3 de junho de 2017

Capítulo 19 - Presentes de ouro

Eragon estava em pé ao lado de Saphira, a cinquenta metros do pavilhão carmesim de Nasuada.
Feliz por estar livre de toda a agitação em torno de Elva, levantou o olhar em direção ao límpido céu azul e fez um movimento com os ombros, já cansado dos eventos do dia. Saphira tinha a intenção de voar até o rio Jiet para se banhar em suas águas profundas e tranquilas, mas as intenções de Eragon eram mais indefinidas. Ainda estava precisando passar óleo em sua armadura, preparar-se para o casamento de Roran e Katrina, visitar Jeod, arranjar uma espada decente e também... Coçou o queixo.
Quanto tempo você estará fora?, perguntou ele.
Saphira abriu as asas em preparação para o voo.
Algumas horas. Estou faminta. Assim que estiver limpa, vou pegar uns dois ou três desses veados gorduchos que vi mastigando grama na margem oeste do rio. Mas os Varden caçaram tantos deles que talvez eu tenha de voar mais alguns quilômetros em direção à Espinha para encontrar alguma caça digna de ser abatida.
Não vá tão longe, aconselhou ele, ou poderá encontrar forças do Império.
Não vou, mas se eu cruzar com um grupo de soldados solitários... Ela lambeu os beiços. Bem que eu gostaria de um combate rápido. Além disso, o sabor dos humanos é tão bom quanto o dos veados.
Saphira, você não faria isso!
Os olhos dela brilharam. Talvez sim, talvez não. Vai depender de estarem usando armaduras ou não. Odeio morder metal, e arrancar minha comida de dentro de uma concha também é muito desagradável.
Entendo. Ele olhou de relance para o elfo mais próximo, uma mulher alta de cabelo prateado. Os elfos não vão permitir que você vá sozinha. Você permite que dois deles montem em você? Do contrário, vai ser impossível eles manterem seu ritmo.
Hoje não. Hoje eu vou caçar sozinha! Ela sacudiu as asas e decolou, pairando alto no céu. Ao tomar a direção oeste, para o rio Jiet, sua voz soou na mente dele, mais fraca por causa da distância. Quando eu voltar, nós vamos voar juntos, não vamos, Eragon?
Sim, quando você voltar, vamos voar juntos, só nós dois. O prazer que ela demonstrou ao ouvir aquilo fez com que ele sorrisse enquanto a observava voar como uma flecha rumo a oeste.
Eragon baixou os olhos quando Blödhgarm correu até ele, ágil como um gato selvagem. O elfo perguntou para onde Saphira estava indo e pareceu ter ficado insatisfeito com a resposta de Eragon, mas se tinha alguma objeção manteve consigo.
— Certo — disse Eragon para si quando Blödhgarm juntou-se novamente a seus companheiros. — Primeiro as coisas principais.
Perambulou pelo acampamento até encontrar um grande quadrado descampado onde uns trinta Varden estavam praticando o uso de uma variedade de armas. Para seu alívio, estavam muito ocupados treinando para reparar na sua presença. Agachou-se e colocou a palma da mão direita para cima sobre a terra pisada. Escolheu as palavras da língua antiga que precisaria e murmurou:
— Kuldr, reisa lam iet un malthinae unin böllr.
O solo ao lado de sua mão parecia quieto, embora ele pudesse sentir o encanto remexendo a terra por dezenas de metros em todas as direções. Em não mais do que cinco segundos, a superfície da terra começou a cozinhar como uma panela de água esquecida sobre o fogo, adquirindo um brilho amarelo. Eragon aprendera com Oromis que independentemente do local onde uma pessoa está, a terra certamente conterá minúsculas partículas de quase todos os elementos, e apesar de serem muito pequenos e espalhados demais para serem extraídos pelo método tradicional, o mago experiente poderia, com grande esforço, retirá-los. Do centro do local amarelado, uma fonte de terra resplandecente começou a jorrar para a palma da mão de Eragon. Lá, cada grão de poeira brilhante se grudou em outro até que três esferas de ouro puro, cada uma do tamanho de uma avelã graúda, apareceram em sua mão.
— Letta — disse Eragon, e lançou a magia.
Sentou-se sobre os calcanhares e abraçou-se contra o chão ao ser inundado por uma onda de cansaço. Sua cabeça pendeu para a frente, suas pálpebras fecharam-se quase por inteiro e sua visão tremeluziu e fraquejou. Respirou fundo e contemplou as esferas lisas como espelhos em sua mão enquanto esperava sua força retornar.
Tão bonitinhas, pensou ele. Se ao menos eu pudesse ter feito isso quando estávamos morando no vale Palancar... Seria até mais fácil extrair o ouro. Um encanto não me sugava tanta energia desde que eu carreguei Sloan do topo de Helgrind até o chão.
Embolsou o ouro e seguiu em direção ao acampamento. Encontrou uma tenda-cozinha e comeu um farto almoço, do qual estava bastante necessitado depois de lançar tantos encantos árduos. Então, encaminhou-se para a área onde os aldeões de Carvahall estavam acampados. Assim que se aproximou, ouviu o som de metal batendo contra metal. Curioso, foi naquela direção.
Eragon passou em torno de urna fileira de carroças estacionadas ao longo da entrada da ruela e viu Horst, em pé em um intervalo de nove metros entre as tendas, segurando uma das extremidades de uma barra de aço de mais ou menos um metro e meio. A outra extremidade da barra era de um vermelho vivo e descansava sobre uma enorme bigorna de mais ou menos oitenta quilos, fincada no topo de um cepo largo e baixo. De cada lado da bigorna, os filhos massudos de Horst, Albriech e Baldor, se revezavam em acertar o aço com martelos que lançavam de cima de suas cabeças em robustos golpes circulares. Uma forja improvisada brilhava alguns metros atrás da bigorna. As marteladas eram tão barulhentas que Eragon manteve distância até que Albriech e Baldor tivessem terminado de malhar o aço e Horst tivesse colocado a barra de volta à forja.
