24 de junho de 2017

Capítulo 19 - Meu amigo, meu inimigo

N

essa noite, o sono de Roran foi leve e agitado. Era-lhe
impossível descontrair-se totalmente, sabendo da importância
da batalha que se avizinhava e que era bem provável que fosse
ferido durante o combate, tal como acontecera tantas vezes. Esses
dois pensamentos criaram-lhe uma linha de tensão entre a cabeça e
a coluna que, em intervalos regulares, o arrancava de sonhos
sombrios e estranhos.
Consequentemente, não foi difícil acordar, ao ouvir uma pancada
suave e surda no exterior da tenda.
Abriu os olhos e fixou o retalho de tecido por cima da cabeça.
O interior da tenda só se via devido à ténue linha de luz alaranjada
das tochas, que se escoava pelo intervalo das palas da entrada.
Sentia o ar frio e parado na pele, como se estivesse enterrado numa
caverna, a grande profundidade. Fossem lá que horas fossem, era
tarde, muito tarde. Mesmo os animais noturnos já deviam ter
regressado aos seus covis para dormir. Ninguém devia estar
acordado, a não ser as sentinelas, e estas estavam bem longe da
sua tenda.
Roran manteve a respiração tão pausada e superficial quanto
possível, tentando ouvir outros ruídos. O ruído mais alto que
distinguia era o palpitar do próprio coração, que ficou mais forte e
mais acelerado ao sentir a tensão vibrar dentro de si, como uma
corda esticada de um alaúde.
Passou um minuto.
Depois outro.
E, finalmente, no instante em que começou a pensar que não
havia motivo de alarme e o latejar das veias começou a abrandar,
uma sombra escureceu a parte da frente da tenda, bloqueando a luz
das tochas.
A pulsação de Roran triplicou de intensidade. O coração
martelava-lhe o peito como se corresse pela encosta de uma
montanha. Fosse quem fosse que ali estava, não viera acordá-lo
para o ataque a Aroughs, nem trazer-lhe qualquer informação, pois
se assim fosse não teria hesitado em chamá-lo pelo nome e entrar
sem pedir licença.
Uma luva preta — que era apenas uma sombra mais escura que
as trevas em redor — deslizou por entre as palas da entrada,
tateando à procura do cordão que as prendia.
Roran abriu a boca para dar o alarme, mas depois mudou de
ideias. Seria estúpido desperdiçar a vantagem da surpresa. Além
disso se o intruso percebesse que fora visto, poderia entrar em
pânico o que o tornaria ainda mais perigoso.
Com a mão direita, Roran tirou cuidadosamente a adaga
debaixo da capa enrolada que usava como almofada, escondendo
a arma junto ao joelho, por baixo de uma prega do cobertor, e ao
mesmo tempo agarrou na ponta do cobertor, com a outra mão.
Um aro de luz dourada delineava a silhueta do intruso enquanto
este deslizava para o interior da tenda. Roran viu que o homem
usava uma jaqueta de couro, acolchoada, mas não trazia armadura
nem cota de malha. Depois a pala fechou-se e a escuridão
envolveu-os de novo.
A figura sem rosto avançou furtivamente para o local onde
Roran estava deitado.
Roran sentiu que iria desmaiar com falta de ar, se continuasse a
conter a respiração para parecer que ainda dormia.
Quando o intruso estava a meio caminho do catre, Roran
arrancou os cobertores, atirando-os para cima do homem, e saltou
na sua direção com um grito selvático, puxando a adaga para trás
para o apunhalar na barriga.
— Espera! — gritou o homem. Surpreendido, Roran conteve o
impulso da mão e juntos caíram no chão. — Amigo! Eu sou um
amigo!
Meio segundo depois, Roran arfou, sentindo dois duros golpes
no rim esquerdo. A dor quase o incapacitou, mas ele fez um
esforço para rebolar para longe do homem e manter alguma
distância.
Depois levantou-se e voltou a atacar o adversário, que ainda
lutava para se libertar do cobertor.
— Espera, eu sou teu amigo! — gritou o homem, mas Roran não
fazia tenções de confiar nele uma segunda vez. E ainda bem que
não, pois quando tentou golpear o intruso, este deu uma volta aos
cobertores e prendeu-lhe o braço direito com que empunhava a
adaga, tentando depois atacá-lo com uma faca que tirou da
jaqueta. Roran sentiu um leve puxão no peito, mas foi tão ligeiro
que não ligou.
