, Roran viu um grande
contingente de soldados sair de entre os edifícios, do lado oposto
da praça. Os soldados colocaram-se em formação defensiva,
orientando as lanças e os piques para fora, o que lhes dava a
aparência de uma pregadeira baixa e comprida, coberta de agulhas.
Calculou que fossem cerca de cento e cinquenta soldados — um
número que os seus guerreiros poderiam certamente vencer, mas
que lhes custaria tempo bem como a vida de alguns homens.
Ficou ainda mais desmoralizado, quando o feiticeiro de nariz
adunco que vira no dia anterior se colocou à frente das fileiras de
soldados e abriu os braços por cima da cabeça, com auréolas de
luz negra a crepitar em torno de cada uma das mãos. Roran
aprendera o suficiente de magia com Eragon para saber que as
faíscas, provavelmente, eram mais para dar espetáculo do que
outra coisa. Independentemente disso, não tinha qualquer dúvida
que o feiticeiro inimigo era tremendamente perigoso.
Carn alcançou os soldados da frente, segundos depois de
Roran.
Carn, Roran e Baldor olharam para o feiticeiro e para a coluna
de soldados reunida do lado oposto
— Consegues matá-lo? — perguntou Roran, baixinho, para que os
homens atrás de si não o ouvissem.
— Tenho de tentar, não é? — respondeu Carn, limpando a boca
com as costas da mão. Tinha o rosto perlado de suor.
— Podemos atacá-lo, se quiseres. Ele não nos consegue matar a
todos antes de lhe esgotarmos as proteções e lhe trespassarmos o
coração com uma espada.
— Não podes saber isso ao certo... Não, isto é responsabilidade
minha e sou eu que tenho de tratar do assunto.
— Podemos fazer alguma coisa para ajudar?
Carn deu uma gargalhada nervosa.
— Podem disparar algumas flechas sobre dele. Apará-las poderá
enfraquecê-lo o suficiente para que cometa um erro. Mas, seja o
que for que decidam fazer, não se metam entre nós... Será
perigoso para vocês e para mim.
Roran passou o martelo para a mão esquerda, colocando a mão
direita no ombro de Carn.
— Vai correr tudo bem. Lembra-te que ele não é muito esperto.
Se já antes o enganaste, podes enganá-lo outra vez.
— Eu sei.
— Boa sorte.
Carn acenou uma vez, encaminhando-se para a fonte ao centro
da praça. A luz do sol atingira a coluna saltitante de água, que
cintilava como mãos cheias de diamantes atirados ao ar.
O feiticeiro de nariz adunco encaminhou-se também para a
fonte, acertando passo com Carn até ficarem apenas a seis metros
um do outro, altura em que ambos pararam.
Do sítio onde Roran estava, Carn e o seu adversário pareciam
estar a falar um com o outro, mas encontravam-se demasiado
distantes para ele perceber o que estariam a dizer. Depois, ambos
os feiticeiros ficaram rígidos, como se alguém os tivesse
apunhalado.
Era disso que Roran estava à espera: um sinal de que estavam a
defrontar-se mentalmente e consequentemente demasiado
ocupados para dar atenção ao que os rodeava.
— Arqueiros! — gritou ele. — Vão para ali e para ali — disse ele,
apontando para ambos os lados da praça. — Cravem o maior
número de flechas possíveis naquele cão traidor. Mas não se
atrevam a atingir Carn, ou dou-vos a comer vivos a Saphira.
Os soldados remexeram-se constrangidos ao verem os dois
grupos de arqueiros que avançavam até meio da praça, porém,
nenhum dos soldados de vermelho, do exército de Galbatorix, saiu
da formação ou avançou para defrontar os Varden.
“Devem ter muita confiança naquela víbora de estimação”,
pensou Roran, preocupado.
Dúzias de flechas castanhas, com penas de ganso, descreveram
um arco, girando e assobiando na direção do feiticeiro inimigo e,
por momentos, Roran esperou que estas o matassem. Contudo,
todas elas se estilhaçaram e caíram no chão, a cerca de um metro e
meio do homem de nariz adunco, como se tivessem embatido
contra uma parede de pedra.
