24 de junho de 2017

Capítulo 14 - Comensal da lua


ragon rodou os ombros enquanto percorria o acampamento dos
Varden, tentando livrar-se do torcicolo que arranjara ao lutar
com Arya e Blödhgarm, algum tempo antes, nessa tarde.
Ao alcançar o topo de uma pequena colina que se erguia como
uma ilha solitária, no meio do mar de tendas, apoiou as mãos nas
ancas e fez uma pausa para contemplar a paisagem. À sua frente
estava a superfície escura do Lago Leona que cintilava ao
crepúsculo, refletindo a luz alaranjada das tochas do acampamento,
na crista das suas pequenas ondas. A estrada que os Varden
percorriam passava entre as tendas e a margem: uma ampla faixa
de paralelepípedos, fixos com argamassa, construída muito antes de
Galbatorix derrotar os Cavaleiros — pelo menos, segundo Jeod lhe
dissera. Quatrocentos metros a Norte, ficava uma pequena aldeia
piscatória, mesmo à beira da água, e Eragon sabia que os seus
habitantes não estavam nada satisfeitos pelo fato de terem um
exército acampado à soleira da porta.
Tens de aprender... a observar o que vês.
Eragon passara horas a ponderar no conselho de Glaedr, desde
que saíra de Belatona. Não tinha bem a certeza do que o dragão
quisera dizer com aquilo, pois Glaedr não pronunciara nem mais
uma palavra, depois daquela declaração enigmática. Por isso
Eragon decidira levar as suas instruções à letra. Esforçara-se por
observar realmente tudo o que tinha diante de si, por muito
pequeno ou insignificante que lhe parecesse, para assim entender o
significado do que via.
Por mais que pensasse, sentia estar a falhar miseravelmente.
Para onde quer que olhasse, ele apercebia-se de uma esmagadora
quantidade de detalhes, mas estava convencido de que havia outros
que lhe escapavam por falta de perspicácia. Pior do que isso:
raramente conseguia perceber aquilo de que tinha consciência,
como por exemplo, o motivo porque três das chaminés da aldeia
piscatória não deitavam fumaça.
Apesar da sensação de futilidade, o esforço revelara-se útil pelo
menos num aspecto: Arya já não o derrotava sempre que lutavam.
Observara-a com redobrada atenção — estudando-a tão
atentamente como a um veado que estivesse a perseguir — e, em
consequência disso, ganhara algumas das disputas. Contudo, não
conseguia ainda igualá-la, muito menos superá-la, e não sabia o que
teria de aprender — nem quem o poderia ensinar — para se tornar
tão hábil como ela no manejo da espada.
“Talvez Arya tenha razão e a experiência seja o único mentor
que me poderá ajudar agora”, pensou Eragon. “Porém, a
experiência exige tempo e tempo é o que eu menos tenho. Em
breve estaremos em Dras-Leona e depois em Urû’baen. No
máximo, dentro de alguns meses, teremos de enfrentar Galbatorix e
Shruikan.”
Suspirou e esfregou a cara, tentando desviar os seus
pensamentos para assuntos menos perturbantes. Voltava sempre às
mesmas dúvidas, moendo-se com elas como um cão agarrado a um
osso cheio de tutano, sem nada nas mãos a não ser uma constante
e crescente sensação de ansiedade.
Continuou a descer a colina perdido em cogitações. Vagueou
por entre as tendas sombrias e encaminhou-se na direção da sua,
mas sem prestar grande atenção ao caminho. Caminhar ajudava a
acalmá-lo, como sempre. Os homens que ainda circulavam pelo
acampamento desviavam-se para lhe dar passagem, quando se
cruzavam, batendo com o punho no peito, gesto geralmente
acompanhado de uma branda saudação “Matador de Espectros”,
à qual Eragon respondia com um civilizado aceno de cabeça.
