24 de junho de 2017

Capítulo 13 - Sem honra nem glória apenas bolhas em lugares desagradáveis

O

latido dos cães crescia, atrás deles. A matilha uivava por
sangue.
Roran apertou mais firmemente as rédeas, dobrando-se
sobre o pescoço do cavalo de guerra galopante. O ruído dos
cascos dos cavalos ressoava através dele como uma trovoada.
Roran e os seus cinco homens — Carn, Mandel, Baldor, Delwin
e Hamund — tinham roubado cavalos frescos dos estábulos de uma
mansão, a menos de oitocentos metros, e os moços de estrebaria
não tinham ficado nada satisfeitos. Mostrar-lhes as espadas fora o
suficiente para ultrapassar as objeções, mas os moços de estrebaria
deviam ter avisado os guardas da mansão logo que Roran e os
companheiros partiram, pois dez dos guardas perseguiam-nos,
guiados por uma matilha de cães de caça.
— Ali! — gritou ele, apontando para uma estreita faixa de bétulas
que se estendia entre duas colinas próximas, ao longo do curso de
um riacho.
Ao ouvirem a ordem, os homens conduziram os cavalos para
fora da estrada habitualmente utilizada pelos viajantes, cavalgando
na direção das árvores. O solo acidentado forçou-os a abrandar o
ritmo, apenas ligeiramente, apesar do risco de os cavalos meterem
uma pata num buraco e partirem-na, ou atirarem com um cavaleiro
ao chão. Por muito arriscado que fosse, seria ainda pior deixar que
os cães os apanhassem.
Roran enterrou as esporas nos flancos do cavalo e gritou:
— Ia! — tão alto quanto possível, com a garganta cheia de pó. O
cavalo castrado largou a galope, aproximando-se aos poucos de
Carn.
Roran sabia que o seu cavalo iria, em breve, chegar a um ponto
em que já não conseguiria produzir tais explosões de velocidade,
por muito que ele o picasse com as esporas ou o chicoteasse com a
ponta das rédeas. Detestava ser cruel e não era sua intenção
montar o animal até o matar, mas não o pouparia se isso pusesse
em risco o sucesso da missão.
Ao alcançar Carn, Roran gritou:
— Não consegues esconder o nosso rasto com um feitiço?
— Não sei como! — respondeu Carn, mal se fazendo ouvir com a
deslocação de ar e o ruído dos cavalos a galope. — É demasiado
complicado!
Roran praguejou e olhou por cima do ombro. Os cães
contornavam a última curva da estrada. Pareciam voar sobre o
chão, esticando e contraindo os corpos esguios a um ritmo brutal.
Mesmo àquela distância, Roran conseguia distinguir as línguas
vermelhas e julgou também ver o brilho de caninos brancos.
Ao alcançarem as árvores, Roran virou e começou a cavalgar de
novo em direção às colinas, mantendo-se tão próximo quanto
possível da linha de bétulas, a fim de evitar ramos baixos e troncos
caídos. Os outros fizeram o mesmo, gritando aos cavalos para que
não abrandassem enquanto subiam o declive, a galope.
À sua direita, Roran viu de relance Mandel, curvado sobre a sua
égua manchada, com um esgar feroz. O jovem impressionara Roran
com a energia e a coragem que demonstrara nos últimos três anos.
Desde que Sloan, o pai de Katrina, traíra os aldeões de Carvahall e
matara o pai de Mandel, Byrd, que este parecia desesperado por
provar que era igual a qualquer homem da aldeia. Além disso, agira
com honra nas duas últimas batalhas entre os Varden e o Império.
Um ramo grosso entrou em rota de colisão com a cabeça de
Roran. Ele baixou-se, ouvindo e sentindo as pontas dos ramos
secos baterem-lhe no topo do elmo. Uma folha morta caiu-lhe
sobre o rosto cobrindo, por instantes, o olho direito mas depois o
vento arrancou-lha.
A respiração dos cavalos tornava-se cada vez mais difícil, à
medida que seguiam o curso do rio, por entre as colinas. Roran
espreitou por baixo do braço e viu que a matilha de cães estava a
menos de quatrocentos metros deles. Mais alguns minutos e
certamente iriam ultrapassar os cavalos.
“Raios”, pensou ele, olhando sucessivamente para o bosque
cerrado, à sua esquerda e para a colina verdejante à direita, em
busca de algo — qualquer coisa — que os pudesse ajudar a despistar
os seus perseguidores.
Estava de tal forma atordoado de exaustão que quase não deu
por ele.
Vinte metros mais adiante, um trilho sinuoso de veados descia
pela encosta da colina, intercetando o seu caminho e
desaparecendo depois por entre as árvores.
