3 de junho de 2017

Capítulo 13 - Sombras do passado

Naquela noite, Eragon sentou-se e ficou mirando o fogo esparso, enquanto mastigava uma folha de dente-de-leão. O jantar consistira em uma porção de raízes, sementes e hortaliças que Arya colhera no campo. Consumidos crus e sem estar maduros, eram pouquíssimo apetitosos, mas ele se abstivera de aumentar a refeição com algum pássaro ou coelho – que existiam em abundância nas redondezas – porque não desejava que Arya o olhasse com desaprovação. Além do mais, depois da luta contra os soldados, a ideia de tirar outra vida, mesmo a de um animal, lhe dava enjoos.
Estava tarde, e teriam de sair bem cedo na manhã seguinte, mas nem ele nem Arya fizeram algum movimento para se recolher. Ela estava sentada à sua direita, abraçada às pernas e com o queixo sobre os joelhos. A saia de seu vestido estava aberta, como as pétalas de uma flor açoitada pelo vento. Com o queixo colado ao peito, Eragon massageava sua mão direita com a esquerda, tentando dissipar uma dor renitente.
Preciso de uma espada, pensou ele. Na falta de uma, eu poderia usar algum tipo de proteção para minhas mãos de modo a não aleijá-las sempre que precisar bater em alguma coisa. O problema é que eu estou tão forte agora que teria de usar luvas com acolchoamento muito espesso, o que seria ridículo. Ficariam imensas, quentes demais, e além disso não vou poder usar luva para o resto da vida.
Franziu o cenho. Empurrando os ossos da mão para a posição original, analisou como eles alteravam o jogo de luz sobre sua pele, fascinado pela maleabilidade de seu corpo. E o que acontece se eu entrar em uma luta usando o anel de Brom? Foi feito pelos elfos, então, provavelmente, não vou precisar me preocupar com a safra, não vai quebrar. Mas se eu bater em alguma coisa com o anel no dedo, não vou apenas deslocar algumas juntas, vou despedaçar todos os ossos de minha mão... Talvez eu nem seja capaz de consertar o estrago...
Fechou as mãos com força, cerrando o punho, e lentamente começou a movimentá-las de um lado para o outro, observando as sombras variando entre os nós dos dedos.
Eu poderia inventar um encanto para impedir que qualquer objeto em alta velocidade toque minhas mãos. Não, espera aí, isso não é bom. E se fosse um pedregulho? E se fosse uma montanha? Eu poderia morrer tentando pará-la.
Bem, se luvas e magia não funcionarem, quero ter um conjunto de Ascûdgamln, os “punhos de ferro” dos anões. Com um sorriso, lembrou como o anão Shrrgnien possuía uma ponta de ferro atada numa base de metal sobre cada um dos nós dos dedos, exceto nos polegares. As pontas de ferro permitiam a Shrrgnien acertar o que quisesse sem medo de se machucar. E também eram convenientes, porque podia removê-las quando quisesse. A ideia era atraente a Eragon, mas ele não ia começar a esburacar as articulações dos dedos.
Além do mais, pensou, meus ossos são mais finos do que os dos anões, talvez finos demais para atar a base e ainda manter a função das juntas... Então Ascûdgamln não é uma boa ideia, mas quem sabe em vez disso eu não possa... Inclinou-se sobre as mãos e sussurrou:
— Thaefathan.
Os dorsos de suas mãos começaram a pinicar e a picar como se ele houvesse caído sobre um leito de urticárias. A sensação era tão forte e desagradável que sentiu uma ânsia de saltar e se coçar intensamente. Com muita força de vontade, permaneceu onde estava, observando a pele das articulações intumescerem, formando um calo achatado e esbranquiçado dois centímetros acima de cada uma das juntas. Lembraram a Eragon os calos que apareciam na parte interna das pernas dos cavalos.
Quando ficou satisfeito com o tamanho e a densidade dos nós, liberou o fluxo de magia e pôs-se a explorar, com toque e visão, o novo formato que assomava por sobre seus dedos. Suas mãos estavam mais pesadas e rígidas do que antes, mas ainda podia realizar todos os movimentos com os dedos.
Pode ser feio, pensou, esfregando as protuberâncias ásperas de sua mão direita contra a palma da esquerda, e as pessoas podem até rir e debochar se repararem, mas não ligo, porque isso vai ter sua serventia e pode me manter vivo.
Vibrando com uma excitação silenciosa, golpeou o topo de uma rocha arredondada que estava no chão entre suas pernas. O impacto sacudiu seu braço e produziu um estrondo abafado, mas não lhe causou um desconforto maior do que socar um quadro coberto com várias camadas de tecido.
Com uma coragem renovada, retirou o anel de Brom de seu estojo e deslizou a peça fria e dourada pelo dedo, verificando se o calo adjacente era mais alto do que a face do anel. Testou sua observação golpeando novamente a rocha. O único resultado sonoro foi o de uma pele seca e compacta colidindo com uma pedra inflexível.
— O que você está fazendo? — perguntou Arya, olhando para ele através de um véu de cabelo negro.
— Nada. — Então ergueu as mãos. — Pensei que seria uma boa ideia, já que, quase com certeza, vou precisar bater novamente em alguém.
Arya estudou as juntas dele.
— Você terá dificuldade para usar luvas.
— Eu posso cortá-las para dar espaço.
Ela assentiu com a cabeça e voltou a mirar o fogo. Eragon recostou-se sobre os cotovelos e esticou as pernas, contente por estar preparado para quaisquer combates que estivessem à sua espera num futuro próximo. Além disso, não ousava especular, porque, se o fizesse, começaria a se perguntar como ele e Saphira poderiam derrotar Murtagh ou Galbatorix, e então uma sensação de pânico fincaria suas garras gélidas sobre ele.
Fixou seu olhar nas profundezas tortuosas do fogo. Ali, naquele inferno agonizante, tentou esquecer preocupações e responsabilidades.
Mas o movimento constante das chamas logo o embalou em um estado passivo onde fragmentos desconexos de pensamentos, sons, imagens e emoções vagavam através dele como flocos de neve caindo de um calmo céu de inverno. E em meio a esse enlevo, surgiu o rosto do soldado que suplicara por sua vida. Novamente, Eragon o viu chorando. E novamente ouviu seu pedido desesperado, e novamente sentiu o pescoço do homem se partindo como se fosse um pedaço úmido de madeira.
Atormentado pelas lembranças, Eragon trincou os dentes e respirou forte através das narinas escancaradas. Suor frio cobriu todo o seu corpo. Mudou de posição e lutou para se livrar do espírito antipático do soldado, mas sem êxito.
Vai embora!, berrou. Não foi culpa minha. Galbatorix é o culpado, não eu. Eu não quis te matar!
Em algum lugar em meio à escuridão que os cercava, um lobo uivou. Em vários locais ao longo da planície, uma série de outros lobos respondeu, elevando suas vozes em uma melodia desarmônica. A cantoria terrível eriçou o couro cabeludo de Eragon, e manchas vermelhas afloraram em seus braços. Então, por um breve instante, os uivos uniram-se num único tom familiar ao grito de batalha de um Kull pronto para a luta.
Eragon mexeu-se, inquieto.
— O que há de errado? — perguntou Arya. — São os lobos? Eles não vão nos incomodar, você sabe disso. Eles estão ensinando seus filhotes a caçar, e não permitirão que se aproximem de criaturas com um cheiro tão estranho como o nosso.
— Não são os lobos lá — disse Eragon, abraçando a si próprio. — São os lobos aqui. — E deu um tapinha no meio da testa.
Arya assentiu com um movimento rápido, similar ao de um pássaro, traindo o fato de não ser humana apesar de ter assumido esta forma.
— É sempre assim. Os monstros da mente são muito piores do que os de fato. Medo, dúvida e ódio já arrebentaram mais pessoas do que os animais.
— E o amor — apontou ele.
— E o amor — admitiu ela. — Também a ganância e o ciúme e todas as outras obsessões às quais estão suscetíveis as raças sensíveis.
