24 de junho de 2017

Capítulo 16 - Aroughs


manhã ia já a meio quando Roran e os seus homens chegaram
ao aglomerado de tendas, junto à estrada. O acampamento
parecia cinzento e indistinto através da névoa de exaustão que
ensombrava a visão de Roran. A cidade de Aroughs ficava a Sul, a
um quilômetro e meio de distância, mas ele conseguia apenas
distinguir os seus traços mais gerais: paredes brancas como
glaciares, entradas escancaradas com portões gradeados e
inúmeras torres quadradas de construção compacta.
Ao entrarem a trote no acampamento, ele agarrou-se à parte da
frente da sela. Os cavalos estavam à beira do colapso. Um
adolescente de aspecto desmazelado correu para ele, agarrando nas
rédeas da égua e puxando-as até o animal parar.
Roran olhou longamente para o rapaz, sem perceber bem o que
estava a acontecer, e disse-lhe num tom de voz rouca:
— Traz-me Brigman!
O rapaz afastou-se por entre as tendas, sem dizer uma palavra,
levantando pó com os calcanhares descalços.
A Roran pareceu-lhe ter esperado mais de uma hora e a
respiração descontrolada da égua conjugava-se na perfeição com o
sangue a latejar-lhe nos ouvidos. Quando olhou para o chão este
parecia-lhe ainda estar em movimento, recuando em túnel para um
ponto infinitamente distante. Umas esporas tilintaram algures. Cerca
de uma dúzia de guerreiros reuniram-se ali perto, apoiados em
lanças e escudos, com a curiosidade estampada no rosto.
Vindo do outro lado do acampamento, um homem de ombros
largos coxeou na direção de Roran, utilizando uma lança partida
como bengala. Tinha uma longa barba cerrada, embora o lábio
superior estivesse barbeado e brilhasse de transpiração — Roran
não sabia se devido à dor ou ao calor.
— você é que és o Martelo Forte? — perguntou ele.
Roran roncou afirmativamente, retirando a mão crispada da sela,
metendo-a na túnica e entregando a Brigman o retângulo de
pergaminho, amachucado, com as ordens de Nasuada.
Brigman quebrou o selo de cera com a unha do polegar e
examinou o pergaminho, baixando-o depois e olhando para Roran
com uma expressão neutra.
— Temos estado à tua espera — disse. — Um dos feiticeiros
favoritos de Nasuada contatou-me há quatro dias atrás e disse
que você tinhas partido, mas nunca pensei que chegasses tão cedo.
— Não foi fácil — disse Roran.
Brigman curvou o lábio superior.
— Sim, tenho a certeza que não... senhor. — Voltou a entregarlhe
o pergaminho. — Os homens estão às tuas ordens, Martelo de
Ferro. Estávamos prestes a lançar um ataque ao portão Oeste.
Importas-te de o comandar? — A pergunta era como uma adaga
pontiaguda.
O mundo pareceu girar em torno de Roran e ele agarrou-se mais
firmemente à sela. Estava demasiado cansado para conversar
decentemente com alguém e ele sabia-o.
— Ordena-lhes que descansem por hoje — respondeu.
— Perdeste o juízo? Como esperas que tomemos a cidade?
Levámos a manhã inteira a preparar o ataque e eu não vou ficar
aqui parado, sem fazer nada, enquanto você pões o sono em dia.
Nasuada espera que acabemos com o cerco dentro de alguns dias
e é isso mesmo que eu farei, por Angvard!
Num tom de voz tão baixo que apenas Brigman o ouviu, Roran
resmungou:
— Vais dizer aos homens que descansem, ou mando-te pendurar
pelos tornozelos e chicotear por desobedeceres às minhas ordens.
Não tenciono aprovar qualquer ataque até conseguir descansar e
analisar a situação.
— És um idiota. Isso iria...
— Se não tiveres tento na língua e não cumprires o teu dever, eu
próprio te darei uma sova... aqui mesmo.
