3 de junho de 2017

Capítulo 15 - Resposta a um rei

Depois que Eragon falou aos Varden, Nasuada fez um gesto e Jörmundur correu para o seu lado.
— Mande todos aqui retornarem a seus postos. Se fôssemos atacados agora, seríamos sobrepujados.
— Sim, minha lady.
Gesticulando para Eragon e Arya, Nasuada colocou a mão esquerda sobre o braço do rei Orrin e, com ele, adentrou o pavilhão.
E quanto a você?, Eragon perguntou a Saphira enquanto os seguia. Então, entrou no pavilhão e viu que um painel nos fundos havia sido enrolado e atado à moldura de madeira acima, de modo que Saphira pudesse inserir sua cabeça e participar da reunião. Ele precisou esperar um instante até que a cabeça brilhante e o seu pescoço ultrapassassem a abertura, escurecendo o interior assim que ela se ajustou no local. Pontinhos de luz púrpura adornavam as paredes, projetados pelas escamas azuis sobre o tecido vermelho.
Eragon examinou o resto da tenda. O local estava árido comparado com o que vira em sua última visita, resultado da destruição causada por Saphira quando ela rastejara para dentro do pavilhão para ver Eragon no espelho de Nasuada. Com apenas quatro peças de mobiliário, a tenda era austera até para os padrões militares.
Havia a lustrosa cadeira de espaldar alto na qual estava sentada Nasuada, com o rei Orrin ao seu lado; o espelho equivalente, que ficava ao alcance dos olhos sobre um pilar de metal esculpido; uma cadeira dobrável e uma mesa baixa cheia de mapas e outros documentos de importância. Um tapete extremamente bem tecido ao estilo dos anões cobria o chão.
Além de Arya e dele próprio, uma série de pessoas já estava diante de Nasuada. Todas estavam olhando para ele. Entre elas, ele reconheceu Narheim, o atual comandante das tropas dos anões; Trianna e outros feiticeiros de Du Vrangr Gata; Sabrae, Umérth e o restante do Conselho de Anciões, exceto Jörmundur; e diversos nobres e funcionários da corte do rei Orrin. Os que lhe eram estranhos, assumia que também deveriam ter posições de destaque em alguma das muitas facções que compunham o exército dos Varden. Seis dos guardas de Nasuada estavam presentes – dois parados na entrada e quatro atrás dela e Eragon detectou o tortuoso padrão dos soturnos e distorcidos pensamentos de Elva vindos do local onde a criança-bruxa estava escondida, bem nos fundos do pavilhão.
— Eragon — disse Nasuada — você ainda não o conhece, mas me permita apresentá-lo a Sagabato-no Inapashunna Fadawar, chefe da tribo Inapashunna. Ele é um homem corajoso.
Durante toda a hora seguinte, Eragon foi submetido ao que parecia um interminável processo de apresentações, congratulações e questões que não podia responder de imediato sem revelar segredos que era melhor não serem divulgados. Assim que o último convidado se dirigiu a ele, Nasuada acenou para que todos saíssem. Enquanto faziam uma fila para deixar o pavilhão, ela bateu palmas e os guardas do lado de fora fizeram entrar um segundo grupo, e quando o segundo grupo terminou de aproveitar os dúbios frutos de sua estada com ele, seguiu-se um terceiro.
Eragon sorria o tempo todo. Apertava mão após mão. Trocava gracejos sem sentido e lutava para memorizar a pletora de nomes e títulos que o cercava. Em suma, exercia com perfeita civilidade seu papel. Sabia que eles o saudavam não porque era seu amigo, mas por causa da chance de vitória para as pessoas livres da Alagaësia que ele incorporava, por causa de seu poder e pelo que eles esperavam ganhar através dele.