Eragon pensou em Tenga, sozinho na vanguarda dos elfos nas ruínas de Edur Ithindra, debruçado sobre sua preciosa coleção de tomos, procurando, sempre procurando, sua elusiva “resposta”. Conteve-se para não mencionar o eremita a Arya, porque não estava disposto a conversar sobre o curioso encontro naquele momento. Em vez disso, perguntou:
— Você se incomoda em matar?
Arya estreitou os olhos verdes.
— Nem eu nem o resto de meu povo comemos carne de animais porque não podemos suportar ferir outra criatura para satisfazer nossa fome, e você tem a afronta de me perguntar se matar nos perturba? Você realmente compreende tão pouco de nós a ponto de acreditar que somos assassinos frios?
— Não, é claro que não — protestou ele. — Não foi isso o que eu quis dizer.
— Então diga o que quer dizer. E não me insulte, a menos que seja essa a sua intenção.
Escolhendo suas palavras com muito mais cuidado dessa vez, Eragon começou:
— Eu fiz essa pergunta a Roran, ou uma bem parecida com essa, antes de atacarmos Helgrind. O que eu quero saber é como você se sente quando mata? Como devemos nos sentir? — Ele fez uma careta na direção do fogo. — Você vê os guerreiros que derrotou a encarando, assim tão reais como você está diante de mim?
Arya apertou os braços em torno das pernas, o olhar pensativo. Uma chama deu um pulo quando uma das mariposas que circundavam o acampamento foi incinerada pelo fogo.
— Gánga — murmurou ela, e movimentou o dedo. Com um bater de asas, as mariposas voaram. Sem jamais tirar os olhos dos galhos ardentes, ela disse: — Nove meses após eu me tornar embaixadora, a única embaixadora de minha mãe, verdade seja dita, viajei dos Varden, em Farthen Dûr, até a capital de Surda, que ainda era um país novo naquele tempo. Logo depois que meus companheiros e eu saímos das montanhas Beor, nós encontramos um bando de andarilhos Urgals. Ficamos contentes de mantermos nossas espadas embainhadas e seguir nosso caminho, mas como é o costume deles, os Urgals insistiram em tentar ganhar honra e glória para melhorar suas posições nas tribos. Nosso grupo era maior do que o deles, já que Weldon, o homem que sucedeu Brom como líder dos Varden estava conosco, e seria fácil para nós nos livrarmos deles... Aquele foi o primeiro dia em que tirei a vida de alguém. Fiquei atormentada por semanas a fio, até que percebi que ficaria louca se continuasse a lutar contra aquilo. Muitos o fazem, e se tornam tão enraivecidos, tão acometidos de culpa, que deixam de ser confiáveis. Ou seus corações viram pedras e eles perdem a habilidade de distinguir o certo do errado.
— Como você lidou com o que havia feito?
— Examinei minhas razões para matar de modo a determinar se elas eram justas. Satisfeita por terem sido, perguntei a mim mesma se nossa causa era suficientemente importante para ser apoiada, mesmo sabendo que ela me obrigaria a matar novamente. Então, decidi que sempre que começasse a pensar nos mortos, eu me imaginaria nos jardins de Tialdarí.
— Funcionou?
Ela afastou o cabelo do rosto, empurrando para trás de uma orelha arredondada.
— Funcionou. O único antídoto para o corrosivo veneno da violência é encontrar paz dentro de você mesmo. É uma cura difícil de se obter, mas vale o esforço. — Ela fez uma pausa, e então acrescentou: — Respirar também ajuda.
— Respirar?
— Respirar regular e lentamente, como se estivesse meditando. É um dos métodos mais eficientes para se acalmar.
Eragon seguiu o conselho e começou a inspirar e expirar controladamente, tomando o cuidado de manter um ritmo estável e de expelir todo o ar dos pulmões a cada respiração. Em um minuto, o nó que sentia dissolveu-se, suas feições relaxaram e a presença de seus inimigos abatidos tornou-se menos tangível... Os lobos uivaram novamente, e, após um susto inicial, ele passou a ouvir sem medo, porque o som perdera o poder de desconcertá-lo.
— Obrigado — disse ele.
Arya respondeu com uma graciosa inclinação do queixo. Silêncio reinou por um quarto de hora, até que Eragon disse:
— Urgals. — Ele deixou que a palavra pairasse por um tempo, um monólito verbal de ambivalência. — O que você acha de Nasuada permitir que eles se juntem aos Varden?
Arya pegou um graveto na borda de seu vestido e o enrolou em seus dedos aquilinos, estudando o pedaço torto de madeira como se contivesse um segredo.
— Foi uma decisão corajosa, e eu a admiro por isso. Ela sempre age pensando no melhor para os Varden, não importa a que custo.
— Ela desagradou muitos Varden quando aceitou a oferta de apoio de Nar Garzhvog.
— E ganhou a lealdade deles de volta com o Desafio das Facas Longas. Nasuada é muito sagaz sobre a manutenção de sua posição. — Arya jogou o graveto no fogo. — Eu não tenho nenhum amor pelos Urgals, mas tampouco os odeio. Ao contrário dos Ra’zac, não são inerentemente maus, apenas excessivamente afeiçoados à guerra. É uma distinção importante, mesmo não proporcionando consolo às famílias de suas vítimas. Nós, elfos, já nos relacionamos antes com Urgals, e nos relacionaremos novamente quando a necessidade surgir. Entretanto, é uma perspectiva infrutífera.
Ela não precisava explicar por quê. Vários pergaminhos cuja leitura Oromis indicara a Eragon eram devotados ao assunto Urgals, e um em particular, As viagens de Gnaevaldrskald, lhe havia ensinado que toda a cultura dos Urgals era baseada em feitos de combate. Urgals do sexo masculino só podiam melhorar sua posição atacando outra cidade – pouco importando se era de Urgals, de humanos, de elfos ou de anões – ou lutando com seus rivais um a um, às vezes até a morte. E no que concernia à escolha de um parceiro, Urgals do sexo feminino se recusavam a eleger um macho a não ser que ele tivesse derrotado pelo menos três oponentes. Como resultado, cada nova geração de Urgals não tinha escolha além de desafiar seus pares, desafiar seus membros mais velhos e percorrer a região atrás de oportunidades para provar seu valor. A tradição estava tão profundamente arraigada que qualquer tentativa de suprimi-la havia falhado.
Pelo menos são sinceros consigo, ruminou Eragon. Isso é muito mais do qualquer humano sonharia em conseguir.
— Como é que — perguntou ele — Durza conseguiu emboscar você, Glenwing e Fäolin com Urgals? Você não estava com guardas para protegê-la contra emboscadas?
— As flechas eram encantadas.
— Então os Urgals também eram feiticeiros?
Arya fechou os olhos, suspirou e balançou a cabeça.
— Não. Era alguma magia negra inventada por Durza. Ele estava se gabando disso quando eu estava em Gil’ead.
— Não sei como conseguiu resistir a ele por tanto tempo. Eu vi o que ele fez a você.
— Não... Não foi fácil. Eu via os tormentos como um teste de meu compromisso, como uma chance de demonstrar que eu havia cometido um erro e era realmente digna do yawë. Dessa forma, eu aceitei minha provação.
— Mas, ainda assim, mesmo os elfos não são imunes à dor. É incrível você ter conseguido manter oculta a localização de Ellesméra todos esses meses.
Um toque de orgulho coloriu o rosto dela.
— Não somente a localização de Ellesméra como também para onde eu havia mandado o ovo de Saphira, meu vocabulário na língua antiga e tudo o mais que poderia ser útil a Galbatorix.
Houve uma interrupção na conversa, e então Eragon recomeçou:
— Você pensa muito nisso? No que se passou em Gil’ead? — Como ela não respondia, ele acrescentou: — Você nunca fala sobre isso. Você relata os fatos de sua prisão sem problema, mas jamais menciona como foi para você nem como se sente a respeito.
