3 de junho de 2017

Capítulo 20 - Preciso de uma espada!

Assim que o Domia abr Wyrda estava escondido em segurança na sua barraca, Eragon foi ao arsenal dos Varden, um grande pavilhão aberto, repleto de estantes com lanças, espadas, piques, arcos e bestas.
Montes de escudos e de armaduras de couro enchiam caixotes abertos feitos de ripas. O material mais caro, cotas de malha, túnicas, coifas de armas e perneiras, estava disposto em armações de madeira. Centenas de elmos cônicos brilhavam como prata polida. Havia fardos de flechas ao longo das paredes do pavilhão; e entre eles estavam sentados cerca de vinte artífices, ocupados na recuperação de flechas cujas penas tinham sido danificadas na batalha da Campina Ardente.
Era constante o entra-e-sai de homens no pavilhão: alguns trazendo armas e armaduras para conserto; outros, recrutas novos chegando para serem aparelhados; e ainda outros, transportando equipamento pelo acampamento. Todos pareciam gritar a plenos pulmões. E no centro da comoção estava o homem que Eragon esperava ver: Fredric, o mestre armeiro dos Varden.
Blödhgarm o acompanhou quando Eragon entrou no pavilhão, indo a passos largos na direção de Fredric. Assim que avançaram, os homens ali dentro se calaram, com os olhos fixos nos dois. Depois, retomaram suas atividades, se bem que com passos mais rápidos e vozes mais contidas.
Levantando um braço em sinal de boas-vindas, Fredric se apressou para ir ao seu encontro. Como sempre, estava usando sua armadura de couro peludo de boi cujo cheiro era quase tão desagradável quanto teria sido o do animal – além de uma enorme espada para duas mãos, pendurada atravessada nas costas, com o punho se projetando acima do seu ombro direito.
— Matador de Espectros! — disse ele, com a voz retumbante. — Em que posso servi-lo nesta bela tarde?
— Preciso de urna espada.
O sorriso de Fredric apareceu através da barba.
— Ah, eu estava me perguntando se você viria me fazer uma visita por esse motivo. Quando partiu para Helgrind sem uma lâmina na mão, pensei que talvez agora estivesse acima desse tipo de coisa. Talvez pudesse travar qualquer combate com magia.
— Não, ainda não.
— Bem, não posso dizer que lamento. Todo o mundo precisa de uma boa espada, por mais experientes que possam ser na arte da conjuração. No final, tudo se resume a aço contra aço. Espere só para ver: é assim que essa luta contra o Império se resolverá, com a ponta de uma espada penetrando no coração maldito de Galbatorix. E, eu apostaria meu salário de um ano na certeza de que Galbatorix tem sua própria espada e que também a usa, apesar de ser capaz de estripar qualquer um estalando um dedo. Não há nada que se compare à sensação do bom aço nas nossas mãos.
Enquanto falava, Fredric os conduziu até uma prateleira para espadas separada dos outras.
— Que tipo de espada você está procurando? — perguntou ele. — Aquela Zar’roc que você tinha era uma espada para uma mão, se bem me lembro. Com uma lâmina da largura de dois polegares... dois polegares dos meus, seja como for... e de um formato adequado tanto para cortar como para estocar, não é mesmo?
Eragon fez que sim. O mestre armeiro deu um resmungo e começou a tirar espadas da prateleira, fazendo-as girar no ar, somente para devolvê-las ao lugar com aparente insatisfação.
— As lâminas élficas costumam ser mais finas e mais leves que as nossas ou que as dos anões, graças aos encantamentos que eles impregnam no aço na forja. Se nós fizéssemos as nossas tão delicadas como as deles, as espadas não durariam mais que um minuto num combate, antes de se entortar, quebrar ou ficar tão dentadas que não se poderia cortar nem queijo macio com elas. — Seus olhos se desviaram velozes na direção de Blödhgarm. — Não é verdade, elfo?
— É exatamente como diz, humano — respondeu o elfo com uma voz modulada com perfeição.
Fredric concordou em silêncio e examinou o gume de outra espada, para então bufar e a devolver para a prateleira.
— O que significa que qualquer espada que você escolha será provavelmente mais pesada do que a arma à qual você está acostumado. Isso não deveria representar nenhuma dificuldade para você, Matador de Espectros, mas o peso a mais ainda pode perturbar o ritmo dos golpes.
— Agradeço seu aviso — disse Eragon.
