3 de junho de 2017

Capítulo 18 - Reparação

— Vocês estão atrasados — disse Nasuada quando Eragon e Angela encontraram lugares nas cadeiras dispostas em semicírculo diante do trono de espaldar alto.
Também sentada lá estavam Elva e sua tutora. Greta, a anciã que tinha implorado a Eragon em Farthen Dûr que abençoasse o bebê órfão. Como antes, Saphira se deitou do lado de fora do pavilhão e enfiou a cabeça por uma das aberturas para poder participar da reunião. Solembum se enrascou como uma bola ao lado da sua cabeça. Parecia estar num sono profundo, se não fosse por eventuais sacudidas do rabo.
Junto com Angela, Eragon pediu desculpas pelo atraso e então escutou enquanto Nasuada explicava para Elva o valor que suas habilidades tinham para os Varden – Como se ela já não soubesse, comentou Eragon com Saphira – e lhe rogava que liberasse Eragon da promessa que ele lhe fizera de tentar desfazer os efeitos da sua bênção. Ela declarou compreender que o que estava pedindo era difícil, mas o destino de toda aquela terra estava em jogo. E não valeria a pena sacrificar o próprio bem-estar para ajudar a salvar a Alagaësia das garras malignas de Galbatorix?
Foi um discurso magnífico: eloquente, apaixonado e cheio de argumentos que procuravam apelar para os mais nobres sentimentos da criança-bruxa. Elva, que estava com o queixinho pontudo pousado nos punhos fechados, levantou a cabeça para falar.
— Não. — Um silêncio indignado tomou conta do pavilhão. Passando seu olhar implacável de uma pessoa para outra, ela se explicou: — Eragon, Angela, vocês dois conhecem a sensação de compartilhar os sentimentos e as emoções de outra pessoa quando ela morre. Vocês sabem como é horrível, como é excruciante, como se tem a impressão de que parte de nós desapareceu para sempre. E isso é só para a morte de uma única pessoa. Nenhum de vocês dois precisa suportar essa experiência a menos que queiram, ao passo que eu... eu não tenho escolha a não ser compartilhar de todas elas. Eu sinto todas as mortes ao meu redor. Mesmo neste instante estou sentindo a vida se esvair de Sefton, um dos seus espadachins, Nasuada, que foi ferido na Campina Ardente; e eu sei quais palavras poderia dizer a ele que reduziriam seu pavor da extinção. Seu medo é tamanho que, ai, me faz tremer! — Com um grito incoerente, ela levantou os braços para encobrir o rosto, como se quisesse rechaçar um golpe. Depois, prosseguiu: — Ah, ele se foi. Mas existem outros. Sempre haverá outros. A fila dos mortos não tem fim. — O aspecto de zombaria amarga da sua voz ficou mais forte, um arremedo da fala normal de uma criança. — Será que a senhora realmente entende, Nasuada, lady Caçadora Noturna... Aquela Que Gostaria de Ser a Rainha do Mundo? A senhora entende de verdade? Sei de toda a agonia ao meu redor, seja física, seja mental. Sinto-a como se fosse minha, e a magia de Eragon me induz a abrandar o desconforto dos que sofrem, sem considerar o custo para mim mesma. E, se resisto ao impulso, como estou fazendo neste exato instante, meu corpo se rebela contra mim: meu estômago se torna ácido, minha cabeça lateja como se um anão estivesse martelando nela, e eu tenho dificuldade para me mexer, ainda mais para pensar. É isso o que a senhora desejaria para mim, Nasuada?