— Dor é dor — disse ela. — Não há necessidade de descrição.
— Verdade, mas ignorá-la pode ferir mais do que a dor original... Ninguém pode ter uma vivência dessa e sair ileso. Pelo menos não internamente.
— Por que você supõe que eu jamais confidenciei isso a alguém?
— Quem?
— E isso importa? Ajihad, minha mãe, um amigo em Ellesméra.
— Talvez eu esteja errado — disse ele —, mas você não parece assim tão próxima de alguém. Aonde vai, vai sozinha, mesmo entre seu próprio povo.
O semblante de Arya permaneceu impassível. Sua falta de expressão era tão completa que Eragon começou a imaginar se ela se dignaria a responder. A dúvida se transformou em certeza quando ela sussurrou:
— Nem sempre foi assim.
Em alerta, Eragon esperou sem se mover, com medo de fazer qualquer coisa que a fizesse parar de falar.
— Uma vez eu tive com quem conversar, alguém que entendia o que eu era e de onde eu vinha. Uma vez... Ele era mais velho do que eu, mas éramos almas gêmeas, ambos curiosos a respeito do mundo fora da floresta, ansiosos para explorar e ansiosos para enfrentar Galbatorix. Nenhum dos dois conseguia suportar ficar em Du Weldenvarden... estudando, fazendo magia, perseguindo nossos próprios projetos pessoais... quando soubemos que o Matador de Dragão, o flagelo dos Cavaleiros, estava atrás de uma maneira de conquistar nossa raça. Ele chegou a essa conclusão mais tarde do que eu... décadas após eu ter assumido minha posição de embaixadora e poucos anos antes de Helfring roubar o ovo de Saphira... mas assim que chegou, foi voluntário em me acompanhar aonde quer que as ordens de Islanzadí pudessem me levar. — Ela piscou, e sua garganta tremeu. — Eu não ia permitir, mas a rainha gostou da ideia, e ele era tão convincente... — Ela mordeu os lábios e piscou outra vez, seus olhos mais brilhantes do que o normal.
Da maneira mais delicada que conseguiu, Eragon perguntou:
— Era Fäolin?
— Era — disse ela, sua voz saindo como um arquejo.
— Você o amava?
Jogando a cabeça para trás, Arya levantou o olhar em direção ao Armamento cintilante, seu longo pescoço dourado pela luz do fogo, seu rosto pálido com o esplendor dos céus.
— Sua pergunta provém de uma preocupação amigável ou de algum interesse próprio? — Ela deu uma gargalhada abrupta, sufocada, o som de água caindo sobre pedras geladas. — Ignore isso. O ar da noite me deixou confusa. Desfez meu senso de cortesia e me deixou livre para dizer as coisas mais malignas que me ocorreram.
— Não importa.
— Importa sim, porque eu lamento o que ocorreu e acho isso intolerável. Se eu amava Fäolin? Como você definiria amor? Por mais de vinte anos nós viajamos juntos, os únicos imortais a caminhar em meio às raças de vida curta. Éramos companheiros... E amigos.
Um acesso de ciúme afligiu Eragon. Ele lutou contra, sobrepujou e tentou eliminar o sentimento, mas todas as tentativas foram infrutíferas. Uma leve memória continuava a provocá-lo, como uma farpa penetrando sua pele.
— Mais de vinte anos — repetiu Arya. Persistindo na análise das constelações, avançava e recuava, aparentemente esquecida de Eragon. — E então, num único instante, Durza arrancou isso de mim. Fäolin e Glenwing foram os primeiros elfos a morrer em combate por quase um século. Quando vi Fäolin cair, compreendi então que a verdadeira agonia da guerra não é você se ferir, mas sim ser obrigada a ver aqueles que você mais gosta se ferirem. Foi uma lição que pensei já ter aprendido durante meu tempo com os Varden, quando, um após outro, homens e mulheres que eu viera a respeitar morreram por causa de espadas, flechas, venenos, acidentes e velhice. Contudo, a perda jamais havia sido tão pessoal. E quando isso ocorreu, eu pensei: “Agora, certamente eu morrerei também.” Porque sempre sobrevivemos juntos a todos os perigos que havíamos encontrado, Fäolin e eu. Se ele não podia escapar daquele, então por que eu deveria?
Eragon percebeu que ela estava chorando, grossas lágrimas rolavam dos cantos dos olhos, caíam pelas têmporas e chegavam ao cabelo. A luz das estrelas, as lágrimas pareciam rios de vidro prateado. A intensidade de seu sofrimento o deixou surpreso. Nunca pensou que fosse possível extrair tal reação dela. E jamais foi sua intenção, tampouco.
— E então Gil’ead — continuou ela. — Aqueles dias foram os mais longos da minha vida. Fäolin se fora. Eu não sabia se o ovo de Saphira estava a salvo ou se eu o havia, inadvertidamente, mandado de volta para Galbatorix, e Durza... Durza saciou sua sede de sangue dos espíritos que o controlavam fazendo comigo as coisas mais horríveis que alguém pode imaginar. Às vezes, se ia longe demais, curava-me para recomeçar tudo de novo na manhã seguinte. Se tivesse me dado uma chance de recompor minha sabedoria, talvez eu tivesse conseguido enganar meu carcereiro, como você conseguiu, e evitar consumir a droga que me impediu de usar a magia, mas nunca tive mais do que algumas horas de sossego.
“Durza não precisava dormir mais do que eu ou você, e me torturava sempre que eu estava consciente ou quando suas outras tarefas permitiam. Enquanto trabalhava em mim, cada segundo era como uma hora, cada hora uma semana, e cada dia uma eternidade. Ele tinha o cuidado de não me deixar enlouquecer – Galbatorix teria ficado insatisfeito com isso – mas chegou perto. Chegou muito, muito perto. Comecei a ouvir cantos de pássaros onde nenhum pássaro podia voar e a ver coisas que não podiam existir. Uma vez, quando estava em minha cela, uma luz dourada inundou o local e fiquei totalmente aquecida. Quando olhei para cima, descobri que estava num galho no alto de uma árvore, perto do centro de Ellesméra. O sol estava quase se pondo, e toda a cidade resplandecia como se estivesse pegando fogo. Os Äthalvard estavam cantando na trilha abaixo, e tudo estava tão calmo, tão tranquilo... Tão belo, que eu teria ficado lá para sempre. E, então, a luz desapareceu e eu estava de volta à minha cela... Havia esquecido, uma vez um soldado deixou uma rosa branca em minha cela. Foi a única vez que alguém demonstrou delicadeza para comigo em Gil’ead. Naquela noite, a flor criou raízes e se transformou em um imenso roseiral que subia pelas paredes, forçando caminho por entre os blocos de pedra no teto, quebrando-os, e prosseguindo seu percurso calabouço afora em direção ao exterior. Continuou ascendendo até que tocou a lua e ficou ali como uma gigantesca torre retorcida que me prometia a chance de fuga uma vez que eu pudesse me erguer acima do chão. Tentei com cada grama da força que me restava, mas estava além de mim, e quando desviei o olhar, o roseiral já havia sumido... Aquele era o estado da minha mente quando você sonhou comigo e eu senti sua presença pairando sobre mim. Claro que não dei importância para a sensação porque julguei que fosse outro delírio.”
Ela deu um sorriso lívido na direção dele.
— E então você apareceu, Eragon. Você e Saphira. Depois que a esperança já havia me abandonado e eu estava quase sendo levada para Galbatorix em Urû’baen, um Cavaleiro chegou para me resgatar. Um Cavaleiro e um dragão!
— E o filho de Morzan — completou ele. — Ambos os filhos de Morzan.
— Descreva como queira, aquele foi um resgate tão improvável que eventualmente penso que fiquei louca e que tudo até agora foi imaginação minha.
— Você teria me imaginado causando tanto problema ficando em Helgrind?