As narinas de Brigman dilataram-se.
— No estado em que você está? Não terias qualquer hipótese.
— Você está enganado — contrapôs Roran e estava a falar a sério.
Não sabia bem como iria bater em Brigman naquele momento, mas
no seu íntimo sabia que era bem capaz de o fazer.
Brigman parecia lutar consigo mesmo.
— Muito bem — disse, bruscamente. — De qualquer forma, não
seria bom para os homens verem-nos esparramados no chão.
Ficaremos onde estamos se é isso que queres, mas eu não assumo
a responsabilidade pela perda de tempo. Que sejas você a acatá-la e
não eu.
— Como sempre — disse Roran, com a garganta apertada de dor,
desmontando da égua. — Tal como você és responsável pela
trapalhada que armaste neste cerco.
Brigman ficou com uma expressão carregada e Roran viu a
antipatia que o homem sentia por ele azedar e transformar-se em
ódio. Quem lhe dera ter escolhido uma resposta mais diplomática.
— O caminho para a tua tenda é por aqui.
Era ainda de manhã quando Roran acordou.
Uma luz suave filtrou-se pela tenda, animando-o e, por instantes,
julgou ter adormecido apenas alguns minutos. Mas depois concluiu
que se sentia demasiado animado e desperto para isso.
Praguejou para consigo, baixinho e furioso por ter deixado um
dia inteiro escapar-lhe por entre os dedos.
Estava tapado com um cobertor fino, o que era desnecessário
no clima ameno do Sul, especialmente quando estava de botas e
com a roupa vestida, por isso destapou-se, tentando depois sentarse
direito.
Deixou escapar um gemido abafado, ao sentir o corpo estirar-se
como se estivesse a rasgar-se e deixou-se cair para trás,
arquejante, olhando para o tecido por cima de si. O choque inicial
depressa passou, mas deixou-lhe uma infinidade de dores
palpitantes — umas piores que outras.
Levou alguns minutos a reunir forças. Rebolou-se para o lado,
com grande esforço e baloiçou as pernas sobre a beira do catre.
Parou para recuperar o fôlego antes de tentar levantar-se, tarefa
que lhe parecia quase impossível.
Uma vez de pé, sorriu amargamente. Ia ser um dia interessante.
Os outros estavam já levantados à sua espera, quando saiu da
tenda. Pareciam exaustos e pálidos, e os movimentos deles eram
tão rígidos como os seus. Depois de se cumprimentarem, Roran
apontou para a ligadura no antebraço de Delwin, onde um
taberneiro o golpeara com uma faca de descascar fruta.
— A dor melhorou?
Delwin encolheu os ombros.
— Não me dói muito. Posso lutar, se for necessário.
— Ótimo.
— O que pretendes fazer primeiro? — perguntou Carn.
Roran olhou para o sol nascente, calculando quanto tempo
faltaria para o meio-dia.
— Dar um passeio — disse ele.
Partindo do centro do acampamento, Roran conduziu os
companheiros ao longo das filas de tendas, inspecionando as
condições das tropas assim como o estado do seu equipamento.
De vez em quando parava para questionar um guerreiro, antes de
prosseguir. A maioria dos homens estavam cansados e
desmoralizados, embora notasse que o seu estado de espírito
parecia melhorar ao verem-no.
A excursão de Roran terminou no extremo Sul do
acampamento, tal como planeara. Aí, ele e os outros pararam para
observar a estrutura imponente de Aroughs.
A cidade fora construída em dois alinhamentos. O primeiro era
baixo, extenso e incluía a maior parte dos edifícios; o segundo era
mais pequeno e preenchia o topo de uma longa e suave colina que
era o ponto mais alto, num raio de quilômetros. Uma muralha
cercava ambos os níveis da cidade. Na muralha exterior eram
visíveis cinco portões: dois abriam-se para as estradas que
entravam na cidade — uma vinda de Norte e outra de Este —, e os
outros três estavam montados em canais que fluíam para dentro da
cidade, vindos do Sul. Do outro lado de Aroughs estava o mar
revolto, onde os canais provavelmente desaguavam.