Em seu coração, uivava de frustração e ansiava livrar-se dos constrangimentos opressivos das boas maneiras e da polidez para montar em Saphira e voar para um lugar bem distante e tranquilo. A parte do processo que Eragon gostou foi observar como os suplicantes reagiam aos dois Urgals que assomavam atrás da cadeira de Nasuada. Alguns fingiam ignorar os guerreiros chifrudos – embora pela rapidez de seus movimentos e pelo tom penetrante de suas vozes, Eragon pudesse adivinhar que as criaturas os enervavam – enquanto outros encaravam os Urgals e mantinham suas mãos nos cabos de suas espadas ou adagas. Outros mais demonstravam uma falsa altivez e davam pouca importância à notória força dos Urgals, gabando-se de suas próprias.
Apenas umas poucas pessoas pareciam estar genuinamente indiferentes à visão dos Urgals. A primeira entre elas era Nasuada, mas também estavam incluídos nesta lista o rei Orrin, Trianna e um conde que dizia ter visto, quando ainda não passava de uma criança, Morzan e seu dragão arrasar uma cidade inteira.
Quando Eragon não podia suportar mais, Saphira inflou o peito e liberou um grunhido baixo, mas tão profundo que sacudiu o espelho na moldura. O pavilhão ficou silencioso como se fosse uma tumba. O grunhido não era manifestamente ameaçador, mas capturou a atenção de todos e proclamou sua impaciência com o protocolo.
Nenhum dos convidados era tolo o suficiente para testar sua perseverança. Com desculpas apressadas, eles juntaram suas coisas e seguiram em fila para fora do pavilhão, aumentando o passo quando Saphira bateu com as pontas das garras no chão.
Nasuada suspirou quando a aba da entrada se fechou atrás do último visitante.
— Obrigada, Saphira. Sinto muito tê-lo submetido ao sofrimento da apresentação pública, Eragon, mas, como tenho certeza de que está ciente, você ocupa uma posição privilegiada entre os Varden, e eu não posso escondê-lo mais. Você pertence ao povo agora. Eles exigem que os reconheça e que lhes dê o que consideram ajusta parcela de seu tempo. Nem você nem Orrin nem eu podemos recusar os desejos da multidão. Até mesmo Galbatorix, em seu trono obscuro em Urû’baen, teme a multidão inconstante, embora talvez negue isso a todos, inclusive a si próprio.
Com todos os convidados já ausentes, o rei Orrin abandonou a máscara do decoro real. Sua expressão dura relaxou e se transformou em uma que denotava mais alívio humano, irritação e curiosidade feroz. Mexendo os ombros dentro da túnica rígida, olhou para Nasuada e disse:
— Eu não acho que nós tenhamos convocado seus Falcões da Noite para esperar ainda mais.
— Concordo.
Nasuada bateu palmas, dispensando os seis guardas do interior da tenda. Arrastando a cadeira vazia para perto de Nasuada, o rei Orrin sentou-se gerando uma confusão de membros espalhados e tecidos inflados.
— Agora — disse ele, olhando ora para Eragon ora para Arya —, vamos ouvir um relato completo de seus atos, Eragon Matador de Espectros. Só ouvi explicações vagas sobre o motivo de você ter optado por se demorar em Helgrind e já estou ficando farto de evasivas e respostas enganosas. Estou determinado a saber a verdade sobre a questão, então, estou avisando-o, não tente esconder o que realmente ocorreu quando você estava no Império. Até que eu esteja satisfeito por você ter dito tudo o que há para ser dito, nenhum de nós vai colocar os pés fora dessa tenda.
Com a voz fria, Nasuada advertiu:
— Você está se excedendo... Sua Majestade. Você não possui a autoridade para me questionar dessa maneira, nem a Eragon, que é meu vassalo, nem a Saphira, nem a Arya, que não responde a nenhum senhor mortal, mas a algo muito mais poderoso do que nós dois juntos. E nem nós temos a autoridade para questioná-lo. Nós cinco somos tão iguais quanto qualquer pessoa na Alagaësia. Seria melhor que não se esquecesse disso.
A resposta do rei Orrin foi igualmente dura.