Acenando com seu braço livre, Horst disse:
— Oi, Eragon! — Então ergueu um dedo, antecipando a resposta do Cavaleiro, e puxou um pino de lã felpuda da orelha esquerda: — Ah, agora eu consigo ouvir novamente. O que o traz aqui, Eragon?
Enquanto falava, seus filhos pegaram mais carvão em um balde, jogaram na forja e começaram a arrumar as pinças, martelos, moldes e outras ferramentas que estavam no chão. Os três homens estavam encharcados de suor.
— Queria saber o que estava causando tamanha agitação — disse Eragon. — Devia ter imaginado que só podia ser você. Ninguém, a não ser alguém de Carvahall, pode criar um tumulto tão grande.
Horst riu até sua alegria se esgotar, sua espessa barba em pontas apontando para o céu.
— Ah, isso desperta meu orgulho, se desperta! E não é que você é a verdade viva disso?
— Bem, somos — respondeu Eragon. — Você, eu, Roran, todos de Carvahall. A Alagaësia jamais será a mesma quando não existirmos mais. — Fez um gesto na direção da forja e dos outros equipamentos. — Por que vocês estão aqui? Pensei que todos os ferreiros estivessem...
— Estão, Eragon. Estão. Mas eu convenci o capitão encarregado dessa parte do acampamento a me deixar trabalhar perto de nossa tenda. — Horst passou a mão na ponta da barba. — E por causa de Elain, você sabe. Essa criança, as coisas não vão bem para ela, e não é nenhuma surpresa, considerando tudo o que nós passamos para chegar aqui. Ela sempre foi delicada, e agora eu me preocupo com... bem... — Ele se balançou como um urso se livrando de moscas. — Talvez você pudesse dar uma olhada quando tiver uma chance, e ver se consegue aliviar o desconforto dela.
— Farei isso — prometeu Eragon.
Com um grunhido de satisfação, Horst retirou a barra da brasa para examinar melhor a cor do aço. Mergulhando-a de volta ao centro do fogo, moveu a barba na direção de Albriech.
— Agora, coloca um pouco de ar. Já está quase pronto. — Quando Albriech começou a inflar os foles de couro, Horst deu um sorrisinho na direção de Eragon. — Quando eu contei para os Varden que era ferreiro, eles ficaram tão contentes que alguém poderia até imaginar que eu era outro Cavaleiro de Dragão. Eles não têm metalúrgicos suficientes, você sabe. E eles me deram todas as ferramentas que me faltavam, incluindo aquela bigorna. Quando saímos de Carvahall, eu chorei com a perspectiva de nunca mais praticar novamente meu ofício. Não sou especialista em espada, mas aqui, ah, aqui tem trabalho suficiente para manter Albriech, Baldor e a mim ocupados pelos próximos cinquenta anos. O pagamento não é tão bom, mas pelo menos não estamos esticados em algum ecúleo nos calabouços de Galbatorix.
— Ou os Ra’zac poderiam estar mastigando nossos ossos — observou Baldor.
— Isso também. — Horst fez um gesto para seus filhos pegarem, novamente o martelo e, então, segurando o pino de feltro ao lado da orelha esquerda, disse: — Deseja algo mais, Eragon? O aço está pronto, e eu não posso deixá-lo por mais tempo no fogo sem enfraquecê-lo.
— Você sabe onde está Gedric?
— Gedric? — O sulco entre as sobrancelhas de Horst se acentuou. — Ele deveria estar praticando com a espada e a lança com os outros homens, a uns quatrocentos metros daqui, naquela direção. — Horst apontou com o polegar.
Eragon agradeceu e partiu na direção que Horst havia indicado. Recomeçara o barulho repetitivo de metal contra metal, límpido como o repique de um sino, agudo e penetrante como uma agulha de vidro golpeando o ar. Eragon cobriu os ouvidos e sorriu. Ficou reconfortado por Horst ter recuperado sua determinação e porque, embora houvesse perdido sua fortuna e seu lar, ainda era a mesma pessoa que Eragon conhecera em Carvahall. De alguma maneira, a confiança e a resistência do ferreiro renovaram sua crença de que, se ao menos pudessem depor Galbatorix, tudo terminaria bem no final, e sua vida e dos aldeões de Carvahall voltariam a ter a aparência de normalidade.
Eragon logo chegou ao campo onde os homens de Carvahall estavam praticando com suas novas armas. Gedric estava lá, como Horst havia sugerido, treinando com Fisk, Darmmen e Morn. Uma rápida palavra de Eragon bastou para que o veterano de armadura que estava liderando o treinamento permitisse um temporário desligamento de Gedric. O curador correu na direção de Eragon e postou-se à sua frente, olhando para o chão. Ele era baixo e escuro. Possuía a mandíbula de um mastim, pesadas sobrancelhas e braços espessos e deformados de tanto mexer nos malcheirosos tonéis onde curtia suas peles. Embora estivesse longe de ser bem-apessoado, Eragon sabia que ele era um homem gentil e honesto.
— O que posso fazer por você, Matador de Espectros? — murmurou Gedric.
— Você já fez. E eu vim aqui para agradecer-lhe e recompensá-lo.
— A mim? Como eu o ajudei, Matador de Espectros? — Ele falava lenta e cautelosamente, como se temesse uma armadilha da parte de Eragon.
— Logo depois que eu fugi de Carvahall, você descobriu que alguém havia roubado três peles de boi do barracão de secagem perto dos tonéis. Estou certo?