“Pelo menos não têm fosso”, pensou Roran.
O portão virado a Norte estava arranhado e marcado de um
aríete e o chão, em frente deste, estava revolvido com o que Roran
percebeu tratarem-se de rastos de uma batalha. Três catapultas,
quatro balistas, do tipo das que ele conhecia da época do Asa de
Dragão, e duas torres de cerco decrépitas estavam alinhadas diante
da muralha exterior.
Uma série de homens permanecia acocorada ao lado das
máquinas de guerra, a fumar cachimbo e a jogar dados sobre
retalhos de couro. As máquinas de guerra pareciam miseravelmente
inadequadas para a estrutura monolítica da cidade.
Os campos baixos e planos que rodeavam Aroughs desciam em
direção ao mar. Centenas de quintas salpicavam a planície
verdejante, cada uma assinalada por uma cerca de madeira e, pelo
menos, uma cabana de colmo. Aqui e ali viam-se sumptuosas
propriedades: grandes mansões de pedra protegidas pelas próprias
muralhas altas e pelos próprios guardas, deduziu Roran. Sem
dúvida que pertenciam aos nobres de Aroughs e, talvez, a certos
mercadores mais afortunados.
— O que achas? — perguntou ele a Carn.
O feiticeiro abanou a cabeça, com os seus olhos pendurados,
ainda mais tristonhos do que o habitual.
— Mais valia fazermos um cerco a uma montanha.
— É verdade — comentou Brigman, aproximando-se.
Roran guardou as observações para si mesmo, pois não queria
que os outros percebessem o quão desmoralizado estava.
“Nasuada é louca se pensa que conseguimos tomar Aroughs
apenas com oitocentos homens. Se tivesse oito mil homens e
pudesse contar com Eragon e Saphira tenho a certeza de que o
conseguiria, mas não assim...”
Porém, ele sabia que tinha de descobrir uma forma de o fazer,
quanto mais não fosse para o bem de Katrina.
Roran disse a Brigman, sem olhar para ele.
— Fala-me de Aroughs.
Brigman torceu a lança várias vezes, enterrando a parte de baixo
no chão, antes de responder:
— Galbatorix foi previdente, pois tratou de aprovisionar
totalmente a cidade de comida, antes de nós lhes cortarmos as
estradas para o resto do Império. Água é coisa que não lhes falta,
como podes ver. Mesmo que desviássemos os canais, teriam ainda
acesso a várias fontes e poços dentro da cidade. É possível que
aguentassem até ao inverno, ou até mais tempo, embora ache que
apanhariam um enjoo de nabos antes de tudo estar terminado.
Além disso, Galbatorix guarneceu Aroughs com um número
considerável de soldados — mais do dobro dos que nós temos —
para além do contingente habitual.
— Como sabes?
— Soube por um informador. Contudo ele não tinha experiência
em estratégia militar e fez-nos uma avaliação demasiado otimista
das debilidades de Aroughs.
— Ah.
— Afiançou-nos também que conseguiria introduzir na cidade um
pequeno contingente de homens, pela calada da noite.
— E?
— Nós esperámos mas ele nunca chegou a aparecer e, na manhã
seguinte, vimos a sua cabeça por cima do baluarte. Ainda lá está,
junto do portão oriental.
— Pois está. Há mais alguns portões para além destes cinco?
— Sim, mais três. Junto das docas, há uma comporta
suficientemente larga para os três cursos de água juntos e, ao lado
desta, há um portão térreo para homens e cavalos e um outro
portão térreo naquela ponta. — E apontou para o extremo oeste da
cidade.
— Algum deles pode ser arrombado?
