3 de junho de 2017

Capítulo 2 - Em volta da fogueira

O pequeno amontoado de carvões pulsava como o coração de alguma fera gigantesca. De vez em quando, uma quantidade de centelhas douradas se incendiava e percorria veloz a superfície da lenha antes de desaparecer numa fissura incandescente.
Os restos mortais da fogueira que Eragon e Roran armaram lançavam um fraco fulgor vermelho sobre a área ao redor, revelando um trecho de solo rochoso, alguns arbustos da cor de estanho, a massa indistinta de um zimbro mais afastado e depois nada.
Eragon estava sentado com os pés descalços estendidos na direção do ninho de brasas da cor de rubis – apreciando o calor – e encostado nas escamas protuberantes da grossa perna dianteira direita de Saphira. A sua frente, Roran estava empoleirado na carcaça dura como ferro, desbotada pelo sol, desgastada pelo vento, de um antigo tronco de árvore. Cada vez que ele se mexia, o tronco emitia um guincho penetrante que fazia Eragon ter vontade de arrancar as orelhas.
Por enquanto, a tranquilidade reinava na grota. Até mesmo as brasas ardiam em silêncio. Roran tinha apanhado somente galhos mortos havia muito tempo, sem nenhuma umidade, para eliminar qualquer fumaça que olhos hostis pudessem avistar. Eragon tinha acabado de relatar as atividades do dia para Saphira. Normalmente, ele nunca precisava lhe contar o que estivera fazendo, pois os pensamentos, sentimentos e outras sensações fluíam entre eles com a facilidade com que a água flui de um lado para o outro em um lago. Nesse caso, porém, foi necessário porque Eragon tinha mantido sua mente cuidadosamente blindada durante a expedição de reconhecimento, além de sua incursão incorpórea ao covil dos Ra’zac.
Depois de um intervalo considerável na conversa, Saphira bocejou, expondo suas fileiras de muitos dentes temíveis. Pode ser que eles sejam cruéis e malignos, mas estou impressionada com a capacidade que os Ra’zac têm de enfeitiçar sua presa a ponto de ela querer ser devorada. Para fazer isso, são grandes caçadores... Talvez eu devesse experimentar um dia desses.
Mas não, Eragon sentiu-se obrigado a acrescentar, com gente. Prefira ter a experiência com carneiros.
Gente, carneiros: que diferença faz para um dragão? E então ela deu uma  risada no fundo do longo pescoço – um ronco ribombante que fez Eragon se lembrar de trovões. Inclinando-se para a frente para tirar seu peso das escamas afiadas de Saphira, Eragon apanhou o cajado de espinheiro jogado ao seu lado. Ele o rolou entre as palmas, admirando o jogo de luz sobre o emaranhado polido de raízes no alto, a virola e a ponteira gasta de metal na base.
Roran tinha empurrado o cajado nos seus braços antes de deixarem os Varden na Campina Ardente.
— Pegue. Fisk fez esse para mim depois que o Ra’zac mordeu meu ombro. Sei que você perdeu sua espada e acho que talvez precise dele... Se quiser arrumar outra espada, tudo bem, mas descobri que são poucas as lutas que uma pessoa não consegue vencer com alguns golpes de um cajado bom e forte.
Lembrando-se do cajado que Brom sempre levava, Eragon decidiu abster-se de uma espada nova para ficar com o pedaço de espinheiro nodoso. Depois de perder Zar’roc, ele não desejava adotar qualquer outra espada inferior. Naquela noite, tinha reforçado tanto o espinheiro nodoso como o cabo do martelo de Roran com vários encantamentos que impediriam que qualquer um deles quebrasse, a menos que fossem submetidos a um estresse extremo. Inesperadamente, uma série de lembranças dominou Eragon: Um céu lúgubre em tons alaranjados e rubros turbilhonava ao seu redor enquanto Saphira mergulhava em perseguição ao dragão vermelho e seu Cavaleiro. O vento passava zunindo por suas orelhas... Seus dedos ficaram dormentes com o choque de espada contra espada enquanto duelava com aquele mesmo Cavaleiro no chão... O instante em que arrancou o elmo do rival no meio do combate para revelar aquele que um dia tinha sido seu amigo e companheiro de viagem, Murtagh, que Eragon acreditava ter morrido... O escárnio no rosto de Murtagh quando tirou Zar’roc de Eragon, reivindicando a espada vermelha por direito de herança por ser o irmão mais velho de Eragon...
Eragon piscou, desorientado quando o fragor e a fúria da batalha foram se apagando e a agradável fragrância da madeira do zimbro substituiu o fedor do sangue. Ele passou a língua pelos dentes superiores, procurando limpar o gosto de bile que enchia sua boca. Murtagh.
O nome sozinho já gerava uma onda de emoções confusas em Eragon. Por um lado, ele gostava de Murtagh. Murtagh havia salvado Eragon e Saphira dos Ra’zac depois de sua primeira visita infeliz a Dras-Leona; havia arriscado a vida para ajudar Eragon a escapar de Gil’ead; havia cumprido seu dever honrosamente na batalha de Farthen Dûr; e, apesar dos tormentos que sem dúvida suportou em consequência disso, havia interpretado as ordens de Galbatorix de um modo que lhe permitiu libertar Eragon e Saphira depois da batalha da Campina Ardente, em vez de fazê-los prisioneiros. Não era culpa de Murtagh que os Gêmeos o tivessem sequestrado; que o dragão vermelho, Thorn, tivesse nascido para ele; nem que Galbatorix tivesse descoberto seus nomes verdadeiros, com os quais extraiu juramentos de lealdade na língua antiga tanto de Murtagh como de Thorn. Não se podia culpar Murtagh por nada disso. Ele era uma vítima do destino e o tinha sido desde o dia do seu nascimento. E ainda assim... Murtagh podia servir a Galbatorix a contragosto e podia abominar as atrocidades que o rei o forçava a cometer, mas alguma parte dele parecia se deliciar com o manejo desse novo poder.
Durante o recente confronto entre os Varden e o Império na Campina Ardente, Murtagh havia escolhido matar o rei dos anões, Hrothgar, apesar de Galbatorix não lhe ter dado essa ordem. Ele havia deixado Eragon e Saphira livres, sim, mas somente depois de derrotá-los numa brutal disputa de força e de ouvir Eragon implorar pela liberdade.
E Murtagh demonstrou muito prazer diante da aflição que provocou em Eragon ao revelar que os dois eram filhos de Morzan – o primeiro e o último dos treze Cavaleiros de Dragão, os Renegados, que tinham traído seus compatriotas, entregando-os a Galbatorix. Agora, quatro dias depois da batalha, outra explicação se apresentava a Eragon: Talvez o que agradou a Murtagh tenha sido ver outra pessoa suportar a mesma carga terrível que ele havia carregado a vida inteira.
Fosse verdade ou não, Eragon suspeitava que Murtagh assumira de bom grado seu novo papel pela mesma razão que leva um cão surrado sem motivo a, um dia, atacar seu dono. Murtagh fora surrado repetidamente e agora tinha a oportunidade de revidar, atacando um mundo que não lhe mostrara praticamente nenhuma gentileza. Contudo, por maior que fosse o bem que ainda luzisse no peito de Murtagh, ele e Eragon estavam fadados a ser inimigos mortais, pois as promessas de Murtagh na língua antiga o prendiam a Galbatorix com grilhões inquebráveis, e o prenderiam para sempre.
