3 de junho de 2017

Capítulo 14 - Em meio à multidão inquieta

Já era o meio da tarde quando por fim eles avistaram os Varden.
Eragon e Arya pararam no cume de um morro baixo para examinar a vasta cidade de tendas cinzentas que se espraiava diante deles, apinhada por milhares de homens, cavalos e fumegantes fogueiras de cozinhar. A oeste das tendas, seguia sinuoso o rio Jiet, margeado de árvores. A uns oitocentos metros para o leste havia um segundo acampamento, menor – como uma ilha flutuando ao largo do continente-mãe – onde residiam os Urgals, chefiados por Nar Garzhvog.
Dispostos num raio de alguns quilômetros a partir do perímetro do acampamento dos Varden, havia numerosos grupos de cavaleiros. Alguns eram da patrulha montada, outros eram mensageiros portadores de flâmulas, e ainda outros eram grupos de assalto, de partida em alguma missão ou de volta. Duas das patrulhas avistaram Eragon e Arya; e, depois de soar as trombetas, galoparam na direção deles o mais rápido possível.
Um largo sorriso se abriu no rosto de Eragon, e ele riu, aliviado.
— Conseguimos! — exclamou ele. — Murtagh, Thorn, centenas de soldados, os mágicos prediletos de Galbatorix, os Ra’zac... nenhum deles conseguiu nos apanhar. Rá! Que provocação ao rei, não? Quando ele souber, sem dúvida, vai ficar mordido de raiva.
— E com isso ele vai se tornar duas vezes mais perigoso — avisou Arya.
— Eu sei — disse ele, abrindo ainda mais o sorriso. — Pode ser que fique com tanta raiva que se esqueça de pagar aos soldados, e eles todos vão jogar fora o uniforme para se juntar aos Varden.
— Você está de bom humor hoje.
— E por que não deveria estar? — perguntou ele.
Pulando na ponta dos pés, abriu a mente ao máximo e, reunindo forças, gritou Saphira!, arremessando o pensamento em voo pelos campos como se fosse uma lança. A resposta não tardou:
Eragon!
Suas mentes se abraçaram, uma sufocando a outra com ondas carinhosas de orgulho, felicidade e preocupação. Trocaram lembranças do tempo de separação, e Saphira tentou consolar Eragon com relação aos soldados que ele havia matado, extraindo a dor e a revolta que se acumulavam dentro dele desde o incidente. Ele sorriu. Com Saphira tão perto, tudo parecia estar certo no mundo.
Senti sua falta, disse ele.
E eu a sua, pequenino. Ela então lhe enviou uma imagem dos soldados com quem ele e Arya tinham lutado. Sem falta, todas as vezes que eu o deixo sozinho, você se mete em encrenca. Todas as vezes! Detesto até mesmo a ideia de lhe dar as costas por temer que comece a travar um combate mortal no instante em que eu tirar os olhos de você.
Seja justa: já me meti em encrencas suficientes estando com você. Não é uma coisa que aconteça somente quando estou sozinho. Parece que nós somos ímãs para atrair acontecimentos inesperados.
Não, é você que é um ímã para acontecimentos inesperados, disse ela, fungando. Nada fora do comum acontece comigo quando estou sozinha. Mas você atrai duelos, emboscadas, inimigos imortais, criaturas obscuras como os Ra’zac, parentes perdidos e esquecidos, e misteriosos atos de magia, como se todos eles fossem doninhas famintas e você, um coelhinho que por acaso entrou sem querer na toca errada.
E o que você me diz do tempo que passou como propriedade de Galbatorix? Aquilo foi um acontecimento comum?
Eu ainda nem tinha saído do ovo, disse ela. Aquela época não conta. A diferença entre nós dois é que as coisas acontecem com você, ao passo que eu faço as coisas acontecerem.
Pode ser, mas isso é porque ainda estou aprendendo. Basta você me dar alguns anos, e vou ser tão bom quanto Brom em fazer com que as coisas aconteçam. Você não pode dizer que eu não tomei a iniciativa com Sloan.
Hummm. Ainda precisamos conversar sobre isso. Se um dia você voltar a me surpreender desse jeito, eu o prendo no chão e lhe dou lambidas da cabeça aos pés.
Eragon estremeceu. A língua de Saphira era coberta de farpas recurvadas que conseguiam arrancar cabelo, couro e carne de um cervo com uma única passada.