— Rapidamente, não. Junto da costa, não temos espaço para nos
mexer convenientemente ou para nos abrigarmos das flechas e das
pedras dos soldados. Restam-nos estes portões e o portão a oeste.
Tirando a zona da costa, o traçado do solo é muito semelhante em
torno de toda a cidade, por isso optei por concentrar o nosso
ataque no portão mais próximo.
— De que são feitos os portões?
— Ferro e carvalho. Durarão centenas de anos, a menos que os
derrubemos.
— Estão protegidos por algum feitiço?
— Não sei, pois Nasuada não achou conveniente mandar um dos
seus feiticeiros connosco. Halstead tem...
— Halstead?
— Lorde Halstead, o governador de Aroughs. Já deves ter ouvido
falar dele.
— Não.
Seguiu-se uma breve pausa ao longo da qual Roran sentiu o
desdém que Brigman nutria por ele a crescer. Depois o homem
prosseguiu:
— Halstead tem um feiticeiro: uma criatura perversa e pálida que
vimos ao cimo da muralha a murmurar algo para dentro da barba,
tentando atingir-nos com feitiços. Parece ser particularmente
incompetente, pois não teve grande sorte, a não ser com dois
homens que eu tinha colocado no aríete, a quem conseguiu pegar
fogo.
Roran trocou um olhar com Carn — que parecia ainda mais
preocupado — e concluiu que era preferível discutir o assunto em
privado.
— Não seria mais fácil arrombar os portões nos canais? —
perguntou.
— Onde ficarias? Vê como estão recuados para dentro da
parede, sem um degrau sequer para apoio. Além disso têm seteiras
e alçapões no teto da entrada para poderem verter óleo a ferver,
largar pedregulhos, ou disparar bestas a qualquer tonto que se
aventure a entrar por ali.
— Os portões não podem ser totalmente maciços, caso contrário
bloqueariam a água.
— Nesse aspecto tens razão. Abaixo da superfície há uma treliça
de madeira e metal com buracos suficientemente grandes para não
travarem demasiado o fluxo da água.
— Compreendo. Eles mantêm os portões quase sempre
fechados, mesmo quando Aroughs não está sob cerco?
— À noite com toda a certeza, mas acho que os deixam abertos
durante o dia,
— Humm. E as muralhas?
Brigman passou o peso do corpo para a outra perna.
— Granito polido e tão compactado que não se consegue sequer
enfiar uma faca entre os blocos. Trabalho de anões datado de antes
da queda dos Cavaleiros, julgo eu. Acho também que as paredes
estão cheias de entulho comprimido, mas não posso garantir, visto
que ainda não rachámos a proteção exterior. Estendem-se pelo
menos a três metros e meio de profundidade, o que significa que
não podemos abrir um túnel por baixo delas nem enfraquecê-las
com seiva.
Brigman avançou e apontou para as mansões a Norte e a Oeste.
— A maior parte dos nobres refugiou-se em Aroughs, mas
deixaram homens a proteger as suas propriedades. Têm-nos dado
alguns problemas, atacando os nossos batedores, roubando-nos
cavalos e esse tipo de coisas. Tomámos duas das propriedades, há
algum tempo atrás — e apontou para duas estruturas queimadas, a
alguns quilômetros —, mas era demasiado complicado mantê-las,
por isso abdicámos delas e pegámos-lhes fogo. Infelizmente não
temos homens suficientes para controlar as restantes.
Nessa altura Baldor disse:
— Porque entram os canais em Aroughs? Não me parece que
sejam utilizados na irrigação de colheitas.
— Aqui a rega é tão necessária como carregar neve para o
Norte, durante o inverno. É mais difícil ficarmos secos do que
molhados.