Se ao menos ele não tivesse acompanhado Ajihad na caçada aos Urgals nos subterrâneos de Farthen Dûr. Ou se eu tivesse sido só um pouco mais veloz, os Gêmeos...
Eragon, disse Saphira.
Ele se recompôs e fez que sim, grato pela intromissão. Eragon fazia o possível para evitar ficar remoendo culpas sobre Murtagh ou sobre os pais dos dois; mas esses pensamentos costumavam se apoderar dele quando menos esperava.
Inspirando e expirando lentamente para limpar a cabeça, Eragon tentou forçar sua mente a voltar ao presente, mas não conseguiu. Na manhã seguinte à colossal batalha na Campina Ardente – quando os Varden estavam ocupados se reorganizando e se preparando para marchar atrás do exército do Império, que havia se retirado algumas léguas a montante do rio Jiet – Eragon foi procurar Nasuada e Arya, explicou o problema de Roran e lhes pediu permissão para ajudar o primo. Não teve êxito. As duas se opuseram com veemência ao que Nasuada descreveu como um “plano desmiolado que terá consequências catastróficas para todos na Alagaësia, se der errado!”.
O debate acalorado se prolongou tanto que Saphira os interrompeu com um rugido que fez tremer as paredes da tenda do comando. Disse ela, então: Estou ferida e cansada; e Eragon não está se saindo bem nessa explicação. Temos coisas melhores afazer do que ficar aqui gritando como gralhas, não é mesmo?... Ótimo, agora quero que me escutem.
Era difícil discutir com um dragão, refletiu Eragon. Os detalhes dos comentários de Saphira eram complexos, mas a estrutura subjacente à sua apresentação era simples. Saphira apoiava Eragon porque entendia o quanto a missão significava para ele, enquanto Eragon apoiava Roran pelo amor à família e porque sabia que Roran iria atrás de Katrina com ele ou sem ele, e que seu primo jamais conseguiria derrotar os Ra’zac sozinho. Além disso, enquanto o Império mantivesse Katrina em cativeiro, Roran – e por tabela Eragon – era vulnerável à manipulação de Galbatorix. Se o usurpador ameaçasse matar Katrina, Roran não teria escolha a não ser se submeter às suas exigências. Seria melhor, então, consertar essa falha nas suas defesas antes que os inimigos tirassem proveito dela.
Quanto ao momento, era a escolha perfeita. Nem Galbatorix nem os Ra’zac esperariam uma incursão ao centro do Império quando os Varden estavam ocupados lutando contra as tropas inimigas perto da fronteira de Surda. Murtagh e Thorn foram vistos voando na direção de Urû’baen – sem dúvida para receber o castigo pessoalmente – e Nasuada e Arya concordavam com Eragon que esses dois provavelmente prosseguissem mais para o norte para enfrentar a rainha Islanzadí e seu exército, assim que os elfos fizessem seu primeiro ataque e revelassem sua presença. E, se possível, seria bom eliminar os Ra’zac antes que eles começassem a aterrorizar e desmoralizar os guerreiros dos Varden.
Saphira salientou então, nos termos mais diplomáticos possíveis, que, se Nasuada fizesse valer sua autoridade como senhora do Cavaleiro Eragon e o proibisse de participar da incursão, essa decisão envenenaria seu relacionamento com o tipo de rancor e desavença que poderia solapar a causa dos Varden.
Mas, disse Saphira, a escolha é suaMantenha Eragon aqui se quiser. No entanto, o compromisso assumido por ele não me inclui; e eu pelo menos resolvi acompanhar Roran. Parece-me uma bela aventura.
Um leve sorriso passou pelos lábios de Eragon quando ele se lembrou da cena. A declaração de Saphira combinada à sua lógica inexpugnável tinha convencido Nasuada e Arya a conceder sua aprovação, embora com relutância.
— Estamos confiando no seu discernimento nesse caso, Eragon e Saphira — disse Nasuada mais tarde. — Para o seu bem e para o nosso, espero que essa expedição dê certo. — Seu tom deixou Eragon sem saber se suas palavras representavam um desejo sincero ou uma ameaça sutil.
Eragon passara o resto do dia juntando provisões, estudando mapas do Império com Saphira e lançando os encantamentos que considerou necessários, como um para frustrar qualquer tentativa de Galbatorix ou de seus capangas de enxergar Roran por cristalomancia.
Na manhã do dia seguinte, Eragon e Roran montaram no dorso de Saphira e ela alçou voo, subindo acima das nuvens alaranjadas que sufocavam a Campina Ardente e se dirigindo para o nordeste. Saphira voou sem descanso até o sol ter atravessado toda a cúpula do céu e ter se apagado por trás do horizonte, para então irromper outra vez num glorioso incêndio de vermelhos e amarelos.
A primeira parte da viagem levou-os até a fronteira do Império, habitada por pouca gente. Lá eles se voltaram para Dras-Leona e Helgrind. Daquele ponto em diante, viajavam durante a noite para evitar que fossem percebidos por alguém nos numerosos vilarejos espalhados pelas pradarias que os separavam do seu destino. Foi preciso que Eragon e Roran se embrulhassem em capas e peles, luvas de lã e chapéus de feltro, porque Saphira resolveu voar mais alto que os picos gelados da maioria das montanhas – onde o ar era rarefeito, seco, e parecia apunhalar seus pulmões – para que, se um lavrador que estivesse cuidando de um bezerro doente no campo ou um vigia de olhos aguçados em sua ronda por acaso olhassem para o alto quando ela estivesse passando, Saphira não parecesse ser maior do que uma águia.
Por onde quer que fossem, Eragon via evidências de que a guerra estava agora em marcha: acampamentos de soldados, carroças cheias de suprimentos reunidas em grupo para passar a noite e fileiras de homens com argolas de ferro no pescoço sendo levados para longe de casa para lutar em nome de Galbatorix. A quantidade de recursos dispostos contra eles era de fato intimidante. Quase no final da segunda noite, Helgrind havia surgido ao longe: um conjunto de colunas lascadas, indistintas e ameaçadoras na luz acinzentada que precede a aurora. Saphira pausara na grota onde estavam agora, e eles dormiram a maior parte do dia anterior antes de começar sua expedição de reconhecimento.
Um chafariz de ciscos da cor de âmbar turbilhonou e girou quando Roran jogou um galho sobre os carvões que estavam se desintegrando. Ele percebeu o olhar de Eragon e deu de ombros.
— Está frio — disse ele.
Antes de responder, Eragon ouviu um som sorrateiro de alguma coisa raspando, semelhante a alguém sacando uma espada. Não pensou. Atirou-se na direção oposta, rolou uma vez e se levantou meio agachado, erguendo o cajado de espinheiro para desviar um golpe iminente. Roran foi quase tão rápido quanto ele. Apanhou o escudo do chão, recuou de qualquer jeito do tronco em que estava sentado e tirou o martelo do cinto, tudo em questão de alguns segundos. Ficaram ali paralisados, à espera do ataque.
O coração de Eragon batia forte, e seus músculos tremiam enquanto esquadrinhava a escuridão em busca do mais leve indício de movimentação.
