24 de junho de 2017

Capítulo 17 - Dras-Leona

O

sol erguia-se no céu, tal como Saphira. Sentado no seu dorso,
Eragon viu Helgrind, no extremo oeste do horizonte e sentiu um
ataque de asco ao contemplar o distante pico de rocha, como
um dente aguçado na paisagem em redor. Helgrind despertava-lhe
tantas recordações desagradáveis que desejava poder destruí-lo e
ver as suas espiras cinzentas e nuas despedaçarem-se no chão.
Saphira parecia mais indiferente à sombria torre de pedra, mas
Eragon percebeu que ela também não gostava de estar perto da
rocha.
Ao cair da noite, Helgrind ficara para trás e Dras-Leona surgia
diante deles, junto do Lago Leona, onde havia dúzias de navios
ancorados. A cidade baixa e ampla era compacta e inóspita tal qual
como Eragon se lembrava dela, com as ruas estreitas e sinuosas, os
seus casebres imundos, uns em cima dos outros, encostados à
muralha de lama amarelada que circundava o centro da cidade, e,
por trás desta, a estrutura gigantesca da imensa catedral negra e
farpada de Dras-Leona, onde os sacerdotes de Helgrind
conduziam os seus rituais medonhos.
Uma série de refugiados percorria a estrada em direção a Norte
— gente a fugir da cidade que em breve seria cercada, rumo a Teirm
ou a Urû’baen, onde poderiam ficar, pelo menos temporariamente,
a salvo do avanço inexorável dos Varden.
Dras-Leona parecia-lhe tão suja e tão maligna como quando a
visitara pela primeira vez, despertando nele uma ânsia de destruição
que não sentira em Feinster nem em Belatona. Aqui o seu desejo
era destruir a ferro e fogo, atacar com todas as terríveis energias
sobrenaturais ao seu dispor e abandonar-se a todos os impulsos
selváticos, deixando atrás de si nada mais que um fosso de cinzas
fumegantes, ensopadas em sangue. Sentia alguma empatia pelos
pobres, aleijados e escravos que viviam dentro das muralhas de
Dras-Leona, mas estava inteiramente convencido de que a cidade
era corrupta e acreditava que o melhor seria arrasá-la e reconstruíla
livre da mancha de perversão com que a religião de Helgrind a
contaminara.
Ao imaginar-se a destruir a catedral com a ajuda de Saphira,
perguntou a si mesmo se a religião dos sacerdotes que praticavam a
auto-mutilação teria algum nome. O seu estudo da língua antiga
ensinara-lhe a dar importância aos nomes — os nomes eram poder e
compreensão — e, enquanto não soubesse o nome da religião, não
conseguiria apreender totalmente a sua verdadeira natureza.
Ao cair da noite, os Varden instalaram-se numa série de campos
cultivados a Sudeste de Dras-Leona, onde o terreno se elevava
num ligeiro planalto que lhes daria alguma proteção, caso o inimigo
decidisse atacar as suas posições. Os homens estavam cansados de
caminhar, mas Nasuada pô-los a trabalhar na fortificação do
acampamento e na montagem das poderosas máquinas de guerra
que tinham trazido consigo de Surda.
Eragon dedicou-se vigorosamente ao trabalho. Primeiro reuniuse
a uma equipa de homens que estavam a aplanar os campos de
trigo e de cevada, usando pranchas com longas laçadas de corda,
presas a elas. Teria sido mais rápido ceifar os grãos com aço ou
com magia, mas os caules que restassem seriam perigosos e pouco
confortáveis para caminhar, muito menos para se dormir sobre eles.
Assim, os talos formavam uma superfície macia e fexível, tão
cómoda como qualquer colchão e muito preferível ao solo nu a que
estavam habituados.
Eragon trabalhou lado a lado com os outros homens durante
mais de uma hora, altura em que já tinham desimpedido espaço
suficiente para as tendas dos Varden.
Depois ajudou na construção da torre de cerco. A sua força fora
do normal permitia-lhe deslocar traves que, de outra forma, teriam
de ser movidas por vários guerreiros, acelerando assim todo o
processo. Alguns dos anões que estavam ainda com os Varden
supervisionaram a montagem da torre, pois as máquinas eram obra
sua. Saphira também ajudou. Abriu trincheiras fundas no chão com
os dentes e as garras, e empilhou a terra removida em aterros, em
torno do campo, fazendo mais em alguns minutos do que cem
homens teriam conseguido fazer ao longo de um dia inteiro. Com o
fogo das suas entranhas e as poderosas sacudidelas da cauda
derrubava árvores, cercas, paredes, casas e tudo o que pudesse
servir de proteção ao inimigo, em torno do acampamento dos
Varden, criando um apavorante cenário de destruição, capaz de
inspirar temor à mais corajosa das almas.
