3 de junho de 2017

Capítulo 17 - Sagas entrecruzadas

Acabara de amanhecer e Eragon estava sentado em sua cama passando óleo em sua cota de malha quando um dos arqueiros dos Varden veio até ele e pediu para que curasse sua mulher que estava sofrendo de um tumor maligno. Mesmo precisando estar no pavilhão de Nasuada em menos de uma hora, Eragon concordou e acompanhou o homem até sua tenda. Eragon encontrou a mulher bastante enfraquecida devido ao inchaço e necessitou de toda a sua habilidade para extrair os insidiosos cirros de seu corpo. O esforço o deixou exausto, mas ficou satisfeito por ter podido salvar a mulher de uma longa e dolorosa morte.
Em seguida, Eragon juntou-se novamente à Saphira do lado de fora da tenda do arqueiro e ficou ao lado dela por alguns minutos, massageando os músculos perto da nuca do dragão. Zunindo, Saphira moveu seu rabo sinuoso e contorceu a cabeça e os ombros de modo que ele pudesse ter um melhor acesso à lisa e metálica parte inferior dela.
Enquanto você estava ocupado lá dentro, outros pedintes apareceram em busca de uma audiência com você, mas Blödhgarm e seus congêneres os espantaram porque seus pedidos não eram urgentes.
Foi mesmo? Ele enterrou os dedos embaixo da borda de uma de suas grandes escamas do pescoço e coçou com mais força ainda. Talvez eu devesse ajudar Nasuada.
Como assim?
No sexto dia de cada semana, de manhã até a noite, ela disponibiliza uma audiência a todos que desejam trazer solicitações ou contendas para ela. Eu poderia fazer a mesma coisa.
Eu gosto da ideia, disse Saphira. Só que você terá de tomar cuidado para não gastar energia demais nos pedidos das pessoas. Nós devemos estar preparados para lutar contra o Império a qualquer momento.
Ela empurrou seu pescoço contra a mão dele, zunindo mais alto ainda.
Preciso de uma espada, disse Eragon.
Então arranje umaMmh...
Eragon continuou coçando-a até que ela se afastou e disse: Você vai se atrasar para o encontro com Nasuada, a menos que corra.
Juntos, tomaram a direção do centro do acampamento onde ficava o pavilhão de Nasuada. Como o local não ficava a mais de quatrocentos metros de distância, Saphira caminhou ao lado dele em vez de voar entre as nuvens, como fizera antes. Mais ou menos uns sessenta metros no caminho do pavilhão, encontraram, por acaso, Angela, a herbolária.
Ela estava ajoelhada entre duas tendas, apontando para um quadrado de couro enrolado à frente de uma rocha achatada. Sobre o couro encontrava-se uma pilha mal-arrumada de ossos do tamanho de dedos rotulados com símbolos diferentes em cada faceta: os artelhos de um dragão com os quais ela lera o futuro de Eragon em Teirm. A sua frente, estava sentada uma mulher alta de ombros largos; tinha a pele bronzeada e enrugada; cabelos pretos presos com um fio grosso que lhe caía pelas costas; e um rosto que ainda era bonito apesar das linhas duras que os anos haviam esculpido em volta de sua boca. Usava um vestido de burel que havia sido feito para uma mulher menor; seus pulsos estavam vários centímetros para fora das mangas. Ela havia amarrado uma faixa de tecido escuro em volta de cada pulso, mas a do pulso esquerdo tinha afrouxado e deslizado em direção ao cotovelo. Eragon viu espessas camadas de cicatrizes onde a faixa deveria estar. Era o tipo de cicatriz que só adquiria quem era constantemente submetido a algemas. Em algum ponto de sua vida, imaginou Eragon, ela havia sido capturada por seus inimigos e lutara, lutara até rasgar seus pulsos, a julgar pela aparência das cicatrizes. Ele imaginou se ela havia sido uma criminosa ou uma escrava, e sentiu sua fisionomia obscurecer ao pensar em alguém com tamanha crueldade a ponto de permitir que tal sofrimento acometesse um prisioneiro sob seu controle, mesmo que a própria pessoa houvesse imposto.
Perto da mulher encontrava-se uma adolescente com o olhar sério que apenas acabara de adquirir todo o encanto da beleza adulta. Os músculos de seu antebraço eram de uma grossura pouco usual, como se ela fosse aprendiz de um ferreiro ou de um espadachim, o que era altamente improvável para uma garota, independentemente de sua força.
