3 de junho de 2017

Capítulo 21 - Hóspedes inesperados

Na manhã seguinte, Eragon foi para trás de sua tenda, removeu seus casacos pesados e começou a planar nas posições do segundo nível do Rimgar, as séries de exercícios que os elfos haviam inventado.
Logo seu distanciamento inicial desapareceu. Ele começou a se cansar com o esforço, e o suor inundou seus membros, tornando difícil manter o controle sobre pés e mãos quando ele ficava em uma posição de contorção que parecia ameaçar arrancar os músculos dos ossos. Uma hora mais tarde, terminou o Rimgar. Secou as palmas das mãos no canto da tenda, pegou a cimitarra e treinou por mais trinta minutos. Ele teria preferido continuar se familiarizando com a espada pelo resto do dia – sabia que sua vida poderia depender da habilidade em manuseá-la – mas o casamento de Roran estava se aproximando com rapidez e os aldeões usariam toda a ajuda que pudessem para concluir os preparativos em tempo. Refeito, Eragon tomou um banho gelado, vestiu-se e então foi com Saphira até onde Elain estava supervisionando a preparação do banquete de casamento de Roran e Katrina. Blödhgarm e seus companheiros seguiam uns doze quilômetros atrás, deslizando imperceptíveis por entre as tendas.
— Ah, bom, Eragon — disse Elain. — Eu esperava que você aparecesse. — Ela se levantou com ambas as mãos pressionadas na região lombar para aliviar o peso da gravidez. Apontando com o queixo para uma fileira de espetos e caldeirões suspensos sobre um leito de carvão, para uma porção de homens abatendo um porco e para uma pilha de pequenos barris em uma fileira de tábuas dispostas sobre cepos de árvores que seis mulheres estavam usando como um balcão, ela disse: — Ainda falta fazer a massa de vinte pães. Você pode fazer o favor de cuidar disso? — Então ela franziu o cenho para os calos nas juntas dos dedos dele. — E tente não colocar essas coisas na massa, certo?
As seis mulheres em pé nos balcões, incluindo Felda e Birgit, ficaram em silêncio quando Eragon tomou seu posto ao lado delas. As poucas tentativas que fez para que a conversa fosse retomada fracassaram, mas depois de um tempo, quando ele já havia desistido de tranquilizá-las e estava concentrado em fazer a massa, elas recomeçaram a falar por conta própria. Falaram de Roran e Katrina e sobre como tinham sorte aqueles dois, da vida dos aldeões no acampamento, da viagem deles até lá, e então, sem nenhum preâmbulo, Felda olhou para Eragon e comentou:
— Sua massa parece um pouco pegajosa. Não seria melhor adicionar um pouco de farinha?
Eragon verificou a consistência.
— Você tem razão. Obrigado.
Felda sorriu e, depois disso, as mulheres o incluíram na conversa.
Enquanto Eragon trabalhava a massa morna, Saphira estava aninhada em uma faixa de grama nas proximidades. As crianças de Carvahall brincavam em volta dela; gritos de riso pontuados pelo ritmo mais intenso das vozes adultas. Quando um par de cães sarnentos começou a latir para Saphira, ela ergueu a cabeça do chão e rugiu para eles. Os animais saíram em disparada, ganindo baixinho.
Todos na clareira eram pessoas que Eragon conhecera na infância. Horst e Fisk estavam do outro lado dos espetos construindo mesas para o banquete. Kiselt estava limpando o sangue do porco em seus braços. Albriech, Baldor, Mandel e vários outros jovens estavam carregando estacas adornadas com fitas para a colina onde Roran e Katrina desejavam se casar. O taverneiro Morn estava preparando as bebidas do casamento e sua esposa, Tara, estava segurando três garrafões e um barril para ele.
