3 de junho de 2017

Capítulo 12 - Misericórdia, Cavaleiro de Dragão

Era o meio da tarde, no dia seguinte ao da sua partida de Eastcroft, quando Eragon pressentiu a patrulha de quinze soldados adiante deles. Comentou com Arya.
— Eu também os percebi.
Nenhum dos dois manifestou ansiedade, mas a preocupação começou a corroer Eragon, e ele viu como as sobrancelhas de Arya se abaixaram numa careta feroz.
O terreno em torno deles era aberto e plano, desprovido de qualquer abrigo. Tinham deparado com grupos de soldados antes, mas sempre na companhia de outros viajantes. Agora, estavam sozinhos na trilha apagada de uma estrada.
— Podíamos cavar um buraco com magia, cobrir com mato e nos esconder até eles irem embora — sugeriu Eragon.
Arya fez que não sem diminuir o ritmo das passadas.
— E o que faríamos com a terra que sobrasse? Eles iam achar que tinham descoberto a maior toca de texugo do mundo. Além do mais, eu preferiria poupar nossa energia para correr.
Eragon deu um grunhido.
Não sei ao certo quantos quilômetros eu ainda consigo correr. Não estava ofegante, mas a caminhada implacável já o estava desgastando. Seus joelhos doíam, os tornozelos ardiam, o dedão do pé esquerdo estava vermelho e inchado, e bolhas continuavam a estourar nos seus calcanhares, por mais que os atasse com firmeza. Na noite anterior, tinha curado algumas das dores e incômodos que o afligiam; e, embora isso lhe tivesse dado algum alívio, os encantamentos apenas exacerbaram sua exaustão.
A patrulha ficou visível como uma nuvem de poeira por meia hora antes que Eragon conseguisse distinguir as formas dos homens e dos cavalos na base da nuvem amarela. Como ele e Arya tinham a visão mais aguçada do que a maioria dos humanos, era improvável que os cavaleiros pudessem vê-los àquela distância. Por isso, continuaram a correr por mais dez minutos. Depois pararam. Arya tirou da mochila sua saia e a amarrou por cima das calças que usava quando corria, e Eragon guardou o anel de Brom na sua mochila e espalhou terra na palma direita da mão para esconder sua gedwëy ignasia prateada. Eles retomaram a viagem com a cabeça baixa, ombros encurvados, arrastando os pés. Se tudo corresse bem, os soldados suporiam que eles eram simplesmente mais um casal de refugiados.
Apesar de Eragon conseguir sentir o troar dos cascos que se aproximavam e ouvir os gritos dos homens a conduzir suas montarias, ainda demorou quase uma hora para os dois grupos se encontrarem na vasta planície. Quando isso ocorreu, Eragon e Arya saíram para a beira da estrada e ficaram ali em pé olhando para baixo para o meio dos pés.
Eragon viu um relance de patas de cavalos por baixo da beira da fronte, enquanto os primeiros cavaleiros passavam ruidosos, mas então a sufocante nuvem de pó subiu em torno dele, escondendo o restante da patrulha. A poeira no ar era tão densa que ele precisou fechar os olhos. Escutando com cuidado, contou até ter certeza de que mais da metade da patrulha já tinha passado.
Eles não vão se dar ao trabalho de nos interrogar!, pensou. Sua alegria teve vida curta. Daí a um instante, alguém gritou no meio do turbilhão de poeira “Companhia, alto!”. Ressoou então um coro de Eia, Calma aí e Ô, Nell, enquanto quinze homens faziam suas montarias formar uma roda em torno de Eragon e Arya.
Antes que os soldados completassem a manobra e a poeira baixasse, Eragon procurou chão uma pedra grande e voltou a ficar em pé.
— Não se mexa! — repreendeu Arya, entredentes.
Enquanto esperava que os soldados manifestassem suas intenções, Eragon lutou para acalmar seu coração disparado ensaiando a história que ele e Arya tinham inventado para explicar sua presença tão perto da fronteira com Surda. Seus esforços não tiveram êxito, pois, apesar de sua força, sua formação, o conhecimento de combate que havia adquirido e a meia dúzia de proteções ao seu redor, seu corpo continuava convencido de que lesão ou morte iminente o aguardava. Sentia torções na barriga; aperto na garganta; e pernas e braços frouxos.