Eu sei, mas eu mesmo não tinha certeza se ia matar Sloan ou soltá-lo no mundo até o instante em que me postei diante dele. Além do mais, se eu lhe tivesse dito que ia ficar para trás, você teria insistido em me impedir.
Eragon sentiu um leve rugido roncar pelo peito de Saphira.
Você deveria ter confiado em mim, que eu agiria do modo correto. Se não pudermos conversar abertamente, como seríamos dragão e Cavaleiro?
E esse modo correto teria envolvido me tirar de Helgrind, contra a minha vontade?
Talvez não, disse ela com uma sugestão de atitude defensiva.
Ele sorriu. Sabe que você tem razão? Eu deveria ter estudado meu plano com você. Sinto muito. De agora em diante, prometo que vou consultá-la antes de fazer qualquer coisa que você não espere. A proposta é aceitável?
Só se envolver armas, magia, reis ou parentes, disse ela.
Ou flores.
Ou flores, concordou ela. Não preciso saber se você decidir comer pão com queijo no meio da noite.
A menos que um homem com uma faca muito comprida esteja me esperando do lado de fora da tenda.
Se você não pudesse derrotar um homem com uma faca muito comprida, não passaria de um arremedo de Cavaleiro.
Isso para não dizer que eu já estaria morto.
Bem...
Pela sua própria argumentação, você deveria se tranquilizar com o fato de que, embora eu possa atrair mais problemas que a maioria das pessoas, sou perfeitamente capaz de escapar de situações que matariam praticamente qualquer um.
Mesmo os maiores guerreiros podem cair vítimas da má sorte, disse ela. Lembre-se do rei anão Kaga, que foi morto por um espadachim novato – um espadachim anão – quando tropeçou numa pedra. Você deve sempre se manter cauteloso, pois, por maiores que sejam suas habilidades, você não tem como prever e impedir cada infortúnio que o destino puser no seu caminho.
Concordo. Agora, será que podemos abandonar esse tipo de conversa profunda? Fiquei totalmente exausto com essas ideias de destino, fatalidade, justiça e outros temas igualmente entristecedores nestes últimos dias. No que me diz respeito, a investigação filosófica tem tanta probabilidade de deixar a pessoa confusa e deprimida quanto tem de melhorar sua condição. Girando a cabeça, Eragon esquadrinhou a planície e o céu, procurando o característico cintilar azul das escamas de Saphira. Onde é que você está? Sinto que está por perto, mas não consigo vê-la.
Estou bem acima de você!
Com forte urro de alegria, Saphira saiu do bojo da nuvem a alguns milhares de pés de altitude, mergulhando em espiral na direção do chão com as asas dobradas bem junto do corpo. Abrindo os maxilares assustadores, ela soltou uma coluna de fogo, que voltou por cima da sua cabeça e pescoço como uma juba ardente. Eragon riu e manteve os braços bem abertos para ela.
Os cavalos da patrulha que vinha galopando na direção dele e de Arya refugaram com o som e a imagem de Saphira, e dispararam na direção contrária enquanto seus cavaleiros se esforçavam loucamente para freá-los.
— Eu tinha a esperança de podermos entrar no acampamento sem atrair atenção indevida — disse Arya —, mas suponho que deveria ter percebido a impossibilidade de sermos discretos com Saphira por perto. É difícil deixar de perceber um dragão.
Eu ouvi isso, disse Saphira, abrindo as asas e pousando com um barulho retumbante.
Suas coxas e ombros enormes ondularam à medida que ela absorvia a força do impacto. Uma rajada de ar atingiu o rosto de Eragon, e a terra estremeceu debaixo dos seus pés. Ele curvou os joelhos para manter o equilíbrio.
Dobrando as asas para fechá-las grudadas no dorso, ela disse: Posso ser sorrateira se quiser. Depois inclinou a cabeça e piscou, balançando a cauda de um lado para outro. Mas hoje não quero ser sorrateira! Hoje sou um dragão, não um pombo apavorado procurando não ser visto por um falcão caçador.
Quando é que você não é um dragão?, perguntou Eragon, correndo para ela.