Caminhava há um quarto de hora, parando e retomando a
marcha em contraponto com os seus pensamentos, quando a voz
aguda de uma mulher a descrever algo, com grande entusiasmo, lhe
interrompeu os devaneios. Curioso, seguiu o som até chegar a uma
tenda separada de todas as outras, junto da base de um salgueiro
nodoso, a única árvore perto do rio, que o exército não cortara
para lenha.
Ali, debaixo do teto de ramos deparou-se com a cena mais
estranha que vira em toda a sua vida.
Doze Urgals, incluindo o seu senhor da guerra, Nar Garzhvog,
estavam sentados, em semicírculo, à volta de uma pequena fogueira
trémula. Sombras assustadoras dançavam-lhes no rosto,
destacando-lhes a testa pesada, as maçãs-do-rosto largas e o
volumoso queixo, bem como as saliências dos chifres, que lhes
despontavam da testa e descreviam uma curva para trás, de ambos
os lados da cabeça. Os Urgals estavam de braços e tronco nu,
apenas com os braçais de cabedal nos pulsos e as tiras entrançadas
que usavam penduradas a tiracolo. Para além de Garzhvog estavam
presentes mais três Kulls. Junto dos corpulentos Kulls, o resto dos
Urgals — nenhum dos quais tinha menos de um metro e oitenta —
pareciam crianças pequenas.
Espalhados entre os Urgals — entre eles e acima deles — havia
várias dúzias de meninos-gatos em forma animal. Muitos estavam
direitos, sentados diante do fogo, absolutamente imóveis, sem
sequer mexerem as caudas, com as orelhas franjadas atentamente
espetadas para a frente. Outros estavam esparramados no chão, ao
colo ou nos braços dos Urgals. Para seu espanto, Eragon viu uma
mulher-gato branca e esguia a descansar, enrolada sobre a cabeça
larga de um Kull, com a perna dianteira, direita, pendurada junto do
crânio e a pata possessivamente colada à sua testa. Por muito
pequenos que fossem, comparados com os Urgals, os meninos-gatos
pareciam igualmente selvagens e Eragon não tinha qualquer dúvida
de que preferiria enfrentar os Urgals em combate, pois os homensgato
eram... imprevisíveis.
Do outro lado da fogueira, em frente da tenda, estava Angela, a
herbolária, sentada de pernas cruzadas sobre um cobertor
dobrado, a fiar uma pilha de lã cardada, transformando-a em fio
com um fuso suspenso que segurava diante de si como se estivesse
a enfeitiçar os que a observavam. Tanto os meninos-gatos como os
Urgals tinham os olhos pregados nela, fitando-a atentamente ao
dizer:
— ... mas foi lento demais, e o coelho de olhos vermelhos,
enfurecido, dilacerou a garganta de Hord, matando-o de imediato.
Depois a lebre fugiu para a floresta e desapareceu dos registos da
história. Contudo — nesta altura Angela inclinou-se para a frente e
baixou o tom de voz —, se viajarem por aquelas paragens, como eu
viajei... mesmo hoje em dia, é possível que encontrem por vezes
um veado ou um Feldûnost acabado de matar, aparentemente
mordiscado como um nabo, e as pegadas de um coelho
invulgarmente grande em torno dele. De vez em quando, um
guerreiro de Kvôth irá desaparecer e será encontrado morto, com
a garganta dilacerada... sempre com a garganta dilacerada.
Retomou a posição anterior.
— É claro que Terrin ficou terrivelmente perturbado com a perda
do amigo e queria perseguir a lebre, mas os anões ainda
precisavam da sua ajuda, por isso voltou para a fortaleza e, durante
mais três dias e três noites, os soldados defenderam as muralhas,
até quase esgotarem os seus mantimentos e todos os guerreiros
ficarem cobertos de chagas.