Roran baloiçou-se sobre os calcanhares, demasiado tenso para
ficar quieto. Detestava ter de esperar, sem fazer nada, enquanto o
amigo arriscava a vida. Além disso, a hipótese de Lorde Halstead
perceber o que se estava a passar e planear uma resposta eficaz,
aumentava a cada minuto que passava. Para evitarem ser
esmagados pelas forças superiores do Império, os homens de
Roran teriam de apanhar os seus inimigos desprevenidos, sem
saberem para onde se virar ou o que fazer.
— Atenção! — disse ele, virando-se para os guerreiros. — Vamos
lá ver se conseguimos fazer algo de útil enquanto Carn luta para nos
salvar a pele. Vamos flanquear aqueles soldados. Metade vem
comigo e os restantes seguem Delwin. Eles não podem bloquear
todas as ruas. Por isso você e os teus homens vão tentar passar pelos
soldados, dar a volta e atacá-los por trás, Delwin. Nós mantê-losemos
ocupados nesta frente, para que não ofereçam muita
resistência. Se alguns soldados tentarem fugir, deixem-nos fugir.
Demoraríamos demasiado tempo a matá-los a todos. Entendido?...
Vão, vão, vão!
Os homens separam-se rapidamente em dois grupos. Roran
comandou os seus homens, correndo para o extremo direito da
praça, e Delwin fez o mesmo, do lado esquerdo.
Quando ambos os grupos estavam quase alinhados com a fonte,
Roran viu o feiticeiro inimigo a olhar na direção dele. Foi apenas um
breve olhar, um olhar passageiro, de soslaio. Fosse intencional ou
não, a distração pareceu produzir um efeito imediato no duelo entre
ele e Carn, pois ao desviar o olhar para Carn, o esgar feroz do
homem de nariz adunco, deu lugar a uma expressão de pasmo
doloroso. As veias da sua testa franzida e do seu pescoço seco
começaram a dilatar-se e todo o rosto adquiriu um tom afogueado,
vermelho escuro, como se estivesse tão cheio de sangue que fosse
rebentar.
— Não! — gemeu o homem, gritando depois algo na língua antiga
que Roran não conseguiu entender.
Uma fração de segundo depois, Carn gritou também algo e
ambas as vozes se sobrepuseram por instantes, numa mistura de tal
forma aflitiva de terror, desolação, ódio e fúria que Roran percebeu
no fundo do seu ser que o duelo correra terrivelmente mal.
Carn desapareceu num clarão de luz azul e, depois, uma
cobertura branca, semelhante a uma abóbada, explodiu no local
onde ele estava, expandindo-se pela praça, sem que Roran tivesse
sequer tempo de piscar os olhos.
O mundo ficou negro. Roran sentiu um calor insuportável e tudo
girou e ondulou em seu redor, ao mergulhar num espaço sem
forma.
O martelo foi-lhe arrancado da mão e ele sentiu uma dor
dilacerante na parte lateral do joelho direito. Depois bateram-lhe
com um objeto duro na boca e ele sentiu um dente soltar-se,
enchendo-lhe a boca de sangue.
Quando finalmente parou, ficou onde estava, de barriga para
baixo, demasiado abalado para se mexer. Recuperou gradualmente
os sentidos e viu a superfície macia, cinzenta esverdeada, de uma
pedra do pavimento, por baixo do nariz. Cheirou a argamassa de
chumbo que rodeava a pedra e começou aperceber-se de dores e
de contusões por todo o corpo, exigindo a sua atenção. O único
ruído que ouvia era o bater do seu coração.
Algum do sangue que tinha na boca e na garganta foi-lhe para os
pulmões quando voltou a inspirar. Desesperado para respirar,
tossiu e sentou-se direito, cuspindo escarros negros. Viu um dos
seus incisivos voar e saltar na pedra do pavimento, parecendo
assustadoramente branco em contraste com as manchas de sangue
que cuspira. Apanhou-o e examinou-o; a ponta do incisivo estava
lascada, mas a raiz parecia intacta, por isso lambeu o dente e voltou
a encaixá-lo no buraco das gengivas, retraindo-se ao tocar na carne
dorida.
Apoiou-se no chão e levantou-se. Fora atirado contra a soleira
da porta de uma das casas que ladeavam a praça e os seus homens
estavam espalhados em seu redor, de pernas e braços torcidos,
sem elmos e sem espadas.
Roran sentiu-se mais uma vez grato por usar um martelo, pois
alguns dos Varden tinham-se golpeado a si mesmo ou ao
companheiro que os protegia, no decurso do tumulto.
