24 de junho de 2017

Capítulo 18 - Um jogo de ossos

—S

enhor, senhor! O portão está a abrir-se!
Roran levantou os olhos do mapa que estava a estudar, ao
ver uma das sentinelas do acampamento irromper ofegante
dentro da tenda, de rosto afogueado.
— Que portão? — perguntou Roran, com uma calma mortal. — Sê
preciso — disse ele, pondo de parte a vareta que usava para medir
as distâncias.
— O que está mais próximo de nós, senhor... na estrada. Não no
canal.
Tirando o martelo do cinto, Roran saiu da tenda, correu pelo
acampamento, até ao extremo sul, e olhou para Aroughs. Para sua
consternação, viu várias centenas de homens a cavalo saírem da
cidade e reunirem-se numa ampla formação, diante da entrada
escura do portão, com os seus estandartes a ondular ao vento.
“Vão fazer-nos em pedaços”, pensou Roran, desesperado.
Apenas cerca de cento e cinquenta dos seus homens encontravamse
no acampamento e muitos deles estavam feridos e incapazes de
lutar. Todos os outros estavam nos moinhos que visitara no dia
anterior, nas minas de ardósia mais adiante, na costa, ou nas
margens do canal mais virado a Oeste, à procura das barcaças
necessárias para que o seu plano fosse bem-sucedido. Nenhuns
dos guerreiros poderiam ser chamados a tempo de defrontar os
cavaleiros.
Quando enviara os homens para as suas missões, Roran estava
consciente de que tinha deixado o acampamento vulnerável a um
contra-ataque, contudo esperava que o povo da cidade se sentisse
demasiado intimidado com os últimos ataques às muralhas para
tentar algo de tão audacioso — e que os guerreiros que mantivera
com ele fossem suficientes para convencer quaisquer observadores
distantes de que o corpo principal do seu exército estava ainda
estacionado nas tendas.
A primeira dessas suposições revelara-se, sem dúvida, um erro.
Roran não tinha a certeza se os defensores de Aroughs tinham
conhecimento do seu estratagema, mas concluiu que era provável
que tivessem, atendendo ao reduzido número de cavaleiros
reunidos em frente da cidade. Se os soldados ou os seus
comandantes tivessem previsto enfrentar toda a companhia de
Roran, seria de esperar que reunissem o dobro das tropas. Fosse
como fosse, teria ainda de descobrir uma forma de repelir o ataque
e impedir que os seus homens fossem chacinados.
Baldor, Carn e Brigman correram na direção dele, de armas em
punho. Enquanto Carn vestia apressadamente a túnica de cota de
malha, Baldor disse:
— O que fazemos?
— Não podemos fazer nada — respondeu Brigman. — Condenaste
toda esta expedição com a tua imprudência, Martelo Forte.
Temos de fugir — imediatamente —, antes que aqueles malditos
cavaleiros nos alcancem.
Roran cuspiu no chão.
— Retirada? Não vamos retirar-nos. Os homens não podem fugir
a pé e, mesmo que pudessem, eu não abandonarei os feridos.
— Não entendes? Estamos perdidos. Se ficarmos, vamos ser
mortos — ou pior — vamos ser feitos prisioneiros!
— Esquece, Brigman! Não tenciono fugir!
— Porque não? Para não teres de admitir que falhaste? Porque
esperas salvar parte da tua honra numa batalha final inútil? Não
entendes que só irás prejudicar mais os Varden?
Na base da cidade, os cavaleiros ergueram as espadas e as
lanças por cima da cabeça e enterraram as esporas nos cavalos —
com um coro de urros e gritos, que se ouviam mesmo àquela
distância —, e começaram a cavalgar ruidosamente pela planície em
declive, em direção ao acampamento dos Varden.
Brigman retomou a sua diatribe:
— Não vou permitir que desperdices as nossas vidas apenas para
aplacar o teu orgulho. Fica se achares que deves, mas...
— Silêncio! — gritou Roran. — Fecha a matraca ou eu próprio te
obrigarei a fechá-la! Baldor, vigia-o. Se ele fizer algo que te
desagrade, fá-lo sentir a ponta da tua espada. — Brigman inchou de
raiva, mas conteve a língua, ao ver Baldor erguer a espada e
apontá-la ao seu peito.
Roran calculou que devia ter uns cinco minutos para decidir o
que fazer. Cinco minutos e tanto em suspenso.