— Não — respondeu ela. — Suponho que não. — Enxugou os olhos com a manga esquerda. — Quando acordei em Farthen Dûr, havia tanta coisa para ser feita que eram escassas as oportunidades de lembrar do passado. Mas os últimos eventos têm sido tenebrosos e sangrentos, e cada vez mais eu me encontro lembrando o que não devo. Isso me endurece e, portanto, me deixa sem paciência para os atrasos ordinários da vida. — Ela mudou de posição, ficou de joelhos e colocou suas mãos no chão, como se estivesse tentando se estabilizar. — Você diz que eu ando sozinha. Elfos não são inclinados às demonstrações abertas de amizade características dos humanos e anões, e eu sempre tive uma tendência solitária. Mas se você tivesse me conhecido antes de Gil’ead, se tivesse me conhecido como eu era, não teria me considerado tão solitária. Nessa época, eu podia cantar e dançar e não me sentir ameaçada por uma sensação de morte.
Eragon se aproximou e colocou seu braço direito sobre o ombro esquerdo dela.
— As histórias sobre os heróis do passado nunca mencionam que esse é o preço por enfrentar os monstros da escuridão e os monstros da mente. Continue pensando nos jardins de Tialdarí e tenho certeza de que você ficará em paz.
Arya permitiu que o contato entre eles durasse quase um minuto, um tempo não de excitação ou paixão para Eragon, mas muito mais de um tranquilo companheirismo. Ele não fez nenhuma tentativa de pressioná-la com sua corte porque valorizava sua confiança mais do que qualquer coisa, além de seus laços com Saphira, e preferiria antes entrar em uma batalha a colocar isso em risco.
Então, levantando levemente o braço, Arya demonstrou a ele que o momento passara, e ele retirou a mão sem reclamar. Ansioso para livrá-la de seu fardo como pudesse, Eragon deu uma olhada nas proximidades e então murmurou tão suavemente a ponto de ser quase inaudível:
— Loivissa.
Guiado pelo poder do nome verdadeiro, remexeu a terra perto dos pés até que seus dedos fecharam-se sobre o que ele buscava: um fino disco de papel com a metade do tamanho de sua unha menor. Segurando a respiração, ele depositou-o na palma de sua mão direita, centrando-o sobre sua gedwëy ignasia com o máximo de delicadeza que conseguiu. Revisou o que Oromis lhe havia ensinado em relação ao tipo de encanto que estava a ponto de lançar para se certificar de que não cometeria um erro, e então começou a cantar à maneira dos elfos, suave e fluentemente:

Eldhrimner O Loivissa nuanen, dautr abr deloi,
Eldhrimner nen ono weohnataí medh solus un thringa,
Eldhrimner un fortha onr féon vara,
Wiol allr sjon.

Eldhrimner O Loivissa nuanen...

Seguidas vezes, Eragon repetiu as mesmas quatro estrofes, direcionando-as para o floco marrom em sua mão, que tremeu e depois inchou, ficando esférico. Pequenas gavinhas brancas de mais ou menos cinco centímetros brotaram da base do globo que se descascava, pinicando Eragon, enquanto um caule fino esverdeado surgiu da ponta e, sob o comando dele, cresceu uns quarenta centímetros no ar. Uma única folha, larga e achatada, brotou do lado do caule. Então, a ponta do caule ficou mais espessa, pendeu e, após um instante de aparente inatividade, separou-se em cinco segmentos que se expandiram para fora revelando as pétalas macias de um lírio alongado. A flor tinha uma coloração azulada e o formato de um sino. Quando atingiu seu tamanho real, Eragon liberou a magia e examinou seu trabalho manual. Fazer surgir plantas através do canto era uma habilidade que a maioria dos elfos adquiria ainda jovem, mas Eragon só havia feito isso algumas vezes e não tinha certeza se seus esforços redundariam em sucesso. O encanto havia cobrado um preço pesado; o lírio requeria uma surpreendente quantidade de energia para alimentar o que era equivalente a um ano e meio de crescimento. Satisfeito com o que produzira, ele entregou o lírio para Arya.
— Não é uma flor branca, mas...
Ele sorriu e deu de ombros.
— Você não deveria — disse ela. — Mas estou contente que tenha feito.
Ela acariciou a parte interior da floração e ergueu-a para sentir seu aroma. As rugas em seu rosto diminuíram de intensidade. Por vários minutos, admirou o lírio. Então, cavou um buraco no solo perto de si e plantou o bulbo, pressionando a terra com a palma da mão. Tocou as pétalas novamente e continuou olhando o lírio enquanto dizia:
— Obrigada. Dar flores é um costume que ambas as nossas raças compartilham, mas nós elfos damos muito mais importância a essa prática do que os humanos. Significa tudo o que é bom: vida, beleza, renascimento, amizade, e mais. Eu explico para que você compreenda o quanto isso significa para mim. Você não sabia, mas...
— Eu sabia.
Arya olhou para ele com uma expressão solene, como se fosse decidir quem ele era. — Perdoe-me. Pela segunda vez, eu me esqueço da extensão de seus conhecimentos. Não vou repetir o mesmo erro.
Ela repetiu seus agradecimentos na língua antiga, e – também na língua nativa de Arya – Eragon replicou que o prazer era seu e que estava feliz por ela ter gostado do presente. Ele estremeceu de fome, apesar da refeição recente. Arya notou e disse:
— Você gastou muito da sua energia. Se restar alguma energia em Aren, use-a para se manter estável.
Eragon levou alguns instantes para lembrar que Aren era o nome do anel de Brom; ele ouvira a palavra ser proferida apenas uma vez antes, por Islanzadí, no dia em que chegara a Ellesméra.
Meu anel agora, ele disse para si mesmo. Tenho de parar de pensar nele como se fosse de Brom.
Lançou um olhar crítico na direção da grande safira que brilhava na base de ouro sobre seu dedo.
— Não sei se há alguma energia em Aren. Eu nunca armazenei nenhuma energia nele antes, e nunca verifiquei se Brom fez isso.
Enquanto falava, estendeu sua consciência para a safira. No instante em que sua mente entrou em contato com a gema, ele sentiu a presença de um enorme redemoinho de energia. Para seu olho interno, a safira zunia de energia. Ele imaginava como o anel não explodia tal a quantidade de força contida naquelas facetas bem trabalhadas.
Mesmo após usar a energia para se livrar das dores e restaurar a força de seus membros, o baú do tesouro no interior de Aren ainda era abundante. Com a pele pinicando, Eragon cortou seu vínculo com a gema. Deliciado com sua descoberta e a súbita sensação de bem-estar, riu bem alto e depois contou para Arya o que havia descoberto.
— Brom deve ter poupado cada gota de energia que conseguiu durante todo o tempo em que ficou escondido em Carvahall. — Ele riu novamente, maravilhado. — Todos aqueles anos... Com o que existe aqui em Aren, eu poderia destruir um castelo inteiro com um simples encanto.
— Ele sabia que ia precisar disso para manter a salvo o novo Cavaleiro quando Saphira saísse do ovo — observou Arya. — Igualmente, tenho certeza de que Aren era uma maneira de proteger a si mesmo se tivesse de lutar contra um Espectro ou algum outro oponente com poder similar. Não foi por acidente que conseguiu frustrar seus inimigos por grande parte de um século... Se eu fosse você, pouparia a energia que ele deixou em seu poder para quando mais precisar, e a abasteceria sempre que pudesse. É uni recurso incrivelmente valioso. Você não deveria desperdiçá-lo.
Não, pensou Eragon, isso eu não farei. Ele girou o anel em volta do dedo, admirando o brilho intenso à luz do fogo. Desde que Murtagh roubou Zar’roc, esse anel, a sela de Saphira e Fogo na Neve são as únicas coisas que eu tenho de Brom, e, muito embora os anões tenham trazido Fogo na Neve de Farthen Dûr, eu raramente o monto hoje em dia. Aren é, de fato, tudo o que me resta de lembrança de Brom... Meu único legado. Minha única herança. Gostaria que ainda estivesse vivo! Jamais tive uma chance de conversar com ele sobre Oromis, Murtagh, meu pai... Oh, a lista é infindável. O que teria dito a respeito do que sinto por Arya?