— Então para que servem? — perguntou Roran. — E de onde
vêm? Não esperas que eu acredite que a água vem do Rio Jiet, a
tantos quilômetros de distância
— É pouco provável — troçou Brigman. — Há lagos nos pântanos
a Norte. É água salobra e pouco saudável, mas as pessoas daqui
estão habituadas. Um único canal transporta-a dos pântanos até um
determinado ponto, a cerca de cinco quilômetros. Aí o canal
divide-se nos três que aqui vêm e estes percorrem uma série de
quedas-de-água que alimentam os moinhos que moem farinha para
a cidade. Na época das colheitas, os camponeses carregam o grão
para os moinhos e, depois, os sacos de farinha são carregados em
barcaças e transportados até Aroughs. É também uma forma
vantajosa de movimentar outros produtos das mansões para a
cidade, como por exemplo a lenha e o vinho.
Roran esfregou a nuca, continuando a examinar Aroughs. O que
Brigman lhe contara intrigava-o, mas não sabia ao certo em que
medida os poderia ajudar.
— Há mais alguma coisa importante nos campos em redor? —
perguntou.
— Apenas uma mina de ardósia mais a Sul, junto da costa.
Ainda a pensar, Roran resmungou:
— Quero visitar os moinhos — disse. — Mas, primeiro, quero que
me faças um relatório completo do tempo que aqui passaste e
quero saber como estão as nossas provisões de tudo, desde flechas
a biscoitos.
— Se não te importares de me seguir, Martelo Forte.
Roran passou a hora seguinte em conferência com Brigman e
dois dos seus tenentes, ouvindo-os e fazendo perguntas enquanto
eles lhe relatavam cada um dos ataques às muralhas da cidade e
catalogavam os stocks de mantimentos deixados ao cuidado dos
guerreiros sob as suas ordens.
“Armas pelo menos não nos faltam”, pensou Roran, enquanto
contava o número de mortos. Contudo, mesmo que Nasuada não
tivesse determinado um tempo limite para a missão, os homens e os
cavalos tinham apenas comida suficiente para ficarem acampados
junto de Aroughs durante mais uma semana.
Muitos dos fatos e dos números que Brigman e os seus lacaios
lhe transmitiram estavam inscritos em rolos de pergaminho. Roran
tentou por todos os meios esconder que não conseguia ler as linhas
de símbolos angulares negros, insistindo para que os homens lhe
lessem tudo, mas irritava-o estar à mercê de outras pessoas.
“Nasuada tinha razão”, concluiu. “Tenho de aprender a ler. De
resto, não sei se alguém me está a mentir quando dizem que um
pergaminho diz isto ou aquilo... Talvez Carn me possa ensinar
quando regressarmos aos Varden.”
Quanto mais sabia acerca de Aroughs, mais se identificava com
a difícil situação de Brigman. Tomar a cidade era uma tarefa
assustadora, sem solução à vista e, apesar de não simpatizar com o
homem, Roran achava que o capitão fizera o melhor que podia,
atendendo às circunstâncias. Na sua opinião, ele fracassara não por
ser um comandante incompetente, mas porque lhe faltavam as duas
qualidades que tinham assegurado repetidas vezes a vitória a Roran:
ousadia e imaginação.
Ao terminar a revista, Roran e os seus cinco companheiros
foram a cavalo com Brigman inspecionar as muralhas e os portões
mais de perto, embora a uma distância segura. Sentar-se de novo
numa sela foi incrivelmente doloroso para Roran, mas ele suportouo
sem reclamar.
Ao entrarem ruidosamente na estrada pavimentada, junto ao
acampamento, e seguindo a trote em direção à cidade, Roran
reparou que de vez em quando os cascos dos cavalos produziam
um ruído peculiar ao baterem no chão. Lembrava-se de ter ouvido
um barulho semelhante no último dia de viagem, e que este o
incomodara.
Olhando para baixo, viu que as pedras chatas que preenchiam a
superfície da estrada pareciam estar embutidas em prata oxidada,
cujos veios formavam um padrão irregular, semelhante a uma teia
de aranha.