Não sinto cheiro de nada, disse Saphira. Quando se passaram alguns minutos sem incidentes, Eragon forçou a mente a sair da paisagem circundante.
— Ninguém — disse ele. Mergulhando fundo em si mesmo, até o lugar onde pudesse tocar no fluxo de magia, pronunciou as palavras: — Brisingr raudhr!
Uma pálida luz-viva vermelha surgiu do nada, a alguns palmos diante dele, e permaneceu ali, flutuando à altura dos olhos e iluminando a grota com uma luminosidade líquida. Ele se mexeu um pouco, e a luz-viva imitou seu movimento, como se estivesse unida a ele por uma ligação invisível.
Juntos, ele e Roran avançaram na direção de onde ouviram o ruído, descendo pela garganta que serpeava para o leste. Seguravam as armas no alto e paravam a cada passo, prontos para se defenderem a qualquer momento. Cerca de dez metros do acampamento, Roran ergueu a mão para Eragon parar e apontou para uma placa de xisto que estava caída em cima do capim.
Era evidente que estava fora do lugar. Ajoelhando-se, Roran esfregou um fragmento menor de xisto de um lado a outro da placa e com isso criou o mesmo som de atrito metálico que tinham ouvido antes.
— Deve ter caído — disse Eragon, examinando as paredes da garganta. Permitiu, então, que a luz-viva se apagasse e desaparecesse.
Roran concordou e se levantou, espanando terra das calças. Enquanto voltava até Saphira, Eragon refletiu sobre a velocidade com que os dois tinham reagido. Seu coração ainda se contraía num nó duro e dolorido a cada pulsação, suas mãos tremiam, e ele sentia vontade de disparar floresta adentro e correr alguns quilômetros sem parar.
Antes não teríamos pulado daquele jeito, pensou. A razão para sua vigilância não era nenhum mistério: cada uma das suas lutas havia destruído um pouco da sua complacência, deixando nada em seu lugar a não ser nervos à flor da pele, que reagiam ao menor toque.
Roran devia ter pensamentos semelhantes porque lhe perguntou:
— Você os vê?
— Vejo quem?
— Os homens que matou. Você os vê nos sonhos?
— Às vezes.
O fulgor pulsante das brasas iluminava o rosto de Roran de baixo para cima, formando espessas sombras acima da boca e de um lado a outro da testa, e dando aos olhos semicerrados, de pálpebras pesadas, um aspecto maligno. Ele falou devagar como se achasse as palavras difíceis.
— Eu jamais quis ser guerreiro. Quando era menor, como todos os meninos, cheguei a sonhar com sangue e glória, mas o que era importante para mim era a terra. A terra e nossa família... E agora matei... Matei e matei; e você matou ainda mais. — Seu olhar focalizou algum lugar distante que somente ele podia ver. — Havia dois homens em Narda... Já lhe contei isso?
Havia contado, mas Eragon fez que não e permaneceu calado.
— Eram guardas no portão principal... Dois guardas, sabe? E o da direita tinha o cabelo totalmente branco. Eu me lembro porque ele não poderia ter mais de vinte e quatro, vinte e cinco anos. Usavam a insígnia de Galbatorix, mas falavam como se fossem de Narda. Não eram soldados profissionais. Era provável que fossem simplesmente homens que decidiram ajudar a proteger seu lar de Urgals, piratas, arruaceiros... Nós não íamos levantar um dedo contra eles. Juro, Eragon, que isso nunca fez parte dos nossos planos. Mas não tive escolha. Eles me reconheceram. Dei uma estocada no de cabeça branca por baixo do queixo... Foi como nosso pai degolando um porco. E, então, o outro: esmaguei-lhe o crânio. Ainda tenho a sensação de como os ossos cederam... Eu me lembro de todos os golpes que dei, desde os soldados em Carvahall até os que dei na Campina Ardente... Sabe, quando fecho os olhos, às vezes não consigo dormir porque a luz do fogo que ateamos às docas em Teirm continua forte demais na minha cabeça. Nessa hora, acho que estou enlouquecendo.
Eragon descobriu que suas mãos seguravam o cajado com tanta força que as juntas estavam brancas e os tendões sulcavam a parte interna dos seus pulsos.
— Sim — disse ele. — De início, eram só os Urgals. Depois, homens e Urgals. E agora esta última batalha... Sei que o que estamos fazendo está certo, mas certo não significa fácil. Em razão do que nós somos, os Varden esperam que Saphira e eu nos postemos à frente do seu exército e exterminemos batalhões inteiros. Isso nós fazemos. E fizemos. — Sua voz ficou embargada, e ele se calou.
O tormento acompanha todas as grandes mudanças, disse Saphira aos dois. E nós já passamos por mais tormentos do que deveria nos caber, pois somos agentes dessa própria mudança. Sou um dragão, e não me arrependo da morte dos que representam perigo para nós. Matar os guardas em Narda pode não ser um feito digno de comemoração, mas também não e motivo para sentir culpa. Foi necessário que você agisse assim. Quando você deve lutar, Roran, a alegria feroz do combate não empresta asas aos seus pés? Você não conhece o prazer de enfrentar um adversário de valor e a satisfação de ver os corpos inimigos empilhados à sua frente? Eragon, você passou por issoAjude-me a explicar para seu primo.
Eragon manteve os olhos fixos nas brasas. Saphira havia explicitado uma verdade que ele relutava em reconhecer, para que, ao admitir que era possível apreciar a violência, ele não se tornasse um homem que ele próprio desprezaria. Por isso, permaneceu calado.
Bem diante dele, Roran parecia ter sido afetado de modo semelhante. Com uma voz mais baixa, Saphira continuou: Não se zangue. Eu não pretendia perturbá-lo... Às vezes eu me esqueço de que você ainda não está acostumado com essas emoções, enquanto eu luto com unhas e dentes pela sobrevivência desde o dia em que nasci. Pondo-se em pé, Eragon andou até onde estavam seus alforjes e apanhou o pequeno pote de cerâmica que Orik lhe dera antes da partida. Despejou, então, goela abaixo dois bons goles de hidromel de framboesa. O calor cresceu em seu estômago. Fazendo uma careta, Eragon passou o pote para Roran, que também bebeu do preparado.
Alguns goles mais tarde, quando o hidromel tinha conseguido amenizar seu péssimo humor, Eragon disse:
— Podemos ter um problema amanhã.
— Do que você está filando?
Eragon dirigiu as palavras também a Saphira.
— Você se lembra de como eu disse que nós, Saphira e eu, poderíamos facilmente lidar com os Ra’zac?
— Lembro.
E podemos mesmo, disse Saphira.
— Bem, andei pensando nisso enquanto espiávamos Helgrind, e já não tenho tanta certeza. São quase infinitos os modos de fazer alguma coisa com a magia. Por exemplo, se eu quisesse acender um fogo, poderia usar o calor colhido do ar ou do chão. Poderia criar uma chama de energia pura. Poderia invocar um relâmpago. Poderia concentrar um monte de raios de sol num único ponto. Poderia usar fricção. E assim por diante.
— E daí?
— O problema é que, muito embora eu possa inventar vários encantamentos para realizar essa única ação, bloquear esses encantamentos poderia exigir não mais que um único encantamento de contraposição. Se você impedir que a ação em si ocorra, não precisará adequar seu encantamento de contraposição às propriedades particulares de cada encantamento individual.