“Noite e dia não tenho um momento de descanso que me proteja das aflições do mundo. Desde que Eragon me abençoou, não sei de nada a não ser dor e medo, jamais felicidade ou prazer. As coisas que tornam a existência suportável, o lado luminoso da vida, elas me são negadas. Nunca as vejo. Jamais compartilho delas. Somente da escuridão. Somente da desgraça combinada de todos os homens, mulheres e crianças no raio de um quilômetro, que me atinge com a violência de uma tempestade à meia-noite. Essa bênção me privou da oportunidade de ser como outras crianças. Ela forçou meu corpo a amadurecer mais rápido que o normal, e minha mente ainda mais. Eragon pode ser capaz de remover essa minha capacidade medonha e a compulsão que a acompanha, mas não poderá me fazer voltar ao que eu era, nem ao que eu deveria ser, não sem destruir o ser que me tornei. Sou uma aberração, nem criança nem adulta, condenada para sempre a me manter isolada. Não sou cega, sabiam? Vejo como vocês se encolhem quando me ouvem falar.” Ela abanou a cabeça. “Não, isso é me pedir demais. Não continuarei assim pela senhora, Nasuada, pelos Varden, pela Alagaësia inteira, nem mesmo por minha mãe querida, se ela ainda estivesse viva. Não vale a pena, por nada. Eu também poderia ir morar sozinha, para me livrar das aflições dos outros, mas não quero viver dessa forma. Não, a única solução é que Eragon tente corrigir seu erro.” Seus lábios se curvaram num sorriso irônico. “E, se vocês discordarem de mim, se me considerarem egoísta e desprovida de inteligência, ora, então seria recomendável que vocês se lembrassem de que sou pouco mais do que um bebê envolto em cueiros e que ainda não festejei meu segundo aniversário. Somente tolos esperariam que uma criancinha se martirizasse pelo bem maior. No entanto, criancinha ou não, já tomei minha decisão, e nada que vocês digam me convencerá a mudar de ideia. Quanto a isso, minha vontade é de ferro.”
Nasuada argumentou um pouco mais com ela, mas, como Elva tinha garantido, seu esforço foi em vão. Por fim, Nasuada pediu a Angela, Eragon e Saphira que interferissem. Angela se recusou alegando que não conseguiria falar melhor do que Nasuada e que acreditava ser a decisão de Elva de natureza pessoal. Portanto, deveria ser permitido que a menina agisse como desejasse, sem ser acossada como uma águia por um bando de galos. Eragon era de opinião semelhante, mas consentiu em dizer algumas palavras:
— Elva, não posso lhe dizer o que você deve fazer. Só você tem como determinar isso. Mas não rejeite o pedido de Nasuada de imediato. Ela está tentando salvar a todos nós de Galbatorix e precisa do nosso apoio se quisermos ter alguma chance de sucesso. O futuro não aparece para mim, mas creio que seu dom poderia ser a arma perfeita contra Galbatorix. Você poderia prever cada ataque dele. Poderia nos dizer exatamente como anular suas proteções. E acima de tudo, você poderia pressentir em que pontos Galbatorix é vulnerável, onde é mais fraco e o que poderíamos fazer para feri-lo.
— Cavaleiro, você vai precisar de um discurso melhor do que esse para me fazer mudar de ideia.
— Não quero fazê-la mudar de ideia — respondeu Eragon. — Só quero me certificar de que você tenha pesado bem as implicações da sua decisão e que não esteja sendo por demais apressada.
A menina se mexeu sem sair do lugar, mas não respondeu.
O que está no seu coração, ó Fronte Luminosa?, perguntou Saphira, então.
— O que eu disse veio do coração, Saphira — respondeu Elva, em voz baixa, sem nenhum indício de maldade. — Quaisquer outras palavras seriam redundantes.
Se Nasuada se sentiu frustrada com a obstinação de Elva, ela não deixou transparecer, embora sua expressão estivesse séria, como condizia com a conversa.
— Não concordo com sua escolha, Elva, mas vamos nos sujeitar a ela, pois está evidente que não conseguimos abalar sua convicção. Suponho que eu não possa censurá-la, já que eu mesma não tenho nenhuma experiência do sofrimento ao qual você está exposta diariamente. E, se eu estivesse no seu lugar, é possível que não agisse de modo diferente. Eragon, por favor...
Por sugestão dela, Eragon se ajoelhou diante de Elva. Os brilhantes olhos violeta penetraram nele quando ele pôs as mãozinhas da menina entre as suas, bem maiores. Elas pareciam queimar nas dele, como se a criança estivesse com febre.
— Vai doer. Matador de Espectros? — perguntou Greta, com sua voz de anciã tremendo.
— Não deveria, mas não sei ao certo. A arte da remoção de encantamentos é muito mais imprecisa do que a de lançá-los. Os magos raramente tentam uma remoção, se é que algum dia chegam a fazê-lo, por causa dos desafios que a empreitada apresenta.
Com as rugas do rosto contorcidas de preocupação, Greta afagou a cabeça de Elva.