Tentou imaginar como poderiam matar ou mutilar o número
suficiente de cavaleiros para os afugentar, mas descartou essa
hipótese quase de imediato. Não havia qualquer local para onde
conduzir a cavalaria que se aproximava e onde os seus homens
ficassem em vantagem. O terreno era demasiado plano e
demasiado deserto para manobras dessas.
Não podemos ganhar se lutarmos, por isso... E se os
assustarmos? Mas como? Com fogo? O fogo poderia revelar-se
mortal tanto para amigos como para inimigos. Além disso, a relva
húmida iria apenas fumegar. Com fumaça? Não, isso não iria servir de
nada.
E olhou de relance para Carn.
— Consegues conjurar uma imagem de Saphira e fazê-la rugir e
jorrar fogo, como se estivesse realmente aqui?
As faces magras do feiticeiro empalideceram e ele abanou a
cabeça, com uma expressão assustada.
— Talvez, não sei. Nunca experimentei fazê-lo. Iria criar uma
imagem dela de memória. Poderia nem se parecer com uma
criatura viva. — Acenou em direção à linha de homens a galope. —
Eles iriam perceber que se passava algo de errado.
Roran enterrou as unhas na palma da mão. Restavam-lhe quatro
minutos, se tanto.
— Talvez valha a pena tentar — murmurou ele. — Precisamos
apenas de os distrair, de os confundir... — Olhou de relance para o
céu, na esperança de ver uma cortina de chuva a aproximar-se do
acampamento, mas infelizmente as únicas formações visíveis eram
um par de nuvens diminutas. Confusão, incerteza, dúvida... De que
é que as pessoas têm medo? Do desconhecido, das coisas que não
entendem. É isso mesmo.
Em segundos, Roran pensou em meia dúzia de esquemas para
minar a confiança dos seus inimigos, cada um mais extravagante
que o anterior, até que lhe ocorreu uma ideia tão simples e tão
audaciosa que lhe pareceu perfeita. Além disso, ao contrário das
outras, esta apelava-lhe ao ego pois exigia apenas a participação de
uma outra pessoa: Carn.
— Ordena aos homens que se escondam nas tendas — gritou, já a
andar. — E diz-lhe que fiquem calados. Não quero ouvir sequer um
pio, a menos que sejamos atacados!
Aproximando-se da tenda vazia mais próxima, Roran prendeu o
martelo ao cinto e tirou um cobertor sujo, de lã, de uma das pilhas
de roupa de cama caídas no chão. Depois, correu para uma
fogueira onde se cozinhava e pegou numa secção larga de um
tronco cortado, que os guerreiros tinham usado como banco.
Com o tronco debaixo de um braço e o cobertor por cima do
ombro oposto, Roran correu para fora do acampamento em
direção a uma ligeira elevação, a cerca de trinta metros das tendas.
— Alguém que me arranje um conjunto de pedras da Bugalha e
um corno de hidromel! — gritou. — E vão buscar a mesa onde eu
tenho os mapas. Imediatamente, raios, imediatamente!
Atrás dele, ouviu um tumulto de passos e de equipamento a
tilintar, enquanto os homens se escondiam nas tendas. Um silêncio
sinistro abateu-se sobre o acampamento, segundos depois. Tudo o
que se ouvia era os homens a recolher os objetos que ele tinha
pedido.
Roran nem olhou para trás. Colocou o tronco direito na crista da
colina, assentando a parte mais larga no chão e torcendo-o várias
vezes, para trás e para diante, para que não baloiçasse por debaixo
dele. Quando se deu por satisfeito e concluiu que estava estável,
sentou-se e olhou para os cavaleiros atacantes no campo em
declive.
Chegariam dentro de menos de três minutos. Conseguia sentir o
matraquear dos cascos dos cavalos através do tronco de madeira
onde estava sentado e a sensação tornava-se mais intensa a cada
segundo que passava.
— Onde estão as pedras e o hidromel?! — gritou ele, sem tirar os
olhos da cavalaria.
Passou brevemente a mão pela barba, para a alisar, e puxou a
bainha da túnica. O medo fê-lo desejar ter a cota de malha vestida,
mas o seu lado mais frio e mais astucioso concluiu que os inimigos
ficariam ainda mais apreensivos se o vissem sentado sem armadura,
como se estivesse realmente à vontade, o que o convenceu a
também deixar o martelo no cinto, para dar a entender que se
sentia seguro na presença dos soldados.