Leve como uma pluma, ele saltou da sua pata dianteira esquerda para o ombro e de lá para a reentrância na base do seu pescoço, que era seu lugar habitual. Acomodando-se, ele pôs as mãos de cada lado do pescoço morno, sentindo a subida e descida dos músculos fibrosos enquanto ela respirava. Ele sorriu mais uma vez, com uma profunda sensação de contentamento. É aqui o meu lugar, aqui com você. Suas pernas vibraram quando Saphira cantarolou com satisfação, num ronco profundo que acompanhava uma melodia estranha e sutil que Eragon não reconhecia.
— Saudações, Saphira — disse Arya, torcendo a mão diante do peito no gesto élfico de respeito.
Agachando-se e curvando o pescoço comprido, Saphira tocou Arya na fronte com a ponta do focinho, como tinha feito ao abençoar Elva em Farthen Dûr, e disse:
Saudações, älfa-kona. Seja bem-vinda, e que ventos favoráveis sempre a acompanhem. Ela falava com Arya com o mesmo tom de afeto que até aquele momento tinha reservado para Eragon, como se agora considerasse Arya parte da sua pequena família e digna do mesmo respeito e intimidade que eles compartilhavam. Seu gesto surpreendeu Eragon; mas, depois de se sentir invadido subitamente pelo ciúme, ele aprovou. Saphira continuou a falar: Sou-lhe grata por ajudar Eragon a voltar incólumeSe ele tivesse sido capturado, não sei o que eu teria feito!
— Sua gratidão significa muito para mim — disse Arya, com uma reverência. — Quanto ao que você teria feito caso Galbatorix tivesse capturado Eragon, ora, você o teria salvado, e eu a teria acompanhado, mesmo que fosse até a própria Urû’baen.
É, eu gosto de pensar que o salvaria, Eragon, disse Saphira, virando o pescoço para olhar para ele, mas me preocupo com a possibilidade de eu me render ao Império para salvá-lo, sem me importar com as consequências para a Alagaësia.
Abanou então a cabeça e remexeu no solo com as garras. Ah, essas são divagações sem sentido. Você está aqui e em segurança. E é assim que deve ser. Desperdiçar o dia refletindo sobre males que poderiam ter acontecido é envenenar a felicidade de agora...
Naquele momento, uma patrulha chegou a galope e, parando a trinta metros de distância por conta dos cavalos nervosos, perguntou se poderia escoltar os três até a presença de Nasuada. Um dos homens desmontou e entregou seu cavalo a Arya; e então, como um grupo, eles avançaram na direção do mar de tendas a sudoeste.
Saphira estabeleceu o ritmo: um passo vagaroso que permitiu que ela e Eragon pudessem ter o prazer da companhia um do outro antes de mergulhar no fervor que sem dúvida os dominaria quando se aproximassem do acampamento.
Depois de pedir notícias de Roran e Katrina, Eragon perguntou: Você tem comido erva-de-fogo em quantidade suficiente? Seu bafo está mais forte do que de costume.
É claro que tenho comido. Você só está percebendo porque passou muitos dias longe. Meu cheiro é exatamente o cheiro que um dragão deve ter. E eu lhe agradeço se não fizer mais comentários desagradáveis sobre ele, a menos que você queira que eu o derrube de ponta-cabeça. Além do mais, quem são vocês, humanos, para falar? Criaturas suarentas, engorduradas, de cheiro penetrante. Na natureza os únicos seres tão fedorentos quanto os humanos são os bodes e os ursos em hibernação. Em comparação com vocês, o cheiro de um dragão é uma fragrância deliciosa como uma campina coberta de flores da montanha.
Ora, vamos, não exagere. Se bem que, disse ele, franzindo o nariz, desde o Agaetí Blödhren, eu percebi que os humanos têm uma tendência a ter um cheiro bastante forte. Mas você não pode me incluir entre eles, porque já não sou totalmente humano.
Pode ser que não, mas mesmo assim está precisando de um banho!
Enquanto atravessavam a planície, um número cada vez maior de homens ia se aglomerando em torno de Eragon e Saphira, proporcionando-lhes uma guarda de honra completamente desnecessária, embora muito impressionante. Depois de tanto tempo passado nas regiões agrestes da Alagaësia, a multidão cerrada, a cacofonia de vozes altas e empolgadas, a tempestade de pensamentos e emoções desprotegidas, e o movimento confuso de braços que se agitavam e cavalos que se empinavam eram avassaladores para Eragon.
