23 de junho de 2017

Capítulo 2 - A queda do Martelo

— Não! — gritou Eragon, ao ver a muralha da fortaleza desmoronar-se ruidosamente, soterrando Roran e cinco outros homens sob um amontoado de pedra com seis metros de altura e inundando o pátio com uma nuvem escura de pó.
Eragon gritou tão alto que sua voz se partiu, e ele sentiu uma camada pegajosa de sangue, com sabor de cobre, no fundo da garganta. Ele respirou fundo e se contorceu, dobrando-se ao meio ao tossir.
— Vaetna — arquejou ele, acenando com a mão. A espessa cortina de pó cinzento dividiu-se com um ruído semelhante ao farfalhar de seda, descobrindo a parte central do pátio. Eragon estava de tal forma preocupado com Roran, que mal reparou na energia que o feitiço lhe tomara.
— Não, não, não, não — murmurou Eragon. Ele não pode estar morto. Não pode, não pode, não pode... Eragon continuou a repetir mentalmente a frase como se a repetição pudesse transformá-la em realidade. Mas, quanto mais a repetia, mais esta lhe parecia uma oração para o mundo em geral e não constatação de um fato ou de uma esperança.
Arya e os outros guerreiros dos Varden diante dele tossiam e limpavam os olhos com as palmas das mãos. Muitos estavam curvados para a frente como se esperassem ser atingidos, outros estavam pasmados a olhar para a fortaleza danificada. Os escombros do edifício espalharam-se pelo meio do pátio, encobrindo o mosaico. Dois aposentos e meio do segundo andar do forte e um no terceiro – a sala onde o feiticeiro morrera tão violentamente – estavam expostos aos elementos. As salas e a mobília pareciam sujas e bastante decrépitas à luz do sol. No interior, meia dúzia de soldados armados de bestas recuaram atrapalhadamente do abismo à beira do qual se encontravam agora, precipitando-se pelas portas, ao fundo dos cômodos, aos empurrões e encontrões, e desaparecendo nas profundezas da fortaleza.
Eragon tentou calcular o peso de um bloco de pedra na pilha de escombros; devia pesar centenas de quilos. Se ele, Saphira e os elfos trabalhassem em conjunto, estava certo que conseguiriam remover as pedras com magia, mas o esforço os deixariam fracos e vulneráveis. Além disso, demoraria tempo demais. Eragon pensou por instantes em Glaedr – o dragão dourado seria suficientemente forte para erguer toda aquela pilha de uma só vez – mas o tempo era crucial e demoraria demais a recolher o Eldunarí de Glaedr. De qualquer forma, Eragon sabia que poderia nem sequer conseguir convencer Glaedr a falar com ele, muito menos a ajudar a salvar Roran e os outros homens.
Depois ele visualizou Roran, tal como este parecera antes do dilúvio de pedras e de pó escondê-lo de sua visão, debaixo dos beirais da porta de entrada da fortaleza, e deu um salto, percebendo o que fazer.
— Saphira, ajuda-os! — gritou Eragon, largando o escudo e correndo para diante.
Ouviu Arya dizer algo na língua antiga atrás de si – uma frase curta, algo como Esconda isto! – acompanhando-o, espada em punho, pronta para lutar.
Ao alcançar a base da pilha de escombros, Eragon saltou o mais alto que pôde, parando num só pé sobre a face inclinada de um bloco. Depois voltou a saltar, atirando-se sucessivamente de um ponto para o outro, como um cabrito-montês a escalar a encosta de um desfiladeiro. Detestava a ideia de deslocar os blocos, mas subir a pilha era a forma mais rápida de alcançar o seu destino.
Saltando uma última vez, Eragon alcançou a beira do segundo andar e correu pela sala. Empurrou a porta à sua frente com tanta força que lhe partiu o trinco e as dobradiças, projetando-a pelo ar contra a parede do corredor por trás desta e rachando as pesadas pranchas de carvalho.
Ele correu pelo corredor, mas os seus passos e a sua respiração pareciam-lhe estranhamente abafados, como se tivesse os ouvidos cheios de água.
Ao se aproximar de uma porta aberta, diminuiu a velocidade. Através da abertura viu um escritório com cinco homens armados apontando para um mapa e discutindo. Nenhum deles reparou em Eragon.
Ele continuou a correr.
Dobrou velozmente uma esquina e se chocou com um soldado que vinha na direção contrária. Ao bater a testa na borda do escudo do homem, Eragon viu manchas vermelhas e amarelas. Agarrou-se ao soldado e ambos cambalearam para trás ao longo do corredor, como um par de bailarinos bêbados.
Enquanto tentava recuperar o equilíbrio, o soldado praguejou:
— O que há de errado com você? Maldito sejas três vezes — disse. Depois olhou para o rosto de Eragon e arregalou os olhos. — Você?
Eragon cerrou o punho direito e esmurrou o homem na barriga, logo abaixo da caixa torácica. O golpe ergueu o homem do chão e projetou-o contra o teto.
— Eu mesmo — anuiu Eragon, quando o homem tombou no chão, inerte.
Eragon continuou a percorrer o corredor. A sua pulsação, já por si só acelerada, parecia duas vezes mais rápida desde que entrara na fortaleza; era como se o coração fosse explodir do peito.