— Por acaso estou ultrapassando os limites de minha soberania? Bem, talvez esteja. Você está certa: não tenho nenhum poder sobre você. Entretanto, se somos iguais, ainda necessito enxergar evidências disso em seu tratamento para comigo. Eragon responde a você e somente a você. Com o Desafio das Facas Longas, você assegurou domínio sobre as tribos nômades, muitas das quais eu há muito considerava como minhas súditas. E você comanda como quer não somente os Varden como também os homens de Surda, que há muito têm servido minha família com bravura e determinação além das dos homens comuns.
— Foi você mesmo quem me pediu para orquestrar esta campanha — disse Nasuada. — Eu não o depus.
— Sim, foi minha solicitação que você assumisse o comando de nossas forças dispersas. Não sinto vergonha de admitir que você teve mais experiência e sucesso nas guerras do que eu. Nossas perspectivas são por demais precárias para que eu ou você ou qualquer outra pessoa incorramos em falso orgulho. Entretanto, desde sua investidura, você parece ter esquecido que eu ainda sou rei de Surda, e nós da família Langfeld podemos rastrear nossos antepassados até o próprio Thanebrand, o Doador do Anel, que sucedeu o velho e louco Palancar e que foi o primeiro de nossa raça a sentar no trono do que hoje conhecemos como Urû’baen.
“Considerando nossa hereditariedade e a assistência que a Casa de Langfeld lhe forneceu nessa causa, é insultuoso de sua parte ignorar os direitos de meu gabinete. Você age como se o seu veredicto fosse o único e as opiniões dos outros não tivessem importância, sendo simplesmente pisoteadas na busca de seja lá qual for o objetivo que já tenha determinado como sendo o melhor para a parcela de humanidade livre que é suficientemente afortunada para tê-la como líder. Você negocia tratados e alianças – tais como aquele com os Urgals – de iniciativa própria e espera que eu e os outros concordemos com suas decisões, como se falasse por todos nós. Você organiza visitas de estado à revelia dos outros, tais como aquela com Bloödhgarm-vodhr, e não se preocupa em me alertar de sua chegada nem espera que eu me junte a você para podermos saudar a embaixada dele como iguais. E quando eu tenho a ousadia de perguntar por que Eragon – o homem cuja própria existência é o motivo pelo qual eu empenhei meu país nessa empreitada – quando eu tenho a ousadia de perguntar por que essa pessoa de suma importância escolheu colocar em risco as vidas não só dos surdanos como também de todas as outras criaturas que se opõem a Galbatorix ao prolongar demais sua estada em território inimigo, como é mesmo que responde? Tratando a mim como se eu fosse nada além de um inferior excessivamente zeloso e excessivamente questionador cujas preocupações pueris desviam sua atenção de assuntos mais urgentes. Ah! Eu não vou aceitar isso, estou dizendo. Se você não pode respeitar minha posição e aceitar uma divisão justa de responsabilidades – como seria o certo entre dois aliados – então sou de opinião de que você não está apta a comandar uma coalizão como a nossa, e serei obrigado a me colocar contra você com todos os meios de que dispuser.”
Que companheiro cansativo, observou Saphira.
Alarmado pelo rumo que a conversa tomara, Eragon comentou: O que eu devo fazer? Eu não tinha o intuito de contar a respeito de Sloan a mais ninguém, exceto Nasuada. Quanto menos gente souber que ele está vivo, melhor.
Um ondulante brilho azul-marinho percorreu a base da cabeça de Saphira até a crista de seus ombros quando as pontas das escamas pontudas e em formato de diamante ao longo de seu pescoço ergueram-se uma fração acima da pele subjacente. As camadas rugosas das escamas projetadas para fora davam-lhe uma aparência áspera e ameaçadora.
Não posso lhe dizer o que é melhor, Eragon. Neste caso, você deve confiar em seu próprio julgamento. Ouça atentamente o que seu coração diz e talvez fique claro como escapar desses traiçoeiros torvelinhos.