— Ai, meu amorzinho, tenha coragem. Muita coragem — disse ela, aparentemente sem perceber o olhar de irritação que Elva lhe dirigiu.
Eragon não deu atenção à interrupção.
— Elva, escute bem. Há dois métodos diferentes para romper um encantamento. Um é o mágico que lançou originalmente o encantamento se abrir para a energia que alimenta nossa magia...
— Essa é a parte que sempre me causou dificuldade — disse Angela. — É por isso que dependo mais de poções, plantas e objetos mágicos em si e por si do que em fórmulas encantatórias.
— Se não se importa...
— Sinto muito. Prossiga — disse Angela, com um sorriso no rosto.
— Tudo bem — resmungou Eragon. — Um é o mágico original se abrir...
— Ou a maga original — acrescentou Angela.
— Quer fazer o favor de me deixar terminar?
— Desculpe.
Eragon percebeu que Nasuada conteve um sorriso.
— Ele se abre então para o fluxo de energia no interior do seu corpo e, falando na língua antiga, desdiz não apenas as palavras do encantamento, mas também a intenção por trás delas. Isso pode ser dificílimo, como se pode imaginar. Se o mágico não tiver o propósito exato, acabará alterando o encantamento original em vez de anulá-lo. E com isso teria de desfazer dois encantamentos entrecruzados.
“O outro método consiste em lançar um encantamento que anule diretamente os efeitos do encantamento original. Ele não elimina o encantamento original; mas, se executado corretamente, anula seus efeitos. Com sua permissão, é esse o método que pretendo usar.”
— Solução extremamente elegante — proclamou Angela —, mas quem vai fornecer, diga-me, por favor, o fluxo contínuo de energia necessária para manter esse contra-encantamento? E, já que alguém precisa perguntar, o que pode dar errado com esse método em particular?
Eragon manteve o olhar fixo em Elva.
— A energia terá de vir de você — disse ele, apertando as mãos da menina nas suas. — Não será muita, mas ainda assim reduzirá sua disposição em certo grau. Se eu fizer isso, você nunca será capaz de correr tanto ou levantar tantos pedaços de lenha quanto alguém que não lenha um encantamento semelhante escoando sua energia.
— Por que você não pode fornecer a energia? — perguntou Elva, levantando uma sobrancelha. — Afinal de contas, você é que é responsável por minha aflição.
— Eu forneceria, mas quanto mais eu me afastasse, para mim mais difícil seria fazer a energia chegar a você. E se eu me afastasse demais, digamos um quilômetro e meio ou talvez um pouco mais, o esforço me mataria. Quanto ao que pode dar errado, o único risco é o de eu criar o contra-encantamento incorretamente, e ele não anular a minha bênção por inteiro. Se isso ocorrer, eu simplesmente lançarei outro contra-encantamento.
— E se também esse for insuficiente?
Eragon fez uma pausa antes de responder.
— Nesse caso, sempre posso recorrer ao primeiro método que expliquei. Eu preferiria evitá-lo, porém. Apesar de ele ser o único método para extinguir um encantamento, caso a tentativa dê errado, o que é muito possível, você poderia acabar pior do que está agora.
— Entendo — disse Elva, fazendo que sim.
— Então, tenho sua permissão para prosseguir?
Quando ela mais uma vez abaixou o queixo, Eragon respirou fundo, para se preparar. Com os olhos semicerrados por conta da intensidade da sua concentração, começou a falar na língua antiga. Cada palavra saía da sua boca com o peso de uma martelada. Ele teve o cuidado de pronunciar cada sílaba, cada som estranho à sua própria língua, para evitar um acidente potencialmente trágico. O contra-encantamento estava gravado a fogo na sua memória. Eragon tinha passado muitas horas durante a viagem de Helgrind inventando-o, torturando-se com ele, desafiando a si mesmo para engendrar alternativas melhores, tudo na expectativa do dia em que tentaria compensar o mal que tinha causado a Elva.
Enquanto falava, Saphira canalizava sua força para dentro dele, e ele sentia que ela o apoiava e o observava de perto, pronta para interferir se percebesse na mente de Eragon que ele estava prestes a deturpar a fórmula encantatória. O contra-encantamento era muito longo e muito complicado, porque Eragon tinha procurado lidar com todas as interpretações razoáveis da sua bênção. Como resultado, passaram-se cinco minutos inteiros antes que ele pronunciasse a última frase, palavra e sílaba.