Roran chamou por Brigman, inquirindo-o acerca disso e este
gritou-lhe:
— A terra aqui não faz boa argamassa, por isso usam chumbo
para fixar as pedras!
A reação inicial de Roran foi de incredibilidade, mas Brigman
parecia estar a falar a sério. Achava espantoso que um metal se
vulgarizasse a ponto de ser desperdiçado na construção de uma
estrada.
Seguiram a trote pela estrada de pedra e chumbo, em direção à
cidade cintilante, lá mais adiante.
Estudaram muito atentamente as defesas de Aroughs, mas o
fato de estarem mais próximos não lhes revelou nada de novo,
servindo apenas para reforçar a impressão que Roran já tinha, de
que a cidade era praticamente intransponível.
Roran conduziu o cavalo até junto de Carn. O feiticeiro olhava
para Aroughs com uma expressão vidrada, movendo os lábios em
silêncio como se falasse sozinho. Roran esperou que ele parasse e
depois perguntou-lhe baixinho:
— Há alguns feitiços nos portões?
— Acho que sim — respondeu Carn, igualmente esmagado. — Mas
não sei bem quantos nem o que se pretende com eles. Preciso de
mais algum tempo para descobrir a resposta.
— Porque é tão difícil?
— Na verdade, não é. A maior parte dos feitiços são fáceis de
detetar, a menos que alguém se tenha empenhado em escondê-los
e, mesmo nesse caso, a magia geralmente deixa certos sinais
reveladores, se soubermos o que procurar. O meu receio é que um
ou mais feitiços sejam armadilhas para impedir as pessoas de
interferir com os encantamentos dos portões. Se assim for e eu os
abordar diretamente, irei de certo despoletá-los e depois sabe-se lá
o que poderá acontecer. Posso dissolver-me numa poça diante dos
teus olhos, destino esse que preferiria evitar, se puder.
«Queres ficar aqui enquanto prosseguimos?»
Carn abanou a cabeça.
— Não acho sensato deixar-vos sem proteção enquanto
estivermos fora do acampamento. Voltarei depois do pôr-do-sol e
verei o que posso fazer nessa altura. Além disso, ajudaria um
pouco se eu estivesse mais perto dos portões e eu não me atrevo a
aproximar mais, agora que estou bem à vista das sentinelas.
— Como queiras.
Quando Roran se deu por satisfeito, concluindo que tinham
obtido toda a informação possível por mera observação da cidade,
ordenou a Brigman que os conduzisse à instalação de moinhos mais
próxima.
Os moinhos aproximavam-se bastante da descrição que Brigman
fizera. A água no canal fluía sobre três quedas de água sucessivas,
de seis metros de altura. Na base de cada queda havia uma roda
de água, com baldes à ponta. A água enchia os baldes, fazendo
girar a máquina ininterruptamente. As rodas estavam ligadas por
eixos grossos a três edifícios idênticos, que se erguiam uns em cima
dos outros ao longo da margem, em socalcos, e continham as
enormes mós necessárias para produzir a farinha para a população
de Aroughs. Embora as rodas estivessem em movimento, Roran
percebeu que estavam desconectadas do complexo mecanismo de
engrenagens, escondido no interior dos edifícios, pois não ouvia o
rumor das mós a girarem no sítio onde deveriam estar.
Desmontou do cavalo junto do moinho mais baixo e percorreu o
caminho entre os edifícios, olhando para as comportas que
controlavam a quantidade de água libertada sobre eles. As
comportas estavam abertas, mas havia ainda um lago fundo por
baixo de cada uma das rodas, em lenta rotação.
Parou a meio da encosta da colina, assentando os pés na beira
da margem fofa, coberta de erva, cruzou os braços e encostou o
queixo ao peito, ponderando sobre a forma de tomar Aroughs.
Estava confiante que iria descobrir um estratagema ou uma
estratégia que lhe permitisse penetrar na cidade como quem abre
uma abóbora madura. Confiante estava, mas a solução escapavalhe.