Eragon suspirou.
Eu sei o que teria dito: teria me criticado por ser um bobão apaixonado e por desperdiçar minha energia em uma causa sem esperança... E estaria certo, ainda por cima, eu suponho, mas, ah, como posso evitar? Ela é a única mulher com quem eu desejo estar.
O fogo crepitou. Uma rajada de fagulhas voou para longe. Eragon observava com olhos miúdos, contemplando as revelações de Arya. Então sua mente retornou a uma pergunta que o perturbava desde a batalha na Campina Ardente.
— Arya, dragões machos crescem mais rápido do que dragões fêmeas?
— Não. Por que a pergunta?
— Por causa de Thorn. Ele só tem alguns meses de vida e mesmo assim já está quase do tamanho de Saphira. Não entendo isso.
Arya pegou um galho seco do chão e começou a desenhar no solo, traçando os símbolos curvados da escrita elfa, Liduen Kvaedhí.
— Muito provavelmente, Galbatorix acelerou seu crescimento para que Thorn ficasse grande o suficiente para enfrentar Saphira.
— Ah... Mas isso não é perigoso? Oromis me disse que se ele usasse magia para me dar força, velocidade, resistência e outras características de que eu precisava, eu não entenderia minhas novas habilidades tão bem quanto se as tivesse conseguido da maneira normal: com trabalho duro. Ele estava certo. Mesmo agora, as mudanças que os dragões fizeram em meu corpo durante o Agaetí Blödhren ainda me surpreendem, às vezes.
Arya assentiu com a cabeça e continuou desenhando símbolos no chão.
— É possível reduzir os indesejáveis efeitos colaterais de certos encantos, mas é um processo longo e árduo. Se você deseja atingir um domínio verdadeiro sobre seu corpo, ainda é a melhor opção utilizar os meios normais. A transformação que Galbatorix impôs a Thorn deve estar sendo incrivelmente confusa para ele. Thorn agora tem o corpo de um dragão quase adulto, ainda que sua mente seja a de um filhote.
Eragon passou os dedos pelos novos calos em suas juntas.
— Você também sabe por que Murtagh é tão poderoso... Mais poderoso do que eu?
— Se eu soubesse, sem dúvida também compreenderia como Galbatorix conseguiu aumentar sua própria força até atingir níveis sobrenaturais, mas infelizmente não sei.
Mas Oromis sabe, pensou Eragon. Ou pelo menos o elfo deixara a entender que sabia. Entretanto, ainda precisava compartilhar a informação com ele e Saphira. Assim que estivessem aptos a retornar a Du Weldenvarden, Eragon pretendia perguntar ao Cavaleiro ancião a verdade sobre a questão. Ele tem de nos contar agora! Por causa de nossa ignorância, Murtagh nos derrotou, e poderia ter facilmente nos levado para Galbatorix.
Eragon quase mencionou os comentários de Oromis para Arya, mas segurou a língua porque percebeu que Oromis não teria ocultado um fato tão decisivo por mais de cem anos a menos que o segredo fosse de suma importância.
Arya assinalou uma parada na sentença que estivera escrevendo no chão. Eragon inclinou-se e leu: À deriva no mar do tempo, o deus solitário vagueia em litorais cada vez mais distantes, sustentando as leis das estrelas no céu.
— O que isso significa?
— Não sei — disse ela, e apagou a frase com o braço.
— Por que será — perguntou ele, falando lentamente, como se estivesse organizando os pensamentos — que ninguém se refere aos dragões dos Renegados pelo nome? Nós dizemos “O dragão de Morzan” ou “o dragão de Kialandí”, mas nunca nomeamos de fato o dragão. Certamente eles foram tão importantes quanto seus Cavaleiros! Eu nem me lembro de ter visto seus nomes nos pergaminhos que Oromis me deu... Embora devessem estar lá... Sim, estou certo de que estavam, mas, por algum motivo, não ficaram na minha cabeça. Não é estranho? — Arya começou a responder, mas antes que pudesse abrir a boca, ele continuou: — Pela primeira vez estou feliz por Saphira não estar aqui. Sinto vergonha de não ter reparado nisso antes. Até você, Arya, e Oromis e todos os outros elfos que conheci se recusam a chamá-los pelo nome, como se eles fossem animais idiotas que não merecessem a honra. Vocês fazem isso de propósito? É porque foram seus inimigos?
— Nenhuma das suas lições falou sobre isso? — perguntou Arya. Ela parecia genuinamente surpresa.
— Acho que Glaedr falou alguma coisa a respeito disso com Saphira, mas não tenho certeza. Eu estava no meio de uma acrobacia durante a Dança da Cobra e do Grou, de modo que não estava prestando muita atenção ao que Saphira estava fazendo. — Ele riu um pouco, constrangido pelo lapso e sentindo-se como se tivesse de se explicar. — Às vezes, ficava confuso. Oromis conversava comigo enquanto eu ficava ouvindo os pensamentos de Saphira enquanto ela e Glaedr se comunicavam com suas mentes. E o pior, Glaedr raramente utiliza uma linguagem reconhecível com Saphira; prefere usar imagens, aromas e sensações em vez de palavras. Em vez de nomes, envia impressões das pessoas e dos objetos que quer descrever.
— Você não se lembra de nada do que ele disse, seja com palavras ou não?
Eragon hesitou.
— Somente que isso tinha a ver com um nome que não era nome, ou qualquer coisa assim. Não dava para fazer distinções.
— Ele falou a respeito de Du Namar Aurboda, O Banimento dos Nomes — disse Arya.
— O Banimento dos Nomes?
Ela encostou sua lâmina de grama seca no chão e recomeçou a escrever na terra.
— Foi um dos eventos mais importantes que aconteceram durante o combate entre os Cavaleiros e os Renegados. Quando os dragões perceberam que treze de sua raça os haviam traído, e que aqueles treze estavam ajudando Galbatorix a erradicar os outros, e que era improvável que alguém pudesse impedir o massacre, ficaram tão enfurecidos que todos os que não estavam com os Renegados combinaram suas forças e lançaram uma de suas magias inexplicáveis. Juntos, erradicaram os nomes dos treze.
Eragon ficou embasbacado.
— Como isso é possível?
— Eu não acabei de dizer que era inexplicável? Tudo o que nós sabemos é que depois de os dragões lançarem seu encanto, ninguém pôde proferir os nomes dos treze; aqueles que se lembravam dos nomes logo os esqueceram; e apesar de ser possível ler esses nomes nos pergaminhos e nas cartas onde estão registrados, até mesmo copiá-los, se olhar para cada símbolo separadamente, tudo parecerá ininteligível. Os dragões pouparam Jarnunvösk, o primeiro dragão de Galbatorix, porque não foi sua culpa ser morto por Urgals, e também Shruikan, porque não escolheu servir ao rei, tendo sido forçado pelo rei e por Morzan.
Que destino terrível, perder o próprio nome, pensou Eragon. Ele estremeceu. Se há uma coisa que eu aprendi desde que me tornei um Cavaleiro, é que você jamais em toda a sua vida vai querer ter um dragão como inimigo.
— E quanto aos nomes verdadeiros deles? — quis saber. — Eles apagaram esses também?
Arya assentiu com a cabeça.
— Nomes verdadeiros, nomes de nascimento, apelidos, nomes de família, títulos. Tudo. E como resultado, os treze foram reduzidos a não mais do que animais. Não mais puderam dizer “eu gosto disso” ou “eu não gosto daquilo” ou “eu tenho escamas verdes”, porque dizer isso significaria dar nomes a si mesmos. Eles nem podiam se chamar de dragões. Palavra por palavra, o encanto obliterou tudo que os definia como criaturas pensantes, e os Renegados não tiveram escolha a não ser acompanhar com um silêncio desesperado seus dragões submergirem na mais completa ignorância. A experiência foi tão perturbadora que pelo menos cinco dos treze e vários dos Renegados enlouqueceram em consequência. — Arya fez uma pausa, analisou o contorno do símbolo, e então o apagou e o desenhou novamente. — O Banimento dos Nomes é o principal motivo de muitas pessoas agora acreditarem que dragões não eram nada além de animais de transporte.