Algumas dezenas de metros adiante, Roran estava gritando alguma coisa para um carregador que tentava passar suas mulas pela clareira. Lorin, Delwin e o garoto Nolfavrell estavam juntos nas proximidades, observando. Praguejando em altos brados, Roran agarrou os arreios da mula da frente e lutou para fazer com que os animais dessem meia-volta. A visão divertiu Eragon; ele jamais imaginara que Roran pudesse ficar tão agitado nem que fosse tão destemperado.
— O guerreiro poderoso está nervoso antes da disputa — observou Isold, uma das seis mulheres que estavam com Eragon.
O grupo riu.
— Talvez — disse Birgit, colocando água na farinha — ele esteja preocupado com a possibilidade de sua espada não ficar rígida no combate.
Uma torrente de alegria tomou conta das mulheres. As bochechas de Eragon ficaram vermelhas. Ele manteve o olhar fixo sobre a massa à sua frente e aumentou a velocidade das pancadas. Piadas obscenas eram comuns em casamentos, e ele já se divertira muito com elas antes, mas ouvi-las direcionadas a seu primo o desconcertou.
As pessoas que não teriam como comparecer ao casamento estavam tão presentes na cabeça de Eragon quanto as que teriam como ir. Ele pensou em Byrd, Quimby, Parr, Hida, no jovem Elmund, Kelby e nos outros que haviam morrido por causa do Império. Mas, acima de tudo, ele pensou em Garrow. Desejou que seu do ainda estivesse vivo para ver seu único filho aclamado como herói pelos aldeões e também pelos Varden; para vê-lo tomar a mão de Katrina e finalmente se tornar um homem completo.
Eragon fechou os olhos, virou o rosto em direção ao sol do meio-dia e sorriu para o céu, contente. A temperatura estava agradável. O aroma de fermento, farinha, carne grelhada, vinho fresco, sopas quentes, doces e balas dissolvidas tomou conta da clareira. Seus amigos e família estavam reunidos em torno dele para uma celebração e não para um velório. E, por enquanto, ele e Saphira estavam a salvo.
É assim que a vida deveria ser.
Uma cometa soou estranhamente alta. Então soou novamente. E mais uma vez. Todos gelaram, sem ter certeza do significado das três notas. Por um breve instante, todo o acampamento ficou em silêncio, exceto pelos animais. Então, os tambores de guerra dos Varden começaram a soar. O caos irrompeu. Mães correram atrás de suas crianças e os cozinheiros abafaram o fogo enquanto o restante dos homens e das mulheres saiu em disparada atrás de suas armas. Eragon correu na direção de Saphira no instante em que ela se levantava. Expandindo sua mente, ele encontrou Blödhgarm e, uma vez que o elfo diminuiu suas defesas de alguma maneira, pediu: Encontre-se conosco na entrada norte.
Nós ouvimos e obedecemos, Matador de Espectros.
Eragon montou em Saphira. No instante em que ele passou a perna por cima de seu pescoço, o dragão saltou quatro fileiras de tendas, aterrissou, e então saltou uma segunda vez, suas asas parcialmente estendidas, sem voar, apenas pulando sobre o acampamento como um gato de montanha cruzando a forte correnteza de um rio.
O impacto de cada aterrissagem fazia vibrar os dentes e a coluna de Eragon e ameaçava arrancá-lo de seu assento. À medida que subiam e desciam, com os guerreiros assustados dando passagem, Eragon contatou Trianna e os outros membros de Du Vrangr Gata, identificando a localização de cada feiticeiro e os organizando para a batalha.
Alguém que não fazia parte de Du Vrangr Gata tocou seus pensamentos. Ele recuou, cerrando as paredes ao redor de sua consciência. Então, percebeu que era Angela, a herbolária, e permitiu o contato. Ela disse: Estou com Nasuada e Elva. Nasuada quer que você e Saphira se encontrem com ela na entrada norte...
Assim que conseguirmos. Sim, sim, estamos a caminho. E quanto a Elva? Ela está sentindo alguma coisa?