No silêncio que se seguiu, o rosto de Elva se anuviou pela decepção.
— Eu ainda sinto as pessoas — disse ela.
— Quem? — perguntou Nasuada, inclinando-se para a frente. — A senhora, ele, ela, todo o mundo que está sentindo alguma dor. Eles não sumiram! O impulso de ajudar sumiu, sim, mas a agonia ainda me percorre.
— Eragon? — perguntou Nasuada, inclinando-se novamente para a frente no trono.
— Devo ter me esquecido de alguma coisa — disse ele, franzindo o cenho. — Preciso de um pouco de tempo para pensar e compor outro encantamento que possa funcionar. Há outras possibilidades que examinei, mas... — Eragon deixou a voz ir se apagando, perturbado com o fato de o contra-encantamento não ter o desempenho esperado.
Além disso, desenvolver um encantamento específico para bloquear a dor que Elva estava sentindo seria muito mais difícil do que tentar desdizer a bênção como um todo. Uma palavra errada, uma frase mal construída, e ele poderia destruir sua capacidade para a empatia, impedi-la de um dia aprender a se comunicar com sua mente ou inibir sua própria sensação de dor, de modo que ela não percebesse de imediato quando estivesse ferida.
Eragon estava consultando Saphira quando Elva disse:
— Não!
Perplexo, ele olhou para ela. Um brilho de êxtase parecia emanar de Elva. Seus dentes redondos como pérolas reluziram quando ela sorriu, os olhos faiscando com uma alegria triunfal.
— Não tente outra vez.
— Mas, Elva, por que você...
— Porque não quero mais nenhum encantamento se alimentando da minha energia. E porque eu acabei de me dar conta de que posso não tomar conhecimento deles! — Ela se agarrava aos braços da cadeira, tremendo de empolgação. — Sem o impulso de ajudar todos os que sofrem, consigo não dar atenção aos seus problemas, e não me sinto mal! Posso deixar de lado o homem com a perna amputada; posso deixar para lá a mulher que acabou de queimar a mão com água fervente. Posso fingir que eles não existem, e não me sinto mal por isso! É verdade que não consigo bloquear a ligação completamente, pelo menos ainda não, mas, ai, que alívio! Silêncio! Um silêncio abençoado! Chega de cortes, arranhões, contusões ou ossos fraturados. Chega das preocupações insignificantes de jovens de cabeça vazia. Chega da angústia de mulheres abandonadas ou maridos traídos. Chega dos milhares de lesões insuportáveis de uma guerra inteira. Chega do pânico excruciante que precede a escuridão final. — Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela deu uma risada, um gorgolejo rouco que arrepiou o couro cabeludo de Eragon.
Que loucura é essa?, perguntou Saphira. Mesmo que você consiga expulsar tudo da sua mente, por que querer permanecer presa a dor dos outros quando Eragon ainda pode ser capaz de livrá-la disso tudo?
Os olhos de Elva luziram com um prazer repugnante.
— Eu nunca vou ser como as pessoas normais. Se preciso ser diferente, então deixem que eu mantenha o que me distingue. Enquanto eu puder controlar esse poder, como parece que posso, não faço objeção a carregar esse fardo, pois será por escolha minha, não imposto por sua magia, Eragon. Rá! De agora em diante, não servirei a ninguém, nem a coisa alguma. Se eu ajudar alguém, será porque quero ajudar. Se servir aos Varden, será porque minha consciência me diz que devo, não porque a senhora me pediu, Nasuada, nem porque vou acabar vomitando se não o fizer. Agirei como bem entender, e coitado de quem se opuser a mim, pois conheço todos os seus medos e não hesitarei em manipular esses medos para realizar meus desejos.
— Elva! — exclamou Greta. — Não diga coisas tão terríveis! Você não pode estar falando sério!
A menina se virou para ela de modo tão abrupto que seu cabelo se abriu em leque atrás dela.
— Ah, sim, eu tinha me esquecido de você, minha ama-seca. Sempre fiel. Sempre preocupada. Sou-lhe grata por você ter me adotado depois que minha mãe morreu; e pelo cuidado que me deu em Farthen Dûr, mas seu auxílio já não é necessário. Vou morar sozinha, cuidar de mim mesma e não dever obrigação a ninguém.