«Por fim, na manhã do quarto dia, quando tudo parecia estar
perdido, as nuvens apartaram-se e Terrin foi surpreendido pela
imagem de Mimring a voar, à distância, em direção à fortaleza e à
cabeça de uma enorme trovoada de dragões. Ao verem os
dragões, os atacantes ficaram de tal forma assustados que largaram
as armas e fugiram para o mato — Angela fez um trejeito com a
boca. — O que deixou os anões de Kvôth bastante felizes, como
devem imaginar, e foi motivo de grande júbilo.
«Quando Mimring aterrou, Terrin ficou surpreendido ao ver que
as suas escamas se tinham tornado transparentes como diamantes,
o que se diz ter acontecido pelo fato de Mimring ter voado tão
perto do sol. Para conseguir ir buscar os outros dragões a tempo,
teve de voar acima dos picos das Montanhas Beor, ou seja, mais
alto do que qualquer outro dragão jamais voara até então ou voou
depois disso. Daí em diante, Terrin ficou conhecido como o herói
do Cerco de Kvôth e o seu dragão como Mimring o Brilhante,
devido às suas escamas, e viveram todos felizes para sempre.
Verdade seja dita, Terrin ficou sempre com algum medo de
coelhos, mesmo depois de velho. E foi isto que realmente
aconteceu em Kvôth.»
Quando se calou os meninos-gatos começaram a ronronar e os
Urgals deram vários roncos aprovadores.
— Contaste uma bela história, Uluthrek — disse Garzhvog, num
tom de voz semelhante a uma derrocada de pedras.
— Obrigada.
— Mas não como eu já a ouvi contar — comentou Eragon,
avançando para a luz.
A expressão de Angela iluminou-se.
— Bom, seria pouco provável que os anões admitissem que
estiveram à mercê de um coelho. Estiveste este tempo todo
escondido nas sombras?
— Apenas um minuto — confessou.
— Então perdeste a parte melhor da história e eu não estou com
vontade de me repetir, esta noite. A minha garganta já está
demasiado seca para falar durante muito tempo.
Eragon sentiu a vibração através da sola das botas quando os
Kull e os outros Urgals se levantaram, para desagrado dos
meninos-gatos que descansavam em cima deles, alguns dos quais
miaram contrariados ao caírem para o chão.
Ao olhar para a grotesca coleção de rostos cornudos reunidos
em torno do fogo, Eragon teve de resistir à tentação de agarrar no
punho da espada. Mesmo depois de ter lutado, viajado e caçado
lado a lado com os Urgals e de ter examinado cuidadosamente as
mentes de alguns deles, ainda se sentia pouco confortável na sua
presença. Tinha consciência de que eram aliados, mas os seus
ossos e os seus músculos não conseguiam esquecer o pavor
visceral que o assaltara em numerosas ocasiões, ao defrontar
aquela espécie em combate.
Garzhvog tirou qualquer coisa da bolsa de cabedal que usava no
cinto, estendendo a mão enorme sobre o fogo, e entregou-a a
Angela, que poisou o fuso para aceitar o objeto, aninhando-o nas
mãos. Era uma esfera grosseira de um cristal verde-mar, que
cintilava como a neve encrostada. Ela meteu-a na manga da blusa e
depois pegou no fuso.
Garzhvog disse:
— Um dia tens de vir ao nosso acampamento, Uluthrek, e nós
contar-te-emos muitas histórias nossas. Temos um jogral connosco.
Ele é bom; quando o ouvimos recitar a história da vitória de Nar
Tulkqa em Stavarosk, sentimos o sangue ferver e apetece-nos balir
à lua e trocar umas chifradas mesmo com o mais forte dos nossos
inimigos.
— Isso varia, consoante tenhas chifres para dar umas chifradas ou
não — disse Angela. — Seria uma honra trocar histórias convosco.
Talvez amanhã à noite?
O gigantesco Kull concordou e depois Eragon perguntou:
— Onde fica Stavarosk? Nunca ouvi falar desse sítio.
Os Urgals remexeram-se desconfortavelmente e Garzhvog
baixou a cabeça, roncando como um boi.