O rosto de Gedric transparecia constrangimento, e ele mexia os pés sem parar.
— Ah, bem, eu não tranquei aquele barracão, você sabe. Alguém pode ter entrado e carregado aquelas peles. Além do mais, com tudo o que aconteceu desde então, eu não consigo ver tanta importância nisso. Destruí grande parte de meu estoque antes de nos aquartelarmos na Espinha para impedir que o Império e aqueles Ra’zac nojentos colocassem suas garras em alguma coisa utilizável. Quem quer que tenha levado aqueles couros me livrou de ter de destruir três a mais. Então, o que passou, passou. Deixa estar.
— Talvez — disse Eragon —, mas eu ainda me sinto no dever de lhe contar que fui eu quem roubou suas peles.
Então, Gedric olhou para ele como se ele fosse uma pessoa comum. Olhou sem medo, adoração ou respeito indevido. Era como se o curtidor estivesse reavaliando sua opinião a respeito de Eragon.
— Eu as roubei, e não tenho orgulho disso, mas eu precisava das peles. Sem elas, duvido que tivesse sobrevivido para alcançar os elfos em Du Weldenvarden. Eu sempre preferi pensar que havia tomado de empréstimo as peles, mas a verdade é que eu as roubei e não tinha nenhuma intenção de devolvê-las. Assim, peço-lhe desculpas. E já que continuo com as peles, ou com o que restou delas, parece que a única coisa certa a fazer é pagar por elas. — De dentro do cinto, Eragon removeu uma das esferas de ouro, dura, redonda e morna devido ao calor de seu corpo, e entregou a Gedric.
Gedric olhou para a reluzente esfera de metal, sua enorme mandíbula cerrada, as rugas em torno de sua boca de lábios finos, rígidas e inflexíveis. Ele não insultou Eragon sopesando a pedra em sua mão, nem mordendo-a, mas quando resolveu falar, disse:
— Não posso aceitar isso, Eragon. Eu era um bom curtidor, mas o couro que eu fazia não valia tanto. Sua generosidade é muita, mas eu ficaria aborrecido se ficasse com esse ouro. Eu não teria a sensação de ter ganhado isso.
Nem um pouco surpreso, Eragon disse:
— Você negaria a outro homem a oportunidade de regatear por um preço justo?
— Não.
— Bom. Então não vai poder me negar isso. A maioria das pessoas regateia para baixo. Nesse caso, eu escolhi regatear para cima, mas vou insistir com afinco, como se estivesse tentando poupar um punhado de moedas. Para mim, as peles valem cada grama desse ouro, e eu não lhe pagaria um cobre a menos, nem mesmo se você colocasse uma faca no meu pescoço.
Os dedos grossos de Gedric se fecharam em torno da esfera de ouro.
— Já que você insiste, não serei tão grosseiro a ponto de recusar. Ninguém poderá dizer que Gedric Ostvensson deixou a boa sorte escapar porque ele estava muito ocupado protestando a sua própria miséria. Meus agradecimentos. Matador de Espectros. — Ele colocou a esfera numa bolsinha em seu cinto e envolveu o ouro numa capa de lã para protegê-lo de arranhões. — Garrow fez um bom trabalho com você, Eragon. Ele fez um bom trabalho tanto com você quanto com Roran. Ele pode ter sido azedo como vinagre e duro e seco como uma rutabaga, mas os criou muito bem. Acho que ele ficaria orgulhoso de vocês.
Uma inesperada emoção apertou o peito de Eragon. Ao se virar para retornar à companhia dos outros homens, Gedric parou e disse:
— Se me permite perguntar, Eragon, por que aquelas peles foram tão importantes para você? Em que você as usou?
Eragon deu uma risada.
— Em que eu as usei? Bem, com a ajuda de Brom, eu fiz uma sela para Saphira com elas. Ela não a usa mais como antes, não depois que os elfos nos deram uma sela de dragão mais adequada, mas nos serviu muito bem em muitas enrascadas e combates. Inclusive na batalha de Farthen Dûr.
Estupefato, Gedric ergueu as sobrancelhas, expondo uma pele pálida que normalmente ficava escondida em dobras profundas. Como uma pedra de granito se partindo em dois, um amplo sorriso se espalhou por sua mandíbula, transformando suas feições.
— Uma sela! — disse ele, ofegante — Imagine! Eu curti o couro para a sela de um Cavaleiro! E não tem nada a ver com o que eu estava fazendo naquela época, não mesmo! Não, não um Cavaleiro, o Cavaleiro. O que vai finalmente subjugar o tirano! Se ao menos meu pai pudesse me ver agora! — Batendo os calcanhares, Gedric fez um pequeno improviso de dança. Com o sorriso imutável, fez uma mesura para Eragon e trotou de volta para seu lugar entre os aldeões, onde começou a contar sua história para todos que estavam por perto.
Ansioso para escapar antes que o povo se jogasse em cima dele, Eragon deslizou por entre as fileiras de tendas, satisfeito com o que conseguira realizar. Pode demorar um pouco, pensou ele, mas eu sempre acerto minhas dívidas.
Logo chegou a outra tenda, perto da extremidade leste do acampamento. Bateu no pilar entre as duas abas frontais. Com um som agudo, o frontão foi jogado para o lado e apareceu Helen, a esposa de Jeod, em pé na entrada. Ela olhou para Eragon com uma expressão fria.
— Você veio para falar com ele, suponho.
— Se ele estiver aqui.
O que Eragon sabia perfeitamente bem porque podia sentir a mente de Jeod com tanta clareza quanto a de Helen. Por um instante, ele pensou que a mulher pudesse negar a presença de seu marido, mas então ela deu de ombros e saiu da frente.
— Por que não entra, então?