Em resposta às colocações do rei Orrin, Nasuada bateu com as palmas das mãos sobre o colo, suas bandagens brancas misturando-se ao verde do vestido, e com uma voz calma e equilibrada disse:
— Se eu o negligenciei, senhor, então foi devido ao meu próprio descuido impaciente e não a algum desejo de minha parte de diminuir a sua importância ou a de sua Casa. Por favor, perdoe meus lapsos. Eles não se repetirão, isso eu lhe prometo. Como apontou, faz muito pouco tempo que eu ascendi a este posto. Sendo assim, ainda preciso aperfeiçoar todas as delicadezas que acompanham a função.
Orrin inclinou a cabeça em uma aceitação fria, porém graciosa, das palavras dela.
— Quanto a Eragon e suas atividades no Império, não poderia lhe ter fornecido detalhes específicos porque eu mesma não disponho de outras informações. Não era, e estou certa de sua compreensão em relação a isso, uma situação que eu desejasse divulgar.
— Não, é claro que não.
— Portanto, me parece que a cura mais rápida para a disputa que nos aflige é permitir que Eragon exponha os fatos de sua viagem. Que nós possamos apreender toda a gama desse evento e estabelecer nosso julgamento sobre ele.
— Em si, isso não é uma cura — ponderou o rei Orrin —, mas é o começo de uma cura, e ouvirei com prazer.
— Então, não desperdicemos mais tempo — pediu Nasuada. — Comecemos e encerremos nosso suspense. Eragon, chegou a hora de seu relato.
Com Nasuada e os outros mirando-o com olhos maravilhados, Eragon fez sua escolha. Ergueu o queixo e disse:
— O que eu lhes conto, conto em segredo. Sei que não posso esperar que nenhum de vocês, rei Orrin ou lady Nasuada, jure que manterá esse segredo em seus corações até a hora de suas mortes, mas eu lhes imploro que ajam como se pudessem. Se esta informação for sussurrada nos ouvidos errados poderá causar uma grande dose de infelicidade.
— Um rei não se mantém rei por muito tempo a menos que aprecie o valor do silenciei — disse Orrin.
Sem mais delongas, Eragon descreveu tudo o que acontecera a ele em Helgrind e nos dias seguintes. Em seguida, Arya explicou como ela conseguira localizar Eragon e então corroborou seu relato das viagens ao fornecer diversos fatos e observações próprias. Quando ambos encerraram suas falas, o pavilhão ficou quieto e Orrin e Nasuada permaneceram imóveis em suas cadeiras. Eragon sentia-se como se fosse novamente uma criança, esperando Garrow lhe dizer qual seria sua punição por ter feito alguma coisa tola na fazenda. Orrin e Nasuada continuaram imersos em profundas reflexões por vários minutos. Então, Nasuada alisou a parte da frente de seu vestido e disse:
— O rei Orrin pode ter outra opinião, e se assim for, aguardo seus motivos, mas, da minha parte, acredito que você tenha tomado a decisão correta, Eragon.
— Eu também — disse Orrin, surpreendendo todos.
— Vocês aprovam! — exclamou Eragon. Mas hesitou: — Não quero parecer impertinente, já que estou feliz por sua aprovação, mas não esperava que vissem com bons olhos minha decisão de poupar a vida de Sloan. Se me permitem perguntar, por que...