— De nada — disse Fredric. — É para isso que estou aqui: para impedir que o maior número possível dos Varden acabe sendo morto e para ajudá-los a matar tantos soldados de Galbatorix quanto for possível. É um bom trabalho. — Deixando a prateleira, ele se dirigiu pesadamente a outra, escondida por trás de uma pilha de escudos retangulares. — Encontrar a espada certa para alguém é uma arte. Uma espada deveria dar a impressão de ser uma extensão do braço, como se ela tivesse saído da sua própria carne. Você não deveria planejar o movimento dela. Simplesmente deveria movimentá-la de modo tão instintivo quanto o de uma garça ao mover o bico, ou o de um dragão com suas garras. A espada perfeita é a intenção encarnada. O que você quer é o que ela faz.
— Você parece um poeta.
Fredric deu de ombros, com uma expressão de modéstia.
— Há vinte e seis anos que escolho as armas para homens que estão prestes a lutar. Depois de algum tempo, você fica impregnado disso até os ossos, levando sua mente a pensamentos sobre o destino e a fatalidade; e será que aquele rapaz que eu despachei com uma lança de ponta farpada ainda estaria vivo se eu lhe tivesse dado, em vez disso, uma maça? — Fredric fez uma pausa, com a mão pairando acima da espada do meio da prateleira e olhou para Eragon. — Você prefere lutar com ou sem escudo?
— Com — respondeu Eragon. — Mas não consigo levar um escudo comigo o tempo todo. E parece que nunca tenho um à mão quando sou atacado.
Fredric deu um tapinha no punho da espada e mordeu a beirada da barba.
— Hã. Quer dizer que você precisa de uma espada que possa ser usada sozinha, mas que não seja comprida demais para usar com qualquer tipo de escudo, desde um broquel até um pavês. Isso quer dizer uma espada de tamanho médio, fácil de brandir com um braço. Precisa ser uma lâmina que possa ser usada em todas as ocasiões, elegante o suficiente para uma coroação e resistente o bastante para rechaçar um Kull. — Ele fez uma careta. — Não é natural isso que Nasuada fez: essa nossa aliança com esses monstros. Não pode durar. Gente como nós e eles nunca deveriam se misturar... — Ele se sacudiu. — É uma pena que você só queira urna única espada. Ou estou enganado?
— Não. Saphira e eu viajamos demais para ficar carregando meia dúzia de espadas de um lado para outro.
— Imagino que você tenha razão. Além disso, não se espera que um guerreiro como você tenha mais do que uma arma. A maldição da espada renomada, é como eu chamo.
— Como assim?
— Todo grande guerreiro — disse Fredric — tem uma espada... geralmente é uma espada... que tem um nome. Ou ele mesmo lhe dá o nome ou, uma vez que ele tenha provado sua bravura com algum feito extraordinário, os bardos dão à arma um nome por ele. Daquele momento em diante, ele tem de usar aquela espada. É o que se espera dele. Se ele se apresentar para o combate sem ela, seus companheiros guerreiros perguntarão onde ela está e imaginarão se ele está envergonhado do sucesso e se os está insultando ao rejeitar o reconhecimento que lhe concederam. E até mesmo seus inimigos podem insistir em esperar para lutar somente depois que ele tenha buscado sua célebre espada. Você vai ver. Assim que lutar com Murtagh ou fizer qualquer outra coisa memorável com sua nova espada, os Varden insistirão em lhe dar um título. E daí em diante passarão a procurá-la na sua cintura. — Ele continuou a falar enquanto seguia para uma terceira prateleira. — Nunca pensei que teria a felicidade de ajudar um Cavaleiro a escolher sua arma. Que oportunidade! Minha sensação é que esse é o clímax do meu trabalho com os Varden.
Escolhendo uma espada da prateleira, Fredric a entregou a Eragon, que inclinou a ponta da espada para cima e para baixo, e então abanou a cabeça. O formato do punho não era o certo para sua mão. O mestre armeiro não ficou decepcionado. Pelo contrário, a rejeição de Eragon pareceu dar-lhe novo vigor, como se apreciasse o desafio que o Cavaleiro encarnava. Apresentou-lhe, então, mais uma espada, e mais uma vez Eragon abanou a cabeça. O equilíbrio era muito para a frente para seu gosto.