“Martelo? Onde está o meu martelo?”, pensou, tardiamente.
Procurou no chão até ver o cabo da arma debaixo das pernas de
um guerreiro que estava ali perto. Puxou-o e depois virou-se para
observar a praça.
Tanto os soldados com os Varden tinham sido projetados pelo
ar e estavam estatelados no chão. Tudo o que restava da fonte era
uma pilha de escombros de onde a água jorrava, em intervalos
regulares. Junto desta, no local onde Carn estava, jazia um cadáver
mirrado e enegrecido, com os membros fumegantes, crispados,
como os de uma aranha morta. O corpo estava de tal forma
carbonizado e esburacado que era quase impossível reconhecer
nele algo outrora vivo e humano. Inexplicavelmente, o feiticeiro de
nariz adunco, continuava no mesmo sítio, embora a explosão o
despojasse das roupas exteriores, deixando-o apenas de ceroulas.
Uma raiva incontrolável apossou-se de Roran. Sem pensar na
sua sobrevivência, cambaleou até ao centro da praça, determinado
a matar o feiticeiro de uma vez por todas.
O feiticeiro de tronco nu não se mexeu, nem mesmo quando
Roran se aproximou. Roran ergueu o martelo e desatou a correr,
tropegamente, entoando um grito de guerra que conseguia ouvir
apenas vagamente.
Ainda assim, o feiticeiro não fez qualquer gesto para se
defender.
Na verdade, Roran apercebeu-se de que o feiticeiro não se
movera um centímetro que fosse desde a explosão. Era como se
fosse uma estátua e não um homem.
A aparente indiferença do feiticeiro à aproximação de Roran
compeliu-o a ignorar o estranho comportamento do homem — ou
ausência de comportamento, como era o caso —, atingindo-o na
cabeça antes que ele recuperasse do estranho estupor que o afligia.
Contudo, a cautela de Roran arrefeceu o seu desejo de vingança,
fazendo-o parar a menos de um metro e meio do feiticeiro.
E ainda bem que o fez.
Embora o feiticeiro lhe parecesse normal à distância, ao vê-lo de
perto, Roran reparou que a sua pele estava flácida e engelhada
como a de um homem com o triplo da idade, tendo adquirido uma
textura áspera e coriácea. A cor da pele também escurecera e
continuava a escurecer a cada momento que passava, como se
todo o corpo tivesse sido fustigado pela geada.
O peito do homem movia-se e os seus olhos giravam nas
órbitas, revelando a parte branca mas, para além disso, parecia
incapaz de se mover.
Enquanto Roran o observava, os braços, o pescoço e o peito do
homem começaram a mirrar e os ossos apareceram em alto relevo
— desde a curva das clavículas, semelhante a um arco de flechas, à
parte côncava das ancas, com o estômago pendurado como um
cantil de pele vazio. Os lábios enrugaram-se e recuaram mais do
que era devido, expondo-lhe os dentes amarelos, num esgar
horrendo, os olhos esvaziaram-se como carraças inchadas cujo
sangue estivesse a ser sugado, e a pele em redor afundou-se.
A respiração do homem — um estertor agudo e apavorado
semelhante ao ruído de uma serra — falhou nessa altura, mas não
cessou por completo.
Roran recuou, horrorizado. Sentiu algo escorregadio por baixo
das botas e olhou para baixo, vendo que estava em cima de uma
poça de água cada vez maior. A princípio pensou que seria da
fonte destruída, mas depois reparou que a água fluía dos pés do
feiticeiro paralisado.
Roran praguejou, enojado, e saltou para uma parte seca do
chão. Ao ver a água, percebeu o que Carn fizera, e o horror que
sentia, já de si intenso, aumentou. Ao que parece, Carn lançara um
feitiço que drenava toda a humidade do corpo do feiticeiro.
Numa questão de segundos, o feitiço reduziu o homem a um
esqueleto nodoso, envolto numa carapaça de pele negra e rija,
mumificando-o como se tivesse sido abandonado durante cem anos
no Deserto de Hadarac, à mercê do vento, do sol e das areias em
movimento. Embora já estivesse certamente morto nessa altura, não
caiu, pois a magia de Carn mantinha-o de pé: um medonho espetro
sorridente, equiparável ao que de mais horrendo Roran vira até
então nos seus pesadelos ou no campo de batalha — o que ia dar
mais ou menos ao mesmo.