— Eles não acreditariam nisso se conhecessem Saphira — disse Eragon.
Arya sorriu.
— Não.
Com um floreio, ela completou a última sentença era que estivera trabalhando. Ele inclinou a cabeça e se aproximou para decifrar os símbolos que ela desenhara. Estava escrito: O trapaceiro, o charadista, o guardião do equilíbrio, o de muitas faces que encontra a vida na morte e que não teme nenhum mal; o que caminha através das portas.
— O que a levou a escrever isso?
— A ideia de que muitas coisas não são o que aparentam.
Um montinho de terra se acumulou em volta de sua mão enquanto ela esfregava o chão e apagava os símbolos desenhados na superfície.
— Alguém já tentou adivinhar o verdadeiro nome de Galbatorix? — perguntou Eragon. — Parece que essa seria a maneira mais rápida de acabar com a guerra. Para ser franco, penso que talvez essa seja a única esperança que nós temos de derrotá-lo na batalha.
— Você não estava sendo franco comigo antes? — perguntou Arya, com um brilho nos olhos.
Sua pergunta o obrigou a dar uma gargalhada.
— É claro que estava. É só urna figura de linguagem.
— Uma figura bastante ruim, a propósito — comentou ela. — A menos que você cultive o hábito de mentir.
Eragon atrapalhou-se um instante antes de recompor sua linha de raciocínio e conseguir dizer:
— Eu sei que seria difícil descobrir o nome verdadeiro de Galbatorix, mas se todos os elfos e todos os membros dos Varden que conhecem a língua antiga procurarem, nosso sucesso seria garantido.
Como uma flâmula pálida e amarelada pelo sol, a lâmina seca de grama pendurava-se entre o polegar e o indicador esquerdo de Arya. Tremia em solidariedade com cada pulsação de sangue nas veias dela. Apertando-a no topo com a outra mão, ela rasgou a folha ao meio no comprimento, e então fez o mesmo com cada pedacinho resultante, esquartejando-a. Depois, começou a enrolar um pedacinho no outro, formando uma varinha trançada. Ela disse:
— O verdadeiro nome de Galbatorix não é nenhum grande segredo. Três elfos distintos... um Cavaleiro e dois feiticeiros comuns... descobriram sozinhos e com muitos anos de diferença.
— Descobriram! — exclamou Eragon.
Imperturbável, Arya pegou outra lâmina de grama, rasgou-a em pedacinhos, inseriu os pedacinhos nos buracos de sua varinha e continuou trançando em outra direção.
— Nós só podemos especular se o próprio Galbatorix sabe seu nome verdadeiro. Penso que ele não sabe. Seja lá qual for, seu nome verdadeiro deve ser tão terrível que ele não poderia continuar vivendo se o ouvisse.
— A menos que seja tão maléfico ou tão insano que a verdade sobre suas ações não tem nenhum poder para perturbá-lo.
— Talvez. — Os dedos ágeis dela voavam tão rápidos, torcendo, trançando, tecendo, que eram quase invisíveis. Ela pegou mais duas lâminas de grama. — De um jeito ou de outro, Galbatorix certamente está ciente de que tem um nome verdadeiro, como todas as criaturas e coisas, e que isso é uma fraqueza potencial. Em algum momento antes de iniciar sua campanha contra os Cavaleiros, ele lançou um encanto que mata quem quer que use seu nome verdadeiro. E como nós não sabemos exatamente como esse encanto mata, não podemos nos proteger dele. Você vê, então, por que nós abandonamos definitivamente essa linha de investigação. Oromis é um dos poucos suficientemente corajosos para continuar procurando o nome de Galbatorix, mesmo que de uma maneira indireta. — Com uma expressão satisfeita, ela colocou as palmas das mãos para cima.
Sobre elas estava um lindo navio feito de grama verde e branca. Não tinha mais do que cinco centímetros de comprimento, mas era tão detalhado que Eragon podia distinguir bancos e remos, minúsculas escotilhas ao longo da borda do convés e janelas do tamanho de sementes de amora. A proa curvada tinha mais ou menos o formato de uma nuca de dragão. Havia um único mastro.
— É lindo — disse ele.
Arya inclinou-se para a frente e murmurou:
— Flauga.
Ela soprou delicadamente sobre o navio e ele voou de suas mãos. Navegou em volta do fogo e então, ganhando velocidade, adejou para cima e deslizou em direção às profundezas cintilantes do céu noturno.
— Até onde ele vai?
— Até o infinito — disse ela. — Ele suga energia para voar das plantas abaixo. Onde existirem plantas, ele voará.
A ideia fascinou Eragon, mas também achou muito triste pensar no lindo navio de grama vagando entre nuvens pelo resto da eternidade somente com a companhia dos pássaros.
— Imagine as histórias que as pessoas vão contar sobre ele nos anos futuros.
Arya juntou os longos dedos, como se para impedir que eles fizessem outra coisa.
— Muitas coisas esquisitas assim existem no mundo. Quanto mais você viver e quanto maior a distância que percorrer no mundo, mais coisas assim verá.
Eragon mirou o fogo pulsante por um tempo.
— Se é assim tão importante proteger seu nome verdadeiro, será que eu não deveria então lançar um encanto para impedir que Galbatorix use meu nome verdadeiro contra mim?
— Você pode, se assim desejar — disse Arya —, mas duvido que seja necessário. Nomes verdadeiros não são tão fáceis de serem encontrados como você pensa. Galbatorix não conhece você tão bem a ponto de adivinhar seu nome, e, se ele estivesse dentro de sua mente e apto a examinar todos os seus pensamentos e lembranças, você já estaria perdido, com nome verdadeiro ou não. Se serve de conforto, duvido que eu mesma tenha capacidade para adivinhar seu nome verdadeiro.
— Você não conseguiria? — Ele estava ao mesmo tempo satisfeito e insatisfeito por ela acreditar que alguma parte sua era um mistério.
Arya olhou de relance para ele e depois baixou os olhos.
— Não, acho que não. Você conseguiria adivinhar o meu?
— Não.
O silêncio envolveu o acampamento. Acima, as estrelas brilhavam frias e brancas. Um vento soprou do leste e atravessou a campina, açoitando a grama e soando um longo e tênue queixume, como se lamentasse a perda de um ente amado. Com os golpes do vento, os pedaços de carvão explodiram em chamas mais uma vez e uma tortuosa cabeleira de fagulhas extinguiu-se na direção oeste. Eragon encolheu os ombros e puxou o colarinho da túnica para cobrir o pescoço. Havia alguma coisa hostil naquele vento; açoitava-o com uma ferocidade pouco usual, e parecia isolá-los do resto do mundo.
Ficaram sentados sem se mover, presos em sua diminuta ilha de luz e calor, enquanto o enorme rio de ar passava às pressas, uivando suas raivosas lamentações na vazia extensão de terra. Quando as rajadas se tornaram mais violentas e começaram a carregar as fagulhas para mais longe ainda do local onde Eragon montara sua fogueira, Arya jogou um punhado de terra na madeira. Ajoelhando-se rapidamente, Eragon juntou-se a ela, lançando a terra com as duas mãos para acelerar o processo.
Com o fogo extinto, ele tinha dificuldade para enxergar; o campo virara um fantasma, cheio de sombras agonizantes, formas indistinguíveis e folhas prateadas. Arya fez menção de se levantar, mas parou quase agachada, braços esticados para manter o equilíbrio, a expressão alerta. Eragon tinha a mesma sensação: o ar picava e zunia, como se um raio estivesse para cair. Os pelos de sua mão se eriçaram e ondularam livremente ao vento.
— O que é isso? — perguntou ele.
— Estamos sendo observados. O que quer que aconteça, não use magia ou poderá nos matar.