Ah, vamos logo com isso!, pensou. Estava louco para quebrar alguma coisa com as mãos, como se um ato de destruição pudesse aliviar a pressão que estava se acumulando dentro dele, mas o impulso só aumentava sua frustração, já que não ousava se mexer. A única coisa que o acalmava era a presença de Arya. Preferiria decepar uma mão a que ela o considerasse um covarde. E, embora fosse por si mesma uma guerreira poderosa, ele ainda sentia o desejo de defendê-la.
A voz que dera o comando para a companhia parar voltou a falar.
— Deixem o rosto à mostra!
Erguendo a cabeça, Eragon viu um homem montado diante dele num cavalo de batalha, com as mãos enluvadas cobrindo a parte mais alta da sela. Do seu lábio superior, brotava um bigode enorme e encaracolado que, depois de descer até os cantos da boca, se estendia mais de vinte centímetros nas duas direções e apresentava um forte contraste com o cabelo liso que lhe caía até os ombros. Como uma peça de escultura tão grande e repolhuda aguentava o próprio peso deixou Eragon intrigado, principalmente porque o bigode era opaco, sem brilho e obviamente não havia sido impregnado com cera morna de abelha.
Os outros soldados seguravam lanças apontadas para Eragon e Arya. Estavam tão cobertos de poeira que era impossível ver as chamas aplicadas sobre a túnica.
— Ora, ora... — disse o homem, e seu bigode oscilou como uma balança desequilibrada. — Quem são vocês? Aonde vão? E o que fazem nas terras do rei? — Depois, sacudiu a mão. — Não, não precisam responder. Não faz diferença. Nada importa hoje em dia. O fim do mundo está chegando, e nós desperdiçamos nosso tempo interrogando camponeses. Ora! Uma gentalha supersticiosa que corre, assustada, de um lugar para outro, devorando toda a comida e se reproduzindo a uma velocidade medonha. Na propriedade da minha família perto de Urû’baen, gente como vocês seria açoitada se tosse apanhada perambulando à toa sem permissão. E, se descobríssemos que haviam roubado do seu senhor, ora, nesse caso, seriam enforcados. Qualquer coisa que me digam vai ser mentira. Sempre é... “E o que trazem aí nessa mochila, hein? Comida e cobertores, sim, mas talvez um par de castiçais de ouro, não? Prataria da arca trancada? Cartas secretas para os Varden? Hein? O gato engoliu sua língua?” Bem, isso logo vamos descobrir. Langward, por que você não dá uma olhada nos tesouros que conseguir escavar daquela mochila? Esse é um bom garoto.
Eragon cambaleou para a frente quando um dos soldados lhe deu um golpe transversal nas costas com a haste de uma lança. Tinha enrolado a armadura com farrapos para evitar que as peças roçassem umas nas outras. Os trapos eram, porém, finos demais para absorver totalmente a força do golpe e abafar o ruído metálico.
— Epa! — exclamou o homem do bigode. Agarrando Eragon por trás, o soldado desatou o alto da mochila e tirou sua cota de malha. — Olhe, senhor!
O homem do bigode abriu um sorriso de prazer.
— Armadura! E de boa qualidade, ainda por cima. Excelente qualidade, eu diria. Bem, você é mesmo cheio de surpresas. Ia se juntar aos Varden, não é? Com o propósito de traição e rebelião? — Sua expressão se azedou. — Ou não será daqueles que em geral dão péssima reputação aos soldados honestos? Se for assim, é um mercenário dos mais incompetentes, pois nem mesmo tem uma arma. Será que daria assim tanto trabalho cortar um cajado ou uma clava? Hein? Bem, o que me diz? Responda!
— Não, senhor.
— Não, senhor? Não lhe ocorreu a ideia, suponho eu. É uma pena que tenhamos de aceitar desgraçados tão lerdos, mas é a isso que esta guerra nos reduziu, a disputar o rebotalho.
— Me aceitar onde, senhor?
