3 de junho de 2017

Capítulo 16 - Banquete com amigos

Eragon e Saphira deixaram o pavilhão rubro, com o contingente de elfos disposto ao redor deles, e caminharam até a pequena tenda que tinha sido designada para o Cavaleiro quando os dois se juntaram aos Varden na Campina Ardente. Ali, ele encontrou meio tonel de água fervente à sua espera, com as espirais de vapor opalinas à luz oblíqua de sol poente. Não deu atenção à água por um instante e se abaixou para entrar na tenda. Depois de olhar para se certificar de que durante sua ausência ninguém havia mexido em seus poucos bens, Eragon baixou a mochila das costas e retirou com cuidado a armadura, guardando-a debaixo do catre. Ela precisava ser limpa e lubrificada, mas essa tarefa teria de esperar.
Estendeu, então, a mão ainda mais por baixo do catre, com os dedos raspando a parede de pano do outro lado, e apalpou no escuro até entrar em contato com um objeto longo e duro. Ele o apanhou e pôs no colo o embrulho pesado enrolado em pano. Desatou os nós no invólucro e depois, começando pela ponta mais grossa, começou a desenrolar as tiras grosseiras de lona. Centímetro a centímetro, o punho de couro puído do montante começou a aparecer. Eragon parou quando já estavam expostos o punho, o guarda-mão e uma boa extensão da lâmina reluzente, denteada como um serrote nos lugares em que Murtagh tinha aparado seus golpes quando ainda empunhava Zar’roc. Eragon ficou ali sentado, olhando fixamente para a arma, em conflito. Não sabia dizer o que o levara a agir daquele modo. No dia posterior à batalha, tinha voltado ao platô e recolhido a espada do meio da confusão de terra pisoteada onde Murtagh a deixara cair. Mesmo depois de uma única noite exposto aos elementos, o aço tinha adquirido uma capa desuniforme de ferrugem. Com uma palavra, ele desfez a leve camada de corrosão. Talvez fosse porque Murtagh roubara sua própria espada que Eragon sentiu o impulso de apanhar a de Murtagh, como se essa troca, por mais desigual e involuntária que fosse, pudesse reduzir sua perda.
Talvez fosse porque ele queria ter uma recordação daquele conflito sangrento. E talvez fosse porque ainda nutrisse um afeto latente por Murtagh, apesar das circunstâncias sinistras que haviam voltado um contra o outro. Por mais que abominasse o que Murtagh tinha se tornado, e sentisse pena dele por isso, Eragon não tinha como negar a ligação que existia entre eles. O destino deles era compartilhado. Se não fosse por um acidente de nascimento, ele teria sido criado em Urû’baen, e Murtagh no vale Palancar. E, nesse caso, suas posições atuais bem poderiam estar invertidas. As vidas de ambos estavam inexoravelmente entrelaçadas.
Enquanto olhava para o aço prateado, Eragon compôs um encanto que alisaria as rugas da lâmina, fecharia as fendas em forma de cunha ao longo dos gumes e restauraria a força da tempera. Perguntava-se, porém, se deveria fazer isso. A cicatriz que Durza lhe dera, Eragon tinha mantido como um lembrete do confronto, pelo menos até os dragões a apagarem durante o Agaetí Blödhren. Será que devia guardar essa cicatriz também? Seria saudável para ele levar à cintura uma lembrança tão dolorosa? E que tipo de mensagem transmitiria para os demais entre os Varden se resolvesse brandir a espada de mais um traidor? Zar’roc tinha sido um presente de Brom. Eragon não poderia ter se recusado a aceitá-la, nem lamentava tê-lo feito. Mas não estava dominado por nenhuma compulsão de reivindicar como sua a arma anônima pousada no seu colo.
Preciso de uma espada, pensou. Mas não dessa espada. Ele voltou a envolver a arma em sua mortalha de lona e a escondeu novamente por baixo do catre. Depois, levando debaixo do braço uma camisa e túnica limpas, saiu da tenda e foi se banhar. Quando estava limpo e trajado nas belas camisa e túnica de lámarae, foi ao encontro de Nasuada perto das tendas dos curandeiros, como ela havia pedido.
Saphira foi voando porque, como disse: No chão tudo é muito apertado para mim. Eu não paro de derrubar tendas. Além do mais, se eu for andando com você, um aglomerado de gente vai se formar ao nosso redor e para nós vai ser quase impossível avançar.