— O que me preocupa — disse Fredric, voltando para a prateleira — é que qualquer espada que eu lhe dê terá de aguentar impactos que destruiriam uma lâmina normal. Você precisa é de um trabalho feito por anões. Seus ferreiros são os melhores, fora os dos elfos, e às vezes chegam a superá-los. — Fredric olhou bem para Eragon. — Espere aí, estive fazendo as perguntas erradas! Como o ensinaram a bloquear e a se defender? Foi gume contra gume? Parece que me lembro de você fazer alguma coisa nesse estilo quando duelou com Arya em Farthen Dûr.
— E daí? — perguntou Eragon, franzindo o cenho.
— E daí? — Fredric deu uma gargalhada. — Não quero ser desrespeitoso, Matador de Espectros, mas se você atinge o gume de uma espada com o gume de outra, causará graves danos às duas. Talvez isso não tenha sido um problema com uma lâmina encantada como Zar’roc, mas não se pode fazer isso com nenhuma das espadas que eu tenho aqui, isso se você não quiser trocar de espada a cada batalha.
Uma imagem passou de relance pela cabeça de Eragon, das mossas nos gumes da espada de Murtagh. Ficou irritado consigo mesmo por ter se esquecido de algo tão óbvio. Tinha se acostumado a Zar’roc , cujo fio nunca se perdia, que nunca mostrava sinais de desgaste e, ao que ele soubesse, era imune à maioria dos encantamentos. Nem mesmo tinha certeza se era possível destruir a espada de um Cavaleiro.
— Não precisa se preocupar com isso. Protegerei a espada com magia. Vou precisar esperar o dia inteiro por uma arma?
— Mais uma pergunta, Matador de Espectros. Sua magia vai durar para sempre?
Eragon franziu ainda mais o cenho.
— Já que você pergunta, não. Somente uma elfa compreende como é feita a espada de um Cavaleiro, e ela não compartilhou seus segredos comigo. O que eu posso fazer é transferir uma determinada quantidade de energia para uma espada. A energia vai protegê-la até que os golpes que teriam danificado a espada esgotem a reserva de energia; e, quando isso acontecer, a espada voltará a seu estado original e é bem provável que se estilhace nas minhas mãos na vez seguinte em que eu entrar em combate.
Fredric coçou a barba.
— Vou aceitar o que diz, Matador de Espectros. A questão é que, se golpear soldados por tempo suficiente, acabará esgotando os encantamentos, e quanto mais fortes forem seus golpes, mais rápido os encantamentos desaparecerão. Certo?
— Isso mesmo.
— Nesse caso, você deveria evitar lutar fio contra fio, pois isso vai esgotar seus encantamentos mais rápido do que qualquer outro golpe.
— Não tenho tempo para isso — retrucou Eragon, irritado, transbordando de impaciência. — Não tenho tempo para aprender um modo totalmente diferente de lutar. O Império pode atacar a qualquer instante. Preciso me concentrar em praticar o que já sei, não em tentar dominar todo um conjunto novo de técnicas.
Fredric bateu palmas.
— Então já sei qual é a arma certa para você! — Indo até um grande engradado cheio de armas, ele começou a remexer ali, falando consigo mesmo, o tempo todo. — Primeiro, isso, depois, aquilo, e então vamos ver a quantas andamos. — Do fundo do engradado, Fredric puxou uma grande maça negra com um flange na cabeça. Bateu na maça com uma junta de dedo. — Com isso aqui, você poderá quebrar espadas. Poderá romper cotas de malha e amassar elmos, sem que ela sofra nenhum dano, não importa o que você atinja.
— É uma clava — protestou Eragon. — Uma clava de metal.
— E daí? Com a sua força, você poderá manejá-la como se fosse leve como um caniço. Com ela, você será um terror no campo de batalha, será, sim.
Eragon balançou a cabeça.
— Não. Esmagar as coisas não é meu jeito preferido de lutar. Além disso, eu nunca teria sido capaz de matar Durza transpassando seu coração se empunhasse uma maça em vez de uma espada.