Dor. Dor intensa. Sua dor. Dos Varden. Dos outros. Sinto muito, ela não está muito coerente neste exato momento. É muita coisa para ela. Vou colocá-la para dormir até que a violência termine. Angela cortou a conexão.
Como um carpinteiro dispondo e examinando suas ferramentas antes de começar um novo projeto, Eragon revisou as proteções que havia colocado em torno de si mesmo, de Saphira, Nasuada, Arya e Roran. Pareciam estar todas em seus devidos lugares.
Saphira deslizou e parou em frente à sua tenda, escavando o chão de terra com suas garras. Ele saltou de suas costas, rolou e atingiu o solo. Ficou de pé e entrou, desatando o cinto com a espada. Jogou o cinto com o alforje no chão e, remexendo embaixo do catre, retirou sua armadura. Os anéis frios e pesados da cota de malha deslizaram por cima de sua cabeça e se encaixaram sobre os ombros com som de moedas caindo. Amarrou seu capacete de batalha, colocou o capuz por cima e então enfiou a cabeça. Pegou de volta o cinto e recolocou-o. Com as grevas e os braçais na mão esquerda, enganchou o dedo mindinho na correia do braço em seu escudo, agarrou a pesada sela de Saphira com a mão direita e saiu às pressas da tenda. Soltando a armadura com um estrondo metálico, lançou a sela sobre os ombros de Saphira e montou. Devido à pressa e à excitação, e também à apreensão, sentiu dificuldades para atar as correias.
Saphira mudou sua fisionomia. CorraVocê está demorando demais.
Está certo! Estou indo o mais rápido que posso! Esse seu tamanho todo não ajuda muito!
Ela rosnou.
O acampamento fervilhava. Homens e anões alvoroçados seguindo a corrente dos rios na direção norte, correndo para responder aos clamores dos tambores de guerra. Eragon pegou sua armadura abandonada no chão, montou sobre Saphira e se posicionou na sela. Com um rápido bater de asas, um empuxo de aceleração, uma rajada de ar e as amargas reclamações dos braçais arranhando o escudo, Saphira alçou voo.
Enquanto voavam velozmente para o limite norte do acampamento, Eragon atou as grevas nas canelas, segurando-se sobre Saphira apenas com a força das pernas. Os braçais, calçou entre sua barriga e a dianteira da sela. O escudo, pendurou sobre a protuberância da armadura atrás do pescoço. Quando as grevas ficaram presas, deslizou as pernas pela fileira de presilhas de couro de cada lado da sela e então apertou o nó corrediço em cada uma delas.
A mão de Eragon tocou o cinto de Beloth, o Sábio. Ele gemeu, lembrando-se de que esvaziara o cinto enquanto curava Saphira em Helgrind.
Argh! Eu deveria ter estocado um pouco de energia nele.
Estaremos bem, disse Saphira. Ele ainda estava encaixando os braçais quando Saphira arqueou suas asas, envolvendo o ar com suas membranas translúcidas, e retornou, permanecendo um instante imóvel até descender sobre o cume de um dos aterros que circundavam o acampamento. Nasuada já estava lá, montada em seu enorme cavalo de batalha, Tempestade na Guerra. Ao lado dela estavam Jörmundur, também a cavalo; Arya, a pé; e a guarda costumeira dos Falcões da Noite liderados por Khagra, um dos Urgals que Eragon conhecera na Campina Ardente. Blödhgarm e os outros elfos emergiram das tendas atrás deles e pararam perto de Eragon e Saphira.
De outra parte do acampamento galopavam o rei Orrin e seu séquito, segurando nas rédeas de seus corcéis empinados até se aproximarem de Nasuada. Próximos deles vinham Narheim, chefe dos anões, e três de seus guerreiros montados em pôneis vestidos com armadura e cota de malha.