Ele se recolheu bem fundo em si mesmo, onde a dissonância não era mais alta que o estrondo distante da arrebentação das ondas. Mesmo através das camadas de barreiras, sentiu a aproximação de doze elfos, que vinham correndo em formação desde o outro lado do acampamento, velozes, esguios e de olhos amarelos como felinos das montanhas. Desejoso de causar uma impressão favorável, Eragon penteou o cabelo com os dedos e endireitou os ombros, mas também reforçou a armadura em torno da sua consciência para que ninguém além de Saphira pudesse ler seus pensamentos.
Os elfos tinham vindo para sua proteção e a de Saphira, mas em última análise sua lealdade era para com a rainha Islanzadí. Embora estivesse grato por sua presença e duvidasse que a cortesia inata aos elfos permitisse que tentassem espioná-lo, não queria proporcionar à rainha dos elfos nenhuma oportunidade de descobrir os segredos dos Varden, nem de conseguir algum domínio sobre ele. Se ela tivesse como afastá-lo de Nasuada, ele sabia que era isso o que faria.
Em geral, os elfos não confiavam nos humanos, não depois da traição de Galbatorix; e por essa e outras razões, tinha certeza de que Islanzadí preferiria que ele e Saphira estivessem sob seu comando direto. E dos potentados que havia conhecido, Islanzadí era em quem ele menos confiava. Era por demais autoritária e imprevisível.
Os doze elfos pararam diante de Saphira. Fizeram uma reverência e torceram as mãos como Arya tinha feito. Então, um a um, apresentaram-se a Eragon com a frase inicial do cumprimento tradicional dos elfos, à qual Eragon respondeu com as palavras corretas. Em seguida, seu líder, um elfo alto e bonito, com um pelo lustroso azul-escuro que lhe cobria o corpo inteiro, anunciou o objetivo de sua missão a todos os que puderam ouvir e perguntou formalmente a Eragon e Saphira se os doze podiam assumir suas funções.
— Podem — disse Eragon.
Podem, disse Saphira.
— Blödhgarm-vodhr — perguntou, então, Eragon —, eu por acaso o vi durante o Agaetí Blödhren? — Pois ele se lembrava de ter visto um elfo com pelagem semelhante cabriolando entre as árvores durante as festividades.
Blödhgarm sorriu, expondo presas como as de um animal.
— Creio que você viu minha prima Liotha. Nossa semelhança é impressionante, se bem que o pelo dela é castanho e sarapintado, enquanto o meu é azul-escuro.
— Eu teria jurado que era você.
— Infelizmente, eu tive outros compromissos na ocasião e não pude participar da comemoração. Pode ser que eu tenha oportunidade de comparecer da próxima vez, daqui a cem anos.
Você não acha, disse Saphira a Eragon, que ele tem um aroma agradável?
Eragon farejou o ar. Não sinto cheiro de nada. E eu sentiria se houvesse algum cheiro.
Que estranho. Saphira então lhe transmitiu o leque de odores que tinha detectado, e de imediato Eragon se deu conta do que ela queria dizer. O almíscar de Blödhgarm o cercava como uma nuvem, espessa e inebriante, um perfume quente, esfumaçado, que incluía sugestões de bagas esmagadas de zimbro e que fazia formigar as narinas de Saphira. Todas as mulheres nos Varden parecem estar apaixonadas por ele, disse ela. Elas o perseguem aonde quer que vá, desesperadas para falar com ele, mas tímidas demais para sequer deixar escapar um gritinho quando ele olha para elas. Talvez somente as fêmeas sintam seu cheiro.
Ele lançou um olhar preocupado para Arya. Parece que ela não está afetada.
Ela tem proteção contra influências mágicas.
Espero que sim...
Você acha que devíamos fazer Blödhgarm parar com isso? O que ele está fazendo é um modo furtivo e dissimulado de conquistar o coração de uma mulher.
Será que é mais dissimulado do que se enfeitar com belos trajes para atrair a atenção do amado? Blödhgarm não se aproveitou das mulheres que estão apaixonadas por ele. E parece improvável que tenha combinado as notas do seu perfume para atrair especificamente as fêmeas humanas. Acho, sim, que essa é uma consequência imprevista e que ele criou a fragrância para algum objetivo totalmente diferente. A menos que abandone toda e qualquer aparência de decência, creio que não deveríamos nos intrometer.