Eragon encontrou Jeod sentado em um banquinho examinando uma coleção de pergaminhos, livros de papéis soltos que estavam empilhados sobre um catre desprovido de cobertores. Finos fios de cabelo pendiam na testa de Jeod, imitando a curva da cicatriz que ia do couro cabeludo até a têmpora esquerda.
— Eragon! — gritou ele, assim que o viu, as rugas de concentração em seu rosto tornando-se menos visíveis. — Bem-vindo, bem-vindo! — Ele apertou a mão de Eragon e em seguida lhe ofereceu o banquinho. — Aqui está, eu vou sentar no canto do catre. Não, por favor, você é nosso convidado. Gostaria de algo para comer ou para beber? Nasuada nos dá uma porção extra, então não se contenha por medo de nos deixar famintos por sua causa. Não é nada comparado ao que nós lhe servimos em Teirm, mas ninguém deve ir para a guerra esperando comer bem. Nem mesmo um rei.
— Uma xícara de chá seria ótimo — disse Eragon.
— Chá com biscoitos, então — Jeod olhou para Helen.
Helen arrancou a chaleira do chão, aconchegou-a sobre o colo, encaixou a abertura da bolsa de água no bico da panela e apertou. A chaleira reverberou com um leve rugido assim que a corrente líquida atingiu o fundo. Os dedos de Helen seguraram com firmeza a bolsa, restringindo o fluxo a um langoroso gotejar. Ela permaneceu assim, com a aparência distante de uma pessoa desempenhando uma tarefa desagradável à medida que as gotas de água batiam de maneira enlouquecida contra o fundo da chaleira.
Um sorriso de quem parece estar se desculpando iluminou o rosto de Jeod. Ele mirava um pedaço de papel ao lado do joelho enquanto esperava Helen terminar o processo. Eragon analisava um vinco no flanco da tenda. O bombástico gotejar continuou por mais uns três minutos. Quando a chaleira finalmente ficou cheia, Helen removeu a bolsa inflada do bico, pendurou-a em um gancho fincado no pilar central da tenda e foi embora às pressas.
Eragon ergueu uma sobrancelha para Jeod. Jeod abriu as mãos.
— Minha posição com os Varden não é tão proeminente quanto era o seu desejo, e ela me culpa por isso. Concordou em fugir de Teirm comigo na esperança de que, pelo menos é o que eu acho, Nasuada me colocasse entre seus conselheiros mais próximos, ou me desse terras e riqueza compatíveis com as de um lorde ou mesmo outra recompensa extravagante pela minha ajuda em roubar o ovo de Saphira há tantos anos. O que Helen não esperava era a vida simplória de um espadachim comum: dormir em uma tenda, fazer sua própria comida, lavar suas roupas e por aí vai. Não que riqueza e status sejam suas únicas preocupações, mas você precisa entender que ela nasceu em uma das famílias mais ricas do ramo de navegação em Teirm, e em nosso casamento eu não tive nenhum sucesso nas minhas empreitadas. Ela não está acostumada a tais privações, e ainda precisa enxergá-las com bons olhos. — Os ombros subiam e desciam alguns centímetros. — Minha esperança era que essa aventura, se é que isso merece um termo tão romântico, estreitasse as fissuras que se abriram entre nós nos últimos anos, mas, como sempre, nada nunca é tão simples quanto parece.
— Você acha que os Varden deveriam demonstrar mais consideração para com você? — perguntou Eragon.
— Para mim, não. Para Helen... — Jeod hesitou. — Eu quero que ela seja feliz. Minha recompensa foi escapar de Gil’ead com vida quando Brom e eu fomos atacados por Morzan, seu dragão e seus homens; foi a satisfação de saber que eu havia ajudado a dar um golpe certeiro em Galbatorix; foi retornar à minha vida anterior e ainda assim continuar ajudando a causa dos Varden; e foi casar com Helen. Essas foram as minhas recompensas, e estou mais do que contente com elas. Qualquer dúvida quanto a isso e eu teria sumido assim que vi Saphira voar por cima da fumaça da Campina Ardente. Contudo, não sei o que fazer a respeito de Helen. Mas, estou esquecendo, esses não são seus problemas. Eu não deveria jogá-los sobre você.
Eragon tocou um pergaminho com a ponta do indicador.
— Então me diga, por que tantos papéis? Você virou copista?
A questão divertiu Jeod.
— Pouquíssimo provável, embora o trabalho que eu faça seja frequentemente tão entediante quanto. Como fui eu que descobri a passagem secreta para o castelo de Galbatorix em Urû’baen e consegui trazer comigo alguns dos livros raros da biblioteca de Teirm, Nasuada me designou para procurar fraquezas similares nas outras cidades do Império. Se eu pudesse achar alguma menção de um túnel que passasse por baixo das muralhas de Dras-Leona, por exemplo, talvez pudéssemos evitar algum banho de sangue.
— Onde você está procurando?
— Em todos os lugares possíveis. — Jeod jogou para trás os fios de cabelo que pendiam de sua testa. — Histórias, mitos, lendas, poemas, canções, tratados religiosos; os escritos dos Cavaleiros, dos magos, dos peregrinos, de loucos, de potentados obscuros, de diversos generais, de qualquer pessoa que possa ter algum conhecimento de uma porta oculta ou de um mecanismo secreto ou algo dessa natureza que pudéssemos usar a nosso favor. A quantidade de material que tenho para garimpar é imensa, já que todas as cidades existem há centenas de anos, e algumas precedem inclusive a chegada dos humanos na Alagaësia.
— Há alguma probabilidade de você encontrar alguma coisa?