Depois, a superfície do corpo desidratado do homem perdeu os
contornos, desfazendo-se num pó fino, cinzento, que se ia abatendo
em cortinas diáfanas e ficava a flutuar na água, em baixo, como as
cinzas de um fogo de uma floresta. Depressa se seguiram os
músculos e os ossos, depois os órgãos empedernidos e, finalmente,
o que restava do feiticeiro de nariz adunco desfez-se, deixando
apenas no seu lugar um pequeno amontoado cónico de pó, a voar
da poça de água que outrora lhe sustentara a vida.
Roran olhou para o cadáver de Carn, mas desviou
imediatamente os olhos, incapaz de suportar aquela imagem. “Pelo
menos vingaste-te dele.” Depois, concluindo que era demasiado
doloroso pensar no assunto, procurou abstrair-se da morte do
amigo, concentrando-se no seu problema mais imediato: os
soldados no extremo sul da praça, que começavam a levantar-se
do chão.
Roran viu os Varden fazerem o mesmo.
— Ei! — gritou ele. — Sigam-me! Jamais teremos uma
oportunidade tão boa. — Apontou para alguns dos seus homens
visivelmente feridos. — Ajudem-nos a levantar-se e coloquem-nos
no meio da formação. Não deixaremos ninguém para trás.
Ninguém! — Os lábios e a boca estremeciam-lhe ao falar e a cabeça
doía-lhe como se tivesse passado a noite inteira a beber.
Os Varden animaram-se ao ouvir a sua voz e apressaram-se a
reunir-se a ele. Depois de se agruparem numa ampla coluna atrás
de si, Roran tomou a sua posição na linha da frente, entre Baldor e
Delwin, ambos com arranhões ensanguentados da explosão.
— Carn morreu? — perguntou Baldor.
Roran acenou com a cabeça e ergueu o escudo tal como os
outros homens, formando uma parede sólida, virada para fora.
— Então, rezemos para que Halstead não tenha outro feiticeiro
escondido algures por aí — murmurou Delwin.
Depois de os Varden formarem, Roran gritou:
— Em frente, marchar! — E os guerreiros percorreram o resto do
pátio.
Fosse pelo fato da sua liderança ser menos eficiente que a dos
Varden ou porque a explosão os afetara mais, os soldados do
Império não conseguiram recuperar tão depressa e estavam ainda
desorganizados quando os Varden os atacaram.
Roran gemeu e deu um passo cambaleante para trás, ao sentir
uma lança enterrar-se no escudo, entorpecendo-lhe o braço e
puxando-o para baixo com o peso. Ele esticou um braço e roçou
com o martelo pela face do escudo. O martelo bateu na haste da
lança mas esta não se mexeu.
Um soldado que estava à sua frente, talvez o mesmo que lhe
atirara a lança, aproveitou a oportunidade para correr para ele e
brandir a espada na direção do seu pescoço. Roran tentou erguer o
escudo com a lança alojada nele, mas estava demasiado pesado e
difícil de manejar para se poder proteger com ele, por isso usou o
martelo na tentativa de golpear a espada. Contudo, a espada era
quase impossível de se ver, do lado do gume, o que o impediu de
aparar o golpe na altura certa e o martelo falhou o alvo. Poderia ter
morrido nessa altura, só que bateu com os nós dos dedos na parte
chata da lâmina, desviando-a uns centímetros para o lado.
Um fio de dor intensa como fogo percorreu o ombro direito de
Roran, descendo-lhe pelo flanco como um relâmpago de pontas
aguçadas, e ele viu clarões amarelos diante dos olhos. O joelho
direito cedeu e caiu para a frente.
Viu pedra debaixo de si. Os pés e as pernas em seu redor
mantinham-no preso, impedindo-o de rebolar para um local mais
seguro. O seu corpo estava lento e parecia não reagir, como se
estivesse preso em mel.
“Você está demasiado lento, você está demasiado lento”, pensou, lutando
para libertar o braço do escudo e voltar a levantar-se. Se ficasse no
chão seria golpeado ou pisado. “Você está demasiado lento!”
Depois viu um soldado cair à sua frente, agarrado à barriga e,
segundos depois, alguém o puxou pelo colarinho da cota de malha,
ajudando-o a levantar e segurando-o enquanto ele recuperava o
equilíbrio. Era Baldor.
