24 de junho de 2017

Capítulo 20 - Farinha feita de chamas

—Q

ue tal é ter uma irmã? — perguntou Roran a Baldor, ao
cavalgarem lado a lado em direção aos moinhos mais
próximos, sob a luz acinzentada que precede o amanhecer.
— Não há muito de que gostar, não é? Quer dizer, não há muito
dela para ver. Percebes onde quero chegar? É mais pequena que
um gatinho. — Ao sentir o cavalo tentar desviar-se em direção a
uma extensão particularmente luxuriante de erva, junto ao trilho,
Baldor puxou-lhe as rédeas. — É estranho ter outro irmão, depois
de tanto tempo — seja irmão ou irmã.
Roran acenou com a cabeça, torcendo-se na sela e olhando por
cima do ombro, para se assegurar de que a coluna de seiscentos e
cinquenta homens que o seguia a pé estava a acompanhar o seu
ritmo. Nos moinhos, Roran desmontou e prendeu o cavalo a um
poste concebido para o efeito, diante do mais baixo dos três
edifícios. Um guerreiro ficou para trás para conduzir os animais ao
acampamento.
Roran encaminhou-se para o canal e desceu os degraus de
madeira, embutidos na margem lamacenta, que o levaram à beira
da água, entrando depois na última das quatro barcaças que
flutuavam alinhadas.
As barcaças assemelhavam-se mais a jangadas grosseiras do
que aos barcos de fundo plano em que os aldeões tinham navegado
ao longo da costa, de Narda a Teirm. Roran congratulou-se por
isso, visto que não tinham proas pontiagudas, o que facilitava a
tarefa de prender as barcaças, umas atrás das outras, com
pranchas, pregos e cordas, permitindo assim criar uma única
estrutura rígida, de quase cento e cinquenta metros de
comprimento.
Os pedaços de ardósia cortada que os homens tinham
carregado em carroças, da mina, por ordem de Roran, estavam
empilhados na parte da frente da primeira barcaça e de ambos os
lados da primeira e da segunda barcaça. Por cima da ardósia, os
homens tinham empilhado sacos de farinha, que encontraram nos
moinhos, erguendo uma parede à altura da cintura. Na segunda
barcaça, a parede prolongava-se para lá da ardósia e era
inteiramente composta por sacos: dois sacos de largura e cinco de
altura.
O enorme peso da ardósia e da farinha densamente empilhada,
combinado com o peso das próprias barcaças, serviu para
transformar toda a estrutura num enorme aríete flutuante, com que
Roran esperava poder arrombar o portão, no extremo oposto do
canal, como se este fosse feito de paus podres. Mesmo que o
portão estivesse encantado — embora Carn achasse que não —,
Roran achava que nenhum feiticeiro, à exceção de Galbatorix, seria
suficientemente poderoso para contrariar o impulso das barcaças,
logo que estas começassem a descer o canal.
Além disso, os amontoados de ardósia e de farinha dar-lhes-iam
alguma proteção das lanças, flechas e outros projéteis.
Roran percorreu cuidadosamente os convés instáveis até à
barcaça da frente. Apoiou a lança e o escudo numa pilha de
ardósia, virando-se depois para observar, enquanto os guerreiros
entravam para o corredor entre as paredes.
Cada homem que embarcava nas barcaças, cheias de carga,
afundava-as mais dentro de água, até estas ficarem apenas a
escassos centímetros da superfície.
Carn, Baldor, Hamund, Delwin e Mandel juntaram-se a Roran.
Todos eles tinham escolhido tacitamente as posições mais perigosas
no aríete flutuante. Invadir Aroughs exigiria aos Varden uma
enorme dose de sorte e de perícia, e nenhum estava na disposição
de confiar a tarefa a mais ninguém.
Perto da última barcaça, Roran teve um vislumbre de Brigman
entre os homens que em tempos comandara. Depois da virtual
insubordinação de Brigman no dia anterior, Roran despojara-o de
toda a autoridade que lhe restava e confinara-o à sua tenda.
Contudo, Brigman implorara-lhe que o deixasse participar no
ataque final a Aroughs e Roran acedera relutantemente; Brigman
era hábil com a espada e todas seriam necessárias no combate que
se avizinhava.