Nasuada estava esperando por ele ao lado de uma fileira de três mastros, dos quais meia dúzia de flâmulas de cores fortes pendia sem ânimo no ar frio. Nasuada tinha se trocado desde que se despedira dele e agora estava usando um vestido leve de verão, da cor de palha clara. Seus cabelos densos, semelhantes a musgo, estavam presos para o alto numa massa complexa de nós e tranças. Uma única fita branca mantinha no lugar o penteado. Ela sorriu para Eragon. Ele retribuiu o sorriso e andou mais rápido. Quando chegou mais perto, seus guardas se misturaram aos dela, com uma manifestação de suspeita sem disfarces por parte dos Falcões da Noite e uma indiferença calculada por parte dos elfos.
Nasuada pegou seu braço e, enquanto conversavam em tons agradáveis, guiou seus passos ao longo de um passeio pelo mar de tendas. Lá no alto, Saphira dava voltas, satisfeita em poder esperar até que eles chegassem ao destino antes de se entregar ao esforço de pousar.
Eragon e Nasuada falaram de muitos assuntos. Pouca coisa de importância passou entre seus lábios, mas sua inteligência, bom humor e a prudência dos seus comentários o encantavam. Para ele, era fácil conversar com ela, e ainda mais fácil ouvi-la; e essa serenidade fez com que percebesse como gostava dela. O domínio que ela exercia sobre ele superava de longe o de uma senhora feudal sobre seu vassalo. Era uma sensação nova para ele, esse vínculo. Além de sua tia, Marian, de quem tinha apenas uma leve lembrança, Eragon havia sido criado num mundo de homens e meninos, sem nunca ter a oportunidade de fazer amizade com uma mulher. Sua falta de experiência o deixava inseguro, e sua insegurança o deixava constrangido, mas Nasuada parecia não perceber. Ela o deteve diante de uma tenda que reluzia com a luz de muitas velas acesas lá dentro, e de onde vinha o burburinho de uma quantidade de vozes ininteligíveis.
— Agora precisamos mergulhar no pântano da política. Prepare-se.
Ela abriu com um gesto largo a aba de entrada da tenda, e Eragon deu um pulo quando a multidão gritou “Surpresa!”. Uma larga mesa de cavaletes abarrotada de comida dominava o centro da tenda, e lá estavam Roran e Katrina, cerca de vinte dos moradores de Carvahall – incluindo-se Horst e a família – Angela, a herbolária, Jeod e a mulher, Helen, bem como algumas pessoas que Eragon não reconhecia, mas que aparentavam ser marinheiros.
Meia dúzia de crianças que estava brincando no chão junto da mesa interrompeu a brincadeira e ficou olhando para Nasuada e Eragon, de queixo caído, aparentemente sem conseguir decidir qual dessas duas figuras estranhas merecia mais atenção.
Eragon abriu um sorriso, sem saber o que dizer. Antes que conseguisse pensar em alguma coisa, Angela levantou o caneco, falando com a voz aguda.
— Bem, não fique aí parado de boca aberta! Entre, sente-se! Estou com fome!
Enquanto todos riam, Nasuada puxou Eragon na direção das duas cadeiras vazias ao lado de Roran. Eragon segurou a cadeira para Nasuada e, enquanto ela se sentava, ele perguntou:
— Foi você que organizou isso?
— Roran sugeriu quem você gostaria que estivesse presente; mas, sim, a ideia original foi minha. E fiz alguns acréscimos meus à mesa, como você pode ver.
— Obrigado — disse Eragon, com humildade. — Muito obrigado.
Ele viu Elva sentada de pernas cruzadas no canto esquerdo da tenda, com uma bandeja de comida no colo. As outras crianças a evitavam – Eragon podia imaginar que não tivessem muito em comum – e nenhum dos adultos se sentia à vontade na sua presença. A menina pequena, de ombros estreitos, olhou para ele por trás da franja negra com seus horríveis olhos violeta e formou com os lábios o que ele adivinhou ser “Saudações, Matador de Espectros”.
— Saudações, Vaticinadora — respondeu ele, sem voz.
A boquinha cor-de-rosa se abriu no que teria sido um sorriso encantador se não fossem os globos cruéis que ardiam ali acima.