— Não, nenhuma. Nunca é provável que você tenha sucesso em fuçar os segredos do passado. Mas eu ainda posso conseguir, se tiver tempo suficiente. Não tenho dúvida de que o que eu estou procurando existe em cada uma das cidades; elas são muito velhas para não possuírem caminhos ocultos em suas muralhas. Entretanto, é outra questão totalmente diferente se existem ou não registros desses caminhos e se nós possuímos esses registros. Pessoas que sabem da existência de alçapões escondidos e coisas parecidas normalmente querem reter a informação. — Jeod agarrou um punhado de papéis perto dele e aproximou-os de seu rosto, então bufou e jogou os papéis para longe. — Estou tentando resolver charadas inventadas por pessoas que não queriam que elas fossem resolvidas.
Ele e Eragon continuaram conversando sobre outros assuntos menos importantes até que Helen reapareceu carregando três canecas fumegantes de chá de trevo-dos-prados. Quando Eragon aceitou sua caneca, reparou que a irritação da mulher parecia arrefecida, e ele imaginou se ela estivera ouvindo o que Jeod dissera a seu respeito. Ela estendeu a caneca a Jeod e, de algum lugar atrás de Eragon, pegou um pratinho com biscoitos e um potinho de mel. Então, afastou-se alguns passos e ficou encostada ao pilar central, bebericando sua caneca.
Como ditava a boa educação, Jeod esperou até que Eragon pegasse um biscoito do pratinho e consumisse um pedaço para dizer:
— A que devo o prazer de sua companhia, Eragon? A menos que eu esteja enganado, essa não é uma visita para passar o tempo.
Eragon bebericou o chá.
— Depois da batalha da Campina Ardente, eu prometi que lhe diria como Brom havia morrido. Foi por isso que eu vim.
Uma palidez acinzentada substituiu a cor nas bochechas de Jeod.
— Ah...
— Eu não preciso dizer, se você não quiser — falou rapidamente Eragon.
Com esforço, Jeod balançou a cabeça.
— Não, eu quero. Você apenas me pegou de surpresa.
Como Jeod não pediu a Helen que se retirasse, Eragon ficou na dúvida se deveria prosseguir, mas então decidiu que não importava se Helen ou qualquer outra pessoa ouvisse a história. Com uma voz lenta e determinada, Eragon começou a narrar os acontecimentos desde que ele e Brom saíram da casa de Jeod. Ele descreveu o encontro deles com o grupo de Urgals, a busca pelos Ra’zac em Dras-Leona, como os Ra’zac os haviam emboscado do lado de fora da cidade e como os Ra’zac haviam esfaqueado Brom enquanto fugiam do ataque de Murtagh.
A garganta de Eragon se comprimiu quando falou das últimas horas de Brom; da fria caverna de arenito onde se deitara; da sensação de desamparo que o acometera enquanto testemunhava o fim de Brom; do cheiro de morte que penetrara o ar seco; das últimas palavras de Brom; do túmulo de arenito que Eragon fizera com magia e de como Saphira o havia transformado em diamante puro.
— Se ao menos eu soubesse o que sei hoje — disse Eragon —, eu poderia tê-lo salvado. Ao contrário...
Incapaz de expulsar as palavras de sua garganta apertada, esfregou os olhos e bebeu o chá. Desejou uma bebida mais forte. Um suspiro escapou de Jeod.
— E assim Brom se foi. Pena que estejamos muito piores sem ele. Contudo, se pudesse escolher sua morte, acho que ele escolheria morrer assim mesmo, a serviço dos Varden, defendendo o último Cavaleiro de Dragão livre.
— Você estava ciente de que ele próprio havia sido um Cavaleiro?
Jeod assentiu com a cabeça.
— Os Varden me contaram antes de eu conhecê-lo.
— Ele parecia ser um homem que pouco revelava sobre si mesmo — observou Helen.
Jeod e Eragon riram.
— Ele realmente era assim — disse Jeod. — Eu ainda não superei o choque de ver você, Eragon, e ele em pé na soleira de nossa porta. Brom sempre manteve sua própria opinião, mas nós ficamos amigos íntimos quando viajamos juntos, e eu não consigo entender por que me levou a acreditar que estava morto havia quanto tempo? Dezesseis, dezessete anos? Muito tempo. E mais, como foi Brom que entregou o ovo de Saphira aos Varden depois de acabar com Morzan em Gil’ead, os Varden não podiam exatamente me contar que eles estavam com o ovo sem revelar que Brom ainda estava vivo. Então, eu passei a maior parte de duas décadas convencido de que a maior aventura de minha vida havia fracassado e que, como resultado, nós havíamos perdido nossa única esperança de ter um Cavaleiro de Dragão para nos ajudar a derrotar Galbatorix. Saber disso não foi uma carga leve, eu lhe garanto... — Com uma das mãos, Jeod esfregou a testa. — Quando eu abri nossa porta e percebi para quem eu estava olhando, pensei que os fantasmas de meu passado haviam vindo me assustar. Brom disse que se manteve escondido para garantir que ainda estaria vivo para treinar o novo Cavaleiro quando ele ou ela surgisse, mas sua explicação jamais me satisfez inteiramente. Por que era necessário que ele se afastasse de quase todos que conhecia ou gostava? Do que tinha medo? O que estava protegendo?
Jeod dedilhou a asa de sua caneca.
— Não tenho como provar, mas me parece que Brom deve ter descoberto alguma coisa em Gil’ead quando estava lutando contra Morzan e seu dragão, alguma coisa tão decisiva que o fez abandonar tudo o que era a sua vida até aquele momento. É uma conjectura, devo admitir, mas não consigo entender as ações de Brom a não ser postulando que havia um segredo que nunca compartilhou comigo nem com qualquer outra alma viva.
Novamente Jeod suspirou, e passou a mão por seu longo rosto.