— Aí!.... Aí! — gritou Roran, inclinando-se para trás nos arreios e
puxando as rédeas. O cavalo abrandou e seguiu a trote, embora
resfolgasse e sacudisse a cabeça para tentar morder o freio. — Ah
isso é que não — rugiu Roran, puxando as rédeas com mais força. —
Despachem-se! — gritou ele ao resto do grupo, virando o cavalo e
entrando no bosque. O ar estava fresco por baixo das árvores,
quase frio, o que era um alívio bem-vindo face ao calor que sentia
devido à exaustão. Mas conseguiu apenas apreciar essa sensação
por uns instantes, pois o cavalo arrancou e começou a descer a
encosta em direção à margem do riacho, lá em baixo. Folhas
mortas estalavam debaixo dos cascos ferrados. Roran teve
praticamente que se deitar sobre o dorso do animal para não cair
por cima do pescoço e da cabeça deste, de pernas e joelhos
esticados para a frente.
Ao chegarem ao fundo do desfiladeiro, o cavalo percorreu
ruidosamente o riacho rochoso, projetando asas de água à altura
dos joelhos de Roran.
Roran parou do lado oposto, para ver se os outros ainda
seguiam atrás dele. E vinham, de fato. Desciam por entre as
árvores, uns atrás dos outros.
Conseguia ouvir os latidos dos cães, lá em cima, no sítio onde
tinham entrado no bosque.
“Vamos ter de os enfrentar e lutar”, concluiu.
Voltou a praguejar, esporeou o cavalo e afastou-se do riacho,
subindo a margem macia, coberta de musgo, e continuando a seguir
pelo trilho indistinto.
Não muito longe do riacho havia uma parede de fetos e, para lá
desta, uma depressão. Roran viu uma árvore caída que achou
poder servir de barreira improvisada se fosse arrastada para o sítio
indicado.
“Só espero que não tenham arcos de flechas.”
Acenou aos seus homens:
— Aqui!
Fazendo estalar as rédeas, conduziu o cavalo por entre os fetos,
até à depressão, deslizando depois da sela, embora se mantivesse
firmemente agarrado a ela. Ao tocar com os pés no chão as pernas
cederam. Teria caído se não estivesse apoiado. Fez um esgar e
encostou a testa ao ombro do cavalo, ofegante, enquanto esperava
que os tremores nas pernas abrandassem.
O resto do grupo reuniu-se em torno dele, impregnando o ar
com um fedor a suor e o tilintar dos arreios. Os cavalos
estremeceram, ofegantes, com espuma amarela a escorrer-lhes pelo
canto da boca.
— Ajudem-me! — disse ele a Baldor, apontando para a árvore
caída. Meteram as mãos por baixo da extremidade larga do tronco
e ergueram-no do chão. Roran rilhou os dentes, ao sentir as costas
e as coxas protestarem de dor. Cavalgar a todo o galope durante
três dias e dormir menos de três horas por cada doze montado na
sela, deixara-o terrivelmente debilitado.
“Mais valia ir combater bêbado, doente e completamente
derreado”, concluiu Roran, ao largar o tronco e endireitando-se. A
ideia irritou-o.
Os seis homens colocaram-se em frente aos cavalos, virados
para a parede de fetos pisados e aprontaram as armas. Do lado de
fora da depressão, os latidos dos cães de caça eram mais intensos
que nunca e os seus ganidos ecoavam nas árvores, produzindo um
ruído infernal.
Roran retesou o corpo e ergueu mais o martelo. Depois ouviu
uma estranha e alegre melodia na língua antiga, que Carn entoava
intercalada com os latidos dos cães e os pelos da sua nuca
arrepiaram-se em sobressalto, tal era o poder contido nas frases. O
feiticeiro proferiu rapidamente várias frases de um só fôlego,
falando tão depressa que as palavras se fundiam num algaraviada
indistinta. Logo que terminou, fez um gesto a Roran e aos outros,
dizendo num sussurro tenso:
— Baixem-se!
Roran baixou-se sobre os quadris sem o questionar. Já não era a
primeira vez que se amaldiçoava pelo fato de ser incapaz de usar
magia. Essa era a mais útil das aptidões de um guerreiro e o fato
de não a ter, deixava-o à mercê de todos aqueles capazes de
reformular o mundo apenas com a vontade e uma palavra.
Os fetos diante de si restolharam e estremeceram; um cão enfiou
depois a ponta negra do focinho através da folhagem, espreitando
para a depressão, de nariz trémulo. Delwin sorveu o ar, erguendo a
espada como se fosse decapitar o cão, mas Carn pigarreou
insistentemente, acenando-lhe até ele a baixar.
O cão franziu o focinho, parecendo intrigado. Voltou a cheirar o
ar, lambeu a mandíbula inferior com a língua grossa, arroxeada, e
recuou.