— Que velhacaria é essa Espada de Fogo? — disse,
enfaticamente. — Pretendes desafiar-nos, insultando-nos dessa
forma? — Abriu e fechou as mãos de uma forma claramente
ameaçadora.
Eragon disse com cautela:
— Não foi com má intenção, Nar Garzhvog. Era uma pergunta
honesta; eu nunca antes ouvi falar de Stavarosk.
Um murmúrio de surpresa cresceu entre os Urgals.
— Como é isso possível? — disse Garzhvog. — Não é verdade
que todos os humanos sabem da existência de Stavarosk? Não se
canta a história da nossa grande vitória em todos os salões, desde
os baldios a Norte até às Montanhas Beor? Pelo menos os Varden
devem falar nisso.
Angela suspirou sem levantar os olhos do fuso e disse:
— É melhor contares-lhes.
Num recanto remoto da sua mente, Eragon sentiu Saphira a
observar a conversa e percebeu que ela estava a preparar-se para
voar da tenda até junto de si, se um combate se tornasse inevitável.
Escolhendo as palavras com cuidado, Eragon disse:
— Ninguém me falou nisso, mas eu também não estou com os
Varden há muito tempo e...
— Draj! — praguejou Garzhvog. — O traidor sem cornos nem
sequer tem a coragem de admitir a sua própria derrota. É um
cobarde e um mentiroso!
— Quem, Galbatorix? — perguntou Eragon, cautelosamente.
Vários meninos-gatos bufaram ao ouvir o nome do rei.
Garzhvog acenou com a cabeça.
— Sim. Quando subiu ao poder, tentou destruir a nossa raça para
sempre e mandou um grande exército à Espinha. Os soldados
destruíram as nossas aldeias, queimaram os nossos ossos e
deixaram terra negra e amarga atrás de si. Nós lutámos — primeiro
com alegria e depois com desespero, mesmo assim lutámos. Era a
única coisa que podíamos fazer. Não tínhamos para onde fugir, nem
onde nos esconder. Quem iria proteger os Urgals, quando até os
Cavaleiros tinham sido subjugados?
«Apesar de tudo tivemos sorte, pois tínhamos um grande senhor
da guerra a comandar-nos, Nar Tulkhqa. Ele fora em tempos
capturado pelos humanos e passara muitos anos a lutar contra eles,
por isso sabia como vocês pensavam. Graças a isso conseguiu
reunir muitas das nossas tribos sob o seu estandarte. Depois atraiu
o exército de Galbatorix para uma passagem estreita, nas
profundezas das montanhas, e os nossos carneiros atacaram-nos de
ambos os lados. Foi uma chacina, Espada de Fogo. O chão ficou
ensopado de sangue e havia pilhas de corpos mais altas que a
minha cabeça. Mesmo agora, se fores a Stavarosk, sentirás os
ossos a estalar debaixo dos teus pés e encontrarás moedas,
espadas e pedaços de armaduras debaixo de cada pedaço de
musgo.»
— Então foram vocês! — exclamou Eragon. — Toda a minha vida
ouvi dizer que Galbatorix perdeu uma vez metade dos seus homens
na Espinha, mas ninguém me dizia como nem porquê.
— Mais de metade dos seus homens, Espada de Fogo. —
Garzhvog rodou os ombros e fez um ruído gutural ao fundo da
garganta. — Agora percebo que teremos de espalhar a mensagem,
se quisermos que alguém saiba da nossa vitória. Localizaremos os
vossos jograis, os vossos bardos, ensinar-lhes-emos as canções
sobre Nar Tulkhqa e faremos o necessário para que não se
esqueçam de as recitar frequentemente, alto e bom som. — Acenou
uma vez com a cabeça, como se tivesse tomado uma decisão — um
gesto impressionante, considerando o tamanho e o peso da cabeça
— e depois disse:
— Adeus, Espada de Fogo e Uluthrek — e afastou-se
pesadamente com os seus guerreiros, mergulhando na escuridão.