O rei Orrin interrompeu:
— Por que nós aprovamos? A regra da lei deve ser mantida. Se você tivesse se apontado como executor de Sloan, Eragon, teria dado a si o poder que Nasuada e eu possuímos. Porque aquele que tem a audácia de determinar quem deve viver e quem deve morrer não mais serve à lei, mas dita a lei. E embora você seja benevolente, tal fato não seria bom para nossa espécie. Nasuada e eu, pelo menos, estamos submetidos ao único senhor a quem até mesmo os reis devem se ajoelhar. Nós estamos submetidos a Angvard, em seu reino de eterno crepúsculo. Nós estamos submetidos ao Homem Grisalho que cavalga seu cavalo cinza. A morte. Nós poderíamos ser os piores tiranos de toda a história e, ainda assim, no devido tempo, Angvard nos dominaria... Mas não você. Humanos são uma raça de vida curta e não deveríamos ser governados por um dos Imortais. Nós não precisamos de outro Galbatorix. — Uma estranha gargalhada escapou de Orrin e sua boca se contorceu num sorriso mal-humorado. — Você compreende, Eragon? Você é tão perigoso que nós somos forçados a reconhecer o perigo cara a cara com você e esperar que você seja uma das únicas pessoas aptas a resistir aos encantos do poder.
O rei Orrin enlaçou os dedos embaixo do queixo e mirou uma dobra em sua túnica.
— Eu disse mais do que pretendia... Então, por todos esses motivos, e ainda outros, concordo com. Nasuada. Você fez o certo em se conter quando descobriu esse Sloan em Helgrind. Por mais inconveniente que esse episódio possa ter sido, teria sido bem pior, e também para você, se você tivesse matado para satisfazer a si próprio e não para se defender ou a serviço de outros.
Nasuada assentiu com a cabeça.
— Foi um belo discurso.
Durante esse tempo todo, Arya ouviu com uma inescrutável expressão. Quaisquer que pudessem ser seus próprios pensamentos sobre o assunto, ela não os divulgou.
Orrin e Nasuada pressionaram Eragon com inúmeras perguntas a respeito das maldições que ele lançara sobre Sloan, bem como o inquiriram sobre o restante de sua viagem. O interrogatório continuou por tanto tempo que Nasuada foi obrigada a solicitar que trouxessem ao pavilhão uma bandeja com sidra fresca, frutas e tortas de carne junto com um quarto de boi para Saphira.
Nasuada e Orrin tiveram ampla oportunidade de comer entre uma questão e outra. Entretanto, mantiveram Eragon tão ocupado falando que ele só conseguiu dar duas mordidas em uma fruta e dar alguns goles na sidra para molhar a garganta. Finalmente, o rei Orrin deu-lhes adeus e partiu para passar em revista sua cavalaria. Arya saiu um minuto depois, explicando que precisava se apresentar à rainha Islanzadí e, como ela disse: “Entrar em uma banheira com água quente, lavar a areia de minha pele e fazer minhas feições voltarem à forma original. Não me sinto eu mesma sem as pontas de minhas orelhas, com os olhos arredondados e nivelados e os ossos de meu rosto nos lugares errados.”
Quando ficou a sós com Eragon e Saphira, Nasuada suspirou e recostou a cabeça contra o encosto da cadeira. Eragon estava chocado com sua aparência cansada. Perdera sua antiga vitalidade e altivez. Perdera o fogo em seus olhos. Ela estivera, notou ele, fingindo ser mais forte do que era de modo a evitar incitar seus inimigos e desmoralizar os Varden com o espetáculo de sua fraqueza.
— Você está doente? — perguntou ele.
Ela indicou os braços com a cabeça.
— Não exatamente. Estou levando mais tempo do que previra para me recuperar... Alguns dias são piores do que outros.
— Se quiser eu posso...
— Não. Obrigada, mas não quero. Não me tente. Uma regra do Desafio das Facas Longas é que você deve permitir que seus ferimentos sarem a seu próprio ritmo, sem magia. Do contrário, os desafiantes não terão sofrido toda a dor dos cortes.
— Isso é barbárie!
Um lento sorriso apareceu em seus lábios.
— Talvez, mas é o que é, e eu não fracassaria neste estágio avançado do desafio somente porque não posso suportar um pouco de dor.
— E se seus ferimentos supurarem?
— Então supurarão, e terei de pagar o preço de meu erro. Mas duvido que isso aconteça enquanto Angela estiver cuidando de mim. Ela possui um incrível estoque de conhecimento no que concerne a plantas medicinais. Eu sou quase capaz de acreditar que ela poderia lhe dizer o verdadeiro nome de cada espécie de gramínea existente na campina a leste daqui apenas sentindo suas folhas.