— Ainda não entendo o que isso tem a ver com amanhã.
Eu entendo, disse Saphira a eles dois. Tinha captado as implicações de imediato. Quer dizer que, ao longo do último século, Galbatorix...
— ... pode ter disposto anteparos em torno dos Ra’zac...
... que os protegerão de...
— ... toda uma variedade de encantamentos. E provável que eu não...
... consiga matá-los com qualquer...
— ... uma das palavras de morte que me ensinaram, nem com quaisquer...
... ataques que possamos inventar agora ou depois. Podemos...
— ... ter de depender...
— Parem! — exclamou Roran, com um sorriso de aflição. — Parem, por favor! Minha cabeça dói quando vocês fazem isso.
Eragon parou, com a boca aberta. Até aquele momento, ele não tinha se dado conta de que ele e Saphira estavam se revezando ao falar. Ficou satisfeito com a percepção: aquilo queria dizer que eles tinham atingido novos patamares de cooperação e que estavam agindo em conjunto como uma entidade única... o que os tornava muito mais poderosos do que qualquer um dos dois seria por si mesmo.
Esse aspecto também o perturbava quando ele pensava em como esse tipo de parceria deveria, por sua própria natureza, comprometer a individualidade dos envolvidos. Ele fechou a boca e reprimiu um risinho.
— Desculpe. O que me preocupa é o seguinte: se Galbatorix foi previdente e tomou certas precauções, então a força das armas pode ser o único meio pelo qual poderemos matar os Ra’zac. Se for esse o caso...
— Amanhã eu só vou atrapalhar.
— Bobagem. Você pode ser mais lento que os Ra’zac, mas não duvido que você lhes dê bons motivos para temer sua arma, Roran Martelo Forte. — O elogio pareceu agradar Roran. — O maior perigo para você será se os Ra’zac ou os Lethrblaka conseguirem separá-lo de Saphira e de mim. Quanto mais juntos ficarmos, mais seguros estaremos. Saphira e eu vamos tentar manter os Ra’zac e os Lethrblaka ocupados, mas alguns deles podem passar por nós. Quatro contra dois representa uma boa vantagem somente se estivermos entre os quatro.
Para Saphira, Eragon disse: Se eu tivesse uma espada, tenho certeza de que poderia matar os Ra’zac sozinho, mas não sei se posso derrotar duas criaturas velozes como elfos, usando apenas esse cajado.
Foi você que insistiu em trazer esse graveto seco em vez de uma arma decente, disse ela. Lembre-se de que eu lhe disse que ele talvez não fosse suficiente contra inimigos perigosos como os Ra’zac.
Relutante, Eragon admitiu o erro. Se meus encantamentos falharem, nós estaremos muito mais vulneráveis do que eu esperava... O dia de amanhã poderá realmente terminar muito mal.
Roran continuou com a conversa da qual tinha participado.
— Essa história de magia é complicada. — A tora na qual estava sentado deu um gemido prolongado quando ele pousou os cotovelos nos joelhos.
— E verdade — concordou Eragon. — A parte mais difícil é prever cada encantamento possível. Passo a maior parte do tempo pensando em como posso me proteger se eu for atacado desse modo e se outro mágico calcularia que eu fosse reagir assim.
— Você poderia me tornar tão forte e veloz quanto você é?
Eragon refletiu alguns minutos acerca da sugestão antes de responder.
— Não vejo como. A energia necessária para fazer isso teria de vir de algum lugar. Saphira e eu poderíamos lhe dar essa energia, mas nesse caso nós perderíamos velocidade ou força à proporção que você ganhasse. — O que ele não mencionou foi que essa energia também poderia ser extraída de plantas e animais próximos, se bem que a um preço terrível: ou seja, a morte dos seres menores a cuja força vital se recorresse. A técnica era um importante segredo, e Eragon achou que não deveria revelá-lo levianamente, se é que deveria chegar a revelá-lo. Além do mais, essa possibilidade de nada adiantaria para Roran, já que em Helgrind a vida vegetal e a animal eram muito escassas para abastecer o corpo de um homem.
— Então, você poderia me ensinar a usar a magia? — Ao ver que Eragon hesitava, Roran acrescentou: — Claro que não agora. Não temos tempo, e eu calculo que ninguém se torne mágico do dia para a noite. Mas, em geral, por que não? Você e eu somos primos. Nosso sangue é praticamente o mesmo. E esse conhecimento seria realmente valioso para mim.
— Não sei como uma pessoa que não seja um Cavaleiro aprende a usar magia — confessou Eragon. — Não é algo que eu tenha estudado. — Relanceando o olhar ao redor, ele tirou do chão uma pedra redonda e achatada, atirando-a para Roran, que a pegou com um movimento para trás. — Pronto, experimente o seguinte: concentre sua vontade em levantar a pedra uns trinta centímetros no ar e diga “Stenr reisa”.
— Stenr reisa?
— Isso mesmo.
Roran franziu o cenho diante da pedra pousada na palma da mão, numa pose que lembrava tanto a do treinamento do próprio Eragon que o Cavaleiro não pôde deixar de sentir uma fisgada de nostalgia dos dias que passou praticando com Brom. As sobrancelhas de Roran se encontraram, seus lábios se retesaram num ricto, e ele rosnou “Stenr reisa!” com tanta intensidade que Eragon quase esperou que a pedra saísse voando e desaparecesse. Nada aconteceu.
— Stenr reisa! — repetiu Roran o comando, com a cara ainda mais fechada.
A pedra demonstrou uma profunda falta de movimento.
— Bem — disse Eragon —, continue a tentar. É o único conselho que posso lhe dar. Mas — e nesse momento ele levantou um dedo — se por acaso você acabar tendo êxito, trate de me procurar imediatamente ou, se eu não estiver por perto, procure outro mágico. Você poderia matar a si mesmo e a outras pessoas, se começasse a fazer experiências com magia sem compreender as regras. Lembre-se pelo menos do seguinte: se você lançar um encantamento que exija energia demais, você morre. Não assuma projetos que estejam fora do alcance da sua capacidade. Não tente fazer os mortos voltar à vida. E não tente desfazer nada.
Roran fez que sim, ainda olhando para a pedra.
— Deixando a magia de lado, acabei de me dar conta de uma coisa muito mais importante que você precisa aprender.
— É?
— É, sim. Você precisa ser capaz de esconder seus pensamentos da Mão Negra, Du Vrangr Gata, e de outros como eles. Agora você tem conhecimento de muitas coisas que poderiam prejudicar os Varden. E, portanto, crucial que você domine essa técnica assim que voltarmos. Enquanto não souber se defender de espiões, nem Nasuada, nem eu, nem mais ninguém poderá lhe passar informações que possam ser úteis a nossos inimigos.
— Entendo. Mas por que você incluiu Du Vrangr Gata nessa lista? Eles servem a você e a Nasuada.
— Servem, mas mesmo entre nossos aliados não são poucas as pessoas que dariam o braço direito — ele fez uma careta diante da correção da expressão — para descobrir nossos planos e segredos. E os seus também, nada menos. Você se tornou alguém, Roran. Em parte por causa dos seus feitos, e em parte porque somos parentes.
— Eu sei. É estranho ser reconhecido por pessoas a quem não se foi apresentado.