Quando os fetos se voltaram a fechar bruscamente sobre o
focinho do cão, Roran, que estivera a conter a respiração, expirou
lentamente, olhando para Carn e arqueando a sobrancelha, à
espera que este se explicasse. No entanto Carn limitou-se a abanar
a cabeça e a levar um dedo aos lábios.
Segundos depois, mais dois cães esgueiraram-se por entre a
vegetação, inspecionando a depressão, porém recuaram passado
pouco tempo, tal como o primeiro. Pouco depois a matilha
começou a ganir e a latir, procurando por entre as árvores, na
tentativa de perceber para onde tinham ido as suas presas.
Enquanto estava sentado à espera, Roran reparou que as suas
perneiras estavam manchadas com nódoas escuras no interior das
coxas. Tocou numa das áreas manchadas e os dedos vieram
cobertos de um líquido ensanguentado. Cada mancha assinalava
uma bolha, mas não eram as únicas; sentia também bolhas nas
mãos — as rédeas tinham-lhe esfolado a pele entre o polegar e o
indicador — nos calcanhares e noutros sítios mais desconfortáveis.
Limpou os dedos no chão com uma expressão de desagrado.
Olhou para os seus homens e reparou na forma como estavam
agachados e ajoelhados, apercebendo-se do desconforto nos seus
rostos sempre que se moviam, e a forma como torciam ligeiramente
as mãos ao segurarem nas armas. Não estavam em melhor estado
do que ele.
Roran decidiu ordenar a Carn que lhes curasse as feridas da
próxima vez que parassem para dormir. Contudo, se o feiticeiro lhe
parecesse muito cansado, não iria tratar das suas. Preferia suportar
a dor a permitir que Carn despendesse toda a sua energia antes de
chegarem a Aroughs, pois suspeitava que as aptidões daquele
pudessem vir a revelar-se úteis na conquista da cidade.
Pensar em Aroughs e no cerco que deveria supostamente
ganhar, compeliu-o a levar a mão livre ao peito para ver se o
envelope que continha as ordens que era incapaz de ler e a
comissão que duvidava conseguir cumprir estavam ainda guardadas
em segurança na sua túnica. Estavam.
Depois de longos minutos de tensão, um dos cães começou a
ladrar entusiasticamente, algures nas árvores junto ao rio. Os outros
cães correram na mesma direção e recomeçaram a ladrar naquele
tom intenso que indicava estarem a seguir de perto uma presa.
Quando o alarido abrandou, Roran levantou-se lentamente e
passou os olhos pelas árvores e pelos arbustos.
— O caminho está livre — disse, num tom de voz moderado.
Quando os outros se levantaram, Hamund — que era alto,
desgrenhado e tinha rugas profundas junto da boca, embora fosse
apenas um ano mais velho do que Roran — virou-se para Carn, com
uma expressão carregada e disse:
— Porque não fizeste isso antes, em vez de permitires que
cavalgássemos à toa pelos campos e quase partíssemos o pescoço
a descer aquela colina? — E apontou para trás, em direção ao
riacho.
Carn respondeu-lhe num tom igualmente furioso:
— Porque ainda não me tinha lembrado disso, eis a razão. Acho
que poderias demonstrar um pouco de gratidão, visto que acabo de
te poupar ao incómodo de ficares todo esburacado.
— Ai sim? Pois eu acho que devias passar mais tempo a praticar
os teus feitiços, antes que sejamos perseguidos sabe-se lá até onde
e...
Receando que a discussão se tornasse perigosa, Roran colocouse
entre ambos.
— Basta! — disse, perguntando depois a Carn. — O teu feitiço
poderá esconder-nos dos guardas?
Carn abanou a cabeça.
— Os homens são mais difíceis de enganar que os cães. — E
atirou um olhar injurioso a Hamund. — Pelo menos a maioria. Posso
esconder-nos, mas não posso esconder o nosso rasto. — Apontou
para os fetos esmagados e partidos, e para as pegadas dos cascos,
escavadas no solo húmido. — Eles vão perceber que nós estamos
aqui. Se partirmos antes de eles nos verem, os cães vão despistálos
e nós...
— Montem! — ordenou Roran.
Os homens voltaram a montar nos cavalos, com uma série de
palavrões abafados e gemidos mal contidos. Roran olhou uma
última vez para a depressão, assegurrando-se de que não se tinham
esquecido de nada, e conduziu o seu cavalo de guerra para a
dianteira do grupo, picando-o ao de leve com as esporas.
Juntos galoparam para fora das sombras das árvores, afastandose
da ravina e retomando a viagem aparentemente interminável até
Aroughs. O que iriam fazer quando chegassem à cidade era uma
absoluta incógnita para Roran.
E

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