Pensou até se cansar, abandonando-se depois aos rangidos dos
eixos rotativos e aos ruídos da água a cair.
Mas, por muito tranquilizantes que estes fossem, um espinho de
inquietação continuava a incomodá-lo, na medida em que o local
lembrava-lhe o moinho de Dempton, em Therinsford, para onde
fora trabalhar no dia em que os Ra’zac tinham incendiado a sua
casa e torturado o seu pai, ferindo-o mortalmente.
Roran tentou ignorar a memória, mas esta agarrou-se a ele,
massacrando-lhe as entranhas.
Se ao menos tivesse esperado mais algumas horas antes de sair,
poderia tê-lo salvado. Depois o seu lado mais prático respondeu:
“Sim, e os Ra’zac ter-me-iam morto antes que eu conseguisse
levantar sequer um dedo. Sem Eragon a proteger-me, teria ficado
tão indefeso como um recém-nascido.”
Baldor reuniu-se a ele junto do canal, num passo silencioso.
— Os outros querem saber se já tens algum plano — disse ele.
— Tenho ideias mas não tenho nenhum plano. E tu?
Baldor também cruzou os braços.
— Podíamos esperar que Nasuada mandasse Eragon e Saphira
em nosso auxílio.
— Bah!
Ficaram, por instantes, a observar o movimento ininterrupto da
água, por baixo deles, e depois Baldor disse:
— Porque não lhes pedes simplesmente que se rendam? Talvez
fiquem tão assustados, ao ouvir o teu nome, que abram os portões
e caiam a teus pés, implorando misericórdia.
Roran riu brevemente.
— Duvido que os rumores acerca de mim tenham chegado a
Aroughs. Ainda assim... — e passou os dedos pela barba. — À falta
de melhor solução, talvez valha a pena tentar apanhá-los
desprevenidos.
— Mesmo que consigamos entrar na cidade, será que a
conseguiremos controlar com tão poucos homens?
— Talvez sim, talvez não.
O silêncio cresceu entre ambos e depois Baldor acrescentou:
— Ao que nós chegámos.
— É verdade.
Mais uma vez o único ruído que se ouvia era a água e as rodas a
girar. Por fim Baldor disse:
— O degelo aqui não deve ser tão grande como na nossa terra,
de contrário as rodas estariam parcialmente submersas na
primavera.
Roran abanou a cabeça.
— Pouco importa a neve e a chuva que têm, pois podem usar as
comportas para limitar a quantidade de água que cai sobre as
rodas, para que estas não girem demasiado depressa.
— E quando a água sobe até ao cimo das comportas?
— Na melhor das hipóteses a farinha do dia já terá sido moída
nessa altura, mas em todo o caso, desligam-se as engrenagens,
abrem-se as comportas e... — Roran silenciou ao surgir-lhe uma
série de imagens na mente e ele sentiu o corpo inteiro afogueado,
como se tivesse bebido de uma só vez uma caneca de hidromel.
“Conseguiria eu fazê-lo?”, pensou, precipitadamente. “Será que
iria resultar, ou... Não interessa, temos de tentar. O que mais
podemos fazer?”
Encaminhou-se para o meio da represa que barrava a água do
lago do meio, agarrando nas hastes do enorme parafuso de
madeira, utilizado para abrir e fechar a comporta. O parafuso
estava perro e era difícil de mover, embora se encostasse e o
empurrasse com todo o seu peso.
— Ajuda-me — pediu a Baldor, que continuava na margem, a
observar intrigado.
Baldor encaminhou-se cautelosamente para o local onde Roran
estava e juntos conseguiram fechar a comporta. A seguir,
recusando-se a responder a qualquer pergunta, Roran insistiu que
fizessem o mesmo às comportas superior e inferior.
Depois de estarem as três firmemente fechadas, Roran regressou
para junto de Carn, Brigman e dos outros, fazendo-lhes sinal para
que desmontassem dos cavalos e se reunissem em torno dele.