Angela riu baixinho, assustando Eragon.
— O que é? — perguntou, virando-se para ela.
Ela sorriu.
— Estou a imaginar a cara com que um pobre tocador de alaúde
vai ficar, dentro de alguns minutos, quando olhar para fora da tenda
e vir doze Urgals, quatro deles Kull, ansiosos para o educarem
sobre a cultura Urgal. Ficarei impressionada se não o ouvirmos
gritar. — E voltou a rir baixinho.
Igualmente divertido, Eragon baixou-se e remexeu as brasas
com a ponta de um ramo. Um corpo morno e pesado saltou para o
seu colo. Ele baixou os olhos e viu uma mulher-gato, branca,
enroscada em cima das suas pernas. Ergueu a mão para a afagar,
mas pensou melhor e perguntou:
— Posso?
A mulher-gato sacudiu a cauda, mas tirando isso, ignorou-o.
Esperando não estar a cometer um erro, Eragon afagou
hesitantemente o pescoço da criatura. Momentos depois um
ronronar palpitante impregnou o ar da noite.
— Ela gosta de ti — comentou Angela.
Por qualquer razão, Eragon sentiu-se desmesuradamente
satisfeito.
— Quem é ela? Quer dizer, quem és tu? Como te chamas? — E
olhou brevemente para a mulher-gato, receando tê-la ofendido.
Angela riu baixinho.
— O nome dela é Caçadora de Espetros. Ou melhor, é isso que
o seu nome significa na língua dos meninos-gatos. O seu nome real
é... — A herbolária emitiu um estranho rugido baixo que eriçou os
pelos da nuca de Eragon. — A Caçadora de Espetros é a
companheira de Grimrr Meia-pata, portanto pode-se dizer que é a
rainha dos meninos-gatos.
A mulher-gato começou a ronronar mais alto.
— Compreendo. — Eragon olhou para os outros meninos-gatos em
redor. — Onde está Solembum?
— Entretido atrás de uma fêmea de bigodes compridos com
metade da sua idade. Está mais palerma que um gato pequeno...
mas todos têm o direito de ser um pouco palermas de vez em
quando. — Agarrando no fuso com a mão esquerda, interrompeu a
rotação e enrolou o fio acabado de torcer na base do disco de
madeira. Depois torceu o fuso para que este começasse a girar de
novo e recomeçou a puxar lã do maço de lã cardada que tinha na
outra mão. — Você está com ar de quem está a abarrotar de perguntas,
Matador de Espectros.
— Sempre que te encontro, acabo por ficar mais confuso.
— Sempre? Isso é demasiado absolutista da tua parte. Muito
bem, vou tentar ser informativa. Pergunta.
Um pouco cético em relação à aparente abertura, Eragon
ponderou no que gostaria de saber e, finalmente, disse:
— Uma trovoada de dragões? O que querias tu...
— Esse é o termo adequado para um bando de dragões. Se
alguma vez tivesses ouvido um em pleno voo, irias perceber.
Quando dez, doze ou mais dragões voam por cima da nossa
cabeça o ar vibra à nossa volta, como se estivéssemos dentro de
um tambor gigante. Além disso, o que mais se poderia chamar a um
bando de dragões? Tens o assassínio de corvos, a assembleia de
águias, a revoada de gansos, o bando de patos, a banda de gaios,
o parlamento de corujas, e por aí fora. Então e os dragões? A fome
de dragões? Não soa muito bem. Referirmo-nos a eles como fogo
ou terror, também não soa bem, embora aprecie bastante a palavra
terror, depois bem vistas as coisas: um terror de dragões... Mas
não, um bando de dragões chama-se uma trovoada. Algo que tu
saberias se a tua educação não se resumisse ao manejo da espada
e à conjugação de meia dúzia de verbos na língua antiga.
— Creio que tens razão — disse Eragon para lhe fazer a vontade.