Intimidada, a anciã cobriu a boca com a barra de uma manga e se encolheu. O que Elva disse deixou Eragon estarrecido. Ele decidiu que não podia permitir que ela mantivesse seu dom se fosse usá-lo de modo abusivo. Com a ajuda de Saphira, que concordou com ele quanto a esse ponto, Eragon escolheu o mais promissor dos novos contra-encantamentos que havia considerado mais cedo e abriu a boca para pronunciar as frases.
Veloz como uma cobra, Elva lhe tapou a boca com uma das mãos, impedindo-o de falar. O pavilhão estremeceu quando Saphira rosnou, quase ensurdecendo Eragon, com sua audição ampliada.
Enquanto todos tremiam de medo, com exceção de Elva, que continuava a fazer pressão com a mão no rosto de Eragon, Saphira disse: Solte-o, criança!
Atraídos pelo rosnado de Saphira, os seis guardas de Nasuada entraram correndo, brandindo suas armas, enquanto Blödhgarm e os outros elfos seguiam velozes para se postar de cada lado dos ombros de Saphira, afastando a parede da tenda para poderem ver o que estava acontecendo.
Nasuada fez um gesto, e os Falcões da Noite baixaram as armas, mas os elfos permaneceram preparados para entrar em ação, com suas espadas reluzindo como gelo.
Nem a comoção que havia criado nem as espadas voltadas para ela pareciam perturbar Elva. Inclinou a cabeça e olhou para Eragon como se ele fosse um besouro diferente que ela tivesse encontrado se arrastando pela beira da cadeira. E, então, sorriu com uma expressão tão doce, inocente, que ele perguntou por que não tinha uma fé maior no caráter da menina.
— Eragon — disse ela, numa voz doce como o mel —, pare! Se você lançar esse encantamento, vai me prejudicar como me prejudicou antes. Não é isso o que você quer. Todas as noites, quando for se deitar para dormir, você pensará em mim, e a lembrança do erro cometido o atormentará. O que você estava prestes a fazer era errado, Eragon. Você é o juiz do mundo? Vai me condenar sem que eu tenha cometido crime algum apenas porque não aprova minha atitude? É por esse caminho que se chega ao prazer depravado de controlar os outros para sua própria satisfação. Galbatorix aprovaria.
Nesse momento, ela o liberou, mas Eragon estava abalado demais para se mexer. Elva o atingira em seu cerne, e ele não tinha argumentos aos quais pudesse recorrer para se defender, pois os questionamentos e observações da menina eram exatamente os que ele fazia para si mesmo. A compreensão que Elva tinha dele fez com que um calafrio lhe percorresse a espinha.
— Sou também grata a você, Eragon, por vir aqui hoje corrigir seu erro. Nem todo o mundo está tão disposto a reconhecer e encarar suas falhas. No entanto, você não conquistou minhas boas graças hoje. Você tentou endireitar os pratos da balança da melhor forma possível, mas isso é somente o que qualquer pessoa decente deveria ter feito. Você não me compensou por tudo aquilo que passei, nem tem como fazê-lo. Portanto, quando nossos caminhos se cruzarem novamente, Eragon Matador de Espectros, não me considere nem amiga nem inimiga. Minha disposição para com você, Cavaleiro, é ambivalente. Estou tão preparada para odiá-lo quanto para amá-lo. Caberá apenas a você decidir o que virá a ser... Saphira, você me deu a estrela sobre minha fronte e sempre foi generosa comigo. Sou e sempre serei sua fiel criada.
Levantando o queixo para atingir sua altura máxima de pouco mais de um metro de altura, Elva examinou o interior do pavilhão.
— Eragon, Saphira, Nasuada... Angela. Bom-dia. — E com isso, ela seguiu majestosa na direção da entrada.
Os Falcões da Noite abriram espaço quando ela passou entre eles e saiu da tenda. Sentindo-se meio tonto, Eragon se levantou.
— Que tipo de monstro eu criei? — Os dois Urgals que eram Falcões da Noite tocaram as pontas dos seus chifres, que Eragon sabia ser seu modo de se precaver do mal. Dirigiu-se então para Nasuada: — Sinto muito. Parece que só piorei as coisas para você... e para todos nós.
Calma como um lago nas montanhas, Nasuada arrumou as vestes antes de responder.