Roran ainda se interrogava se teria tomado a decisão certa.
Estava bastante confiante que os homens lhe eram leais a ele e não
a Brigman. Mas Brigman fora o seu capitão durante meses e esses
laços não eram fáceis de ignorar. Mesmo que Brigman não tentasse
arranjar problemas nas hostes, revelara-se disposto e bem capaz
de ignorar ordens, pelo menos, quando estas viessem de Roran.
“Se ele me der alguma razão para desconfiar, mato-o na hora”,
pensou Roran, mas tal decisão era inútil. Se Brigman se virasse de
fato contra ele, muito provavelmente seria no meio de uma
confusão tal, que Roran não iria sequer aperceber-se, a não ser
quando já fosse tarde demais.
Quando faltavam apenas seis homens para embarcar nas
barcaças, Roran colocou as mãos à volta da boca e gritou:
— Soltem-nas!
Estavam dois homens sobre a represa, mesmo ao cimo do
declive — a represa que abrandava e continha o fluxo de água do
canal que vinha dos pântanos e seguia para Norte. Seis metros mais
abaixo, havia a primeira roda de água e o lago por baixo dela. Em
frente desse lago, havia a segunda represa, onde estavam mais dois
homens. Seis metros mais abaixo, ficava a segunda roda de água e
o segundo lago profundo, de águas paradas, e ao fundo do lago
estava a última represa e os últimos dois homens. Na base da última
represa, ficava a terceira e última roda de água, de onde a corrente
fluía suavemente pelos campos, até Aroughs.
Embutidas nas represas, estavam as três comportas que Roran
insistira em fechar, com a ajuda de Baldor, durante a primeira visita
aos moinhos. Ao longo dos últimos dois dias, equipas de homens
munidas de pás e picaretas tinham mergulhado nas águas cada vez
mais altas, desbastado a parede das represas pelo lado de trás, até
as camadas de terra batida ficarem praticamente a ponto de ceder,
enterrando depois vigas compridas e robustas na terra, de ambos
os lados das comportas.
Os homens que estavam na represa superior e intermédia
encontravam-se agora agarrados a essas vigas — que se projetavam
alguns metros, para fora das represas — e começavam a movê-las
para trás e para diante, a um ritmo constante. De acordo com o seu
plano, os dois homens posicionados na represa mais baixa teriam
de esperar alguns momentos para se reunirem também ao esforço.
Roran agarrou num saco de farinha enquanto observava. Se o
seu timing falhasse, nem que fosse por alguns segundos, seria um
desastre.
Nada aconteceu durante quase um minuto.
Depois, a comporta que estava mais acima cedeu com um
estrondo sinistro. A represa começou a ficar saliente do lado de
fora, com a terra a rachar-se e a desfazer-se, e uma enorme língua
de água lamacenta precipitou-se sobre a roda de água, em baixo,
fazendo-a girar mais depressa do que deveria.
Quando a represa ruiu, os homens que estavam ao cimo desta
saltaram para a margem, aterrando em terra firme, apenas por
escassos centímetros.
Salpicos de água elevaram-se a mais de nove metros de altura,
quando a língua de água mergulhou no lago escuro e calmo, por
baixo da roda de água. O impacto projetou uma onda espumosa
com vários metros de altura, em direção à represa seguinte.
Ao vê-la aproximar-se, os dois guerreiros do meio abandonaram
os seus postos, procurando também segurança em terra firme.
E ainda bem que o fizeram pois, quando a onda embateu, jatos
de água finos como agulhas irromperam em torno da estrutura da
comporta seguinte, que acabou por ser projetada no ar como se
um dragão lhe tivesse dado um pontapé, e a água revolta, dentro
do lago, varreu o que restava da comporta.
A torrente furiosa embateu contra a segunda roda de água ainda
com mais força do que na primeira. A madeira gemeu e rangeu sob
o violento impacto e Roran pensou, pela primeira vez, que era
possível que uma ou mais rodas se soltassem. Se tal acontecesse,
representaria um grande perigo para os seus homens e para as
barcaças, podendo pôr fim ao ataque a Aroughs antes mesmo
deste se iniciar.
