24 de junho de 2017

Capítulo 15 - Boatos e escritos


tarde, disse Saphira, ao ver Eragon encaminhar-se para a tenda,
junto da qual estava enroscada, cintilando como um amontoado
de brasas azuis celeste, sob a luz ténue das tochas, e olhando-o
com um único olho semicerrado.
Ele agachou-se junto da sua cabeça e encostou a testa à dela,
durante alguns momentos, abraçando-lhe a mandíbula espinhosa.
Pois é, disse finalmente, e você precisas de descanso depois de teres
andado a voar ao vento o dia inteiro. Dorme. Vemo-nos de manhã.
Ela piscou os olhos uma vez, em sinal de reconhecimento.
Eragon acendeu uma vela dentro da tenda, para ficar mais
confortável. Depois, tirou as botas e sentou-se no catre, de pernas
dobradas debaixo do corpo, abrandando a respiração e deixando
que a mente se abrisse e se expandisse para tocar todas as coisas
vivas em redor — os vermes e os insetos, no chão, Saphira e os
guerreiros dos Varden, até mesmo as poucas plantas que restavam
ali por perto, cuja energia era ténue e difícil de ver, em comparação
com o fulgor flamejante do animal mais minúsculo.
Ficou ali sentado durante bastante tempo, sem pensar,
consciente de milhares de sensações agudas e subtis,
concentrando-se apenas no fluxo de ar que lhe entrava e saía dos
pulmões.
Ouviu homens falar à distância, junto da fogueira de vigilância. O
ar da noite transportava as suas vozes mais longe do que era
suposto. Tão longe que os ouvidos sensíveis de Eragon conseguiam
distinguir as palavras. Conseguia também sentir as suas mentes e
poderia ter lido os pensamentos se quisesse, mas decidiu respeitar
a sua intimidade e limitou-se a ouvi-los.
Um sujeito de voz cava dizia:
— ... e a forma como nos olham, de nariz empinado, como se
fôssemos a coisa mais reles deste mundo? A maior parte das vezes,
não nos respondem quando lhes fazemos uma pergunta amigável.
Viram-nos as costas e vão-se embora.
— Sim — disse outro homem. — E as mulheres deles — belas como
estátuas e duas vezes menos apetecíveis?
— Isso é porque és feio como o raio, Svern, é por isso.
— Não tenho culpa que o meu pai tivesse a mania de seduzir
leiteiras, onde quer que fosse. Além disso, não és a pessoa mais
indicada para apontar o dedo, pois poderias causar pesadelos às
crianças com essa tua cara.
O guerreiro de voz cava resmungou. Depois alguém tossiu e
cuspiu, e Eragon ouviu o cuspo ferver e evaporar-se ao tocar num
pedaço de madeira a arder.
Um terceiro orador reuniu-se à conversa:
— Gosto tanto dos elfos como tu, mas nós precisamos deles para
ganhar a guerra.
— E se depois eles se virarem contra nós? — interpelou o homem
de voz cava.
— Ouve o que ele diz — acrescentou Svern. — Vê o que
aconteceu em Ceunon e em Gil’ead. Mesmo com todos os seus
homens e todo o seu poder, Galbatorix não conseguiu impedi-los
de saltarem por cima das muralhas.
— Talvez não tivesse feito qualquer esforço para isso — aventou o
terceiro orador.
Seguiu-se uma longa pausa.
Depois o homem de voz cava disse:
— Aí está uma ideia particularmente desagradável... Fizesse ou
não, não vejo como poderíamos conter os elfos se eles decidissem
reclamar os seus antigos territórios. São mais rápidos e mais fortes
do que nós e, ao contrário de nós, não há nenhum que não saiba
usar a magia.
— Ah, mas nós temos Eragon — contrapôs Svern. — Ele
conseguiria fazê-los recuar para a sua floresta, sozinho, se quisesse.
— Eragon? Bah! Mais parece um elfo do que um homem da sua
família. Confiaria tanto na sua lealdade como na dos Urgals.
O terceiro homem voltou a falar:
— Já repararam que ele tem sempre a barba feita,
independentemente da hora a que se levante o acampamento?