Nar Garzhvog corria pelos campos a leste. O barulho das pisadas do Kull precedia sua chegada em vários segundos. Nasuada gritou uma ordem, e os guardas na entrada norte puxaram para o lado o tosco portão de madeira para permitir que Garzhvog entrasse no acampamento. Todavia, se tivesse sido sua intenção, o Kull provavelmente abriria o portão sozinho com sua força.
— Quem desafia? — rosnou Garzhvog, percorrendo o aterro com quatro passadas longas e inumanas. Os cavalos recuaram diante do gigantesco Urgal.
— Olhe — apontou Nasuada.
Eragon já estava estudando os inimigos. Pouco mais do que três quilômetros além, cinco barcos elegantes, pretos como piche, estavam aportados perto das margens do rio Jiet. Dos barcos desembarcou um enxame de homens vestidos com os vistosos uniformes do exército de Galbatorix. A multidão brilhava como água açoitada pelo vento sob um sol de verão à medida que espadas, escudos, elmos e cotas de malha refletiam a luz.
Arya sombreou o rosto com a mão e estreitou os olhos.
— Eu diria que são menos de trezentos soldados.
— Por que tão poucos? — imaginou Jörmundur.
O rei Orrin franziu as sobrancelhas.
— Galbatorix não pode ser louco o suficiente para acreditar que pode nos destruir com um efetivo tão desprezível! — Orrin retirou seu elmo, que tinha o formato de uma coroa, e bateu de leve na testa com o canto da túnica. — Nós poderíamos obliterar todo esse grupo sem perder nem um homem sequer.
— Talvez sim — disse Nasuada. — Talvez não.
Triturando as palavras, Garzhvog acrescentou:
— O Dragão Rei é um traidor mentiroso, um animal asqueroso, mas sua mente não é fraca. Ele é sagaz como uma lontra esfomeada.
Os soldados reuniram-se em fileiras organizadas e começaram a marchar na direção dos Varden. Um mensageiro correu até Nasuada. Ela inclinou-se em sua sela para ouvir, e então o dispensou.
— Nar Garzhvog, seu povo está a salvo nos limites de nosso acampamento. Eles estão reunidos perto do portão leste, prontos para suas ordens.
Garzhvog rosnou, mas permaneceu onde estava. Nasuada olhou para os soldados que se aproximavam e disse:
— Não consigo imaginar nenhum motivo para enfrentá-los. Nós podemos acertá-los com flechas assim que estiverem ao alcance. E quando atingirem nossa fortificação, vão se arrebentar nas trincheiras e nas estacas que colocamos. Nenhum deles escapará com vida — concluiu ela com evidente satisfação.
— Quando estiverem entregues — disse Orrin —, eu e meus cavaleiros apareceremos para atacá-los pela retaguarda. Ficarão tão surpresos que não terão nem chance de se defender.
— O curso da batalha pode... — Nasuada estava respondendo quando a cometa metálica que havia anunciado a chegada dos soldados soou mais uma vez, tão alto que Eragon, Arya e os outros elfos cobriram seus ouvidos.
Eragon estremeceu de dor devido à explosão sonora. De onde vem isso?, perguntou ele a Saphira.
Uma pergunta mais importante – acho eu – é por que os soldados poderiam querer nos avisar de seu ataque, se são realmente eles os responsáveis pelo barulho? Talvez seja uma maneira de desviar nossa atenção ou...
Eragon esqueceu o que estava começando a dizer quando viu um tumulto na margem oposta do rio Jiet, atrás de um véu de pesarosos salgueiros. Vermelho como um rubi mergulhado em sangue, vermelho como ferro na forja, vermelho como um carvão ardendo de ódio e raiva, Thorn surgiu acima das desfalecidas árvores. E sobre as costas do resplandecente dragão, estava Murtagh em sua armadura de aço reluzente, empunhando Zar’roc por sobre a cabeça.
Eles vieram atrás de nós, disse Saphira.
O estômago de Eragon deu um nó, e ele sentiu o pavor de Saphira como uma corrente de bile percorrendo sua mente.

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