— É mesmo. — Diversos outros comentários afins saltaram para a ponta da língua de Eragon, mas resistiu ao impulso de enveredar por esse tópico. Era um tema a ser explorado em outro momento. — Agora que você sabe qual é a sensação quando uma mente toca em outra, talvez consiga aprender a estender sua mente para tocar em outras por sua vez.
— Não sei bem se essa é uma capacidade que eu quero ter.
— Não importa. Também é possível que você não consiga. Seja como for, antes que gaste seu tempo tentando descobrir, deveria em primeiro lugar se dedicar à arte da defesa.
— Como? — perguntou o primo, levantando uma sobrancelha.
— Escolha alguma coisa, um som, uma imagem, uma emoção, qualquer coisa, e deixe que ela cresça na sua cabeça até eliminar quaisquer outros pensamentos.
— Só isso?
— Não é tão fácil quanto imagina. Vamos. Faça uma tentativa. Quando estiver pronto, me avise para eu ver como você se sai.
Passaram-se alguns instantes. Então, quando Roran estalou os dedos, Eragon lançou sua consciência na direção do primo, ansioso por descobrir o que Roran tinha conseguido. A força total do raio mental de Eragon colidiu com uma muralha composta das lembranças de Roran sobre Katrina e não pôde avançar. Não encontrava nenhum terreno firme, nenhuma entrada ou base; nem conseguia minar a barreira impenetrável que tinha diante de si. Naquele instante, a identidade de Roran por inteiro estava baseada nos seus sentimentos por Katrina. Suas defesas superavam qualquer outra que Eragon já tivesse enfrentado, pois a mente de Roran estava esvaziada de qualquer outra coisa à qual Eragon pudesse se agarrar e usar para controlar o primo.
Depois, Roran mexeu com a perna esquerda, e a madeira por baixo dele emitiu um guincho desagradável. Com isso, a muralha contra a qual Eragon tinha se lançado se espatifou em dezenas de pedaços à medida que uma quantidade de pensamentos começou a concorrer para atrair a atenção de Roran: O que foi... Droga! Não preste atenção. Ele vai conseguir entrar. Katrina, lembre-se de Katrina. Deixe Eragon para lá. À noite em que ela aceitou se casar comigo, o cheiro do capim e do seu cabelo... Isso aqui é ele? Não! Concentre-se! Não...
Tirando proveito da confusão de Roran, Eragon avançou veloz e, com a força da sua vontade, imobilizou Roran antes que ele conseguisse se proteger novamente.
Você entendeu o conceito básico, disse Eragon, retirando-se, então, da mente do primo para continuar com sua fala normal:
— ... mas você precisa aprender a manter sua concentração mesmo quando estiver em pleno combate. Precisa aprender a pensar sem pensar... a se esvaziar de todas as esperanças e preocupações, com exceção daquela ideia única que é sua armadura. Uma coisa que os elfos me ensinaram, e que descobri ser muito útil, é recitar uma charada ou um trecho de poema ou canção. Ter uma ação que se possa repetir infinitamente facilita muito quando se quer impedir que a mente vagueie.
— Vou trabalhar nisso — prometeu Roran.
— Você realmente ama Katrina, não é? — disse Eragon em voz baixa. Foi mais uma afirmação da verdade e do assombro do que uma pergunta, já que a resposta era óbvia, e a pergunta fazia com que se sentisse inseguro. Questões românticas não eram um tópico que Eragon tivesse abordado com o primo antes, por maior que fosse o número de horas que os dois devotaram, em tempos passados, a debater as qualidades relativas das moças de Carvahall e cercanias. — Como foi que aconteceu?
— Eu gostava dela. Ela gostava de mim. Qual a importância dos detalhes?
— Ora, vamos — disse Eragon. — Eu estava com raiva demais para perguntar antes de você partir para Therinsford, e só fomos nos ver de novo há quatro dias. Pura curiosidade.
A pele em volta dos olhos de Roran ficou repuxada e enrugada à medida que ele esfregava as têmporas.
— Não tem muito para contar. Sempre gostei dela. Não significava muito antes de me tornar adulto; mas, depois dos meus ritos de passagem, comecei a me perguntar com quem eu deveria me casar e quem eu queria que fosse a mãe dos meus filhos. Durante uma de nossas visitas a Carvahall, vi Katrina parar ao lado da casa de Loring para colher uma rosa musgosa que crescia à sombra dos beirais. Ela sorriu ao olhar para a flor... Foi um sorriso tão delicado, tão feliz, que decidi naquele instante que queria fazer Katrina sorrir daquele jeito muitas e muitas vezes, e que queria ver aquele sorriso até o dia da minha morte. — Lágrimas reluziram nos olhos de Roran, mas não caíram. E um segundo depois, ele piscou, e elas desapareceram. — Acho que fracassei sob esse aspecto.
Depois de uma pausa respeitosa, Eragon falou:
— Quer dizer que você a cortejou? Além de me usar como portador de suas mensagens para Katrina, o que mais você fez?
— Sua pergunta dá a impressão de alguém pedindo instruções.
— Nada disso. Imaginação sua.
— Ora, vamos, agora é sua vez — disse Roran. — Sei quando você está mentindo. Fica com esse sorriso bobo, e suas orelhas ficam vermelhas. Os elfos podem ter lhe dado uma cara nova, mas essa parte sua não mudou. O que existe entre você e Arya?
A intensidade da percepção de Roran perturbou Eragon.
— Nada! A lua cozinhou seus miolos!
— Seja franco. Você idolatra as palavras dela como se cada uma fosse um diamante; e seu olhar se demora sobre ela como se você estivesse morrendo de fome e ela fosse um grande banquete servido poucos centímetros fora do seu alcance.
Uma pluma de fumaça cinza-escura saiu pelas narinas de Saphira enquanto ela fazia um ruído como se tivesse se engasgado.
— Arya é uma elfa — disse Eragon, não dando atenção à alegria reprimida de Saphira.
— E belíssima. Orelhas pontudas e olhos puxados são pequenos defeitos em comparação a seus encantos. Mesmo você está parecido com um gato agora.
— Arya tem mais de cem anos.
Essa informação específica pegou Roran de surpresa.
— Isso é difícil de acreditar! — disse ele, erguendo as sobrancelhas. — Ela está na flor da juventude.
— É a verdade.
— Bem, seja como for, tudo isso que você me disse são razões, Eragon, e o coração raramente dá ouvidos à razão. Você gosta ou não gosta dela?
Se gostasse um pouquinho mais que fosse, disse Saphira tanto a Eragon como a Roran, eu mesma tentaria beijar Arya.
Saphira! Mortificado, Eragon lhe deu um tapa na perna.
Roran foi prudente o suficiente para parar de provocar Eragon.
— Então responda à minha primeira pergunta e diga como estão as coisas entre você e Arya. Você comentou isso com ela ou com a família dela? Descobri que não é aconselhável deixar esse tipo de coisa infeccionar.
— É — concordou Eragon, olhando para o pedaço de espinheiro polido. — Falei com ela.
— E qual foi o resultado? — Como Eragon não respondeu de imediato, Roran exclamou, cheio de frustração. — Tirar alguma resposta de você é mais difícil do que puxar Birka para atravessar um lamaçal.