— Desculpa — disse Corn, quase sem fôlego, ao correr na
direção de Roran, juntamente com um homem que transportava a
pequena mesa de abrir que trouxera da tenda de Roran.
Colocaram-na diante dele, estenderam o cobertor por cima e Carn
entregou a Roran um corno meio cheio de hidromel e um copo de
couro, com as habituais cinco pedras da Bugalha.
— Vai-te embora daqui, anda! — disse. Carn virou-se para se ir
embora, mas Roran agarrou-lhe o braço. — Consegues provocar
ondulações no ar à minha esquerda e à minha direita, como
acontece por cima de uma fogueira, num dia frio de inverno?
Carn franziu os olhos.
— É possível, mas de que é que isso...
— Fá-lo se conseguires. Agora vai-te esconder, anda!
O feiticeiro coxo correu de novo para o acampamento e Roran
chocalhou as pedras no copo, deitando-as sobre a mesa, e
começou a jogar sozinho, atirando as pedras ao ar — primeiro uma,
depois duas, a seguir três e por aí adiante — e apanhando-as sobre
as costas da mão. O seu pai, Garrow, entretinha-se frequentemente
de forma semelhante, enquanto fumava cachimbo, sentado numa
velha cadeira desengonçada, no alpendre de casa, nas longas noites
de verão no Vale de Palancar. Às vezes Roran jogava com ele e,
normalmente, perdia, mas o que Garrow mais gostava era de
competir consigo mesmo.
Embora sentisse o coração a martelar-lhe o peito, à desfilada, e
as palmas das mãos suadas e pegajosas, Roran fez um esforço por
manter uma postura calma. Para que o estratagema tivesse a
mínima hipótese de resultar, ele teria de agir com uma confiança
inabalável, independentemente das suas emoções reais.
Concentrou o olhar nas pedras e recusou-se a levantar os olhos,
mesmo quando os cavaleiros já estavam muito próximos. O ruído
dos animais a galope foi aumentando até que Roran se convenceu
que iriam passar por cima dele.
“Que forma mais estranha de morrer”, pensou, sorrindo
tristemente. Depois pensou em Katrina e no seu filho por nascer,
consolando-se com a evidência de que daria continuidade à sua
linhagem, mesmo que morresse. Não era propriamente a
imortalidade de Eragon, mas era uma espécie de imortalidade e
teria de servir.
No último momento, quando a cavalaria estava apenas a alguns
metros da mesa, alguém gritou.
— Aí! Aí... ohhh! Controlem os cavalos. Eu disse, controlem os
cavalos! — E a formação de animais impacientes deteve-se
relutantemente, com o ruído de fivelas a retinir e o rangido dos
arreios de couro.
Roran continuou de olhos baixos.
Bebeu um gole do pungente hidromel, voltou a lançar as pedras
e apanhou duas delas nas costas das mãos, onde ficaram a baloiçar
sobre as saliências dos tendões.
O aroma do solo acabado de revolver, envolveu-o, quente e
reconfortante, em conjunto com o odor não tão agradável da
transpiração dos cavalos.
— Viva, meu bom homem! — disse o mesmo homem que
mandara parar os soldados. — Eu disse, viva! Quem és você para
ficares aí sentado numa bela manhã como esta, a beber, entretido
com um jogo de sorte, como se não tivesses qualquer preocupação
na vida? Será que não merecemos a cortesia de sermos
defrontados com espadas? Quem és tu, pergunto eu?
Roran levantou lentamente os olhos da mesa, como se acabasse
de reparar na presença dos soldados e não lhes atribuísse grande
importância, dando de caras com um homem baixo, de barba, com
um elmo extravagantemente emplumado, montado num enorme
cavalo de guerra negro, ofegante como um fole.
— Não sou bom homem de ninguém, muito menos teu —
respondeu Roran, sem se dar ao trabalho de esconder o desagrado
por ser abordado daquela forma tão familiar. — Quem és você para
interromperes o meu jogo tão rudemente, posso saber?
O homem olhou-o de cima a baixo, como se ele fosse uma
criatura estranha que encontrara enquanto andava a caçar, e as
longas penas listradas, no topo do elmo, oscilaram e ondularam.
— O meu nome é Tharos, O Lesto. Sou o Capitão da Guarda.
Por muito rude que sejas, devo dizer-te que me penalizaria
muitíssimo matar um homem tão ousado como tu, sem saber o seu
nome. — Para enfatizar as suas palavras, Tharos baixou a lança que
empunhava, apontando-a a Roran.