— Soltem-nos! — gritou.
Um dos homens começou a cortar a corda que os prendia à
margem, enquanto outros se curvavam para pegar em varas de três
metros de comprimento, que enterravam no leito do canal,
empurrando com todas as suas forças.
As barcaças, cheias de carga, deslizaram lentamente para diante,
ganhando velocidade muito mais devagar do que Roran desejaria.
Ao mesmo tempo que a avalanche de água avançava na direção
deles, os homens que estavam na represa mais baixa continuavam a
puxar as vigas enterradas na muralha enfraquecida. Menos de um
segundo antes da avalanche de água os atingir, a represa
estremeceu, abateu e os homens fugiram.
A água abriu um buraco na barragem de terra tão facilmente
como se esta fosse feita de pão molhado, embatendo contra a
última roda de água. A madeira estilhaçou-se com um ruído tão alto
e agudo como gelo a partir-se e a roda inclinou-se alguns graus
para fora, mas para alívio de Roran aguentou-se. A coluna de água
precipitou-se depois contra a base da colina em socalcos, com um
rugido atroador e uma explosão de névoa.
Uma rajada de vento frio fustigou o rosto de Roran, no canal, a
mais de duzentos metros de distância.
— Mais depressa! — gritou aos homens que impeliam a barcaça
com as varas, ao ver uma turbulenta massa de água emergir das
pregas de névoa, precipitando-se ao longo do canal.
A enchente ultrapassou-os com uma rapidez incrível. Ao colidir
com a parte traseira das quatro barcaças, presas entre si, toda a
embarcação deu um solavanco para a frente, projetando Roran e
os guerreiros em direção à popa e derrubando uma série deles.
Alguns sacos de farinha caíram no canal ou rebolaram para dentro,
contra os homens.
Quando a onda de água ergueu a última barcaça vários metros
acima das outras, a embarcação de quase cento e cinquenta metros
de comprimentos começou a girar para o lado. Roran sabia que se
essa tendência se mantivesse, em breve ficariam presos entre as
margens do canal e a força da corrente separaria as barcaças
momentos depois.
— Mantenham-nos direitos! — gritou, saindo de cima dos sacos
de farinha sobre os quais caíra. — Não nos deixem girar!
Ao ouvir a sua voz, os guerreiros foram a correr empurrar a
pesada embarcação das margens inclinadas, em direção ao centro
do canal. Saltando para cima das pilhas de ardósia da proa, Roran
gritava instruções e juntos conseguiram conduzir as barcaças ao
longo do canal curvo.
— Conseguimos! — exclamou Baldor, com um sorriso idiota
estampado no rosto.
— Não te gabes por enquanto — advertiu Roran. — Temos ainda
de percorrer uma grande distância.
O céu a Leste tinha a cor de palha, quando passaram pelo
acampamento, a um quilômetro e meio de Aroughs. À velocidade a
que se moviam, alcançariam a cidade antes do sol espreitar por
cima do horizonte e as sombras acinzentadas, que cobriam os
campos, ajudariam a encobri-los das sentinelas estacionadas nas
muralhas e nas torres.
Embora a onda dianteira os tivesse já ultrapassado, as barcaças
continuavam a ganhar velocidade, pois a cidade ficava abaixo do
nível dos moinhos e não havia uma única colina ou elevação ao
longo do caminho para travar o seu avanço.
— Oiçam! — disse Roran, colocando as mãos à volta da boca e
levantando a voz, para que todos os homens o pudessem ouvir. —
Poderemos cair à água quando batermos no portão exterior, por
isso preparem-se para nadar. Seremos alvos fáceis até alcançarmos
terra firme. Logo que cheguemos a terra, o nosso objetivo será
apenas alcançar a muralha interior antes que eles se lembrem de
fechar os portões, pois se o fizerem jamais tomaremos Aroughs. Se
conseguirmos passar a segunda muralha, não deverá ser difícil
encontrar Lorde Halstead e forçá-lo a render-se. Se não o
conseguirmos, tomaremos as fortificações, no centro da cidade e
deslocar-nos-emos de dentro para fora, rua após rua, até Aroughs
ficar inteiramente sob o nosso controlo.