Eragon reprimiu um risinho ao ouvir a menção a Birka, um dos seus cavalos de tiro.
— Saphira, você quer resolver esse enigma para mim? Do contrário, receio que nunca vou receber uma explicação completa.
— Resultado nenhum. Absolutamente nenhum. Ela não me quer. — Eragon falou sem paixão, como se estivesse comentando a desgraça de algum desconhecido, mas no seu íntimo rugia uma torrente de mágoa tão profunda e descontrolada que ele sentiu Saphira recuar um pouco.
— Sinto muito — disse Roran.
Eragon engoliu em seco através do aperto na sua garganta, da dor no seu coração, até o emaranhado cheio de nós que era seu estômago.
— Acontece — disse ele. — Sei que pode parecer improvável neste instante — disse Roran — mas tenho certeza de que você vai encontrar outra mulher que o fará se esquecer de Arya. É enorme a quantidade de donzelas, e posso apostar que não são poucas as casadas, também, que ficariam felizes de atrair a atenção de um Cavaleiro. Você não terá nenhum trabalho para encontrar uma mulher para casar entre todas as belas da Alagaësia.
— E o que você teria feito se Katrina tivesse rejeitado suas pretensões?
A pergunta deixou Roran mudo. Ficou evidente que ele não conseguiria imaginar como poderia ter reagido.
Eragon prosseguiu, então:
— Ao contrário do que você, Arya e todas as outras pessoas parecem imaginar, eu tenho consciência de que outras mulheres aceitáveis existem na Alagaësia e de que é sabido que as pessoas se apaixonam mais de uma vez. Sem dúvida, se eu passasse meu tempo na companhia das damas da corte do rei Orrin, eu poderia de fato decidir que me interesso por uma. Mas meu caminho não é assim tão fácil. Mesmo que eu consiga desviar meu afeto para outra... e, como você observou, o coração é uma fera reconhecidamente volúvel... ainda permanece a pergunta: será que eu deveria?
— Sua língua se tornou tão retorcida como as raízes de um abeto — disse Roran. — Não me venha com charadas.
— Está bem. Que mulher humana tem como começar a entender quem e o que eu sou, ou a extensão dos meus poderes? Quem poderia compartilhar minha vida? Poucas, e todas elas magas. E, desse grupo seleto, ou mesmo entre as mulheres em geral, quantas são imortais?
Roran deu uma gargalhada, um rugido áspero, espontâneo, que reverberou na ravina.
— Isso seria pedir demais, ou... — Ele de repente parou, retesou-se como se estivesse prestes a saltar para a frente e então ficou extraordinariamente imóvel. — Você não pode ser...
— Sou.
— É resultado da sua transformação em Ellesméra — perguntou Roran, procurando pelas palavras adequadas — ou faz parte de ser Cavaleiro?
— Faz parte de ser Cavaleiro.
— Isso explica por que Galbatorix não morreu.
— Isso mesmo.
O galho que Roran jogou na fogueira estourou com um estalo discreto, as brasas por baixo dele aqueceram o pedaço de madeira retorcida até que uma pequena reserva de água ou de seiva que de algum modo tinha escapado aos raios do sol por décadas sem conta transformou-se em vapor e explodiu.
— A ideia é tão... extraordinária que chega a ser quase inconcebível — disse Roran. — A morte é parte de quem nós somos. Ela nos guia. Ela nos molda. Ela nos leva à loucura. Será que ainda se pode ser humano quando não se tem um fim mortal?
— Não sou invencível — ressaltou Eragon. — Ainda posso ser morto por uma espada ou uma flecha. E ainda posso contrair uma doença incurável.
— Mas se você evitar esses perigos, viverá para sempre.
— Se eu os evitar, sim. Saphira e eu perduraremos.
— Parece ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.
— É. Em sã consciência, não posso me casar com uma mulher que vai envelhecer e morrer enquanto eu me mantenho imune ao tempo. Uma experiência dessas seria igualmente cruel para nós dois. Ainda por cima, considero bastante deprimente a ideia de desposar uma mulher depois da outra ao longo dos séculos.
— Você tem como tornar alguém imortal por meio de magia? — perguntou Roran.
— Existe como escurecer cabelos brancos, alisar a pele enrugada e eliminar cataratas. Caso se esteja disposto a um esforço extraordinário, pode-se dar a um homem de sessenta anos o corpo que ele possuía aos dezenove. Entretanto, os elfos nunca descobriram um modo de restaurar a mente de uma pessoa sem destruir suas lembranças. E quem vai querer apagar sua identidade de tantas em tantas décadas em troca da imortalidade? Na realidade, seria um desconhecido que continuaria a viver. Um cérebro velho num corpo jovem também não seria uma solução; pois, mesmo com a melhor saúde, aquilo de que nós humanos somos feitos consegue durar somente um século, talvez um pouco mais. Também é impossível impedir o envelhecimento de alguém. Isso causaria uma quantidade de problemas diferentes... Ah, os elfos e os homens já fizeram mil e uma tentativas diferentes para enganar a morte, mas nenhuma teve êxito.
— Em outras palavras — disse Roran —, é mais seguro para você amar Arya do que deixar seu coração livre ao alcance de uma mulher humana.
— Com quem mais eu poderia me casar a não ser com uma elfa? Especialmente, levando em consideração minha aparência atual. — Eragon sufocou o impulso de levantar a mão e tocar as pontas curvas das orelhas, hábito que tinha adquirido. — Quando eu estava em Ellesméra, foi fácil aceitar o modo pelo qual os dragões tinham mudado meu aspecto. Afinal de contas, eles me concederam muitos dons. Depois do Agaetí Blödhren, os elfos também se tornaram mais amáveis comigo. Foi só quando voltei para os Varden que me dei conta de como me tornei diferente... Isso também me perturba. Já não sou simplesmente humano, e não chego a ser bem um elfo. Sou alguma outra coisa intermediária: um mestiço, um meio-sangue.
— Anime-se! — disse Roran. — Pode ser que você não precise se preocupar com essa história de viver para sempre. Galbatorix, Murtagh, os Ra’zac ou até mesmo um dos soldados do Império poderia nos atravessar com uma lâmina de aço a qualquer instante. Um homem sábio deixaria o futuro para lá e trataria de beber e se divertir enquanto ainda tem uma oportunidade de aproveitar a vida neste mundo.
— Eu sei o que nosso pai responderia ao que você está dizendo.
— E para completar nos daria uma boa surra.
Eles riram juntos, e então o silêncio que tantas vezes se intrometeu em sua conversa voltou a se afirmar: um abismo gerado em partes iguais pelo cansaço, familiaridade e, inversamente, pelas inúmeras diferenças que o destino tinha criado entre aqueles dois que antes levavam vidas que não passavam de variações de uma única melodia.
Vocês deveriam dormir, disse Saphira a Eragon e a Roran. Já é tarde, e amanhã precisamos acordar cedo.
Eragon olhou para a abóbada negra do céu, avaliando a hora pela distância percorrida pelas estrelas. A noite estava mais avançada do que esperava.
— Bom conselho — disse ele. — Eu só queria que tivéssemos mais alguns dias de descanso antes de invadirmos Helgrind. A batalha na Campina Ardente esgotou as forças de Saphira e as minhas, e ainda não nos recuperamos plenamente, com o voo até aqui e a energia que transferi para o cinto de Beloth, o Sábio, nestas duas últimas noites. Meus braços e pernas ainda doem, e tenho mais contusões do que consigo contar. Olhe...