Angela acabara de dizer alguma coisa para a mulher e sua companheira quando Eragon e Saphira pararam atrás da bruxa de cabelos encaracolados. Com um único movimento, juntou os artelhos no quadrado de couro e os enfiou debaixo da faixa amarela em sua cintura. Levantou-se e abriu um resplandecente sorriso na direção de Eragon e Saphira.
— Gente, vocês dois têm um impecável senso de oportunidade. Sempre aparecem no momento em que a varinha do destino começa a girar.
— A varinha do destino? — questionou Eragon.
Ela deu de ombros.
— O quê? Você não vai querer que eu seja brilhante o tempo todo, não é? Nem eu consigo. — Ela fez um gesto na direção das duas estranhas que também haviam se levantado e disse: — Eragon, você poderia lhes dar sua bênção? Elas passaram por muitos perigos e uma estrada dura ainda as espera. Tenho certeza de que ficariam muito agradecidas com qualquer bênção protetora transmitida por um Cavaleiro de Dragão.
Eragon hesitou. Ele sabia que Angela raramente usava os ossos de dragão com as pessoas que buscavam, seus serviços – normalmente apenas com. aqueles com quem Solembum se dignava a falar – já que tal prognóstico não era um falso ato de magia, mas sim uma verdadeira previsão que poderia revelar os mistérios do futuro. O fato de a bruxa ter escolhido fazer isso pela mulher bonita com as cicatrizes nos pulsos e pela adolescente com os antebraços de um espadachim lhe indicava que eram pessoas de relevo, pessoas que haviam tido – e ainda teriam – importantes papéis na formação da futura Alagaësia.
Como se para confirmar suas suspeitas, ele enxergou Solembum em sua usual forma de gato, com orelhas grandes e eriçadas à espreita, atrás do canto de uma tenda próxima, observando o ritual com enigmáticos olhos amarelos. Mas, ainda assim, Eragon hesitou, assombrado pela lembrança da primeira e da última bênção que conferira – como, por causa de sua relativa falta de familiaridade com a língua antiga, ele distorcera a vida de uma criança inocente.
Saphira?, perguntou ele.
Seu rabo chicoteou o ar. Não seja tão relutante. Você aprendeu com seu erro, e não voltará a cometê-lo. Por que, então, você deveria negar sua bênção àqueles que podem se beneficiar dela? Abençoe-as, eu digo, e faça-o corretamente dessa vez.
— Quais são seus nomes? — perguntou ele.
— Por favor, Matador de Espectros — disse a mulher alta de cabelos pretos, com um pouco de sotaque que ele não conseguia distinguir — nomes possuem poder, e nós preferimos que os nossos permaneçam desconhecidos.
Ela mantinha o ângulo do olhar ligeiramente voltado para baixo, mas seu tom de voz era firme e inflexível. A garota soltou um pequeno arquejo, como se estivesse chocada com a afronta da outra mulher.
Eragon assentiu com a cabeça, nem chateado nem surpreso, embora a reticência da mulher houvesse instilado sua curiosidade ainda mais. Ele gostaria de ter sabido os nomes delas, mas não eram essenciais para o que ele estava para realizar. Puxando a luva da mão direita, colocou a palma no meio da testa morna da mulher. Ela recuou ao contato, mas não se afastou. Suas narinas ficaram escancaradas, os cantos da boca afinaram, uma dobra apareceu entre suas sobrancelhas, e ele sentiu-a tremer, como se seu toque fosse doloroso e ela estivesse lutando contra a ânsia de empurrar seu braço. À distância, Eragon podia distinguir vagamente Blödhgarm à espreita, pronto para atacar a mulher, se fosse hostil. Desconcertado pela reação dela, Eragon abriu as barreiras de sua mente, imergiu no fluxo da magia e, com todo poder da língua antiga, disse:
— Atra guliä um ilian tauthr ono un atra ono waíse sköliro fra rauthr.
Ao impregnar a frase com energia, como se estivesse proferindo as palavras de um encanto, assegurou que elas dariam forma ao curso dos eventos e, portanto, melhorariam o quinhão da vida da mulher.
Foi cuidadoso em limitar a quantidade de energia que transferiu na bênção porque, a menos que ele colocasse freios, um encanto desse tipo sugaria seu corpo até absorver toda a sua vitalidade, deixando-o uma concha vazia. Apesar de sua precaução, a queda em sua força foi mais do que ele esperara; sua visão enfraqueceu e suas pernas ficaram trôpegas e ameaçaram desabar. Um instante depois, recuperou-se.