Eragon se agarrou aos braços da cadeira quando a mesa tremeu, os pratos chocalharam e as paredes da tenda panejaram. Em seguida, o fundo da tenda se avolumou e se abriu quando Saphira fez entrar sua cabeça.
Carne!, disse ela. Sinto o cheiro de carne!
Durante as horas seguintes, Eragon se deixou mergulhar num nevoeiro de comida, bebida e prazer de estar em boa companhia. Era como uma volta ao lar. O vinho jorrava como água; e, depois de esvaziarem as taças uma vez ou duas, os aldeões esqueceram toda a deferência e o trataram como se fosse mais um deles, que era o maior presente que poderiam lhe dar. Foram igualmente generosos com Nasuada, embora não fizessem brincadeiras que zombassem dela, como algumas vezes fizeram com Eragon.
Uma fumaça pálida encheu a tenda à medida que as velas se consumiam. Ao seu lado, Eragon ouvia a risada retumbante de Roran que soava repetidamente, e do outro lado da mesa vinha o retumbar ainda mais forte do riso de Horst.
Murmurando um sortilégio, Angela fez dançar um homenzinho que tinha modelado numa casca de um pão caseiro, para grande divertimento de todos. As crianças aos poucos superaram o medo que tinham de Saphira e ganharam coragem para se aproximar dela e afagar seu focinho. Logo estavam escalando pelo seu pescoço, pendurando-se dos espinhos e dando puxões nas antenas acima dos seus olhos. Eragon ria enquanto olhava.
Jeod cantou para os convivas uma canção que tinha aprendido num livro havia muito tempo. Tara dançou uma dança campestre. Os dentes de Nasuada rebrilhavam quando jogava a cabeça para trás. E Eragon, a pedido de todos, recontou algumas das suas aventuras, incluindo uma descrição detalhada de sua fuga de Carvahall com Brom, que tinha um interesse especial para seus ouvintes.
— E pensar — disse Gertrude, a curandeira de rosto redondo, puxando e repuxando o xale — que tínhamos no nosso vale um dragão e nem chegamos a saber disso. — Com um par de agulhas de tricô tirado de dentro das mangas, ela apontou para Eragon. — Pensar que eu cuidei de você quando suas pernas estavam arranhadas de voar em Saphira, e eu nunca suspeitei a causa. — Abanando a cabeça e estalando a língua, encheu uma agulha com lã marrom e começou a tricotar com a velocidade de décadas de prática.
Elain foi a primeira a sair da festa, alegando estar exausta por conta da gravidez avançada. Um dos filhos, Baldor, foi com ela. Meia hora depois, Nasuada também fez menção de sair, explicando que as exigências da sua posição a impediam de ficar tanto tempo quanto gostaria, mas que lhes desejava saúde e felicidade; e esperava que continuassem a apoiá-la em sua luta contra o Império.
Enquanto se afastava da mesa, Nasuada acenou para Eragon. Ele foi se juntar a ela perto da entrada.
— Eragon — disse ela, de lado para o resto da tenda —, sei que precisa de tempo para se recuperar da viagem e que tem seus próprios assuntos a tratar. Portanto, você tem o dia de amanhã e o de depois para fazer o que quiser. Na manhã do terceiro dia, porém, apresente-se no meu pavilhão para podermos conversar sobre seu futuro. Tenho uma missão importantíssima para você.
— Minha lady — disse ele, prosseguindo então: — A senhora sempre mantém Elva por perto aonde quer que vá, não é mesmo?
— Sim. Ela é minha proteção contra qualquer perigo que possa passar pelos Falcões da Noite. Além disso, sua capacidade para adivinhar o que aflige as pessoas já se revelou de uma utilidade extraordinária. É muito mais fácil obter a cooperação de alguém quando se está inteirado de todas as suas mágoas secretas.
— A senhora está disposta a abdicar disso tudo?
Ela o estudou com um olhar penetrante.
— Você pretende remover a maldição que lançou sobre Elva?
— Pretendo tentar. Lembre-se, prometi a ela que tentaria.