Desfazendo os nós no punho da manga esquerda da camisa, ele afastou o lámarae macio – um tecido que os elfos faziam entremeando fios de lã e de urtiga – para revelar uma faixa de um amarelo rançoso, no lugar em que seu escudo tinha ficado imprensado contra o antebraço.
— Ah! — disse Roran. — Você chama essa marquinha de nada de contusão? Eu me machuquei mais que isso quando dei uma topada com o dedão hoje de manhã. Aqui, vou lhe mostrar um hematoma do qual um homem pode se orgulhar. — Ele desamarrou a bota esquerda, arrancou-a e arregaçou a perna da calça para expor uma lista preta da largura do polegar de Eragon que atravessava o quadríceps de um lado a outro. — Bati no punho da lança de um soldado quando estava dando meia-volta.
— Impressionante, mas tenho outra ainda melhor. — Tirando a túnica pela cabeça, Eragon soltou a camisa de dentro da calça e se contorceu para que Roran pudesse ver a grande marca em suas costelas e a descoloração semelhante na barriga. — Flechas — explicou. Depois desnudou o antebraço direito, revelando uma contusão que combinava com a do outro braço, resultado de quando desviara uma espada com o braçal.
Agora Roran revelava uma coleção de manchas irregulares de um verde-azulado, cada uma do tamanho de uma moeda de ouro, que se estendia da axila esquerda até a base da coluna, consequência de ter caído em cima de uma confusão de pedras e armaduras com gravações em alto-relevo.
Eragon inspecionou as lesões e reprimiu um risinho.
— Ora, não passam de alfinetadas! Você se perdeu e acabou entrando numa roseira? Tenho uma aqui que causaria vergonha nessas suas. — Ele tirou as botas, levantou-se e deixou cair as calças, de modo que seu único traje eram. a camisa e a ceroula de lã. — Quero ver você superar essa — disse ele, apontando para a região interna das coxas. Uma combinação alucinada de cores manchava sua pele, como se Eragon fosse uma fruta exótica que estivesse amadurecendo em trechos irregulares desde o verde-maçã até um roxo pútrido.
— Epa — disse Roran. — Como isso aconteceu?
— Saltei de Saphira quando estávamos lutando com Murtagh e Thorn no ar. Foi assim que feri Thorn. Saphira conseguiu mergulhar abaixo de mim e me apanhar antes que eu chegasse ao chão, mas eu pousei no dorso dela com mais força do que pretendia.
Roran estremeceu e se encolheu ao mesmo tempo.
— E a lesão vai até...? — Ele não completou a pergunta, mas fez um gesto vago para cima.
— Infelizmente, sim.
— Sou forçado a admitir que essa é uma lesão notável. Você deveria se orgulhar. Já é um grande feito ferir-se desse modo; ainda mais nesse... lugar... em particular.
— Alegro-me por você lhe dar valor.
— Bem — disse Roran —, você até pode ter a contusão maior, mas os Ra’zac me causaram um ferimento que você não tem como superar, já que os dragões, pelo que entendi, removeram a cicatriz das suas costas. — Enquanto falava, ele despiu a camisa e se afastou um pouco, mais para perto do clarão pulsante das brasas.
Os olhos de Eragon se arregalaram antes que ele se controlasse e ocultasse seu choque por trás de uma expressão mais neutra. Ele se censurou pela reação exagerada, pensando, não pode ser tão ruim assim, mas quanto mais examinava Roran, mais consternado ficava. Uma longa cicatriz franzida, vermelha e lustrosa, envolvia o ombro direito de Roran, começando na clavícula e terminando logo depois do meio do braço. Estava óbvio que os Ra’zac tinham cortado parte do músculo e que as duas pontas não tinham conseguido se unir, pois uma protuberância terrível deformava a pele pouco abaixo da cicatriz, no local em que as fibras subjacentes tinham se recolhido sobre si mesmas. Mais acima, a pele estava afundada, formando uma depressão de mais de um centímetro de profundidade.
— Roran! Você devia ter me mostrado isso há dias! Eu não fazia ideia de que os Ra’zac o tivessem ferido com tanta gravidade... Você enfrenta alguma dificuldade para mover o braço?
— Não para o lado, nem para trás — disse Roran, fazendo uma demonstração. — Mas para a frente só consigo levantar a mão mais ou menos até a metade do peito. — Ele fez uma careta e abaixou o braço. — Mesmo isso, é com enorme esforço. Preciso manter o polegar nivelado para meu braço não ficar dormente. O melhor jeito que descobri é balançar o braço, vindo de trás, e deixar que ele pouse naquilo que eu estiver querendo pegar. Esfolei as juntas algumas vezes antes de dominar a técnica.
Eragon torceu o cajado entre as mãos.
Eu deveria?, perguntou ele a Saphira.
Acho que é seu dever. Podemos nos arrepender amanhã. Você terá mais motivos para se arrepender se Roran morrer por não ter conseguido brandir o martelo quando a ocasião exigia. Se você aproveitar os recursos ao nosso redor, poderá evitar esgotar-se mais ainda.
Você sabe que detesto fazer isso. Até falar sobre o assunto me faz passar mal.
Nossas vidas são mais importantes do que a de uma formiga, contrapôs Saphira.
Não para a formiga.
E por acaso você é uma formiga? Não seja hipócrita, Eragon. Não combina com você.
Com um suspiro, Eragon deixou o cajado no chão e acenou para Roran.
— Venha cá. Eu curo isso para você.
— Você tem como fazer isso?
— Claro que sim.
Uma onda momentânea de empolgação iluminou o rosto de Roran, mas depois ele hesitou e pareceu preocupado.
— Agora? Isso é prudente?
— Como Saphira disse, é melhor eu cuidar de você enquanto tenho a oportunidade, para que esse seu ferimento não custe sua vida nem ponha em perigo a todos nós.
Roran aproximou-se, e Eragon pôs a mão direita sobre a cicatriz vermelha enquanto, ao mesmo tempo, expandia sua consciência para abranger as árvores, as plantas e os animais que habitavam a ravina, com exceção do que ele temesse serem fracos demais para sobreviver ao encantamento. Eragon começou então a cantar na língua antiga. O encantamento que recitou era longo e complexo. Reparar um ferimento daqueles ia muito além de fizer crescer pele nova; e, na melhor das hipóteses, era uma tarefa difícil. Para isso, Eragon contou com as fórmulas de cura que tinha estudado em Ellesméra e que tinha dedicado tantas semanas para decorar.
A marca prateada na palma da mão de Eragon, a gedwëy ignasia, brilhava incandescente enquanto a magia era liberada. Um segundo depois, ele emitiu um gemido involuntário ao morrer três vezes, uma vez com cada um de dois passarinhos empoleirados num zimbro próximo e também com uma cobra escondida entre as rochas.
Diante dele, Roran jogou a cabeça para trás e expôs os dentes num uivo mudo à medida que o músculo de seu ombro saltava e se contorcia por baixo da superfície da pele em transformação. E então terminou.