Onde estará?, pensou nervosamente, olhando através de outra entrada. Mas viu apenas uma sala vazia.
Finalmente, ao fundo de uma sombria passagem lateral, avistou uma escada em caracol e desceu os degraus de cinco a cinco, sem se preocupar com a sua segurança enquanto descia até ao primeiro andar, parando apenas para desviar de um arqueiro sobressaltado do seu caminho.
A escada terminou e ele alcançou uma sala de teto alto, abobadado, que lembrava a catedral de Dras-Leona. Girando sobre si mesmo, recolheu algumas impressões rápidas: escudos, armas e estandartes vermelhos pendurados nas paredes; janelas estreitas logo abaixo do teto; tochas instaladas em suportes de ferro forjado; lareiras vazias; longas mesas escuras, mesas de cavaletes, empilhadas de ambos os lados da sala, e um estrado na frente da sala, onde postava-se um homem de túnica e barba diante de uma cadeira de espaldar alto. Eragon chegara ao salão principal do castelo. À sua direita, entre si e as portas que conduziam à entrada da fortaleza, havia um contingente de, pelo menos, cinquenta soldados. O fio dourado de suas túnicas cintilou ao remexerem-se surpreendidos.
— Matem-no! — ordenou o homem de barba, parecendo mais assustado do que propriamente autoritário. — Quem matá-lo receberá um terço do meu tesouro! Prometo!
Uma terrível frustração cresceu em Eragon, vendo-se mais uma vez atrasado. Desembainhando a espada, ergueu-a sobre a cabeça e gritou:
— Brisingr!
Um casulo fantasmagórico de chamas azuis ganhou vida em torno do gume, percorrendo-o até à ponta. O calor do fogo aqueceu a mão de Eragon e um dos lados do seu rosto.
Depois baixou os olhos para os soldados.
— Movam-se — rugiu ele.
Os soldados hesitaram mais um instante e, a seguir, viraram-se e fugiram.
Eragon atacou, ignorando os retardatários em pânico ao alcance de sua espada flamejante. Um homem tropeçou e caiu diante de si e Eragon saltou por cima do soldado sem lhe tocar na borla do elmo. O deslocamento de ar ocasionado pela passagem de Eragon fustigava as chamas do gume, alongando-as atrás da espada como a crina de um cavalo a galope.
Curvando os ombros para a frente, Eragon irrompeu pelas portas que protegiam a entrada para o salão principal, correndo ao longo de uma câmara comprida e ampla, ladeada de salas cheias de soldados – bem como engrenagens, polias e outros mecanismos utilizados para fazer subir e descer os portões da fortaleza – largando depois a correr a toda velocidade para o portão suspenso que bloqueava o caminho para o local onde Roran estava quando a muralha da fortaleza ruíra.
A grade de metal entortou-se quando Eragon bateu nela, mas não o suficiente para partir o metal.
Ele deu um passo vacilante para trás.
Voltou a canalizar a energia armazenada nos diamantes do cinto – o cinto de Beloth, o Sábio – para Brisingr, esvaziando as pedras preciosas da sua valiosa carga e ateando o fogo da espada até uma intensidade quase insuportável. Um grito sem palavras escapou-lhe ao puxar o braço para trás e acertar no portão suspenso. Faíscas laranjas e amarelas explodiram, marcando-lhe as luvas e a túnica e fazendo-lhe arder a carne exposta. Uma gota de ferro fundido caiu sobre a ponta da bota, fervendo, e ele sacudiu-a, agitando o tornozelo.
Fez três cortes no portão suspenso, fazendo cair para dentro uma secção do tamanho de um homem. As pontas cortadas da grade brilhavam, incandescentes, iluminando a área com a sua radiância suave.
Ao entrar pela abertura que criara, Eragon deixou que as chamas que se erguiam de Brisingr se extinguissem.
Correu primeiro para a esquerda, depois para a direita e de novo para a esquerda, percorrendo as direções alternadas da passagem, um intrincado caminho concebido para diminuir o avanço das tropas caso estas conseguissem ganhar acesso à fortaleza.
Ao dobrar a última esquina, Eragon viu o seu destino: o pórtico afogado em destroços. Mesmo com a sua visão de elfo, ele conseguia apenas distinguir as formas mais volumosas na escuridão, a derrocada de pedras apagara as tochas nas paredes. Ouviu um estranho ruído de algo a bufar e a debater-se, como se um animal desajeitado estivesse tentando sair dos escombros.
— Naina — disse Eragon.
Uma luz azul, sem direção específica, iluminou o espaço e Roran surgiu diante dele, coberto de pó, sangue, cinzas e suor, os dentes arreganhados num esgar feroz, lutando com um soldado sobre os cadáveres de dois outros.
Ao ver aquela claridade repentina, o soldado encolheu-se e Roran aproveitou a distração do homem para torcê-lo e empurrá-lo de joelhos, tirando-lhe a adaga da bainha e cravando-a por baixo do maxilar
O soldado esperneou duas vezes e ficou imóvel.
Tentando recuperar o fôlego, Roran ergueu-se junto do corpo, com sangue a escorrer-lhe pelos dedos e olhou para Eragon com uma expressão curiosamente vidrada.
— Já não era tempo seu... — disse ele. Depois revirou os olhos e desmaiou.

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Boa leitura :)