«Lembrem-se de que estaremos em desvantagem numérica à
razão de dois homens ou mais homens para cada um. Por isso,
fiquem perto dos companheiros que vos protegem e mantenham-se
sempre vigilantes. Não vagueiem sozinhos e não se separem do
resto do grupo. Os soldados conhecem melhor as ruas do que nós
e poderão emboscar-vos quando menos esperarem. Se acabarem
por ficar sozinhos, dirijam-se para o centro da cidade, pois é lá que
estaremos.
«Hoje desferiremos um poderoso golpe em nome dos Varden.
Hoje ganharemos a honra e a glória com que a maioria dos homens
sonham. Hoje... hoje deixaremos a nossa marca na História. O que
conseguirmos fazer nas próximas horas será cantado pelos bardos
durante os próximos cem anos. Pensem nos nossos amigos,
pensem nas vossas famílias, nos vossos pais, nas vossas esposas,
nos vossos filhos. Lutem bem, porque é por eles que lutamos.
Lutamos pela liberdade!»
Os homens rugiram em resposta.
Roran deixou-os entrar em frenesim e depois ergueu a mão e
disse:
— Escudos! — E os homens agacharam-se com se fossem um só
e ergueram os escudos, cobrindo-se a si e aos companheiros, de tal
forma que o centro do aríete improvisado parecia revestido de uma
armadura de escamas, capaz de cobrir o braço de um gigante.
Satisfeito, Roran saltou da pilha de ardósia e olhou para Carn,
Baldor e os outros quatro homens que tinham viajado com ele de
Belatona. O mais jovem, Mandel, parecia apreensivo, mas Roran
sabia que ele tinha estofo para se aguentar.
— Preparados? — perguntou e todos eles responderam
afirmativamente.
Depois deu uma gargalhada e quando Baldor insistiu para que
ele se explicasse, disse:
— Se o meu pai me visse agora!
E Baldor riu com ele.
Roran estava de olho na vaga dianteira. Logo que esta entrasse
na cidade, os soldados poderiam perceber que algo de errado se
passava e dar o alarme. Ele queria que eles dessem o alarme mas
não por essa razão, por isso, quando lhe pareceu que a onda
estava a uns cinco minutos de Aroughs, fez sinal a Carn e disse:
— Manda o sinal!
O feiticeiro anuiu e curvou-se, movendo os lábios enquanto dava
voz a estranhas construções na língua antiga. Momentos depois
endireitou-se e disse:
— Está feito.
Roran olhou para Oeste. Era aí que estavam as catapultas, as
balistas e as torres de cerco dos Varden, num campo diante de
Aroughs. As torres de cerco permaneceram imóveis, mas as outras
máquinas de guerra entraram em ação, disparando quadrelos e
pedras, que descreviam grandes arcos em direção às muralhas
imaculadamente brancas da cidade. Sabia também que quinze dos
seus homens estavam, naquele preciso momento, do outro lado da
cidade a tocar as suas trombetas, a entoar gritos de guerra e a
disparar flechas flamejantes, fazendo tudo o que podiam para
chamar a atenção dos soldados defensores, para lhes fazer querer
que o exército que estava a tentar invadir a cidade era muito maior.
Roran sentiu-se inundado de uma profunda calma.
A batalha estava prestes a começar.
Em breve, iriam morrer homens.
E ele podia ser um deles.
Tal evidência deu-lhe clareza de pensamentos e todos os
vestígios de exaustão desapareceram, bem como os tremores
ligeiros que o incomodavam desde que tinham atentado contra a
sua vida, apenas algumas horas antes. Nada era tão revigorante
para ele como lutar — fosse a comida, o riso, o trabalho manual, ou
mesmo o amor — e, embora o detestasse, não podia negar o poder
de atração da luta. Nunca quisera ser guerreiro, mas num guerreiro
se convertera, e estava determinado a vencer todos os que
aparecessem diante de si.