— Quem...
— Xiiu.
Olhando ao redor, ele encontrou uma rocha do tamanho de um punho, pegou-a e ergueu-a, testando seu peso. Ao longe, um ajuntamento de luzes multicoloridas e brilhantes apareceu. Elas se lançavam na direção do acampamento, voando baixo, logo acima da grama. À medida que se aproximavam, viu que as luzes mudavam constantemente de tamanho – variando de uma esfera menor do que uma pérola a uma com vários metros de diâmetro – e que também suas cores variavam, em todas as matizes do arco-íris. Uma auréola cintilante envolvia cada esfera, um halo de gavinhas líquidas que chicoteava e vergastava, como se faminto para agarrar alguma coisa. As luzes se moviam com tanta rapidez que ele não podia determinar exatamente quantas havia, mas adivinhava que eram duas dúzias.
As luzes irromperam no acampamento e formaram um paredão rodopiante em torno de Eragon e Arya. A velocidade de rotação delas, combinada à barreira de cores pulsantes, deixou Eragon tonto. Ele colocou uma das mãos no chão para se equilibrar. O zumbido era tão alto que seus dentes vibravam uns contra os outros. Sentiu um gosto de metal, e seu cabelo foi jogado para trás. O mesmo aconteceu com o de Arya, apesar do comprimento maior, e quando ele olhou para ela, achou a visão tão ridícula que precisou se conter para não dar uma gargalhada.
— O que elas querem? — gritou Eragon, mas ela não respondeu.
Uma das esferas se soltou do paredão e ficou suspensa diante de Arya, na altura de seus olhos. Ela encolhia e aumentava como se fosse um coração pulsante, sua cor alternava entre o azul-púrpura e o verde-esmeralda, com flashes ocasionais de vermelho.
Uma das gavinhas segurou um fio de cabelo de Arya. Ouviu-se um ruído agudo e, por um instante, o fio brilhou como um fragmento do sol, e então desapareceu. O cheiro de cabelo queimado chegou a Eragon. Arya não recuou para não demonstrar alarme. Com o rosto tranquilo, ela ergueu um braço e, antes que Eragon pudesse dar um salto e interrompê-la, pousou a mão sobre a esfera cintilante.
O glóbulo ficou dourado e branco, e inchou até ficar com mais de um metro. Arya fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, uma felicidade radiante transbordava de seu semblante. Seus lábios se moveram, mas o que quer que ela estivesse dizendo, Eragon não conseguia ouvir. Quando parou, a esfera ficou intensamente vermelha e depois, com muita rapidez, mudou de vermelho para verde e depois para lilás e para um laranja vivido. Em seguida mudou para um azul tão resplandecente que ele precisou desviar o olhar. Então, a esfera passou para o preto puro, adornada com uma cornija de gavinhas brancas e retorcidas, como se fosse o sol durante um eclipse. Neste instante, sua aparência deixou de flutuar, como se apenas a ausência de cor pudesse traduzir adequadamente seu estado de espírito.
Afastando-se de Arya, aproximou-se de Eragon, um buraco no tecido do mundo, envolvida por uma coroa de chamas. Flutuou na sua frente, zumbindo com tanta intensidade que os olhos dele se encheram de água. Sua língua parecia revestida de cobre, sua pele arranhava, e pequenos filamentos de eletricidade dançavam nas pontas de seus dedos. Um pouco assustado, imaginou se deveria tocar a esfera como Arya o fizera.
Olhou para ela em busca de conselho, que assentiu com a cabeça e fez um gesto para ele prosseguir.
Estendeu sua mão direita na direção do vácuo que era a esfera. Para sua surpresa, encontrou resistência. A esfera era incorpórea, mas empurrava sua mão da mesma maneira como o faria uma suave corrente de água. Quanto mais perto ele chegava, mais forte ela empurrava. Com um esforço, alcançou os últimos centímetros e conseguiu contato com o centro da criatura.
Uma rajada de raios azulados irrompeu entre a palma da mão de Eragon e a superfície da esfera com um movimento similar ao de uma hélice, lançando um brilho que ofuscou a luz das outras esferas e transformou tudo em um pálido azul esbranquiçado.
Eragon gritou de dor quando os raios golpearam seus olhos, e ele desviou a cabeça com os olhos semicerrados. Então, alguma coisa se mexeu dentro da esfera, como um dragão adormecido se desenroscando, e uma presença entrou em sua mente, varrendo suas defesas como se fossem folhas secas em uma tempestade de outono.
Ele arquejou. Uma alegria transcendental o inundou; o que quer que fosse aquela esfera, parecia feita de pura felicidade. Sentia prazer em estar viva, e tudo em volta lhe dava prazer em um grau maior ou menor. Eragon teria chorado de felicidade, mas perdera o controle de seu corpo. A criatura o mantinha no lugar, os raios cintilantes ainda surgindo debaixo de sua mão e se movendo rapidamente por seus ossos e músculos, parando nos locais onde ele havia se ferido e então retornando à sua mente.
Embora Eragon estivesse bastante eufórico, a presença da criatura era tão estranha e tão sobrenatural que ele desejava fugir dela. Mas no interior de sua consciência, não havia nenhum lugar onde pudesse se esconder. Ele tinha de permanecer em contato íntimo com a alma incandescente da criatura enquanto ela vasculhava suas lembranças, indo de uma a outra com a velocidade de uma flecha élfica. Ele imaginou como o ser conseguia apreender tanta informação com tanta rapidez. Enquanto a criatura procurava, ele tentou, por sua vez, vasculhar a mente da esfera para aprender o que pudesse sobre sua natureza e suas origens, mas essa compreensão desafiava suas tentativas. As poucas impressões que pinçou eram tão diferentes daquelas que ele havia encontrado nas mentes de outros seres que eram incompreensíveis.
Depois de um último circuito quase instantâneo por seu corpo, a criatura se retirou. O contato entre eles se partiu como um cabo sob excessiva tensão. A panóplia de raios na mão de Eragon caiu no esquecimento, deixando para trás aterradoras ilusões de ótica em tom rosado, atravessadas em seu campo de visão.
Novamente mudando de cor, a esfera à frente de Eragon encolheu até o tamanho de uma maçã e reuniu-se a suas companheiras no vórtice espiralado de luz que circundava Eragon e Arya. O zumbido aumentou a um nível quase insuportável, e então o vórtice explodiu quando as esferas brilhantes espalharam-se por todas as direções. Elas se reagruparam vários metros além do acampamento mal iluminado, uma saltando por cima da outra como se fossem filhotes de gato lutando, depois dispararam para o sul e desapareceram de vista, como se jamais tivessem existido. O vento arrefeceu, virando uma brisa suave.
Eragon caiu de joelhos, o braço estendido na direção que as esferas haviam tomado, sentindo-se vazio sem o regozijo que elas lhe deram.
— O que... — perguntou ele, e então precisou tossir e recomeçar, pois sua garganta estava muito seca. — O que são elas?
— Espíritos — respondeu Arya, e se sentou.
— Eles não pareciam com os que saíram de Durza quando eu o matei.
— Espíritos podem assumir várias feições diferentes, ditadas por seus caprichos.
Ele piscou diversas vezes e esfregou os cantos dos olhos com o dedo.
— Como alguém pode ter a coragem de escravizá-los com magia? É monstruoso. Eu ficaria envergonhado de chamar a mim mesmo de feiticeiro. E Trianna se gaba de ser uma. Vou obrigá-la a parar de usar espíritos ou então vou expulsá-la de Du Vrangr Gata e pedir a Nasuada seu banimento dos Varden.
— Eu não seria tão precipitada.
— Certamente você não acha que é certo os mágicos forçarem espíritos a obedecer suas vontades... Eles são tão belos que... — Ele interrompeu e balançou a cabeça, tomado de emoção. — Qualquer pessoa que faça mal a eles deveria levar uma surra que a deixasse à beira da morte.