— Deve usar magia em vez de lâmina.
— Isso é contra a ordem natural das coisas. Isso e todos os
outros feitiços que se lançam por aí, hoje em dia. Dá vontade de
nos escondermos numa caverna e deixar que os feiticeiros se
matem uns aos outros, sem interferir.
— Não me lembro de te ouvir reclamar quando os feiticeiros
usaram um feitiço em vez de um par de pinças para te arrancar
aquela flecha do ombro.
— Talvez, mas aquela flecha nunca teria acabado no meu ombro
se não fosse Galbatorix, e foi ele e a sua magia que provocaram
toda esta confusão.
Alguém roncou.
— É verdade, mas apostaria todas as minhas moedas de cobre
em como acabarias com uma flecha espetada, com Galbatorix ou
sem ele. És demasiado mau para fazeres outra coisa que não lutar.
— Eragon salvou-me a vida em Feinster, sabes? — disse Svern.
— Pois. E se nos aborreceres mais alguma vez com essa história,
ponho-te a esfregar panelas durante uma semana.
— Mas é verdade...
Fez-se mais um momento de silêncio, interrompido por um
suspiro do guerreiro de voz cava.
— Temos de descobrir uma forma de nos protegermos, o
problema é esse. Estamos à mercê dos elfos, dos feiticeiros — os
nossos e os deles — e de todas as criaturas estranhas que vagueiam
pelo território. Para gente como Eragon está tudo bem, mas nós
não temos tanta sorte. O que nós precisamos é...
— O que nós precisamos — disse Svern — é dos Cavaleiros. Eles
iriam endireitar o mundo.
— Pff. Com que dragões? Sem dragões não há Cavaleiros. Além
disso, continuaríamos a não conseguir defender-nos. É isso que me
incomoda. Não sou nenhuma criança para me esconder debaixo
das saias da minha mãe, mas se nos aparecesse um Espetro a meio
da noite não conseguiríamos fazer nada para impedir que nos
arrancasse a cabeça.
— A propósito, soubeste do Lorde Barst? — perguntou o terceiro
homem.
Svern acenou afirmativamente.
— Ouvi dizer que comeu o próprio coração, depois.
— Mas o que é isto, agora? — perguntou o guerreiro de voz cava.
— Barst...
— Barst?
— O conde com uma propriedade perto de Gil’ead...
— Não foi ele que conduziu os cavalos contra Ramr, só por
despeito...
— Sim, esse mesmo, mas adiante. O homem vai a essa aldeia e
ordena a todos os homens que se juntem ao exército de Galbatorix.
A história do costume. Só que os homens recusam e atacam Barst
e os seus soldados.
— Corajosos — disse o homem de voz cava. — Estúpidos, mas
corajosos.
— Mas Barst era mais esperto do que eles; tinha colocado
arqueiros em torno da aldeia, antes de entrar, e os soldados
mataram metade dos homens, deixando os restantes à beira da
morte. Até aqui nada de estranho. A seguir captura o líder, o
homem que dera início ao conflito, agarra-o pelo pescoço e
arranca-lhe a cabeça com as próprias mãos!
— Não.
— Tipo galinha, e o pior é que também mandou queimar a família
do homem, viva.
— Barst deve ser tão forte como um Urgal para arrancar a
cabeça de um homem — comentou Svern.
— Talvez isso tenha um truque.
— Seria magia? — perguntou o homem de voz cava.
— Segundo consta, ele foi sempre forte — forte e esperto. Dizem
que matou um boi só com um murro, quando era ainda jovem.
— Continua a parecer-me magia.
— Isso é porque vês feiticeiros maléficos escondidos em toda a
parte.
O guerreiro de voz cava roncou mas não falou.
Depois os homens dispersaram para fazer as rondas e Eragon
não os ouviu mais. Em qualquer outra altura, aquilo poderia tê-lo
incomodado, mas devido à meditação ficou imperturbável ao longo
de toda a conversa, embora fizesse um esforço para não se
esquecer do que eles tinham dito, para mais tarde poder ponderar
convenientemente sobre o assunto.