— Depois de tantos anos separados, eu esperava que Brom e eu pudéssemos montar juntos novamente, mas parece que o destino tinha outras ideias. E perdê-lo uma segunda vez apenas duas semanas após descobrir que ainda estava vivo foi uma crueldade da vida. — Helen passou por Eragon e ficou ao lado de Jeod, tocando-o no ombro. Ele lhe ofereceu um sorriso amargo e passou um braço por sua cintura fina. — Estou contente por você e Saphira terem dado a Brom um túmulo que até mesmo um rei anão invejaria. Ele merecia isso e muito mais por tudo o que fez pela Alagaësia. Embora eu tenha a horrível suspeita de que assim que descobrirem seu túmulo, as pessoas não hesitarão era quebrá-lo para ficar com o diamante.
— Se fizerem isso, lamentarão — murmurou Eragon.
Ele estava decidido a voltar ao local na primeira oportunidade para colocar uma proteção em volta do túmulo de Brom para evitar a ação de ladrões de túmulos.
— Além disso, estarão muito ocupados caçando lírios de ouro para se preocuparem com Brom.
— O quê?
— Nada. Não é importante. — Os três bebericaram seus chás. Helen deu uma mordida em um biscoito. Então, Eragon perguntou: — Você se encontrou com Morzan, não?
— Não foram ocasiões das mais amigáveis, mas me encontrei com ele, sim.
— Como ele era?
— Como pessoa? Eu realmente não poderia dizer, embora esteja bastante familiarizado com relatos de suas atrocidades. Todas as vezes que Brom e eu cruzamos com ele, estava tentando nos matar. Ou melhor, nos capturar, torturar e depois nos matar. Em nenhuma das vezes foi possível estabelecer um relacionamento mais estreito. — Eragon estava concentrado demais para participar do humor do amigo. Jeod se mexeu no catre. — Como soldado, Morzan era aterrorizante. Nós passávamos uma boa parte de nosso tempo fugindo dele, se eu me lembro bem... dele e de seu dragão. Poucas coisas são tão assustadoras quanto ter um dragão enraivecido caçando você.
— Como era a aparência dele?
— Você parece excessivamente interessado nele.
Eragon pestanejou.
— Estou curioso. Ele foi o último dos Renegados a morrer, e Brom foi quem o matou. E agora o filho de Morzan é meu inimigo mortal.
— Deixe-me ver — disse Jeod. — Ele era alto, tinha ombros largos, seus cabelos eram escuros como as penas dos corvos, e seus olhos eram de cores diferentes. Um era azul e o outro era preto. Não tinha barba, e lhe faltava a ponta de um dos dedos, não sei qual. Bem-apessoado ele era, de um modo cruel e arrogante, e quando falava, era muito carismático. Sua armadura estava sempre brilhando de tão polida, fosse a malha ou o peitoral, como se não tivesse receio de ser avistado por algum inimigo, que eu suponho que não tivesse. Quando ria, parecia que estava sentindo dores.
— E a companheira dele, a mulher chamada Selena? Você também a conheceu?
Jeod riu.
— Se eu a tivesse conhecido, não estaria aqui hoje. Morzan pode ter sido um espadachim temível, um mago formidável e um traidor assassino, mas era aquela mulher dele que inspirava o maior terror sobre as pessoas. Morzan somente a usava para missões que eram tão repugnantes, difíceis ou secretas que ninguém mais concordaria em executá-las. Era sua Mão Negra, e sua presença sempre indicava morte iminente, tortura, traição ou algum outro terror. — Eragon sentiu-se mal ouvindo sua mãe sendo descrita daquela maneira. — Era completamente implacável, incapaz de sentir pena ou compaixão. Diziam que quando ela pediu para ingressar na equipe de Morzan, ele a testou ensinando-lhe a palavra que significa cura na língua antiga, já que ela era não só uma feiticeira como também uma combatente comum, e depois a obrigando a enfrentar doze de seus melhores espadachins.
— E como ela os derrotou?
— Ela os curou de seus temores e de seus ódios e de todas as coisas que levam alguém a matar. E então, enquanto estavam sorrindo uns para os outros como se fossem ovelhas idiotas, ela foi até eles e cortou-lhes as gargantas... Você está se sentindo mal, Eragon? Você está pálido como um cadáver.
— Estou bem. O que mais você lembra?
Jeod deu uma batidinha na caneca.
— Quase nada sobre Selena. Ela sempre foi um pouco enigmática. Inclusive, ninguém além de Morzan sabia seu nome até poucos meses antes da morte dele. Para o povo em geral, ela nunca foi nada além da Mão Negra; a Mão Negra que nós temos agora, a coleção de espiões, assassinos e mágicos que se encarregam das baixezas inescrupulosas de Galbatorix, é a tentativa que ele faz de recriar a utilidade que Selena tinha para Morzan. Mesmo entre os Varden, somente um punhado de pessoas conheciam seu nome, e a maioria delas está agora se desintegrando em suas covas. Se eu bem me lembro, foi Brom quem descobriu a verdadeira identidade dela. Antes que eu chegasse aos Varden com a informação concernente à passagem secreta para o castelo Ilirea, que os elfos construíram milhares de anos atrás e que Galbatorix expandiu para formar a cidadela negra que agora domina Urû’baen, antes que eu chegasse até eles, Brom já havia passado bastante tempo espionando a propriedade de Morzan na esperança de, quem sabe, desenterrar uma fraqueza sua até então insuspeitada... Acredito que Brom tenha conseguido acesso ao salão de Morzan disfarçando-se como membro da criadagem. Foi então que descobriu o que sabia sobre Selena. Mesmo assim, nós nunca soubemos por que ela era tão ligada a Morzan. Talvez o amasse. De qualquer maneira, era totalmente leal a ele, a ponto de morrer por ele. Logo depois de Brom matar Morzan, os Varden receberam notícias de que uma enfermidade a atacara. É como se o falcão amestrado gostasse tanto do mestre que não conseguisse viver sem ele.