Roran pôs-se de cócoras e espreitou por entre dois pedaços
aguçados de ardósia, olhando para o portão que lhes barrava o
caminho e do qual se aproximavam rapidamente. Acima da
superfície da água e um pouco abaixo desta, pois as águas tinham
subido, o portão era feito de sólidas pranchas de carvalho
manchadas de escuro pelo tempo e pela humidade. Mas, abaixo da
superfície, Roran sabia que havia uma grade de ferro e de madeira
semelhante a um portão suspenso, através do qual a água passava
livremente. A parte superior seria a mais difícil de arrombar, mas os
longos períodos de imersão deviam ter enfraquecido a grade, por
baixo, e se conseguissem arrancar parte dela, seria bastante mais
fácil arrombar as pranchas de carvalho, por cima. Por isso mandara
amarrar dois volumosos troncos por baixo da primeira barcaça e,
como estes estavam submersos, iriam atingir a metade inferior do
portão no instante em que a proa embatesse contra a parte
superior.
Era um plano inteligente, mas ele não fazia ideia se resultaria
mesmo.
— Mantenham-na firme — sussurrou ele, mais para si do que para
os outros, à medida que se aproximavam do portão.
Alguns dos guerreiros que estavam na parte de trás da
embarcação continuavam a manobrar as barcaças com as varas,
mas os restantes permaneceram escondidos por baixo da carapaça
de escudos sobrepostos.
A entrada em arco que conduzia ao portão agigantava-se diante
deles como a entrada de uma caverna e, quando a ponta da
embarcação deslizou para debaixo da sombria arcada, Roran viu o
rosto de um soldado, redondo e branco como uma lua cheia, surgir
junto da muralha, a mais de nove metros de altura, olhando para as
barcaças com uma expressão atónita e horrorizada.
As barcaças deslocavam-se tão velozmente, nessa altura, que
Roran só teve tempo de praguejar uma vez, antes de a corrente os
arrastar para a escuridão fresca da entrada, perdendo de vista o
soldado sob o teto abobadado.
As barcaças embateram no portão.
A força do impacto atirou Roran para a frente, contra a parede
de ardósia atrás da qual se mantivera agachado. A sua cabeça fez
ricochete na pedra e, embora usasse um elmo e uma touca de
proteção, sentiu os ouvidos a zunir. O convés estremeceu e recuou,
e apesar do barulho nos ouvidos, Roran ouviu a madeira a estalar e
a partir-se e sentiu o rangido de metal retorcido.
Um dos pedaços de ardósia escorregou para trás e caiu em cima
dele, contundindo-lhe os braços e os ombros. Agarrou na ardósia
pelas extremidades e atirou-a borda fora, num acesso explosivo de
força, estilhaçando-a contra a parte lateral da passagem.
Era difícil de ver o que se estava a passar na escuridão que os
rodeava, pois a confusão de movimentos e de ruídos reverberantes
era total. Sentiu a água a cobrir-lhe os pés e percebeu que a
barcaça estava alagada, embora não soubesse se iria afundar.
— Deem-me um machado! — gritou, levando a mão atrás. — Um
machado, deem-me um machado! — A barcaça guinou quinze
centímetros para a frente. Ele cambaleou e quase caiu. O portão
estava um pouco vergado para dentro, mas continuava firme. A seu
tempo, a pressão contínua da água iria certamente acabar por
empurrar a barcaça através do portão, mas ele não podia esperar
que a natureza seguisse o seu curso.
Quando finalmente alguém lhe encostou o cabo macio de um
machado à mão esticada, seis retângulos brilhantes surgiram no
teto. Alguém abrira as tampas dos balestreiros. Os retângulos
tremeluziram e os quadrelos das bestas silvaram sobre as barcaças,
agravando o tumulto com baques surdos sempre que atingiam a
madeira.
Um homem gritou algures.
— Carn! — gritou Roran. — Faz alguma coisa!
Deixando o feiticeiro entregue a si mesmo, Roran rastejou pelo
convés flutuante, subindo as pilhas de ardósia em direção à proa da
barcaça, e esta voltou a guinar mais uns centímetros para a frente.
Ouviu-se outro rangido ensurdecedor a meio do portão e a luz
brilhou através das rachas, nas pranchas de carvalho.