— Cale-se, seu safado insolente! Ninguém lhe deu permissão para falar! — Com o bigode trêmulo, o homem fez um gesto. Luzes vermelhas explodiram no campo visual de Eragon quando o soldado atrás dele golpeou sua cabeça. — Quer você seja um ladrão, um traidor, um mercenário, quer não passe de um tolo, seu destino será o mesmo. Uma vez que faça o juramento do serviço, não terá escolha a não ser obedecer a Galbatorix e àqueles que falarem em nome dele. Somos o primeiro exército da história totalmente livre de dissidência. Nada de discussões desmioladas sobre o que deveríamos fazer. Somente ordens, claras e diretas. Você também há de se juntar à nossa causa e terá o privilégio de ajudar a realizar o futuro glorioso que nosso grande rei previu. Quanto à sua linda companheira, ela poderá ser útil ao Império de outras formas, não é? Agora amarrem os dois!
Nesse instante, Eragon soube o que devia fazer. Num relance, descobriu que Arya já estava olhando para ele, com uma expressão dura nos olhos brilhantes. Piscou uma vez. Ela piscou em resposta. Sua mão se fechou em volta da pedra. A maioria dos soldados com quem Eragon tinha lutado na Campina Ardente possuía certas proteções rudimentares destinadas a blindá-los contra ataques de magia, e suspeitava que esses homens estivessem equipados em termos semelhantes. Eragon tinha confiança de que poderia romper ou contornar quaisquer encantos que os mágicos de Galbatorix tivessem inventado, mas isso exigiria mais tempo do que podia gastar agora. Em vez disso, dobrou o braço e, com um movimento ágil do pulso, lançou a pedra no homem do bigode. A pedra perfurou a lateral do seu elmo.
Antes que os soldados pudessem reagir, Eragon deu meia-volta, arrancou a lança das mãos do homem que o vinha atormentando e a usou para derrubá-lo do cavalo. Quando este caiu no chão, Eragon lhe transpassou o coração, quebrando a lâmina da lança nas placas de metal da couraça do soldado. Soltando a arma, mergulhou recuando, com o corpo paralelo ao chão enquanto passava por baixo de sete lanças que estavam voando para o lugar onde ele não estava mais. As armas letais pareceram flutuar acima dele quando caiu.
No instante em que Eragon atirou a pedra, Arya subiu com um salto pelo flanco do cavalo mais próximo dela, pulando do estribo para a sela, e deu um chute na cabeça do soldado distraído que estava montado na égua. O soldado foi atirado a mais de dez metros dali. Depois, Arya saltou de um cavalo para outro, matando os soldados com os joelhos, os pés e as mãos numa incrível demonstração de graça e equilíbrio.
Pedras pontiagudas quase perfuraram o ventre de Eragon quando tombou no chão. Com uma careta, pôs-se em pé de um salto. Quatro soldados que haviam desmontado o enfrentavam com espadas desembainhadas. Investiram. Desviando-se para a direita, segurou o pulso do primeiro soldado quando este brandiu a espada e o feriu na axila. O homem desmoronou e ficou imóvel. Eragon se livrou dos outros adversários torcendo-lhes a cabeça até a espinha se partir. O quarto soldado estava tão perto a essa altura, investindo contra ele com a espada erguida que Eragon não teria como se desviar. Encurralado, fez a única coisa que pôde: atingiu o homem no peito com toda a sua força.
Um jorro de sangue e suor irrompeu quando seu punho o tocou. O golpe amassou as costelas do soldado e o empurrou a mais de três metros de distância sobre o capim, onde ele parou quando bateu em outro cadáver.
Eragon arquejou e se curvou, protegendo a mão que latejava. Quatro articulações estavam deslocadas, e a cartilagem branca aparecia através da pele ralada.
Maldito!, pensou ele enquanto o sangue quente se derramava dos ferimentos. Seus dedos se recusavam a se mover quando dava-lhes o comando. Percebeu que sua mão permaneceria inútil enquanto não a curasse. Temendo mais um ataque, olhou ao redor, em busca de Arya e dos soldados restantes.
Os cavalos tinham se espalhado. Somente três soldados ainda estavam vivos. Arya estava lutando com dois a alguma distância dali enquanto o terceiro, e último, soldado fugia para o sul pela estrada. Reunindo suas forças, Eragon o perseguiu.