E Nasuada? Ela é vulnerável aos encantos dele? Nasuada é sábia e prudente. Ela pediu a Trianna que pusesse uma proteção á sua volta que a defendesse da influência de Blödhgarm.
Ótimo.
Quando chegaram às tendas, a multidão cresceu até dar a impressão de que metade dos Varden estava reunida em torno de Saphira. Eragon erguia a mão em resposta quando as pessoas gritavam “Argetlam!” e “Matador de Espectros!”. E ele ouviu outros dizerem “Onde você esteve, Matador de Espectros? Conte-nos suas aventuras!”. Um número razoável se referia a ele como a Ruína dos Ra’zac, o que o deixou tão satisfeito que ele repetiu a expressão para si mesmo quatro vezes em voz muito baixa. As pessoas também gritavam bênçãos para sua saúde e para a de Saphira, além de convites para jantar, ofertas de ouro e joias e entristecedores pedidos de ajuda: será que ele poderia curar um filho que tinha nascido cego, remover um tumor que estava matando a mulher de um homem, ou teria como sarar a perna quebrada de um cavalo ou consertar uma espada torta porque tinha pertencido ao avô do homem que gritava? Duas vezes uma voz de mulher gritou “Matador de Espectros, quer casar comigo?”. E, embora olhasse, não conseguiu identificar de quem tinha vindo.
Ao longo de toda a comoção, os doze elfos permaneceram bem perto. Saber que estavam vigiando para ver o que ele não podia ver e para escutar o que não conseguia ouvir era um conforto para Eragon e permitia que interagisse com os Varden ali reunidos com uma tranquilidade que no passado não tivera.
E, então, do meio das fileiras em curva de tendas de lã, os antigos moradores de Carvahall começaram a surgir.
Eragon desmontou e foi caminhar entre os amigos e conhecidos da infância, dando apertos de mãos, tapinhas nas costas e rindo de piadas que seriam incompreensíveis para qualquer pessoa que não tivesse crescido lá por Carvahall. Horst estava ali, e Eragon segurou o antebraço vigoroso do ferreiro.
— Seja bem-vindo de volta, Eragon. Parabéns. Ficamos lhe devendo por ter nos vingado daqueles monstros que nos expulsaram de casa. Fico feliz de ver que você ainda está inteiro.
— Os Ra’zac teriam precisado ser muito mais rápidos para conseguir arrancar algum pedaço de mim! — disse Eragon.
Descobriu-se, então, cumprimentando os filhos de Horst, Albriech e Baldor; depois, Loring, o sapateiro, e seus três filhos; Tara e Morn, que eram donos da taberna de Carvahall; Fisk; Felda; Calitha; Delwin e Lenna; e por fim Birgit, de olhar feroz.
— Eu lhe agradeço, Eragon, filho de ninguém. Eu lhe agradeço por se certificar de que as criaturas que devoraram meu marido fossem devidamente punidas. Meu lar é seu, agora e para sempre.
Antes que Eragon pudesse responder, a multidão os separou. Filho de ninguém?, pensou ele. Rá! Eu tenho pai, e todos o odeiam.
Então, para seu enorme prazer, Roran veio abrindo caminho em meio à multidão, com Katrina ao lado. Ele e Roran se abraçaram, enquanto o primo resmungava.
— Ficar para trás foi muita loucura. Eu devia arrancar suas orelhas por nos abandonar daquele jeito. Da próxima vez, quero que me avise antes de sair passeando sozinho por aí. Isso está começando a se tornar um hábito seu. E você precisava ver como Saphira ficou perturbada no voo de volta.
Eragon pôs uma mão na perna esquerda de Saphira.
— Sinto muito, mas eu não podia lhe contar antes que eu planejava ficar porque só fui perceber que isso seria necessário no último momento.
— E exatamente por que você ficou naquelas cavernas imundas?
— Porque havia uma coisa que eu precisava investigar.
Quando viu que o Cavaleiro não dava uma resposta mais completa, o rosto largo de Roran endureceu; e por um momento Eragon receou que ele fosse insistir em receber uma explicação mais satisfatória.