Roran gritou, puxou o cobertor com todas as suas forças e
derrubou o homem, atirando-o contra um dos lados da tenda, que
acabou por tombar em cima deles, prendendo-os sob o pesado
tecido de lã. Roran sacudiu o cobertor torcido do braço e depois
arrastou-se em direção ao homem, tateando na escuridão.
A sola rija de uma bota atingiu a mão esquerda de Roran, pelo
que ele ficou com a ponta dos dedos dormente.
Atirando-se para a frente, Roran apanhou o homem por um
tornozelo enquanto este tentava virar-se de frente para ele. O
homem esperneou como um coelho e libertou-se de Roran, mas ele
voltou a agarrar-lhe no tornozelo e apertou-o através do cabedal
fino, enterrando-lhe os dedos no tendão, na parte de trás do
calcanhar, até o homem urrar de dor.
Antes que ele conseguisse recuperar, Roran amarinhou pelo
corpo do homem e prendeu-lhe a mão que empunhava a faca
contra o chão, tentando levá-la ao flanco do homem; mas foi
demasiado lento e o seu adversário agarrou-lhe o pulso,
prendendo-o firmemente.
— Quem és tu? — rosnou Roran.
— Sou teu amigo — disse o homem, projetando um hálito morno
no rosto de Roran. Cheirava a vinho e a cidra com especiarias.
Entretanto deu três joelhadas seguidas nas costelas de Roran.
Roran deu uma cabeçada no nariz do assassino, partindo-lho
com um estalido sonoro. O homem arreganhou os dentes e
debateu-se debaixo dele, mas Roran não o soltou.
— Tu... não és meu amigo — disse Roran, empurrando-lhe o
braço direito para baixo e levando lentamente a adaga ao seu
flanco. Enquanto lutavam, Roran teve a vaga sensação de ouvir
gente gritar no exterior da tenda caída.
Por fim, o braço do homem cedeu e a adaga trespassou-lhe a
jaqueta, mergulhando facilmente na carne viva e mole. O homem
teve uma convulsão e Roran esfaqueou-o mais algumas vezes, tão
rápida quanto pôde, enterrando-lhe depois a adaga no peito.
Roran sentiu as palpitações trémulas do coração do homem
através do punho da faca, ao cortá-lo em pedaços com a adaga
aguçada como uma lâmina. O homem estremeceu, sacudiu-se mais
duas vezes e depois parou de resistir, ficando simplesmente ali
caído, a ofegar.
Roran continuou a segurá-lo, num abraço tão íntimo como o de
dois amantes, enquanto a vida lhe fugia. Embora o homem o
tentasse matar e Roran não soubesse mais nada acerca dele, não
conseguiu deixar de se sentir terrivelmente próximo dele. Ali estava
outro ser humano — outra criatura viva e inteligente —, cuja vida
estava a acabar, à conta do que fizera.
— Quem és tu? — murmurou ele — Quem te mandou?
— Eu... eu quase te matei — disse o homem, com uma satisfação
perversa. A seguir deixou escapar um suspiro longo e cavernoso, o
seu corpo ficou inerte e morreu.
Roran deixou cair a cabeça para a frente, contra o peito do
homem, desesperado para respirar, tremendo da cabeça aos pés,
com os membros derreados pelo choque.
Alguém começou a puxar pelo tecido que ele tinha em cima.
— Tirem isto de cima de mim! — gritou Roran, agitando o braço
direito, incapaz de suportar mais o peso opressivo da lã, a
escuridão, o espaço confinado e o ar sufocante.
Alguém cortou a lã, fazendo um rasgão no retalho de tecido por
cima dele, e a luz quente e trémula de uma tocha penetrou através
da abertura.
Desesperado para se libertar daquela prisão, Roran levantou-se
bruscamente, agarrou-se às pontas do rasgão e arrastou-se para
fora da tenda caída, cambaleando para a luz apenas de ceroulas e
olhando em redor, confuso.
Baldor estava lá tal como, Carn, Delwin, Mandel e dez outros
guerreiros, todos de espadas e de machados em punho. Nenhum
dos homens estava completamente vestido, exceto dois deles, que
Roran percebeu serem as sentinelas destacadas para o turno da
noite.