Um quadrelo saltou num pedaço de ardósia, junto da mão direita
de Roran, deixando uma mancha de ferro na pedra.
Roran redobrou o ritmo.
No momento em que alcançou a parte da frente da barcaça, um
rangido penetrante de algo a despedaçar-se forçou-o a tapar os
ouvidos com as mãos e a recuar.
Uma grande onda passou por cima dele, cegando-o por
instantes. Roran pestanejou para desobstruir a visão e viu que parte
do portão caíra para o canal e que havia agora espaço suficiente
para a barcaça entrar na cidade. Contudo, por cima da proa da
embarcação, os restos do portão projetavam-se em lascas
compridas e pontiagudas, à altura do peito do pescoço ou da
cabeça de um homem.
Sem hesitar, Roran rebolou para trás e deixou-se cair atrás do
parapeito de ardósia.
— Baixem a cabeça! — rugiu ele, cobrindo-se com o escudo.
As barcaças avançaram, afastando-se das rajadas letais de
quadrelos de besta, e entraram numa enorme sala de pedra
iluminada por tochas fixas às paredes.
Do outro lado da sala, a água do canal fluía através de outro
portão fechado, igual a um portão suspenso, de cima a baixo.
Através da treliça de madeira e metal, Roran conseguia ver os
edifícios dentro da cidade propriamente dita.
De ambos os lados da sala, estendiam-se cais de pedra para
carregar e descarregar mercadorias, com polias, cordas e redes
vazias penduradas no teto, e um guindaste montado sobre uma
plataforma alta de pedra, a meio de cada margem artificial. Na
parte da frente e na parte de trás da sala, escadas e passadiços
saídos das paredes cobertas de bolor permitiam às pessoas passar
sobre a água sem se molharem. O passadiço de trás dava também
acesso à casa dos guardas, por cima do túnel por onde as barcaças
tinham entrado e, possivelmente, às defesas superiores da cidade,
como o baluarte onde Roran vira o soldado.
A frustração cresceu em Roran ao ver o portão fechado, pois
esperara poder navegar diretamente até à zona principal da cidade
e evitar ser apanhado pelos soldados na água.
“Bom, agora é inevitável”, pensou.
Atrás deles, soldados vestidos de vermelho, saíam aos magotes
da casa dos guardas, encaminhando-se para o passadiço onde se
ajoelharam e começaram a dar à manivela das bestas, preparandoas
para mais uma rajada de quadrelos.
— Lá para cima! — gritou Roran, acenando com o braço em
direção às docas, à sua esquerda. Os guerreiros agarraram mais
uma vez nas varas, empurrando as barcaças interligadas em direção
à margem do canal. A companhia parecia um porco-espinho com
as dúzias e dúzias de quadrelos que os guerreiros tinham espetados
nos escudos.
Quando a barcaça se aproximou das docas, vinte dos soldados
defensores desembainharam as espadas e abandonaram o
passadiço, correndo pelas escadas abaixo para intercetar os
Varden antes que desembarcassem.
— Depressa! — gritou Roran.
Um quadrelo cravou-se no escudo e a ponta em forma de
diamante perfurou a madeira de quatro centímetros de espessura,
saindo por cima do seu antebraço. Roran cambaleou mas
conseguiu equilibrar-se, sabendo que tinha apenas alguns instantes
até que outros arqueiros disparassem sobre si.
Depois saltou para a doca, abrindo os braços para se equilibrar.
Aterrou pesadamente e bateu com o joelho no chão. Só teve
tempo de sacar do martelo, antes de os soldados o alcançarem.
Roran enfrentou-os com um alívio e uma alegria selvática, pois
estava farto de congeminar, planear e preocupar-se com o que
poderia acontecer. Ali estavam finalmente inimigos assumidos — e
não assassinos traiçoeiros — que ele podia combater e matar.
O encontro foi breve, feroz e sangrento. Roran matou ou
incapacitou três dos soldados nos primeiros segundos e Baldor,
Delwin, Hamund e Mandel reuniram-se depois a ele, forçando os
soldados a afastarem-se da água.