— É, eu estava presente. — O barulho da queda de uma cadeira a perturbou por um instante. E então prosseguiu: — Suas promessas acabarão nos matando... Elva é insubstituível. Mais ninguém tem o dom que ela tem. E o serviço que presta, como acabei de confirmar, vale mais que uma montanha de ouro. Já chegou a me ocorrer que, de todos nós, talvez somente ela seja capaz de derrotar Galbatorix. Ela seria capaz de prever cada ataque dele, e seu encantamento lhe mostraria como se opor a eles. E, desde que essa oposição não exigisse que sacrificasse a própria vida, sairia vitoriosa... Pelo bem dos Varden, Eragon, pelo bem de todos na Alagaësia, você não poderia simular sua tentativa de curar Elva?
— Não — disse ele, interrompendo-a como se ela o ofendesse. — Eu não o faria mesmo que pudesse. Seria errado. Se forçarmos Elva a permanecer como é, ela se voltará contra nós, e eu não quero tê-la como inimiga. — Ele se calou e então, vendo a expressão de Nasuada, acrescentou: — Além do mais, há uma boa probabilidade de que eu não tenha êxito. Remover um encantamento de formulação tão vaga é na melhor das hipóteses uma perspectiva difícil... Permite-me uma sugestão?
— Qual?
— Seja franca com Elva. Explique para ela o que ela representa para os Varden e pergunte se ela se dispõe a continuar a suportar essa carga pelo bem de todas as pessoas livres. Ela pode se recusar. Tem todo o direito; mas, se for isso o que ocorrer, ela demonstraria ter um caráter no qual nós não íamos querer confiar, de qualquer maneira. E, se aceitar, será por sua livre e espontânea vontade.
Franzindo um pouco o cenho, Nasuada concordou.
— Falarei amanhã com ela. Você também deveria estar presente, para me ajudar a convencê-la e para anular a maldição caso não consigamos. Esteja no meu pavilhão três horas depois do nascer do dia. — E com isso, ela saiu majestosa para a noite iluminada por archotes lá fora.
Muito mais tarde, quando as velas espirravam nos castiçais e os aldeões começaram a se dispersar em grupos de dois e três, Roran pegou o braço de Eragon pelo cotovelo e o levou pela parte de trás da tenda para ficar ao lado de Saphira, onde os outros não os ouvissem.
— O que você disse antes acerca de Helgrind, aquilo foi tudo o que houve? — perguntou Roran.
Sua mão parecia um par de tenazes de ferro segurando a carne de Eragon. Os olhos estavam duros, questionadores e também de uma vulnerabilidade extraordinária. Eragon sustentou seu olhar.
— Se você confia em mim, Roran, nunca volte a me fazer essa pergunta. Não é uma coisa que você queira saber. — Mesmo enquanto falava, Eragon teve uma profunda sensação de constrangimento por ter de esconder de Roran e Katrina a existência de Sloan. Ele sabia que a mentira era necessária, mas mesmo assim se sentia constrangido por enganar sua família. Por um instante, Eragon pensou em contar a verdade a Roran, mas então lembrou-se de todos os motivos pelos quais tinha decidido não contar e refreou o impulso.
Roran hesitou, com uma expressão perturbada. Depois firmou o queixo e soltou Eragon.
— Eu confio em você. É para isso que existe a família, afinal de contas, né? Para confiar.
— Isso e para se matarem uns aos outros.
Roran riu e esfregou o polegar no nariz.
— Para isso também. — Ele girou os ombros fortes, redondos, e estendeu a mão para massagear o direito, hábito que tinha adquirido desde que o Ra’zac o mordera. — Tenho mais uma pergunta.
— É?
— É um privilégio... um favor que eu gostaria que você me fizesse. — Um sorriso sem graça tocou seus lábios, e ele deu de ombros. — Nunca pensei que um dia falaria com você sobre esse assunto. Você é mais novo que eu, mal chegou à idade adulta e ainda por cima é meu primo.
— Falar do quê? Pare com os rodeios.
— De casamento — disse Roran, levantando o queixo. — Você me casaria com Katrina? Seria um prazer para mim se você concordasse. E, apesar de eu não ter tocado no assunto com Katrina, à espera de uma resposta sua, sei que ela se sentiria honrada e feliz se você aceitasse nos unir como marido e mulher.