Três linhas de cavaleiros estavam agrupadas mesmo atrás de
Tharos. Entre eles, Roran viu um homem magro, de nariz adunco,
com o rosto e os braços macilentos, nus até aos ombros, que
passara a associar aos feiticeiros dos Varden. Subitamente, deu
consigo na esperança de que Carn tivesse conseguido fazer ondular
o ar, contudo, não se atreveu a virar a cabeça para olhar.
— O meu nome é Martelo Forte — disse. Reuniu as pedras,
atirou-as ao ar e apanhou três, num único gesto. — Roran, Martelo
de Ferro. Eragon, o Matador de Espectros é meu primo. Deves
ter ouvido falar dele, se é que não ouviste falar de mim.
Uma onda de desconforto espalhou-se pela formação de
cavaleiros e Roran julgou ver os olhos de Tharos a arregalarem-se
por instantes.
— Uma afirmação impressionante, mas como podermos ter a
certeza da sua veracidade? Qualquer homem pode assumir a
identidade de outro, se isso servir os seus propósitos.
Roran tirou o martelo e bateu com ele na mesa, produzindo um
ruído abafado e, depois, retomou o jogo, ignorando os soldados.
Duas das pedras caíram-lhe das costas da mão, fazendo-o perder
o jogo, e ele roncou, aborrecido.
— Ah — disse Tharos, pigarreando. — Tens uma reputação
brilhante, Martelo Forte, embora alguns argumentem que a
empolaram para além do que seria razoável. Por exemplo, é
verdade que mataste trezentos homens, sozinho, na aldeia de
Delderad, em Surda?
— Nunca soube como se chamava o sítio, mas se dizes que era
Delderad, sim, matei lá muitos soldados. Porém, eram apenas cento
e noventa e três e eu estava bem guardado pelos meus homens,
enquanto lutava.
— Só cento e noventa e três? — disse Tharos, num tom
assombrado. — És demasiado modesto, Martelo Forte. Uma
façanha dessas poderá valer-te um lugar em muitas trovas e
histórias.
Roran encolheu os ombros e levou o corno à boca, fingindo
engolir, pois na realidade não poderia toldar a mente com a potente
bebida dos anões.
— Luto para ganhar e não para perder... Permite-me que te
ofereça uma bebida, de um guerreiro para outro — disse Roran
estendendo o corno a Tharos.
O guerreiro baixo hesitou e os seus olhos desviaram-se, por
breves instantes, para o feiticeiro atrás de si. Depois molhou os
lábios e disse:
— Nesse caso, talvez beba. — Desmontando do cavalo de guerra,
Tharos entregou a lança a um dos soldados, tirou as luvas e
encaminhou-se para a mesa, aceitando cautelosamente o corno das
mãos de Roran.
Tharos cheirou o hidromel e bebeu um longo trago. As penas do
seu elmo estremeceram e ele fez uma careta.
— Não é do teu agrado? — perguntou Roran, divertido.
— Confesso que acho estas bebidas da montanha demasiado
ásperas para a minha língua — disse Tharos, devolvendo o corno a
Roran. — Prefiro os vinhos dos nossos campos, pois são quentes,
suaves e menos susceptíveis de enlouquecer um homem.
— Para mim isto é melhor que o leite materno — mentiu Roran. —
Bebo-o de manhã, à tarde e à noite.
Calçando de novo as luvas, Tharos regressou para junto do
cavalo, subiu para a sela, e voltou a tirar a lança ao soldado que a
segurava. Dirigiu mais um olhar ao feiticeiro de nariz adunco, que
estava atrás de si, cuja compleição adquirira uma palidez mortal,
nos breves instantes em que Tharos assentara os pés no chão.
Roran apercebeu-se disso e Tharos também devia ter reparado na
mudança que se operou no seu feiticeiro, pois ele próprio ficou com
uma expressão tensa.
— Os meus agradecimentos pela tua hospitalidade, Roran
Martelo Forte — agradeceu, levantando a voz para que todas as
suas tropas o ouvissem. — Talvez possa em breve ter a honra de te
receber dentro das muralhas de Aroughs. Se assim for, prometo
servir-te os melhores vinhos da propriedade da minha família e
talvez com eles consiga convencer-te a abandonares o consumo
desse leite bárbaro que aí tens. Creio que acharás o nosso vinho
muito recomendável. Deixamo-lo envelhecer em pipas de carvalho
durante meses, às vezes até durante anos. Seria uma pena que todo
esse trabalho fosse desperdiçado e se despedaçassem as pipas
deixando que o vinho escorresse para as ruas, tingindo-as de
vermelho com o sangue das nossas vinhas.