Bateu ao de leve na cabeça do martelo enquanto esperava,
sentindo-se subitamente impaciente sem razão aparente.
— Então? — perguntou Brigman, enfaticamente, logo que todos se
reuniram.
Roran olhou-os nos olhos, um por um, para ter a certeza de que
lhe prestavam atenção:
— Muito bem, eis o que vamos fazer... — Falou depressa e
exaustivamente durante meia hora, explicando-lhes tudo o lhe
ocorrera naquele instante revelador. Enquanto falava, Mandel
começou a sorrir. Baldor, Delwin e Hamund, embora mais sérios,
pareciam igualmente entusiasmados com a natureza audaciosa do
plano que Roran delineou.
A reação agradou a Roran. Esforçara-se bastante por conquistar
a sua confiança e ficou satisfeito por saber que poderia continuar a
contar com o seu apoio. O único receio que tinha era dececionálos.
De todas as desfeitas que imaginava poder sofrer, só perder
Katrina lhe parecia pior.
Carn, por seu turno, parecia um pouco cético e Roran já o
esperava. Porém, as dúvidas do feiticeiro eram insignificantes
comparadas com a incredibilidade de Brigman.
— Você está louco! — exclamou, logo que Roran terminou. — Isso
jamais resultará.
— Retira o que disseste! — disse Mandel, saltando para diante de
punhos cerrados. — Roran ganhou mais batalhas do que aquelas em
que participaste e alcançou-as sem o número de guerreiros que
tinhas às tuas ordens!
Brigman arreganhou os dentes, curvando o lábio superior como
uma cobra.
— Vou dar-te uma lição que te ficará gravada na memória, meu
catraio.
Roran empurrou Mandel para trás, antes que o jovem atacasse
Brigman.
— Ei! — rosnou Roran. — Comporta-te! — Mandel parou de
resistir, com uma expressão mal-humorada, mas continuou a olhar
furioso para Brigman, que lhe sorriu desdenhosamente.
— É, sem dúvida, um plano extravagante — disse Delwin. — Mas
os teus planos extravagantes foram-nos bastante úteis no passado.
— Os outros homens de Carvahall fizeram ruídos de assentimento.
Carn acenou com a cabeça e disse:
— Talvez resulte, talvez não, não sei. Em todo caso, irá
certamente apanhar os nossos inimigos de surpresa. Tenho de
admitir que estou bastante curioso para ver o que vai acontecer.
Nunca antes se tentou nada semelhante.
Roran sorriu ligeiramente, dirigindo-se a Brigman:
— Continuar como antes seria uma loucura. Temos apenas dois
dias e meio para conquistar Aroughs. Os métodos tradicionais não
são o suficiente, portanto teremos de arriscar e usar métodos
extraordinários.
— É possível — murmurou Brigman —, mas isto é uma aventura
ridícula que irá matar bons guerreiros, com o único propósito de
demonstrar a tua suposta esperteza.
Com o sorriso cada vez mais rasgado, Roran aproximou-se de
Brigman, até ficarem apenas a escassos centímetros um do outro.
— Não tens de concordar comigo, Brigman, tens apenas de fazer
o que te mandam. Vais cumprir as minhas ordens ou não?
O ar entre eles aqueceu devido ao hálito e ao calor que os
corpos irradiavam. Brigman rilhou os dentes e torceu a lança ainda
mais energicamente do que antes, mas depois o olhar vacilou e ele
recuou.
— Maldito sejas! — disse. — Serei o teu cão, por enquanto,
Martelo Forte. Mas ajustaremos contas sobre isto muito em
breve. Espera e verás se não terás de responder pelas tuas ações.
“Desde que tomemos Aroughs”, pensou Roran, “não quero
saber.”
— Montem! — gritou. — Temos trabalho pela frente e pouco

tempo para o fazer! Depressa, depressa, depressa!

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Boa leitura :)