Quase sorrindo, Arya disse:
— Imagino que Oromis ainda não tocara no assunto quando você e Saphira deixaram Ellesméra.
— Se você está falando sobre os espíritos, ele tocou no assunto diversas vezes.
— Mas não em grandes detalhes, eu ousaria dizer.
— Talvez não.
Na escuridão, o contorno dela se moveu quando se inclinou para um lado.
— Espíritos sempre induzem uma sensação de êxtase quando escolhem se comunicar conosco que somos feitos de matéria, mas não permita que eles o enganem. Eles não são tão benevolentes, contentes ou esfuziantes quanto fazem você acreditar. Satisfazer aqueles com os quais eles interagem é a maneira que têm para se defender. Odeiam ficar presos em um lugar, e perceberam há muito que se a pessoa com quem estão lidando está feliz, então será muito menos provável que ele ou ela detenha os espíritos e os mantenha como servos.
— Não sei — disse Eragon. — Eles fazem você se sentir tão bem que eu posso entender por que alguém poderia desejar mantê-los por perto em vez de soltá-los.
Os ombros dela subiram e desceram.
— Espíritos têm tanta dificuldade em prever nosso comportamento quanto nós temos de prever os deles. Eles têm tão pouco em comum com as outras raças da Alagaësia que conversar com eles, mesmo da maneira mais simples, é uma perspectiva desafiadora. E qualquer encontro é acompanhado de perigo porque ninguém sabe ao certo como eles vão reagir.
— Nada disso explica por que eu não deveria pedir a Trianna que abandonasse a feitiçaria.
— Você já a viu convocando espíritos para fazer sua magia?
— Não.
— Eu imaginei que não. Trianna está com os Varden há não menos de seis anos e, nesse período, demonstrou sua maestria na arte da feitiçaria exatamente uma vez, e isso após muita persuasão da parte de Ajihad e muita consternação e preparação da parte de Trianna. Ela possui as habilidades necessárias, não é nenhuma charlatã, mas convocar espíritos é extremamente perigoso, e ninguém embarca em uma aventura dessas com suavidade.
Eragon esfregou sua palma brilhante com o polegar esquerdo. A aparência da luz começou a mudar à medida que o sangue voltou à superfície de sua pele, mas seus esforços não conseguiram reduzir a quantidade de luz que irradiava de sua mão. Ele coçou a gedwëy ignasia com as unhas. Seria melhor que isso não durasse mais do que algumas horas. Não vou poder sair por aí brilhando como uma lanterna. Eu poderia ser morto. E também é uma coisa muito boba. Quem já ouviu falar de um Cavaleiro de Dragão com uma parte do corpo brilhando?
Eragon pensou no que Brom lhe havia dito.
— Eles não são espíritos humanos, são? Nem elfos, nem anões, nem de nenhuma outra criatura. Quer dizer, eles não são fantasmas. Nós não viramos algo assim depois que morremos.
— Não. E por favor, não me pergunte, como eu sei que você vai perguntar, o que então eles são de fato. Essa é uma pergunta para Oromis responder, não eu. O estudo da feitiçaria, se conduzido adequadamente, é longo e árduo e deveria ser encarado com cuidado. Não quero dizer nada que venha a interferir nas lições que Oromis planejou para você, e certamente não quero que você se machuque tentando alguma coisa que eu tenha mencionado sem ter o conhecimento adequado.
— E quando eu vou retornar a Ellesméra? — perguntou ele. — Não posso deixar os Varden novamente, não assim, não enquanto Thorn e Murtagh ainda estão vivos. Até que derrotemos o Império, ou o Império nos derrote, Saphira e eu temos de apoiar Nasuada. Se Oromis e Glaedr realmente querem terminar nosso treinamento, eles deveriam se juntar a nós, e maldito seja Galbatorix!
— Por favor, Eragon — pediu ela. — Essa guerra não terminará tão rápido quanto você imagina. O Império é vasto, e nós apenas lhe fizemos cócegas. Enquanto Galbatorix não souber a respeito de Oromis e Glaedr, nós temos uma vantagem.
— É realmente uma vantagem se os Varden nunca os utilizam em proveito próprio? — rosnou ele.
Ela não respondeu e, após um instante, ele se sentiu infantil por reclamar. Oromis e Glaedr queriam mais do que ninguém a destruição de Galbatorix, e, se escolheram esperar em Ellesméra, era porque tinham motivos suficientes. Eragon podia, inclusive, nomear vários deles se estivesse disposto, o mais importante sendo a inabilidade de Oromis em lançar encantos que requeressem grandes quantidades de energia. Eragon sentiu frio, puxou as mangas para cima das mãos e cruzou os braços.
— O que foi mesmo que você disse para o espírito?
— Foi intrigante o motivo pelo qual nós estávamos usando a magia; foi isso que chamou sua atenção para nós. Eu expliquei, e também expliquei que foi você que libertou os espíritos presos dentro de Durza. Isso pareceu lhes dar muito prazer. — Silêncio surgiu entre os dois, e então ela avançou na direção do lírio e tocou-o novamente. — Ah! Eles ficaram realmente gratos. Naina!
Ao comando dela, uma onda de luz suave iluminou o acampamento. Com isso, ele pôde ver que a folha e o caule do lírio eram de ouro maciço, as pétalas eram de um metal esbranquiçado que ele não conseguia reconhecer, e o coração da flor — revelado por Arya quando ela ergueu a planta — parecia ter sido esculpido com rubis e diamantes.
Impressionado, Eragon passou um dedo sobre a folha recurvada e os diminutos pelos sobre ela lhe fizeram cócegas. Inclinando-se para a frente, discerniu a mesma coleção de protuberâncias, reentrâncias, cavidades, veias e outros minúsculos detalhes com os quais havia adornado a versão original da planta; a única diferença era que agora era feita de ouro.
— É uma cópia perfeita! — disse ele.
— E ainda está viva.
— Não! — Concentrando-se, procurou os tênues sinais de calor e movimento que indicariam que o lírio era mais do que um objeto inanimado. Localizou-os, fortes como sempre são em uma planta durante a noite. Passando novamente o dedo pela folha, comentou: — Isso ultrapassa todos os meus conhecimentos de magia. De acordo com todas as regras, esse lírio deveria estar morto. Ao contrário, está pulsando. Não posso nem imaginar o que seria necessário para transformar uma planta em um metal vivo. Talvez Saphira pudesse fazer isso, mas ela jamais conseguiria ensinar o encanto a qualquer outra pessoa.
— A questão principal — disse Arya — é se esta flor produzirá sementes férteis.
— Será que ela se reproduziria?
— Eu não ficaria surpresa se ela conseguisse. Inúmeros exemplos de magia que se autoperpetua existem na Alagaësia, tais como o cristal flutuante na ilha de Eoam e o poço de sonho nas cavernas Mani. Isso aqui não seria um fenômeno mais improvável do que os outros.
— Infelizmente, se alguém descobrir essa flor ou os frutos que ela tiver, eles serão arrancados da terra. Todo aventureiro na região apareceria para colher os lírios de ouro.
— Eu acho que não seria tão fácil assim destruí-las, mas só o tempo dirá com certeza.
Um riso borbulhou dentro de Eragon. Quase sem conseguir conter o júbilo, ele disse:
— Eu já ouvi a expressão “aperfeiçoar o que já era perfeito”, mas os espíritos realmente fizeram isso! Eles aperfeiçoaram o que já era perfeito! — E ele caiu de tanto rir, sua voz ribombando na campina desolada.
Arya mordeu os lábios.
— Bem, a intenção deles era nobre. Nós não podemos culpá-los por serem ignorantes a respeito dos provérbios humanos.
— Não, mas... Rá, rá, rá!!!
Arya estalou os dedos, e a onda de luz desapareceu.
— Nós desperdiçamos quase a noite inteira com conversa. Já é hora de descansarmos. O amanhecer não tardará, e devemos partir logo em seguida.
Eragon espreguiçou-se numa parte sem pedras ainda gargalhando enquanto imergia em seu sonhar acordado.

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