Foi com uma sensação de alívio que retirou sua mão direita da testa da mulher, um sentimento que ela parecia compartilhar com ele, já que deu um passo para trás e esfregou os braços. Parecia uma pessoa tentando limpar seu organismo de alguma substância maligna.
Eragon mudou de posição e repetiu o procedimento com a adolescente. O rosto da garota se alargou quando ele lançou o encanto, como se pudesse senti-lo tornando-se parte de seu corpo. Ela fez uma cortesia:
— Obrigada, Matador de Espectros. Estamos em dívida com você. Espero que tenha sucesso em derrotar Galbatorix e o Império.
Ela se virou para ir embora, mas parou quando Saphira bufou e deslizou sobre a cabeça de Eragon e Angela de modo a aparecer por cima das duas mulheres. Ela inclinou o pescoço e respirou, antes no rosto da mulher mais velha e depois no rosto da mais jovem e, projetando seus pensamentos com força suficiente para superar as mais densas defesas – já que ela e Eragon haviam reparado que a mulher de cabelos pretos possuía uma mente bem blindada – disse:
Boa caçada, ó Selvagens. Que ventos favoráveis sempre as acompanhem, que o sol sempre guie seus caminhos e que a caçada seja fácil. E espero que você, Olhos de Lobo, quando encontrar aquele que prendeu suas garras na armadilha, não o mate muito rapidamente.
Ambas as mulheres enrijeceram quando Saphira começou a falar. Em seguida, a mais velha bateu com os punhos no peito e disse:
— Isso eu não farei, ó Bela Caçadora. — Então, curvou-se para Angela e disse: — Treine com afinco, Vidente.
— Cantora de Espadas.
Com um farfalhar de saias, ela e a adolescente foram embora e logo se perderam de vista no emaranhado de tendas idênticas.
O quê? Nenhuma marca nas testas delas?, Eragon perguntou à Saphira.
Elva era única. Eu não marcarei mais ninguém da mesma maneira. O que aconteceu em Farthen Dûr... simplesmente aconteceu. O instinto me guiou. Além disso, não posso explicar.
Quando os três estavam andando em direção ao pavilhão de Nasuada, Eragon olhou de relance para Angela e perguntou:
— Quem são elas?
Ela fez uma careta e respondeu:
— Peregrinas em suas buscas pessoais.
— Isso não é resposta — reclamou ele.
— Não tenho o hábito de presentear segredos como se fossem balas de nozes no solstício de inverno. Principalmente quando pertencem a outras pessoas.
Ele ficou em silêncio por alguns passos, e então disse:
— Se alguém se recusa a me fornecer algum pedaço de informação, só me deixa mais determinado a descobrir a verdade. Odeio ser ignorante. Para mim, uma questão não respondida é como um espinho na minha carne que me incomoda sempre que eu me mexo, até que eu o arranque.
— Você tem a minha solidariedade.
— Por quê?
— Porque se é assim, você deve acordar todos os dias em agonia mortal porque a vida é cheia de questões não respondidas.
A uns doze metros do pavilhão de Nasuada, um contingente de lanceiros marchando no acampamento bloqueava o caminho. Enquanto esperavam que os guerreiros passassem, Eragon tremeu e soprou nas mãos.
— Gostaria de ter tempo para uma refeição.
Rápida como sempre, Angela disse:
— É a magia, não é? Acabou com você. — Ele assentiu com a cabeça. A bruxa enfiou a mão em uma das bolsinhas que estavam em sua faixa, puxou um bolinho duro amarronzado polvilhado de linhaça brilhante e ofereceu a ele: — Isso aqui vai mantê-lo até o almoço.
— O que é isso?
Ela empurrou o alimento, insistindo.
— Coma. Você vai gostar. Pode confiar em mim. — Assim que ele pegou o bolinho oleoso dos dedos dela, ela agarrou o pulso dele com a outra mão e a segurou enquanto inspecionava os calos de dois centímetros nas juntas. — Muito sagaz da sua parte — disse ela. — São tão feios quanto as verrugas de um sapo, mas quem se importa se eles ajudam a manter sua pele intacta, não é? Eu gosto. Gosto muito. Você se inspirou no Ascûdgamln dos anões?
— Nada escapa a você, não é? — perguntou ele.
— Deixo escapar. Só me preocupo com coisas que existem.