Torcendo o pescoço, Roran olhou para o sítio onde o soldado o
atingira. Cinco elos da sua cota de malha estavam abertos, mas
para além disso a armadura aguentara o impacto. Apesar do
sangue que lhe escorria do rasgão e da dor que sentia no pescoço e
no braço, não achava que o ferimento fosse grave e também não
fazia tenções de parar para ver. O braço direito ainda funcionava —
pelo menos o suficiente para continuar a lutar — e, naquele
momento, era tudo o que lhe interessava.
Alguém lhe passou um escudo para substituir o anterior. Ele
colocou-o com um ar solene e continuou a incitar os homens a
avançar, forçando os soldados a recuar ao longo da rua que saía da
praça.
Confrontados com a força esmagadora dos Varden, os soldados
não tardaram a ceder e a fugir, escapando-se pela miríade de ruas
laterais e vielas que confluíam na estrada principal.
Nessa altura, Roran fez uma pausa e mandou cinquenta dos seus
homens voltarem para trás para fecharem o portão suspenso e a
porta de saída, guardando-os de quaisquer inimigos que tentassem
seguir os Varden até ao coração de Aroughs. A maior parte dos
soldados da cidade deviam estar estacionados perto da muralha
exterior, para repelir sitiantes, e Roran não estava na disposição de
os enfrentar em campo aberto. Seria um suicídio fazê-lo, atendendo
às dimensões das tropas de Halstead.
Daí em diante, os Varden enfrentaram fraca resistência, ao
avançarem pela parte interior da cidade até ao enorme e bem
equipado palácio, onde Lorde Halstead governava.
Diante do palácio, que se erguia vários andares acima do resto
de Aroughs, havia um grande pátio com um lago artificial com
gansos e cisnes. O palácio era uma bela estrutura ornamentada,
com arcos abertos, colunatas e amplas varandas concebidas para
dança e festas. Ao contrário do castelo no coração de Belatona,
este fora obviamente construído como local de lazer e não com
propósitos defensivos.
“Devem ter pensado que ninguém conseguiria passar pelas
muralhas”, pensou Roran.
Várias dúzias de guardas e de soldados no pátio atacaram os
Varden às cegas, mal os viram, entoando gritos de guerra durante
todo o tempo.
— Mantenham-se em formação! — ordenou Roran, enquanto os
homens corriam na direção deles.
Durante um minuto ou dois, o ruído do choque das armas
inundou o pátio. Os gansos e os cisnes grasnavam alarmados com
o tumulto e batiam as asas, mas nenhum se atrevia a sair do lago.
Os Varden não tardaram a esmagar os soldados e os guardas,
invadindo depois a entrada do palácio. A decoração do palácio era
de tal forma rica — pinturas nas paredes e tetos, molduras douradas,
mobílias trabalhadas e chão ladrilhado com desenhos — que Roran
teve dificuldade em absorver tudo de uma vez. A fortuna necessária
para construir e manter um edifício daqueles era algo inconcebível
para ele. Uma só cadeira daquele salão principal valia mais do que
a quinta onde crescera.
Através de uma porta aberta Roran viu três criadas correrem tão
depressa quanto as saias lhes permitiam, por um longo corredor.
— Não as deixem fugir! — exclamou ele.
Cinco espadachins abandonaram o corpo principal dos Varden
e correram atrás das mulheres, apanhando-as antes de chegarem
ao fundo do corredor. As mulheres davam gritos ensurdecedores e
debatiam-se ferozmente, tentando arranhar os seus captores,
enquanto os homens as arrastavam para o local onde Roran os
esperava.
— Basta! — gritou Roran, quando chegaram diante dele, e as
mulheres pararam de se debater, embora continuassem a
choramingar e a gemer. A mais velha das três, uma matrona robusta
de cabelo prateado, preso num carrapito desalinhado, que trazia
uma argola com chaves presa à cintura parecia a mais razoável, por
isso Roran perguntou-lhe:
— Onde está o Lorde Halstead?
A mulher empertigou-se e levantou o queixo.
— Fazei o que quiserdes comigo, senhor, mas não trairei o meu
amo.
Roran aproximou-se dela, até ficarem apenas a trinta centímetros
de distância um do outro.