— Então, só tenho mais uma sugestão, a menos que insista em ter uma espada tradicional. — De outra parte do pavilhão, Fredric trouxe para Eragon uma arma que chamou de cimitarra. Era uma espada, mas não um tipo de espada ao qual Eragon estivesse acostumado, embora eleja a tivesse visto entre os Varden. A cimitarra tinha um botão polido no formato de um disco, brilhante como uma moeda de prata; um punho curto feito de madeira coberta com couro negro; um guarda-mão curvo, no qual estava entalhada uma linha de runas dos anões; e uma lâmina de um só gume do comprimento de um braço estendido, com um vinco fino de cada lado, perto da espiga. A cimitarra era reta até cerca de um palmo da ponta, onde o lado sem gume se alargava para cima num pequeno bico, descendo delicadamente em curva para a ponta afiada como uma agulha. Esse alargamento da lâmina reduzia a probabilidade de que a ponta se curvasse ou mesmo se partisse quando atravessasse armaduras e fazia com que a cimitarra se assemelhasse a uma presa. Diferentemente de uma espada de dois gumes, a cimitarra era feita para ser brandida com a lâmina e o guarda-mão perpendiculares ao chão. O aspecto mais curioso da cimitarra era, porém, que o centímetro mais baixo da lâmina, o fio inclusive, era de um cinza-perolado, substancialmente mais escuro que o aço liso como espelho até em cima. O limite entre as duas áreas era ondulado como uma echarpe de seda dançando ao vento.
— Nunca vi isso antes — disse Eragon, apontando para a faixa cinza. — O que é?
— Chama-se thriknzdal — disse Fredric. — Invenção dos anões. Eles temperam o fio e a espiga separadamente. O fio eles fazem duro, mais duro do que nós ousaríamos com o todo das nossas espadas. O meio da lâmina e a espiga eles recozem, de modo que o lado sem gume seja mais macio que o gume, macio o suficiente para se curvar e ter flexibilidade para sobreviver ao esforço do combate sem se quebrar como uma lima congelada.
— É assim que os anões tratam todas as suas lâminas?
Fredric abanou a cabeça.
— Apenas com as espadas de um gume só e com as melhores espadas de dois gumes. — Ele hesitou, e seu olhar foi dominado pela incerteza. — Você entende por que escolhi essa arma para você, Matador de Espectros?
Eragon entendia. Com a lâmina da cimitarra em ângulo reto com o chão, a menos que ele deliberadamente inclinasse o pulso, quaisquer golpes que recebesse nela atingiriam a face da lâmina, reservando o fio para seus próprios ataques. Lutar com a cimitarra exigiria apenas um pequeno ajuste no seu estilo. Saindo a passos largos do pavilhão, Eragon ficou a postos com a cimitarra. Levantando-a acima da cabeça, ele a trouxe para baixo sobre a cabeça de um inimigo imaginário e então girou e investiu, derrubou para um lado uma lança invisível, saltou seis metros para a esquerda e, num movimento brilhante, porém pouco prático, virou a lâmina por trás das costas, passando-a de uma mão para a outra. Com a respiração e os batimentos cardíacos calmos como sempre, ele voltou para onde Fredric e Blödhgarm estavam esperando. A velocidade e o equilíbrio da cimitarra tinham impressionado Eragon. Não estava à altura de Zar’roc , mas ainda era uma espada esplêndida.
— Você escolheu bem — disse Eragon.
No entanto, Fredric detectou alguma reserva na sua atitude.
— E ainda assim você não está plenamente satisfeito, Matador de Espectros.
Eragon girou a cimitarra e fez uma careta.
— Só queria que ela não fosse tão parecida com uma faca de esfolar de tamanho exagerado. Eu me sinto bastante ridículo com ela.
— Ah, não dê atenção se os inimigos rirem. Não conseguirão continuar quando você lhes cortar fora a cabeça.
Achando graça, Eragon fez que sim.
— Vou ficar com ela.
— Aguarde, então, um momento — disse Fredric, desaparecendo pelo pavilhão adentro para voltar com uma bainha de couro preto, decorada com arabescos prateados. Ele entregou a bainha a Eragon com uma pergunta. — Você chegou a aprender a afiar uma espada, Matador de Espectros? Com Zar’roc , isso não seria necessário, seria?
— Não — admitiu Eragon —, mas sei lidar bem com uma pedra de amolar. Posso amolar uma faca até ela ficar tão afiada que cortaria um pedaço de linha descansado sobre seu gume. Além disso, sempre posso retificar o fio com magia, se for preciso.
Fredric gemeu e deu tapas nas coxas, soltando alguns pelos das perneiras de couro de boi.
— Não, não! Um fio fino como o de uma navalha é exatamente o que não se quer numa espada. O chanfro precisa ser grosso, grosso e forte. Um guerreiro tem de saber manter seu equipamento do modo adequado, e isso inclui saber amolar sua espada!