Surpreso, Eragon não encontrou palavras para responder. Por fim, conseguiu falar, gaguejando:
— Eu? — Depois, apressou-se a completar. — É claro que eu teria o maior prazer, mas... eu? É isso mesmo o que você quer? Tenho certeza de que Nasuada concordaria em casar vocês dois... Você poderia pedir ao rei Orrin, um rei de verdade! Ele correria para agarrar a oportunidade de presidir a cerimônia se isso o ajudasse a ganhar pontos comigo.
— Quero você, Eragon — afirmou Roran, dando-lhe um tapinha no ombro. — Você é um Cavaleiro, e você é a única outra pessoa viva que tem meu sangue. Murtagh não conta. Não consigo pensar em mais ninguém que eu pudesse querer que amarrasse o nó em torno do pulso dela e do meu.
— Se é assim — concluiu Eragon —, eu o farei. — O ar escapuliu dele quando Roran lhe deu um abraço apertado, com toda a sua força prodigiosa. Eragon arquejou um pouco, quando Roran o soltou, e voltou a falar quando recuperou o fôlego. — Quando? Nasuada tem uma missão planejada para mim. Ainda não sei qual é, mas suponho que vá me manter ocupado por um tempo. Então... pode ser no início do mês que vem, se as circunstâncias permitirem?
Os ombros de Roran se incharam e se retesaram. Ele abanou a cabeça como um touro passando os chifres por uma moita de espinheiros.
— O que você acha de depois de amanhã?
— Tão rápido? Você não acha um pouco corrido? Praticamente não haveria tempo para preparativos. As pessoas vão achar pouco elegante.
Os ombros de Roran se encolheram, e as veias nas mãos se avolumaram enquanto abria e fechava os punhos.
— Não dá para esperar. Se não nos casarmos rapidamente, os mexericos das velhas logo tratarão de um assunto muito mais interessante do que minha impaciência. Está me entendendo?
Eragon levou um instante para captar o que Roran queria dizer. Mas, assim que entendeu, Eragon não conseguiu evitar que um largo sorriso se espalhasse pelo seu rosto.
Roran vai ser pai!, pensou.
— Acho que entendi — disse ele, ainda sorrindo. — Que seja então depois de amanhã.
Eragon deu mais um resmungo quando Roran o abraçou novamente, batendo com força nas suas costas. Com alguma dificuldade, conseguiu se livrar.
— Devo-lhe essa — disse Roran, sorridente. — Obrigado. Agora preciso dar a notícia para Katrina, e nós vamos precisar fazer o possível para aprontar uma festa de casamento. Assim que nos decidirmos, eu o aviso da hora certa.
— Está bem.
Roran começou a voltar para a tenda, mas então girou e lançou os braços para o alto como se quisesse trazer o mundo inteiro para seu peito.
— Eragon, eu vou me casar!
Com uma risada, Eragon acenou para ele.
— Anda logo, seu tolo. Ela está esperando.
Eragon montou em Saphira quando as abas da tenda se fecharam depois da passagem de Roran.
— Blödhgarm? — chamou ele. Silencioso como uma sombra, o elfo deslizou para a luz, com os olhos amarelos refulgindo como brasas. — Saphira e eu vamos voar um pouco. Mais tarde, nos encontramos na minha tenda.
— Matador de Espectros — disse Blödhgarm, inclinando a cabeça.
Depois, Saphira ergueu as asas enormes, deu três passos correndo e se lançou acima das fileiras de tendas, atingindo-as com o vento enquanto batia as asas com força e velocidade. Os movimentos do seu corpo por baixo de Eragon o sacudiam, e ele agarrou o espinho à sua frente para ter mais apoio. Saphira foi subindo em espirais acima do acampamento cheio de luzes cintilantes até que não passasse de uma mancha de claridade sem importância, reduzido a quase nada pela paisagem escura que o cercava. Lá no alto, ela permaneceu, flutuando entre o firmamento e a terra, e o silêncio era total. Eragon encostou a cabeça no pescoço de Saphira e olhou para cima para a faixa de poeira luminosa que ia de um lado ao outro do céu.
Descanse se quiser, pequenino, disse Saphira. Não o deixarei cair.
E ele descansou. E se abateram sobre ele visões de uma cidade circular de pedra situada no centro de uma planície sem fim e de uma menininha que perambulava pelos seus becos estreitos e sinuosos, cantando uma melodia obsessiva. E a noite foi passando até chegar a manhã.

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