— Seria de fato uma pena — respondeu Roran —, mas por vezes
não se consegue evitar derramar um pouco de vinho quando se
limpa a mesa. — Erguendo o corno para o lado, virou-o, vertendo o
pouco hidromel que restava para a erva.
Tharos ficou totalmente imóvel, por instantes — nem as penas do
elmo se mexiam. Depois, virou o cavalo, com um esgar furioso e
gritou aos seus homens:
— Formar! Formar! Ya! — Depois desse grito final, esporeou o
cavalo, afastando-se de Roran e os soldados seguiram-no,
incitando os cavalos a galopar. Regressaram a Aroughs pelo
mesmo caminho por onde tinham vindo.
Roran manteve a sua falsa postura arrogante e indiferente até os
soldados ficarem bem distantes, suspirando depois lentamente e
poisando os cotovelos sobre os joelhos. As mãos tremiam-lhe um
pouco.
“Resultou”, pensou, assombrado.
Ouviu homens a correr na sua direção, vindos do acampamento
e olhou por cima do ombro, vendo Baldor e Carn a aproximaremse,
acompanhados, pelo menos, por cinquenta guerreiros que
estavam escondidos dentro das tendas.
— Conseguiste! — exclamou Baldor, ao aproximarem-se. —
Conseguiste! Não posso acreditar! — Deu uma gargalhada e bateu
com tanta força no ombro de Roran que o atirou contra a mesa.
Os outros homens reuniram-se em torno dele, também a rir,
elogiando-o com frases extravagantes e gabando-se de que iriam
conseguir tomar Aroughs sem uma única baixa, sob as suas ordens,
e desvalorizando a coragem dos habitantes da cidade. Alguém lhe
meteu meio cantil de vinho quente na mão. Roran olhou-o com um
asco inesperado, passando-o ao homem que estava imediatamente
à sua esquerda.
— Lançaste alguns feitiços? — perguntou ele a Carn, mal se
conseguindo fazer ouvir com o estrépito das comemorações.
— O quê? — Carn inclinou-se mais para ele e Roran repetiu a
pergunta. O feiticeiro sorriu e acenou energicamente. — Sim
consegui fazer ondular o ar como você querias.
— E atacaste o feiticeiro deles? Ele parecia estar prestes a
desmaiar, quando se foram embora.
O sorriso de Carn abriu-se:
— Isso foi obra dele. Estava sempre a tentar quebrar a ilusão que
julgava que eu criara, para penetrar no véu de ar bruxuleante e ver
o que estava por trás deste — mas não havia nada para quebrar nem
para penetrar, por isso ele despendeu toda a sua energia em vão.
Roran riu baixinho e o seu riso converteu-se numa longa e
intensa gargalhada que se fez ouvir por cima de toda aquela ruidosa
exaltação, propagando-se pelos campos, em direção a Aroughs.
Durante alguns minutos apreciou, com deleite, a admiração dos
seus homens, até ouvir um grito alto de advertência de uma das
sentinelas estacionadas num dos extremos do acampamento.
— Afastem-se! Deixem-me ver! — disse Roran, erguendo-se
bruscamente. Os guerreiros obedeceram e ele viu um homem
solitário a Oeste — que percebeu tratar-se de um dos soldados que
mandara inspecionar as margens dos canais. Galopava pelos
campos, na direção do acampamento. — Tragam-no aqui — ordenou
Roran e um soldado ruivo e coxo, foi a correr ao encontro do
cavaleiro.
Enquanto esperavam que o homem chegasse, Roran pegou nas
pedras de bugalha e colocou-as, uma a uma, no copo de couro. As
pedras produziram um ruído agradável ao caírem dentro do copo.
Mal o guerreiro se aproximou o suficiente para que o pudesse
saudar, Roran gritou:
— Viva, está tudo bem? Foste atacado?