Logo que pôs as ideias em ordem e sentiu que estava
suficientemente calmo e relaxado, Eragon fechou a mente, abriu os
olhos e esticou lentamente as pernas, exercitando os músculos.
O movimento da chama da vela chamou a sua atenção e ele
olhou-a por instantes, fascinado com as contorções do fogo.
Depois foi ao sítio onde deixara os alforges de Saphira, há algum
tempo atrás, e tirou a pena, o pincel, o tinteiro e os pergaminhos
que pedira a Jeod, há alguns dias atrás, bem como a cópia do
Domia abr Wyrda que o velho académico lhe dera.
Regressando para junto do catre, Eragon pousou o pesado livro
bem longe de si, para não correr o risco de entornar tinta sobre ele,
colocou o escudo sobre os joelhos como uma bandeja, e espalhou
os pergaminhos sobre a superfície curva. Um odor tânico
impregnou-lhe as narinas, ao abrir o frasco, e mergulhou a pena na
tinta de resina de carvalho.
Tocou com a ponta da pena na beira do frasco para remover o
excesso de tinta e desenhou cuidadosamente o primeiro risco. A
pena arranhou ligeiramente o pergaminho, ao escrever as runas da
sua língua nativa. Quando terminou, comparou-as com os esforços
que fizera na noite anterior, para ver se a sua escrita melhorara —
nem que fosse apenas ligeiramente —, e com as runas do Domia abr
Wyrda que usava como guia.
Voltou a escrever o alfabeto mais três vezes, dando especial
atenção às formas que tinha mais dificuldade em traçar e, depois,
começou a transcrever os seus pensamentos e observações sobre
os acontecimentos do dia. O exercício foi útil, não apenas por ser
um meio conveniente para praticar a escrita, mas também porque o
ajudava a perceber melhor tudo o que vira e fizera ao longo do dia.
Eragon era trabalhador e gostava da escrita, pois achava os
desafios estimulantes. Além disso, lembrava-lhe Brom e a forma
como o velho contador de histórias lhe ensinara o significado de
cada runa, criando-lhe um sentimento de proximidade com o seu
pai que, de outra forma, lhe escaparia.
Depois de escrever tudo o que queria dizer, lavou a pena,
trocou-a pelo pincel e escolheu uma folha de pergaminho que já
estava meio coberta de linhas de hieróglifos na língua antiga.
A escrita dos elfos, o Liduen Kvaedhí, era muito mais difícil de
reproduzir que as runas da sua raça, devido às formas fluidas e
intrincadas dos hieróglifos. Ainda assim, insistia em escrevê-los por
dois motivos: porque precisava de manter a familiaridade com a
escrita e porque achava mais sensato escrever de uma forma que a
maioria das pessoas não entendiam, se quisesse escrever algo na
língua antiga.
Eragon tinha boa memória, mesmo assim concluíra que
começava a esquecer muitos dos feitiços que Brom e Oromis lhe
tinham ensinado. Por isso, decidira compilar um dicionário de todas
as palavras que sabia na língua antiga. Embora não fosse
propriamente uma ideia original, só muito recentemente considerara
o valor de tal compêndio.
Trabalhou no dicionário durante mais algumas horas, guardando
depois os seus escritos nos alforges e tirando o baú que continha o
coração dos corações de Glaedr. Tentou despertar o velho dragão
do seu estupor, como tantas vezes já o fizera, e fracassou, como
sempre, recusando-se contudo a desistir. Sentado junto do baú
aberto, leu em voz alta a Glaedr, algumas passagens do Domia abr
Wyrda sobre os inúmeros ritos e rituais dos anões — alguns dos
quais Eragon conhecia —, até à hora mais fria e mais escura da
noite.
Depois, pôs o livro de parte, apagou a vela e deitou-se no catre
para descansar, deambulando através das visões fantásticas das
suas divagações apenas durante um curto período de tempo. Logo
que os primeiros vestígios de luz surgiram, a Este, endireitou-se,
reiniciando de novo o ciclo.
A

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