Roran não era espadachim por isso não fez qualquer esforço
para lutar com os seus oponentes. Em vez disso, permitiu que eles
atingissem o seu escudo as vezes que quisessem, usando o martelo
para lhes partir os ossos a seguir. De vez em quando tinha de
aparar um golpe ou uma estocada, mas evitava trocar mais do que
alguns golpes com qualquer pessoa, pois sabia que em breve a sua
falta de experiência se revelaria fatal. O melhor estratagema de luta
que descobrira, não consistia em elegantes floreados de espada
nem fintas complicadas que levavam anos a dominar, mas sim em
tomar a iniciativa e fazer o que o seu inimigo menos esperasse.
Libertando-se da quezília, Roran correu em direção às escadas
que conduziam ao passadiço onde os arqueiros estavam ajoelhados
a disparar sobre os homens que saíam rapidamente das barcaças.
Roran subiu os degraus três a três, brandiu o martelo e atingiu o
primeiro arqueiro em cheio na cara. O soldado seguinte já tinha
disparado a sua besta, por isso largou-a e alcançou o punho da
espada curta, recuando ao fazê-lo.
O soldado só conseguiu desembainhar parcialmente a espada,
antes de Roran o atingir no peito e lhe partir as costelas.
Uma das coisas que Roran apreciava na luta com o martelo era
o fato de não ter de dar grande atenção ao tipo de armadura que
os adversários usavam. Um martelo, como qualquer arma romba,
infligia ferimentos pela força do impacto e não retalhando ou
perfurando a carne. A simplicidade da abordagem agradava-lhe.
O terceiro soldado que estava no passadiço conseguiu dispararlhe
um quadrelo, antes de ele dar outro passo. Desta vez a haste do
quadrelo atravessou parcialmente o escudo e quase lhe furou o
peito. Afastando a ponta letal o mais possível do corpo, Roran
atacou o homem, tentando atingi-lo no ombro. O soldado usou a
besta para aparar o ataque, por isso Roran aplicou-lhe de seguida
um golpe enviesado com o escudo, e o soldado caiu do corrimão
do passadiço, a gritar e a espernear.
Contudo, essa manobra deixou-o totalmente exposto e, quando
olhou para os cinco soldados que restavam no passadiço, viu três
deles a apontar diretamente para o seu coração.
Os soldados dispararam.
Precisamente antes de o trespassarem, os quadrelos desviaramse
para a direita roçando pelas paredes enegrecidas como vespas
gigantes.
Roran sabia que fora Carn que o salvara e decidiu que arranjaria
forma de agradecer ao feiticeiro, quando já não corressem perigo
de vida.
Roran atacou os soldados que restavam e despachou-os com
uma rajada de golpes violentos, como se martelasse uma série de
pregos tortos. Depois partiu o quadrelo saído do escudo e virou-se
para ver como estava a evoluir a batalha lá em baixo.
O último soldado das docas acabava de cair no chão manchado
de sangue, com a cabeça a rebolar para longe do corpo, tombando
no canal, onde se afundou por baixo de uma coluna de bolhas.
Cerca de dois terços dos Varden tinham desembarcado e
estavam a reunir-se em fileiras ordenadas à beira da água.
Roran abriu a boca com a intenção de lhes ordenar que se
afastassem do canal — para que os homens que ainda estavam nas
barcaças tivessem mais espaço para sair —, quando as portas na
parede da esquerda se abriram, subitamente, e uma horda de
soldados entrou no pátio.
Raios! De onde vieram eles? Quanto soldados haverá aqui?
No momento em que Roran se encaminhou para as escadas
para ajudar os seus homens a defrontarem os recém-chegados,
Carn — que estava ainda na parte da frente das barcaças em linha —
ergueu os braços, apontou para os soldados atacantes, e gritou
uma série de palavras ásperas e distorcidas na língua antiga.
Ao proferir a sua ira terrível, dois sacos de farinha e um pedaço
de ardósia voaram das barcaças contra as hostes compactas de
soldados, matando mais de uma dúzia. Ao terceiro ou quarto
impacto, os sacos rebentaram-se e abriram-se, projetando nuvens
ondulantes de farinha cor de marfim sobre os soldados, cegando-os
e sufocando-os.