Para aborrecimento de Roran, o homem manteve-se em silêncio
até estar apenas a alguns metros dele, altura em que saltou da
montada e se apresentou diante de Roran, mais rígido e
empertigado que um pinheiro sedento de sol, exclamando em voz
alta:
— Meu capitão! — Ao observá-lo mais atentamente, Roran viu
que o homem, afinal, era apenas um rapaz — tratava-se, na verdade,
do jovem desalinhado que lhe segurara nas rédeas quando chegara
ao acampamento — porém, essa constatação não contribuiu em
nada para saciar a sua curiosidade frustrada.
— Bom, afinal do que se trata? Não posso ficar aqui o dia inteiro.
— Hamund mandou-me informá-lo que encontrou todas as
barcaças de que precisamos e que está a construir os trenós para
as transportar para o outro canal, meu capitão.
Roran acenou com a cabeça.
— Ótimo. Ele precisa de mais alguém para as transportar para lá
a tempo?
— Não, meu capitão!
— É tudo?
— Sim, meu capitão!
— Não precisas de estar constantemente a chamar-me meu
capitão. Uma vez chega, entendido?
— Sim, meu cap... Hum, sim cap... quer dizer, sim, claro.
Roran conteve um sorriso.
— Portaste-te bem. Come qualquer coisa e depois vai à mina e
traz-me informações. Quero saber o que eles conseguiram até
agora.
— Sim, meu cap... Desculpe, meu cap... Quer dizer, eu não...
Irei imediatamente, capitão. — Duas rosetas vermelhas surgiram nas
faces do jovem, ao gaguejar. Curvou a cabeça numa rápida vénia e
regressou apressadamente ao cavalo, afastando-se a trote em
direção às tendas.
A visita deixou Roran mais circunspecto, pois lembrou-lhe que
havia muito que fazer, ainda que tivessem tido a sorte de evitar as
espadas dos soldados, e as tarefas que os esperavam poderiam
custar-lhes o cerco caso fossem mal conduzidas.
Depois disse aos guerreiros mais distantes:
— Todos para o acampamento! Quero duas filas de trincheiras
abertas em redor das tendas, até ao cair da noite. Aqueles
cobardes podem mudar de ideias e decidir atacar-nos e eu quero
estar preparado. — Alguns homens gemeram ao ouvir falar em abrir
trincheiras, mas os restantes pareceram aceitar a ordem de bom
grado.
Carn disse em voz baixa:
— É melhor não os cansares demasiado até amanhã.
— Eu sei — respondeu Roran, também em voz baixa —, mas o
acampamento precisa de ser fortificado e o trabalho irá impedi-los
de pensar demasiado. Além disso, por muito cansados que estejam
amanhã, o combate dar-lhes-á energias renovadas. Dá sempre.
As horas do dia passavam depressa para Roran, quando se
concentrava num problema imediato ou desenvolvia esforços físicos
intensos, e pareciam arrastar-se sempre que tinha alguma
disponibilidade para ponderar na situação em que estavam. Os seus
homens trabalharam corajosamente — ao salvá-los dos soldados,
conquistara a sua lealdade e a sua devoção como jamais
conseguiria por palavras — mas parecia-lhe cada vez mais óbvio
que não conseguiriam terminar os preparativos nas poucas horas
que lhes restavam, apesar dos seus esforços.
Ao longo de toda a manhã, tarde e princípio da noite, Roran
sentiu um desespero doentio crescer dentro de si e amaldiçoou-se
por ter decidido concretizar um plano tão complicado e ambicioso.
“Eu devia ter percebido desde o início que não tínhamos tempo
para isto”, pensou. Mas era demasiado tarde para tentar outra
coisa. A única alternativa que lhes restava era darem o seu melhor e
esperarem que isso fosse o suficiente para conseguirem a vitória,
apesar dos erros cometidos devido à sua incompetência.
O cair da noite, uma pequena centelha de otimismo atenuou o
seu derrotismo, pois os preparativos começaram subitamente a
consolidar-se, com uma inesperada rapidez. E, algumas horas
depois, quando já era noite fechada e as estrelas brilhavam nos
céus, Roran deu consigo junto dos moinhos praticamente com
setecentos homens, totalmente a postos para tomar Aroughs, antes
do final do dia seguinte.
Ao olhar para o fruto dos seus esforços, Roran soltou uma
pequena gargalhada, com um misto de alívio, orgulho e
incredibilidade.
Depois deu os parabéns aos guerreiros em seu redor e ordenoulhes
que regressassem às tendas.
— Agora descansem enquanto podem. Atacamos ao amanhecer!
E os homens aplaudiram, apesar do evidente cansaço.

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