— Deuses! — exclamou alguém e Roran virou-se, vendo um
guerreiro puxar para trás um dos lados da tenda destruída,
destapando o cadáver do assassino.
O homem morto tinha fraca figura, o cabelo comprido e
desgrenhado, preso num rabo-de-cavalo, e uma pala de cabedal no
olho esquerdo. O nariz — partido por Roran — estava torto e
achatado, e tinha uma camada de sangue a cobrir-lhe a parte
inferior do rosto barbeado. O peito, o flanco e o chão, por baixo
dele, estavam igualmente empapados em sangue. Quase parecia
sangue a mais para pertencer a uma pessoa só.
— Roran — disse Baldor. Roran continuou a olhar para o
assassino, incapaz de desviar os olhos. — Roran — repetiu Baldor,
mais alto. — Roran, ouve-me. Você está ferido? O que aconteceu?...
Roran!
A preocupação na voz de Baldor chamou finalmente a atenção
de Roran.
— O que é? — perguntou ele.
— Você está ferido, Roran?!
“Porque pensaria ele isso?” Intrigado, Roran baixou os olhos
para o seu corpo. Tinha os pelos do peito sujos de sangue seco, de
cima a baixo, e apresentava manchas de sangue nos braços e na
parte de cima das ceroulas.
— Estou bem — respondeu ele, embora sentisse dificuldade em
proferir as palavras. — Mais alguém foi atacado?
Em resposta, Delwin e Hamund afastaram-se, revelando um
corpo prostrado. Era o jovem que mandara transmitir mensagens,
antes
— Ah — gemeu Roran, cheio de mágoa. — O que andava ele a
fazer por aí?
Um dos guerreiros deu um passo em frente.
— Eu partilhava uma tenda com ele, capitão. Ele tinha sempre de
sair durante a noite para se aliviar, pois bebia muito chá antes de
recolher. A mãe disse-lhe que isso iria impedir que ele adoecesse...
Era boa pessoa, capitão. Não merecia ser atacado por trás, por um
cobarde traiçoeiro.
— Pois não, não merecia — murmurou Roran. Se ele lá não
estivesse, a estas horas estaria eu morto. — E apontou para o
assassino. — Há mais algum destes assassinos à solta?
Os homens remexeram-se, olhando uns para os outros. Depois
Baldor disse:
— Não me parece.
— Verificaste?
— Não.
— Então verifica! Mas tenta não acordar toda a gente. Eles
precisam de dormir. E manda colocar guardas junto das tendas de
todos os comandantes, de hoje em diante... — Ele já deveria ter
pensado nisto antes.
Roran ficou onde estava, sentindo-se embotado e estúpido,
enquanto Baldor dava uma série de ordens rápidas e todos, à
exceção de Carn, Delwin e Hamund, dispersavam. Quatro
guerreiros pegaram no corpo inerte do rapaz e afastaram-se, para o
enterrar, e os restantes começaram a passar revista ao
acampamento.
Aproximando-se do assassino, Hamund empurrou, ao de leve, a
faca do homem com a biqueira da bota.
— Deves ter assustado aqueles soldados mais do que
pensávamos, esta manhã.
— Deve ter sido.
Roran tiritou. Sentia frio pelo corpo todo, especialmente nas
mãos e nos pés que pareciam gelo. Carn apercebeu-se e foi
buscar-lhe um cobertor.
— Toma — disse Carn, colocando-o sobre os ombros de Roran.
— Vem sentar-te junto de uma das fogueiras de vigilância. Vou
aquecer um pouco de água para que te possas lavar, está bem?
Roran acenou com a cabeça, sem saber se conseguiria falar.
Carn afastou-se com ele, mas depois de darem apenas alguns
passos, o feiticeiro parou abruptamente, forçando Roran a parar.
— Delwin e Hamund — disse Carn —, tragam-me um catre, algo
onde alguém se possa sentar, um cântaro de hidromel e várias
ligaduras, o mais depressa possível. Imediatamente, se não se
importam.
Surpreendidos, os dois homens passaram de imediato à ação.
— Porquê? — perguntou Roran, confuso. — O que se passa?