A noite já ia avançada quando os Varden terminaram os
preparativos e Nasuada ordenou aos homens, anões e Urgals que
se deitassem.
Retirando-se para a tenda, Eragon meditou até limpar a mente,
como era hábito, mas em vez de praticar a escrita, passou as horas
seguintes a rever os feitiços que achava poderem vir a ser
necessários no dia seguinte, e a inventar outros novos, destinados a
enfrentar os desafios específicos que Dras-Leona apresentava.
Quando sentiu que estava preparado para a batalha que se
avizinhava, ele abandonou-se às divagações que pareciam mais
variadas e vívidas do que habitualmente. Apesar da meditação, a
perspetiva de ação iminente agitava-lhe o sangue e não o deixava
acalmar. Como sempre, a espera e a incerteza eram a parte que
mais lhe custava enfrentar pelo que ele desejou estar já em
combate, onde não teria tempo para se preocupar com o que
poderia acontecer.
Saphira estava igualmente inquieta. Através dela, Eragon
apanhou fragmentos de sonhos, em que Saphira mordia e
dilacerava, e percebeu que ela ansiava pelo prazer feroz da batalha.
O estado de espírito dela influenciava o seu, até certo ponto, mas
não o suficiente para o fazer esquecer inteiramente a sua apreensão.
A manhã chegou depressa de mais e os Varden reuniram-se nos
arrabaldes desabrigados de Dras-Leona. O exército era imponente,
mas a admiração de Eragon esmoreceu um pouco ao ver as
espadas dentadas, os elmos amolgados e os escudos amassados
dos guerreiros, bem como os rasgões mal remendados nas túnicas
acolchoadas e nas cotas de malha. Se conseguissem tomar Dras-
Leona, poderiam substituir algum do equipamento — tal como
tinham feito em Belatona e, antes disso, em Fenster —, mas não
havia forma de substituir os homens que o utilizavam.
Quanto mais tempo isto se arrastar, disse a Saphira, mais fácil
será para Galbatorix derrotar-nos quando chegarmos a Urû’baen.
Então não nos podemos atrasar, respondeu ela.
Eragon estava montado em Saphira, junto de Nasuada, de
armadura completa, a cavalo no seu fogoso corcel de guerra negro,
Tempestade de Guerra. Alinhados em torno deles estavam os doze
guardas elfos de Eragon e um igual número de guardas de
Nasuada, os Falcões Noturnos, normalmente compostos por um
destacamento de seis guardas; mas que esta decidira aumentar no
decurso da guerra. Os elfos estavam a pé — pois só se dispunham a
montar os cavalos que eles próprios criavam e treinavam — mas
todos os Falcões Noturnos, incluindo os Urgals, estavam a cavalo.
À direita, a uns dez metros, estava o rei Orrin e o seu contingente
de guerreiros escolhidos a dedo, cada um com uma pluma colorida
presa ao topo do elmo. Narheim, o comandante dos anões, e
Garzhvog estavam com as respetivas tropas.
Depois de acenarem com a cabeça um ao outro, Nasuada e
Orrin esporearam as montadas e afastaram-se do corpo principal
do exército dos Varden, seguindo a trote em direção à cidade.
Eragon agarrou-se ao espinho do pescoço de Saphira e esta
seguiu-os.
Nasuada e o rei Orrin pararam antes de passarem por entre os
edifícios decrépitos. Ao seu sinal, dois arautos — um com o
estandarte dos Varden e o outro com o de Surda — cavalgaram
pela rua estreita que percorria o labirinto de casebres, até ao
portão sul de Dras-Leona.
Eragon franziu a sobrancelha ao ver os arautos avançarem. A
cidade parecia estranhamente deserta e sossegada. Não se via
ninguém em toda a cidade, nem mesmo na grossa muralha amarela
onde centenas de soldados de Galbatorix deviam estar
estacionados.
O ar tem um cheiro estranho, disse Saphira, rugindo suavemente
e chamando a atenção de Nasuada.
Na base da muralha, o arauto dos Varden gritou num tom de
voz que se propagou até Eragon e Saphira:
— Salve! Em nome de Lady Nasuada dos Varden e do rei Orrin
de Surda, bem como todos os povos livres de Alagaësia, pedimosvos
que abram os portões para que possamos entregar uma
mensagem importante ao vosso amo e senhor, Marcus Tábor, que
dela poderá colher grandes proveitos tal como todos os homens,
mulheres e crianças de Dras-Leona.