Trêmulo, Eragon respirou fundo e descansou a cabeça nas mãos, aproveitando a cortina que elas lhe forneciam para enxugar as lágrimas antes de examinar o resultado de seu trabalho. Viu Roran movimentar os ombros algumas vezes, estender os braços e girá-los livremente.
Os ombros de Roran eram grandes e redondos, resultado de anos passados cavando buracos para mourões de cerca, arrastando pedras e carregando carroças de feno. Apesar de seu controle, Eragon sentiu uma pontada de inveja. Ele podia ser mais forte, mas nunca tinha sido tão musculoso quanto o primo.
Roran deu um largo sorriso.
— Está bom como sempre! Talvez melhor. Obrigado.
— Não há de quê.
— Foi muito estranho. Eu realmente me senti como se estivesse prestes a sair do meu corpo. E a coceira foi terrível. Eu mal consegui segurar a vontade de arrancar...
— Pode me apanhar um pouco de pão no seu alforje, por favor? Estou com fome.
— A gente acabou de jantar.
— Preciso comer alguma coisa depois de usar esse tipo de magia. — Eragon fungou e apanhou o lenço para limpar o nariz. Fungou mais uma vez. O que tinha dito não era a pura verdade. O que o perturbava era o preço que seu encanto tinha extraído da fauna, não a magia em si, e ele receava vomitar a menos que pusesse alguma coisa no estômago para acalmá-lo.
— Você não ficou doente, ficou? — perguntou Roran.
— Não. — Com a lembrança das mortes que tinha causado ainda lhe pesando na mente, Eragon estendeu a mão para o pote de hidromel a seu lado, na esperança de rechaçar uma onda de pensamentos mórbidos.
Alguma coisa muito grande, pesada e afiada bateu na sua mão e a prendeu no chão. Ele se encolheu e olhou, para ver a ponta de uma das garras de marfim de Saphira se enterrando na sua carne. Sua pálpebra espessa deu um estalido quando piscou veloz pela íris enorme e cintilante que Saphira fixava nele. Depois de um tempo, ela ergueu a garra, como uma pessoa ergueria um dedo, e Eragon retirou sua mão. Ele engoliu em seco e agarrou o cajado de espinheiro mais uma vez, lutando para desviar a atenção do hidromel e se concentrar no que era imediato e tangível, em vez de mergulhar numa introspecção desoladora.
Roran tirou dos alforjes uma metade irregular de um pão caseiro, parou um pouco e, com a sombra de um sorriso, fez um oferecimento.
— Você não prefere um pouco de carne de veado? Não terminei a minha. — Ele estendeu o espeto improvisado de madeira crestada de zimbro, no qual estavam enfiados três nacos de carne dourada.
Ao olfato sensível de Eragon, o aroma que vinha na sua direção era forte e picante, fazendo com que se lembrasse de noites que tinha passado na Espinha e de longos jantares de inverno nos quais ele, Roran e Garrow tinham se reunido em torno do fogão para desfrutar da companhia uns dos outros enquanto uma nevasca uivava lá fora. Ficou com água na boca.
— Ainda está quente — disse Roran, balançando o espeto de carne diante de Eragon.
Eragon abanou a cabeça, fazendo um esforço para recusar.
— Basta me dar o pão.
— Tem certeza? Está perfeita: nem dura nem macia demais, preparada com a quantidade certa de temperos. A cada mordida, ela está tão suculenta que é como se você estivesse engolindo um bocado do melhor ensopado de Elam.
— Não, não posso.
— Você sabe que vai gostar.
— Roran, pare de me provocar e me passe esse pão!
— Ah, viu? Você já está melhor. Vai ver que o que você precisa não é de pão, mas de alguém que o deixe com raiva, né?
Eragon lançou um olhar furioso para ele e então, mais rápido do que o pensamento, arrancou o pão das mãos de Roran. Isso pareceu divertir Roran ainda mais.
— Não sei como você consegue sobreviver comendo não mais do que frutas, pão e legumes — disse ele, enquanto Eragon atacava o pão. — Um homem precisa comer carne se quiser manter as forças. Você não sente falta?
— Mais do que você possa imaginar.
— Então por que você insiste em se torturar desse modo? Cada criatura neste mundo precisa comer outros seres vivos, mesmo que sejam simples plantas, para poder sobreviver. Foi assim que fomos feitos. Por que tentar desafiar a ordem natural das coisas?
Eu disse praticamente o mesmo em Ellesméra, observou Saphira, mas ele não me deu ouvidos.
Eragon deu de ombros.
— Já tivemos essa discussão. Você faça o que quiser. Não vou dizer para você nem para mais ninguém como viver. Mas não posso em sã consciência comer um animal cujos pensamentos e sentimentos compartilhei.
A ponta da cauda de Saphira se contraiu, e suas escamas reuniram contra uma protuberância de rocha desgastada ali no chão. Ai, ele não tem jeito.
Levantando e esticando o pescoço, Saphira abocanhou a carne de veado, com espeto e tudo, da outra mão de Roran. Quando ela mordeu, a madeira rachou entre seus dentes serrilhados e então desapareceu nas profundezas abrasadoras da sua barriga.
HummmVocê não estava exagerando, disse ela a Roran. Que petisco mais gostoso: tão macio, tão salgadinho, tão deliciosamente saboroso que me dá vontade de me sacudir de prazer. Você deveria cozinhar para mim com mais frequência, Roran Martelo Forte. Só que da próxima vez, acho que deveria preparar alguns cervos inteiros. Se não, a refeição não será suficiente para mim.
Roran hesitou, como se não conseguisse decidir se o pedido de Saphira era sério e, se fosse, como ele poderia se livrar com cortesia de uma obrigação tão imprevista e trabalhosa. Lançou um olhar de súplica na direção de Eragon, que caiu na gargalhada, tanto com a expressão de Roran quanto com a enrascada em que se metera. A sonora risada de Saphira subiu e desceu, juntando-se à de Eragon e reverberando pela grota. Seus dentes reluziam num vermelho de garança à luz dos tições.


Uma hora depois que os três tinham se recolhido, Eragon estava deitado de costas ao lado de Saphira, com camadas de cobertores a protegê-lo do frio da noite. Tudo estava parado e em silêncio. A impressão era a de que um mágico havia lançado um encantamento sobre a terra e tudo neste mundo estivesse preso num sono eterno, em que permaneceria congelado e imutável para todo o sempre, sob o olhar vigilante das estrelas que cintilavam. Sem se mexer, Eragon sussurrou mentalmente: Saphira?
Sim, pequenino?
E se eu estiver com a razão e ele estiver em Helgrind? Não sei o que deveria fazer nesse caso... Diga-me como deveria agir.
Não posso, pequenino. Essa é uma decisão que você precisa tomar sozinho. Os costumes dos homens não são os costumes dos dragões. Eu arrancaria sua cabeça e me banquetearia com seu corpo, mas acho que isso pareceria errado para você.
Você vai me apoiar, qualquer que seja minha decisão?
Sempre, pequenino. Agora descanse. Vai dar tudo certo.
Reconfortado, Eragon ficou olhando para o vazio entre as estrelas e desacelerou a respiração à medida que entrava no transe que tinha substituído o sono para ele. Ele permanecia consciente das proximidades, mas à frente do pano de fundo das constelações brancas, os vultos de seus devaneios avançavam e representavam peças confusas e sombrias, como era seu costume.

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