Carn apontou para o peito de Roran com uma expressão
sombria:
— Se não você está ferido, importas-te de me dizer o que é isso?
Roran olhou para onde Carn apontava e viu um golpe longo e
profundo que começava no peitoral direito, percorria-lhe o externo
e terminava mesmo abaixo do mamilo esquerdo, escondido no
meio dos pelos e do sangue seco que tinha no peito. O lenho abriase
cerca de meio centímetro, na parte mais larga, assemelhando-se
bastante a uma boca sem lábios, repuxada num enorme e medonho
sorriso. Porém, a característica mais perturbante do golpe era a
total ausência de sangue. Não escorria da incisão nem uma gota de
sangue. Roran conseguia ver claramente a fina camada de gordura
amarelada por baixo da pele e o músculo vermelho escuro do seu
peito, por baixo, da mesma cor que uma fatia crua de carne de
veado.
Por muito habituado que estivesse aos horríveis estragos que as
espadas, as lanças e as outras armas podiam fazer na carne e no
osso, a visão incomodou-o. Sofrera inúmeros ferimentos ao longo
da guerra contra o Império — muito especialmente quando um dos
Ra’zac lhe mordera o ombro direito durante a captura de Katrina,
em Carvahall —, mas nunca antes tinha sofrido um ferimento tão
grande e tão estranho.
— Dói-te? — perguntou Carn.
Roran abanou a cabeça sem olhar para cima:
— Não. — A garganta contraiu-se e o coração — ainda acelerado
da luta — começou a bater com o dobro da velocidade,
martelando-lhe o peito tão depressa que uma batida não se
conseguia distinguir da outra. “Estaria a faca envenenada?,
perguntou, para si.
— Roran, tens de te acalmar — disse Carn. — Acho que te posso
curar, mas se desmaiares vais complicar tudo. — Segurando-o pelo
ombro, guiou Roran para o catre que Hamund acabara de arrastar
de dentro de uma tenda e Roran sentou-se obedientemente.
— Como me posso eu acalmar? — perguntou, com uma débil e
breve gargalhada.
— Respira fundo e imagina que te você está a afundar no chão, de
cada vez que deitares o ar fora. Confia em mim, vai resultar.
Roran assim fez. Mas, ao deitar o ar fora pela terceira vez, os
seus músculos tensos começaram a descontrair-se e o sangue
jorrou do corte, salpicando o rosto de Carn. O feiticeiro recuou e
praguejou. Sangue fresco e quente escorria-lhe pelo estômago,
sobre a pele nua.
— Agora está a doer — disse Roran, rilhando os dentes.
— Ei! — gritou Carn, acenando a Delwin, que corria na direção
deles, com os braços cheios de ligaduras e de outras coisas. Ao
poisar o amontoado de objetos na ponta do catre, o aldeão
agarrou numa compressa de linho, comprimindo-a contra o
ferimento de Roran e estancado temporariamente a hemorragia. —
Deita-te! — ordenou.
Roran obedeceu e Hamund trouxe um banco para Carn, que se
sentou, continuando a comprimir a compressa. Esticando a mão
livre, Carn estalou os dedos e disse:
— Abram o hidromel e deem-mo. — Assim que Delwin lhe passou
o cântaro, Carn olhou diretamente para Roran e disse:
— Tenho de limpar o corte antes de o selar com magia,
percebes?
Roran acenou afirmativamente.
— Deem-me algo para morder.
Roran ouviu o ruído de fivelas e correias a abrirem-se. Depois
Delwin ou Halmund colocaram-lhe um grosso cinto da espada entre
os dentes e ele mordeu-o com toda a força.
— Fá-lo! — disse ele, o melhor que lhe foi possível, com a boca
parcialmente obstruída.
Antes que Roran tivesse tempo de reagir, Carn arrancou-lhe a
compressa e verteu-lhe hidromel no ferimento, de uma só vez,
expurgando-lhe pelos, sangue seco e outras impurezas da incisão.
Logo que o hidromel lhe tocou, Roran deixou escapar um grito
estrangulado, arqueando as costas e esgravatando de ambos os
lados do catre.
— Pronto, já está — disse Carn, pondo o cântaro de lado.
Roran olhou para as estrelas, com todos os músculos do corpo
trémulos, tentando ignorar a dor, e Carn colocou as mãos sobre o
ferimento e começou a murmurar frases na língua antiga.