— Ouve-me com atenção — rosnou. — Aroughs caiu e você e todos
os habitantes da cidade estão à minha mercê. Nada do que façam
poderá modificar isso. Diz-me onde está Halstead e nós libertar-teemos
a ti e às tuas companheiras. Não o poderão salvar da sua
desgraça, mas poderão salvar-se a vós mesmas. — Os seus lábios
rasgados estavam tão inchados que mal conseguia fazer-se
entender e, sempre que falava, cuspia sangue.
— O meu destino não me interessa, senhor — disse a mulher com
uma expressão tão determinada como qualquer guerreiro.
Roran praguejou e bateu com o martelo no escudo, produzindo
um ruído áspero que ecoou ruidosamente no enorme corredor. As
mulheres encolheram-se.
— Perdeste a cabeça? Será que Halstead ou o Império ou
Galbatorix valem o sacrifício das vossas vidas?
— Sobre Galbatorix e o Império nada sei dizer, senhor, mas
Halstead sempre foi gentil para com os criados e eu não permitirei
que gente da vossa laia o enforque. Não passam de escória ingrata
e sebenta.
— Ai sim? — E olhou-a ferozmente. — Quanto tempo achas que
consegues ficar calada se eu decidir autorizar os meus homens a
arrancar-te a verdade?
— Jamais me fareis falar — declarou ela e ele acreditou.
— E elas? — perguntou, acenando com a cabeça para as outras
mulheres, a mais jovem das quais não devia ter mais de dezassete
anos. — Você está na disposição de deixar que as cortem aos bocados,
só para salvares o teu amo?
A mulher fungou desdenhosamente e depois disse:
— Lorde Halstead está na ala Este do palácio. Segui por aquele
corredor, percorrei a Sala Amarela e o jardim de flores de Lady
Galiana e encontrá-lo-eis certamente.
Roran ouviu desconfiado. A sua capitulação parecera-lhe
demasiado rápida e fácil, atendendo à resistência que oferecera
antes. Reparou também que enquanto ela falava as outras duas
mulheres tinham reagido com surpresa e uma outra emoção que
não conseguiu identificar. “Seria confusão?”, pensou. Fosse como
fosse, as outras não tinham reagido como ele esperava, se a mulher
de cabelo prateado tivesse acabado de entregar o amo às mãos do
inimigo. Estavam demasiado caladas, demasiado dóceis, como se
escondessem alguma coisa.
Entre ambas, a menina era a que parecia menos capaz de
esconder as suas emoções, por isso Roran abordou-a com toda a
selvajaria possível.
— você aí. Ela está a mentir, não está? Onde está Halstead? Dizme!
A
menina abriu a boca e abanou a cabeça, incapaz de dizer
uma palavra e tentando recuar, mas um dos guerreiros agarrou-a.
Roran aproximou-se pesadamente dela, encostou-lhe o escudo
ao peito, esvaziando-lhe os pulmões, e apoiou o seu peso nela,
entalando-a entre si e o homem que estava atrás dela. Roran ergueu
o martelo e tocou-lhe na face com ele.
— És bastante bonita mas vais ter dificuldade em encontrar
alguém para te cortejar, a não ser velhos, se eu te partir os dentes
da frente. Eu também perdi um dente hoje, mas consegui voltar a
pô-lo no lugar, vês? — E mostrou os dentes, certo de estar a
reproduzir uma medonha aproximação de um sorriso. — Mas eu
ficarei com os teus dentes para que não possas fazer o mesmo.
Darão um belo troféu, não achas? — Fez um gesto ameaçador com
o martelo.
A menina encolheu-se e começou a chorar.
— Não! Por favor, senhor, eu não sei. Por favor! Ele estava nos
aposentos dele reunido com os seus capitães, mas depois ele e
Lady Galiana iam para as docas pelo túnel e...
— Thara, minha tonta! — exclamou a matrona.
— Está lá um navio à espera deles, sim, e eu não sei onde ele está
agora, mas por favor não me espanqueis. EU não sei mais nada,
senhor e...
— Onde são os aposentos dele? — gritou Roran.
E a menina disse-lhe entre lágrimas.
— Libertem-nas — disse, quando ela terminou, e as três mulheres
largaram a correr pela entrada, batendo com os saltos rijos dos
sapatos no chão polido.