Eragon piscou, arrebatado, como sempre ficava pelos truques verbais dela. Ela deu um capinha em um dos calos com a ponta de uma de suas unhas curtas.
— Eu faria em mim também, só que pegaria na lã quando eu estivesse fiando e tricotando.
— Você faz tricô com seu próprio fio? — perguntou ele, surpreso por ela se engajar em algo tão comum.
— Claro! É uma maneira maravilhosa de relaxar. Além disso, se eu não o fizesse, onde eu conseguiria um suéter com guardas de Dvalar enfrentando coelhos loucos, tecido em Tiduen Kvaedhí ao longo do peito ou uma fita pigmentada em amarelo, verde e rosa? Coelhos loucos... — Ela mexeu nos cachos espessos. — Você ficaria impressionado com a quantidade de mágicos que morreram depois de terem sido mordidos por coelhos loucos. É muito mais comum do que você pode imaginar.
Eragon mirou-a.
Você acha que ela está fazendo uma piada?, perguntou a Saphira.
Pergunte a ela e descubra.
Ela só responderia com outra charada.
Sem mais lanceiros por perto, Eragon, Saphira e Angela prosseguiram o caminho até o pavilhão, acompanhados de Solembum, que se juntara a eles sem que Eragon houvesse percebido. Traçando seu caminho entre pilhas de dejetos deixados pelos cavalos do cortejo do rei Orrin, a herbolária disse:
— Então me diga: fora sua luta com os Ra’zac, alguma coisa terrivelmente interessante aconteceu durante sua viagem? Você sabe como eu amo ouvir coisas interessantes.
Eragon sorriu, pensando nos espíritos que haviam visitado Arya e ele. Entretanto, não queria falar sobre eles, então resolveu dizer:
— Já que você está perguntando, pouquíssimas coisas interessantes aconteceram. Por exemplo, eu conheci um eremita chamado Tenga, que mora nas ruínas de uma torre élfica. Ele possui uma extraordinária biblioteca com sete...
Angela parou tão abruptamente que Eragon continuou caminhando mais alguns passos até perceber e se voltar. A bruxa parecia estupefata, como se houvesse levado um golpe pesado na cabeça. Seguindo ao lado, Solembum encostou-se nas pernas dela e levantou o olhar. Angela umedeceu os lábios e perguntou:
— Você... — Ela tossiu uma vez. — Você tem certeza de que o nome dele era Tenga?
— Você o conhece?
Solembum sibilou, e o pelo de suas costas se eriçou.
Eragon se afastou do menino-gato, ansioso para escapar do alcance de suas garras.
— Se o conheço? — Com um sorriso amargo, Angela plantou suas mãos sobre a cintura. — Se o conheço? Bem, muito mais que isso! Eu fui aprendiz dele por... por muitos e desafortunados anos.
Eragon jamais teria esperado que Angela, revelasse, por livre e espontânea vontade, alguma coisa a respeito de seu passado. Ansioso para saber mais, perguntou:
— Quando você o conheceu? E onde?
— Muito tempo atrás e muito longe daqui. Contudo, nos separamos de modo desagradável, e eu não o vejo há muitos e muitos anos. — Ela franziu o cenho. — Na verdade, eu imaginava que eleja estivesse morto.
Saphira então comentou: Já que foi aprendiz de Tenga, você sabe a que pergunta ele está tentando responder?
— Não faço a menor ideia. Tenga sempre tinha uma pergunta a que estava tentando responder. Se conseguisse a resposta, imediatamente escolhia outra, e por aí vai. Talvez tenha respondido a umas cem perguntas desde a última vez em que o vi, ou quem sabe ainda não esteja rangendo os dentes tentando resolver o mesmo mistério da época que eu o abandonei.
Que era?
— Se as fases da lua influenciam a quantidade e a qualidade das opalas que se formam nas raízes das montanhas Beor, como acreditam fortemente os anões.
— Mas como alguém poderia provar isso? — objetou Eragon.
Angela deu de ombros.
— Se existe alguém que poderia provar, esse alguém é Tenga. Ele pode ser desorganizado, mas seu brilhantismo supera isso.
Ele é um homem que chuta gatos, disse Solembum, como se a frase resumisse toda a personalidade de Tenga.
Então, Angela bateu palmas e disse:
— Chega! Coma seu bolinho, Eragon, e vamos até Nasuada.

Um comentário:

  1. E c a pergunta fosse como dizer o nome d galbatorix?

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Boa leitura :)