Saphira, que estivera tão parada que parecia estar adormecida, deu um bocejo – quase tocando o chão e o teto com as extremidades de sua mandíbula aberta – e balançou a cabeça e o pescoço, fazendo com que os pontinhos de luz refletidos pelas escamas girassem dentro da tenda numa velocidade alucinante.
Esticando-se em sua cadeira, Nasuada disse:
— Ah, sinto muito. Eu sei que isso foi tedioso. Vocês dois foram muito pacientes. Obrigada.
Eragon ajoelhou-se e colocou a mão direita sobre a dela.
— Não precisa se preocupar comigo, Nasuada. Eu conheço meus deveres. Jamais aspirei ao poder; esse não é meu destino. E se alguma vez me for oferecida a chance de sentar em um trono, eu recusarei e cuidarei para que seja ocupado por alguém melhor preparado do que eu para liderar nossa raça.
— Você é uma boa pessoa, Eragon — murmurou Nasuada, e pressionou a mão dele entre as suas. Então, deu uma gargalhada. — Com você, Roran e Murtagh, eu acabo passando grande parte de meu tempo me preocupando com membros da sua família.
Eragon refreou a sentença.
— Murtagh não é da minha família.
— É claro. Perdoe-me. Mas, ainda assim, você tem de admitir que é impressionante a quantidade de problemas que vocês três causaram tanto ao Império quanto aos Varden.
— É um talento nosso — brincou Eragon.
Corre no sangue deles, disse Saphira. Onde quer que eles estejam, vão sempre estar engalfinhados nos piores perigos possíveis. Ela deu um empurrãozinho no braço dele. Principalmente esse aqui. O que mais podemos esperar das pessoas do vale Palancar? Descendentes de um rei louco.
— Mas eles próprios não são loucos — completou Nasuada. — Pelo menos, eu não acho. Às vezes, é difícil dizer. — Ela riu. — Se você, Roran e Murtagh ficassem presos na mesma cela, não sei qual sobreviveria.
Eragon também riu.
— Roran. Ele não vai deixar que uma coisinha à toa como a morte se coloque entre ele e Katrina.
O sorriso de Nasuada ficou um pouco mais contido.
— Não, suponho que ele não deixaria. — Pelo tempo de algumas batidas de coração, ela ficou em silêncio, e então disse: — Céus! Como sou egoísta. O dia está quase no fim e aqui estou eu retendo vocês apenas para aproveitar um minuto ou dois de conversa ociosa.
— O prazer é meu.
— Sim, mas há lugares melhores do que esse para uma conversa entre amigos. Depois do que passou, imagino que gostaria de se lavar, mudar de roupa e comer uma refeição substanciosa, não? Deve estar faminto!
Eragon olhou de relance para a maçã que ainda estava segurando e concluiu, lamentando-se, que seria deselegante continuar comendo-a quando sua audiência com Nasuada já estava quase chegando ao fim. Ela flagrou o olhar dele e disse:
— Seu rosto responde por você, Matador de Espectros. Está com as feições de um lobo esfomeado no inverno. Bem, não o atormentarei mais. Vá, banhe-se e se vista com sua melhor túnica. Quando estiver apresentável, terei o maior prazer de recebê-lo para a ceia, se isto for de seu agrado. Compreenda, você não será meu único convidado, já que os assuntos dos Varden demandam minha constante atenção. Mas, para mim, abrilhantaria consideravelmente o evento se escolhesse participar.
Eragon reprimiu uma careta ao pensar que teria de passar mais algumas horas rebatendo as arremetidas verbais daqueles que ansiavam usá-lo em sua própria vantagem ou que queriam satisfazer suas curiosidades a respeito de Cavaleiros e dragões.
Mesmo assim, um convite de Nasuada não poderia ser negado. Então, ele fez uma mesura e aceitou.

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