Roran conduziu os Varden pelo enorme edifício, de acordo com
as instruções da menina. Uma série de homens e mulheres,
parcialmente vestidos, cruzaram-se com eles, mas nenhum parou
para lutar. Ouviam-se gritos e guinchos por toda a parte no palácio,
a ponto de lhe apetecer tapar os ouvidos.
A meio do caminho, passaram por um vestíbulo com uma
estátua de um enorme dragão negro ao meio. Roran perguntou-se
se seria Shruikan, o dragão de Galbatorix. Ao passarem pela
estátua, Roran ouviu um ruído metálico e depois algo o atingiu nas
costas.
Caiu contra um banco de pedra, no caminho, e agarrou-se a ele.
Dor.
Uma dor agonizante, de enlouquecer, como nunca antes sentira,
uma dor tão intensa que teria cortado uma mão para que lhe
passasse. Era como se lhe estivessem a encostar um atiçador
incandescente às costas.
Não conseguia mexer-se...
Não conseguia respirar...
A mais pequena mudança de posição era um tormento
insuportável.
Viu sombras diante si e ouviu Baldor e Delwin gritarem. Depois
Brigman estava também a dizer algo, embora Roran não
conseguisse perceber.
Subitamente, a dor aumentou dez vezes mais e ele gritou, o que
apenas a agravou. Fez um esforço supremo para ficar
absolutamente imóvel. As lágrimas corriam-lhe dos olhos fechados.
Depois Brigman falou com ele.
— Tens uma flecha nas costas, Roran. Tentámos apanhar o
arqueiro mas ele fugiu.
— Dói... — disse Roran, arquejante.
— Isso é porque a flecha te atingiu uma costela, caso contrário,
ter-te-ia trespassado. Tiveste sorte por não se ter cravado um
centímetro mais acima ou mais abaixo e por não te ter atingido a
coluna nem a espádua.
— Arranquem-na! — disse ele de dentes cerrados.
— Não podemos, a flecha tem uma cabeça farpada e não
podemos puxá-la pelo outro lado. Temos de te cortar para a tirar.
Eu tenho alguma experiência nisso, Roran. Se confiares em mim e
me deixares usar a faca, poderei fazê-lo aqui e agora. Ou se
preferires poderemos esperar até encontrarmos um curandeiro.
Deve haver um ou dois no palácio.
Embora detestasse a ideia de ficar à mercê de Brigman, Roran
não aguentava mais a dor, por isso disse:
— Fá-lo aqui... Baldor...
— Sim, Roran?
— Leva cinquenta homens e procura Halstead. Aconteça o que
acontecer, ele não pode escapar. Delwin... fica comigo.
Seguiu-se uma breve discussão entre Baldor, Delwin e Brigman,
da qual Roran ouviu apenas algumas palavras. Depois, uma boa
parte dos Varden abandonaram o vestíbulo, que ficou visivelmente
mais sossegado.
Por insistência de Brigman, um grupo de guerreiros trouxe
cadeiras de uma sala ali perto, partiram-nas aos bocados e
acenderam uma fogueira no caminho de gravilha junto da estátua.
Colocaram a ponta de uma adaga no fogo, que Roran percebeu
que Brigman iria utilizar para cauterizar o ferimento nas suas costas
depois de remover a flecha, não fosse ele esvair-se em sangue.
Ao deitar-se no banco, rígido e trémulo, Roran procurou
controlar a respiração, respirando lenta e superficialmente para
aplacar a dor e tentando libertar a mente de todos os pensamentos,
por muito difícil que isso fosse. O que acontecera e o que estava
para acontecer não interessava, apenas a entrada e a saída
constante de ar das suas narinas.
Quase desmaiou quando quatro homens o ergueram do banco e
o deitaram no chão de rosto virado para baixo. Alguém lhe colocou
uma luva de cabedal na boca, agravando-lhe a dor no lábio
rasgado, ao mesmo tempo que umas mãos ásperas lhe agarravam
nas pernas e nos braços esticando-os o mais possível e
imobilizando-os.
Roran olhou de relance para trás e viu Brigman a ajoelhar-se
junto de si, com uma faca curva, de caça, na mão. A faca começou
a descer e Roran voltou a fechar os olhos e a morder a luva com
força.
Inspirou.
Expirou.
E o tempo e a memória cessaram para ele.


Um comentário:

  1. Coitado de Carn T.T não se pode apegar a nenhum personagem desse livro que eles tendem a morrer T.T

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Boa leitura :)