Segundos depois, viu-se um clarão de luz junto da parede, atrás
dos soldados, e uma enorme bola de fogo rodopiante, alaranjada,
carregada de fuligem, percorreu as nuvens de farinha, devorando
vorazmente o fino pó e produzindo um ruído semelhante a vinte
bandeiras a adejar sob um vento forte.
Roran escondeu-se atrás do escudo e sentiu um calor abrasador
nas pernas e nas faces enquanto a bola de fogo se consumia a si
mesma, apenas a alguns metros do passadiço. Partículas de pó
incandescentes desfaziam-se em cinzas, flutuando para o chão: uma
chuva negra e lúgubre apenas adequada a um funeral.
Logo que a obscura luz se desvaneceu, Roran ergueu
cautelosamente a cabeça. Um fio de fumaça quente e malcheiroso
irritou-lhe as narinas, fazendo-lhe arder os olhos e ele concluiu,
sobressaltado, que tinha a barba a arder. Praguejou e largou o
martelo, batendo nas pequenas chamas vorazes até as extinguir.
— Eh! — gritou ele a Carn. — Chamuscaste-me a barba! Vê se
tens mais cuidado, senão mando-te espetar a cabeça num pau!
A maioria dos soldados estavam enroscados no chão, com o
rosto queimado aninhado nas mãos. Outros esbracejavam com as
roupas a arder, ou brandiam cegamente as armas, em círculos,
tentando defender-se de eventuais ataques dos Varden. Mas os
homens de Roran pareciam ter escapado apenas com queimaduras
ligeiras — a maioria estava fora do raio de ação da bola de fogo,
embora a inesperada conflagração os tivesse deixado
desorientados e vacilantes.
— Parem de olhar pasmados e vão atrás daqueles patifes que por
ali andam, às apalpadelas, antes que eles recuperem! — ordenou
Roran, batendo com o martelo no corrimão para ter a certeza de
que lhe prestavam atenção.
Os Varden ultrapassavam largamente os soldados em número e,
quando Roran chegou ao fundo das escadas, já tinham matado três
quartos das tropas defensoras.
Delegando nos seus guerreiros mais do que capazes a eliminação
dos poucos soldados que restavam, Roran encaminhou-se para as
grandes portas duplas, à esquerda do canal — suficientemente largas
para acomodar duas carroças lado a lado — cruzando-se, de
caminho, com Carn que estava sentado na base da plataforma do
guindaste, a comer de uma bolsa de couro que trazia sempre
consigo. Roran sabia que a bolsa continha uma mistura de banha de
porco, mel, fígado de vaca em pó, coração de cordeiro e bagas. A
única vez que Carn lhe dera um pouco a provar quase vomitara,
mas mesmo em pequenas quantidades, a mistura conseguia manter
um homem em pé, a trabalhar no duro o dia inteiro.
Para seu constrangimento, o feiticeiro parecia-lhe exausto.
— Consegues continuar? — perguntou Roran, parando junto dele.
Carn acenou com a cabeça:
— Preciso apenas de um momento... Os quadrelos no túnel e
depois os sacos de farinha e o pedaço de ardósia... — Levou mais
um pedaço de comida à boca. — Foi um nadinha demais de uma só
vez. Mais tranquilo, Roran começou a afastar-se, mas Carn agarrouo
pelo braço.
— Não fui eu — disse ele, franzindo os olhos com uma expressão
divertida. — Não fui eu que te chamusquei a barba, quero eu dizer.
Devem ter sido as tochas que lhe pegaram fogo.
Roran roncou e continuou a andar em direção às portas.
— Formar! — gritou, batendo no escudo com a parte lateral do
martelo. — Baldor e Delwin, vocês vêm à frente comigo. Os outros
alinhem-se atrás de nós. Escudos para fora, armas em punho e
flechas armadas. É provável que Halstead ainda não saiba que
estamos na cidade, portanto não deixem escapar ninguém que o
possa avisar.... Estão prontos? Muito bem, sigam-me!
Juntos, Roran e Baldor — que tinha as faces e o nariz vermelhos
da explosão — destrancaram as portas e abriram-nas, revelando o

interior de Aroughs.

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Boa leitura :)