Enquanto a distância entre os dois ia se reduzindo, o homem começou a implorar por misericórdia, prometendo que não relataria o ataque a ninguém e estendendo as mãos para mostrar que estavam vazias. Quando Eragon chegou a menos de um metro dele, o homem deu uma guinada para o lado e depois de mais alguns passos voltou a mudar de direção, disparando pelo campo em ziguezague como uma lebre assustada. O tempo todo, o homem não parou de implorar, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo que era muito jovem para morrer, que ainda precisava se casar e ter um filho, que seus pais sentiriam sua falta, que havia sido forçado a entrar para o exército, que aquela era somente sua quinta missão, e perguntando por que Eragon não podia deixá-lo em paz.
— O que você tem contra mim? — quis saber, soluçando. — Só fiz o que tive de fazer. Sou uma boa pessoa!
Eragon parou e se forçou a responder.
— Você não tem como acompanhar nosso passo. Nós não podemos deixá-lo aqui. Você vai arrumar um cavalo e nos denunciar.
— Não vou, não.
— As pessoas vão perguntar o que aconteceu aqui. Seu juramento a Galbatorix e ao Império não permitirá que você minta. Sinto muito, mas não sei como liberá-lo do seu voto, a não ser...
— Por que está fazendo isso? Você é um monstro! — berrou o homem.
Com uma expressão de puro terror, fez uma tentativa de contornar Eragon e voltar para a estrada. Eragon o alcançou em menos de três metros. E mesmo enquanto o homem ainda chorava e pedia clemência, segurou-lhe o pescoço com a mão esquerda e apertou. Quando relaxou a mão, o soldado caiu diante dos seus pés, morto.
Eragon sentiu um gosto amargo na boca quando olhou para o rosto sem vida do homem ali embaixo. Sempre que matamos, matamos uma parte de nós mesmos, pensou.
Trêmulo com uma mistura de choque, dor e ódio de si mesmo, voltou para o lugar onde a luta havia começado. Arya estava ajoelhada ao lado de um corpo, lavando as mãos e os braços com água de um cantil que um dos soldados trazia.
— Como foi que você pôde matar esse homem, mas não conseguiu pôr um dedo em Sloan? — Ela se levantou e o encarou, com o olhar franco.
— Ele era uma ameaça — respondeu Eragon, sem emoção, dando de ombros. — Sloan não era. Não é óbvio?
Arya ficou em silêncio por um tempo.
— Deveria ser, mas não é... Fico envergonhada de receber instruções de moralidade de alguém com tão menos experiência. Talvez eu tenha tido um excesso de segurança, um excesso de confiança nas minhas próprias escolhas.
Eragon ouviu o que ela dizia, mas as palavras não significavam nada para ele enquanto passava o olhar pelos cadáveres.
É só nisso que minha vida se tornou?, perguntou-se. Uma série interminável de batalhas?
— Sinto-me como um assassino.
— Compreendo como isso é difícil — disse Arya. — Lembre-se, Eragon, que você vivenciou somente uma pequena parte do que significa ser um Cavaleiro de Dragão. Com o tempo, esta guerra há de terminar, e você verá que seus deveres abrangem mais do que a violência. Os Cavaleiros não eram apenas guerreiros; eram mestres, curandeiros e estudiosos.
Os músculos do maxilar de Eragon se retesaram por um instante.
— Por que estamos combatendo esses homens, Arya?
— Porque eles estão entre nós e Galbatorix.
— Então deveríamos descobrir um meio de atingir Galbatorix diretamente.
— Não existe nenhum. Somente poderemos marchar contra Urû’baen quando tivermos derrotado suas forças. E somente conseguiremos entrar em seu castelo depois de termos desfeito as armadilhas, de natureza mágica ou não, que ele instalou ao longo de quase um século.
— Tem de haver um jeito — resmungou Eragon.
Ele permaneceu onde estava enquanto Arya avançou e apanhou do chão uma lança. Mas, quando tocou com a ponta da lança por baixo do queixo de um soldado morto e a fincou no seu crânio, Eragon deu um salto e a afastou do corpo.
— O que você está fazendo? — gritou ele.