Fredric insistiu, então, em dar uma pedra de amolar nova para Eragon e em lhe mostrar exatamente como dar à cimitarra um gume pronto para o combate, enquanto os dois ficavam sentados na terra ao lado do pavilhão. Quando viu com satisfação que Eragon conseguia amolar um gume totalmente novo na espada, ele ainda comentou:
— Você pode lutar com a armadura enferrujada. Pode lutar com um elmo amassado. Mas, se quiser ver o sol nascer outra vez, nunca lute com uma espada cega. Se tiver sobrevivido a uma batalha e estiver cansado como um homem que escalou uma das montanhas Beor, e sua espada não estiver afiada como está agora, não importa como esteja se sentindo, você se senta na primeira oportunidade que tiver e apanha sua pedra e sua tira de amolar. Da mesma forma que cuidaria do seu cavalo ou de Saphira, antes de cuidar das suas próprias necessidades, também deve cuidar da sua espada antes de si mesmo. Porque, sem ela, você não passa de presa indefesa para os inimigos.
Estavam sentados ao sol do fim da tarde havia mais de uma hora quando o mestre armeiro, por fim, terminou suas instruções. Quando estava acabando, uma sombra fresca deslizou sobre eles, e Saphira pousou ali perto.
Você esperou, disse Eragon. Você esperou de propósito! Poderia ter vindo me salvar há séculos, mas em vez disso me deixou aqui plantado escutando Fredric dissertar sobre pedras lubrificadas com água, pedras lubrificadas com óleo e se o óleo de linhaça é melhor que a gordura derretida para proteger o metal da água.
E é?
No fundo, nãoSó que não tem cheiro tão forte. Mas isso não faz diferença. Por que você me deixou passar por essa desgraça?
Uma das grossas pálpebras de Saphira se fechou numa piscada preguiçosa. Desgraça? Você e eu teremos desgraças muito piores pela frente se não estivermos devidamente preparados. Tive a impressão de que o homem de roupa fedorenta estava dizendo algo importante.
Bem, talvez fosse, admitiu Eragon. Ela arqueou o pescoço e lambeu as garras da pata dianteira direita.
Depois de agradecer a Fredric e se despedir dele, além de combinar um local de encontro com Blödhgarm, Eragon prendeu a cimitarra ao cinto de Beloth, o Sábio, e subiu para o dorso de Saphira. Deu um grito de incentivo, e Saphira rugiu, quando ergueu as asas e se lançou para o céu.
Tonto, Eragon se agarrou ao espinho à sua frente e ficou olhando as pessoas e as tendas lá embaixo diminuindo, transformando-se em miniaturas de si mesmas. Do alto, o acampamento era uma grade de picos triangulares cinzentos, cuja face leste estava escura na sombra, dando a toda a região uma aparência de tabuleiro de damas. As fortificações que cercavam o acampamento se eriçavam como um porco-espinho, com as pontas brancas dos mastros distantes brilhando ao sol poente. A cavalaria do rei Orrin era uma massa em movimento constante no quadrante noroeste do acampamento. Mais para o leste ficava o acampamento dos Urgals, baixo e escuro na planície ondulante. Eles subiram ainda mais. O ar puro e frio picava o rosto de Eragon e ardia em seus pulmões. Ele mantinha inspirações curtas. Ao lado, flutuava uma grossa coluna de nuvens, parecendo tão sólidas quanto creme batido. Saphira descreveu espirais em torno delas, com sua sombra pontiaguda atravessando veloz a coluna. Uma lufada de umidade atingiu Eragon, cegando-o por alguns segundos e enchendo seu nariz e sua boca com gotículas geladas. Ele arquejou e enxugou o rosto. Subiram acima das nuvens. Uma águia vermelha grasnou para eles ao passar. As batidas das asas de Saphira começaram a demonstrar esforço, e Eragon sentiu um início de vertigem.
Parando a movimentação das asas, Saphira deslizou de uma massa de ar quente para a seguinte, mantendo a altitude. Eragon olhou para baixo. Estavam a tal altitude que a distância medida tinha deixado de fazer diferença, e as coisas no chão já não pareciam reais. O acampamento dos Varden era um tabuleiro de jogo irregular coberto com minúsculos retângulos pretos e cinza. O rio Jiet era uma corda de prata enfeitada com franjas verdes. Para o sul, as nuvens sulfurosas que subiam da Campina Ardente formavam uma cordilheira de luminosas montanhas laranja, abrigo de monstros espectrais que surgiam e desapareciam com um lampejo. Eragon desviou rápido o olhar.