— Bem — disse Roran, por fim —, que esperança um homem comum como eu pode ter de compreender as motivações de um Cavaleiro de Dragão, mesmo que seja meu primo? Tudo o que importa é que você ajudou a libertar Katrina e agora está aqui, são e salvo. — Ele esticou o pescoço como se estivesse tentando ver se havia alguma coisa no dorso de Saphira e então olhou para Arya, que estava alguns metros atrás deles. — Você perdeu meu cajado! Atravessei a Alagaësia inteira com aquele cajado. Você não podia ter ficado com ele mais alguns dias?
— Foi para um homem que precisava dele mais do que eu — disse Eragon.
— Ora, pare de implicar com ele — disse Katrina a Roran e, depois de um instante de hesitação, ela deu um abraço em Eragon. — Ele está realmente muito feliz de ver você, sabe? É só que tem dificuldade para encontrar as palavras para dizer isso.
Com um sorriso tímido, Roran deu de ombros.
— Ela está com a razão no que me diz respeito, como sempre.
Os dois trocaram um olhar amoroso.
Eragon olhou para Katrina com grande atenção. O cabelo cor de cobre tinha recuperado seu brilho original, e, em sua maioria, as marcas deixadas pelo cativeiro tinham desaparecido, muito embora ela ainda estivesse mais magra e mais pálida que o normal.
— Nunca pensei que um dia eu lhe deveria tanto, Eragon — disse Katrina, aproximando-se ainda mais dele para que nenhum dos Varden reunidos em volta a ouvisse. — Que nós lhe deveríamos tanto. Desde que Saphira nos trouxe para cá, eu soube o quanto você se arriscou para me salvar, e sou extremamente grata. Se eu tivesse passado mais uma semana em Helgrind, teria morrido ou perdido a razão, que é uma morte em vida. Por me salvar daquele destino e por restaurar o ombro de Roran, você tem toda a minha gratidão. Mas, mais do que isso, você tem minha gratidão por nós estarmos juntos de novo. Se não fosse você, nós nunca teríamos conseguido.
— Pois eu acho que Roran teria descoberto um jeito de arrancar você de Helgrind, mesmo sem mim — comentou Eragon. — Ele sabe ser eloquente quando se anima. Teria conseguido convencer outro mágico a ajudá-lo. Talvez, Angela, a herbolária. E teria sido bem-sucedido do mesmo jeito.
— Angela, a herbolária? — zombou Roran. — Aquela garota tagarela não teria sido páreo para os Ra’zac.
— Você ficaria surpreso. Ela é mais do que aparenta ser... ou do que parece aos ouvidos. — E, então, Eragon ousou fazer uma coisa que jamais teria tentado quando morava no vale Palancar, mas que achava que condizia com seu papel de Cavaleiro: beijou Katrina e Roran na fronte. — Roran — disse ele —, você é como um irmão para mim. E Katrina, você é como uma irmã para mim. Se algum dia vocês estiverem em apuros, mandem me chamar. E sua necessidade quer seja de Eragon, o lavrador, quer seja de Eragon, o Cavaleiro, tudo o que sou estará à sua disposição.
— E da mesma forma — retribuiu Roran —, se um dia você estiver enfrentando alguma dificuldade, é só mandar nos chamar, e nós nos apressaremos em ir ajudá-lo.
Eragon fez que sim, agradecendo o oferecimento, e deixou de mencionar que as dificuldades que tinha maior probabilidade de enfrentar não seriam de uma natureza condizente com a ajuda que eles poderiam lhe dar. Assim, segurou os dois pelos ombros.
— Que vocês tenham muitos anos de vida, que sempre estejam juntos e felizes e que tenham muitos filhos.
O sorriso de Katrina se apagou por um instante, e Eragon achou estranho. Por sugestão de Saphira, eles retomaram a caminhada na direção do pavilhão vermelho de Nasuada no centro do acampamento.
Passado algum tempo, acompanhados pela multidão animada dos Varden, chegaram diante da soleira, onde Nasuada esperava, com o rei Orrin à esquerda e dezenas de nobres e outros notáveis reunidos por trás de uma fileira dupla de guardas dos dois lados. Nasuada trajava um vestido de seda verde que tremeluzia ao sol, como as penas de um beija-flor, em forte contraste com o tom negro da sua pele. As mangas do vestido terminavam em babados de renda na altura do cotovelo. Ataduras brancas cobriam o resto dos braços até os pulsos finos. De todos os homens e mulheres reunidos diante dela, Nasuada era a mais impressionante, como uma esmeralda pousada num leito de folhas marrons de outono. Somente Saphira conseguia competir com o esplendor da sua aparência.