— Não faz diferença. O jogo se tornou um pouco mais complicado, só isso. É o que se deve esperar à medida que nos aproximarmos de Urû’baen e Galbatorix.
Daí a um instante, Eragon ouviu o som de um objeto que vinha voando na sua direção. Ele se encolheu, mas, por mais veloz que fosse, foi lento demais para evitar um tapa doloroso que atirou sua cabeça para um lado e o fez cambalear contra uma cadeira. Ele rolou para o outro lado do assento e se pôs de pé de um salto, com o braço esquerdo levantado para se proteger de um golpe iminente, o braço direito puxado para trás, pronto para contra-atacar com a faca de caça que tinha arrancado do cinto durante a manobra. Para seu espanto, ele viu que era Angela que o tinha agredido. Os elfos estavam reunidos alguns centímetros atrás da vidente, prontos para subjugá-la se ela voltasse a atacá-lo ou para levá-la dali sob escolta caso Eragon desse a ordem.
Solembum estava aos seus pés, mostrando dentes e garras, com o pelo todo eriçado. Naquele instante, Eragon não deu a mínima para os elfos.
— Por que você fez isso? — perguntou ele, encolhendo-se quando seu lábio inferior se esticou, rasgando a carne. O sangue morno, de gosto metálico, escorreu pela garganta abaixo.
Angela empinou o nariz.
— Agora vou ter de passar os próximos dez anos ensinando Elva a se comportar! Não era isso o que eu tinha em mente para a próxima década!
— Ensiná-la? — estranhou Eragon. — Ela não vai permitir. Ela vai conseguir deter você com a mesma facilidade com que me deteve.
— Hã. Não é provável. Ela não sabe o que me perturba, nem o que poderia chegar a me ferir. Eu me certifiquei disso no dia em que ela e eu nos conhecemos.
— E você compartilharia conosco esse encantamento? — perguntou Nasuada. — Depois destes últimos desdobramentos, parece prudente que nós tenhamos um meio para nos protegermos de Elva.
— Não, acho que não — respondeu Angela.
E, então, também ela saiu decidida do pavilhão, e Solembum foi atrás, meneando a cauda com extrema elegância. Os elfos embainharam as espadas e se retiraram para uma distância discreta da tenda.
Nasuada esfregou as têmporas com movimentos circulares.
— Magia — disse ela, em tom de maldição.
— Magia — concordou Eragon.
Os dois se sobressaltaram quando Greta se lançou ao chão e começou a chorar e a se lamuriar enquanto tentava arrancar os cabelos ralos, dava tapas no próprio rosto e quase rasgava o corpete.
— Ai, minha pobre queridinha! Perdi meu cordeirinho! Perdi! O que vai acontecer com ela, sozinha neste mundo? Ai, que desgraça, rejeitada por minha florzinha querida. É um pagamento vergonhoso por todo o trabalho que tive, curvando as costas como uma escrava. Que mundo duro e cruel é esse, que sempre rouba a felicidade da gente. — Ela gemeu. — Meu amorzinho. Minha flor. Meu docinho. Foi embora! Sem ninguém para olhar por ela... Matador de Espectros! Você vai olhar por ela?
Eragon a segurou pelo braço e a ajudou a ficar em pé, consolando-a com promessas de que ele e Saphira manteriam Elva sob vigilância cerrada.
Principalmente, como disse Saphira a Eragon, porque ela poderia tentar enfiar uma faca entre nossas costelas.

2 comentários:

  1. "De agora em diante, não servirei a ninguém, nem a coisa alguma. Se eu ajudar alguém, será porque quero ajudar. Se servir aos Varden, será porque minha consciência me diz que devo, não porque a senhora me pediu, Nasuada, nem porque vou acabar vomitando se não o fizer. Agirei como bem entender, e coitado de quem se opuser a mim, pois conheço todos os seus medos e não hesitarei em manipular esses medos para realizar meus desejos."
    Kkkkk eles criaram um monstro eu gosto de Elva :D

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  2. Um dos melhores capitulos (senão o melhor) até agora.
    A força da Elva e sua independencia dos demais, sua coragem e determinação.Caramba, gostei mais dela ainda.
    EU ainda não entendo direito a Angela por mais que a ame de todo coração e vou adorar ver mais sobre o passado dela se o autor deixar

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Boa leitura :)