De trás da muralha, um homem que ninguém podia ver
respondeu:
— Estes portões não se abrirão. Transmite a mensagem onde
você está.
— Falas em nome de Lorde Tábor?
— Falo.
— Então incumbimos-te de lhe lembrares que os assuntos de
estado querem-se discutidos na privacidade dos seus aposentos e
não em público onde qualquer um os possa ouvir.
— Não aceito ordens tuas, lacaio! Transmite a tua mensagem e
depressa! Antes que eu perca a paciência e te encha de flechas.
Eragon estava impressionado; o arauto não parecia perturbado
nem intimidado com a ameaça, sem hesitação:
— Como quiseres. Os nossos líderes oferecem paz e amizade a
Lorde Tábor e a todo o povo de Dras-Leona. Não temos motivo
para entrar em conflito convosco, apenas com Galbatorix, e não
vos defrontaríamos se tivéssemos escolha. Não temos uma causa
comum? Muitos de nós vivíamos outrora no Império e apenas o
abandonámos porque fomos expulsos das nossas terras no reinado
cruel de Galbatorix. Somos vossos irmãos de sangue e de espírito.
Unam forças connosco e poderemos ainda libertar-nos do
usurpador que ocupa agora o trono em Urû’baen.
«Se aceitarem a nossa oferta, os nossos líderes garantem a
segurança de Lorde Tábor e da sua família, bem como de todos os
que estejam presentemente ao serviço do Império, embora a
nenhum seja permitido manter a sua posição, caso tenha prestado
juramentos que não possam ser quebrados. Se os vossos
juramentos não vos permitirem ajudar-nos, pelo menos, não nos
impeçam de avançar. Abram os vossos portões, deponham as
vossas espadas e nós prometemos que nenhum mal vos acontecerá.
Se tentarem barrar-nos, varrer-vos-emos como palha, pois
ninguém consegue resistir ao poder do nosso exército, o exército
de Eragon, o Matador de Espectros e do dragão Saphira.
Ao ouvir o seu nome, Saphira levantou a cabeça e soltou um
rugido apavorante.
Por cima do portão, Eragon viu uma figura alta, encapuçada,
subir para as muralhas e parar entre dois merlões, por cima dos
arautos, olhando na direção de Saphira. Eragon franziu os olhos
mas não conseguiu distinguir o rosto do homem. Outras quatro
pessoas, de túnicas negras, reuniram-se ao homem, mas essas
Eragon percebeu tratarem-se de sacerdotes de Helgrind, pois
tinham os corpos mutilados: a um faltava-lhe um antebraço, a
outros dois faltava-lhes uma perna e ao último faltava-lhe um braço
e ambas as pernas, pelo que os companheiros transportavam-no
numa pequena liteira acolchoada.
O homem encapuçado atirou a cabeça para trás e deu uma
gargalhada ensurdecedora, de uma violência explosiva. Por baixo
dele, os arautos lutavam para controlar as montadas, pois os
cavalos empinaram-se e tentaram fugir.
Eragon sentiu o estômago afundar-se e apertou o punho de
Brisingr, pronto a desembainhá-la a qualquer momento.
— Ninguém consegue resistir ao vosso poder? — inquiriu o
homem, fazendo ecoar a voz pelos edifícios. — Creio que têm uma
opinião demasiado elevada a vosso respeito. — E o imenso corpo
vermelho e cintilante de Thorn saltou das ruas para a cobertura de
uma casa, com um gigantesco urro, cravando as garras nos
telhados de madeira. O dragão abriu as enormes asas rematadas
por garras e escancarou a garganta vermelha, varrendo o céu com
uma cortina de chamas ondulantes.
Num tom desdenhoso, Murtagh — porque era de Murtagh que se
tratava — acrescentou:
— Corram para as muralhas as vezes que quiserem, pois jamais
tomarão Dras-Leona, pelo menos enquanto eu e Thorn aqui
estivermos para a defender. Mandem os vossos melhores
guerreiros e feiticeiros combater-nos e todos morrerão. Isso posso
assegurar-vos! Não há um homem entre vós que nos possa vencer.
Nem mesmo tu... Irmão. Voltem para os vossos esconderijos,
antes que seja tarde demais, e rezem para que Galbatorix não se
aventure a lidar convosco pessoalmente, de contrário a vossa única
recompensa será morte e mágoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)