Um lampejo de raiva passou pelo rosto de Arya.
— Vou lhe perdoar esse comportamento porque sei que você está transtornado e fora de si. Pense, Eragon! É tarde demais para você ser paparicado. Por que isso aqui é necessário?
A explicação se apresentou a ele, e ele respondeu de má vontade.
— Se não agirmos assim, o Império perceberá que a maioria dos homens morreu por ferimentos manuais.
— Exatamente! Os únicos capazes de um feito semelhante são os elfos, os Cavaleiros e os Kull. E, como até mesmo um imbecil poderia calcular que um Kull não foi responsável por isso, logo saberão que estamos próximos; e em menos de um dia, Thorn e Murtagh estarão lá em cima, procurando por nós. — Ouviu-se um ruído molhado quando Arya puxou a lança do corpo. Ela a estendeu para Eragon até ele aceitar a arma. — Considero tudo isso tão repugnante quanto você. Portanto, bem que você podia fazer alguma coisa de útil.
Eragon fez que sim. Arya então recuperou uma espada, e os dois juntos passaram a fazer o necessário para dar a impressão de que uma tropa de guerreiros comuns havia matado os soldados. Foi um trabalho horripilante, porém rápido, pois sabiam exatamente que tipos de ferimentos os soldados deveriam ter para garantir a ilusão, e nenhum dos dois queria se demorar por ali. Chegaram então ao homem cujo tórax Eragon tinha destruído.
— Não se pode fazer grande coisa para disfarçar uma lesão como essa — disse Arya. — Vamos ter de deixá-la como está e torcer para que as pessoas suponham que um cavalo tenha pisado nele.
Eles seguiram adiante. O último soldado com quem lidaram foi o comandante da patrulha. Seu bigode agora estava caído, desfeito e tinha perdido a maior parte da imponência anterior. Depois de aumentar o buraco da pedra de modo que se assemelhasse mais à marca triangular deixada pela unha de um martelo de combate, Eragon se deteve um momento, contemplando o bigode triste do comandante.
— Ele estava certo, você sabe?
— Certo sobre o quê?
— Preciso de uma arma, uma arma decente. Preciso de uma espada.
Limpando as palmas das mãos na bainha da túnica, ele observou a campina ao redor, contando os corpos.
— Só isso, não é? Terminamos. — Ele recolheu sua armadura espalhada, voltou a enrolar tudo em pano e a devolveu ao fundo da mochila. Depois, foi se juntar a Arya na pequena colina sobre a qual estava.
— De agora em diante, seria melhor evitarmos as estradas — disse ela. — Não podemos nos arriscar a outro confronto com os homens de Galbatorix. — Indicando a mão direita de Eragon, deformada, que manchava de sangue sua túnica, ela continuou: — Você deveria cuidar disso antes de prosseguirmos. — Ela não lhe deu tempo para responder, mas segurou seus dedos paralisados, dizendo, “Waíse heill”.
Um gemido involuntário escapou dele quando seus dedos voltaram com um estalido para a posição certa; os tendões raspados e a cartilagem esmagada recuperaram a forma perfeita; e as tiras de pele pendentes das juntas voltaram a cobrir a carne esfolada abaixo delas. Quando o encantamento terminou, ele abriu e fechou a mão para confirmar que estava plenamente curada.
— Obrigado — disse.
Ficou surpreso por Arya ter tomado a iniciativa quando ele era perfeitamente capaz de curar os próprios ferimentos. Arya pareceu embaraçada.
— Fico feliz porque você estava ao meu lado hoje, Eragon — disse ela, olhando para as campinas ao longe.
— E você ao meu.
Ela lançou-lhe um sorriso rápido, inseguro. Os dois permaneceram mais um minuto na colina, sem que nenhum deles tivesse vontade de retomar a viagem. Então, Arya deu um suspiro.
— Devíamos sair daqui. As sombras já se alongam, e outra pessoa pode aparecer para fazer o maior escândalo quando descobrir esse banquete para abutres.
Abandonando a colina, orientaram-se mais ou menos para o sudoeste, desviando-se da estrada, e seguiram a galope pelo ondulante mar de capim. Às suas costas, o primeiro devorador de carniça veio descendo do céu.

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