Eragon e Arya se apresentaram a Nasuada e depois ao rei Orrin. Nasuada lhes deu boas-vindas formais em nome dos Varden e elogiou sua bravura.
— Sim, Galbatorix pode ter um Cavaleiro e um dragão que lutam por ele da mesma forma que Eragon e Saphira lutam por nós — disse ela, para encerrar. — Ele pode ter um exército tão numeroso que escureça a terra. E pode ser versado numa magia estranha e terrível, uma abominação da arte dos feiticeiros. No entanto, apesar de todo o seu poder maligno, ele não conseguiu impedir Eragon e Saphira de invadir seu reino e matar quatro dos seus servos prediletos. Também não conseguiu impedir Eragon de atravessar o Império impunemente. O braço do Embusteiro está de fato enfraquecido se ele não consegue defender suas fronteiras, nem proteger seus agentes imundos no interior de sua fortaleza oculta.
Em meio aos vivas entusiasmados dos Varden, Eragon se permitiu um sorriso secreto diante de como Nasuada sabia despertar as emoções do povo, inspirando neles confiança, lealdade e disposição apesar de uma realidade muito menos promissora do que ela a retratava. Não mentia para eles. Ao que lhe fosse dado saber, Nasuada não mentia, nem mesmo quando lidava com o Conselho de Anciãos ou com outros adversários políticos seus. O que fazia era expor as verdades que mais sustentavam sua posição e sua argumentação. Sob esse aspecto, pensou ele, Nasuada era como os elfos.
Quando a manifestação de empolgação dos Varden se acalmou, o rei Orrin cumprimentou Eragon e Arya como Nasuada tinha feito. Seu discurso foi sóbrio em comparação com o dela; e, embora a multidão escutasse educadamente e aplaudisse no final, ficou evidente para Eragon que, por mais que o povo respeitasse Orrin, ele não era tão amado quanto Nasuada. Também não conseguia inflamar sua imaginação como Nasuada conseguia. O rei de expressão serena era dotado de um intelecto superior. Mas sua personalidade era por demais rarefeita, excêntrica e reprimida para carregar a bandeira de esperanças dos humanos que se opunham a Galbatorix.
Se derrubarmos Galbatorix, disse Eragon a Saphira, Orrin não deveria substituí-lo em Urû’baen. Ele não seria capaz de manter o país unido como Nasuada manteve os Varden.
Concordo.
Por fim, o rei Orrin terminou, e Eragon ouviu Nasuada sussurrar:
— Agora é a sua vez de se dirigir àqueles que se reuniram para conseguir dar uma olhada no célebre Cavaleiro de Dragão. — Seus olhos cintilavam, com uma alegria contida.
— Quem? Eu?!
— É o que se espera.
Eragon se virou para encarar a multidão, com a língua seca como areia. Sua mente estava vazia; e, por alguns segundos de pânico, achou que não poderia falar e que ficaria constrangido diante de todos os Varden. Em algum lugar um cavalo relinchou baixinho. Fora isso, o acampamento estava num silêncio assustador. Foi Saphira quem rompeu sua paralisia, cutucando seu cotovelo com o focinho e dizendo:
Diga a eles como se sente honrado de ter o apoio de todos e como se sente feliz por estar de volta entre eles.
Com esse incentivo, Eragon conseguiu encontrar algumas palavras para balbuciar; e depois, assim que pareceu aceitável, fez uma reverência e recuou um passo. Forçando um sorriso enquanto os Varden aplaudiam, davam vivas e batiam com as espadas nos escudos, ele exclamou:
Foi horrível! Eu preferia lutar com um Espectro a fazer isso outra vez!
É mesmo?! Não foi tão difícil assim, Eragon.
Foi, sim!
Uma baforada de fumaça subiu das suas narinas quando ela bufou, achando graça.
Belo Cavaleiro de Dragão que você é, com medo de falar para um grupo numeroso! Ah, se Galbatorix soubesse, poderia controlá-lo simplesmente pedindo que fizesse um discurso para as tropas dele. Rá, rá!
Não tem graça nenhuma, resmungou ele, mas Saphira continuou a reprimir uns risinhos.

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