Por cerca de meia hora, ele e Saphira foram à deriva com o vento, relaxando no conforto silencioso da companhia mútua. Um encantamento inaudível serviu para isolar Eragon do frio. Enfim, eles estavam a sós, juntos como tinham vivido no vale Palancar, antes que o Império se intrometesse em suas vidas.
Saphira foi a primeira a falar. Somos os senhores dos céus. Aqui no teto do mundo. Eragon estendeu a mão para cima, como se, de onde estava, pudesse tocar as estrelas. Com uma curva para a esquerda, Saphira apanhou uma rajada de ar mais quente que vinha de baixo e então voltou a planar. Amanhã você vai casar Roran e Katrina.
Como é estranho pensar nisso. Estranho que Roran vá se casar, e estranho que seja eu a realizar a cerimônia... Roran casado. Pensar nisso faz com que eu me sinta mais velho. Mesmo nós, que não passávamos de meninos há pouco tempo, não podemos escapar ao avanço inexorável do tempo. E assim vão passando as gerações, e logo será nossa vez de mandar os filhos para a terra, para fazer o trabalho que precisar ser feito.
Mas só se pudermos sobreviver aos próximos meses.
É verdade. Isso também.
Saphira oscilou quando uma turbulência os atingiu. Olhou então, para Eragon e perguntou: Está pronto? Vamos!
Inclinando-se para a frente, ela juntou bem as asas aos lados do corpo e mergulhou para o chão, mais veloz que uma flecha. Eragon riu quando foi dominado pela sensação de leveza. Grudou mais as pernas em torno de Saphira para não ser arrastado para longe dela e então, num momento de total inconsequência, soltou as mãos e deixou os braços subirem acima da cabeça. O disco da terra lá embaixo girava como uma roda enquanto Saphira descia pelo ar como uma perfuratriz. Desacelerando e parando de girar, ela rolou para a direita para cair de cabeça para baixo.
— Saphira! — gritou Eragon, batendo no seu ombro.
Com um filete de fumaça saindo das narinas, ela se endireitou e mais uma vez apontou para o chão que se aproximava veloz. A menos de trezentos metros do acampamento dos Varden, e somente a alguns segundos de uma colisão com as tendas e de uma provável escavação de uma enorme cratera sangrenta, Saphira deixou que as asas se abrissem para o vento.
O solavanco decorrente lançou Eragon para a frente; e o espinho que ele estava segurando quase lhe perfurou o olho. Com três batidas vigorosas das asas, Saphira conseguiu parar. Mantendo-as bem abertas, ela começou a descer delicadamente em círculos.
Isso, sim, foi divertido!, exclamou Eragon.
Não existe esporte mais empolgante que voar, porque perder é morrer.
Ah, mas eu tenho total confiança na sua competência. Você jamais permitiria que nos chocássemos com o chão.
Era visível como o prazer de Saphira com o elogio se irradiava dela. Desviando-se na direção da tenda de Eragon, ela sacudiu a cabeça, o que também o sacudiu.
A esta altura, eu já devia estar acostumada, mas cada vez que saio de um mergulho desses, sinto meu peito e minhas asas tão doloridas, que no dia seguinte mal consigo me mexer.
Ele a afagou. Bem, amanhã você não vai precisar voar. O casamento é nossa única obrigação, e você pode ir andando.
Ela grunhiu e pousou em meio a um turbilhão de poeira, derrubando uma tenda vazia com a cauda. Depois de desmontar, Eragon deixou Saphira cuidando das escamas com seis elfos a postos, ali por perto, e, com os outros seis, seguiu correndo pelo acampamento até encontrar a tenda da curandeira Gertrude. Com ela, ele aprendeu os ritos do casamento que precisaria cumprir no dia seguinte; e também ensaiou para evitar qualquer embaraço quando chegasse a hora. Eragon voltou, então, para sua tenda, lavou o rosto e mudou de roupa antes de ir com Saphira jantar com o rei Orrin e sua corte, como combinado.
Tarde da noite, quando o banquete finalmente terminou, os dois voltaram a pé para a tenda, olhando para as estrelas e conversando sobre o que havia acontecido e o que ainda estava por vir. E estavam felizes. Quando chegaram ao destino, Eragon parou e olhou para o alto, para Saphira, com o coração tão cheio de amor que ele achou que fosse parar de bater.
Boa-noite, Saphira.
Boa-noite, Pequenino.

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