Segundos depois, embora lhe parecessem mais minutos, Roran
sentiu uma comichão quase insuportável dentro do peito, enquanto
Carn reparava os estragos que a faca do assassino lhe tinha
causado. A comichão emergiu à superfície da pele, fazendo
desaparecer a dor por onde passava. Ainda assim, a sensação era
de tal forma desagradável, que lhe apetecia coçar-se até rasgar a
pele. Quando terminou, Carn suspirou e dobrou-se para a frente,
apoiando a cabeça nas mãos.
Forçando os membros rebeldes a obedecerem-lhe, Roran
baloiçou as pernas sobre a beira do catre e sentou-se direito,
passando uma mão pelo peito que estava perfeitamente liso, intacto
e imaculado, apesar dos pelos; exatamente como estava antes do
homem zarolho ter entrado furtivamente na sua tenda.
Magia.
Delwin e Hamund olhavam de um dos lados. Pareciam um
pouco esgazeados, embora ele duvidasse que mais alguém tivesse
reparado nisso.
— Vão dormir — disse Roran, acenando. — Partiremos dentro de
algumas horas e eu preciso que estejam alerta.
— Tens a certeza de que vais ficar bem? — perguntou Delwin.
— Sim, sim — mentiu ele. — Agradeço a vossa ajuda, mas agora
vão-se embora. Como vou conseguir descansar, convosco a pairar
à minha volta como mães galinha?
Depois de eles se afastarem, Roran esfregou o rosto e sentouse,
olhando para as mãos trémulas e ensanguentadas. Sentia-se
exaurido, vazio, como se tivesse feito o trabalho de uma semana
inteira apenas em alguns minutos.
— Conseguirás lutar? — perguntou a Carn.
O feiticeiro encolheu os ombros:
— Não tão bem como antes... porém, era o preço a pagar. Não
podemos ir para a batalha sem ti para nos comandar.
Roran nem se deu ao trabalho de argumentar.
— Devias descansar um pouco. Já não falta muito para o
amanhecer.
— E tu?
— Vou lavar-me, procurar uma túnica e depois vou falar com
Baldor para saber se ele apanhou mais algum assassino de
Galbatorix.
— Não te vais estender?
— Não. — E coçou inadvertidamente o peito, mas conteve-se
quando se apercebeu do que estava a fazer. — Antes não conseguia
dormir e agora...
— Eu compreendo. — Carn levantou-se lentamente do banco. —
Se precisares de mim, estou na minha tenda.
Roran viu-o cambalear pesadamente para a escuridão. Quando
deixou de o ver, fechou os olhos e pensou em Katrina, tentando
acalmar-se. Depois, reunindo as poucas forças que lhe restavam,
aproximou-se da tenda derrubada e procurou até encontrar as
roupas, as armas, a armadura e um cantil de pele. Fez os possíveis
para não olhar para o corpo do assassino, embora, de vez em
quando, tivesse vislumbres dele, ao mover-se no meio daquela
poça de tecido amarfanhado.
Finalmente, ajoelhou-se sem olhar, arrancando a sua adaga do
cadáver. A lâmina saiu com um ruído deslizante de metal a arranhar
osso e Roran sacudiu energicamente a adaga para remover o
sangue, ouvindo várias gotas salpicar o chão.
Preparou-se lentamente para a batalha, no silêncio frio da noite,
e depois procurou Baldor — que lhe assegurou que mais ninguém
passara pelas sentinelas —, percorrendo o perímetro do
acampamento e revendo todos os aspectos do iminente ataque a
Aroughs. Depois, encontrou metade de uma galinha fria que alguém
deixara ao jantar, sentando-se a comê-la e a contemplar as
estrelas.
Contudo, fizesse o que fizesse, a sua mente estava sempre a
devolver-lhe a imagem do jovem morto, fora da sua tenda. Quem
será que decide que um homem sobrevive e o outro morre? A
minha vida não era mais valiosa que a dele, mas é ele que está
enterrado, enquanto que eu gozarei, pelo menos, de mais algumas
horas à face da terra. Será uma questão de sorte aleatória e cruel
ou haverá algum propósito ou padrão nisto tudo, mesmo que esteja
para além da nossa compreensão?

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