Ela não era totalmente leal, pensou Eragon. Ela desafiou Morzan por minha causa, mesmo perdendo sua vida por conta disso. Se ao menos tivesse conseguido resgatar Murtagh também.
Quanto aos relatos de Jeod sobre suas maldades, Eragon escolheu acreditar que Morzan havia pervertido sua natureza essencialmente boa. Para manter sua própria sanidade, Eragon não podia aceitar que ambos os seus pais tivessem sido maléficos.
— Ela o amava — disse ele, mirando a borra densa no fundo da caneca. — No começo, ela o amava; talvez não muito no final. Murtagh é filho dela.
Jeod ergueu a sobrancelha.
— É mesmo? Você sabe disso da parte do próprio Murtagh, suponho? — Eragon assentiu. — Bem, isso explica inúmeras questões que eu sempre tive. Mãe de Murtagh... Estou surpreso por Brom não ter descoberto esse segredo específico.
— Morzan fez tudo o que pôde para ocultar a existência de Murtagh, até mesmo dos outros membros dos Renegados.
— Sabendo a história daqueles patifes inescrupulosos e sedentos de poder, provavelmente ele salvou a vida de Murtagh. O que também é uma pena.
Então, o silêncio pairou sobre eles, como um animal tímido pronto para fugir ao menor movimento. Eragon continuava mirando sua caneca. Uma série de questões o atazanava, mas sabia que Jeod não poderia responder a elas e era igualmente improvável que alguém pudesse: por que Brom se escondera em Carvahall? Para manter vigilância sobre Eragon, o filho de seu mais odiado inimigo? Teria sido alguma piada cruel ele lhe ter dado Zar’roc , a espada de seu pai? E por que Brom não lhe havia contado a verdade sobre seus pais? Apertou a caneca com mais força e, sem querer, despedaçou o objeto de cerâmica. Os três se assustaram com o inesperado barulho.
— Deixe-me ajudá-lo com isso — disse Helen, levantando-se rapidamente e passando um pano na túnica dele. Constrangido. Eragon desculpou-se várias vezes, mas eles lhe asseguraram que havia sido um pequeno acidente e que não havia com o quê se preocupar.
Enquanto Helen recolhia os cacos de cerâmica, Jeod começou a fuçar as camadas de livros, pergaminhos e papéis esparsos que cobriam a cama.
— Ah, já ia me esquecendo. Tenho algo para você, Eragon, que talvez seja de alguma utilidade. Se ao menos eu pudesse achar... — Com uma exclamação de satisfação, esticou o corpo e balançou um livro, para logo em seguida entregá-lo a Eragon. Era Domia abr Wyrda, o Domínio do Destino, uma história completa da Alagaësia escrita por Heslant, o Monge.
Eragon vira o volume pela primeira vez na biblioteca de Jeod em Teirm. Ele não esperava ter outra oportunidade para examiná-lo. Saboreando a sensação, passou as mãos por sobre o couro trabalhado da capa, que era brilhante devido à idade, e então abriu o livro e admirou a fileira organizada de runas nas páginas, em letras de forte tom vermelho. Maravilhado com tamanho acúmulo de conhecimento que tinha em suas mãos, Eragon quis saber:
— Você quer que fique com isso?
— Quero — assegurou Jeod. Ele saiu do caminho enquanto Helen recolhia um fragmento da caneca embaixo do catre. — Acho que você pode desfrutar dele. Você está engajado em eventos históricos, Eragon, e as raízes das suas dificuldades residem em acontecimentos que ocorreram décadas, séculos e milênios atrás. Se eu fosse você, aproveitaria todas as oportunidades para estudar as lições que a história tem a nos ensinar porque elas podem ajudar você com os problemas de hoje. Na minha vida, ler os registros do passado tem frequentemente me proporcionado a coragem e a lucidez para escolher o caminho correto.
Eragon estava ansioso para aceitar o presente, mas ainda hesitava.
— Brom dizia que Domia abr Wyrda era a coisa mais valiosa em sua casa. E também a mais rara... Mas e o seu trabalho? Você não necessita dele para suas pesquisas?
Domia abr Wyrda é valioso e é raro — começou Jeod — mas somente no Império, onde Galbatorix queima cada exemplar que encontra e enforca seus desafortunados donos. Aqui no acampamento, membros da corte do rei Orrin já me deram na surdina seis exemplares do livro, e isso dificilmente seria considerado por quem quer que fosse um grande centro de aprendizado. Entretanto, eu não me desfaço dele com facilidade, e só o faço porque lhe pode ser mais útil do que a mim. Livros deveriam estar onde vão ser mais apreciados e não permanecer onde jamais serão lidos, juntando poeira em uma prateleira esquecida, você não concorda?
— Concordo. — Eragon fechou Domia abr Wyrda e novamente percorreu as intricadas letras da capa com os dedos, fascinado com os desenhos tortuosos cinzelados no couro. — Obrigado. Eu o guardarei como um tesouro pelo tempo que permanecer em minhas mãos.
Jeod inclinou a cabeça e recostou-se contra a parede da tenda, parecendo satisfeito. Olhando para a borda do livro, Eragon examinou as letras.
— Heslant era monge do quê?
— Uma pequena e secreta seita chamada Arcaena que se originou na área perto de Kuasta. Sua ordem, que perdura há pelo menos quinhentos anos, acredita que todo conhecimento é sagrado. — Um indício de sorriso deu um ar misterioso ao rosto de Jeod. — Eles se dedicaram a coletar cada pedaço de informação existente no mundo e a preservá-los de um momento em que acreditam que uma catástrofe destruirá todas as civilizações da Alagaësia.
— Parece uma estranha religião — disse Eragon.