Através do seu elo permanente com Saphira, sentiu que ela
aprovava a expressão “trovoada de dragões”, ele também era de
mesma opinião; era uma descrição adequada.
Ponderou mais um instante e depois perguntou:
— Porque é que Garzhvog te chamou Uluthrek?
— Foi o título que os Urgals me deram há muito, muito tempo
atrás, quando viajei para junto deles.
— O que significa?
— Devoradora da Lua.
— Devoradora da Lua? Que nome mais estranho. Como o
conseguiste?
— Comi a lua, claro. De que outra forma o poderia ter
conseguido?
Eragon franziu a sobrancelha e concentrou-se um minuto na mulhergato,
acariciando-a. Depois disse:
— Porque é que Garzhvog te deu essa pedra?
— Porque lhe contei uma história. Julguei que isso fosse óbvio.
— Mas o que é?
— Um pedaço de pedra, não reparaste? — reagiu,
desaprovadoramente. — Realmente devias prestar mais atenção ao
que se passa à tua volta, de contrário alguém poderá espetar-te
uma faca quando não estiveres a olhar. E, depois, com quem iria
trocar comentários crípticos? — Sacudiu o cabelo. — Vá lá, faz-me
outra pergunta, estou a gostar bastante deste jogo.
Eragon arqueou a sobrancelha e, embora soubesse que era inútil,
interpelou:
— Chip chip?
A herbolária rebentou a rir e alguns dos meninos-gatos abriram a
boca, parecendo sorrir com os dentes pontiagudos. A Caçadora de
Espetros, contudo, parecia irritada, pois enterrou as garras nas
pernas de Eragon, fazendo-o retrair-se.
— Bom — disse Angela, ainda a rir —, se precisas de respostas,
esta é uma história tão boa como qualquer outra. Ora bem... Há
alguns anos atrás, quando andava a viajar nos limites de Du
Weldenvarden, muito para Oeste, a quilômetros e quilômetros de
qualquer cidade, vila ou aldeia, encontrei Grimrr por acaso. Nessa
altura, ele era apenas o líder de uma pequena tribo de meninos-gatos
e ainda usava em pleno ambas as patas, mas adiante. Encontrei-o a
brincar com uma cria de pintarroxo que caíra do ninho numa árvore
próxima. Se ele se tivesse limitado a apanhar o pássaro e a comêlo,
eu não me teria importado — afinal de contas, é isso que os gatos
fazem — mas ele estava a torturar o pobre animal, puxando-lhe
pelas asas, mordendo-lhe a cauda, deixando-o fugir para depois o
derrubar. — Angela torceu o nariz, indignada. — Disse-lhe que devia
parar com aquilo mas ele limitou-se a rosnar e ignorou-me. — Fitou
Eragon com um olhar sério. — Não gosto que as pessoas me
ignorem, por isso tirei-lhe o pássaro, agitei os dedos e lancei-lhe um
feitiço. Durante uma semana, sempre que abria a boca, Grimrr
chilreava como uma ave canora.
— Chilreava?
Angela acenou afirmativamente, tentando conter o riso.
— Nunca me ri tanto na vida. Nenhum dos outros meninos-gatos
se aproximou dele durante a semana inteira.
— Não admira que ele te odeie.
— E depois? Se não fizermos alguns inimigos de vez em quando,
somos uns cobardes — ou pior do que isso. Além disso, valeu a
pena ver a sua reação. Ah, que furioso que ele estava!
A Caçadora de Espetros emitiu um suave rosnido de advertência
e voltou a crispar as unhas.
Eragon fez uma careta e disse:
— Talvez fosse melhor mudarmos de assunto.
— Humm.
Mas antes que Eragon pudesse sugerir um novo tema, ouviu-se
um grito alto, algures no meio do acampamento. O som ecoou três
vezes nas filas de tendas, antes de se diluir no silêncio.
Eragon olhou para Angela e ela olhou para ele, e ambos
desataram a rir.
É

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