— E não são todas as religiões estranhas para aqueles que estão fora delas? — opôs-se Jeod.
Eragon disse:
— Eu também tenho um presente para você, ou melhor, para você, Helen. — Ela girou a cabeça, franzindo o cenho de um modo interrogativo. — Sua família era de mercadores, não era? — Ela balançou o queixo em concordância. — Você tinha familiaridade com os negócios?
Uma luz brilhou nos olhos de Helen.
— Se eu não tivesse casado com ele — ela indicou o marido com um ombro —, eu teria assumido o controle dos negócios da família quando da morte de meu pai. Eu era filha única, e meu pai me ensinou tudo o que sabia.
Isso era o que Eragon esperava ouvir. Para Jeod, ele disse:
— Você afirmou que estava contente com o que possui aqui com os Varden.
— E estou. Com quase tudo.
— Entendo. Entretanto, você se arriscou bastante para nos ajudar, a Brom e a mim. E se arriscou mais ainda para ajudar Roran e todos os outros de Carvahall.
— Os Piratas do Palancar.
Eragon deu uma gargalhada e continuou:
— Sem sua assistência, o Império certamente teria nos capturado. E por causa de seu ato de rebeldia, vocês dois perderam tudo o que lhes era mais caro em Teirm.
— Nós teríamos perdido tudo de qualquer maneira. Eu estava na falência e os Gêmeos haviam me delatado para o Império. Era apenas uma questão de tempo até lorde Rishart me prender.
— Talvez, mas você ainda ajudou Roran. Quem pode culpá-los por protegerem seus próprios pescoços ao mesmo tempo? O fato é que abandonaram suas vidas em Teirm para roubar o Asa de Dragão juntamente com Roran e os aldeões. E pelo sacrifício de vocês, eu serei sempre grato. Então, isso é uma parte de meus agradecimentos... — Deslizando um dedo por baixo do cinto, Eragon removeu a segunda das três esferas de ouro e presenteou Helen. Ela a encaixou na mão com a delicadeza de quem segura um filhote de pintarroxo. Enquanto ela olhava para a pedra com encanto e Jeod esticava o pescoço para ver por cima de sua mão, Eragon comentou: — Não é uma fortuna, mas se forem inteligentes saberão como fazê-la se multiplicar. O que Nasuada fez com aguardente me ensinou que existem grandes oportunidades para se prosperar em tempos de guerra.
— Ah, com certeza — deixou escapar Helen. — Guerras são o prazer dos mercadores.
— Para começar, Nasuada mencionou no jantar de ontem à noite que os anões estão com pouco estoque de hidromel e, como vocês facilmente suspeitariam, eles têm os meios para comprar quantos barris necessitarem, mesmo que o preço seja mil vezes o que era antes da guerra. Mas isso é apenas uma sugestão. Vocês podem achar outros mais desesperados ainda para negociar se procurarem com afinco.
Eragon cambaleou para trás quando Helen correu para abraçá-lo. Seus cabelos fizeram cócegas em seu queixo. Soltou-o, subitamente envergonhada, mas a excitação a atacou novamente e ela ergueu o glóbulo cor de mel na frente do nariz e disse:
— Obrigada, Eragon! Ah, muito obrigada! — Ela apontou para o ouro. — Isso eu posso usar. Sei que posso. Com isso, vou construir um império maior ainda do que o do meu pai. — A esfera brilhante desapareceu em seu pulso cerrado. — Você acredita que minha ambição excede minhas habilidades? Será como eu disse. Não fracassarei!
Eragon reverenciou-a.
— Espero que você tenha sucesso e que seu sucesso beneficie a todos nós.
Eragon reparou que veias salientes apareceram no pescoço de Helen quando ela fez uma mesura para dizer:
— Você é muito generoso. Matador de Espectros. Novamente lhe agradeço.
— Sim, obrigado — disse Jeod, levantando-se do catre. — Eu não posso imaginar que mereçamos isso — Helen lançou-lhe um olhar furioso, que ele ignorou —, mas, no entanto, é muito bem-vindo.
Improvisando, Eragon acrescentou:
— E para você, Jeod, seu presente não vem de mim, mas de Saphira. Ela concordou em deixar que você voe com ela quando ambos tiverem algumas horas livres.
Para Eragon era difícil compartilhar Saphira, e ele sabia que ela ficaria chateada por não ter sido consultada antes de disponibilizar seus serviços, mas depois de dar o ouro a Helen, ele teria se sentido culpado de não dar a Jeod algo com o mesmo valor. Um véu de lágrimas cobria os olhos de Jeod. Ele agarrou a mão de Eragon, apertou com firmeza e, sem soltar, disse:
— Não posso imaginar honra maior. Obrigado. Você não sabe o quanto está fazendo por nós.
Livrando-se do aperto de mão de Jeod, Eragon dirigiu-se para a abertura da tenda pedindo licença da forma mais educada que podia e se despedindo. Finalmente, após mais outra rodada de agradecimentos da parte deles e um humilde “Não foi nada”, ele conseguiu escapar.
Eragon sopesou Domia abr Wyrda e então olhou de relance para o sol. Não demoraria muito até que Saphira retornasse, mas ainda tinha tempo para resolver outra coisa. Primeiro, contudo, teria de dar uma passada em sua tenda; não queria correr o risco de estragar Domia abr Wyrda carregando-o consigo pelo acampamento.
Eu possuo um livro, pensou ele, deliciado. Saiu trotando com o livro agarrado ao peito enquanto Blödhgarm e os outros elfos seguiam logo atrás.

Um comentário:

  1. SÉRIO, Paolini fez um oteeeeemo trabalho com a coleção! tó nesse livro, apaixona pelos anteriores e ansiosa pelo último! simplesmente amei

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Boa leitura :)